Segunda, 13 de setembro de 2010

S. João Crisóstomo (Bispo e Doutor), Memória, 4ª do Saltério (Livro III), cor Litúrgica Branca

 

Santos: João Crisóstomo (conhecido como Boca de Ouro, ordenado presbítero em 386), Ligório, Juliano (mártir), Maurílio (435), Eulógio (Patriarca de Alexandria), Amado (630), Sancts de Montefabro (confessor franciscano, 1ª ordem)

 

Antífona: Velarei sobre as minhas ovelhas, diz o Senhor; chamarei um pastor que as conduza e serei o seu Deus. (Ez 34, 11.23-24)

 

Oração: Ó Deus, força dos que em vós esperam, que fizestes brilhar na vossa Igreja o bispo São João Crisóstomo por admirável eloquência e grande coragem nas provações, dai-nos seguir os seus ensinamentos, e robustecer-nos com sua invencível fortaleza. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

Leitura: 1ª Carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 11, 17-26.33)
A eucaristia é o memorial da páscoa de Cristo

 

Irmãos, 17no que tenho a dizer-vos, eu não vos louvo, pois vossas reuniões não têm sido para o vosso bem, mas para o mal. 18Com efeito, e em primeiro lugar, ouço dizer que, quando vos reunis em assembleia, têm surgido divisões entre vós. E, em parte, acredito. 19Na verdade, convém que haja até cisões entre vós, para que também se tornem bem conhecidos aqueles dentre vós que resistem à prova.

 

20De fato, não é para comer a ceia do Senhor que vos reunis em comum. 21Pois cada um se apressa a comer a sua própria ceia; e enquanto um passa fome o outro se embriaga. 22Não tendes casas onde comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus e quereis envergonhar aqueles que nada têm? Que vos direi? Hei de elogiar-vos? Neste ponto, não posso elogiar-vos. 23O que eu recebi do Senhor foi isso que eu vos transmiti: Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão 24e, depois de dar graças, partiu-o e disse: "Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei-o em memória de mim". 25Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: "Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em minha memória". 26Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha. 33Portanto, meus irmãos, quando vos reunirdes para a ceia, esperai uns pelos outros. Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a I Leitura

Se tiverem surgido divisões entre vós, de fato, já

não é para comer a ceia do Senhor que vos reunis

 

Os coríntios celebram a Eucaristia durante o ágape (= caridade) festim de amizade que tem o objetivo de cimentar a fraternidade da comunidade. Contudo, este ágape muitas vezes divide a comunidade por força do egoísmo dos participantes. Exatamente por isso, Paulo recorda que o aspecto comunitário e o aspecto sacrificial devem ser dignamente avaliados: a Eucaristia não é só festim, mas também encontro comunitário com Cristo em seu sacrifício. Celebrar a Eucaristia significa "fazer memória" da morte de Cristo e exprimir a certeza de que só ele enfrentou a morte em perfeita obediência ao Pai; afirmar a decisão de entrar, seguindo a Cristo e graças à sua intervenção, no mesmo caminho de obediência e amor ao Pai. Numa palavra, "fazer corpo" com ele ou, o que é o mesmo, morrer com ele. [Missal Cotidiano, ©Paulus, 1997]

 

Salmo Responsorial: 39(40), 7-8a.8b-9.10.17 (R/.1Cor 11, 26b)  
Irmãos, anunciai a morte do Senhor, até que ele venha!

 

7Sacrifício e oblação não quisestes, mas abristes, Senhor, meus ouvidos; não pedistes ofertas nem vitimas, holocaustos por nossos pecados, 8ae então eu vos disse: "Eis que venho!"

 

8bSobre mim está escrito no livro: 9"Com prazer faço a vossa vontade, guardo em meu coração vossa lei!"

 

10Boas novas de vossa justiça anunciei numa grande assembleia; vós sabeis: não fechei os meus lábios!

 

17Mas se alegre e em vós rejubile todo ser que vos busca, Senhor! 18Digam sempre: "É grande o Senhor!" os que buscam em vós seu auxílio.

