Sábado, 6 de agosto de 2011

Transfiguração do Senhor, Ofício Festivo, Ano Impar, 2ª do Saltério (Livro III), cor Branca

 

Santos: Agapito de Roma (companheiro de Felicíssimo, mártir), Estêvão de Cardeña e Companheiros (monges, mártires), Felicíssimo de Roma (diácono, mártir), Hormisdas (papa), Jucelino (eremita), Justo e Pastor (mártires, foram martirizados na Espanha quando ainda eram meninos), Osvaldo de Nortumbria (rei), Tiago, o Sírio (eremita).

 

Antífona: O Espírito Santo apareceu na nuvem luminosa e a voz do Pai se fez ouvir: Este é o meu Filho amado, nele depositei todo o meu amor. Escutai-o. (Mt 17,5)

 

Oração: Ó Deus, que na gloriosa Transfiguração de vosso Filho confirmastes os mistérios da fé pelo testemunho de Moisés e Elias, e manifestastes de modo admirável a nossa glória de filhos adotivos, concedei aos vossos servos e servas ouvir a voz do vosso Filho amado, e compartilhar de sua herança.  Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Daniel (Dn 7, 9-10.13-14)

Sua veste era branca como a neve

 

9Eu continuava olhando até que foram  colocados uns tronos, e um Ancião de muitos dias aí tomou lugar. Sua veste era branca como a neve e os cabelos da cabeça, como lá pura; seu trono eram chamas de fogo, e as rodas, como fogo em brasa. 10Derramava-se aí um rio de fogo que nascia diante dele; serviam-no milhares de milhares, e milhões de milhões assistiam-no ao trono; foi instalado o tribunal e os livros foram abertos.

 

13Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho do homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. 14Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá. Palavra do Senhor!

 

Comentário da I Leitura

O projeto de Deus julga e vence as “feras” da terra

 

 

O livro de Daniel surgiu num tempo de muitas dificuldades para o povo de Deus: trata-se do período dos Macabeus (II século a.C.), quando os judeus eram oprimidos pela dominação selêucida De Antíoco IV Epífanes. O livro quer mostrar, portanto, o conflito entre o povo de Deus e o imperialismo, para daí tirar importantes lições.


O autor emprega uma linguagem que para nós parece muito estranha, pois é cheia de símbolos, imagens e figuras cuja compreensão não atingimos à primeira vista. Trata-se de um modo de escrever chamado apocalíptico, próprio para tempos difíceis. Esse gênero literário nasceu praticamente com Daniel, e estava muito em voga na época do Novo Testamento. Trata-se de uma comunicação alternativa, compreendida e assimilada somente por quem sofre na pele as consequências da opressão. O principal objetivo desse modo de escrever é animar as comunidades para a resistência diante dos poderes tiranos, como o imperialismo selêucida.


O capítulo 7 de Daniel apresenta a visão das quatro feras. São forças opressoras, presentes na história, em luta contra o projeto de Deus e contra o povo que ele escolheu para realizar esse projeto. As feras são personificações dos grandes impérios que oprimiram o povo de Deus desde os babilônios até Antíoco IV Epífanes, a quarta fera (175-164 a.C.). Antíoco é apresentado como a mais arrogante das quatro feras, pois no seu tempo impôs aos judeus a cultura grega, perseguindo e matando os que se mantivessem fiéis ao projeto de Javé.


Em meio a essa história cheia de conflitos, Daniel vê um Ancião de roupas e cabelos brancos sentar-se num trono (v. 9ab). Está cercado por multidões de anjos, os mediadores de sua ação na história (v. 10). Esse Ancião é o próprio Deus, o Senhor da Vida (roupas e cabelos brancos) e da História (sentado no trono). Ele julga sem que alguém possa distorcer seu julgamento (“Seu trono eram chamas de fogo com rodas de fogo ardente. Um rio de fogo corria, irrompendo diante dele”, vv. 9c-l0a). A descrição dos vv. 9-10 serve de alerta para o povo oprimido. Mostram, ao mesmo tempo, que Deus está agindo na história, tomando partido, julgando e destruindo as feras que devoram o projeto de liberdade e vida: “O tribunal tomou assento e os livros foram abertos” (v. l0b).


