Quarta-feira, 18 de março de 2009
Terceira Semana da Quaresma, Ano Ímpar, 3ª Semana do Saltério, cor Litúrgica Roxa
Orientai meus passos, Senhor, segundo a vossa palavra, e que o mal não domine sobre mim! (Sl 118, 133)
Santos do Dia: Cirilo de Jerusalém (arcebispo e doutor da Igreja), Alexandre de Jerusalém (bispo e mártir), Fridiano (bispo), Eduardo (o mártir), Anselmo de Lucca (bispo), Cristiano (beato, abade), Salvador de Horta (confessor franciscano, 1ª ordem), Trófimo, Eucarpo e Tetrico.
Oração: Ó Deus de bondade, concedei que, formados pela observância da quaresma e nutridos por vossa palavra, saibamos mortificar-nos para vos servir com fervor, sempre unânimes na oração. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na Unidade do Espírito Santo.
I Leitura: Deuteronômio (Dt 4, 1.5-9)
É na prática da lei que o povo mostrará sua fidelidade
Moisés falou ao povo, dizendo: 1"Agora, Israel, ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir, para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida que o Senhor Deus de vossos pais vos dará.
5Eis que vos ensinei leis e decretos conforme o Senhor meu Deus me ordenou, para que os pratiqueis na terra em que ides entrar e da qual tomareis posse. 6Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência perante os povos, para que ouvindo todas as leis, digam: 'Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação!' 7Pois, qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos quanto o Senhor nosso Deus, sempre que o invocamos? 8E que nação haverá tão grande que tenha leis e decretos tão justos, quanto esta lei que hoje vos ponho diante dos olhos?
9Mas toma cuidado! Procura com grande zelo não te esqueceres de tudo o que viste com os próprios olhos, e nada deixes escapar do teu coração por todos os dias de tua vida; antes, ensina-o a teus filhos e netos". Palavra do Senhor!
Comentando a I Leitura[1]
Cumpri e praticai as leis e os decretos
A lei que o povo de Deus deve observar funda-se na aliança, que dele faz um povo único na face da terra, com identidade e missão específica: "neles está vossa sabedoria e inteligência" (versículo 6). Assim para a Igreja, novo povo de Deus: sua existência está ligada ao novo pacto assinado por Cristo com o próprio sangue; sua missão de salvação universal em Cristo constitui sua razão de ser, sua identidade.
Enquanto desenvolve sua missão no contexto histórico em que está inserida, não deve a Igreja confundir-se com o mundo, porém agir nele como o fermento na massa, conservando sua identidade. "Sacramento universal de salvação", ela anuncia fielmente a palavra do Evangelho que recebeu; "germe, e inicio" da grande reunião dos povos, dá graças na assembléia ao Deus-que-nos-é-vizinho, Pai de Cristo Jesus.
Salmo: 147(147B), 12-13.15-16.19-20 (+12a)
Glorifica o Senhor, Jerusalém!
12Ó Sião, canta louvores ao teu Deus! 13Pois reforçou com segurança as tuas portas, e os teus filhos em teu seio abençoou.
15Ele envia suas ordens para a terra, e a palavra que ele diz corre veloz. 16Ele faz cair a neve como lá e espalha a geada como cinza.
19Anuncia a Jacó sua palavra, seus preceitos suas leis a Israel. 20Nenhum povo recebeu tanto carinho, a nenhum outro revelou os seus preceitos.
Evangelho: Mateus (Mt 5, 17-19)
Jesus não veio para abolir a Lei
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 17"Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas". Não vim para abolir; mas para dar-lhes pleno cumprimento. 18Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir; nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da lei, sem que tudo se cumpra. 19Portanto, quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus. Palavra da Salvação!
Jesus não veio nem destruir a Lei (Dt 4, 8+), e toda a economia antiga, nem consagrá-la como intangível, mas dar-lhe, pelo seu ensinamento e pelo seu comportamento, uma forma nova e definitiva, na qual se realiza, afinal, plenamente aquilo a que a Lei se encaminhava (cf. Mt 1,22+; Mc 1, 15+). Isso é verdade, sobretudo no que diz respeito à “justiça (v. 20, cf. 3.15; Lv 19, 16; Rm 1,16+), justiça “perfeita” (v.42), de que as afirmações antiéticas dos vv. 21-48 apresentam vários exemplos notáveis. O preceito antigo torna-se interior, atingido o desejo e os motivos secretos (cf. 12, 34; 23, 25-28). Portanto, nenhum pormenor da Lei pode ser omitido, a não ser que tenha recebido esse remate (vv. 19-19, cf. 13.52). [BIBLIA DE JERUSALÉM]. Este texto é também apresentado na quarta-feira da 10ª Semana do Tempo Comum, ciclo par e impar e 6º domingo do Tempo Comum, ano “A”.
