Sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quinta Semana do Tempo Comum, Ano Ímpar, 1ª Semana do Saltério, Livro III, cor Verde

 

Hoje: Dia Mundial do Enfermo, Dia do Zelador

 

Santos: Adolfo de Osnabrück (monge, bispo), Ardano de Tournus (abade), Bento de Aniane (abade, eremita), Calógero de Ravena (bispo), Castrense de Cápua (bispo), Gregório II (papa), Jonas de Demeskenyanos (eremita), Lázaro de Milão (bispo), Lúcio (bispo de Adrianópolis) e Companheiros (mártires), Pascoal I (papa), Saturnino, Dativo, Félix, Ampélio e Companheiros (mártires),Severino de Agaunum (abade), Teodora (imperatriz), Isabel Salviati (monja camaldulense, bem-aventurada), Heloísa de Coulombs (virgem, bem-aventurada).

 

Antífona: Entrai, inclinai-vos e prostrai-vos: adoremos o Senhor que nos criou, pois ele é o nosso Deus (Sl 94,6-7)

 

Oração: Velai, ó Deus, sobre a vossa família com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

Leitura: Gênesis (Gn 3, 1-8)

Vos sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal

 

1A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: “É verdade que Deus vos disse: 'Não comereis de nenhuma das árvores do jardim?"' 2E a mulher respondeu à serpente: "Do fruto das árvores do jardim, nós podemos comer. 3Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus nos disse: 'Não comais dele nem sequer o toqueis, do contrário, morrereis"'. 4A serpente disse à mulher: "Não, vós não morrereis. 5Mas Deus sabe que no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal".

 

6A mulher viu que seria bom comer da árvore, pois era atraente para os olhos e desejável para obter conhecimento. E colheu um fruto, comeu e deu também ao marido, que estava com ela, e ele comeu. 7Então, os olhos dos dois se abriram; e, vendo que estavam nus, teceram tangas para si com folhas de figueira. 8Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava pelo jardim à brisa da tarde, Adão e sua mulher esconderam-se do Senhor Deus no meio das árvores do jardim. Palavra do Senhor!

 

Comentando a I Leitura

O Senhor Deus formou a mulher e conduziu-a a Adão

 

O amor humano entre marido e mulher, valor to sublime e grande, tem-se tornado frequentemente instrumento de dominação e causa de ódio e divisão. Mas “no princípio não era assim”: Não é esta a intenção de Deus. O homem deve contestar a realidade presente, e construir uma nova conforme o desígnio de Deus. Diz o Vaticano II: “Justamente porque ato eminentemente humano, realizando-se diretamente de pessoa para pessoa com um sentimento que nasce da vontade, o amor entre marido e mulher abrange o bem de toda a pessoa e, por isso, tem a possibilidade de enriquecer com particular dignidade os sentimentos do espírito e suas manifestações físicas, e de nobilitá-las como elementos e sinais especais da amizade conjugal. O Senhor mesmo corrigiu e elevou este amor com um dom especial de graça a caridade”. [Extraído do COMENTÁRIO BÍBLICO, Vol. III, p-297, ©Edições Loyola, 1997]

 

Salmo: 31 (32), 1-2.5.6.7 (R/.1a)

Feliz aquele cuja falta é perdoada!

 

Feliz o homem que foi perdoado e cuja falta já foi encoberta! Feliz o homem a quem o Senhor não olha mais como sendo culpado, e em cuja alma não há falsidade!

 

Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta vos fiz conhecer. Disse: "Eu irei confessar meu pecado!" E perdoastes, Senhor, minha falta.

 

Todo fiel pode, assim, invocar-vos, durante o tempo da angústia e aflição, porque, ainda que irrompam as águas, não poderão atingi-lo jamais.

 

Sois para mim proteção e refúgio; na minha angústia me haveis de salvar, e envolvereis a minha alma no gozo da salvação que me vem só de vós.  

 

Evangelho: Marcos (Mc 7, 31-37)

Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar

 

Naquele tempo, 31Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando a região da Decápole. 32Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. 33Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. 34Olhando para o céu, suspirou e disse: "Efatá!", que quer dizer: "Abre-te!" 35Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. 36Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam. 37Muito impressionados, diziam: "Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar".  Palavra da Salvação!

