Quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Santa Isabel da Hungria, Esposa e Religiosa, Memória 1ª Semana do Saltério, cor Litúrgica Branca

 

 

Santos: Acisclo e Vitória (mártires de Córdoba), Alfeu e Zaqueu (mártires), Aniano de Orléans (bispo), Dionísio de Alexandria (bispo), Eugênio de Florença (diácono), Gregório, o Taumaturgo (bispo), Gregório de Tours (bispo), Hugo de Lincoln (monge, bispo), Hugo de Noara (abade), Ilda de Whitby (abadessa), Namásio de Viena (bispo), Raverano de Séez (bispo), Rosa Filipina Duchesne (virgem), Joana de Segna (virgem, bem-aventurada), Salomé da Polônia (viúva, bem-aventurada)

 

 

Antífona: Vinde, benditos de meu Pai, diz o Senhor: eu estava doente e me visitastes. Em verdade vos digo, tudo o que fizestes ao menor dos meus irmãos foi a mim que o fizestes. (Mt 25, 34.36.40)

 

Oração: Ó Deus, que destes a santa Isabel da Hungria reconhecer e venerar o Cristo nos pobres, concedei-nos, por sua intercessão, servir os pobres e aflitos com incansável caridade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

Leitura: Apocalipse (Ap 4, 1-11)
Aquele que é, que era e que vem!

 

Eu, João, 1vi uma porta aberta no céu, e a voz que antes eu tinha ouvido falar-me como trombeta, disse: "Sobe até aqui, para que eu te mostre as coisas que devem acontecer depois destas". 2lmediatamente, o Espírito tomou conta de mim. Havia no céu um trono e, no trono, alguém sentado. 3Aquele que estava sentado parecia uma pedra de jaspe e cornalina; um arco-íris envolvia o trono com reflexos de esmeralda. 4Ao redor do trono havia outros vinte e quatro anciãos, todos eles vestidos de branco e com coroas de ouro nas cabeças. 5Do trono saiam relâmpagos, vozes e trovões. Diante do trono estavam acesas sete lâmpadas de fogo, que são os sete espíritos de Deus. 6Na frente do trono, havia como que um mar de vidro cristalino. No meio, em redor do trono, estavam quatro Seres vivos, cheios de olhos pela frente e por detrás. 7O primeiro Ser vivo parecia um leão; o segundo parecia um touro; o terceiro tinha rosto de homem; o quarto parecia uma águia em pleno voo. 8Cada um dos quatro Seres vivos tinha seis asas, cobertas de olhos ao redor e por dentro. Dia e noite, sem parar, eles proclamavam: "Santo! Santo! Santo! Senhor Deus todo-poderoso! Aquele que é, que era e que vem!"

 

9Os Seres vivos davam glória, honra e ação de graças ao que estava no trono e que vive para sempre. 10E cada vez que os Seres vivos faziam isto, os vinte e quatro anciãos se prostravam diante daquele que estava sentado no trono, para adorar o que vive para sempre. Colocavam suas coroas diante do trono de Deus e diziam: 11"Senhor, nosso Deus, tu és digno de receber a glória, a honra e o poder, porque tu criaste todas as coisas. Pela tua vontade é que elas existem e foram criadas". Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a Leitura

Santo! santo! santo! Senhor Deus todo-poderoso!

 

A idéia de paraíso evoca por vezes o eco de catequeses e pregações estereotipadas. Por certo, se ao falar de "liturgia eterna" pensarmos em certas funções indefinidamente prolongadas, sentir-nos-emos pouco atraídos. O "Sanctus", de que fala o Apóstolo, faz lembrar a atitude de nossos irmãos ortodoxos: em seu "Cherúbicon" concentram sua capacidade de admiração. Não recorramos a certas comparações demasiado "técnicas" ara compreender a visão de Deus. Talvez convenha refletir sobre ela em nível humano. O paraíso é encontro; é amor; é uma condição comunitária. [MISSAL COTIDIANO, ©Paulus, 1997]

 

 

Salmo Responsorial: 150, 1-2.3-4.5-6 (R/Ap 4, 8b) 
Santo, santo, santo, Senhor Deus onipotente!

 

1Louvai o Senhor Deus no santuário, louvai-o no alto céu de seu poder! 2Louvai-o por seus feitos grandiosos, louvai-o em sua grandeza majestosa!

