Sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Transfiguração do Senhor, Ofício Festivo, Ano Impar, 2ª do Saltério (Livro III), cor Branca

 

Santos: Agapito de Roma (companheiro de Felicíssimo, mártir), Estêvão de Cardeña e Companheiros (monges, mártires), Felicíssimo de Roma (diácono, mártir), Hormisdas (papa), Jucelino (eremita), Justo e Pastor (mártires, foram martirizados na Espanha quando ainda eram meninos), Osvaldo de Nortumbria (rei), Tiago, o Sírio (eremita).

 

Antífona: O Espírito Santo apareceu na nuvem luminosa e a voz do Pai se fez ouvir: Este é o meu Filho amado, nele depositei todo o meu amor. Escutai-o. (Mt 17,5)

 

Oração: Ó Deus, que na gloriosa Transfiguração de vosso Filho confirmastes os mistérios da fé pelo testemunho de Moisés e Elias, e manifestastes de modo admirável a nossa glória de filhos adotivos, concedei aos vossos servos e servas ouvir a voz do vosso Filho amado, e compartilhar de sua herança.  Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Daniel (Dn 7, 9-10.13-14)

Sua veste era branca como a neve

 

9Eu continuava olhando até que foram  colocados uns tronos, e um Ancião de muitos dias aí tomou lugar. Sua veste era branca como a neve e os cabelos da cabeça, como lá pura; seu trono eram chamas de fogo, e as rodas, como fogo em brasa. 10Derramava-se aí um rio de fogo que nascia diante dele; serviam-no milhares de milhares, e milhões de milhões assistiam-no ao trono; foi instalado o tribunal e os livros foram abertos.

 

13Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho do homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. 14Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá. Palavra do Senhor!

 

 

Comentário da I Leitura

O projeto de Deus julga e vence as “feras” da terra

 

 

O livro de Daniel surgiu num tempo de muitas dificuldades para o povo de Deus: trata-se do período dos Macabeus (II século a.C.), quando os judeus eram oprimidos pela dominação selêucida De Antíoco IV Epífanes. O livro quer mostrar, portanto, o conflito entre o povo de Deus e o imperialismo, para daí tirar importantes lições.


O autor emprega uma linguagem que para nós parece muito estranha, pois é cheia de símbolos, imagens e figuras cuja compreensão não atingimos à primeira vista. Trata-se de um modo de escrever chamado apocalíptico, próprio para tempos difíceis. Esse gênero literário nasceu praticamente com Daniel, e estava muito em voga na época do Novo Testamento. Trata-se de uma comunicação alternativa, compreendida e assimilada somente por quem sofre na pele as consequências da opressão. O principal objetivo desse modo de escrever é animar as comunidades para a resistência diante dos poderes tiranos, como o imperialismo selêucida.


O capítulo 7 de Daniel apresenta a visão das quatro feras. São forças opressoras, presentes na história, em luta contra o projeto de Deus e contra o povo que ele escolheu para realizar esse projeto. As feras são personificações dos grandes impérios que oprimiram o povo de Deus desde os babilônios até Antíoco IV Epífanes, a quarta fera (175-164 a.C.). Antíoco é apresentado como a mais arrogante das quatro feras, pois no seu tempo impôs aos judeus a cultura grega, perseguindo e matando os que se mantivessem fiéis ao projeto de Javé.


Em meio a essa história cheia de conflitos, Daniel vê um Ancião de roupas e cabelos brancos sentar-se num trono (v. 9ab). Está cercado por multidões de anjos, os mediadores de sua ação na história (v. 10). Esse Ancião é o próprio Deus, o Senhor da Vida (roupas e cabelos brancos) e da História (sentado no trono). Ele julga sem que alguém possa distorcer seu julgamento (“Seu trono eram chamas de fogo com rodas de fogo ardente. Um rio de fogo corria, irrompendo diante dele”, vv. 9c-l0a). A descrição dos vv. 9-10 serve de alerta para o povo oprimido. Mostram, ao mesmo tempo, que Deus está agindo na história, tomando partido, julgando e destruindo as feras que devoram o projeto de liberdade e vida: “O tribunal tomou assento e os livros foram abertos” (v. l0b).


Os vv. 13-14 mostram como o julgamento de Deus se faz presente na história: “Contemplei em visões noturnas, e vi aproximar-se, sobre as nuvens do céu, alguém semelhante a um filho de homem; ele avançou até junto do Ancião, ao qual foi apresentado” (v. 13). O filho do homem é personagem simbólica. A explicação da visão vai mostrar que se trata do povo de Deus que, por causa de sua fidelidade, está sendo perseguido e morto pelas “feras” que agiram e agem na história. Esse povo se encontra diante do juiz da história (Deus), gozando de sua intimidade e proteção. E o Ancião lhe confere o que ele próprio possui: domínio, poder e realeza, e todos os povos, nações e línguas deverão servi-lo (v. 14a). Em outras palavras, o julgamento de Deus sobre as feras da terra se realiza mediante a fidelidade e resistência do povo fiel.