 

Leituras paralelas: Mt 9, 32-34; Lc 11,14-23

 

Comentário do Evangelho

Ele fez tudo bem

 

Jesus "fazia bem todas as coisas". Isto revela o empenho que colocava no exercício de sua missão. Ele não fazia as coisas pela metade, não concedia benefícios parcelados e condicionados, nem se contentava com ações malfeitas. Pelo contrário, seus gestos poderosos traziam a marca da plenitude.

 

No caso do surdo-mudo, a plenitude do gesto de Jesus deve ser entendida para além da cura física. O fato de abrir-lhe os ouvidos, possibilitando-lhe ouvir perfeitamente, e da libertação da mudez, de modo a poder falar sem dificuldade, já é, por si, formidável. Contudo, isto ainda seria insuficiente para que a ação de Jesus fosse declarada bem feita. Era necessário possibilitar ao surdo-mudo um "abrir-se" ainda mais radical: desfazer-lhe as outras prisões, e num nível tal de profundidade, de forma a colocá-lo em plena sintonia com Deus e com os seus semelhantes.

 

Sem esta passagem da cura física à cura espiritual, a primeira não teria muita importância. Vale a pena alguém ser curado da surdez e da mudez para levar uma vida egoísta, sem solidarizar-se com os necessitados? Tem sentido ser privilegiado com um gesto de misericórdia de Jesus, e recusar-se a ser misericordioso com o próximo?

 

Só uma cura radical possibilitaria àquele homem ser misericordioso com os demais. E era isto que interessava a Jesus. [O EVANGELHO DO DIA, Ano “A”. Jaldemir Vitório. ©Paulinas, 1997]

 

Liturgia Diária (Paulinas e Paulus)

-Tornai, Senhor, vossa Igreja, a exemplo de Jesus, cuidadora dos doentes e abandonados. Ouvi-nos, Senhor.

-Ajudai-nos a trilhar sempre os caminhos que nos conduzem à prática do bem.

-Orientai para o bom caminho todos os que se perderam nas tentações do mundo.

-Fazei que nossos conhecimentos sejam utilizados em favor da justiça e da paz.

-Suscitai pessoas dispostas a ser continuadoras da obra do vosso Filho.

(preces espontâneas)

 

Oração sobre as Oferendas:

Senhor nosso Deus, que criastes o pão e o vinho para alimento da nossa fraqueza, concedei que se tornem para nós sacramento da vida eterna. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Demos graças ao Senhor por sua bondade, por suas maravilhas em favor dos homens; deu de beber aos que tinham sede, alimentou os que tinham fome. (Sl 106,8-9)

 

Oração Depois da Comunhão:

Ó Deus, vós quisestes que participássemos do mesmo pão e do mesmo cálice; fazei-nos viver de tal modo unidos em Cristo, que tenhamos a alegria de produzir muitos frutos para a salvação do mundo. Por Cristo, nosso Senhor!

 

Santo Castrense

Castrense viveu no século V, era cristão e bispo de Cartagine, atual Tunísia, África. Durante a invasão dos Vândalos, comandados pelo rei Genserico, ele foi lançado ao mar, junto com outros sacerdotes e fiéis, dentro de um velho navio desprovido de velas, remos e leme. Com certeza, o intuito era que morressem afogados, mas milagrosamente ele sobreviveu, desembarcando na costa italiana, próxima a Nápolis. Pelos registros, ele retomou sua missão apostólica e logo se tornou bispo de Castel Volturno. Depois, de acordo com o antiquíssimo "Calendário Marmóreo" de Nápolis, ele também foi eleito bispo de Sessa, aceitando a difícil tarefa de conduzir os dois rebanhos, os quais guiou com amor e zelo paternal. Castrense era humilde e carismático, penitente e caridoso, durante a sua vida patrocinou dois episódios prodigiosos, registrados nos arquivos da Igreja: libertou um homem possesso pelo demônio e salvou um navio cheio de passageiros de uma grande tempestade. Assim, a fama de santidade já o acompanhava, quando morreu como mártir de Jesus Cristo, em 11 de fevereiro de 450, em Sessa, Nápolis. Logo passou a ser venerado pela população em toda Campânia e em muitas outras cidades, inclusive na África. As relíquias do Santo, foram transferidas, antes do século XII, de Sessa para Cápua e depois por determinação de Guilherme II o Bom, último rei normando da Sicília, foram enviadas para Monreale. Em 1637, foram transladadas para a Capela anexa à Catedral de Monreale, em uma urna de prata com uma placa onde se pode ler "São Castrense, eterno baluarte da cidade de Monreale". As mais recentes informações sobre este Santo de origem africana, datam de 1881, e foram encontradas durante as escavações arqueológicas na gruta de Calvi, próximas de Monreale. São pinturas do século VII que retratam o bispo Castrense, nas duas dioceses e ao lado de outros mártires da mesma época e região. Mas ainda hoje encontramos o efeito da sua presença na Catânia, seja na pequena região que leva o nome de São Castrense, seja nas diversas igrejas e no convento feminino beneditino erguido ao lado da Catedral, sendo tudo dedicado à sua memória. Inclusive nas manifestações de sua devoção quando da comemoração de sua passagem no dia 11 de fevereiro. Data oficializada pela Igreja, quando reconheceu o seu martírio e declarou o bispo Castrense, Santo e padroeiro da cidade de Monreale. Neste dia a sua estátua segue em procissão da Catedral de Monreale, indo para a de Sessa e retornando após o culto litúrgico. Dizem os devotos que durante este trajeto muito graças são alcançadas por sua intercessão. [www.paulinas.org.br]