 

3Louvai-o com o toque da trombeta, louvai-o com a harpa e com a citara! 4Louvai-o com a dança e o tambor, louvai-o com as cordas e as flautas!

 

5Louvai-o com os címbalos sonoros, louvai-o com os címbalos de júbilo! 6Louve a Deus tudo o que vive e que respira, tudo cante os louvores do Senhor!

 

 

Evangelho: Lucas (Lc 19, 11-28)
Parábola dos empregados

 

Naquele tempo, 11Jesus acrescentou uma parábola, porque estava perto de Jerusalém e eles pensavam que o Reino de Deus ia chegar logo. 12Então Jesus disse: "Um homem nobre partiu para um pais distante, a fim de ser coroado rei e depois voltar. 13Chamou então dez dos seus empregados, entregou cem moedas de prata a cada um e disse: 'Procurai negociar até que eu volte'. 14Seus concidadãos, porém, o odiavam, e enviaram uma embaixada atrás dele, dizendo: 'Nós não queremos que esse homem reine sobre nós'. 15Mas o homem foi coroado rei e voltou. Mandou chamar os empregados, aos quais havia dado o dinheiro, a fim de saber quanto cada um havia lucrado. 16O primeiro chegou e disse: 'Senhor, as cem moedas renderam dez vezes mais'. 17O homem disse: 'Muito bem, servo bom. Como foste fiel em coisas pequenas, recebe o governo de dez cidades'. 18O segundo chegou e disse: 'Senhor, as cem moedas renderam cinco vezes mais'. 19O homem disse também a este: 'Recebe tu também o governo de cinco cidades'.

 

20Chegou o outro empregado e disse: 'Senhor, aqui estão as tuas cem moedas que guardei num lenço, 21pois eu tinha medo de ti, porque és um homem severo. Recebes o que não deste e colhes o que não semeaste'. 22O homem disse: 'Servo mau, eu te julgo pela tua própria boca. Tu sabias que eu sou um homem severo, que recebo o que não dei e colho o que não semeei. 23Então, por que tu não depositaste meu dinheiro no banco? Ao chegar, eu o retiraria com juros'. 24Depois disse aos que estavam aí presentes: 'Tirai dele as cem moedas e dai-as àquele que tem mil'. 25Os presentes disseram: 'Senhor, esse já tem mil moedas!' 26Ele respondeu: 'Eu vos digo: a todo aquele que já possui, será dado mais ainda; mas àquele que nada tem, será tirado até mesmo o que tem.

 

27E quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente"'. 28Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo para Jerusalém. Palavra da Salvação!

 

Leitura paralela: Mt 25, 14-30

 

 

Comentando o Evangelho

Os talentos multiplicados

 

A impaciência dos discípulos levava-os a acreditar que o fim dos tempos estava chegando, e o Reino ia se manifestar glorioso. Jesus advertiu-os a não se deixarem levar por esta falsa ilusão escatológica. O que haveriam de experimentar em Jerusalém ainda estava longe de ser o fim.


Servindo-se da parábola dos talentos, Jesus tentou incutir-lhes uma nova visão da história: antes de chegar o fim, os discípulos teriam pela frente uma longa estrada a percorrer: seria o tempo de fazer frutificar os dons recebidos de Deus, por meio da vivência da caridade. Só depois dar-se-ia o encontro com o Senhor.


Esta maneira de entender a história é altamente positiva. Leva o discípulo a engajar-se na prática do amor, sem se deixar impressionar pela escatologia. Cabe-lhe aplicar-se com todo o empenho, de forma a produzir o máximo possível de frutos, quando chegar o Senhor. Neste sentido, saberá aproveitar cada momento de sua existência para fazer o bem. E terá sensatez suficiente para não cruzar os braços, nem se deixar intimidar diante dos obstáculos que terá de enfrentar.