Os vv. 13-14 mostram como o julgamento de Deus se faz presente na história: “Contemplei em visões noturnas, e vi aproximar-se, sobre as nuvens do céu, alguém semelhante a um filho de homem; ele avançou até junto do Ancião, ao qual foi apresentado” (v. 13). O filho do homem é personagem simbólica. A explicação da visão vai mostrar que se trata do povo de Deus que, por causa de sua fidelidade, está sendo perseguido e morto pelas “feras” que agiram e agem na história. Esse povo se encontra diante do juiz da história (Deus), gozando de sua intimidade e proteção. E o Ancião lhe confere o que ele próprio possui: domínio, poder e realeza, e todos os povos, nações e línguas deverão servi-lo (v. 14a). Em outras palavras, o julgamento de Deus sobre as feras da terra se realiza mediante a fidelidade e resistência do povo fiel.


Deus confia seu projeto a esse povo perseguido, caçado e morto pelos poderes absolutizados. É a leitura da história feita sob a ótica da fé que privilegia os oprimidos enquanto depositários das promessas, expectativas e realeza divinas. É assim que Javé julga a humanidade: posicionando-se junto aos oprimidos e confiando-lhes seu projeto, vencendo com eles os poderes que geram e patrocinam a morte. O texto de hoje termina afirmando que o domínio do filho do homem (povo de Deus) é eterno e não acabará, seu reino jamais será destruído (v. 14b).


Com o passar do tempo, o conceito de reino foi associado à pessoa do rei. Desse modo, o que em Daniel se referia à história presente do povo de Deus, acabou sendo transferido para o Messias que deveria vir. Foi assim que o Novo Testamento releu essa passagem (razão pela qual este texto foi escolhido pela Liturgia). Isso, contudo, não nos impede de seguir a interpretação do livro de Daniel: o filho do homem é o povo de Deus, a quem foi confiado o projeto de liberdade e vida em meio às perseguições que as feras de ontem e de hoje suscitam contra os que se mantêm fiéis. [Vida Pastoral nº 249 ©Paulus 2006]

 

 

Salmo: 96(97), 1-2.5-6.9 (R/.1a e 9a)

 Deus é Rei, é o Altíssimo, muito acima do universo

 

Deus é Rei, exulte a terra de alegria, e as ilhas numerosas rejubilem! Treva e nuvem o rodeiam no seu trono, que se apóia na justiça e no direito.

 

As montanhas se derretem como cera ante a face do Senhor de toda a terra; e assim proclama o céu sua justiça, todos os povos podem ver a sua glória.

 

Porque vós sois o altíssimo, Senhor, muito acima do universo que criastes, e de muito superais todos os deuses.

 

 

Evangelho: Lucas (Lc 9, 28b-36)
A transfiguração

 

Naquele tempo, 28bJesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. 29Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. 30Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias.31 Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém. 32Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. 33E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: "Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias". Pedro não sabia o que estava dizendo.

 

34Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. 35Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: "Este é o meu Filho, o escolhido. Escutai o que ele diz!" 36Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto. Palavra da Salvação!

 

Leituras paralelas: Mc 9, 2-8; Mt 17,1-8

 

 

Comentário o Evangelho

A certeza da vitória

 

A transfiguração de Jesus se encontra também em Mateus (17,1-8) e Marcos (9,2-10), mas cada evangelista trabalhou a seu modo a narrativa dentro dos objetivos específicos de cada um. Marcos a inseriu no início da segunda parte do seu evangelho. De fato, a partir de 8,31 temos um novo início e, daqui para frente, Jesus vai dedicar a maior parte do seu tempo ensinando aos discípulos o sentido profundo de seu messianismo. Responde-se, assim, à pergunta fundamental de Marcos: Quem é Jesus?, e responde-se a outra pergunta, não menos importante que a primeira: Quem é o discípulo de Jesus? Todavia, o retrato dos discípulos, aqui, é lamentável.


