Domingo, 30 de janeiro de 2011

Quarto do Tempo Comum, Ano “A”, IV Semana do Saltério, Livro III, cor, Litúrgica Verde

 

Hoje: Dia Nacional dos Quadrinhos e dia da Saudade

 

Santos do Dia: Aquilino de Milão (mártir), Báculo de Sorrento (bispo), Cesário de Angoulême (diácono), Constâncio (primeiro bispo de Perúgia) e Companheiros (mártires), Flora de Kildare (virgem), Papias e Mauro (soldados, mártires de Roma), Sabiniano de Troyes (mártir), Sharbel e Bebaia (casal de irmãos, mártires de Edessa), Sulpício Severo (bispo de Bourges), Trifina da Bretanha (viúva), Valério de Trèves (bispo).

 

Antífona: Salvai-nos, Senhor nosso Deus, reuni vossos filhos dispersos pelo mundo, para que celebremos o vosso santo nome e nos gloriemos em vosso louvor. (Sl 105, 47)

 

Oração: Concedei-nos, Senhor nosso Deus, adorar-vos de todo o coração, e amar todas as pessoas com verdadeira caridade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

I Leitura: Sofonias (Sf 2,3; 3,12-13)

Na Galiléia, o povo viu brilhar uma grande luz

 

3Buscai o Senhor, humildes da terra, que pondes em prática seus preceitos; praticai a justiça, procurai a humildade; talvez achareis um refúgio no dia da cólera do Senhor. 12E deixarei entre vós um punhado de homens humildes e pobres. E no nome do Senhor porá sua esperança o resto de Israel. 13Eles não cometerão iniquidades nem falarão mentiras; não se encontrará em sua boca uma língua enganadora; serão apascentados e repousarão, e ninguém os molestará. Palavra do Senhor!

 

Comentando a I Leitura

Buscai o Senhor, humildes da terra

 

O termo hebraico de Sf 2,3 geralmente é traduzido por “pobres”, mas a melhor tradução seria “humildes” ou “mansos”.

 

No conceito bíblico, os humildes são, antes de tudo, os israelitas submissos à vontade divina e por causa disso perseguidos de todas as formas. Tudo lhes é espoliado, seus bens materiais e até mesmo sua vida. Somente não lhes pode ser tirada a confiança que depositam em Deus.

 

Para Sofonias, o Dia do Senhor consiste na resposta de Deus a esse “resto fiel” de humildes, quando a eles será enviado o Messias; e, segundo outros textos bíblicos, o Messias mesmo será um entre eles (Zc 9,9).

 

Para a maioria dos profetas, os soberbos de Israel, ou seja, aqueles que estão obstinados em não fazer a vontade de Deus, ficarão dispersos para sempre entre as nações. Contudo, Deus ama o povo de Israel e por isso um “pequeno resto” de israelitas fiéis a Deus sobreviverá e será reunido para a restauração messiânica. [Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj, Vida Pastoral n.276, Paulus]

 

 

Salmo: 145 (146), 7.8-9a.9bc-10 (R/. Mt 5, 3)[1]

Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.

 

7O Senhor é fiel para sempre, faz justiça aos que são oprimidos; ele dá alimento aos famintos, é o Senhor quem liberta os cativos.


8O Senhor abre os olhos aos cegos o Senhor faz erguer-se o caído; o Senhor ama aquele que é justo, 9aé o Senhor quem protege o estrangeiro.

9bcEle ampara a viúva e o órfão mas confunde os caminhos dos maus. 10O Senhor reinará para sempre! Ó Sião, o teu Deus reinará para sempre e por todos os séculos!

 

O Sl 146 é o hino ao Deus de misericórdia. Tal como acontece com os quatros salmos seguintes, começam e terminam com “Aleluia”.

 

 

II Leitura: 1 Coríntios (1Cor 1, 26-31)

      Sabedoria do mundo e loucura da cruz

 

26Considerai vós mesmos, irmãos, como fostes chamados por Deus. Pois entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem muitos poderosos nem muitos nobres. 27Na verdade, Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido, para assim confundir os sábios; Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte; 28Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante, 29para que ninguém possa gloriar-se diante dele. 30É graças a ele que vós estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus: sabedoria, justiça, santificação e libertação, 31para que, como está escrito, “quem se gloria, glorie-se no Senhor”. Palavra do Senhor!