O discípulo prudente sabe que o Senhor não aceitará desculpas para justificar o comodismo e o medo. Quem deixar perder-se os talentos recebidos, receberá o merecido castigo.
[O EVANGELHO NOSSO DE CADA DIA, Ano C,  ©Paulinas, 1996]

 

Para Sua Reflexão:

É uma montagem hábil de duas peças: a do pretendente a rei e a do dinheiro a juros. A primeira se inspira provavelmente em algum fato histórico, quando os romanos depunham e nomeavam reis locais, embora possa recordar antecedentes bíblicos (1Sm 10,27; 11.12). A segunda é uma exortação a trabalhar com os dons recebidos.  [Bíblia do Peregrino]

 

 

Santa Isabel da Hungria

Franciscana da ordem terceira (OFS), 1231

 

Dietrich de Apolda, na vida deste santo, relata que numa certa tarde de verão de 1207, o trovador Klingsohr da Transsilvânia anunciou ao Landgrave Hermano da Turíngia que, naquela mesma noite, havia nascido uma filha do rei da Hungria, e que a mesma seria exaltada em santidade e se tornaria esposa do filho do próprio Hermano. E na realidade, naquela mesma hora, nascia Isabel, em Presburgo (Bratislava) ou Saros-Patak, filha de André II da Hungria e de sua esposa Gertrudes de Andechs-Meran. Uma aliança como a que foi "profetizada" por Klingsohr tinha muitas vantagens políticas para ser recomendada, e a pequena Isabel foi prometida em casamento ao filho mais velho de Hermano. Com a idade de mais ou menos quatro anos, ela foi levada para a corte da Turíngia, no castelo de Wartburgo, perto de Eisenach, para ser educada junto com o futuro esposo. À medida que ia crescendo, ela sofreu muita crueldade da parte de alguns membros da corte, que não gostavam da sua bondade, mas, por outro lado, o jovem Luís (Ludwig) ficava cada vez mais encantado com ela. Segundo consta, toda vez que ele ia até a cidade, trazia um presente para ela, uma faca, uma bolsa, um par de luvas ou um rosário de corais. "Quando estava na hora de sua volta, ela corria ao seu encontro e ele a pegava nos braços com todo o carinho e lhe entregava o que havia trazido". Em 1221, quando Luis já tinha vinte e um anos de idade e era o landgrave no palácio do seu pai, e Isabel tinha quatorze anos de idade, foi realizada a cerimônia do enlace matrimonial, apesar das tentativas para persuadi-lo a devolvê-la à Hungria, por se tratar de uma noiva inconveniente. Ele declarou que preferia jogar fora uma montanha de ouro a desistir dela. Segundo consta, ela era "perfeita de corpo, amável, de cor morena, séria, modesta, tinha sempre palavras amáveis, fervorosa na oração e de grande generosidade para com os pobres, sempre cheia de bondade e de amor para com Deus". Ele também era simpático e "modesto como uma donzela", inteligente, paciente e sincero, inspirava confiança e era amado pelo seu povo. A vida de casado durou apenas seis anos, e um escritor inglês a definiu como "um idílio de uma ternura fascinante, de um ardor místico, de uma felicidade quase infantil, cuja semelhança não me lembro de ter encontrado em nenhum romance que li ou em nenhuma experiência humana vivida". Tiveram três filhos, Hermano, que nasceu em 1222 e morreu com a idade de dezenove anos, Sofia, que se tornou duquesa de Brabant, e a Beata Gertrudes de Aldenburg. Ao contrário de alguns esposos de outras santas, Luís não pôs nenhum obstáculo no modo como sua esposa praticava a sua caridade, na sua forma de vida simples e mortificada e em suas longas práticas de devoção. "Minha senhora", dizia uma de suas damas-de-honra, "costumava levantar-se durante a noite para orar, e meu senhor lhe pedia que se poupasse e tornasse a descansar, segurando-lhe a mão durante todo tempo com receio de que fosse machucar-se. Ele costumava pedir às camareiras que a despertassem delicadamente quando ele estivesse dormindo - e às vezes, quando julgavam que ele estava dormindo, ele estava apenas fingindo".

 

