Sábado, 26 de novembro de 2011

34ª Semana do Tempo Comum, Ano IMPAR, 1ª Semana do Saltério (Livro III) cor verde

 

Santos: Adalberto e Guido de Casauria (monges), Alano de Lavaur (abade), Erasmo de Alexandria (mártir), Imina de Karlburg (duquesa, abadessa), Jucunda de Reggio (virgem), Mercúrio de Cesaréia (mártir), Moisés de Roma (presbítero, mártir), Beatriz (religiosa, bem-aventurada), Bernardo de Ottobeuren (monge, bem-aventurado), Conrado de Heisterbach (monge, bem-aventurado), Egberto de Muensterschwarzach (abade, bem-aventurado), Isabel de Waldsee (virgem, bem-aventurada), Margarida de Savoya-Arcaya (religiosa, bem-aventurada)

 

Antífona: O Senhor fala de paz a seu povo e a seus amigos e a todos os que se voltam para ele. (Sl 84,9)

 

Oração: Levantai, ó Deus, o ânimo dos vossos filhos e filhas, para que, aproveitando melhor as vossas graças, obtenham de vossa paternal bondade mais poderosos auxílios. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

Leitura: Daniel (Dn 7, 15-27)
Explicação da visão dos quatro animais e do filho do homem

 

15Fiquei chocado em meu íntimo: eu, Daniel, fiquei aterrorizado com estas coisas, e as visões da imaginação me deixaram perturbado. 16Aproximei-me de um dos presentes e pedi-lhe que me desse explicações sobre o significado de tudo aquilo. Respondeu-me, fazendo-me conhecer a interpretação das coisas: 17"Estes quatro possantes animais são quatro remos que surgirão na terra; 18mas os que receberão o reino, são os santos do Altíssimo; eles ficarão de posse do reino por todos os séculos, eternamente". 19Depois, quis ser mais bem informado a respeito do quarto animal, que era bastante diferente dos outros e o mais terrível de todos, com seus dentes de ferro e garras de bronze, sempre devorando e triturando, e calcando aos pés o que restava; 20e ainda a respeito dos dez chifres e sobre o outro que nascera e fizera cair outros três, sobre o chifre que tinha olhos e boca, e que fazia ouvir uma fala forte, e era maior que os outros.

 

21Eu continuava a olhar, e eis que este chifre combatia contra os santos e vencia, 22até que veio o ancião de muitos dias e fez justiça aos santos do altíssimo, e chegou o tempo para os santos entrarem na posse do reino. 23Respondeu-me assim: "O quarto animal é um quarto reino que surgirá na terra, e que será maior do que todos os outros remos; há de devorar a terra inteira, espezinhá-la e esmagá-la. 24Quanto aos dez chifres do reino, serão dez reis; um outro surgirá depois deles, e este será mais poderoso do que seus antecessores, e abaterá os três reis, 25e articulará insolências contra o altíssimo e perseguirá Seus santos e se julgará em condições de mudar os tempos e a lei; os santos serão entregues ao seu arbítrio por um tempo, por tempos e por um meio tempo; 26o tribunal se estabelecerá, e ao chifre será tirado o poder, até ser destruído e desaparecer para sempre; 27e então, que seja dado o reino, o poder e a grandeza dos remos que existem sob o céu ao povo dos santos do altíssimo, cujo reino é um reino eterno, e a quem todos os reis servirão e prestarão obediência". Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a 1ª leitura

Seja dado o reino e o poder ao povo dos santos do altíssimo

 

A linguagem mítica da visão não nos deve espantar. Nosso tempo conhece imagens (e realidades) igualmente concretas e terrificantes; a bomba atômica, o extermínio da guerra bacteriológica, a poluição das águas e da atmosfera, etc. São realidades que deterioram incessantemente o homem dos nossos dias, penetram no subconsciente, corroendo-o e tornando o pânico um componente habitual de nossa existência. Quem aceita a mensagem evangélica vê com outros olhos a história do mundo e do homem. A grande fera que devorará a terra é um monstro que será abatido. O Filho do homem nos libertou de toda escravidão, venceu o sentimento de angústia, transformou o pânico em esperança segura. São grandes, por certo, os perigos que nos ameaçam, a provação aflige concretamente, mas em plena escuridão da noite é belo acreditar na luz. A segurança do reino de Deus, que caminha entre tantas provações e transpõe tantos obstáculos, vem exatamente da mediação do “Filho do homem” (v.13), que sentimos próximo de nós. [MISSAL COTIDIANO, ©Paulus, 1997]

 

 

 

Salmo: Dn 3, 82.83.84.85.86.87 (R/.59b)

Louvai-o e exaltai-o, pelos séculos sem fim!