 

Comentando a II Leitura

Deus escolheu o fraco para confundir o forte

 

Paulo, em sua carta à comunidade de Corinto, enfrenta um problema muito comum no meio humano: os níveis sociais. O texto sugere que as pessoas simples estão enfrentando o preconceito daquelas que, na comunidade, pertencem a classes mais abastadas.

 

Paulo explica que a dinâmica de Cristo é diferente da empregada pelo mundo. O que seria loucura para o mundo é, no reino de Deus, sabedoria. E o que é fraqueza para o mundo, para Deus, é fortaleza. Aqueles que estão repletos dos valores contrários ao Reino e se gloriam em si mesmos não se abrem para Deus, porque põem sua confiança naquilo que são e nos bens que possuem.

 

Mas os cristãos devem gloriar-se no Senhor, que os escolheu e realizou neles a salvação operada em Cristo por pura gratuidade, por puro dom de seu amor, e não porque eram importantes “aos olhos do mundo”. Desse modo, as pessoas simples da comunidade de Corinto são bem-aventuradas, porque seu único bem é apenas Deus. [Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj, Vida Pastoral n.276, Paulus]

 

Evangelho: Mateus (Mt 5, 1-12a)

Bem-aventurados os pobres em espírito

 

Naquele tempo, 1vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2e Jesus começou a ensiná-los: 3“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus. 4Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. 11Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. 12aAlegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus. Palavra da Salvação!

 

Contexto: Sermão da Montanha (Mt 5,1¾7,29). Leitura paralela: Lc 6, 20-26

 

 

Comentando o Evangelho

Bem-aventurados sois vós

 

No idioma em que Jesus proferiu esse belíssimo discurso, o termo comumente traduzido em português por “bem-aventurados” ou “felizes” é também um imperativo dos verbos “avançar”, “seguir adiante”, “prosseguir”, como aparece em Pr 4,14. Significa uma ordem de batalha em vez de um comodismo. Tampouco é uma utopia, mas trata-se de uma resposta de Deus a todos os que já são injustiçados, perseguidos, mansos e pacificadores. Significa que eles devem permanecer na luta, pois é certo que verão acontecer o Reino pelo qual eles sofrem tantas injúrias.

 

As palavras de Jesus também podem ser assim traduzidas: “Que avancem os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus!” Os “pobres em espírito” são aqueles cujas vidas estão apoiadas em Deus, não nos bens materiais. E, já que eles buscam a Deus em  primeiro lugar, então sua luta não será em vão, mas alcançarão o que esperam, o reino dos céus.

 

Os “mansos” são aqueles que, embora atribulados, não agem com violência nem duvidam do amor de Deus por eles. Como não quiseram tiranizar ninguém, então herdarão a terra. Eles são o contrário dos tiranos, que querem conquistar a terra pela violência. E por isso vão usufruir de uma terra sem violência, como desejam. Os que têm “fome e sede de justiça” são todos os decepcionados com a justiça terrena, que não defende os inocentes e favorece os culpados.

 

Os que têm “fome e sede de justiça” esperam unicamente na justiça divina e não serão decepcionados. Eles alcançarão a vitória, viverão numa terra renovada, alicerçada na justiça.

 

Os misericordiosos agem como Deus age. Eles serão tratados por Deus com misericórdia. E viverão num novo mundo, onde a misericórdia e o amor superam todas as coisas.

 

Os “puros de coração” são as pessoas transparentes que não enganam, que não são falsas. Elas verão a Deus.

 

Os que “promovem a paz”, ou que produzem o shalom (que significa paz em sentido amplo, muito mais que ausência de guerras: prosperidade, bem, saúde, inteireza, segurança, integridade, harmonia e realização), serão chamados filhos de Deus, o verdadeiro doador da paz.