Deus confia seu projeto a esse povo perseguido, caçado e morto pelos poderes absolutizados. É a leitura da história feita sob a ótica da fé que privilegia os oprimidos enquanto depositários das promessas, expectativas e realeza divinas. É assim que Javé julga a humanidade: posicionando-se junto aos oprimidos e confiando-lhes seu projeto, vencendo com eles os poderes que geram e patrocinam a morte. O texto de hoje termina afirmando que o domínio do filho do homem (povo de Deus) é eterno e não acabará, seu reino jamais será destruído (v. 14b).


Com o passar do tempo, o conceito de reino foi associado à pessoa do rei. Desse modo, o que em Daniel se referia à história presente do povo de Deus, acabou sendo transferido para o Messias que deveria vir. Foi assim que o Novo Testamento releu essa passagem (razão pela qual este texto foi escolhido pela Liturgia). Isso, contudo, não nos impede de seguir a interpretação do livro de Daniel: o filho do homem é o povo de Deus, a quem foi confiado o projeto de liberdade e vida em meio às perseguições que as feras de ontem e de hoje suscitam contra os que se mantêm fiéis. [Vida Pastoral nº 249 ©Paulus 2006]

 

 

Salmo: 96(97), 1-2.5-6.9 (R/.1a e 9a)

 Deus é Rei, é o Altíssimo, muito acima do universo

 

Deus é Rei, exulte a terra de alegria, e as ilhas numerosas rejubilem! Treva e nuvem o rodeiam no seu trono, que se apóia na justiça e no direito.

 

As montanhas se derretem como cera ante a face do Senhor de toda a terra; e assim proclama o céu sua justiça, todos os povos podem ver a sua glória.

 

Porque vós sois o altíssimo, Senhor, muito acima do universo que criastes, e de muito superais todos os deuses.

 

 

Evangelho: Lucas (Lc 9, 28b-36)
A transfiguração

 

Naquele tempo, 28bJesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. 29Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. 30Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias.31 Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém. 32Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. 33E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: "Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias". Pedro não sabia o que estava dizendo.

 

34Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. 35Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: "Este é o meu Filho, o escolhido. Escutai o que ele diz!" 36Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto. Palavra da Salvação!

 

Leituras paralelas: Mc 9, 2-8; Mt 17,1-8

 

 

Comentário o Evangelho

A Glória do Filho de Deus

 

A transfiguração forma um fascinante contraste com a mensagem de sofrimentos e humilhação. Como sempre acontece na tradição evangélica, é preciso manter unidos os dois extremos a fim de aceitar Jesus como ele é – Filho do Homem e Filho de Deus. Diversos detalhes lembram a experiência de Deus no Sinai: Moisés, o topo da montanha, a nuvem (Ex 24, 9-19). Jesus é visto como Filho de Deus em sua glória celestial. O “aspecto de seu rosto mudou”, como ele mudará em seu corpo glorificado pela ressurreição (Mc 16, 12). Com ele aparecem duas importantes figuras do Antigo Testamento, Moisés, o Legislador, e Elias, o Profeta. Eles são um sinal de que Jesus satisfará as expectativas do povo hebreu. De fato, falam com ele sobre seu êxodo – sua morte, ressurreição e, na teologia de Lucas, em especial sua ascensão – que ia “se realizar” em Jerusalém.

 

O comportamento dos três discípulos íntimos nos desaponta. Eles adormecem, como fará mais tarde em um momento decisivo. Confrontando com a glória divina, Pedro não chama Jesus pelo título de “Senhor”, que o identifica adequadamente como o Salvador, a tagarela sem coerência sobre erguer tendas terrenas para os seres celestiais. A revelação culmina com a voz proveniente das nuvens, como no batismo de Jesus. Ele é o Filho de Deus, escolhido por Deus (Sl 2, 7; Is 42,1). A admoestação “ouvi-o!” salienta a importância daquilo que Jesus tem dito sobre sua missão e a natureza do discipulado. [O EVANGELHO NOSSO DE CADA DIA. Jaldemir Vitório. ©Paulinas, 1998]

 

Para sua reflexão: Jesus a sós com seu Pai, em sublime contemplação. Sobe para orar e seu orar é subida. Exposto ao esplendor da glória de Deus, o rosto de Moisés tornava-se “radiante” (Ex 34, 29-35); um salmo convida: “contemplai-o e ficareis radiantes” (Sl 34,6). Enquanto Jesus ora, a glória de Deus o penetra e lhe transfigura luminosamente o rosto e as vestes, como se a matéria se convertesse em energia luminosa. Costuma-se conceber ou representar a glória de Deus em termos de esplendor: “O resplendor que o envolvia... era a aparência visível da glória do Senhor” (Ez 1m 28; cf. Ex 16,10; 24,1; Jó 37,22). Moisés participa com Elias da glória de Jesus. Os dois falam da morte (partida, êxodo) de Jesus em Jerusalém: aponta-se o movimento para a capital, que Lucas vai tomar como itinerário do destino de Jesus. (Bíblia do Peregrino)