 

Evangelho: Mateus (Lc 7, 1-10)
Cura do servo do centurião

Naquele tempo, 1quando acabou de falar ao povo que o escutava, Jesus entrou em Cafarnaum. 2Havia lá um oficial romano que tinha um empregado a quem estimava muito, e que estava doente, à beira da morte. 3O oficial ouviu falar de Jesus e enviou alguns anciãos dos judeus, para pedirem que Jesus viesse salvar seu empregado. 4chegando onde Jesus estava, pediram-lhe com insistência: "O oficial merece que lhe faças este favor, 5porque ele estima o nosso povo. Ele até nos construiu uma sinagoga". 6Então Jesus pôs-se a caminho com eles. Porém, quando já estava perto da casa, o oficial mandou alguns amigos dizerem a Jesus: "Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres em minha casa. 7Nem mesmo me achei digno de ir pessoalmente ao teu encontro. Mas ordena com a tua palavra, e o meu empregado ficará curado. 8Eu também estou debaixo de autoridade, mas tenho soldados que obedecem às minhas ordens. Se ordeno a um: 'Vai!', ele vai; e a outro: 'Vem!', ele vem; e ao meu empregado: 'Faze isto!', e ele o faz". 9Ouvindo isso, Jesus ficou admirado. Virou-se para a multidão que o seguia e disse: "Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé". 10Os mensageiros voltaram para a casa do oficial e encontraram o empregado em perfeita saúde. Palavra da Salvação!

 

Leituras paralelas: Mt 8, 5-13; Jo 4, 46-54

 

 

Comentando o Evangelho

O efeito da palavra

O diálogo entre Jesus e os emissários do oficial romano mostra como a Palavra produz frutos no coração humano. O desfecho da conversa – “Nem em Israel encontrei tanta fé!” – sublinha o foco do interesse de Jesus ao ser abordado por um grupo de judeus, que lhe solicitaram um favor para um pagão. É verdade! A Palavra deu mostras de eficácia até no coração dos pagãos.


A atitude do oficial romano é modelar. Estava à beira da morte um servo pelo qual tinha grande estima. Reconhecendo ser Jesus a única pessoa que poderia curar o doente, dirigiu-lhe um pedido, por meio de alguns anciãos dos judeus. Estes achavam que o pedido do oficial merecia de ser atendido, já que sempre dera mostras de bondade em relação ao povo judeu, a quem tratava com deferência. Quando Jesus estava pronto para atender o pedido, eis que o oficial o surpreendeu com uma declaração carregada de fé. Ele acreditava que Jesus tinha suficiente poder para realizar o milagre, sem precisar dar-se ao trabalho de ir até sua casa. Bastaria uma só palavra, e o servo ficaria curado. Tinha consciência de ser pobre e limitado, por isso julgava-se indigno de receber em sua casa alguém com tanta força e autoridade divinas. A força incomparável da palavra do Mestre seria capaz de eliminar as doenças, independentemente de sua presença física. Para o oficial pagão, uma ordem militar, embora cumprida disciplinarmente, era coisa mínima, comparada a tamanho poder de Jesus. [O Evangelho Nosso de Cada Dial, Jaldemir Vitório, ©Paulinas]

 

Para sua reflexão: Um oficial romano, ou centurião, era o comandante de cem soldados romanos; é um pagão, simpatizante da religião e das práticas judaicas, às quais tem dedicado parte da sua fortuna (ou autoridade) construindo (ou mandando construir) uma sinagoga. Reconhece a dignidade especial de Jesus: aproxima-se dele por intermediários e não se atreve a hospedá-lo (não apresenta como motivo a proibição judaica de entrar na casa de pagãos, mas a dignidade pessoal de Jesus). O que mais importa é que crê no poder sobrenatural de Jesus. Enquanto o povo procura tocá-lo para receber dele seu fluido curador, o oficial romano reconhece que basta uma ordem de Jesus para que aconteça a cura. Sua experiência militar é imagem para expressar esse poder. Fé no poder e na misericórdia de Jesus, na palavra que penetra no tecido da vida humana. A cura do moribundo pode ser comentada com o Salmo 30. (Cf. Bíblia do Peregrino)

 

 

São João Crisóstomo

 

João, descendente de família distinta, nasceu em Antioquia da Síria, em 348. O pai, comandante das tropas imperiais no Oriente, morreu cedo, deixando a educação do filho à esposa Antusa, mulher de excelsas virtudes. A fim de dedicar-se completamente à educação do filho, Antusa, viúva aos vinte anos, recusou as segundas núpcias. Providenciou ao filho os melhores professores de filosofia e retórica, entre os quais, Libânio, mestre de grande renome.

