Domingo, 31 de julho de 2011

18º do Tempo Comum, Ano “A”, 2ª Semana do Saltério (Livro III), cor litúrgica Verde

 

 

Santos: Inácio de Loiola (soldado que se converteu ao sacerdócio aos 30 anos de idade), Fábio, Demócrito, Bem-Aventurado Fábio (Cesaréia da Mauritânia), Germano, João Colombini, Justino de Jacob.

 

Antífona: Meu Deus, vinde libertar-me, apressai-vos, Senhor, em socorrer-me. Vós sois o meu socorro e o meu libertador; Senhor, não tardes mais. (Sl 69, 2.6)

 

Oração: Manifestai, ó Deus, vossa inesgotável bondade para com os filhos e filhas que vos imploram e se gloriam de vos ter como criador e guia, restaurando para eles a vossa criação e conservando-a renovada. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

 

1ª Leitura: Is 55, 1-3
Deus nos dá tudo gratuitamente

 

Assim diz o Senhor: 1"Ó vós  todos que estais com sede, vinde às águas; vós, que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tornar vinho e leite, sem nenhuma paga.

 

2Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo.

 

3lnclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi". Palavra do Senhor!

 

 

 

Comentando a I Leitura

Vinde comer sem pagar!


A primeira leitura de hoje faz parte dos capítulos 40 a 55 do livro de Isaías, também chamado de Segundo Isaías, por se tratar de um profeta diferente daquele dos capítulos 1 a 39. Sendo grande teólogo e poeta, o Segundo Isaías atuou, aproximadamente, entre 553 e 539 a.C., época do declínio do império neobabilônico e do surgimento da Pérsia como nova potência (cf. Faria, 2006, p. 68-69). As lideranças do povo de Deus viviam exiladas na Babilônia, atual Iraque. Sabedor das dificuldades, o Segundo Isaías alimentava no povo a esperança de um novo tempo. A sua solução, profetizava, está em Ciro, rei da Pérsia, que seria o instrumento de Deus para libertar o seu povo (45,1-8; 48,12-15) da dominação babilônica. Babilônia cairia (46). Os pagãos iriam se converter ao Senhor (42,1-4.6; 45,1-16.20-25; 49,6; 55,3-5). Jerusalém seria libertada (52,1-12).

 

Em meio a forte onda de pessimismo, crise de fé e de esperança entre os exilados (40,27; 49,14), o Segundo Isaías torna-se o “cantor do retorno do exílio”, do “novo êxodo”. Ele fundamentou sua esperança no retorno à terra da promessa. O seu projeto era real. Ciro seria a salvação do povo. Sonhar com um “novo tempo” era preciso (55). Essa era a promessa de Deus (43,13; 41,10; 44,6; 48,12). E foi nesse contexto que ele sonhou alto: “Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite” (v. 1). Imagine gente faminta, sofrendo de exílio, e alguém gritando essas palavras na rua. Parece irreal, mas foram essas palavras que alimentaram a esperança no povo exilado. Não tardou muito e a libertação chegou. O povo voltou para a sua pátria, Israel, e recomeçou a vida com novos projetos. O sonho alimentou a esperança que os manteve no caminho, na aliança, outrora feita com a casa de Davi. [Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011]

 

 

 

Salmo: 144(145), 8-9.15-16.17-18 (R/.cf.16) 
Vós abris a vossa mão e saciais os vossos filhos

 

Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura.

 

Todos os olhos, ó Senhor, em vós esperam e vós lhes dais no tempo certo o alimento; vós abris a vossa mão prodigamente e saciais todo ser vivo com fartura.

 

E justo o Senhor em seus caminhos, é santo em toda obra que ele faz. Ele está perto da pessoa que o invoca, de todo aquele que o invoca lealmente.

 

 

 

 

II Leitura: Rm 8, 35.37-39
Nada impede que Deus no ame

 

Irmãos: 35Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? 37Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!

 

38Tenho a certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças cósmicas, 39nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor. Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a II Leitura

Quem nos separará do amor de Deus

 

Se nas duas leituras anteriores foram ressaltadas situações de dificuldades enfrentadas por uma comunidade exilada e outra oprimida em sua própria terra pelos romanos, ambas sofrendo de fome e dificuldades econômicas, esta leitura parte de uma experiência pessoal de Paulo, que, após tudo sofrer para testemunhar a sua fé em Jesus ressuscitado, pergunta retoricamente: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). E é ele mesmo quem responde: nada. Nem fome, morte, perseguição, espada, principados etc. Nada nos separará do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (v. 39). A salvação é um dom gratuito de Deus para a humanidade. Ademais, Paulo acrescenta o substantivo espada aos muitos outros fatores elencados por ele em outros escritos (1Ts 3,7; 1Cor 12,7-10; Fl 1,12-14. 19-25; 2,17; Cl 1,24) para demonstrar a adesão a Cristo. A espada romana é a mesma que, mais tarde, lhe decepará a cabeça, fazendo-o mártir em Roma pelo testemunho da fé em Cristo. Por ironia, trata-se de uma carta dirigida aos romanos. Outro detalhe importante nos fatores elencados por Paulo é a crença de muitos em entidades do além, em poderes que podem influenciar nossa vida. Muitos seguiam esse caminho. Paulo se diz convencido de que nada disso nos pode afastar do amor salvador e misericordioso de Deus. [Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011]

 

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 14, 13-21)
Dai-lhes vós mesmos de comer!