 

Filhos dos homens, bendizei o Senhor!  Filhos de Israel, bendizei o Senhor!

 

Sacerdotes do Senhor, bendizei o Senhor! Servos do Senhor, bendizei o Senhor!

 

Almas dos justos, bendizei o Senhor!  Santos e humildes, bendizei o Senhor!

 

 

Evangelho: Lucas (Lc 21, 34-36)

Para que o grande dia não vos apanhe de improviso, vigiai!

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 34"Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; 35pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. 36Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do homem". Palavra da Salvação!

 

Leituras paralelas: 1Ts 5,3; Ecl 9,12; Is 24,17-18.

 

 

Comentário o Evangelho

Vigiai e orai

 

O grande perigo das pessoas em relação à escatologia é a dissipação do coração. Os atrativos e prazeres da vida, o acúmulo exagerado de bens materiais, a liberação dos instintos egoístas são todos elementos que corrompem o coração humano, impedindo-o de se preparar para o encontro com o Senhor. Jesus recomenda vigilância e oração como as formas melhores de nos colocarmos em clima de espera. Vigiar é ser capaz de detectar tudo quanto possa desviar nossa atenção do fim almejado, acabando por nos afastar dos caminhos de Deus. São muitas as formas com que o mau espírito procura atuar, para alcançar o seu fim. Quem cochila, acaba caindo na armadilha para pegar os incautos. Só os vigilantes conseguem safar-se das investidas do maligno.

 

A oração, por sua vez, coloca-nos em contínua ligação com Deus, de quem recebemos luz e força para permanecer em pé, vigilante à espera do Senhor. Ela predispõe-nos para escutar os apelos divinos e deixar-nos guiar por eles. Sensibiliza-nos para realizar o projeto de Deus. Mantém-nos sempre atentos à prática do bem, como faz o Pai em benefício da humanidade.

 

Portanto, perseverar na espera requer uma atitude de atenção à história e de comunhão profunda com Deus. [O EVANGELHO NOSSO DE CADA DIA, Ano B,  ©Paulinas, 1996]

 

Oração da Assembleia (Liturgia Diária)

Pela Igreja vigilante e atenta aos sinais dos tempos, digamos. Obrigado/a, Senhor.

Por este dano litúrgico que estamos terminando, digamos.

Pelos que se empenham em construir novo céu e nova terra, digamos.

Pelos que contribuem para a superação do sofrimento dos doentes, digamos.

Pelos agentes de pastoral e ministros da comunidade, digamos.

(outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Acolhei, ó Deus, estes dons que nos mandastes consagrar em vossa honra e, para que eles nos tornem agradáveis aos vossos olhos, dai-nos guardar sempre os vossos mandamentos. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Cantai louvores ao Senhor, todos as gentes; povos todos, festejai-o! Pois comprovado é seu amor para conosco, para sempre ele é fiel. (Sl 116, 1-2)

 

Oração Depois da Comunhão:

Fazei, ó Deus todo-poderoso, que nunca nos separemos de vós, pois nos concedeis a alegria de participar da vossa vida. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Para Sua Reflexão:

É um fato que a comunidade de Lucas experimentava já o desânimo e o descuido em relação às tarefas de evangelização e de práticas evangélicas porque o tempo passava e a perúsia não chegava. Este convite posto nos lábios de Jesus previne-a para não cair na apatia e na desesperança. A mesma situação se percebe nas comunidades de todos os evangelistas (cf. Mt 24, 43-51; Mc 13, 22-26) [Novo Testamento, Edição de Estudos]

 

 

São Leonardo de Porto Maurício

 

 

 

Paulo Jerônimo nasceu em 1676, em Porto Maurício, atual Impéria, Itália. Filho do capitão da marinha Domingos Casanova, ficou órfão ainda muito pequeno. Foi, então, levado a Roma para concluir os estudos no Colégio Romano. Depois, foi para o Retiro de São Boaventura, onde entrou para a Ordem Franciscana e vestiu o hábito tomando o nome de frei Leonardo.


