Quarta-feira, 29 de junho de 2011

13ª Semana do Tempo Comum,  Ano Impar, 1ª do Saltério (Livro III), cor Litúrgica Verde

 

Hoje: Dia do Pescador e Dia da Telefonista

 

Santos: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Cirilo de Alexandria (Doutor da Igreja, patriarca; proclamou a Bem-Aventurada Virgem Maria "Mãe de Deus, ou "Theotókos"), Ladislau (rei da Hungria), Madalena Fontaine, João (eremita de origem bretã), Sansão (sacerdote romano)

 

Antífona: Povos todos, aplaudi e aclamai a Deus com brados de alegria. (Sl 46,2)

 

Oração: Ó Deus, pela vossa graça, nos fizestes filhos da luz. Concedei que não sejamos envolvidos pelas trevas a luz da vossa verdade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Gênesis (Gn 21, 5.8-20)

O anjo do céu chamou a Agar

 

5Abraão tinha cem anos quando lhe nasceu o filho Isaac. 8Entretanto, o menino cresceu e foi desmamado; e no dia em que o menino foi desmamado, Abraão deu um grande banquete. 9Sara, porém, viu o filho que a egípcia Agar dera a Abraão brincando com Isaac. 10E disse a Abraão: "Manda embora essa escrava e seu filho, pois o filho de uma escrava não pode ser herdeiro com o meu filho Isaac". 11Abraão ficou muito desgostoso com isso, por se tratar de um filho seu. 12Mas Deus lhe disse: "Não te aflijas por causa do menino e da tua escrava. Atende a tudo o que Sara te pedir, pois é por Isaac que uma descendência levará o teu nome. 13Mas do filho da escrava farei também um grande povo, por ele ser da tua raça".

 

14Abraão levantou-se de manhã, tomou pão e um odre de água e os deu a Agar, colocando-os nos ombros dela: depois, entregou-lhe o menino e despediu-a. Ela foi-se embora e andou vagueando pelo deserto de Bersabéia. 15Tendo acabado a água do odre, largou o menino debaixo de um arbusto, 16e foi sentar-se em frente dele, à distância de um tiro de arco. Pois dizia consigo: "Não quero ver o menino morrer". Assim, ficou sentada defronte ao menino, e pôs-se a gritar e a chorar.

 

17Deus ouviu o grito do menino e o anjo de Deus chamou do céu a Agar, dizendo: "Que tens Agar? Não tenhas medo, pois Deus ouviu a voz do menino do lugar em que está. 18Levanta-te, toma o menino e segura-o bem pela mão, porque farei dele um grande povo". 19Deus abriu-lhe os olhos, e ela viu um poço de água. Foi então encher o odre e deu de beber ao menino. 20Deus estava com o menino, que cresceu e habitou no deserto, tornando-se um jovem arqueiro. Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a I Leitura

O filho de uma escrava não pode ser

herdeiro com o meu filho Isaac

 

A fraqueza humana aflora entre os heróis da história da salvação, mas o plano de Deus se realiza através e além das fraquezas humanas. Sobre esse plano de Deus é interessante raciocinarmos um pouco. A história da humanidade registra obras colossais realizadas com sacrifício de vítimas inocentes. Alguém deve pagar para que haja progressão, ouve-se às vezes dizer com excessiva leviandade. Não é assim o plano de Deus. Deus quer salvar seu povo, quer conduzi-lo à terra prometida, mas nunca perdeu de vista o bem de cada um Aqui, Ismael parece repudiado e destinado cruelmente à morte; entretanto, através mesmo desse repúdio se cumpre o seu destino: tornar-se tronco de uma grande nação. O relacionamento com Deus é algo estritamente pessoal; para realizá-lo, porém, cumpre secundar esse plano e perscrutar, através dos acontecimentos alegres e tristes da vida, a linha de amor que ele percorre. [Missal Cotidiano, © Paulus]

 

 

Salmo 33 (34), 7-8.10-11.12-13

Este infeliz gritou a Deus e foi ouvido


Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido, e o Senhor o libertou de toda angústia. O anjo do Senhor vem acampar ao redor dos que o temem, e os salva.