Na primeira parte do Evangelho de Marcos, Jesus é incompreendido pelos “de fora”, acusado de blasfemar, de ser um possesso, louco e impuro. E os discípulos, o que pensam dele? Pedro, representando todos os que pretendem se unir ao Mestre, afirma que Jesus é o Messias (8,29). Mas Jesus proíbe severamente aos discípulos de falar alguma coisa a respeito dele (8,30). Marcos insere aqui o primeiro anúncio da paixão. E Pedro, representando mais uma vez os discípulos, se torna “Satanás” (cf. o evangelho do domingo passado), porque pretende que o messianismo de Jesus se baseie nos moldes tradicionais. Jesus é incompreendido também pelos “de dentro”.


E agora: a proposta messiânica de Jesus vai vencer? A transfiguração responde afirmativamente. Jesus vai vencer. Contudo, vale a pena recordar que a transfiguração olha mais para nós do que para Jesus. Em outras palavras, nós precisamos dela mais do que ele. Ela nos garante que em Jesus o projeto de Deus será vitorioso porque é garantido pelo Pai, que o declara seu Filho amado, pedindo que todos escutem o que ele diz (9,7). A transfiguração é, portanto, o sinal da vitória de Jesus e de seu projeto.


Jesus sobe a uma alta montanha com Pedro, Tiago e João, três dos quatro primeiros escolhidos (cf. 1,16-20). A cena recorda Ex 24, onde Moisés é convidado a subir à montanha de Javé em companhia de Aarão, Nadab, Abiú e setenta anciãos. Somente Moisés se aproximou de Javé e, ao descer do monte, contou ao povo tudo o que Javé lhe havia dito. A resposta do povo é uma só: “Faremos tudo o que Javé disse” (cf. Ex 24,1-3). Qual será a resposta dos discípulos? Desde já podemos concluir que eles se deixam levar pelo medo e perplexidade (vv. 6.10).


Marcos afirma que “as roupas de Jesus ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar” (v. 3). Essa transformação aponta para a realidade da ressurreição de Jesus. Ninguém, nem mesmo a morte, poderá deter o projeto do Reino, pois o Mestre vai ressuscitar depois de três dias (cf. 8,31b).


Moisés e Elias – que representam respectivamente a Lei e os Profetas, isto é, todo o Antigo Testamento – se fazem presentes e conversam com Jesus. Moisés é o líder da libertação do Egito. O comparecimento deles vem dar testemunho de Jesus: ele é o libertador definitivo, prometido e prefigurado nos líderes do passado. Elias é o restaurador do javismo no Reino do Norte no tempo do rei Acab, o profeta que libertou o povo da idolatria que gera opressão. O Antigo Testamento testemunha que Jesus veio para libertar mediante a entrega total de sua vida.
Nuvem, esplendor, personagens (Elias-Moisés) e, sobretudo, a voz que sai da nuvem são modos de indicar a presença de Deus no acontecimento. O próprio Pai garante que Jesus é seu Filho amado, ao qual é preciso dar adesão (v. 7; cf. 1,15). Nesse versículo temos um dos pontos altos do Evangelho de Marcos. Desde o início afirma-se que Jesus é Filho de Deus (1,1) e, ao ser batizado, o Pai diz: “Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado” (1,11). O termo “filho” recorda o Salmo 2,7, onde um rei é declarado filho de Deus. Jesus é esse Rei, mas seu messianismo passa pela entrega da vida.