 

 

Junto aos que sofrem

 

 

Dom Bruno Gamberini, Arcebispo Metropolitano de Campinas

 

Prezados irmãos e irmãs,

 

Celebramos na próxima sexta-feira, dia 11 de fevereiro, na festa de Nossa Senhora de Lourdes, o Dia Mundial do Enfermo. A celebração anual desta data significativa foi instituída pelo saudoso Papa João Paulo II no dia 13 de maio de 1992 e celebrada pela primeira vez no ano de 1993. Portanto, celebramos, neste ano de 2011, o 19º Dia Mundial do Enfermo.

 

Na Carta de Instituição, o Papa João Paulo II dizia que os objetivos eram os de “sensibilizar o Povo de Deus e as instituições de saúde católicas e da sociedade civil da necessidade de assegurar a melhor assistência possível aos enfermos; ajuda-los a valorizar o sofrimento, ao nível humano e, especialmente, no sobrenatural; fazer com que as dioceses, comunidades cristãs e as famílias religiosas se comprometam com a pastoral da saúde; favorecer o compromisso cada vez mais valioso do voluntariado; recordar a importância da formação espiritual e moral dos agentes; e, por último, fazer com que os sacerdotes, assim como os que vivem e trabalham junto aos que sofrem, compreendam melhor a importância da assistência religiosa aos enfermos”.

 

É importante que recordemos estas palavras do Papa para que o nosso trabalho junto aos enfermos seja sempre animado pela motivação primeira de representar o próprio Jesus Cristo que se faz presença ao lado dos que mais estão necessitando de conforto humano e espiritual. E não apenas os enfermos, mas ao lado dos familiares e amigos, que também sofrem neste momento de dor, e dos profissionais da saúde, chamados a ser os bons samaritanos que se compadecem da dor alheia.

 

Tanto os agentes da pastoral quanto os profissionais da saúde devem estar atentos a este chamado do Papa: a necessidade de assegurar a melhor assistência possível aos enfermos. É desesperador para um pai e uma mãe chegarem a um Pronto Socorro com um filho doente e ficarem horas esperando por um atendimento. É desesperador ser tratado como lixo em um momento de sofrimento, principalmente por aqueles a quem se está pedindo socorro. É desesperador ser abandonado em corredores, jogados em macas ou mesmo no chão, à espera de uma mão que alivie a dor. É desesperador não ter condições tecnológicas, materiais, humanas e psicológicas para desenvolver com tranquilidade o serviço aos doentes. É desesperador assistir autoridades desviarem fábulas de dinheiro em ações corruptas ou em investimentos fraudulentos enquanto milhões sofrem as consequências de terem usurpados os seus direitos básicos à vida. É desesperador ver o investimento que se faz, por exemplo, no futebol e nos estipêndios dos políticos e compará-los com o salário dos médicos, enfermeiros, atendentes, etc. É desesperador não ter a menor ideia de onde são investidos os nossos impostos, que deveriam ser a segurança de uma vida digna para todos. O dinheiro não compra a vida eterna. Pode, quanto muito, prorrogar um pouco mais a vida terrena e poderia fazer muito bem às pessoas se fosse bem utilizado.