 

Respeitai o Senhor Deus, seus santos todos, porque nada faltará aos que o temem. Os ricos empobrecem, passam fome, mas aos que buscam o Senhor não falta nada.

 

Meus filhos, vinde agora e escutai-me: vou ensinar-vos o temor do Senhor Deus. Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias?

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 8, 28-34)

O poder sobre demônios

 

Naquele tempo, 28quando Jesus chegou à outra margem do lago, na região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois homens possuídos pelo demônio, saindo dos túmulos. Eram tão violentos, que ninguém podia passar por aquele caminho. 29Eles então gritaram: "O que tens a ver conosco, Filho de Deus? Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?" 30Ora, a certa distância deles, estava pastando uma grande manada de porcos. 31Os demônios suplicavam-lhe: "Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos". 32Jesus disse: "Ide". Os demônios saíram e foram para os porcos. E logo toda a manada atirou-se monte abaixo para dentro do mar, afogando-se nas águas. 33Os homens que guardavam os porcos fugiram e, indo até a cidade, contaram tudo, inclusive o caso dos possuídos pelo demônio. 34Então a cidade toda saiu ao encontro de Jesus. Quando o viram, pediram-lhe que se retirasse da região deles. Palavra da Salvação!

 

Contexto: a pregação do Reino dos Céus; curas; dez milagres. Leituras paralelas: Mc 5, 1-20; Lc 8, 26-39; Mc 5, 21-28; Mc 5, 1-20.

 

 

 

Comentário o Evangelho

A vitória sobre o mal


O incidente com a vara de porcos, em território pagão, esconde uma temática teológica, retrabalhada pelo evangelista a partir de um motivo folclorístico, com traços de comicidade: o Filho de Deus venceu o mal, libertando a humanidade do poder demoníaco.


Os espíritos malignos, tendo-se apoderado dos dois gadarenos, tornaram-nos refratários a Jesus, levando-os a rejeitar sua presença. Insociáveis e violentos, esses homens viviam no mundo da morte, pois moravam nos sepulcros, seu lugar de habitação, tendo sido reduzidos a um estado de total desumanização.


A presença de Jesus reverteu este quadro. Era impossível que ele ficasse impassível diante de uma situação tão deplorável! Sua atitude imediata foi libertar os gadarenos, ordenando aos demônios que voltassem para o mundo da impureza, simbolizada pelos porcos presentes nas imediações. Foi deles a iniciativa de pedir para serem mandados para lá. Afinal, os homens tinham sido recuperados para a vida, libertados do mal.


Os habitantes de Gadara não foram capazes de reconhecer o poder de Jesus. Um misto de medo, confusão e ressentimento pela perda dos porcos apoderou-se deles. Por isso, pediram que ele se retirasse de seu território.


Em todo caso, doravante os dois homens miraculados seriam um símbolo vivo do poder libertador do Messias Jesus.
[O EVANGELHO DO DIA. Jaldemir Vitório. ©Paulinas, 1998]

 

Oração da assembleia

Para que a Igreja seja presença edificante em nossa sociedade, rezemos. Senhor, ouvi-nos.

Para que Cristo seja reconhecido como caminho de vida e salvação, rezemos.

Para que saibamos entender. E acolher os desígnios divinos em nossa vida, rezemos.

Para que as famílias que lutam pela sobrevivência encontrem trabalho digno, rezemos.

Para que os agricultores sejam abençoados em suas colheitas, rezemos.

