Terça-feira, 27 de setembro de 2011

São Vicente de Paulo, Presbítero, Memória, 2ª do Saltério (Livro III), cor Litúrgica Branca

 

Hoje: Dia da Caridade, dia do Encanador, dia Mundial do Turismo, dia Internacional do Idoso, dia Nacional do Surdo.

 

Santos: Vicente de Paulo (sacerdote, morto em 1660, fundador do Instituto dos Padres da Missão), Fidêncio, Florentino, Adérito, Florenciano, Bem-Aventurados Adolfo e João, Hiltrude (monja), Eleazário, Bem-Aventurada Delfina, Elzear de Sabran (confessor franciscano, ofs)

 

Antífona: Repousa sobre mim o Espírito do Senhor; ele me ungiu para levar a boa nova aos pobres e curar os corações contritos. (Lc 4, 18)

 

Oração: Ó Deus, que, para socorro dos pobres e formação do clero, enriquecestes o presbítero São Vicente de Paulo com as virtudes apostólicas, fazei-nos, animados pelo mesmo espírito, amar o que ele amou e praticar o que ensinou. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Leitura: Zacarias (Zc 8, 20-23)

Vamos orar na presença do senhor

 

20Isto diz o Senhor dos exércitos: “Virão ainda povos e habitantes de cidades grandes, 21dizendo os habitantes de uma para os de outra cidade: 'Vamos orar na presença do Senhor, vamos visitar o Senhor dos exércitos; eu irei também'. 22Virão muitos povos e nações fortes visitar o Senhor dos exércitos e orar na presença do Senhor". 23Isto diz o Senhor dos exércitos: "Naqueles dias, dez homens de todas as línguas faladas entre as nações vão segurar pelas bordas da roupa um homem de Judá, dizendo: 'Nós iremos convosco; porque ouvimos dizer que Deus está convosco"'. Palavra do Senhor!

 

Comentário

 

Virão muitos povos e nações fortes visitar o Senhor

 

Pode-se perguntar por que o universalismo de Zacarias se orientou para Jerusalém. Não podia o Senhor manifestar-se a outros povos, sem fazer de Jerusalém um caminho privilegiado? Jerusalém é um símbolo da presença de Deus. Jesus dirá à samaritana: "A salvação vem dos judeus", mas também: "Chegou o momento em que nem neste monte, nem em Jerusalém, adorareis o Pai... os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade" (Jo 4,21ss). Ao apóstolo Judas Tadeu, que lhe pergunta: "Por que te revelas a nós e não ao mundo?, Jesus dá uma resposta simples: "Se alguém me ama, meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele nossa morada" (Jo 14,23). Cada um já se torna templo de Deus, se aprendeu a "conhecê-lo" de verdade, se o "procura". Embora veladamente, Zacarias insinua que quem conhece a Deus deve fazê-lo conhecido aos demais. Nosso testemunho de fé deveria ser tal que pudéssemos ouvir: "Queremos ir convosco, porque compreendemos que Deus está convosco". [MISSAL COTIDIANO ©Paulus, 1997]

 

 

 

Salmo Responsorial: 86 (87), 1-3.4-5.6-7 (R/.Zc 8,23)

Nós temos ouvido que Deus está convosco

 

O Senhor ama a cidade que fundou no monte santo; ama as portas de Sião mais que as casas de Jacó. Dizem' coisas gloriosas da cidade do Senhor.

 

Lembro o Egito e Babilônia entre os meus veneradores. Na Filistéia ou em Tiro ou no país da Etiópia, este ou aquele ali nasceu. De Sião, porém, se diz: "Nasceu nela todo homem; Deus é sua segurança”.

 

Deus anota no seu livro, onde inscreve os povos todos: "Foi ali que estes nasceram". E por isso to­ dos juntos a cantar se alegrarão; e, dançando, exclamarão: "Estão em ti as nossas fontes!"

 

 

Evangelho: Lucas (Lc 9, 51-56)

Jesus indica o caminho para aqueles que querem segui-lo

 

51 Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém 52e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram num povoado de samaritanos, para preparar hospedagem para Jesus. 53Mas os samaritanos não o receberam, pois Jesus dava a impressão de que ia a Jerusalém. 54Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: "Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?" 55Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. 56E partiram para outro povoado. Palavra da Salvação!

