Quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Santa Isabel da Hungria (Religiosa), Memória, 1ª Semana do Saltério (Livro III) cor litúrgica branca

 

Santos: Acisclo e Vitória (mártires de Córdoba), Alfeu e Zaqueu (mártires), Aniano de Orléans (bispo), Dionísio de Alexandria (bispo), Eugênio de Florença (diácono), Gregório, o Taumaturgo (bispo), Gregório de Tours (bispo), Hugo de Lincoln (monge, bispo), Hugo de Noara (abade), Ilda de Whitby (abadessa), Namásio de Viena (bispo), Raverano de Séez (bispo), Rosa Filipina Duchesne (virgem), Joana de Segna (virgem, bem-aventurada), Salomé da Polônia (viúva, bem-aventurada)

 

Antífona: Vinde, benditos de meu Pai, diz o Senhor: eu estava doente e me visitastes. Em verdade vos digo: tudo o que fizestes ao menor dos meus irmãos foi a mim que o fizestes. (Mt 25,34.36.40)

 

Oração: Ó Deus, que destes a santa Isabel da Hungria reconhecer e venerar o Cristo nos pobres, concedei-nos, por sua intercessão, servir os pobres e aflitos com incansável caridade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: I Macabeus (1Mc 2, 15-29)
A religião faz parte da identidade de um povo

 

Naqueles dias, 15os delegados do rei Antíoco, encarregados de obrigar os judeus à apostasia, chegaram à cidade de Modin para organizarem os sacrifícios. 16Muitos israelitas aproximaram-se deles, mas Matatias e seus filhos ficaram juntos, à parte. 17Tomando a palavra, os delegados do rei dirigiram-se a Matatias, dizendo: "Tu és um chefe de fama e prestígio na cidade, apoiado por filhos e irmãos. 18Sê o primeiro a aproximar-se e executa a ordem do rei, como fizeram todas as nações, os homens de Judá e os que ficaram em Jerusalém. Tu e teus filhos sereis contados entre os amigos do rei. E sereis honrados, tu e teus filhos, com prata e ouro e numerosos presentes".

 

19Com voz forte, Matatias respondeu: "Ainda que todas as nações, incorporadas no império do rei, passem a obedecer-lhe, abandonando a religião de seus antepassados e submetendo-se aos decretos reais, 20eu, meus filhos e meus irmãos, continuaremos seguindo a aliança de nossos pais. 21Deus nos guarde de abandonarmos sua Lei e seus mandamentos. 22Não atenderemos às ordens do rei e não nos desviaremos de nossa religião nem para a direita nem para a esquerda".

 

23Mal ele concluiu estas palavras, um judeu adiantou-se à vista de todos para oferecer um sacrifício no altar de Modin segundo a determinação do rei. 24Ao ver isso, Matatias inflamou-se de zelo e ficou profundamente indignado. Tomado de justa cólera, precipita-se contra o homem e matou-o sobre o altar. 25Matou também o delegado do rei, que queria obrigar a sacrificar, e destruiu o altar. 26Ardia em zelo pela Lei, como Finéias havia feito com Zambri, filho de Saiu. 27E Matatias saiu gritando em alta voz pela cidade: "Quem tiver amor pela Lei e quiser conservar a aliança, venha e siga-me!" 28Então fugiu, ele e seus filhos, para as montanhas, abandonando tudo o que possuíam na cidade. 29Também muitos, seguidores da justiça e do direito, desceram para o deserto e ali se estabeleceram. Palavra do Senhor!

 

Comentário

Continuaremos seguindo a aliança de nossos pais

 

Diante da arrogância e violência que desprezam os direitos fundamentais do homem, não é lícito ficar indiferente, esconder-se atrás de um "não e problema meu , o mundo foi sempre assim".. Acontece que cada pessoa tem sua parte de responsabilidade no combate à violência e injustiça, bem como no esforço para tornar o mundo mais humano. O exemplo de Matatias, que se recusa a queimar incenso ante os ídolos, oferece-nos outro exemplo valioso de qual deva ser a atitude do cristão, solicitado muitas vezes, pela conveniência ou pelas paixões individuais ou de grupo, a sacrificar aos "modernos ídolos": bem-estar; carreira, posição... Temos verdadeira necessidade de "permanecer no deserto" para renovar as reservas de força e serenidade, e não ceder. A pressão do ambiente é demasiado forte e se não pusermos em nosso caminho faixas de silêncio, não deixamos espaço para Deus nos falar. [MISSAL COTIDIANO ©Paulus, 1997]

 

 

Salmo: 49(50), 1-2.5-6.14-15 (R/.23b)

A todos que procedem retamente, eu

mostrarei a salvação que vem de Deus

 

Falou o Senhor Deus, chamou a terra, do sol nascente ao sol poente a convocou. De Sião, beleza plena, Deus refulge.