(preces espontâneas da assembleia)

 

 

Oração sobre as Oferendas:

Ó Deus, que nos assegurais os frutos dos vossos sacramentos, concedei que o povo reunido para vos servir corresponda à santidade dos vossos dons. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Bendize, ó minha alma, ao Senhor e todo meu ser, seu santo nome! (Sl 101,1)

 

Oração Depois da Comunhão:

Ó Deus, o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, que oferecemos em sacrifício e recebemos em comunhão, nos transmitam uma vida nova, para que, unidos a vós pela caridade que não passa, possamos produzir frutos que permaneçam. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

 

 

São Pedro e São Paulo

 

 

A liturgia do próximo domingo contempla a solenidade dos santos Pedro e Paulo

 

"A liturgia romana sempre reuniu os dois apóstolos Pedro e Paulo numa só solenidade, por considerá-los os fundadores da Igreja de Roma. Tendo os dois padecido o martírio na perseguição de Nero, a tradição os identificou também no dia de sua morte: 29 de junho. Pedro e Paulo são de fato os pilares da Igreja primitiva. Unidos, representam um símbolo visível, tão necessário no dia de hoje, da colegialidade do episcopado na Igreja".

 

Desde o início, Pedro é representado nos Evangelhos como o primeiro dos apóstolos. Em todas as listas ou catálogos dos nomes dos apóstolos, Pedro figura sempre em primeiro lugar. E, nos momentos decisivos, em que a missão de Cristo envolve crise, é sempre São Pedro o porta-voz dos apóstolos, o primeiro a proclamar a fé da Igreja primitiva. Seu nome de família era Simão, filho de Jonas, mas Jesus, no primeiro encontro, mudou-lhe o nome para Pedro, pedra-rocha, e mais tarde dá a razão disso (Mt 16,13-20). Pedro era irmão de André, nascido em Betsaida, era pescador de profissão, casado e morava em Cafarnaum, quando Jesus o chamou ao apostolado. No Evangelho, ele aparece como homem de temperamento impulsivo, mas leal, expansivo, generoso e, sobretudo, muito apegado ao Mestre.

 

Jesus, aos poucos, o coloca em evidência entre os apóstolos, marcando-o como seu futuro vigário na Igreja. Em Cesaréia de Filipe, Jesus diz solenemente a Pedro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares sobre a terra, será ligado também no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado também no céu". Nestas palavras Jesus anuncia, entre outras coisas, que Pedro é a rocha inabalável que serve de fundamento à Igreja, na mesma recebe o supremo poder, e a ele são entregues as chaves do Céu.

 

Depois da Ressurreição, na praia do lago de Genesaré, Jesus dirigiu-se novamente a Pedro, perguntando-lhe: "Simão, filho de Jonas, amas-me mais que estes?" Ele respondeu: "Sim, Senhor, sabeis que vos amo". Jesus acrescentou: "Apascenta meus cordeiros". Por três vezes Jesus fez esta pergunta e deu-lhe ordem de tomar conta de seu rebanho. Era a investidura oficial a Pedro de ser o Vigário de Cristo, Pastor Supremo no único rebanho do Mestre (Jo 21,1 5s).

 

Os primeiros dez capítulos dos Atos dos Apóstolos descrevem de modo especial a atuação marcante do apóstolo Pedro, que emerge como o grande líder, responsável pela comunidade cristã de Jerusalém. E ele que toma a iniciativa de integrar Matias ao Colégio dos Apóstolos, em lugar de Judas. E ele que faz o primeiro discurso no dia de Pentecostes, convertendo três mil pessoas. E ele que realiza o primeiro milagre, sarando o homem coxo. E ele que e preso como responsável pela nova religião que as autoridades judaicas queriam suprimir. Pedro naquela ocasião toma a defesa: "Temos que obedecer antes a Deus do que aos homens". E Pedro que reprime a atitude falsa de Ananias e Safira. Pedro toma a iniciativa da eleição dos diáconos, para que atendam à administração material da comunidade cristã. E Pedro que oficialmente abre a porta da Igreja ao primeiro pagão, Cornélio e sua família, batizando-o em nome de Cristo. E Pedro que convoca o primeiro concílio dos apóstolos, tomando a palavra no conclave.

