Quarta-feira, 8 de junho de 2011

7ª Semana da Páscoa,  3ª do Saltério (Livro II),  cor Litúrgica Branca

 

Hoje: Semana de oração pela unidade dos cristãos

 

Santos: Calíopa (virgem, mártir), Círia de Troyes (virgem), Clodulfo de Metz (bispo), Eustadíola de Moyen-Moutier (abadessa), Efrém (Turquia, 306-373), Gildardo de Rouen (bispo), Heráclio de Sens (bispo), Maximino de Aix (bispo), Medardo de Noyon (bispo), Melânia, a mais velha (viúva de Roma), Roberto de Frassinoro (abade), Salustiano da Sardenha (eremita, mártir), Severino de Sanseverino (bispo), Vitorino de Camerino (bispo), William Fitzherbert (bispo de York).

 

Antífona: Povos todos, aplaudi e aclamai a Deus com brados de alegria, aleluia! (Sl 46,2)

 

Oração: Ó Deus misericordioso, concedei que a vossa Igreja, reunida no Espírito Santo, se consagre ao vosso serviço num só coração e numa só alma. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

I Leitura: Atos (At 20, 28-38)

Cuidem do rebanho que o Senhor lhes confiou

 

Naqueles dias, Paulo disse aos anciãos da Igreja de Éfeso: 28"Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo vos colocou como guardas, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o sangue do seu próprio Filho. 29Eu sei, depois que eu for embora, aparecerão entre vós lobos ferozes, que não pouparão o rebanho. 30Além disso, do vosso próprio meio aparecerão homens com doutrinas perversas que arrastarão discípulos atrás de si. 31Por isso, estai sempre atentos: lembrai-vos que durante três anos, dia e noite, com lágrimas, não parei de exortar a cada um em particular.

 

32Agora entrego-vos a Deus e à mensagem de sua graça, que tem poder para edificar e dar a herança a todos os que foram santificados. 33Não cobicei prata, ouro ou vestes de ninguém. 34Vós bem sabeis que estas minhas mãos providenciaram o que era necessário para mim e para os que estavam comigo. 35Em tudo vos mostrei que, trabalhando deste modo, se deve ajudar os fracos, recordando as palavras do Senhor Jesus, que disse: 'Há mais alegria em dar do que em receber"'. 36Tendo dito isto, Paulo ajoelhou-se e rezou com todos eles. 37Todos, depois, prorromperam em grande pranto, e lançando-se ao pescoço de Paulo, o beijavam, 38aflitos, sobretudo por lhes haver ele dito que não tornariam a ver-lhe o rosto. E o acompanharam até o navio. Palavra do Senhor!

 

Comentando a I Leitura

Entrego-vos a Deus e à mensagem de

sua graça, que tem poder para edificar

 

Paulo põe em estreita relação a missão do apóstolo e a especial vocação por parte do Espírito, que dá a seu ministério um caráter sagrado e o coloca no âmago da própria ação salvífica, procedente do seio da Trindade. Desta essência teologal da missão apostólica derivam certas atitudes e certa responsabilidade. Antes de tudo a vigilância, não penas entendida como ação inquisitiva e censória perante inimigos internos e externos que ameaçam a vida da comunidade, mas, sobretudo, como disponibilidade dos pastores a se dar a sim mesmos, “noite e dia”, pelo bem do rebanho, a ponto de imitar o bom Pastor na doação da própria vida. Depois, a confiança no poder da Palavra de Deus e de sua graça. É tal este poder que Paulo não confia a Palavra aos pastores, como deveria fazer numa transmissão de poderes, porém confia os pastores ao poder da Palavra. Finalmente, o desinteresse. Paulo sempre recusou ser pesado a seus ouvintes, para ser livre e proclamar, com sua atitude, a total gratuidade do dom de Deus. [Missal Cotidiano, 2007, Paulus]

 

 

 

Salmo: 67 (68), 29-30.33-34.35-36 (R/.33a)
Reinos da terra cantai ao senhor

 

Suscitai, ó Senhor Deus, suscitai vosso poder, confirmai este poder que por nós manifestastes, a partir de vosso templo, que está em Jerusalém, para vós venham os reis e vos ofertem seus presentes!

 

Remos da terra, celebrai o nosso Deus, cantai-lhe salmos! Ele viaja no seu carro sobre os céus dos céus eternos. Eis que eleva e faz ouvir a sua voz, voz poderosa.