 

"Reuni à minha frente os meus eleitos, que selaram a aliança em sacrifícios!" Testemunha o próprio céu seu julgamento, porque Deus mesmo é juiz e vai julgar.

 

Imola a Deus um sacrifício de louvor e cumpre os votos que fizeste ao altíssimo. Invoca-me no dia da angústia, e então te livrarei e hás de louvar-me.

 

 

Evangelho: Lucas (Lc 19, 41-44)

Jerusalém perdeu a oportunidade de ser plenificada

 

Naquele tempo, 41quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar. E disse: 42"Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, isso está escondido aos teus olhos! 43Dias virão em que os inimigos farão trincheiras contra ti e te cercarão de todos os lados. 44Eles esmagarão a ti e a teus filhos. E não deixarão em ti pedra sobre pedra. Porque tu não reconheceste o tempo em que foste visitada". Palavra da Salvação!

 

Leituras paralelas: Lc 13, 34-35; Mt 23, 37-39

 

 

Comentário o Evangelho

O pranto de Jesus


A contemplação da cidade santa de Jerusalém deixou Jesus comovido. Símbolo da presença de Deus no meio do povo, lugar de peregrinação dos fiéis de todos os cantos do mundo, evocação da longa história de amor do Senhor por Israel, Jerusalém tornara-se símbolo da obstinação de um povo sem disposição para ouvir os apelos de conversão que lhe eram dirigidos pelo Messias.
O Templo fora transformado em casa de câmbio e lugar de exploração dos pobres. O culto estava longe de agradar a Deus, por se reduzir à mera exterioridade. O sacerdócio perdera sua característica própria, para se tornar objeto de disputa. Os peregrinos eram vistos como meio de enriquecimento de um grupo de aproveitadores. Por isso, o Filho de Deus não reconhecia mais aquela cidade e o Templo como lugares de habitação de seu Pai.


Os vaticínios de Jesus contra a cidade santa seguem os rumos da antiga pregação profética. Já Miquéias e Jeremias haviam anunciado a destruição de Jerusalém, por causa da idolatria que nela se instalara. E assim aconteceu, por obra do exército babilônico. Já as palavras de Jesus seriam realizadas pelas mãos do exército romano.


O pranto do Mestre sobre Jerusalém foi um apelo quase desesperado à conversão. Se ela fosse capaz de compreender que estava sendo visitada pelo mensageiro da paz, haveria de ser solícita em converter-se. Mas isto estava escondido a seus olhos. [O EVANGELHO DO DIA. Jaldemir Vitório. ©Paulinas, 1998]

 

Preces dos Fiéis (Deus Conosco Dia a Dia)

·       Para que a presença da Igreja e sua ação no mundo despertem a humanidade para a concórdia e a paz, rezemos ao Deus de amor. Por intercessão de Santa Isabel da Hungria, ouvi-nos, Senhor!

·       Para que os líderes de nossas Comunidades sejam abertos, acolhedores, misericordiosos e dedicados ao Reino, rezemos ao Deus de amor.

·       Para que o exemplo dos santos como o de Santa Isabel, a eles sirvamos na fé e na alegria, rezemos ao Deus de amor.

·       Por todos nós que agora rezamos, para que jamais vacilemos na prática do bem e da libertação dos oprimidos, rezemos ao Deus de amor.