 

 

Converter-se é transfigurar-se

 

A transfiguração de Jesus revela sua natureza divina, quase escondida em Jesus durante sua vida terrena. Chama-nos a refletir sobre o destino de transfiguração a que são chamados os discípulos do Senhor. Nosso futuro em Deus se prepara com o empenho da vida.

 

O episódio da Transfiguração (Lucas 9,28-36) nos apresenta Jesus que deixa transparecer de seu interior, em modo sugestivo, o esplendor da sua divindade que habitualmente estava escondido sob a sua natureza humana.

 

Podemos ficar surpreendidos com o episódio da transfiguração: curioso, fora do normal.Podemos admitir certa utilidade do gesto: parece que os apóstolos naqueles dias estavam desanimados, necessitados de encorajamento da parte do Senhor. E assim aconteceu. Ajuda-nos o apóstolo Paulo (Filipenses 3,17-4,1): "O Senhor Jesus Cristo transfigurará o nosso mísero corpo, para conformá-lo ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si todas as coisas". A transfiguração, que foi manifestada em Jesus sobre o monte Tabor, revela um destino que será reservado também a nós.

 

Este destino antecipado por Jesus aos olhos de três apóstolos a nós também diz respeito. Transfigurados como Cristo e com ele é algo que engrandece a nossa esperança na vida eterna.

 

Mas Paulo nos falou em termos muito explícitos de outros homens, cristãos, que são mergulhados nas coisas da terra, gloriam-se daquilo de que deveriam envergonhar-se; têm como deus o próprio ventre. Deles falou com lágrimas nos olhos, porque se comportam como inimigos da cruz de Cristo. É evidente que para esses não é pensável a Transfiguração final em Cristo.

 

Se queremos a transfiguração para o nosso corpo, devemos começar a transfigurar o nosso coração à semelhança do coração de Deus. Devemos colocar em harmonia com o Senhor o nosso pensamento, o nosso espírito, a nossa vida. Assim com a ajuda da apóstolo Paulo descobrimos que o episódio evangélico da Transfiguração não nos é estranho, mas nos diz respeito pessoalmente.

 

Seremos renovados no Senhor, mas de nossa parte devemos tornar possível a transfiguração.  Santo Agostinho nos recordou que aquele que nos criou sem nós, não nos salvará sem nós. Trata-se de trabalhar, ou melhor de nos trabalhar. Sabemos aquilo que somos, e entrevemos aquilo que podemos nos tornar. O Santo Cura d´Ars dizia: "Não todos os santos começaram bem, mas todos os santos terminaram bem". O tempo nos é dado para isso, para nos consentir de crescer, de amadurecer.

 

Amadurecer no Senhor não é fácil, mas é belo. Aprende-se a fazer a vontade de Deus. Procura-se querer bem aos próprios caros, dar-lhes as próprias coisas, o próprio tempo, o afeto, a própria habilidade no fazer. Aprende-se a dar gratuitamente, sem requerer para cada pequena coisa uma recompensa.

 

Amadurecer  no Senhor não é fácil, existem etapas que podemos percorrer e das quais conseguimos nos sair bem. Primeiramente é preciso aprender a conhecer o Senhor. Paulo escrevendo aos cristãos de Filipos falou da "sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor". O Senhor merece um maior interesse. Ocorre colocar-se na sua escuta. Os modos são muitos. Existem livros, ao menos o Evangelho não pode faltar em nossa casa para abri-lo e ler o que Deus tem para nos dizer.

 

É preciso também imitar o Senhor. Não podemos imitá-lo cumprindo os seus milagres e prodígios. São Paulo sugere aos cristãos: "Tende em vós os mesmos sentimentos que foram de Cristo Jesus". Podemos provar. Jesus mesmo nos aconselha: "Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". Então devemos olhar os outros com solidariedade e fazer o que pudermos para ajudá-los com a palavra e com o empenho.

 

Sobretudo podemos amadurecer no Senhor, vivendo em comunhão com o Senhor Jesus. Comunhão de vida. Comunhão na oração. A transfiguração de Jesus se realizou numa situação de oração, recorda o evangelho: "Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu ao monte para rezar". [Cardeal Geraldo Majella Agnelo, CNBB, 03/03/2010]

 

A coisa mais importante que um pai pode fazer pelo filho é amar a sua mãe.

(Pe. Theodore Hesburgh)