 

Aos vinte e dois anos, João queria retirar-se à solidão do deserto, à imitação de muitos eremitas, mas foi demovido pelas lágrimas da mãe que tanto se sacrificara por ele.

 

João tinha alma de monge e, por isso, mais tarde, passaria quatro anos na solidão, dedicando-se exclusivamente às austeras práticas da vida religiosa e aos estudos dos Sagrados Livros. Como a saúde não aguentasse a dureza da vida do deserto, voltou para Antioquia, onde, ordenado sacerdote, iniciou sua notável atividade pastoral como escritor e orador sacro. Escreveu nesse tempo um tratado sobre o sacerdócio, que é um dos mais belos de todos os tempos. Pondo em prática as lições de retórica do grande mestre Libânio, João tornou-se orador de excepcionais qualidades, de tal modo, que mereceu o título de "Boca de Ouro" ("Crisóstomo") que a posteridade lhe deu.

 

Sua fama de santidade e de exímio orador tinha-se espalhado por todo o Oriente. Quando faleceu o patriarca de Constantinopla, o imperador Arcádio chamou Crisóstomo para ocupar-lhe o lugar. Foi preciso toda a autoridade e habilidade do imperador para induzir João a aceitar semelhante oficio. Aquele cargo foi, de fato, sua cruz, seu martírio. Da vida simples e pacata de Antioquia, viu-se João Crisóstomo transportado para a grande metrópole, a cidade do luxo, do mundanismo, das intrigas políticas.

 

Ao assumir o governo da diocese, Crisóstomo procurou conhecer bem o terreno em que pisava. Notou como o clero, em sua maioria, era pouco preparado para sua divina missão; era ambicioso, avarento, politiqueiro. A corte era corrupta e, o que é pior, se intrometia facilmente nos negócios e na vida da Igreja. A vida social era decadente, levada pelo luxo, pelas futilidades, pelas cobiças e prazeres.

 

João começou sua obra de reforma pelo clero e os religiosos exigindo a observância dos cânones eclesiásticos, de acordo com a pobreza e simplicidade evangélica. Em seus arrebatados sermões, começou a verberar o mundanismo, o luxo, a imoralidade da vida social, as intrigas da vida política, as ingerências da corte na organização e disciplina eclesiástica. Sua atitude de pastor zeloso, firme, enérgico era acompanhada de seus exemplos, de austeridade e grande caridade.

 

Mas os atritos provindos com o clero e, sobretudo, com a aristocracia não tardaram e provocaram a crise. A imperatriz Eudóxia, mulher ambiciosa e intolerante, encabeçou um movimento contra o patriarca João Crisóstomo, exigindo o exílio dele, que durou poucos meses, devido à pressão do povo.

 

Mais um ano e deu-se uma segunda deposição do patriarca. Desta vez ficou exilado numa região quase inacessível, a fim de evitar sua marcante influência que podia provocar um levante do povo. Não resistindo aos sofrimentos da longa viagem e aos maus tratos, João veio a falecer em 407, completando dez anos de pontificado e 59 de idade.

 

Crisóstomo é contado entre os maiores Doutores da Igreja. Sua obra escrita consiste, sobretudo, em homilias, sermões e comentários exegéticos às cartas de São Paulo. São de uma beleza e profundidade insuperáveis.

 

Boca de Ouro, Alma de Anjo, Coração de Pai, João foi o tipo acabado de santo e de pastor. Suas últimas palavras ao morrer, após a longa via dolorosa do desterro, foram: "Glória seja dada a Deus em tudo"! [O SANTO DO DIA, Dom Servilio Conti ©Vozes, 1997]

 

Nunca poderei me convencer de que alguém pode salvar a si próprio sem

ter feito nada pela salvação de seus irmãos. (São João Crisóstomo)