Comentário do Evangelho[2]
O mandamento inviolável
A severidade com que Jesus tratou a questão da violação dos mandamentos – “mesmo dos menores” – deve ser entendida no contexto de sua pregação e de seu próprio testemunho de vida. Estaria equivocado quem tentasse entendê-la com a mentalidade dos fariseus legalistas da época. O apego deles aos mandamentos estava longe da prática de Jesus. Os fariseus apegavam-se à letra da Lei, o Messias Jesus, no entanto, ia além, buscando viver o espírito escondido nas entrelinhas dessa mesma Lei.
Jesus
estava pouco interessado em minúcias, em questões irrelevantes com as quais os
fariseus se debatiam. Sua preocupação centrava-se na prática do amor
misericordioso, de modo especial em relação aos pobres e marginalizados; na
busca constante de fidelidade ao Pai, cuja vontade era um imperativo
inquestionável; na relativização das prescrições religiosas, quando estava em
jogo a defesa da vida; na liberdade profética diante de tudo quanto se
apresentava como empecilho para a realização do Reino. Portanto, seu horizonte
era mais vasto e mais radical que o de seus adversários.
Esta é a dinâmica na qual a vida do discípulo deve se inserir, tornando-se para
ele como que um mandamento inviolável. E por acreditar que este é o caminho
correto de acesso a Deus, o discípulo tanto o pratica como o ensina. O
legalismo farisaico é, pois, substituído pela fidelidade incondicional ao Pai.
São Cirilo de Jerusalém
Da vida de São Cirilo, anterior ao episcopado, sabe-se apenas que era sobrinho do bispo de Alexandria, o qual, provavelmente, o encaminhou aos estudos e o ordenou sacerdote.
Em 412 foi escolhido bispo e patriarca de Alexandria, no Egito, apesar de certa oposição de um partido contrário. Cirilo tornou-se conhecido sobretudo por sua posição firme em defesa da fé na controvérsia contra Nestório
Pois bem, no século IV, tinha-se aberto o debate teológico sobre a pessoa de Cristo com o arianismo, que negava a Jesus Cristo, Verbo encarnado, a igualdade com Deus Pai. Santo Atanásio, patriarca de Alexandria, foi então o principal defensor da doutrina católica no Concílio Ecumênico de Nicéia, em 325, cujo marco doutrinal é o credo que nós rezamos.
Um século depois, reabriu-se outro debate, sobre a pessoa de Cristo. Um monge de nome Nestório de Antioquia da Síria tinha sido elevado à cátedra de Constantinopla, e seu ensinamento vinha escandalizando os fiéis. Segundo ele, em Jesus Cristo havia duas pessoas: a pessoa divina habitava no homem, Jesus, como alguém numa tenda; em conseqüência não havia unidade pessoal das duas naturezas, divina e humana, em Cristo, e as ações de Cristo, mesmo a paixão e morte, não eram próprias de Jesus Deus, mas de Jesus simples homem. Nestório combatia também o título que tradicionalmente o povo dava a Maria, chamando-a Mãe de Deus. A reação entre os próprios fiéis era grande e esta novidade doutrinal ficou conhecida por todo o Oriente.
Desde o início da difusão desta doutrina, levantaram-se no Oriente teólogos e pastores que se lhe opuseram. O mais decidido foi Cirilo, patriarca de Alexandria. Primeiro, tentou os meios pacíficos para conseguir que Nestório retirasse sua afirmação que Nossa Senhora não devia ser chamada Mãe de Deus. Cirilo dizia a Nestório: "Os fiéis com o próprio bispo de Roma, Celestino, estão muito escandalizados; concedei, rogo-vos, a Maria o título de Mãe de Deus. Não é doutrina nova a que vos peço professar; é a crença de todos os Padres até aqui Nestório respondeu com insultos e calúnias. Cirilo então consultou o Papa Celestino e, ao receber resposta favorável, foi reunido um novo Concílio Ecumênico, em Éfeso, em 431. Aquele movimentado concilio aberto, num clima de profunda animosidade popular contra Nestório, acabou rejeitando a doutrina nestoriana e proclamando a doutrina ortodoxa em favor da maternidade divina de Maria Santíssima.
A tradição diz que ao saírem os bispos da sala do concílio foram recebidos por estrondosas aclamações do povo, que organizou entusiasticamente uma procissão à luz de tochas.
A memória do Concílio de Éfeso ficou gravada nos mosaicos que o Papa Sisto III mandou colocar no arco triunfal da Basílica de Santa Maria Maior em Roma, e que ainda hoje se podem admirar. A doutrina ortodoxa foi enunciada com estas palavras: "Há um só Cristo, um só Filho de Deus, um só Senhor; e pela união, não confusão, das duas naturezas, divina e humana em Cristo, a santa Virgem Maria é chamada Mãe de Deus”
O nestorianismo, porém, não morreu logo, e São Cirilo teve que sofrer perseguições e calúnias pela sua ação enérgica em defender a fé. No entanto, ele procurou criar um clima de união e paz, mesmo com seus adversários. Cirilo faleceu em 444, e a Igreja, como reconhecimento de seus méritos, declarou-o Doutor.
Quem se irrita com tudo, vive sempre descontente. (Frei Anselmo Fracasso)