 

O Objetivo Geral da Igreja de Campinas e do Brasil, que ilumina a nossa ação pastoral, é claro. Somos chamados a Evangelizar, a partir do encontro com Jesus Cristo, como discípulos missionários, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, promovendo a dignidade da pessoa... Se esta dignidade está sendo ultrajada, somos chamados a dar o nosso grito de alerta.

 

Queridos irmãos enfermos, familiares, agentes e profissionais da saúde. O Papa Bento XVI, em sua mensagem deste ano, nos diz que o sofrimento de Jesus Cristo é para nós um convite “a meditar sobre Aquele que carregou sobre si a paixão do homem de todos os tempos e lugares, inclusive os nossos sofrimentos, as nossas dificuldades e os nossos pecados”.

 

Coragem e esperança. Lembrem-se sempre que o Senhor está no meio de nós. Ele sofreu nossas dores na cruz mas está ressuscitado e vivo em cada cristão. [CNBB]

 

 

A Igreja Católica e o Dia Mundial de Orações Pelos Enfermos

D. Antonio Duarte (CNBB)

 

O Dia Mundial de orações pelos enfermos merece uma moldura especial e nada mais próprio para essa celebração do que as palavras de duas figuras eminentes da nossa Igreja .

 

Quem ama verdadeiramente o próximo deve fazer-lhe bem ao corpo tanto como à alma, e isso não consiste apenas em acompanhar os outros ao médico, mas também em cuidar de que não lhes falte alimentação, bebida, roupa, moradia, e em proteger-lhes o corpo contra tudo que possa prejudicá-lo... São misericordiosos os que usam de delicadeza e humanidade quando proporcionam aos outros o necessário para resistirem aos males e às dores. (cf. Santo Agostinho, Sobre os costumes da Igreja Católica, 1, 28,56).

 

A doença não só é útil aos outros, como também lhes presta um serviço insubstituível. No Corpo de Cristo (...) o sofrimento impregnado do espírito de sacrifício de Cristo é o mediador insubstituível e o autor dos bens indispensáveis à salvação do mundo. Mais do que qualquer outra coisa, é o sofrimento que abre o caminho à graça que transforma as almas humanas.

 

Mais do que qualquer outra coisa, é ele que torna presentes na história da humanidade as forças da Redenção. (cf. João Paulo II, Carta Apostólica Salvificis doloris, 11-II-1984, 27).

 

Creio que com estas duas citações pode-se emoldurar ricamente esta comemoração. Nelas encontramos as principais linhas de ação da Igreja no campo da saúde e da pastoral com os enfermos.

 

Como afirma o Santo Bispo de Hipona existe uma linha prioritária que nunca a Igreja abandonou ao longo desses vinte e um séculos da sua história: a da misericórdia.

 

Tenho misericórdia dessa multidão. (Mc. 8,2; Mt. 15,32).

 

Aquela multidão O acompanha apenas há três dias. Há no coração humano de Jesus Cristo uma linha diretriz dos seus sentimentos e até mesmo dos seus sentidos corporais, que é, precisamente, a misericórdia, a compaixão, o pesar que despertava nEle a dor, o mal presente na vida do outro. Em Cristo o que nunca se encontrou nunca se encontrará, mesmo se se buscar com muitíssima atenção era uma metodologia ou uma técnica de aproximação, de comunicação.

 

Por quê Santo Agostinho destaca esta linha da misericórdia e até menciona os seus elementos constitutivos? Pelo conteúdo da citação feita pode-se intuir que na sua época como na atual existia o risco de um atendimento aos enfermos pautado apenas por uns costumes bons: acompanhar ao médico, cuidar da alimentação, da roupa, da bebida, da moradia. Costumes necessários, mas não característicos dos costumes profundos da Igreja Católica: fazer-lhes bem ao corpo tanto como à alma... São misericordiosos os que usam de delicadeza e de humanidade....

 

A visão integral da pessoa enferma e o modo de se viver a misericórdia, a compaixão, existentes no Coração de Cristo exige dos cristãos qualidades humanas que realmente sejam refletoras de uma interioridade semelhante à de Cristo!