·       (Intenções próprias da Comunidade)

 

Oração sobre as Oferendas:

Recebei, ó Pai, os dons do vosso povo, para que, recordando a imensa misericórdia do vosso Filho, sejamos confirmados no amor a Deus e ao próximo, a exemplo dos vossos Santos. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Não há maior prova de amor que dar a vida pelos amigos. (Jo 15,13)

 

Oração Depois da Comunhão:

Renovados por estes sagrados mistérios, concedei-nos, ó Deus, seguir o exemplo de Santa Isabel da Hungria, que vos serviu com filial constância e se dedicou ao vosso povo com imensa caridade. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

 

 

 

Santa Isabel da Hungria

Franciscana da ordem terceira (OFS), 1231

 

Dietrich de Apolda, na vida deste santo, relata que numa certa tarde de verão de 1207, o trovador Klingsohr da Transsilvânia anunciou ao Landgrave Hermano da Turíngia que, naquela mesma noite, havia nascido uma filha do rei da Hungria, e que a mesma seria exaltada em santidade e se tornaria esposa do filho do próprio Hermano. E na realidade, naquela mesma hora, nascia Isabel, em Presburgo (Bratislava) ou Saros-Patak, filha de André II da Hungria e de sua esposa Gertrudes de Andechs-Meran. Uma aliança como a que foi "profetizada" por Klingsohr tinha muitas vantagens políticas para ser recomendada, e a pequena Isabel foi prometida em casamento ao filho mais velho de Hermano. Com a idade de mais ou menos quatro anos, ela foi levada para a corte da Turíngia, no castelo de Wartburgo, perto de Eisenach, para ser educada junto com o futuro esposo. À medida que ia crescendo, ela sofreu muita crueldade da parte de alguns membros da corte, que não gostavam da sua bondade, mas, por outro lado, o jovem Luís (Ludwig) ficava cada vez mais encantado com ela. Segundo consta, toda vez que ele ia até a cidade, trazia um presente para ela, uma faca, uma bolsa, um par de luvas ou um rosário de corais. "Quando estava na hora de sua volta, ela corria ao seu encontro e ele a pegava nos braços com todo o carinho e lhe entregava o que havia trazido". Em 1221, quando Luis já tinha vinte e um anos de idade e era o landgrave no palácio do seu pai, e Isabel tinha quatorze anos de idade, foi realizada a cerimônia do enlace matrimonial, apesar das tentativas para persuadi-lo a devolvê-la à Hungria, por se tratar de uma noiva inconveniente. Ele declarou que preferia jogar fora uma montanha de ouro a desistir dela. Segundo consta, ela era "perfeita de corpo, amável, de cor morena, séria, modesta, tinha sempre palavras amáveis, fervorosa na oração e de grande generosidade para com os pobres, sempre cheia de bondade e de amor para com Deus". Ele também era simpático e "modesto como uma donzela", inteligente, paciente e sincero, inspirava confiança e era amado pelo seu povo. A vida de casado durou apenas seis anos, e um escritor inglês a definiu como "um idílio de uma ternura fascinante, de um ardor místico, de uma felicidade quase infantil, cuja semelhança não me lembro de ter encontrado em nenhum romance que li ou em nenhuma experiência humana vivida". Tiveram três filhos, Hermano, que nasceu em 1222 e morreu com a idade de dezenove anos, Sofia, que se tornou duquesa de Brabant, e a Beata Gertrudes de Aldenburg. Ao contrário de alguns esposos de outras santas, Luís não pôs nenhum obstáculo no modo como sua esposa praticava a sua caridade, na sua forma de vida simples e mortificada e em suas longas práticas de devoção. "Minha senhora", dizia uma de suas damas-de-honra, "costumava levantar-se durante a noite para orar, e meu senhor lhe pedia que se poupasse e tornasse a descansar, segurando-lhe a mão durante todo tempo com receio de que fosse machucar-se. Ele costumava pedir às camareiras que a despertassem delicadamente quando ele estivesse dormindo - e às vezes, quando julgavam que ele estava dormindo, ele estava apenas fingindo".

 