 

Os “perseguidos por causa da justiça” são os que sofrem perseguição por causa da fé, por causa do evangelho; sofrem pelo Reino e por isso o Reino será deles. Isto é, como tiveram participação ativa na construção do Reino, não serão decepcionados, mas verão o Reino acontecer.

 

Justiça é ajustar-se à vontade de Deus. No reino dos céus, a vontade de Deus é soberana; e que avancem as pessoas de boa vontade, verdadeiras promotoras dos valores do Reino na história. [Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj, Vida Pastoral n.276, Paulus]

 

A Palavra se faz oração (Missal Dominical)

A meta que Jesus no indica com o sermão das bem-aventuranças, antes de ser atingida por nossos esforços, é um dom que se obtém pela oração. Por isso, digamos: Senhor, escutai-nos.  

 

-Pela santa Igreja de Deus, para que reconheça nas bem-aventuranças a sua única lei e as anuncie aos homens como mensagem de libertação e vitória, rezemos.

-Pelos pobres, os oprimidos, os que sofrem injustiça e perseguição, para que encontrem nos seguidores de Cristo irmãos que partilhem, por amor, sua sorte e lhes infundam a esperança de uma vida sem lágrimas, rezemos.

-Pela nossa comunidade, para que as deixe julgar pela palavra de Deus e tenham coragem de levá-la a sério, rezemos.

(Outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Para vos servir, ó Deus, depositamos nossas oferendas em vosso altar; acolhei-as com bondade, a fim de que se tornem o sacramento da nossa salvação. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Mostrai serena a vossa face ao vosso servo e salvai-me pela vossa compaixão! (Sl 30,17-18)

 

Oração Depois da Comunhão:

Renovados pelo sacramento da nossa redenção, nós vos pedimos, ó Deus, que este alimento da salvação eterna nos faça progredir na verdadeira fé. Por Cristo, nosso Senhor!  

 

 

 

 

 

Felizes os pobres

 

O evangelho das bem-aventuranças domina a liturgia da Palavra deste domingo. É a primeira parte do sermão da montanha.

 

Jesus. subindo ao monte nos aparece como o Novo Moisés, promulgador da nova Jei ("mas eu vos digo...!") no novo Sinai. Proclamando bem-aventurados os pobres e os humildes, Jesus fala a linguagem que Deus já havia usado com seu povo através dos profetas, como, por ex., Sofonias, que ouvimos na 1~ leitura. A mesma linguagem emprega são Paulo (2ª leitura): os primeiros a serem chamados são sempre os pequenos, os pobres, os que o mundo despreza, mas que são grandes no reino dos céus.

 

Um sermão revolucionário

 

Este sermão é verdadeiramente uma inversão dos valores tradicionais. Os hebreus cultivavam a convicção de que a prosperidade material, o su­cesso eram sinais da bênção de Deus, e a pobreza e a esterilidade, sinais de maldição. Jesus denuncia a ambiguidade de uma representação terrena da bem-aventurança. Agora, os bem-aventurados  não  são  mais  os ricos deste mundo, os saciados, os favorecidos, mas os que têm fome e choram, os pobres e perseguidos. É a nova lógica, a que Maria, a bem-aventurada por excelência, canta: "Derrubou os poderosos de seus tronos, elevou os humildes: cumulou de bens os famintos, despediu os ricos de mãos vazias" (Lc 1,52-53).

 

As nove bem-aventuranças de Mateus se resumem na primeira: "Bem-aventurados os pobres em espírito". As outras são corolário e explicitação desta. Reconhecer-se pobre, fraco, não é, porém, antes de tudo, condição social, mas uma disposição interior que toca todo o modo de agir, em qualquer situação em que se esteja. A pobreza, por si só, não é um bem nem uma situação de ascese. Mas ser rico significa ter poder, receber honras e ter uma posição superior à dos outros: aqui é que começa o perigo, porque onde há poder, riqueza e superioridade, há também, e com muita frequência, oprimidos, esmagados, desprezados. E é a estes que cabe o reino dos céus. Jesus se põe ao lado destes. São eles os eleitos. Jesus se apresenta como o mensageiro enviado por Deus para anunciar aos pobres a Boa-nova; sua solicitude pelos pobres, os infelizes, os doentes era o sinal da sua missão. Jesus leva aos deserdados não só a segurança de que um dia gozarão o reino de Deus, mas anuncia-lhes que este reino já chegou.