Na verdade, o que interessa para o Corpo Místico de Cristo são homens e mulheres realmente identificados com Jesus Cristo, senão o risco de restringir-se só aos bons costumes e das técnicas pastorais bem aplicadas não é tão remoto assim.

 

Ainda que seja óbvio dizer, quando um homem e uma mulher ficam doentes, seguem sendo pessoas. O ingresso num centro médico não lhes converte num simples número de uma história clínica ou num simples objetivo pastoral de um ministério eclesiástico ou eclesial.

 

Pela enfermidade que se padece não se perde a sua identidade pessoal, nem se deixa de ser alguém para se converter em algo. Toda a pessoa fica afetada pela doença que tem. Daí que a atenção ao enfermo dado pela Igreja compreende as diversas dimensões humanas: biológica, psicológica, cultural, espiritual e religiosa (médicos e enfermeiras católicos).

 

O enfermo deve ser ajudado a reencontrar não só o bem-estar físico, mas também o psicológico e moral. Isto supõe que o médico, junto à competência profissional, tenha uma postura de amorosa solicitude, inspirada na imagem evangélica do bom samaritano. O médico católico está chamado, perto de cada pessoa que sofre, a ser testemunha daqueles valores superiores que têm, na sua fé, o seu fundamento solidíssimo. (cf. Alocução, 7-VII-200 João Paulo II).

 

Seja num hospital público, seja numa clínica particular é muito raro atualmente ter um conhecimento integral da pessoa doente, uma vez que o enfermo é reconhecido por muita gente e não é conhecida por nenhuma gente.

 

A perspectiva da Igreja Católica da totalidade do ser humano, é procurar realmente o serviço da pessoa, da sua dignidade, daquilo que ela possui de mais transcendente e único: a sua santificação pessoal e a sua missão dentro da Igreja e do mundo.

 

A identificação com Cristo introduz duas atitudes bem características de um católico com os doentes: um respeito absoluto que merece todo enfermo e uma relação de diálogo sincero e caridoso.

 

Só assim é que a pessoa doente deixa de ser um anônimo sobre o qual se aplicam técnicas médicas e/ou pastorais, e passa a ser uma pessoa responsável dentro da sua doença e coparticipante da sua melhora como pessoa enquanto está enfermo, isto é, deve ser levada às condições de poder escolher, de poder decidir pessoalmente sobre o seu projeto de vida, que não se anula enquanto sofre, e não ser simples espectador e paciente de decisões e escolhas que outros tomaram por ele.

 

Para concluir o raciocínio iniciado com as palavras de Santo Agostinho deve-se afirmar que a Igreja Católica defendeu sempre, e não mudará nessa sua atitude, que as pessoas enfermas são sujeitos livres na sua doença ao invés de serem apenas objeto de tratamentos ou de ministérios.

 

A relação médico-paciente e a relação ministro enfermo devem converter-se num autêntico encontro de homens livres, onde existe uma confiança mútua e uma consciência. A delicadeza e a humanidade, o reconhecimento da pessoa como um ser humano merecedor de amor, de compreensão e de compaixão, devem ser complementados por uma causa superior às suas vidas limitadas.

 

Nesta altura convém penetrar no profundo sentido presente na citação da Carta Apostólica Salvificis doloris, n. 27 quando o Papa João Paulo II introduz esta causa ou ideal superior, que é a busca da transformação do sofrimento humano no espírito de sacrifício de Cristo.

 

Esta transformação parece difícil de realizar-se no mundo moderno porque este sofre de uma doença crônica, que se iniciou sob a capa da autonomia da razão humana e que se agravou com a emancipação e exaltação da liberdade humana. Os sinais e sintomas dessa enfermidade são cada vez mais evidentes para quem tem um bom olhar clínico: a desacralização do que é absoluto e a sacralização do que é relativo. Bento XVI antes de sua eleição denunciou a ditadura do relativismo com a conseqüente eclipse e esquecimento de Deus.

 

No campo das enfermidades isto se vê nitidamente: a vida humana e tudo que se relaciona com este dom divino (paternidade, maternidade, concepção, nascimento, morte, dor, deficiência,...) estão sendo catalogados como valores relativos até atingir o nível de descartável.

