Sexta-feira, 25 de junho de 2010

Décima Segunda Semana do Tempo Comum, 4ª do Saltério (Livro III),  cor Litúrgica Verde

 

Santos: Próspero da Aquitânia, Luano, Domingos, Máximo (bispo de Turim), Adalberto (diácono discípulo de S. Vilibrordo, Holanda), Guilherme (criador da regra da congregação beneditina de Montevergine)

 

Antífona: O Senhor é a força de seu povo, fortaleza e salvação do seu ungido. Salvai, Senhor, vosso povo, abençoai vossa herança e governai para sempre os vossos servos. (Sl 27, 8-9)

 

Oração: Senhor, nosso Deus, dai-nos por toda a vida a graça de vos amar e temer, pois nunca cessais de conduzir os que firmais no vosso amor. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

Leitura: 2º Livro dos Reis (2Rs 25, 1-12)
Jerusalém fiou sitiada e rodeada de valas

 

1No nono ano do reinado de Sedecias, no dia dez do décimo mês, Nabucodonosor, rei da Babilônia, veio atacar Jerusalém com todo o seu exército. Puseram-lhe um cerco e construíram torres de assalto ao seu redor. 2A cidade ficou sitiada e rodeada de valas até o décimo primeiro ano do reinado de Sedecias. 3No dia nove do quarto mês, quando a fome se agravava na cidade e a população não tinha mais o que comer, 4abriram uma brecha na muralha da cidade. Então o rei fugiu de noite, com todos os guerreiros, pela porta entre os dois muros, perto do jardim real, se bem que os caldeus cercavam a cidade, e seguiram pela estrada que conduz à Araba. 5Mas o exército dos caldeus perseguiu o rei e alcançou o na planície de Jericó, enquanto todo o seu exército se dispersou e o abandonou. 6Os caldeus prenderam o rei e levaram-no a Rebla, à presença do rei da Babilônia, que pronunciou sentença contra ele. 7Matou os filhos de Sedecias, na sua presença, vazou-lhe os olhos e, preso com uma corrente de bronze, levou-o para a Babilônia. 8No dia sete do quinto mês, data que corresponde ao ano dezenove do reinado de Nabucodonosor, rei da Babilônia, Nabuzardã, comandante da guarda e oficial do rei da Babilônia, fez a sua entrada em Jerusalém. 9Ele incendiou o templo do Senhor e o palácio do rei e entregou às chamas todas as casas e os edifícios de Jerusalém. 10Todo o exército dos caldeus, que acompanhava o comandante da guarda, destruiu as muralhas que rodeavam Jerusalém. 11Nabuzardã, comandante da guarda, exilou o resto da população que tinha ficado na cidade, os desertores que se tinham passado ao rei da Babilônia e o resto do povo. 12E, dos pobres do país, o comandante da guarda deixou uma parte, como vinhateiros e agricultores. Palavra do Senhor!

 

Comentando a 1ª Leitura

Judá foi deportado para longe de seu país

 

“Quando os profetas foram postos em silêncio" poderia ser o titulo desta página trágica da história do povo de Deus. Jeremias, o profeta rejeitado. traça disso um quadro comovido (Jr 37ss). Pode isso prestar-se à nossa reflexão. Também entre nós existem profetas. Seria errada a reação a certas manifestações pseudoproféticas, contrastantes com o magistério da Igreja. se nos levasse a negar a presença de verdadeiros profetas em nossas comunidades cristãs. E se existem e "falam" (mais com a vida do que com as palavras) em nome de Deus, devemos perguntar-nos qual é a nossa reação. Em qualquer caso, talvez não tenhamos ainda dado sequer um primeiro passo honesto para reconhecê-los.

 

Na história do povo de Deus acontecem essas terríveis "lições ativas". Com uma evidência plástica, enquanto caem as pseudo-alianças, os truques da sabedoria humana, só permanece de pé a verdadeira aliança. O Amor; antes de tudo. [Missal Cotidiano, ©Paulus, 1997]

 

Salmo: 136(137), 1-2.3.4-5.6 (R/6a) 
Que se prenda a minha língua ao céu da

boca, se  de ti Jerusalém, eu me esquecer!

 

Junto aos rios da Babilônia nos sentávamos chorando, com saudades de Sião. Nos salgueiros por ali penduramos nossas harpas.

 

Pois foi lá que os opressores nos pediram nossos cânticos; nossos guardas exigiam alegria na tristeza: "Cantai hoje para nós algum canto de Sião!"

