Segunda, 5 de dezembro de 2011

Segunda Semana do Advento, 2ª do Saltério (Livro I), cor Litúrgica Roxa

 

Hoje: Dia Nacional da Pastoral da Criança, dia Internacional do Voluntário para o Desenvolvimento Econômico e Social.

 

Santos: Anastácio (mártir), Basso de Nice (bispo), Colmano de Clonard (abade), Crispina da Numídia (virgem, mártir), Crispina de Tebessa (mártir), Cristina de Markgate (eremita), Dalmácio de Pávia (bispo, mártir), Dalmácio de Pedona (mártir), Geraldo de Braga (bispo), Gereboldo de Bayeux (bispo), João, o Taumaturgo (bispo de Polybote), Júlio, Potamia, Crispim, Félix, Grato e seus sete Companheiros (mártires de Thagura), Nicésio de Trèves (bispo), Pelino de Brindisi (bispo), Quingésio de Salerno (bispo), Sabas da Palestina (abade), Bartolomeu Fanti (carmelita, bem-aventurado), Filipe Rinaldi (bem-aventurado), João Almond (mártir, bem-aventurado), João Gradenigo (monge, bem-aventurado).

 

Antífona: Ó nações, escutai a palavra do Senhor; levai a boa-nova até os confins da terra! Não tenhais medo: eis que chega o nosso salvador. (Jr 31, 10; Is 35,4)

 

Oração: Cheguem à vossa presença, ó Deus, as nossas orações suplicantes, e possamos celebrar de coração puro o grande mistério da encarnação do vosso Filho. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Leitura: Isaias (Is 35, 1-10)
Regresso a Sião

 

1Alegre-se a terra que era deserta e intransitável, exulte a solidão e floresça como um lírio. 2Germine e exulte de alegria e louvores. Foi-lhe dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo e de Saron; seus habitantes verão a glória do Senhor, a majestade do nosso Deus. 3Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados.  4Dizei às pessoas deprimidas: "Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar". 5Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. 6O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo.  7A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes de água; nas cavernas onde viviam dragões crescerá o caniço e o junco. 8Ali haverá uma vereda e um caminho; o caminho se chamará estrada santa: por ela não passará o impuro; mas será uma estrada reta em que até os débeis não se perderão. 9Ali não existem leões, não andam por ela animais depredadores, nem mesmo aparecem lá; os que forem libertados, poderão percorrê-la, 10Os que o Senhor salvou, voltarão para casa. Eles virão a Sião cantando louvores, com infinita alegria brilhando em seus rostos: cheios de gozo e contentamento, não mais conhecerão a dor e o pranto". Palavra do Senhor!

 

Comentando a I Leitura

É  Deus mesmo que vem para vos salvar

 

A esperança é a característica dos que creem, mesmo na provação, no sofrimento, no próprio pecado e na tentativa, tantas vezes falha, de melhorar, de deixar o próprio egoísmo e a própria sensualidade. O motivo profundo dessa esperança é um só: Sim, o nosso Deus vem nos salvar (Salmo). Mas o Deus que quer “mudar” nossa vida não nos salvará sem nossa colaboração, por limitada que seja e cheia de defeitos. Por isso nos diz, a nós que esperamos a sua vinda: Fortalecei as mãos cansadas, arregaçai as mangas, é chegado o momento! Os defeitos da chegada de Deus ao coração dos homens são significados pela transformação de tantos motivos de sofrimento e de lágrimas em motivos de alegria. Isso é obra conjunta de Deus e do homem. Os múltiplos paraísos que o homem tenta reconstruir, triunfando da guerra, da fome, das escravidões do trabalho, são outras tantas etapas que conduzem o cristão ao paraíso querido por Deus. [MISSAL COTIDIANO, ©Paulus, 1997]

 

 

 

Salmo: 84 (85), 9ab-10.11-12.13-14 (R/. Is 35, 4d)

Eis que vem o nosso Deus! Ele vem para salvar

 

Quero ouvir o que o Senhor irá falar: é a paz que ele vai anunciar; a paz para o seu povo e seus amigos, para os que voltam ao Senhor seu coração. Está perto a salvação dos que o temem, e a glória habitará em nossa terra.

A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão; da terra brotará a fidelidade, e a justiça olhará dos altos céus.