Pedro representa nós todos quando pretendemos viver a alegria da ressurreição sem passar pela entrega e pela morte. O julgamento que Marcos faz de Pedro e de todos os seguidores de Jesus é muito severo: “Ele não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo” (v. 6). No fim de tudo, os discípulos se perguntam o que queria dizer “ressuscitar dos mortos” (cf. v. 10). O tema da ignorância dos discípulos é muito forte no Evangelho de Marcos. É impossível saber quem é Jesus sem ir com ele até a cruz, sem passar pela morte, sem voltar à Galiléia (16,7) para anunciar aí, por meio de uma prática libertadora, que o Mestre está vivo. Pedro – e todos nós com ele – sofremos de ignorância crônica em relação a quem é Jesus. Por isso é que “escutar o que ele diz” (v. 7) significa ir com ele até o fim. E não nos assustemos: no Evangelho de Marcos, quem confessa Jesus como “Filho de Deus” é justamente um pagão, alguém que jamais estivera com o Mestre nas suas andanças pela Galiléia.


“E, de repente, olhando em volta, os discípulos não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles” (v. 8). Jesus é a única autoridade credenciada pelo Pai. Ele está conosco para nos ajudar a descer do monte e a vencer o medo e a perplexidade. [Vida Pastoral nº 249 ©Paulus 2006]

 

A Glória do Filho de Deus

 

A transfiguração forma um fascinante contraste com a mensagem de sofrimentos e humilhação. Como sempre acontece na tradição evangélica, é preciso manter unidos os dois extremos a fim de aceitar Jesus como ele é – Filho do Homem e Filho de Deus. Diversos detalhes lembram a experiência de Deus no Sinai: Moisés, o topo da montanha, a nuvem (Ex 24, 9-19). Jesus é visto como Filho de Deus em sua glória celestial. O “aspecto de seu rosto mudou”, como ele mudará em seu corpo glorificado pela ressurreição (Mc 16, 12). Com ele aparecem duas importantes figuras do Antigo Testamento, Moisés, o Legislador, e Elias, o Profeta. Eles são um sinal de que Jesus satisfará as expectativas do povo hebreu. De fato, falam com ele sobre seu êxodo – sua morte, ressurreição e, na teologia de Lucas, em especial sua ascensão – que ia “se realizar” em Jerusalém.

 

O comportamento dos três discípulos íntimos nos desaponta. Eles adormecem, como fará mais tarde em um momento decisivo. Confrontando com a glória divina, Pedro não chama Jesus pelo título de “Senhor”, que o identifica adequadamente como o Salvador, a tagarela sem coerência sobre erguer tendas terrenas para os seres celestiais. A revelação culmina com a voz proveniente das nuvens, como no batismo de Jesus. Ele é o Filho de Deus, escolhido por Deus (Sl 2, 7; Is 42,1). A admoestação “ouvi-o!” salienta a importância daquilo que Jesus tem dito sobre sua missão e a natureza do discipulado. [O EVANGELHO NOSSO DE CADA DIA. Jaldemir Vitório. ©Paulinas, 1998]

 

 

Oração da assembleia (Missal Dominical)

Por todos os que foram iluminados por Cristo com a graça do batismo, para que, através de sua vida, brilhe no mundo a glória do reino dos céus, rezemos ao Senhor: Senhor, escutai a nossa prece.

Pelos enfermos, para que encontrem conforto na esperança da vinda de Jesus, que transformará nosso pobre corpo e o tornará semelhante a seu corpo glorioso, rezemos, ao Senhor:

Por nós mesmos, para que saibamos ouvir com fé e imitar o Filho bem-amado do Pai, rezemos ao Senhor:

(Intenções próprias da Comunidade)

 

Oração sobre as Oferendas:

Santificai, ó Deus, as nossas oferendas pela gloriosa transfiguração do vosso Filho e purificai-nos das manchas do pecado no esplendor de sua luz. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Prefácio da Transfiguração:

O mistério da Transfiguração: Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso.

 

Perante testemunhas escolhidas, Jesus manifestou a glória e fez resplandecer seu corpo, igual ao nosso, para que os discípulos não se escandalizassem da cruz. Desse modo, como cabeça da Igreja, manifestou o esplendor que refulgiria em todos os cristãos.

 

Unidos à multidão dos anjos e dos santos, celebramos a vossa glória, cantando (dizendo) a uma só voz: Santo, Santo, Santo,...