Atuou como sacerdote a maior parte da vida em Florença. Era um empolgante pregador, principalmente quando escolhia como tema a Paixão de Cristo. Percorreu toda a Itália exercendo esse ministério e, com isso, escreveu muitas obras de grande valor para os pregadores e para os fiéis. Santo Afonso de Ligório, seu contemporâneo, dizia que ele era o maior missionário daquele século. O papa também usou para a Igreja os dons de Leonardo, quando o enviou para uma delicada missão na ilha de Córsega. Tinha de restabelecer a concórdia entre os cidadãos. Apesar das graves divisões entre eles, Leonardo conseguiu um inacreditável abraço de paz.


Também é considerado o salvador do Coliseu, ao promover pela primeira vez a liturgia da Via-Sacra naquele local que definiu como santificado, pelos martírios dos cristãos. Por esse motivo, a interpretação da Paixão de Cristo foi reproduzida, no jubileu de 1750, no Coliseu, cujas ruínas eram dilapidadas e suas pedras arrancadas para servirem em outras construções. A celebração da Via-Sacra em seu interior tornou-se tradição e a histórica construção passou a ser preservada. A tradição permanece, pois até hoje o próprio pontífice, toda Sexta-Feira da Paixão, faz a Via-Sacra no Coliseu, em Roma.


Frei Leonardo era, também, muito devoto de Nossa Senhora e queria que a Igreja assumisse o dogma da Imaculada Conceição de Maria. Lutou muito pelas suas ideias doutrinais e convenceu o papa Bento XIV de que era necessário convocar um concílio para discutir o assunto e depois proclamar esse dogma.


Não viu este dia, mas deixou uma célebre carta profética, onde previa que isso iria acontecer, como de fato ocorreu, em 1854. Frei Leonardo morreu, em 1751, no seu querido Retiro de São Boaventura de Palatino, Roma. Na ocasião, tal era sua fama de santidade que o próprio papa Bento XIV foi ajoelhar-se diante de seu corpo.


Papa Pio XI o declarou padroeiro dos sacerdotes que se consagram às missões populares no mundo. São Leonardo de Porto Maurício é celebrado, no dia de sua morte, também como padroeiro da sua cidade de origem, atual Impéria. [Paulinas.org.br]

 

 

 

A História do Advento

John Nascimento

 

Um acidente histórico contribuiu para a formação e desenvolvimento final do Advento tal como o temos hoje. Durante anos as Igrejas dos povos do território da França (Galia), usaram os livros litúrgicos trazidos de Roma que vinham através dos Alpes pelas mãos dos monges e peregrinos que se tinham impressionado com o que viam em Roma. Os governadores Carolíngios, procuraram romanizar o Império por razões políticas e religiosas. 

 

Em 754, Pepin, o predecessor de Carlos Magno, foi coroado rei do território francês, pelo Papa Estêvão II (III) (752-757). Para assinalar o acontecimento, o Papa ordenou que os livros litúrgicos em uso em todo o Império fossem substituídos pelos de Roma. Como resultado o mais curto e não penitencial Advento Romano teve que ser copiado à mão e assim, durante um tempo mais ou menos longo, essas duas liturgias estiveram misturadas. 

 

Alguns dos temas penitenciais do Advento do Norte estiveram misturados com os temas de Alegria, mais curtos do Advento Romano. Carlos Magno que, tal como seu pai, ficou impressionado com tudo o que se fazia em Roma, continuou na mesma linha de ação de seu pai. Trouxe livros de Roma para a sua Biblioteca de Aachen, onde serviram de base para as cópias. Infelizmente, os livros que ele trouxe, descreviam mais a liturgia papal bem elaborada do que a liturgia das Igrejas Paroquiais de Roma. Alcuin, conselheiro de Carlos Magno, arranjou substituições para as partes que faltavam, com autorização do rei.  Como resultado, continuou a mesma mistura de liturgias que, desta vez, nem eram francesas nem romanas.