As obras de caridade materiais de Isabel eram tão grandes, que às vezes provocavam críticas desfavoráveis. Em 1225 aquela parte da Alemanha foi visitada por uma carestia muito grande e ela esgotou o seu próprio tesouro e distribuiu toda a reserva de alimentos entre os que mais sentiam a calamidade. Na ocasião, o landgrave se encontrava ausente, e quando regressou, os oficiais do palácio se queixaram da generosidade excessiva dela para com os pobres. Mas Luís, sem investigar o problema de perto, perguntou-lhes se ela tinha alienado alguma das suas propriedades. Eles responderam que não. "Quanto às suas obras de caridade", disse então ele, "elas trarão sobre nós as bênçãos divinas. Nunca passaremos necessidades enquanto a deixarmos socorrer os pobres como está fazendo". O castelo de Wartburgo fora construído no alto de um rochedo, de sorte que os enfermos e os fracos não podiam chegar até lá (o trajeto era conhecido pela alcunha de "quebra-joelhos"). Por isso, Santa Isabel construiu um hospital aos pés do rochedo para acolher os que não podiam subir até o alto, onde ela muitas vezes os alimentava com as próprias mãos, arrumava-lhes as camas e os assistia em pleno calor do verão, quando o lugar parecia insuportável. Crianças desvalidas, sobretudo os órfãos, eram assistidas às suas próprias custas. Ela fundou um outro hospital, onde vinte e oito pessoas eram constantemente atendidas, e ela alimentava diariamente novecentas pessoas necessitadas junto à entrada do palácio, além de inúmeras outras em diversas partes dos seus domínios, de sorte que as rendas em suas mãos eram realmente um patrimônio dos desamparados. Mas as obras de caridade de Isabel eram acompanhadas pela discrição. E ao invés de incentivar à indolência daqueles que podiam trabalhar, ela os empregava em atividades que podiam executar, segundo as forças e a habilidade de cada um. Conta-se uma história de Santa Isabel, tão famosa que seria desnecessário repeti-la aqui, mas que o Pe. Delehaye a escolhe como exemplo do modo como os hagiógrafos muitas vezes enfeitam um conto para causar maior impressão nos leitores.

 

Todos conhecem o belo episódio da vida de Santa Isabel da Hungria, quando, no próprio leito que ela partilhava com o esposo, ela acamou um pobre leproso... O landgrave indignado acorreu até o quarto e atirou fora as cobertas "Mas", segundo as nobres palavras do historiador, "naquele mesmo instante, o Deus Todo-Poderoso abriu os olhos de sua alma, e em lugar de um leproso ele viu a figura de Cristo crucificado estendido no leito". Este admirável relato de Dietrich de Apolda foi considerado por demais ingênuo pelos biógrafos posteriores, que em razão disso transformaram a sublime visão de fé numa aparição material. Tunc aperuit Deus interiores principis oculos, escreveu o historiador. No lugar onde havia repousado o leproso, dizem os hagiógrafos modernos, "jazia um crucifixo que sangrava, com os braços estendidos"

 

Por esse tempo, estavam sendo feitos grandes esforços para organizar outra cruzada, e Luís da Turíngia pegou a cruz para promovê-la. Na festa de São João Batista, ele se despediu de Santa Isabel e foi ao encontro do Imperador Frederico II, na Apúlia. A 11 do mês de setembro seguinte ele morria em Otranto, vitima da peste. A noticia só chegou na Alemanha em outubro, logo após o nascimento da segunda filha de Isabel. A madrasta foi quem lhe deu a infausta noticia, falando-lhe "a respeito do que acontecera" ao esposo, e a respeito do "desígnio de Deus". Isabel não entendeu bem o que ela quis dizer: "Já que ele foi feito prisioneiro", disse ela, "com a ajuda de Deus e dos nossos amigos, ele será libertado". Quando lhe explicaram que ele não era um prisioneiro, mas que estava morto, ela exclamou: "O mundo morreu para mim, e com ele, tudo quanto era alegria", e pôs-se a andar de um lado para o outro dentro do castelo, gritando como se estivesse louca.

 

O que aconteceu depois é um objeto de muita controvérsia. Segundo o testemunho de uma de suas damas-de-honra chamada Isentrude, o cunhado de Isabel de nome Henrique, que era regente do filho dela, expulsou-a do castelo de Wartburgo, durante aquele mesmo verão, junto com os filhos e duas assistentes, a fim de poder ele próprio assumir o poder. E existem relatos chocantes sobre as agruras e o desprezo que ela teve que suportar, até ser retirada de Eisenach por sua tia Matilda, abadessa de Kitzingen.