 

Antífona da comunhão:

Quando Cristo aparecer, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é (1Jo 3,2).

 

Oração Depois da Comunhão:

Ó Deus, que o alimento celeste por nós recebido nos transforme na imagem de Cristo, cujo esplendor quisestes revelar na sua gloriosa transfiguração. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Para sua reflexão: Jesus a sós com seu Pai, em sublime contemplação. Sobe para orar e seu orar é subida. Exposto ao esplendor da glória de Deus, o rosto de Moisés tornava-se “radiante” (Ex 34, 29-35); um salmo convida: “contemplai-o e ficareis radiantes” (Sl 34,6). Enquanto Jesus ora, a glória de Deus o penetra e lhe transfigura luminosamente o rosto e as vestes, como se a matéria se convertesse em energia luminosa. Costuma-se conceber ou representar a glória de Deus em termos de esplendor: “O resplendor que o envolvia... era a aparência visível da glória do Senhor” (Ez 1m 28; cf. Ex 16,10; 24,1; Jó 37,22). Moisés participa com Elias da glória de Jesus. Os dois falam da morte (partida, êxodo) de Jesus em Jerusalém: aponta-se o movimento para a capital, que Lucas vai tomar como itinerário do destino de Jesus. (Bíblia do Peregrino)

 

 

Sou eu, não temais

 

Dom Orani João Tempesta, O. Cist., Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

 

A liturgia deste final de semana nos conforta diante das várias circunstâncias de nossas vidas e da vida de nossa Igreja. O Encontro com o Senhor nos dá alento para que não desanimemos diante dos embates da vida, com os quais sempre nos deparamos na caminhada histórica da Igreja. A cada dia somos surpreendidos por situações que querem nos desanimar. Sentimo-nos como um pequeno barco no meio do grande lago envolvido pelas ondas e com o perigo de soçobrar.

 

O episódio de Jesus caminhando sobre as águas do Mar da Galiléia que escutaremos neste final de semana, também é encontrado em Marcos e João, mas somente Mateus apresenta a particularidade de Pedro, que pede ao Senhor que também possa ir até Ele caminhando sobre o mar. Isso se explica pela importância que o evangelista dá à figura de Pedro, como o primeiro dos apóstolos e designado pelo próprio Jesus como chefe da Igreja cristã nascente (cf, Mateus 16, 18-19).

 

Nessa passagem, podemos refletir sobre alguns aspectos presentes na perícope que são fundamentais da fé cristã: a questão cristológica, respondendo à pergunta: "Quem é Jesus"; eclesiológica (representada pelos discípulos e Pedro) e a figura de Pedro, que encarna o discípulo do modo como cada um de nós deve olhar para o Senhor em sua jornada.

 

Iniciemos com a reflexão sobre a figura de Jesus. Após a multiplicação dos pães Ele despediu a multidão e subiu numa montanha para rezar sozinho, por quase toda a noite. Certamente este grande tempo de oração deve ser colocado em relação com o milagre dos pães e o consequente desejo da multidão para proclamar Jesus como rei (cf Jo 6, 15). Como no deserto, também aqui Jesus resiste à tentação, por isso Ele ordena que seus discípulos prossigam o caminho enquanto Ele se coloca em profunda oração diante do Pai.

 

Em seguida, na madrugada, Jesus dirige-se até os discípulos, "caminhando sobre o mar" (v.25), os apóstolos não o reconhecem e veem nele um fantasma, Jesus tranquiliza-os dizendo: "Sou Eu, não tenhais medo”! Aparece a expressão que lembra claramente o “Eu sou” revelado por Deus a Moisés no episódio da sarça ardente (Êxodo 3, 14). Não só isso, mas quando Jesus subiu na barca, "o vento cessou" (v. 32). A situação lembra uma história anterior de Mateus, o "acalmar da tempestade" (cap. 8, 23-27), em que Jesus "repreendeu os ventos e o mar e deu-se uma grande bonança." Sabemos por vários salmos e passagens do Antigo Testamento que só Deus tem autoridade sobre os elementos naturais. Por isso, os apóstolos vendo tudo, O adoraram, dizendo: "Verdadeiramente tu és o Filho de Deus "(v. 33), isto é, reconhecem-no como o Cristo, o Senhor, o Messias enviado por Deus.