 

Recentemente num discurso à Cúria Romana (22-XII-2006) o Santo Padre Bento XVI fazia uma avaliação sintética de suas viagens apostólicas em 2006 e apontava os principais males que afligem o mundo e, sobretudo, a alma das pessoas que nele vivem. Num momento dessa sua análise fala da insegurança do homem de hoje a respeito do futuro: É admissível encaminhar alguém nesse futuro incerto? Definitivamente, ser homem é uma coisa boa?, e noutro trecho do seu discurso aponta a razão dessa insegurança: O grande problema do Ocidente é o esquecimento de Deus. É um esquecimento que se difunde. Todos os problemas particulares podem, em última instância, ser atribuídos a essa questão. (...) No excesso das coisas externas falta o núcleo que dá sentido a tudo e o reconduz à unidade. Falta até o fundamento da vida, a terra sobre a qual tudo isso pode estar e prosperar.

 

O sofrimento sem Deus, sem a contemplação de Cristo e de Cristo Crucificado, é o que amargura e enfraquece aqueles doentes que se tem diante dos olhos nos lares, nos hospitais, nas casas de repouso, etc... Os doentes, físicos e psíquicos, têm as suas etapas psicológicas e espirituais desenvolvendo-se, paralelamente, aos agentes ou causas das suas patologias e nem sempre é fácil reconhecê-las quando deles não se aproximam com o coração cheio de misericórdia e zelo ministerial.

 

Porém, acima desse reconhecimento, deve existir na Igreja Católica pessoas que se guiam por um convencimento inabalável. A pessoa humana é capax Dei, isto é, está ordenada por Deus e chamada, com a sua alma e o seu corpo, à bem-aventurança eterna (Catecismo da Igreja Católica, 358). Cada pessoa, mesmo no seu sofrimento, é capaz de encontrar-se com o Cristo do Tabor quando está com o Cristo do Calvário.

 

Isto é o que pretendia dizer-nos o saudoso Papa João Paulo II na sua Carta Salvifiis doloris, n. 27 o espírito de sacrifício de Cristo tem o seu porquê, o seu sentido redentor, transformador, santificador, e é com este espírito que a Igreja pretende abrir o espírito, a alma dos enfermos que serve com o seu ministério.

 

A dor transforma as almas humanas, confere-lhe a força da Redenção, quando um católico sabe conduzir os enfermos pelos caminhos da sua santificação e da sua missão eclesial e social. Para enfrentar-se e transformar-se com as doenças é preciso procurar, através delas, alguma coisa que não se identifique com o sofrimento, ou seja, algo que as transcenda: a causa pela qual se sofre. O sentido pleno do sofrimento do doente é o sacrifício, o sacrum facere, o surgimento do sagrado, do permanente, do absoluto, no meio do relativo, o transitório, que pretende estabelecer-se através dessa ditadura do relativismo.

 

O motivo e a finalidade redentores devem ser dados por qualquer batizado que sente-se responsável por lembrar Deus num mundo secularizado e desacralizado.

 

Talvez seja este o sentido último daquelas palavras de Dostoievsky: Temo apenas uma coisa: não ser digno da minha dor. Esta é uma grande verdade que nos faz pensar em Deus: só o sacrifício de Cristo, ao qual se unem, livremente, as dores e sofrimentos humanos, é capaz de revelar a altura, a largura, a profundidade, a grandeza de uma vida interior pessoal.

 

Se a vida tem uma dimensão e um sentido sagrado, também a dor e o sofrimento de um enfermo necessariamente o tem. O modo como uma pessoa relaciona-se com a sua doença, considerando-a como um sacrifício agradável a Deus, - tome a sua cruz de cada dia e siga-me, disse Jesus Cristo ao jovem rico abre-lhe todo um mundo de possibilidades de transformar a vida em algo de valioso e compreensível.

 

A doença, portanto, é dada ao ser humano como um trabalho de Deus e cada enfermo se bem orientado encontra-se com a responsabilidade do que fazer com tal labor. Se ele não é livre para escolher a doença, é totalmente livre para escolher qual será a sua atitude diante dela.

 

Aconteceu no dia 11 de fevereiro:

1917: Morte do médico sanitarista, Oswaldo Cruz.

 

 

Natureza, tempo e paciência: eis os três grandes médicos. (H.G.Bohn)