 

 

 

Comentário o Evangelho

O fanatismo condenado

As divergências entre judeus e samaritanos eram bem conhecidas, no tempo de Jesus. Por razões históricas, eles se tinham na conta de inimigos, recusando-se a se reconciliar. Atravessar a Samaria, rumo a Jerusalém, era sempre perigoso. Podia-se contar, com certeza, com a hostilidade dos samaritanos.


Mesmo assim, Jesus tomou a decisão de atravessar a Samaria, rumo a Jerusalém. E, mais, seus discípulos entraram num povoado samaritano, pedindo hospedagem para o Mestre. A rejeição foi imediata. Os samaritanos recusaram-se a dar-lhes acolhida, pois souberam que estavam a caminho de Jerusalém.


Tiago e João, apelidados de "filhos do Trovão", desafogam seu fanatismo, pedindo que o Mestre destrua os inóspitos samaritanos, com fogo enviado do céu. A intolerância desses dois discípulos era sintoma de seus ideais messiânicos, feitos de gestos espetaculares, nos moldes dos antigos profetas. O profeta Elias, por exemplo, havia destruído com o fogo do céu os emissários do rei, enviados para prendê-lo. Coisa semelhante desejavam ver Tiago e João!


O pedido dos discípulos foi rechaçado por parte Jesus. Antes, eles foram severamente repreendidos, por sua dureza de coração. Seu fanatismo era fruto da incompreensão do projeto do Mestre. A rejeição dos samaritanos era insignificante diante da que ele haveria de padecer em Jerusalém.  [O EVANGELHO DO DIA. Jaldemir Vitório. ©Paulinas, 1998]

 

 

Oração da assembleia (Liturgia Diária)

Pelos que sofrem perseguição por causa da fidelidade ao evangelho, rezemos. Senhor, acolhei a nossa prece.

Pelos sofredores, para que sintam a proteção e o amor de Deus, rezemos.

Pelos que buscam “ser grandes” diante de Deus, servindo os mais necessitados, rezemos.

Pelos membros da “Família Vicentina”, para que sejam fiéis ao seu fundador, rezemos.

(outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Ó Deus, que destes a são Vicente de Paulo a força de conformar toda a sua vida aos mistérios que celebrava, fazei que nos tornemos também, por este sacrifício, uma oferenda agradável aos vossos olhos. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Demos graças ao Senhor por suas misericórdias, por suas maravilhas em favor dos homens: deu de beber aos que tinham sede, alimentou os que tinham fome. (Sl 106, 8-9)

 

Oração Depois da Comunhão:

Ó Deus, alimentados por esta eucaristia, nós vos pedimos que, a exemplo de são Vicente e amparados por sua proteção, imitemos o vosso Filho na pregação do evangelho aos pobres. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Para sua reflexão: Até então toda a atividade de Jesus se tinha desenvolvido na Galiléia, a  partir deste momento tudo vai se assinalar no tema do caminho que fisicamente o aproximará da Cidade Santa, e espiritualmente o fará amadurecer mais em seu processo  de assumir com radicalidade sua tarefa de Messias, de Enviando e Salvador. Humanamente falando, o caminho que começa aqui se poderia ver como o declive paulatino de Jesus. Pouco a pouco vai ficando mais sozinho, menos rodeado de multidões, até lhe negam a entrada em uma aldeia samaritana. Herodes procura-o para matá-lo e nos momentos definitivos de sua vida, até seus próprios discípulos, aqueles que havia escolhido para si, deixam-nos completamente sozinho e até o negam. Jesus havia decidido que sua tarefa messiânica seria realizada, não segundo os critérios do triunfalismo nem da espetacularidade, mas de acordo com o critério do serviço, da entrega, da renúncia, do aniquilamento, e isto implica a perseguição e a rejeição; não é que Jesus fosse um masoquista que buscava a dor e o sofrimento para si mesmos; a dor, o sofrimento, a morte violenta eram o resultado da atitude obstinada com que o povo da promessa recebia o anúncio de seu cumprimento.  (Bíblia Ave-Maria, Novo Testamento, Edição de Estudos)

 

São Vicente de Paulo

 

 

 

 

A França no século XVII se elevava à categoria de primeira potência na Europa, impulsionada por um ideal de grandeza nacional, mas devastada pelas guerras e revoluções internas. Apesar de ter sido o século de Luís XIV, o Reio Sol, foi de fato o século das grandes misérias: crianças abandonadas, prostituição, pobreza e ruínas ocasionadas por revoluções e guerras, além da ignorância religiosa das populações rurais e o estado lamentável de boa parte do clero.

