Quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Depois das Cinzas, Início da Quaresma, Ano Ímpar, 4ª Semana do Saltério, cor Litúrgica Roxa

 

Clamei pelo Senhor, e ele me ouviu: salvou-me daqueles que me atacam. Confia

ao Senhor os teus cuidados, e ele mesmo te há de sustentar. (Sl 54, 17-20.23)

 

 

Santos do Dia: Agrícola de Nevers (bispo), Alexandre de Alexandria (bispo), André de Florença (bispo), Dionísio de Ausburgo (bispo, mártir), Faustiniano de Bolonha (bispo), Fortunato, Félix e Companheiros (mártires), Irene de Gaza, Nestor de Perge (bispo, mártir), Pápias, Diodoro, Conon e Claudiano (mártires da Panfília, na Ásia Menor), Porfírio de Gaza (bispo), Quodvultdeus de Cartago (bispo), Vitor de Troyes (eremita), Isabel da França (clarissa, bem-aventurada), Leão de Saint-Bertin (abade, bem-aventurado), Matilde de Spanheim (monja, virgem, bem-aventurada), Paula Montal (virgem, bem-aventurada).

 

Oração do Dia: Inspirai, ó Deus, as nossas ações e ajudai-nos a realizá-las, para que em vós comece e termine tudo aquilo que fizermos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na Unidade do Espírito Santo

 

 

I Leitura: Deuteronômio (Dt 30, 15-20)

Hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça

 

Moisés falou ao povo dizendo: 15"Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. 16Se obedecerdes aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos, suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que te fiz entrar, para possuí-la. 17Se, porém, o teu coração se desviar e não quiseres escutar, e se, deixando-te levar pelo erro, adorares deuses estranhos e os servires, 18eu vos anuncio hoje que certamente perecereis. Não vivereis muito tempo na terra onde ides entrar, depois de atravessar o Jordão, para ocupá-lo.

 

19Tomo hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, 20amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele - pois ele é a tua vida e prolonga os teus dias, a fim de que habites na terra que o Senhor jurou dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacó" Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a I Leitura

Hoje te proponho bênção e maldição

 

Não são muitos os caminhos a escolher, mas apenas dois: o da vida e o da morte. Parece, pois, que não há escolha: nossa sorte necessária, inelutável, é a morte. Ela vem, mesmo que ninguém a queira. Por outro lado, também o nosso espírito, o intimo de nós mesmos, parece não ter possibilidade de escolha: opta pela bênção, a felicidade, a vida. Tratar-se-á, porém, de possibilidade real de escolha, ou de ilusão? A proposta de Deus ao homem para aceitar a aliança é propriamente a escolha entre a vida e a morte. Não nos pertence definir a vida e a felicidade, porque isto cabe a Deus; é-nos dada apenas a possibilidade de aceitar o dom de Deus. Ninguém por si próprio escolhe a morte. Mas quem recusa a obediência, quem não aceita aquele tipo de morte que consiste em renunciar à vontade de definir a própria felicidade e não entrega nas mãos de Deus a própria vida, entra, de fato, no domínio da morte. É importante, portanto, descobrir que Deus quer nossa felicidade, e aceitar-lhe a proposta.

 

 

Salmo: 1, 1-2.3.4 e 6 (Sl 39[40],5a)
É feliz quem a Deus se confia!

 

1Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos; que não entra no caminho dos malvados, nem juntos aos zombadores vai sentar-se; 2mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar.

 

3Eis que ele é semelhante a uma árvore, que à beira da torrente está plantada; ela sempre dá seus frutos a seu tempo, e jamais as suas folhas vão murchar. Eis que tudo o que ele faz vai prosperar.

 

4Mas bem outra é a sorte dos perversos. Ao contrário, são iguais à palha seca espalhada e dispersada pelo vento. 6Pois Deus vigia o caminho dos eleitos, mas a estrada dos malvados leva à morte.