 

A tradição atesta que Pedro, saindo de Jerusalém, foi para Antioquia, dirigindo aquela Igreja por sete anos, depois rumou para Roma, onde ficou até a morte, que se deu aos 29 de junho de 67. Foi crucificado como o próprio Mestre, mas pediu que sua posição fosse de cabeça para baixo, como gesto de humildade. Há provas históricas irrefutáveis que seu corpo foi sepultado onde, atualmente, surge a maior igreja do mundo: a Basílica Vaticana.

 

São Paulo

 

Paulo nasceu provavelmente nos primeiros anos da era cristã, em Tarso da Cilícia hoje ocupada pela Turquia. Embora judeu, a Paulo se atribui o título  de cidadão romano, talvez por privilégio anexo à cidade de Tarso. Usava um nome judeu, Saulo, e outro romano, Paulo, com o qual foi melhor conhecido. Aprendeu a língua grega que se falava em Tarso e a aramaica, usada na Palestina.

 

De Tarso foi para Jerusalém onde recebeu sólida formação nas Sagradas Escrituras e nos métodos da tradição dos rabinos. Ele se diz da tribo de Benjamim, pertencendo à seita fanática dos fariseus. Teve por mestre o célebre fariseu Gamaliel e tornou-se ele mesmo fervoroso e defensor da lei antiga e da tradição dos antepassados. Era fabricante de tendas.

 

Os Atos dos Apóstolos nos falam dele no fim do capítulo VII, por ocasião da morte do diácono Estevão, quando Paulo guardava as vestes dos que apedrejavam Estevão, concordando, portanto, com o crime. Depois do assassinato de Estevão, Paulo perseguiu com sanha os membros da comunidade cristã. Todo o capitulo IX dos Atos dos Apóstolos narra a milagrosa conversão de São Paulo. A caminho de Damasco, a para prender os cristãos, foi derrubado do cavalo e Jesus lhe falou: “Saulo, por que me persegues?" Conduzido cego à cidade de Damasco, Paulo foi levado para a casa do sacerdote Ananias que o preparou para o batismo. E uma narração empolgante, que prova a força de Cristo em dominar seu perseguidor. Depois do batismo, Paulo se dirigiu ao deserto da Arábia, onde ficou três anos, entregue à oração, penitência e onde o próprio Cristo se tornou seu preceptor.

 

De volta para Jerusalém, foi-lhe difícil achegar-se aos apóstolos que o temiam e não disfarçavam a desconfiança que lhes inspirava aquela conversão quase inacreditável. Apresentado aos apóstolos por ­Barnabé, iria assumir uma importantíssima missão no Cristianismo primitivo. A partir de Antioquia na Síria, inicialmente com Barnabé, Paulo realizou três grandes expedições missionárias que tiveram a duração de 25 anos.

 

Passou dois anos preso em Cesaréia, e de lá, por ter apelado ao ­tribunal de César, partiu para Roma, onde continuou preso, mas em relativa liberdade para receber os cristãos e dirigir sua palavra aos pagãos. Inocentado no processo que lhe armaram os judeus, viajou para a Espanha, visitou novamente suas comunidades no Oriente e, de volta a Roma, ano 67, foi preso sob o imperador Nero, condenado porque seguia uma religião ilegal. Foi morto por decapitação e não por crucificação, porque ele era cidadão romano.

 

Paulo, escrevendo aos Coríntios, deixou-nos um catálogo impressionante de seus trabalhos pela pregação do Evangelho: "Sofri muito pelos trabalhos, muito mais pelos cárceres, muitíssimo mais pelos açoites. Muitas vezes estive em perigo de morte; cinco vezes recebi dos judeus trinta e nove golpes de açoites. Três vezes fui batido com varas, fui apedrejado, três vezes naufraguei passando uma noite e um ido em alto-mar" (2Cor 11,20-26).