 

Naquele tempo, 13quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas, quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé.

 

14Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes.

 

15Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: "Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!"

 

16Jesus, porém, lhes disse: "Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!" 17Os discípulos responderam: "Só temos aqui cinco pães e dois peixes". 18Jesus disse: "Trazei-os aqui". 19Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos distribuíram às multidões.

 

20Todos comeram e ficaram satisfeitos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. 21E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. Palavra da Salvação!

 

 

 

Comentando o Evangelho


Comei partilhando o que tendes e encontrareis a felicidade!

 

O nexo da primeira leitura com o evangelho é evidente. Jesus, tendo sido informado da morte de João Batista, seu primo e precursor, vai rezar num lugar deserto. As multidões o seguem. Movido de compaixão por elas, ele cura os doentes. O povo não quer ir embora. Os discípulos demonstram preocupação com a fome do povo. Jesus ordena dar-lhes de comer. Mas como, se eles tinham somente cinco pães e dois peixes? Jesus, então, fez a multidão se assentar na grama e abençoou os pães e peixes, que se transformaram em tantos outros e alimentaram 5 mil homens, sem contar mulheres e crianças. E ainda sobraram 12 cestos de pedaços.

 

Como na primeira leitura, o povo está desanimado e sem rumo. Jesus torna-se a luz que aponta o caminho. Como Ciro, da Pérsia, ele não é rei, mas é o salvador dos pobres e famintos.

 

Caso tomemos as palavras do evangelho e as leiamos de modo simplista, haveremos de entender que se trata de uma multiplicação fabulosa de Jesus. Não é bem assim. O profeta Eliseu também havia feito o mesmo (Rs 4,42-44). A narrativa tem dois sentidos.

 

a) Sentido simbólico. O texto fala de 5 pães, 2 peixes, 12 cestos e 5 mil homens. O número 5 lembra a Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia, que devem ser seguidos por todo judeu. Por analogia se fala em 5 mil homens, os reais seguidores da Lei. Mulheres e crianças não eram consideradas. O peixe lembra a presença salvadora de Jesus. Mais tarde, ele tornar-se-ia o símbolo dos cristãos diante da perseguição romana. Por onde passavam, eles desenhavam um peixe, cujo nome em grego, IXTUS, como um acróstico, forma as iniciais de Iesùs Xristòs Theòu Uiòs Soteèr, que significa “Jesus Cristo Filho de Deus Salvador”. O número 12 adquiriu destaque entre os judeus em virtude da divisão do ano em 12 meses e simboliza a totalidade ou plenitude, assim como as 12 tribos do povo eleito, Israel-Palestina, e o povo dos cristãos, os 12 apóstolos (cf. Faria, 2010c, p. 56-57). Jesus vai para o deserto, lugar da passagem e da organização do povo que vinha do Egito, depois de mais de 400 anos de opressão. No evangelho, o povo sofrido vem das cidades, lugar da exploração social e dos banquetes dos grandes, como o de Herodes, ocasião em que a cabeça de João Batista foi pedida. O povo senta-se na grama. Sentar na visão bíblica é sinal de soberania e poder. Daí o substantivo cátedra, catedrático e catedral. O pão distribuído recorda o maná que alimentou o povo no deserto e, mais tarde, a eucaristia como corpo real de Cristo (Mt 14,19; 26,26; 1Cor 11,23).

 

b) Sentido real. A multiplicação dos pães quer nos ensinar que, se partilhamos, ninguém mais vai ter necessidade. Nisso reside o milagre. A comunidade é chamada a não ficar parada, mas ir além. Deus não quer a pobreza, mas a igualdade social. Um dos grandes males que assolam o ser humano é o desejo incontrolável de ter para guardar e ostentar o poder da posse. A felicidade não está no ter, mas no ser e nas relações. O livro do Eclesiastes nos ensina que felicidade é comer e beber, desfrutando do produto do próprio trabalho (3,13). [Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011]

 

A fome do Mundo

 

O trecho evangélico deste domingo pertence a um complexo que os exegetas designam convencionalmente com o nome de "seção dos pães", porque gira em tomo da narrativa das duas multiplicações dos pães. Toda seção é concebida de modo a que Jesus apareça como o Novo Moisés, que oferece um maná bem superior ao antigo (Mt 14,13-21: deste domingo), domina as águas do mar como Moisés (Mt 14,22-23: 1º domingo), livra o povo do legalismo em que caíra a lei de Moisés (Mt 15,1-9) e abre o acesso para a terra prometida não só aos membros do povo eleito, mas também aos pagãos (Mt 15,21-28: 20º domingo).