 

Como havemos de cantar os cantares do Senhor numa terra estrangeira? Se de ti, Jerusalém, algum dia eu me esquecer, que resseque a minha mão!

 

Que se cole a minha língua e se prenda ao céu da boca, se de ti não me lembrar! Se não for Jerusalém minha grande alegria!

 

Evangelho: Mateus (Mt 8, 1-4)
 Se queres, tu tens o poder de me purificar

 

1Tendo Jesus descido do monte, numerosas multidões o seguiam. 2Eis que um leproso se aproximou e se ajoelhou diante dele, dizendo: "Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar". 3Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: "Eu quero, fica limpo". No mesmo instante, o homem ficou curado da lepra. 4Então Jesus lhe disse: "Olha, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote, e faze a oferta que Moisés ordenou, para servir de testemunho para eles". Palavra da salvação!

 

Leituras paralelas sobre curas: Mc 1, 40-45; Lc 5, 12-16;7,2-10; Jo 4, 43-54; Mc 1, 29-34; Lc 4, 38-41

 

 

 

Comentando o Evangelho

Seja purificado

 

A cena do encontro de Jesus com um leproso, e sua cura, é carregada de sentido. O milagre acontece no âmbito de relações interpessoais. De um lado, está Jesus, cujo poder taumatúrgico é muito conhecido, bem como sua disposição a colocar-se a serviço dos oprimidos de todos os tipos. De outro, encontra-se um indivíduo estigmatizado por causa de uma doença, que afastava de si as pessoas e o obrigava a viver segregado de qualquer contato social. Havia algo ainda mais grave: a lepra excluía-o da comunidade religiosa, portanto, de Deus.


O milagre de Jesus consistirá em refazer a rede de relações da qual o leproso fora afastado.


O segundo é o âmbito da vontade livre. Aí, Jesus age de maneira bem simples: nada de gestos mágicos nem de cerimônias. O leproso recorre a ele, com toda a liberdade e confiança: “Senhor, se tu queres, tens o poder de purificar-me”. E Jesus o cura com um ato de sua vontade: “Eu quero, fique purificado”. A doença do leproso não o compele a buscar a cura, independentemente de sua vontade.


O terceiro é o âmbito da fé. Se o homem recorreu a Jesus, foi porque reconhecia seu poder. Sem este pressuposto, não seria movido a desrespeitar uma convenção social, e a aproximar-se do Mestre. [Evangelho Nosso de Cada Dia, Pe. Jaldemir Vitório, ©Paulinas, 1997]

 

Para sua reflexão: A lepra, neste caso advém da tradução grega, que denota uma doença de pele de gravidade variada, que contagia por contato e pode excluir a pessoa do culto. A lepra era considerada castigo divino, sinal de pecado que excluía a pessoa da comunidade. Jesus cura, limpa, restitui à vida da comunidade, abolindo a fronteira entre o puro e impuro e dava um sinal da sua missão: veio para salvar a humanidade. Na leitura de hoje é interessante o diálogo: “se queres, podes”. Jesus quer, pois para isso tem o poder. O poder messiânico de Jesus já em ação resulta na vitória do Espírito sobre Satanás e as forças do mal. Se você for acometido de uma das lepras contemporâneas (drogas, vícios destrutivos, mentira, egoísmo, etc) e com muita fé lembre-se de Mt 8,2b: “Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”, com muita fé se libertará. Tudo depende de você. Algumas leituras associada à lepra na Bíblia: Lv 13-14; Ex 4, 6-7; Lv 13, 1-59; 2Rs 7, Nm 12, 2Cr 26, 16-21.

 

São Próspero

 

 

São Próspero nasceu na Anquitânia, França, no século IV. Filósofo e poeta, foi contemporâneo de Santo Agostinho. Pelo poema De um esposo à esposa, julga-se que fosse casado, pois dirige-se à mulher nestes termos: Se o orgulho me elevar, corrija-me! Seja a minha consolação nos sofrimentos. Demos ambos exemplos de uma vida santa e verdadeiramente cristã. Cumpra comigo os deveres que estou obrigado a cumprir com você. Levante-me, se por ventura eu cair. Esforce-se por se levantar, quando eu corrigi-la ... Não nos contentemos com ser um só corpo, sejamos também uma só alma" (apud José Leite S. J., op. cit., Vol. II, p. 237).  Em 426 tomou parte ativa na luta contra os erros doutrinais divulgados por Pelágio, que negava a necessidade da graça divina e o pecado original. Daí a origem de sua obra Carmen de ingratis. Por sua vez, Santo Agostinho, instado por ele, escreveu Da predestinação dos santos e Dom da perseverança. Por volta de 435, São Próspero transferiu-se para Roma e escreveu Enarrationes, um comentário sobre os Salmos; escreveu também sobre Santo Agostinho, seu mestre, apresentando o seu pensamento e corrigindo certos exageros do bispo de Hipona. Faleceu por volta do ano 455. [OS SANTOS DE CADA DIA, José Benedito Alves, ©Paulinas, 1998]