 

O Senhor nos dará tudo o que é bom, e a nossa terra nos dará suas colheitas; a justiça andará na sua frente e a salvação há de seguir os passos seus.

 

 

Evangelho: Lucas (Lc 5, 17-26)

Deus  a quem está disposto a converter-se

 

17Um dia Jesus estava ensinando. A sua volta estavam sentados fariseus e doutores da lei, vindos de todas as aldeias da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém. E a virtude do Senhor o levava a curar. 18Uns homens traziam um paralítico num leito e procuravam fazê-lo entrar para apresentá-lo. 19Mas, não achando por onde introduzi-lo, devido à multidão, subiram ao telhado e por entre as telhas o desceram com o leito no meio da assembleia diante de Jesus. 20Vendo-lhes a fé, ele disse: "Homem, teus pecados estão perdoados". 

 

21Os escribas e fariseus começaram a murmurar, dizendo: "Quem é este que assim blasfema? Quem pode perdoar os pecados senão Deus?" 22Conhecendo-lhes os pensamentos, Jesus respondeu, dizendo: "Por que murmurais em vossos corações? 23O que é mais fácil dizer: 'teus pecados estão perdoados', ou dizer: 'levanta-te e anda'? 24Pois, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder de perdoar os pecados - disse ao paralítico - eu te digo: 'levanta-te, pega o leito e vai para casa"'. 25Imediatamente, diante deles, ele se levantou, tomou o leito e foi para casa, louvando a Deus. 26Todos ficaram fora de si, glorificavam a Deus e cheios de temor diziam: "Hoje vimos coisas maravilhosas!" Palavra da Salvação!

 

 Leituras paralelas: Mc 2, 1-12; Mt 9, 1-8; Jo 5, 1-9

 

 

Comentando o Evangelho

 

As verdadeiras amizades

 

O contexto desta passagem é o ministério de Jesus na Galileia. Ele estava ensinando para os fariseus e doutores da lei, que de fato, não estavam ali para aprenderem, mas para espionarem as atitudes e ações do Messias. Por onde Jesus passava as multidões o acompanhava e o local onde se encontrava estava bem lotado. Daí forma-se o seguinte cenário:

 

1.  O esforço dos amigos foi muito grande. Havia fé tanto através dos quatro, quanto da pessoa diretamente interessada. o paralítico, vítima dos males do pecado;

2.  Naquele tempo pensava-se que as doenças eram causadas pelos demônios e pelos pecados (Jo 5, 14);

3.  Perdoando os pecados Jesus estava atingindo a causa e não apenas os sintomas;

4.  Baseado numa interpretação fundamentalista do AT pelos críticos de Jesus, somente Deus podia perdoar os pecados, e, portanto, como se atreve fazer isso um homem qualquer?

5.  Jesus não cura a paralisia, mas os pecados do paralitico: “Homem, seus pecados estão perdoados” (v.20b);

6.  Jesus cura o mal pela raiz. Liberta o espírito e o corpo e nada cobra por “estes serviços”;

7.  Na época de Jesus o perdão só acontecia no Templo tendo-se como contrapartida do fiel as ofertas e os sacrifícios;

8.  Através do paralítico Jesus manifesta os poderes que obteve do Pai: o poder sobre as doenças corporais e o perdão dos pecados.

 

Como o texto seria atualizado para o tempo presente?

 

1.  A fé é o pressuposto fundamental do fiel cristão; sem ela tudo perde sentido;

2.  Quatros irmãos envidaram todos os esforços possíveis para ver o amigo paralítico bem próximo de Jesus, superando todos os obstáculos. Isso é possível nos dias atuais? Claro que sim: evangelizando, tomando parte na missão, fazendo a sua parte, com base no amor e respeito ao próximo. Utopia? Para os incrédulos, sim, para o cristão, tudo é possível pela misericórdia de Deus e pela presença do Espírito Santo aos olhos da fé do cristão. Acredite: amigos existem e se apresentam nas horas mais difíceis;

3.  Jesus é amigo de todos; basta que o cristão abra o coração para receber a cura dos seus pecados, dos seus males do corpo e do espírito;

4.  Os quatros amigos lembram o poder da comunidade à luz da fé: “Onde duas ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome...”;

5.  Jesus fazia tudo de graça, obviamente, com base no amor. Hoje fazemos favores na perspectiva da retribuição. Se não houver o retorno perde-se o amigo, na prática. O desafio para o cristão comprometido com o evangelho é desligar-se dos referenciais puramente materiais e mesquinhos;

6.  Faça bem ao próximo sem esperar retonos terrenos, mas seguramente de Deus que está bem ligado em nossas ações e atitudes;

 

No tempo do Advento abra seu coração e prepare-se bem para receber o presente do Amigo Maior! [Everaldo Souto Salvador, ofs]

 

A palavra se faz oração (Missal Dominical)

Congregai, Senhor, na unidade a vossa Igreja. Vinde, Senhor Jesus.