 

No século X a Igreja de Roma entrou em sério declínio e atingiu o caos, em virtude dos abusos governativos.  Os clérigos e os leigos perderam o interesse pela vida litúrgica da Igreja.  Só os novos mosteiros Cluníacos estavam em condições de manter vivo o espírito religioso e associativo com o culto da Igreja. Eventualmente, sob as ordens dos Imperadores Otomanos, Roma começou a reformar as práticas Litúrgicas enfraquecidas, adquirindo livros litúrgicos nos mosteiros do Centro e do Norte. Os livros litúrgicos que tinham sido levados para o Norte, centenas de anos antes, já não eram os mesmos que eles agora encontraram. Todavia, a nova liturgia, bem depressa foi considerada como autenticamente romana. Por essa razão ela se tornou a liturgia de toda a Igreja latina medieval.  E assim, um Advento de quatro semanas com uma certa mistura ou confusão de penitência e alegria, espalhou-se, a partir de Roma para a Igreja Universal.

 

O tema sombrio dos primeiros domingos do Advento é a continuação do mesmo tema dos últimos domingos do Ano Litúrgico. Nestes domingos há uma ênfase para o fim dos tempos e a consumação de toda a história. No segundo e terceiro domingos do Advento, João Baptista prega a penitência, e no último domingo, o tema final da Encarnação começa com o fato da Anunciação. O tema penitencial durante o Advento, foi mais evidente até há relativamente pouco tempo. 

 

A tradição do jejum chegou até ao Direito Canônico de 1917/18.  Evitavam-se os instrumentos musicais, a cor dos paramentos era a cor roxa, não havia o Glória da Missa e proibiam-se os casamentos.  Com algumas modificações, estas tradições ainda continuam mas sem o espírito de rigorosa penitência.  Algumas tradições religiosas durante o mês de Dezembro estão diretamente associadas com os temas do Advento, mas outras são já parte da celebração do Natal.

 

As tradições do Advento refletem o espírito de Espera que cresce gradualmente.  Provavelmente, a mais popular tradição do tempo do Advento de hoje é a das velas que se vão acendendo, domingo a domingo, tanto nas Igrejas como em casa de cada um que o deseja fazer. Este costume teve a sua origem nos Luteranos da Alemanha no século XVI e logo se tornou popular em outras áreas. Juntamente com as Árvores do Natal, é provavelmente um exemplo da cristianização de práticas populares dos tempos pré-cristãos, em que se acendiam lâmpadas ou velas e se faziam fogueiras nos fins de Novembro e princípios de Dezembro em terras da Alemanha onde a escuridão do Inverno que se aproximava, se tornava muito severa.

 

Esta tradição chegou aos nossos tempos.

 

A tradição de organizar um Ramalhete ou Grinalda do Advento, a partir de 1500 tornou-se uma tradição de simbolismo cristão, primeiro entre os Luteranos alemães, na parte Leste da Alemanha e depois entre os Católicos e Protestantes alemães.  Mais tarde foi para as Américas levada pelos emigrantes a partir de 1900, quando já estava muito popularizada entre os Católicos como fazendo parte do movimento litúrgico. Esta Grinalda do Advento, que pode ser de qualquer medida, é posta sobre a mesa ou pendurada no teto. Há nela quatro velas, uma para cada semana do Advento. A cor das velas não é essencial porque o mais importante é o simbolismo da chama. Todavia é uso popular que sejam três de cor roxa e uma de cor de rosa, que são ainda hoje as cores do Advento.

 

A cor de rosa é a que se usa no Terceiro domingo chamado Gaudete (alegrai-vos), em virtude da primeira palavra da Antífona de entrada da Missa. Na Igreja usa-se a mesma tradição com as quatro velas ornamentadas e dispostas numa espécie de trono com muitas verduras e flores, e cada domingo se vai acendendo uma delas antes da celebração da Missa. Este é o simbolismo de que em cada semana do Advento, se vão dissipando as trevas e se vai fazendo o tempo mais claro, mais iluminado. É também o simbolismo de uma Vitória e de Glória.  Há, portanto um simbolismo de transição das trevas para a luz que representa todo aquele tempo, em que o Povo de Deus esperou o Messias prometido, que era a luz do Mundo.

 

Historicamente Ele chegou, nascendo na gruta de Belém; misticamente espera-se no Advento e chega em cada Natal de todos os anos, e assim acontecerá até ao fim dos tempos, como chamamento à conversão de vida e motivo para um enriquecimento de graça. Portanto, cada Advento é uma Quadra litúrgica especial para que todos os crentes abram mais amplamente os seus corações ao Amor de Deus, e à Eterna Salvação, oferecida por Jesus Cristo a toda a humanidade que a queira receber de boa vontade.