 

Dai glória a Deus e exaltai o seu poder por sobre as nuvens. Sobre Israel, eis sua glória e sua grande majestade! Em seu templo ele é admirável e a seu povo dá poder. Bendito seja o Senhor Deus, agora e sempre. Amém, amém!

 

Evangelho: João (Jo 17, 11b-19)

Para que eles sejam um assim como nós somos um

 

Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos para o céu e rezou, dizendo: 11b"Pai santo, guarda-­os em teu nome, o nome que me deste, para que eles sejam um assim como nós somos um. 12Quando eu estava com eles, guardava-os em teu nome, o nome que me deste. Eu guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição, para se cumprir a escritura.

 

13Agora, eu vou para junto de ti, e digo estas coisas, estando ainda no mundo, para que eles tenham em si a minha alegria plenamente realizada. 14Eu lhes dei a tua palavra, mas o mundo os rejeitou, porque não são do mundo, como eu não sou do mundo. 15Não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno. 16Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. 17Consagra-os na verdade; a tua palavra é verdade. 18Como tu me enviaste ao mundo, assim também eu os enviei ao mundo. 19Eu me consagro por eles, a fim de que eles também sejam consagrados na verdade". Palavra da Salvação!

 

 

Comentário o Evangelho

Uma dolorosa exceção 

 

Jesus não poupa seus discípulos das tribulações que o mundo lhes prepara. Melhor dizendo: o Mestre não lhes reserva um lugar especial, geograficamente separado, onde estejam imunes de tentações. A prova de sua fé acontece no confronto com o Maligno. É então que podem dar mostras da solidez ou da fragilidade de sua adesão ao Senhor.

 

No colóquio com o Pai, Jesus alude ao fato da deserção de um discípulo, seduzido pelo Maligno: "Nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição". Nesta dolorosa exceção, sente-se como que fracassado em sua missão.

 

Todo o seu ministério foi marcado por uma dedicação exemplar àqueles que o Pai lhe confiara. Guardava-os, com desvelo, para não se desviarem do caminho. Falava-lhes do Pai, revelando-lhes a sua face amorosa. Consagrou-os na verdade e os enviou para serem continuadores de sua missão.

 

Entretanto, além de não tê-los segregado, também não os privou da liberdade. Assim, ficou aberto o espaço para a infidelidade e a deserção. Alguém deu mais atenção ao mundo do que à palavra do Mestre. Foi o que fez Judas, o "filho da perdição". Foi-lhe franqueada a salvação. Ele, porém, a rejeitou.

 

A perseverança dos discípulos é obra do Espírito, força divina que os move a resistir diante das sugestões do Maligno. Quem é cauteloso sabe como precaver-se! [O EVANGELHO NOSSO DE CADA DIA, Ano A, ©Paulinas, 1997]

 

Prece dos fiéis (Deus Conosco)

Ó Deus e Pai, confiamos imensamente em vossa misericórdia, e por isso vos apresentamos nossas preces. Ouvi-nos.

Pela Igreja, para que seja sempre amparada pelo Pai em sua missão de anunciar o Reino, rezemos ao bom Deus. Guardai e protegei vosso povo, Senhor!

Para que a verdade e a sabedoria do evangelho encontrem morada em cada coração humano, rezemos ao bom Deus.

Pelos marginalizados e oprimidos, para que sejam amparados pelos cristãos, e considerados pelos governantes em suas decisões políticas, rezemos ao bom Deus.

Para que as diversas confissões cristãs, com humildade, procurem livrar-se de preconceitos e convertam-se à unidade da verdade, rezemos ao bom Deus.

(Intenções próprias da comunidade)

 

 

Oração sobre as Oferendas:

Senhor nosso Deus, acolhei as oferendas do sacrifício que instituístes e, pela celebração desta eucaristia, em que vos rendemos a devida glória, completai em nós a vossa redenção. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Quando vier o paráclito que vos enviarei, o Espírito de verdade que procede do Pai, ele dará testemunho de mim e vós também o dareis, diz o Senhor, aleluia! (Jo 15, 26-27)

 

Oração Depois da Comunhão:

Ó Deus, que a participação neste sacramento aumente em nós a vossa graça e, purificando-nos pela sua força, nos prepare sempre mais para receber tão grande dom. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Santo Efrém[1]

 

 

 