 

O Salmo 1 é um salmo de instrução. Ele divide as pessoas em dois grupos: os obedientes à vontade do Senhor (vv. 1-3), e os maldosamente desobedientes (vv 4-5). Cada grupo experimentará as conseqüências de sua atividade: a vida e prosperidade para os obedientes, ostracismo e perda das raízes para os maus.

 

 

 

Evangelho do dia: Lucas (Lc 9, 22-25)

Quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará

 

Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos: 22"O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia". 23Depois Jesus disse a todos: "Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. 24Pois quem quiser salvar sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. 25Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?" Palavra da Salvação!

 

Contexto: Ministério de Jesus na Galiléia. Leituras paralelas: Mc 16, 21; Lc 8,31 (Primeiro Anúncio da Paixão); Mt 16, 20-25; Mc 8, 30-9,1 (Prediz a morte e ressurreição); Mt 16, 24-27; Mt 10, 28; Mc 8, 34-38 (condições para seguir a Jesus).

 

 

Comentando o Evangelho

A perda é salvação

 

A conclusão da caminhada terrena de Jesus escondia um sentido dificilmente compreensível para os discípulos. O horizonte messiânico no qual se moviam e com o qual interpretavam a pessoa do Mestre os impedia de compreender, em profundidade, o que o fato requeria. Para ser entendida, em sintonia com o pensar de Jesus, era preciso fazer uma violenta inversão de valores. O esquema tradicional era insuficiente para explicá-la.

 

Na lógica de Jesus, ou seja, na lógica do Reino, a perda é penhor de salvação, ao passo que a salvação, entendida à maneira do mundo, é fator de perda. Daí ser possível esperar que, da humilhação de Jesus resulte exaltação, do abandono por parte dos amigos e conhecidos provenha a solidariedade do Pai, do sofrimento redunde a mais plena alegria, e a morte seja superada pela ressurreição.

 

O contraste entre o projeto de Jesus e a mentalidade de seus discípulos era flagrante. Não lhes passava pela cabeça a possibilidade de existir um Messias cuja glória fosse alcançada em meio a sofrimentos e, muito menos, num contexto de morte violenta.

 

Só a fé na ressurreição pode nos levar a dar crédito às palavras de Jesus. Com ela, o Pai deu seu aval às palavras do Filho, assegurando-lhe sua veracidade. Jesus provou ser impossível experimentar a misericórdia do Pai sem abrir mão das ambições mundanas. Só quem é capaz de renunciar-se a si mesmo como ele, experimentará a salvação. (O EVANGELHO DO DIA, Ano “A”. Jaldemir Vitório. ©Paulinas, 1996)

 

 

A história da Quaresma

Pe. Lucas

 

Quaresma, uma vez mais. Tempo forte na caminhada do ano eclesiástico. Convite e apelo para. o silêncio, a prece, a conversão.  E quando se fala em quaresma, geralmente a gente tem uma idéia de uma coisa negativa, como antigamente. Tempo de medo, de cachorro zangado, de mula sem cabeça e outras coisas mais.

 

Para outros a quaresma parece superada pelo modernismo e é hoje apenas uma recordação negativa do passado ou um retrato na parede, simplesmente.

 

Penso, para nós cristãos é o tempo de conversão, de mudança de vida, de acolher com mais amor a misericórdia de Deus que nos quer perdoar. E é também o tempo onde as comunidades se preparam para viver o mistério da páscoa. Isto é, tempo da hora de Jesus Cristo do seu seguimento em que ele caminha em direção da sua hora que  é a entrega total da sua vida a Deus  pelos  homens,  seus irmãos.

 

A quaresma  é para cada um de nós um tempo de oração e de conversão. Tempo de crescer em comunhão com todos os homens, principalmente com os mais pobres e necessitados. Eles nos lembram o rosto sofrido de Jesus e nos convidam a viver com mais fidelidade a caridade, o amor fraterno, que o Evangelho exige de nós.