 

Desde 1 de Dezembro de 1974, todos os Domingos do Advento têm precedência sobre todas as solenidades e festas do Senhor, segundo o novo Calendário Litúrgico.

 

Sobre a Liturgia do Advento, diz-nos o Catecismo da Igreja Católica:

524. - Ao celebrar cada ano a Liturgia do Advento, a Igreja atualiza esta expectativa do Messias. Comungando na longa preparação da primeira vinda do Salvador, os fiéis renovam o ardente desejo da Sua segunda vinda. Pela celebração do nascimento  e martírio do Precursor, a Igreja  une-se ao seu desejo :"Ele deve crescer e eu diminuir" (Jo 3,30).

 

Novo horizonte para a vida

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte - MG

 

A reconhecida maestria de Jesus nos seus ensinamentos, com a particularidade de sua presença, com sua força incomparável de interpelação, tocava sempre os espaços mais recônditos dos corações. O evangelista Marcos narra um diálogo de Cristo com seus discípulos que causou grande espanto. Jesus descreve a cena de alguém que corre em sua direção e, quando se aproxima, pergunta: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” O diálogo se desenvolve aprofundando o que é ser bom e o que fazer para ser bom, admitindo convictamente que a conquista da plenitude do ser humano só se faz quando se encontra e se percorre o caminho da bondade.

 

Depois de falar dos mandamentos para aquele que estava interessado em ganhar a vida eterna, Jesus, fitando-o com amor, disse: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. O interessado na vida eterna ficou pesaroso e foi embora cheio de tristeza, pois possuía muitos bens, conta o evangelista Marcos, que também descreve o espanto dos discípulos ao ouvirem estas palavras de Cristo. Pedro, então, intervém dizendo: “Olha, nós deixamos tudo e te seguimos”.

 

Jesus não estava fazendo contas de números naquele diálogo. Sua maestria não se prendia, na verdade, a quantidades de bens. Ele tocou no núcleo central interior que rege os rumos dados à vida: a capacidade de discernimento e escolha, a competência para produzir sentido, a convicção simples e determinante de que é bom ser bom.

 

Ser bom é ser honesto. É alavancar projetos que produzem vida e fecundam a cidadania com valores, que não se reduzem às posses. Trata-se de princípios que alargam horizontes. O desafio maior, em todos os tempos, inclusive agora, na cultura contemporânea, é superar uma compreensão da vida que a reduz aos números e aos bens materiais. Aliás, esse desafio é ainda mais urgente no tempo em que vivemos, porque há uma avalanche de mudanças, intensificada pelo universo virtual da informação.

 

Manter a serenidade indispensável e alavancar-se na sabedoria necessária não é fácil. Fácil é perder o rumo. Vive-se uma oscilação entre a impotência da crítica e a onipotência da opinião. Esta oscilação provoca inevitavelmente a perda de referências e de valores. O Papa Bento XVI adverte que a cultura contemporânea corre riscos de excluir Deus, fonte única e inesgotável de princípios, dos próprios horizontes.  Assim, a humanidade segue caminhos equivocados, receitas destrutivas. Sem Deus no horizonte, o que se constata é a primazia da instabilidade, no lugar da verdade. A informação, com sua fluidez, passa a ser fonte de todas as fontes.

 

É preciso saber que não basta estocar, organizar e distribuir informações múltiplas. Mesmo diante dessa grande oferta de conteúdo, pergunta-se: o que no mundo de hoje é justo, bom, verdadeiro? Não encontrada a resposta, experimenta-se o peso da existência. A vida fica à mercê de relatos sobre relatos, prostrando os humanos na insatisfação, tornando-os insaciáveis. Mas, ávidos não dos valores que sustentam e devolvem a serenidade. Em cena, de novo e sempre, a necessidade da permanente busca e do reger-se por princípios. Um movimento que dá sustentação à cultura, caminha na direção da correção de descompassos. É saída na superação da violência, correção para a ganância que gera o veneno da corrupção e a loucura da posse.

 

Este é o permanente desafio diante de um cenário que causa medo e que mina a convicção simples de que é bom ser bom. Vale lembrar, mais uma vez, o Papa Bento XVI quando diz que o encontro com uma pessoa, Jesus Cristo, dá novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva. É hora do diálogo com Jesus, para iluminar gestos que fazem a diferença.

 

A felicidade não se pode comprar; o amor somente se recebe de graça. (Hl Bosmans)