 

O aspecto eclesiológico é expresso com um simbolismo que teve grande alcance nos primeiros séculos do cristianismo: o barco com os apóstolos foi comparado com a Igreja, que, como Jesus havia predito, ela poderia estar em apuros e sofrer perseguição.

 

O escrito dos Evangelhos se dá  após um longo período (cerca de 30/40 anos) de tradição oral e é feito para educar as comunidades cristãs primitivas. Mateus (estamos cerca de 80-90 dC) é, portanto, bem consciente da situação de sua comunidade (provavelmente localizada em Antioquia, a capital da província romana da Síria), que percebia, por vezes, caminhando dentro de várias tendências que ameaçam a integridade da fé: uma corrente de "anomia", que alegava uma liberdade absoluta diante da Lei de Moisés; "falsos profetas", capazes de grandes discursos, mas deveras inconsistentes e não seriamente engajados no caminho evangélico; fadiga e preguiça espiritual, causada pelo aparente atraso da vinda definitiva do Senhor, que se acreditava ser iminente; divisões no tecido da comunidade eclesial, com rigidez, contendas, espírito de vingança, e, finalmente, arrogância por parte de alguns líderes da comunidade.

 

Exteriormente, pois, a tarefa missionária (em obediência ao mandamento de Jesus) era desenvolvida entre mil dificuldades e obstáculos: os discípulos eram citados em intimações diante dos tribunais, com processos judiciais  judeus e pagãos; tiveram que sofrer a pena dos açoites, denúncias e traições de amigos e parentes, especialmente, existia o conflito com o judaísmo rabínico da época, a necessidade de defender a fé cristã da contestação dos oponentes judeus a respeito  da messianidade de Jesus, crucificado na cruz, de modo ignominioso, enquanto a ressurreição, diziam eles, foi apenas uma farsa! (cf. Mateus 28, 13-15)

 

Essas poderiam ser, portanto, algumas das provações e dificuldades representadas pela tempestade no lago, que foram visibilizadas por Mateus nas ondas que açoitavam o barco da Igreja. Essas situações que, embora possam alterar de nome e aparências, nunca faltaram, não faltam e não faltarão na história da Igreja. Isso nós podemos constatar também nos tempos atuais. Basta saber ler os sinais que estão ao nosso redor. Porém, a mensagem do Evangelho é clara: com Jesus, "o vento cessou" (v. 32), é, na verdade, somente em união com Ele que podemos lidar com os perigos e dificuldades, sem sermos esmagados.

 

O terceiro aspecto – a figura de Pedro – que podemos ver nesta página várias vezes, com suas características destacadas por Mateus no Evangelho: Pedro demonstra um enorme salto de fé em Jesus (ele é o único dentre os discípulos que se atreve a sair do barco no mar), mas, ao mesmo tempo, com a superação de perigo, também revela fraqueza e medo, que lhe rendeu a repreensão de Jesus: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" No entanto, ele experimenta que mesmo nesse momento de fraqueza Cristo vem para o resgate, estendendo a mão e agarrando-o, traz-lhe a salvação. Também aqui a mensagem é clara: todos nós somos chamados a ter uma grande fé no Senhor, mas também saber que, apesar de nossas fraquezas, nossos fracassos, nossos medos, Ele nunca nos abandona. Não temamos as tempestades, naveguemos na barca de Pedro, com Pedro, e é onde encontramos o Cristo que acalma as ondas trazidas pelos ventos contrários. Assim, teremos forças no Espírito, para que a Igreja continue pelos mares da vida, anunciando e testemunhando que Jesus é o Senhor. [Fonte: CNBB]

 

Cada um empresta a si uma parte do rosto divino. Sua melhor parte tem sempre o todo de Deus. (Frei Edrian J. Pasini)