As obras de caridade materiais de Isabel eram tão grandes, que às vezes provocavam críticas desfavoráveis. Em 1225 aquela parte da Alemanha foi visitada por uma carestia muito grande e ela esgotou o seu próprio tesouro e distribuiu toda a reserva de alimentos entre os que mais sentiam a calamidade. Na ocasião, o landgrave se encontrava ausente, e quando regressou, os oficiais do palácio se queixaram da generosidade excessiva dela para com os pobres. Mas Luís, sem investigar o problema de perto, perguntou-lhes se ela tinha alienado alguma das suas propriedades. Eles responderam que não. "Quanto às suas obras de caridade", disse então ele, "elas trarão sobre nós as bênçãos divinas. Nunca passaremos necessidades enquanto a deixarmos socorrer os pobres como está fazendo". O castelo de Wartburgo fora construído no alto de um rochedo, de sorte que os enfermos e os fracos não podiam chegar até lá (o trajeto era conhecido pela alcunha de "quebra-joelhos"). Por isso, Santa Isabel construiu um hospital aos pés do rochedo para acolher os que não podiam subir até o alto, onde ela muitas vezes os alimentava com as próprias mãos, arrumava-lhes as camas e os assistia em pleno calor do verão, quando o lugar parecia insuportável. Crianças desvalidas, sobretudo os órfãos, eram assistidas às suas próprias custas. Ela fundou um outro hospital, onde vinte e oito pessoas eram constantemente atendidas, e ela alimentava diariamente novecentas pessoas necessitadas junto à entrada do palácio, além de inúmeras outras em diversas partes dos seus domínios, de sorte que as rendas em suas mãos eram realmente um patrimônio dos desamparados. Mas as obras de caridade de Isabel eram acompanhadas pela discrição. E ao invés de incentivar à indolência daqueles que podiam trabalhar, ela os empregava em atividades que podiam executar, segundo as forças e a habilidade de cada um. Conta-se uma história de Santa Isabel, tão famosa que seria desnecessário repeti-la aqui, mas que o Pe. Delehaye a escolhe como exemplo do modo como os hagiógrafos muitas vezes enfeitam um conto para causar maior impressão nos leitores.

 

Todos conhecem o belo episódio da vida de Santa Isabel da Hungria, quando, no próprio leito que ela partilhava com o esposo, ela acamou um pobre leproso... O landgrave indignado acorreu até o quarto e atirou fora as cobertas "Mas", segundo as nobres palavras do historiador, "naquele mesmo instante, o Deus Todo-Poderoso abriu os olhos de sua alma, e em lugar de um leproso ele viu a figura de Cristo crucificado estendido no leito". Este admirável relato de Dietrich de Apolda foi considerado por demais ingênuo pelos biógrafos posteriores, que em razão disso transformaram a sublime visão de fé numa aparição material. Tunc aperuit Deus interiores principis oculos, escreveu o historiador. No lugar onde havia repousado o leproso, dizem os hagiógrafos modernos, "jazia um crucifixo que sangrava, com os braços estendidos"

 

Por esse tempo, estavam sendo feitos grandes esforços para organizar outra cruzada, e Luís da Turíngia pegou a cruz para promovê-la. Na festa de São João Batista, ele se despediu de Santa Isabel e foi ao encontro do Imperador Frederico II, na Apúlia. A 11 do mês de setembro seguinte ele morria em Otranto, vitima da peste. A noticia só chegou na Alemanha em outubro, logo após o nascimento da segunda filha de Isabel. A madrasta foi quem lhe deu a infausta noticia, falando-lhe "a respeito do que acontecera" ao esposo, e a respeito do "desígnio de Deus". Isabel não entendeu bem o que ela quis dizer: "Já que ele foi feito prisioneiro", disse ela, "com a ajuda de Deus e dos nossos amigos, ele será libertado". Quando lhe explicaram que ele não era um prisioneiro, mas que estava morto, ela exclamou: "O mundo morreu para mim, e com ele, tudo quanto era alegria", e pôs-se a andar de um lado para o outro dentro do castelo, gritando como se estivesse louca.

 

O que aconteceu depois é um objeto de muita controvérsia. Segundo o testemunho de uma de suas damas-de-honra chamada Isentrude, o cunhado de Isabel de nome Henrique, que era regente do filho dela, expulsou-a do castelo de Wartburgo, durante aquele mesmo verão, junto com os filhos e duas assistentes, a fim de poder ele próprio assumir o poder. E existem relatos chocantes sobre as agruras e o desprezo que ela teve que suportar, até ser retirada de Eisenach por sua tia Matilda, abadessa de Kitzingen.