 

A missão de Jesus se estende, além dos pobres, a todas as misérias Físicas e espirituais; todos atraem sua compaixão. Inaugurando a era da salvação, Deus concede uma prioridade a todos os que dela têm necessidade mais urgente.

 

Pobreza e sociedade de consumo

 

Em mundo como o nosso, terá ainda sentido o sermão da montanha? Que sentido tem pronunciar este texto numa sociedade de consumo, que mede a felicidade e a bem-aventurança segundo as posses, o sucesso e o poder? E no Terceiro Mundo, subdesenvolvido e oprimido, que sentido tem repetir: "Bem-aventurados os pobres... bem-aventurados os perseguidos? Não ressoará como um ultraje à sua miséria, ou como uma tentativa de narcotizar ou abafar "a ira dos pobres"?

 

No entanto, não podemos anular esta bem-aventurança sem anular o Cristo. De fato, o primeiro pobre é ele, que, sendo rico se fez pobre por nós. Há, pois, nesta bem-aventurança um apelo a seguir Jesus, que não encontrou lugar na hospedaria, que não tinha uma pedra onde recostar a cabeça, que morreu pobre e despojado numa cruz. E o fez para se dar inteiramente aos outros.

 

A multidão que ouve e segue Jesus não se compõe de escribas, fariseus, levitas, sacerdotes do templo, poderosos guardiões da ordem. Mas segue Jesus a multidão anônima do povo miúdo, pescadores e pastores, gente explorada e oprimida pelos poderosos...

 

Pobreza como sinal distintivo das comunidades cristãs

 

A pobreza proclamada por Jesus não deve ser só característica de todo cristão, mas o distintivo e a bem-aventurança da Igreja e da comunidade como tal. Um dos momentos fortes da "conversão" a que o Concílio chamou a Igreja é a pobreza. Acaso não será devido a certa riqueza de meios, certo apego ao dinheiro e ao poder, na Igreja, que em muitos cristãos nasce uma sensação de mal-estar? Em nossas assembleias eucarísticas estão presentes hoje muitas pessoas que dispõem de recursos e de cultura. Eles nunca estarão dispensados de buscar os caminhos da pobreza e de servir seus irmãos indigentes, porque é nos pobres que se encontra, ainda e sempre, aquele que veio para salvar. [Missal Cotidiano, ©Paulus, 1995]

 

 

Dia da saudade

 

No dia 30 de janeiro se comemora o Dia da Saudade. A palavra vem do latim solitate, que na tradução literal quer dizer solidão. Mas em nossa língua ela adquiriu um significado bem mais romântico, como nos mostra o Dicionário Aurélio: "Saudade: Substantivo feminino - Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia."

 

Este sentimento sempre foi tema de músicas, poemas, filmes e não há quem já não o tenha sentido.

 

Temos saudades de pessoas, de momentos, de situações, de lugares. Sentimos falta de tudo o que nos faz bem. E, como dizem que relembrar é viver, a saudade nos transporta para um tempo em que fomos mais felizes, trazendo, muitas vezes, lembranças doloridas.

 

E para desejar a todos um Dia da Saudade cheio de boas lembranças, nos apropriamos de um poema do grande Mario Quintana:

 

Saudade

 

Na solidão na penumbra do amanhecer.

Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,

nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.

 

Via você no ontem, no hoje, no amanhã...

Mas não via você no momento.

 

Que saudade...

Mario Quintana

[www2.portoalegre.rs.gov.br]

 

 



[1] Numeração dos Salmos: a numeração dentro do primeiro parêntese refere-se á anotação hebraica; a de fora segue a Nova Vulgata, adotada pela Igreja Católica e também usada pela Bíblia AVE-MARIA; as demais seguem a numeração inversa (Nova Vulgata dentro do parêntese). A numeração dos versículos (estrofes) é obtida no DIRETÓRIO LITÚRGICO DA CNBB, 2011; a numeração do segundo parêntese está relacionada ao versículo de resposta.