Efrém nasceu em 306 em Nisibina ou em seus arredores (Mesopotâmia), Depois de ter estudado junto ao bispo daquela cidade, Jacob (Jaime) se converteu no animador de uma escola de doutrina, poesia e canto. Refugiou-se em Edesa no ano 367, por causa da ocupação persa de Nisibina, e nela prosseguiu suas atividades de ensinamento, unidas a composição de muitos escritos exegéticos, catequéticos e hinos em siríaco. Sua exuberância poética era tão grande e tal o gosto dos sírios pela poesia, que muitas homilias estão compostas em versos. Recebeu o título de "Profeta dos Sírios" e "Cítara do Espírito Santo" e a tradição se alegrou em engrandecê-lo, ao estilo dos dois primeiros apotegmas, atribuindo-lhe a concessão milagrosa dos carismas da palavra, da sabedoria e também das lágrimas. A respeito dele foi escrito que era tão natural vê-lo chorar como respirar. Levou, desde muito jovem, juntamente com outros, vida comum na castidade, pobreza e penitência e retiro, compatível, não obstante, com o ensinamento e a pregação. Foi ordenado diácono, mas não sabemos exatamente quando. Muitos são os escritos sobre a sua vida, mas lamentavelmente, mistura-se muitos elementos lendários. Várias fontes revelam que se ocupou com grande generosidade a assistência aos enfermos, famintos, dando sepultura aos mortos numa época de grande miséria. Seja verdadeira ou não esta informação, é de grande significado, pois a Tradição queria transmitir dele um perfil completo, não só como grande escritor e compositor de hinos, como também, a imagem de um diácono entregue ao serviço dos mais necessitados.

 

Morreu no ano 373, sendo tão venerado que rapidamente seus hinos e outros escritos foram introduzidos nas celebrações litúrgicas. Seus escritos foram traduzidos para o grego e latim e, com adaptações, introduzidos em muitíssimas recopilações; sob o impulso do grande, ainda que ingênuo, entusiasmo e amor que se lhe professava, atribuíram-lhe falsamente muitas obras que não o pertenciam.

 

A grandeza de Santo Efrém chegou ao seu ponto mais elevado nos cantos de louvor à Mãe de Deus. Faltava ainda muito tempo para o Concílio de Éfeso e já o pensamento de Efrém sobre ela havia adquirido um grande desenvolvimento e aprofundamento. Nela contempla e celebra a extraordinária beleza e vê refulgir nela, mediante uma coparticipação extremamente contínua e privilegiada, a conformidade com Cristo: o Senhor e sua Mãe são os únicos seres perfeitamente belos neste mundo contaminado; na Senhora, resplandece  uma  semelhança  com  Deus  e semelhança com Deus única e excepcional. Estes pensamentos são expressados   de   maneira   repetida  por Efrém, sobretudo nos Hinos para a Natividade.

 

O padre Efrém teve, quando criança, um sonho ou uma visão: saía uma videira de sua boca e crescia e enchia toda terra; e estava completamente cheia de ramos; e vieram todos os pássaros do céu e comeram do fruto da videira. Mas, quanto mais comiam, mais se multiplicavam os frutos.

 

Outra vez, um dos santos teve esta visão: um exército de anjos descia do céu por ordem de Deus e levava um rolo na mão, ou seja, um volume escrito de ambos os lados. E se perguntavam: "a quem devemos confiá-lo?" Uns diziam: "a este"; outros diziam: "a este outro"; finalmente, se decidiram e disseram: "verdadeiramente são santos e dignos, mas a ninguém pode ser confiado este livro senão a Efrém". Logo viu o ancião que entregavam o volume a Efrém. Ao amanhecer, quando se levantou, ouviu como um fonte que brotava da boca de Efrém, enquanto compunha, e soube assim que provinha do Espírito Santo o que saía de seus lábios.

 

Um dia, enquanto Efrém passeava pelo caminho, surgiu uma meretriz de emboscada para seduzi-lo ou, ao menos, para provocá-lo, posto que ninguém o havia visto jamais preso pela ira. Ele a disse: "segue-me". Quando chegaram a um lugar muito movimentado, disse-lhe: "faz o que queres aqui, neste lugar". Mas ela, vendo a multidão disse: "como podemos fazer diante desta grande multidão sem sentir vergonha?" E ele respondeu: "se nos envergonhamos diante das pessoas, tanto mais deveríamos nos envergonhar diante de Deus que escuta no segredo das trevas. E ela, cheia de vergonha, afastou-se sem ter realizado o que pretendia.”