 

Existem duas alternativas: uns afirmam que ela renunciou aos seus direitos de viúva sobre a propriedade de Marburgo, em Hesse; outros dizem que ela chegou até a sair do castelo de wartburgo de livre e espontânea vontade. De Kitzingen ela partiu para visitar seu tio Eckembert, bispo de Bamberga, que colocou à disposição dela o seu castelo de Pottenstein, para onde ela foi com o filho Hermano e com a criancinha, deixando a pequena Sofia com as freiras de Kitzingen. Eckembert alimentava planos ambiciosos com um segundo casamento para Isabel, porém ela se recusou a dar ouvidos a ele. Antes da partida do marido para a cruzada, ela fizera com ele a promessa de nunca mais se casarem de novo. No começo do ano de 1228, o corpo de Luís foi trazido para a sua terra natal e enterrado solenemente na igreja abacial de Reinhardsbrunn . Os parentes de Isabel tinham tomado todas as providências para isso, e na Sexta-Feira Santa, na igreja dos frades franciscanos, em Eisenach, ela renunciou solenemente ao mundo, e mais tarde recebeu o manto e o cordão que formavam o hábito da Ordem III de São Francisco.

 

O Mestre Conrado de Marburgo desempenhou um papel importante em todos esses acontecimentos, ele que, a partir de então, humanamente falando exerceu uma influência decisiva na vida de Santa Isabel. Este sacerdote tinha desempenhado um papel de destaque até então, durante algum tempo, já que tinha sido o sucessor do franciscano Pe. Rodinger como confessor dela, em 1225. O Landgrave Luís, em comum acordo com o Papa Gregório IX e muitos outros, tinha Mestre Conrado em alto conceito, e permitido que a esposa fizesse um voto de obediência a ele, ressalvada, é claro, a autoridade do próprio esposo. Todavia, dificilmente podemos deixar de concluir que a experiência de Conrado como inquisidor bem sucedido de hereges e sua personalidade autoritária e severa, quando não cruel, fizeram dele uma pessoa inadequada para ser diretor de Santa Isabel.

 

Alguns dos seus críticos mais recentes se deixaram levar por crítica hostil, movidos pela emoção e não pelo raciocínio e inteligência. Por outro lado, os defensores e apologistas dele nem sempre estiveram isentos de argumentações especiais. Do ponto de vista subjetivo, a verdade é que Conrado, ao oferecer a Isabel obstáculos que ela soube superar, a ajudou em seu caminho para a santidade (embora não possamos saber se um diretor de maior sensibilidade não a teria guiado a maiores alturas ainda); do ponto de vista objetivo, os seus métodos eram agressivos. Dos Frades Menores Santa Isabel havia adquirido um amor à pobreza que ela pôde pôr em ação apenas até um certo limite durante todo o tempo em que foi landgravina de Turíngia. Agora que seus filhos já eram independentes e estavam encaminhados na vida, ela foi para Marburgo, mas foi obrigada a sair de lá e foi morar durante algum tempo numa pequena casa de campo em Wehrda, às margens do rio Lahn. Em seguida, ela construiu uma casinha nos subúrbios de Marburgo, e anexa à mesma, um hospital para cuidar dos doentes, dos idosos e dos pobres, a cujo serviço ela se dedicou totalmente.

 

Em certo sentido Conrado agiu como um freio prudente e necessário sobre o entusiasmo dela durante esse tempo: não permitia que ela fosse mendigar de porta em porta ou se despojar total e definitivamente de todos os seus bens ou destinar mais do que uma determinada quantia, cada vez, em esmolas, ou correr o risco de infecção causada pela lepra e por outras doenças. Nesses aspectos, ele agiu com cuidado e sabedoria. Mas "o Mestre Conrado provou a sua constância em muitos sentidos, procurando dobrar a sua própria vontade, em todas as coisas. A fim de poder atormentá-la ainda mais, ele a afastou de todas as pessoas de sua convivência que lhe eram particularmente caras, inclusive de mim, Isentrude, a quem ela amava. Ela me despediu com grande tristeza e com muitas lágrimas. Por fim, ele mandou embora minha companheira Jutta, que estava com ela desde a infância e a quem ela amava com um afeto especial. Em meio às lágrimas e soluços, a Beata Isabel a viu partir. O Mestre Conrado, de saudosa memória, fez tudo isso com seu zelo e na boa-fé, com receio que nós todas lhe falássemos da sua grandeza dos tempos passados e ela começasse a sentir saudade daqueles tempos. Além disso, agindo dessa forma, ele afastou dela qualquer conforto que ela pudesse usufruir com a nossa presença junto a ela, pois ele desejava que ela se apegasse somente a Deus". No lugar das suas dedicadas damas-de-honra, ele colocou duas "mulheres rudes", que lhe contavam tudo sobre ela, desde suas palavras até suas ações, quando as mesmas infringiam as suas ordens pormenorizadas nas coisas mais insignificantes. Ele chegava a castigá-la com tapas no rosto e golpes desferidos com uma vara longa e grossa", cujas marcas duravam por semanas. Nenhuma alegação quanto a "outros tempos, outros costumes" pode tirar a dor aguda do desabafo amargo de Isabel à sua amiga Isentrude: "Se já tenho tanto medo de um homem mortal, como poderá não me inspirar um terror o Senhor e Juiz do Universo!"