Purificai nosso coração do egoísmo e da ganância.

Curai-nos de nossas enfermidades e de nossa fraqueza.

Revigorai as pessoas com o poder da vossa divindade.

Iluminai os que vivem oprimidos nas trevas do pecado.

(outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Recebei, ó Deus, estas oferendas que escolhemos entre os dons que nos destes, e o alimento que hoje concedeis à nossa devoção torne-se prêmio da redenção eterna. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Vinde, Senhor, visitai-nos com a vossa paz, para que nos alegremos de todo o coração na vossa presença. (Sl 105, 4-5; Is 38,3)

 

Oração Depois da Comunhão:

Aproveite-nos, ó Deus, a participação nos vossos mistérios. Fazei que eles nos ajudem a amar desde agora o que é do céu e, caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam. Por Cristo, nosso Senhor.

 

São Sabas

Os bárbaros godos são conhecidos, na história, por suas guerras de conquista contra terras e nações cristãs. Pagãos, perseguiram e executaram milhares de católicos, mas não puderam impedir a conversão de várias famílias. Foi numa dessas que nasceu Sabas, no ano 439.


Nascido na Capadócia, Sabas teve uma infância difícil. A disputa dos parentes por sua herança o levou a procurar ajuda num mosteiro, onde foi acolhido apesar de ser ainda uma criança. Apesar de pouca instrução, tornou-se um sábio na doutrina cristã.


Desde então, transcorreu sua longa vida entre os mosteiros da Palestina. Experimentou a vida monástica cenobítica, ou seja, comunitária; depois passou para o mosteiro dos anacoretas, onde os monges se nutrem na solidão, preferindo esta última. Dividiu tudo o que herdou entre os cristãos pobres e doentes. Trabalhou na conversão de seus conterrâneos e ajudando os cristãos perseguidos em sua pátria. Era, antes de tudo, um caridoso e valente.


Naquela época, havia o decreto de que cristãos, para serem poupados, deveriam comer a carne dos animais mortos aos deuses pagãos. Muitos se utilizavam da estratégia de enganar os guardas, dando de comer aos familiares carnes comuns, e não as desses sacrifícios, salvando os familiares do martírio. Mas Sabas se recusava a mentir, chegando a protestar em público contra tal prática.


Quando as perseguições se acentuaram, Sabas já gozava de muito prestígio, pois tinha fundado uma grande comunidade de monges anacoretas no vale de Cedron, na Palestina, chamada de "grande Laura". Ela começou naturalmente, com os eremitas ocupando as cavernas ao redor daquela em que vivia, isolado com os animais, e construíram um oratório. Foi assim que surgiu o que seria no futuro o Mosteiro de São Sabas.


A fama dos prodígios que alcançava através das orações e também a grande sabedoria sobre a doutrina de Cristo, que tão bem defendia, fizeram essa comunidade crescer muito.A ele se atribui o fim de uma longa e calamitosa seca. Ocupava uma posição de liderança importante dentro da sociedade e do clero. A eloquência da sua pregação do Evangelho atraía cada vez mais os pagãos à conversão. Sabas, então, já incomodava o poder pagão como autoridade cristã.


Interferiu junto ao imperador, em Constantinopla, a favor dos mais pobres, contra os impostos. Organizou e liderou um verdadeiro e próprio exercito de monges anacoretas para dar apoio ao papa contra a heresia monofisista que agitou a Igreja do Oriente.


Morreu em 5 de dezembro de 532, na Palestina, aos noventa e três anos de idade. São Sabas está presente na relação dos grandes sacerdotes fundadores do monaquismo da Palestina. A festa em sua honra ocorre no dia de sua morte.