 

Neste triste quadro da situação social e religiosa da França, Deus suscitou um grande apóstolo, um dos santos mais extraordinariamente fecundos na Igreja: São Vicente de Paulo.

 

Nasceu ele de família pobre, em 1581. O pai, observando com satisfação as excelentes qualidades de espírito do filho, fez os maiores sacrifícios para lhe favorecer os estudos eclesiásticos, como era desejo de Vicente.

 

Ordenado sacerdote, trabalhou como vigário numa pequena paróquia rural; ai viveu em contato com tantas misérias materiais e morais, que lhe abriram o espírito para sua futura vocação de apóstolo e organizador de grandiosas obras sociais.

 

Numa viagem entre Marselha e Narbone, Vicente caiu em poder dos piratas que o venderam como escravo em Túnis, na África. Com grande humildade, o santo aceitou esta provação e sujeitou-se aos pesados trabalhos que lhe impuseram. Pela força de sua bondade e oração, conseguiu converter do islamismo ao cristianismo seu próprio patrão que o colocou em liberdade. Dois anos durou seu cativeiro e voltou para sua pátria com ânimo novo para colocar-se à disposição das misérias humanas.

 

É difícil sintetizar em poucas linhas a múltipla operosidade de São Vicente. Destaquemos, porém, algumas de suas iniciativas de maior relevância: a evangelização dos colonos, a reforma do clero, as obras assistenciais, a luta contra o jansenismo.

 

Pastor sensível aos problemas pastorais, deu-se com empenho à pregação nos meios rurais, onde grassava lamentável a ignorância religiosa. Com um grupo de colaboradores, instituiu a Congregação da Missão ou dos Lazaristas. Estes padres eram obrigados a emitir o voto especial de se consagrarem à evangelização dos pobres. Contudo, além das missões populares, tornaram-se beneméritos por sua obra de direção dos seminários para formação do clero.

 

Com Santa Luisa de Marillac, Vicente enfrenta o problema da miséria, fundando a sociedade das Filhas da Caridade, conhecidas popularmente como Irmãs Vicentinas. Com esta instituição, a caridade tão múltipla de São Vicente se tornou organizada. A Congregação Vicentina dedica-se ao serviço dos abandonados, dos órfãos, dos velhos, dos inválidos, das moças em perigo, dos doentes. Talvez seja esta a instituição cristã dedicada à pura prática da caridade de maior extensão na geografia e no tempo. As 37 mil Irmãs de Caridade que trabalham hoje em leprosários, orfanatos, hospitais, manicômios, escolas, asilos, etc. continuam a presença de São Vicente até ao dia de hoje.

 

O livre acesso de São Vicente nos palácios dos grandes foi-lhe de imensa ajuda no seu apostolado. Ele sabia tirar do rico para dar aos pobres, não pela força mas pela persuasão.

 

Por fim, não se pode avaliar o empenho de São Vicente em opor um dique à triste corrente espiritual de seu século, o jansenismo, que com seu rigorismo e pessimismo resfriava a espiritualidade católica.

 

São Vicente morreu riquíssimo de méritos, no dia 27 de setembro de 1660. Seu nome continua vivo como padroeiro das obras de caridade no mundo inteiro. Foi canonizado pela Igreja, não como simples filantropo mas como um santo que levou a sério a mensagem cristã de que o amor a Deus e ao próximo andam de mãos dadas. [O SANTO DO DIA, Dom Servilio Conti, ©Vozes, 1997]

 

Onde há Deus, há futuro

Dom Murilo S.R. Krieger, Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Dias atrás, antes de deixar Roma para a terceira visita que faria a seu país natal – visita que termina hoje –, o Papa Bento XVI falou ao povo alemão pela televisão. Disse-lhe que o sentido de sua visita estava sintetizado no lema que nortearia seus encontros:  “Onde há Deus, há futuro”. Em outras palavras: é necessário que Deus volte ao horizonte da vida de todos, já que, embora tenhamos necessidade dele, muitos o ignoram. Mesmo os que não o ignoram, por vezes se perguntam: Será que Deus existe realmente? E se existe, se ocupa realmente de nós? Podemos atingi-lo?