 

A tática de Conrado de preferir, dobrar a vontade dela a orientá-la, não foi bem sucedida. Referindo-se a ele e aos seus métodos disciplinares, Santa Isabel compara-se a uma planta aquática na correnteza, durante uma inundação: a água a abatia totalmente, mas quando as chuvas passam, ela se levanta de novo, reta, viçosa e ilesa. Certa vez, quando ela saiu para fazer uma visita que Conrado não aprovava, ele mandou trazê-la de volta. "Nós somos como o caracol", observava ela, "que se encolhe para o interior de sua casa quando está para chover. Assim, nós obedecemos e recuamos do caminho que estávamos percorrendo". Ele tinha essa boa autoconfiança que se vê com tanta freqüência quando um senso de humor nos ajuda a nos submetermos a Deus.

 

Certa vez, um nobre magiar chegou em Marburgo e pediu para ser levado até a residência do filho do seu soberano, de cujos problemas ele fora informado. Ao chegar no hospital, ele avistou Isabel em seu modesto roupão cinza, sentada junto à sua roda de fiar. O nobre em toda a sua magnificência estacou em frente dela, benzeu-se pasmado e disse: "Quem diria, a filha de um rei fiando!" Ele queria levá-la de volta à corte da Hungria, mas Isabel não quis ir. Seus filhos, seus pobres, o túmulo do esposo, tudo estava lá na Turíngia, e ela iria permanecer aqui pelo resto de sua vida. Mas não seria por muito tempo. Ela vivia em meio a grande austeridade e trabalhava sem cessar, em seu hospital, nas casas dos pobres, pescando no riacho para ganhar um pouco mais de dinheiro para ajudar os que sofriam; mesmo quando ela própria estava doente, costumava entregar-se ao trabalho de fiar e de cardar a lã. Estava em Marburgo menos de dois anos, quando a sua saúde começou a entrar em colapso. Quando jazia no leito, doente, a sua assistente a ouviu cantando suavemente. "Como o vosso canto é suave, madame!", disse-lhe ela. "Eu te direi por que canto assim", respondeu Isabel. "Entre mim e a parede, havia um passarinho cantando tão alegremente para mim, e era tão suave o seu cantar, que eu tive que me pôr a cantar também". A meia-noite, na véspera de sua morte, ela rompeu o seu silêncio e disse: "Está se aproximando a hora em que o Senhor nasceu e foi colocado numa manjedoura e pelo seu poder infinito criou um nova estrela. Ele veio para redimir o mundo, e Ele irá me redimir". E ao cantar do galo, ela acrescentou: "Chegou o momento em que Ele ressurgiu do túmulo e rompeu as portas do inferno, e Ele virá me libertar". Santa Isabel faleceu na tarde do dia 17 de novembro de 1231, com vinte e três anos completos.

 

Durante três dias, seu corpo foi velado na capela do hospital, onde foi enterrado e onde, por sua intercessão, aconteceram muitos milagres. O Mestre Conrado começou a reunir depoimentos a respeito de sua santidade, porém faleceu antes sem vê-la canonizada, o que só aconteceu em 1235. No ano seguinte, suas relíquias foram trasladadas para a igreja de Santa Isabel, em Marburgo, construída por seu cunhado Conrado, na presença do Imperador Frederico II e de "uma tão grande afluência de várias nacionalidades, povos e línguas como dificilmente se viu ou se verá nestas terras da Alemanha". As relíquias de Santa Isabel da Hungria lá repousam, sendo objeto de peregrinação de todas as partes da Alemanha e de além-fronteira, até que, em 1539, um landgrave protestante de Hesse chamado Filipe as transportou para um local ignorado. [A vida dos Santos de Butler, ©Editora Vozes]

 

A gratidão é um fruto de cultivo aprimorado, que não pode ser encontrada entre gente grosseira. (Samuel Johnson)