 

A abundância, sinal do

tempo messiânico

 

No evangelho de hoje é bem Fácil ver uma imagem e uma revelação da Igreja: nela se realiza a grande abundância dos bens que era a característica dos tempos messiânicos. Tem-se essa comunhão de bens no banquete, que é sinal de comunhão de vida e de participação nos bens de Deus. Assim, em poucos traços, Mateus apresenta a Igreja como comunidade messiânica escatológica. E a apresenta em sua vitalidade e fecundidade: toda realizada na fraternidade dos discípulos em torno de Cristo para servir a muitos. É também muito significativo que o evangelista use, na narrativa da multiplicação dos pães, o mesmo vocabulário do relato da ceia eucarística.

 

O episódio de Cafarnaum é visto à luz da Última Ceia, como antecipação e promessa. Até o fato de os fragmentos que restaram serem recolhidos em "doze cestos", além de indicar a abundância messiânica não pode deixar de ser uma referência simbólica a vida da Igreja. O banquete de Cafarnaum ultrapassa sua ressonância histórica de prodígio para alimentar uma multidão faminta: é o símbolo da comunidade dos "últimos tempos”, que se assenta à mesa com Cristo, e é ao mesmo tempo sinal da presença permanente de Cristo para dar à humanidade de todos os tempos o verdadeiro pão de vida.

 

A Igreja é o lugar, e a eucaristia é o momento privilegiado, em que se descobre a força de Cristo e em que se obtém a capacidade de repetir o prodígio por ele realizado.

 

O sinal de um pão de vida eterna

 

Jesus saciou a fome dos homens. O Reino de Deus, cuja vinda Jesus proclama, não é deste mundo, mas está em relação direta com ele. Não se pode pensar que ele não se manifeste também como uma resposta efetiva à necessidade fundamental do homem, a necessidade de pão. Mas a multidão seguiu Jesus para ouvir sua mensagem. Ora, a Boa-nova que ele proclama jamais se poderá reduzir a uma saciedade corporal. O essencial é outra coisa, e a multiplicação dos pães não é mais que sinal de um pão de vida que sacia para a eternidade. O pão divino que sacia o homem torna-o capaz de amar mais os seus irmãos; suscita nele um dinamismo humano que o leva a prover de pão os que dele são privados. O milagre da multiplicação dos pães é, para o cristão, um sinal e um apelo.

 

O pão cotidiano

 

A participação no pão de vida se manifesta traduzindo-se necessariamente na vontade firme de tentar tudo a fim de que os famintos sejam saciados, os que têm sede possam beber, os que estão nus possam vestir se etc. (Mt 25). A participação na ceia eucarística se toma, para o cristão, fonte de um esforço de promoção humana no qual todos e cada um sejam reconhecidos em sua dignidade fundamental de pessoas, no sentido de uma só grande família.

 

A celebração eucarística introduz cada vez mais profundamente os cristãos na comunidade eclesial, que é comunidade de irmãos e de pobres. O pão que não perece é distribuído com abundância, mas sob aparências muito modestas, como um verdadeiro alimento de pobres. Os que participam desta ceia são fortalecidos pelo pão de vida que os une como irmãos e os liberta do apego aos bens caducos e de suas escravidões. Ao mesmo tempo, a eucaristia torna aqueles que creem cada vez mais disponíveis e mais livres para o único serviço: o serviço de Deus que se identifica com o serviço de todos os homens. [MISSAL DOMINICAL ©Paulus, 1995]

 

 

 

Oração da assembleia (Missal Dominical)

O Senhor repete todos os dias, em sua Igreja, o milagre da multiplicação dos pães, com a eucaristia. Roguemos com confiança pela Igreja e pelo mundo. Senhor, escutai a nossa prece.

Pela santa Igreja de Deus, para que seja na terra o sinal da generosidade divina e dê o pão da palavra e o serviço da caridade a todos os homens, rezemos.

Pelos pobres e os famintos, para que a solidariedade e a generosidade dos cristãos prolonguem para eles o milagre da multiplicação dos pães, rezemos.

Por todos nós que participamos da ceia do Senhor, para que a eucaristia que celebramos seja penhor e antecipação do banquete eterno ao qual o Senhor nos chama, rezemos.

(outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Dignai-vos, ó Deus, santificar estas oferendas e, aceitando este sacrifício espiritual, fazei de nós uma oferenda eterna para vós. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Vós nos destes, Senhor, o pão do céu, que contém todo o sabor e satisfaz todo o paladar. (Sb 16,20)

 

Oração Depois da Comunhão:

Acompanhai, ó Deus, com proteção constante os que renovastes com o pão do céu e, como não cessais de alimentá-los, tornai-os dignos da salvação eterna. Por Cristo, nosso Senhor.