 

A descrição dos sofrimentos suportados por causa do Evangelho continua de forma comovente. O papel de Paulo na Igreja foi de transcendental relevo. Além de ter fundado as melhores comunidades cristãs no mundo helênico, que foram o esteio da expansão do Cristianismo na Ásia Menor, Paulo, em suas 14 cartas escritas às comunidades cristãs por ele fundadas, foi o grande teólogo que tentou elaborar uma síntese doutrinária do mistério de Cristo para todos os séculos de valor inestimável. Este gigante inatingível de apóstolo e santo dizia com humildade e fraqueza: “Pela graça de Deus, sou o que sou, mas a graça dele em mim não ficou estéril”. [O SANTO DO DIA, Dom Servilio Conti, ©1997 Vozes]

 

 

Pedro e Paulo: colunas da Igreja

Dom Orani João Tempesta, O. Cist., Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro - RJ

 

A celebração da Solenidade de Pedro e Paulo nos dá ocasião para aprofundar o nosso amor à Igreja e a nossa missão aos povos. Em ambos vemos a nossa missão de discípulos missionários.

 

Pedro e Paulo aparecem como anunciadores do Evangelho para os povos, fundadores de comunidades cristãs e testemunhas de Cristo até o martírio. A festa de hoje associa-os na fé em Cristo e na fundação da Igreja de Roma. Com especial atenção e alto valor teológico, o autor dos Atos dos Apóstolos enfatiza a sintonia entre Pedro na prisão e a comunidade cristã (At 12,1-11, primeira leitura): "Da Igreja subia fervorosamente a Deus uma oração por ele" (v. 5). A libertação milagrosa de Pedro da prisão o torna, então, livre para outros horizontes missionários.

 

São Paulo, na prisão, faz um balanço de sua vida (2Tm 4,6-8.17-18, segunda leitura), dá graças ao Senhor que esteve perto dele e deu-lhe força para que ele pudesse "levar a cumprimento o anúncio do Evangelho a todos e as gentes o aceitassem" (v. 17).

 

O serviço missionário de Pedro, dos apóstolos e de todos os cristãos funda, necessariamente, as raízes na experiência de uma chamada e correspondida no amor. "Eu sei em quem eu confiei", afirma Paulo, sem hesitação (2 Tm 1,12). Pedro vai gradualmente crescendo na confiança e no abandono ao seu Mestre. Pedro vai além da opinião corrente, para acolher a novidade de Jesus: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (v. 16). Essa resposta ultrapassa a compreensão humana (da carne e do sangue), porque é o resultado de uma revelação do Pai (v. 17). Então, Jesus, em um clima de profunda abertura, revela a Pedro e aos outros discípulos o seu projeto para uma nova comunidade, sua Igreja, que vai durar para sempre (v. 18). Depois da paixão e morte de Cristo, a fé de Pedro, em Cristo, é total: "Senhor, Tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo" (Jo 21, 17).

 

Apesar das dificuldades e resistências contra esses textos de Mateus e João, o plano de Jesus em relação à Igreja subsiste no tempo, de acordo com a tradicional interpretação das três metáforas: a pedra (v. 18), as chaves (v. 19) e o binômio ligar-desligar (v. 19), que são a confirmação pós-pascal a Pedro do seu serviço de apascentar, no amor, o povo da nova aliança (cf. Jo 21,15 s). Para Jesus, que é  "o Senhor e o Mestre" (Jo 13, 14), que "não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida" (Mateus 20, 28), a autoridade é dada a Pedro e à Igreja para um serviço ao povo de Deus, em uma diaconia do amor sem fim.