 

Há os que dizem que só acreditariam em Deus se pudessem encontrá-lo, tocá-lo e tomá-lo nas mãos como se pode fazer com qualquer objeto. “Temos que desenvolver de novo a capacidade de percepção de Deus, capacidade que existe em nós. Podemos intuir algo da grandeza de Deus na grandeza do cosmos.” Sim, “na grande racionalidade do mundo podemos intuir o espírito criador do qual esse espírito provém; na beleza da criação podemos intuir alguma coisa da beleza, da grandeza e da bondade de Deus. Na Palavra das Sagradas Escrituras podemos ouvir palavras de vida eterna, que não vêm simplesmente de homens, mas do Senhor”, afirmou Bento XVI.

 

Há um outro tipo de experiência de Deus que poderemos fazer: no encontro com pessoas que foram transformadas por Ele. Pensemos, por exemplo, no apóstolo Paulo ou em Francisco de Assis, em Madre Teresa de Calcutá, em Irmã Dulce ou em Irmã Lindalva. Podemos pensar igualmente em pessoas simples, desconhecidas do povo em geral e ignoradas pelos meios de comunicação social. Quando as encontramos, sentimos que delas nasce uma força que nos emociona, uma bondade que toca nosso coração, uma alegria que nos contagia. Temos certeza de que nelas Deus está presente. “Por isso, nestes dias desejamos empenhar-nos para tornar a ver Deus, para fazer com que nós mesmos sejamos pessoas através das quais entre no mundo a luz de esperança - luz que vem de Deus e que nos ajuda a viver” (Bento XVI).

 

Poderíamos pensar que a questão do ateísmo não seja um problema nosso, brasileiro, ao menos a ponto de nos preocupar. Ledo engano. A Fundação Getúlio Vargas apresentou, semanas atrás, um mapa das religiões aqui no Brasil, destacando que cresceu entre nós o número de ateus: atualmente, são 6,7% da população. Não é uma cifra desprezível: tendo nosso pais 190 milhões de habitantes, o número de ateus deve girar, pois, em torno de treze milhões de pessoas.

 

Saramago, famoso escritor português, prêmio Nobel de Literatura, falecido há pouco mais de um ano, declarava-se ateu. Dada a sua fama, era frequentemente entrevistado sobre isso. Numa dessas entrevistas, observou que “ Bento XVI jamais viu Deus e nunca se sentou para tomar um café com ele”. Se tivesse me conhecido (e haveria razão para isso?...), o mesmo ele poderia ter dito de mim. Sou cristão desde o nascimento; trabalho na Igreja desde criança e também nunca vi Deus. No entanto, alegro-me em poder servi-lo. Não que ele precise de mim; eu é que me realizo colocando minha vida a serviço do Evangelho de Seu Filho.

 

Um Evangelho que nada tem em comum com aquele que o próprio Saramago escreveu, no começo da década de noventa. Identifico-me com a definição que o apóstolo e evangelista João apresentou de Deus, fruto de sua longa caminhada de fé: “Deus é amor”. Se Saramago ou qualquer pessoa me pedisse explicações sobre essa afirmação, me sentiria tentado a escrever um livro ou, então, a repetir o que Teresa de Calcutá disse a um repórter que lhe perguntou o que é rezar. Ela lhe disse: “É falar com Deus”. Quando o repórter lhe perguntou: “E o que Ele lhe diz, quando a senhora fala com Ele?” Ela lhe respondeu: “Ele não me fala; Ele me escuta. E se o senhor não for capaz de entender isso, nem eu serei capaz de lhe explicar”.

 

Também não saberei explicar quem é Deus. Sei, apenas, que não saberia viver sem Ele. Encontro-o na Igreja, na Bíblia, no próximo, na alegria e na dor. E, simplesmente, o amo. Sei que Ele me amou por primeiro. Como diria Santo Anselmo: “Eu creio para compreender”...

 

O eu devemos aprender com os antigos, é como fazer o novo (Bertold Brecht)