 

Existem duas alternativas: uns afirmam que ela renunciou aos seus direitos de viúva sobre a propriedade de Marburgo, em Hesse; outros dizem que ela chegou até a sair do castelo de wartburgo de livre e espontânea vontade. De Kitzingen ela partiu para visitar seu tio Eckembert, bispo de Bamberga, que colocou à disposição dela o seu castelo de Pottenstein, para onde ela foi com o filho Hermano e com a criancinha, deixando a pequena Sofia com as freiras de Kitzingen. Eckembert alimentava planos ambiciosos com um segundo casamento para Isabel, porém ela se recusou a dar ouvidos a ele. Antes da partida do marido para a cruzada, ela fizera com ele a promessa de nunca mais se casarem de novo. No começo do ano de 1228, o corpo de Luís foi trazido para a sua terra natal e enterrado solenemente na igreja abacial de Reinhardsbrunn . Os parentes de Isabel tinham tomado todas as providências para isso, e na Sexta-Feira Santa, na igreja dos frades franciscanos, em Eisenach, ela renunciou solenemente ao mundo, e mais tarde recebeu o manto e o cordão que formavam o hábito da Ordem III de São Francisco.

 

O Mestre Conrado de Marburgo desempenhou um papel importante em todos esses acontecimentos, ele que, a partir de então, humanamente falando exerceu uma influência decisiva na vida de Santa Isabel. Este sacerdote tinha desempenhado um papel de destaque até então, durante algum tempo, já que tinha sido o sucessor do franciscano Pe. Rodinger como confessor dela, em 1225. O Landgrave Luís, em comum acordo com o Papa Gregório IX e muitos outros, tinha Mestre Conrado em alto conceito, e permitido que a esposa fizesse um voto de obediência a ele, ressalvada, é claro, a autoridade do próprio esposo. Todavia, dificilmente podemos deixar de concluir que a experiência de Conrado como inquisidor bem sucedido de hereges e sua personalidade autoritária e severa, quando não cruel, fizeram dele uma pessoa inadequada para ser diretor de Santa Isabel.

 

Alguns dos seus críticos mais recentes se deixaram levar por crítica hostil, movidos pela emoção e não pelo raciocínio e inteligência. Por outro lado, os defensores e apologistas dele nem sempre estiveram isentos de argumentações especiais. Do ponto de vista subjetivo, a verdade é que Conrado, ao oferecer a Isabel obstáculos que ela soube superar, a ajudou em seu caminho para a santidade (embora não possamos saber se um diretor de maior sensibilidade não a teria guiado a maiores alturas ainda); do ponto de vista objetivo, os seus métodos eram agressivos. Dos Frades Menores Santa Isabel havia adquirido um amor à pobreza que ela pôde pôr em ação apenas até um certo limite durante todo o tempo em que foi landgravina de Turíngia. Agora que seus filhos já eram independentes e estavam encaminhados na vida, ela foi para Marburgo, mas foi obrigada a sair de lá e foi morar durante algum tempo numa pequena casa de campo em Wehrda, às margens do rio Lahn. Em seguida, ela construiu uma casinha nos subúrbios de Marburgo, e anexa à mesma, um hospital para cuidar dos doentes, dos idosos e dos pobres, a cujo serviço ela se dedicou totalmente.

 

Em certo sentido Conrado agiu como um freio prudente e necessário sobre o entusiasmo dela durante esse tempo: não permitia que ela fosse mendigar de porta em porta ou se despojar total e definitivamente de todos os seus bens ou destinar mais do que uma determinada quantia, cada vez, em esmolas, ou correr o risco de infecção causada pela lepra e por outras doenças. Nesses aspectos, ele agiu com cuidado e sabedoria. Mas "o Mestre Conrado provou a sua constância em muitos sentidos, procurando dobrar a sua própria vontade, em todas as coisas. A fim de poder atormentá-la ainda mais, ele a afastou de todas as pessoas de sua convivência que lhe eram particularmente caras, inclusive de mim, Isentrude, a quem ela amava. Ela me despediu com grande tristeza e com muitas lágrimas. Por fim, ele mandou embora minha companheira Jutta, que estava com ela desde a infância e a quem ela amava com um afeto especial. Em meio às lágrimas e soluços, a Beata Isabel a viu partir. O Mestre Conrado, de saudosa memória, fez tudo isso com seu zelo e na boa-fé, com receio que nós todas lhe falássemos da sua grandeza dos tempos passados e ela começasse a sentir saudade daqueles tempos. Além disso, agindo dessa forma, ele afastou dela qualquer conforto que ela pudesse usufruir com a nossa presença junto a ela, pois ele desejava que ela se apegasse somente a Deus". No lugar das suas dedicadas damas-de-honra, ele colocou duas "mulheres rudes", que lhe contavam tudo sobre ela, desde suas palavras até suas ações, quando as mesmas infringiam as suas ordens pormenorizadas nas coisas mais insignificantes. Ele chegava a castigá-la com tapas no rosto e golpes desferidos com uma vara longa e grossa", cujas marcas duravam por semanas. Nenhuma alegação quanto a "outros tempos, outros costumes" pode tirar a dor aguda do desabafo amargo de Isabel à sua amiga Isentrude: "Se já tenho tanto medo de um homem mortal, como poderá não me inspirar um terror o Senhor e Juiz do Universo!"