 

Quaresma: "Converter-se e crer no Evangelho"

Mais uma vez estamos começando a quaresma. Vamos apenas repeti-la e ficar onde estamos?  Ou vamos descobrir algo novo e progredir na vida? Desde antigamente, a Igreja nos prepara para a Páscoa com esse período de 40 dias.

 

O número não foi escolhido à-toa. Desde a tradição do livro do Êxodo (Ex 16,35),  considera-se que o povo de Deus passou 40 anos no deserto antes de chegar à terra prometida, à liberdade.

 

No Evangelho de São Marcos 1-13 Jesus passa 40 dias no deserto. E aí supera a tentação de satanás, aquela que Adão, o Homem, não conseguiu superar. Isso significa que Jesus passou pela aprovação e saiu vitorioso. Mas o que tem isso a ver conosco hoje? Que luz isso trás para nossa luta de todos os dias?

O Destino ou o Paraíso?

 

Jesus nos indica o ponto de chegada, a direção em que devemos caminhar. Ele que, no deserto, vencido Satanás, "vivia entre as feras e os anjos o serviam" é o novo Adão. É o homem no paraíso. É a nova humanidade, realizada, em paz com Deus e com a natureza. Essa mensagem de paz diga-se de passagem, aparece também no livro do Gênese 9,8-15, quando se diz que Deus pendurou o seu arco de guerra e fez a paz com os homens. E o arco de Deus se tornou o arco Íris, que pôs fim ao dilúvio, ao castigo.

 

 

Como chegar lá?

Uma pista nos vem do antigo povo de Deus, aquele que caminhou por 40 anos no deserto. À sua frente ia Moisés.   Este povo é parecido conosco. Nossas provações, nossa luta, não duram 40 dias, mas 40 anos ou mais!

 

Nós estamos sempre a caminho, no deserto, na esperança de chegar. De Moisés, os rabinos contavam uma história curiosa. Diziam que ele viveu 120 anos, e teve 3 longas provações de 40 anos na vida. A 1ª foi no Egito: 40 anos de aprendizagem, de experiência, de educação. Aprendeu a viver, a sentir os dramas do povo, a descobrir a solidariedade. Achou que deveria lutar pelo seu povo. Revoltou-se contra a opressão dos egípcios. Mas... Ninguém o seguiu. Aí a decepção, a fuga para Madiã, outros 40 anos curtindo sua decepção e reconquistando aos poucos a confiança, as forças, a maturidade. Enfim, superada também esta 2ª provação, Deus o chamou para guiar o seu povo, durante 40 anos, na saída do Egito, no caminho da libertação.

 

A história de Moisés nos diz que há etapas e provações diferentes na vida. Cada um, - jovem, adulto, mais velho - tem a sua etapa a vencer, a sua caminhada. Nesta quaresma, qual é o passo que eu devo dar?

 

Os próximos passos

Não devemos, porém, olhar só para a nossa situação pessoal. O amadurecimento de Moisés é exatamente esse:  Passar de sua percepção ainda ingênua das coisas para uma visão lúcida da vontade de Deus e das necessidades de seu povo.

 

Viver a quaresma, é antes de tudo lutar contra tudo que nos separa. A tentação é sossegar diante dos problemas. Superar a provação, vencer a batalha contra o mal. Não é "apenas isso", mas nesta luta é que estamos continuando a luta contra satanás, continuando a caminhada do povo junto à libertação, realizando a nova humanidade. Certamente, a outros passos a dar.

 

Caminhada ou travessia?

A primeira carta de São Pedro 3,18-22 compara a nossa provação a uma passagem pelas águas. Não uma caminhada, mas uma travessia! Algo como aconteceu a Noé, que foi salvo pela arca. Mas agora o nosso barco é outro. É a cruz de Cristo. Nele embarcamos com o batismo. O batismo não é um ponto de chegada. É um compromisso de seguir o Evangelho, a cruz de Jesus. E é ao mesmo tempo a garantia de que esse barco realmente pode nos conduzir ao porto seguro, ao lugar certo.

 

Fundamentalmente o jejum não é questão de estômago, mas

sim de coração. (Santo Agostinho)