 

Santo Efrém, o Sírio - II[2]

 

Efrém, alcunhado "de Nísibe" ou simplesmente "o Sírio", é incontestavelmente o mais fecundo, o mais importante e o mais bem recebido autor de toda a literatura síria cristã. Nascido em 306 como filho de pais cristãos em Nísibe ou nas proximidades, depois de ser batizado aderiu aos ascetas "filhos da Aliança", entre os quais se contava também Afraates, e carrega tradicionalmente o título de diácono. Sob o primeiro bispo de Nísibe, Tiago (+ 338), por ele venerado como seu próprio mestre, ele próprio atuou como professor em Nísibe. Nesta época surgiu a maior parte de seus célebres Carmina Nisibena (1-34), bem como os hinos De paradiso, Contra haereses e De fide. O resultado da campanha persa do imperador Juliano "Apóstata" (abril-junho de 363) - Juliano tombou em combate, e seu sucessor Joviano deixou Nísibe para os persas - foi catastrófico para a cidade de Nísibe, que durante a vida de Efrém havia resistido heroicamente a três cercos por parte dos persas (338, 346, 350). Efrém, em seus "Hinos contra Juliano" e nos "Hinos sobre a Igreja", que os antecederam, decanta o acontecimento como um duro, porém merecido castigo pela volta de Juliano aos antigos cultos dos deuses e por seu procedimento em relação aos cristãos. Como no tratado de paz com Joviano os persas haviam insistido na deportação da maior parte da população romana de Nísibe, também Efrém mudou-se em 364 para Edessa, onde continuou a atuar como professor durante os dez anos restantes de sua vida, até sua morte a 9 de junho de 373. Mas não fica claro qual o papel por ele desempenhado na fundação da célebre "escola dos persas", que por algumas fontes é atribuída a ele. Seja como for, os anos em Edessa parecem ter sido cheios de incansável trabalho, embora não se possa dizer com segurança quais de suas numerosas obras foram escritas durante este período; mas certamente figuram entre elas o comentário ao Diatessaron de Taciano (cf. cap. III.I.C.2) e os "Hinos sobre a fé" antiarianos.

 

A atuação e importância de Efrém ultrapassam de longe o universo língua siríaca. É verdade que ele próprio escreve exclusivamente em siríaco, mas já durante sua vida - o que é um fato sem paralelo neste terreno - ele encontrou bom acolhimento por parte tanto da igreja grega como da igreja latina. Jerônimo o incluiu em seu livro De viris illustribus [115], e refere que as obras de Efrém eram lidas na igreja após a leitura da Sagrada Escritura; ele próprio teria lido na tradução grega seu escrito sobre o Espírito Santo. O historiador Sozômeno atesta que no começo do século V dispunha de uma grande parte das obras de Efrém em tradução grega [h e III 16,4]. Hoje, porém, muita coisa inautêntica foi introduzida na ampla tradição do Ephraem Graecus; o mesmo vale também para a tradição textual latina e armênia. Sua importância na igreja ocidental, atual até os dias de hoje, é realçada pelo título honorífico de "Doutor da Igreja" que lhe foi conferido pelo Papa Bento XV em 5 de outubro de 1920, o que o coloca entre os grandes Padres da Igreja (cf. Introdução II). A fama literária de Efrém deriva, sobretudo de seus artísticos hinos, memre (discursos métricos) e madrashe (cânticos) teológicos, ascéticos e litúrgicos, que certamente têm seu ponto alto nos sete últimos "hinos sobre a fé" [81-87] antiarianos, meditações sobre a tradicional lenda da origem das pérolas em uma concha através da fecundação pelo orvalho do céu, como imagem da concepção virginal de Maria. Com isto Efrém faz desabrochar ao máximo a típica e já tradicional forma síria de fazer teologia; já o primeiro autor sírio, Bardesanes, a teria inaugurado, e ela desempenha um papel importante na maioria dos teólogos sírios, de forma eminente p. ex. em Romano o Melodioso de Emesa (+ 560). Basicamente a teologia síria pensa menos em conceitos e em argumentação discursiva do que o faz sobretudo a teologia latina, e em menor escala também a grega; ela pensa sobretudo através de histórias, imagens e símbolos, que se deixam apreender melhor sob a forma de poesias, cânticos e orações. Esta maneira de pensar constitui o traço básico da teologia de Efrém. Para ele a raiz de todos os erros teológicos fundamenta-se no desejo de querer apreender Deus com o pensamento filosófico, racionalista, quando ele só pode ser percebido através das imagens e dos símbolos com que os dois "livros da revelação", a Sagrada Escritura e a criação, apontam para ele. Por isso, na cristologia Efrém parte dos títulos bíblicos de Cristo (rei, pastor, noivo, médico); na doutrina trinitária parte da natureza (sol, fogo, raio, calor, Pai e Filho como árvore e fruto); na soteriologia ele compara o paraíso com a arca de Noé e com o Monte Sinai, e descreve a redenção como o "caminho do madeiro ao madeiro" (da árvore do paraíso à cruz de Cristo). É verdade que tal linguagem simbólica também pode ser encontrada nos Padres gregos e ocidentais, mas em Efrém sua plenitude, qualidade poética e papel teológico vão muito além.