 

A tática de Conrado de preferir, dobrar a vontade dela a orientá-la, não foi bem sucedida. Referindo-se a ele e aos seus métodos disciplinares, Santa Isabel compara-se a uma planta aquática na correnteza, durante uma inundação: a água a abatia totalmente, mas quando as chuvas passam, ela se levanta de novo, reta, viçosa e ilesa. Certa vez, quando ela saiu para fazer uma visita que Conrado não aprovava, ele mandou trazê-la de volta. "Nós somos como o caracol", observava ela, "que se encolhe para o interior de sua casa quando está para chover. Assim, nós obedecemos e recuamos do caminho que estávamos percorrendo". Ele tinha essa boa autoconfiança que se vê com tanta frequência quando um senso de humor nos ajuda a nos submetermos a Deus.

 

Certa vez, um nobre magiar chegou em Marburgo e pediu para ser levado até a residência do filho do seu soberano, de cujos problemas ele fora informado. Ao chegar no hospital, ele avistou Isabel em seu modesto roupão cinza, sentada junto à sua roda de fiar. O nobre em toda a sua magnificência estacou em frente dela, benzeu-se pasmado e disse: "Quem diria, a filha de um rei fiando!" Ele queria levá-la de volta à corte da Hungria, mas Isabel não quis ir. Seus filhos, seus pobres, o túmulo do esposo, tudo estava lá na Turíngia, e ela iria permanecer aqui pelo resto de sua vida. Mas não seria por muito tempo. Ela vivia em meio a grande austeridade e trabalhava sem cessar, em seu hospital, nas casas dos pobres, pescando no riacho para ganhar um pouco mais de dinheiro para ajudar os que sofriam; mesmo quando ela própria estava doente, costumava entregar-se ao trabalho de fiar e de cardar a lã. Estava em Marburgo menos de dois anos, quando a sua saúde começou a entrar em colapso. Quando jazia no leito, doente, a sua assistente a ouviu cantando suavemente. "Como o vosso canto é suave, madame!", disse-lhe ela. "Eu te direi por que canto assim", respondeu Isabel. "Entre mim e a parede, havia um passarinho cantando tão alegremente para mim, e era tão suave o seu cantar, que eu tive que me pôr a cantar também". A meia-noite, na véspera de sua morte, ela rompeu o seu silêncio e disse: "Está se aproximando a hora em que o Senhor nasceu e foi colocado numa manjedoura e pelo seu poder infinito criou um nova estrela. Ele veio para redimir o mundo, e Ele irá me redimir". E ao cantar do galo, ela acrescentou: "Chegou o momento em que Ele ressurgiu do túmulo e rompeu as portas do inferno, e Ele virá me libertar". Santa Isabel faleceu na tarde do dia 17 de novembro de 1231, com vinte e três anos completos.

 

Durante três dias, seu corpo foi velado na capela do hospital, onde foi enterrado e onde, por sua intercessão, aconteceram muitos milagres. O Mestre Conrado começou a reunir depoimentos a respeito de sua santidade, porém faleceu antes sem vê-la canonizada, o que só aconteceu em 1235. No ano seguinte, suas relíquias foram trasladadas para a igreja de Santa Isabel, em Marburgo, construída por seu cunhado Conrado, na presença do Imperador Frederido II e de "uma tão grande afluência de várias nacionalidades, povos e línguas como dificilmente se viu ou se verá nestas terras da Alemanha". As relíquias de Santa Isabel da Hungria lá repousam, sendo objeto de peregrinação de todas as partes da Alemanha e de além-fronteira, até que, em 1539, um landgrave protestante de Hesse chamado Filipe as transportou para um local ignorado. [A vida dos Santos de Butler, ©Editora Vozes]

 

Já seria bom demais se apenas ecoássemos o bem que outros nos fizeram. (Frei Neylor Tonin)