 

O Concílio nos dá a dimensão teológica e missionária desse projeto: "Em cada época e toda nação é agradável a Deus aquele que o teme e age com justiça (cf. At 10, 35). Mas Deus quer santificar e salvar os homens, não individualmente, e sem qualquer vinculação mútua, mas quer transformá-lo em um povo "(LG 9). De fato, "a Igreja peregrina é missionária por natureza" (AG 2). Porque "existe para evangelizar" (EN 14). Não é secundário o fato de que Jesus fale de seu projeto estando presente em um território pagão (região de Cesaréia de Filipe), em um contexto geográfico semelhante ao da mulher cananeia: esses fatos narrados por Mateus demonstram o caráter universal da missão de Cristo e da Igreja.

 

A liturgia deste dia nos convida a refletir sobre a fidelidade e testemunho dos dois pilares da Igreja. Pedro mostra-nos as chaves do reino, primeiro príncipe dos apóstolos. Ouvir a sua confissão, que agora pertence a nós como seguidores da mesma fé. Sentimo-nos como a fonte da nossa alegria pertencer a Cristo, a fonte da qual ele bebeu a mesma fé, o compromisso de também nos colocarmos como testemunhas. É também um dia de ação de graças a Deus, a Cristo Jesus pelos seus apóstolos, os fundadores da Igreja, nossa mãe. O que há para dizer na história da Igreja até os nossos dias, quando se vive um percurso onde as fragilidades humanas foram suplantadas pela força do Espírito. Quando em nossas escolas, universidades e livros a história é escrita excluindo a colaboração dos cristãos e até mesmo condenando a missão da Igreja, este momento de nossa liturgia é a hora de, mesmo reconhecendo as fragilidades históricas de nossas comunidades, olharmos com confiança para a missão desempenhada pelos seguidores de Cristo na construção da civilização do amor.

 

Temos a certeza de que ainda estamos apoiados sobre a rocha, que é o próprio Cristo, e sobre a Pedra, que é a fé do Apóstolo Pedro e de seus sucessores, e hoje do Romano Pontífice, o Papa Bento XVI. As portas do inferno, mesmo quando se manifestaram com violência contra nós, não prevaleceram. A promessa de Cristo é realizada em sua plenitude. A história de Pedro, no início fraco, arrogante e com medo, se torna depois corajoso e sem medo de dizer a verdade e a morrer como testemunho da sua fidelidade a Cristo. Isso se tornou substancialmente a história de nossa Igreja e de muitos cristãos.

 

Foi determinante nesse árduo caminho a contribuição de Paulo, convertido na estrada de Damasco, o Apóstolo dos gentios. Ele primeiro atravessou as fronteiras do mundo judaico para anunciar a mensagem da salvação aos gentios. A segunda leitura de hoje soa como um testemunho alegre que Paulo confidencia a seu amigo e colaborador Timóteo: "Quanto a mim, meu sangue está para ser derramado em libação e é chegado o momento de partir. Combati o bom combate, terminei minha carreira, guardei a fé. Agora eu só tenho a coroa da justiça que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia, e não só a mim, mas também para todos aqueles que esperam a sua vinda ".

 

Ver espalhado em libação o seu sangue é a suprema aspiração do Apóstolo, após a labuta dura de seu intenso apostolado. Ele anseia ao martírio por querer estar totalmente assimilado a Cristo e, assim, dar o supremo testemunho de fidelidade e amor. Esses dois traçam, de modo diverso, o caminho da Igreja e de todos nós: fracos como Pedro antes de Pentecostes, porém fortalecidos depois da vinda do Espírito Santo. Nós, perseguidores do Senhor como Saulo, mas depois transfigurados pela graça. Quem sabe se estamos também nós realmente prontos e dispostos a dar nossas vidas para Cristo?

 

Embora no Brasil a Solenidade de Pedro e Paulo tenha sido transferida para o Domingo, no entanto, no dia de 29 de junho celebramos também os sessenta anos de nosso Papa Bento XVI, sucessor de Pedro, o doce Cristo na terra. Rezemos por sua missão! [Fonte: CNBB]