 

O encontro de São Francisco com o leproso

 

A tradição das Fontes Franciscanas coloca como marco da conversão definitiva de Francisco de Assis o seu encontro com o leproso. Velho e conhecido tema! Novo e sempre desafiador e fascinante tema! Que encontro foi este? Foi apenas ver, conhecer, cumprimentar, abraçar, beijar? Mera curiosidade? Afinal de contas quem não quer dar uma olhadinha na tragédia alheia? O certo é que Francisco foi onde ninguém do seu tempo queria ir, misturar-se com a miséria, com a pobreza, com a contaminação, com a doença, com o fétido, com o horrível.

 

Foi e permaneceu ali como uma verdadeira iniciação: encontrar-se verdadeiramente com alguém é aproximar-se da sua realidade por mais terrível que ela seja. Econtrar-se é fazer vibrar o coração, é perceber o que se passa na intimidade do outro e da outra. O encontro de Francisco com o leproso mais do que um momento é uma atitude que vai envolvendo toda a vida. E isto tudo começa quando ele percebe-se infeliz e não satisfeito com o seu status: rico, empreendedor emergente, comerciante próspero, filho de Pedro Bernardone, líder da juventude em Assis, boêmio, generoso, folgazão, pródigo e vivaz. Tem tudo para dar certo e ser uma pessoa de sucesso, mas ele descobre que ser uma pessoa realizada é muito mais importante que ser uma pessoa de sucesso. O sucesso é efêmero, a realização é para sempre!

 

Para encontrar-se com a necessidade do outro e da outra é preciso mudar de lugar. A conversão de Francisco é mudar de lugar! Ele dá um salto, sai da sua situação e mergulha na proposta do Evangelho: o Reino de Deus é a ética do cuidado! Por isso vai para as ruínas, sai fora dos limites da cidade, aproxima-se dos excluídos, vai viver com eles. Quando a sociedade exclui a pessoa, ela apodrece o humano. A pior lepra que existe é ser colocado à margem de tudo. A pior doença que existe é tirar da pessoa a possibilidade de conviver. Abraçar o que perdeu a chance de estar onde todos devem estar é que causa impacto. Conversão é deixar-se impactar. O leproso abala as estruturas todas de Francisco e afina seus sentidos para cuidar do humano. Aprendeu com a fala da Cruz que reconstruir significa colocar novamente a humanidade em pé. Como um enfermeiro ousado, como um terapeuta engajado, como um assistente social comprometido, como um evangelizador inserido ele vai lá consertar o indivíduo para consertar a humanidade toda, melhorar o leprosário para tornar o mundo todo mais sadio de amor, ternura e afeto. Usou um único remédio que conhecia: a fraternidade.

 

As Fontes Franciscanas falam do beijo. Beijar é passar o sopro de vida, o hálito que alenta, o toque que refaz. Mas quem beijou quem? Deixar-se beijar é mais que beijar. Francisco recebe o toque de quem tem o último sopro de vida e esperança, um último fio de confiança. A confiança perdida é o paraíso perdido.

 

"E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles" (Testamento, 2). Francisco não disse: "eu tive dó deles!", "que judiação!", "que pena!", mas disse: "eu tive misericórdia com eles". Ter misericórdia "com"! Ir junto do sofrimento, misturar-se com a paixão dos que padecem a falta de cuidado. Quem vai lá, pouco a pouco traz de volta ao paraíso, reconduz o humano ao seu melhor lugar. É preciso ir com o coração nas mãos e nas palavras. É muito diferente ser tocado por alguém que tem o coração nas mãos. Foi assim que o leproso beijou Francisco. [Frei Vitório Mazzuco Filho, OFM, franciscanos.org.br]

 

 

A diversão de Deus é fazer-nos bem. É tornar-nos cada dia mais ricos de

seus dons, se o deixarmos agir em nós. (Milton Paulo de Lacerda)