 

O homem na jaula

Dom Murilo S.R. Krieger, scj, Arcebispo de São Salvador da Bahia - BA

 

Certa noite um rei estava de pé, perto de uma das janelas de seu palácio. Cansado da recepção a que acabara de comparecer, olhava para fora, com indiferença. De repente, seu olhar pousou sobre um homem que atravessava a praça, lá embaixo. Não dava para ver seu rosto ou perceber sua idade. Tudo indicava que era um homem comum. O rei começou a pensar como seria a vida daquele desconhecido. Imaginou-o chegando a casa. Provavelmente beijaria sua esposa e, enquanto estivesse comendo, perguntaria se, ao longo do dia, tudo havia corrido bem com as crianças. Depois, se sentaria para ler o jornal, iria dormir e, na manhã seguinte, se levantaria para trabalhar. Uma inesperada pergunta nasceu no coração do rei: o que aconteceria se aquele homem fosse preso e colocado em uma jaula, como os animais de um zoológico?

 

No dia seguinte, o rei chamou um psicólogo, falou-lhe de sua idéia e convidou-o a acompanhar a experiência que iria fazer. Em seguida, mandou trazer uma jaula do zoológico e nela colocou o tal homem que vira na noite anterior. A princípio, o enjaulado manifestou estar confuso, repetindo para o psicólogo, que o observava do lado de fora: “Preciso pegar o trem! Devo ir para o trabalho! Não posso chegar atrasado!” À tarde, mais consciente do que estava acontecendo, começou a protestar, de forma veemente: “O rei não pode fazer isso comigo! É injusto, é contra a lei!” Falava com voz forte e seus olhos faiscavam de raiva.

 

Durante a semana, continuou com suas reclamações. Quando, diariamente, o rei passava pela jaula, o homem protestava contra o monarca. Mas este lhe respondia: “Você está bem alimentado, tem boa cama e não precisa trabalhar. Estamos cuidando muito bem de você. Por que essas reclamações?” Após algumas semanas, elas começaram a diminuir e, passados alguns dias, cessaram por completo.

 

Mais algum tempo e o prisioneiro começou a discutir com o psicólogo se seria conveniente dar a alguém alimento e abrigo, só para se fazer uma experiência. Demonstrava estar mais conformado. Defendia a idéia de que o ser humano tinha de aceitar tudo passivamente. Assim, quando, dias depois, um grupo de professores e alunos veio observá-lo, o enjaulado os tratou cordialmente, explicando-lhes que escolhera aquela maneira de viver. Mais: havia grandes vantagens em estar assim protegido. Afinal, não precisava se preocupar com inúmeras coisas secundárias e podia concentrar sua atenção sobre o que lhe interessava. “Que coisa estranha e curiosa”, pensou o psicólogo. “Por que ele deseja tanto que os outros aprovem sua maneira de viver?”

 

Nos dias seguintes, cada vez que o rei passava diante dele, o homem preso se inclinava, reverenciando-o, ao mesmo tempo em que lhe agradecia pelo alimento e abrigo. Quando julgava que ninguém o observava, mostrava-se impertinente e mal-humorado. Se alguém tentasse conversar com ele, já não mais procurava demonstrar as vantagens de estar preso e ser bem tratado, mas limitava-se a repetir: “É o destino!” Ou, então, dizia simplesmente: “É!”

 

É difícil dizer quando falou a última frase com algum sentido, mas o psicólogo percebeu que, um dia, o rosto do homem não tinha mais expressão alguma; o sorriso deixara de ser subserviente e tornara-se vazio, sem sentido. Não mais usava a palavra “Eu”. Aceitara a jaula. Não sentia raiva ou ódio; não mais raciocinava. Estava louco.

 

Naquela noite, em seu gabinete, o psicólogo procurou escrever o relatório final da experiência. Não conseguia encontrar os termos corretos, pois sentia uma grande inquietação interior. Não conseguia afastar a idéia de que alguma coisa se perdera e fora roubada do universo, naquela experiência. E o que restara era o vazio.

 

A fábula acima está baseada em um texto do psicólogo Rollo May. Ela diz mais do que muitas páginas sobre a liberdade, o uso que dela fazemos e as prisões que criamos em torno de nós e dos outros. Mas ela é, sobretudo, um hino à vida – esse extraordinário dom que recebemos do Criador.

 

Os grandes corações nunca estão totalmente felizes; falta-lhes a felicidade dos outros. (Jean de Laa Bruysére)