 

Além disto, Efrém é comprovadamente também um mestre da prosa artística siríaca, como o comprovam suas cinco refutações contra Marcião, Mani e Bardesanes, e suas homilias e cartas.

 

 

A Unidade dos Cristãos e a Paz do Mundo

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB, Arcebispo de Olinda e Recife - PE

 

Quando vemos os conflitos e guerras que sangram o mundo atual, nos damos conta de como seria importante que as Igrejas cristãs se unissem em uma ação conjunta em favor da paz e da justiça internacional e conseguissem mobilizar em um diálogo profundo as outras religiões a serviço das melhores causas da humanidade.

 

Uma das mais profundas graças divinas do nosso tempo é que existem muitas iniciativas de diálogo e de busca de unidade entre as diferentes Igrejas. Uma das mais importantes é a Semana de oração pela unidade dos cristãos. A cada ano, no hemisfério norte, em janeiro e no sul do mundo, nos dias que antecedem a festa de Pentecostes, várias Igrejas consagram uma semana à oração e ao diálogo pela unidade dos cristãos. Isso ocorrerá nesta semana e, em todo o Brasil, contará com cultos ecumênicos, encontros de oração e iniciativas de diálogo entre as Igrejas. A cada ano, uma federação local de Igrejas escolhe um tema comum. Em geral, estes temas têm sido propostos por Igrejas do mundo dos pobres. Neste ano, o tema escolhido vem da descrição que a Bíblia faz da primeira comunidade cristã em Jerusalém: "Unidos no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42).

 

Mais do que uma descrição da realidade, a unidade da primeira comunidade cristã é uma proposta de vida e um objetivo a ser alcançado por todas as Igrejas. Sempre que se conseguiu atingir este ideal, foi em meio à grande diversidade de culturas e de formas de expressar a fé. No tempo do Novo Testamento, uma parte das comunidades cristãs era de pessoas vindas do Judaísmo, marcadas pela tradição judaica. Na mesma comunidade, havia irmãos e irmãs convertidos de cultos orientais e do mundo cultural grego. Mesmo a partir desta diversidade cultural e teológica, havia uma unidade de fé e ação. Conforme o livro dos Atos dos Apóstolos, esta unidade deve se basear no ensinamento que os discípulos receberam de Jesus, na comunhão da vida, na repartição do alimento e nas orações em comum.

 

Este ensinamento dos apóstolos se concretiza através do testemunho dos irmãos e irmãs que viram Jesus ressuscitado, presente na comunidade. O mais importante sinal desta presença divina é a “partilha do pão”, a Eucaristia, sinal eficaz da presença de Jesus ressuscitado entre nós e profecia de uma comunidade humana baseada na fraternidade e na partilha da vida e dos bens.

 

Hoje, “unir-se em torno do ensinamento dos apóstolos” chama as Igrejas a se constituírem como Igrejas pascais, abertas à missão e capazes de dialogar com o mundo atual. A comunhão fraterna e a repartição do pão recordam que a vocação da Igreja cristã é ser profecia de um mundo novo e de partilha.

 

A unidade dos cristãos não é um projeto apenas eclesiástico. Deseja unir as comunidades que creem em Cristo no serviço solidário para construirmos juntos um mundo de comunhão e de paz.  Afinal, segundo o evangelho, na véspera de sua paixão, Jesus orou ao Pai: “que todas as pessoas que creem em mim sejam unidas, como Eu e Tu somos Um, para que o mundo possa crer que Tu me enviaste” (Jo 17, 19). Nestes dias em que oramos especialmente para que o Pai derrame sobre nós e sobre o mundo os dons do seu Espírito, é importante que a nossa arquidiocese se apresente como uma Igreja acolhedora e aberta ao diálogo e à colaboração com todos pela paz e pela justiça no mundo. [CNBB]

 

O Ecumenismo faz parte da identidade cristã. (Cardeal Walter Casper)

 



[1] Vita e Detti dei Padri del Deserto, Cittá Nuova Editricci, Roma, 1990

[2] Drobner  Hubertus R. Manual de Patrologia, Ed. Vozes/2003 pág. 547-549