Domingo, 28 de setembro de 2008

26º do Tempo Comum, Ano “A”, 2ª Semana do Saltério (Livro III), cor litúrgica Verde

 

 

Senhor, tudo o que fizestes conosco, com razão o fizestes, pois pecamos contra vós e não obedecemos

aos vossos mandamentos. Mas honrai o vosso nome, tratando-nos segundo vossa misericórdia.

 

Hoje: Dia da Bíblia

 

Santos: Eugênio Lyra, Focas, Emeriano, Emerano, Maurício, Florêncio, Emerano, Salaberga (665), Exupério, Félix IV, Lô, Salaberga, Tomás de Vilanova, Lucy da Caltagirone (Virgem, ofs)

 

Oração: Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a vossa graça, para que, caminham do ao encontro das vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

 

 

1ª Leitura: Ezequiel (Ez 18, 25-28)
Cada ser humano é responsável pelo uso de sua liberdade

 

Assim diz o Senhor: 25"Vós andais  dizendo: 'A conduta do Senhor não é correta'. Ouvi, vós da casa de Israel: E a minha conduta que não é correta, ou antes é a vossa conduta que não é correta?

 

26Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. 27Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. 28Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá". Palavra do Senhor!

 

 

 

Salmo: 24(25) 4bc-5.6-7.8-9 (R/.6a) 
Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão!

 

Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação; em vós espero, ó Senhor, todos os dias!

 

Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e a vossa compaixão que são eternas! Não recordeis os meus pecados quando jovem, nem vos lembreis de minhas faltas e delitos! De mim lembrai-vos, porque sois misericórdia e sois bondade sem limites, ó Senhor!

 

O Senhor é piedade e retidão, e reconduz ao bom caminho os pecadores. Ele dirige os humildes na justiça, e aos pobres ele ensina o seu caminho.

 

 

 

 

II Leitura: Carta de São Paulo aos Filipenses (Fl 2, 1-11)
 Vivei em harmonia, procurando a unidade

 

Irmãos, 1se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão, 2tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. 3Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante 4e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro.

 

5Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. 6Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, 7mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, 8humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz.

 

9Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o nome que está acima de todo nome. 10Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, 11e toda língua proclame: "Jesus Cristo é o Senhor" - para a glória de Deus Pai. Palavra do Senhor!

 

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 21, 28-32)
 A verdadeira justiça e fé são encontradas em Jesus

 

Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: 28"Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!' 29O filho respondeu: 'Não quero'. Mas depois mudou de opinião e foi. 30O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: 'Sim, senhor, eu vou'. Mas não foi. 31Qual dos dois fez a vontade do pai?" Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: "O primeiro". Então Jesus lhes disse: "Em verdade vos digo, que os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. 32Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os publicanos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele". Palavra da Salvação!

 

 

 

Eles vos precederão no Reino de Deus[1]

 

As três parábolas lidas nos evangelho deste e dos dois domingos seguintes, tratam de um único tema: a rejeição do povo judeu que não quis escutar Jesus, e a sua substituição pelos pagãos.

 

Ninguém é marginalizado por Deus

 

A parábola dos dois filhos justifica a posição do Cristo diante dos “desprezados”, esta nova categoria de pobres. Cristo dirige a parábola aos sumos sacerdotes e anciãos, como faz, com outra do mesmo teor, aos fariseus (fariseu e publicano: Lc 18,9); replica a todos os que se escandalizam com sua predileção pelos pecadores, dizendo-lhes que estes estão mais próximos da salvação do que os que se consideram justos; entra em casa de Zaqueu, que durante anos usurpou os vencimentos de todos, deixa que uma prostituta lhe lave os pés, protege a adúltera contra os “puros” que a queriam apedrejar.

 

Sua vida deixa a Deus a possibilidade de manifestar-se como verdadeiramente é. Estas situações revelam, no fundo, a liberdade de Deus. A parábola se dirige, pois, aos que se fecham para a Boa-nova, aos que não querem reconhecer a identidade de Deus em nome da própria justiça e se consideram pagos por sua própria suficiência.

 

As prostitutas haviam dito “não”

 

A fidelidade a Deus e a justiça não se julgam pelo dizer “sim” ou pela vinha que se possui (figura da pertença racial ao povo eleito!), mas pelos fatos. Trata-se de eliminar as discriminações sociais que a tradição hebraica elaborou. O que importa não é agir como a tradição ensina. É necessário ter coragem de sujar as mãos e de se arriscar na busca de novos  valores mais próximos da liberdade, do amor, da felicidade do homem. É pelas obras que se julga a pertença. “Nem todo que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus” (Mt 7, 21). As palavras, as ideologias podem enganar, podem ser uma ilusão. Descobre-se a verdade do homem por suas obras. Elas não dão margem a equívocos. Só então o homem mostra o que é. Compreendemos então aquela palavra de Jesus, que provoca escândalos aos ouvidos dos que se pretendem bons: “Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas vos precederão no reino de Deus”. Oficialmente, conforme as categorias religiosas e os critérios morais exteriores  da época, eles tinham dito “não”, mas de fato o que importa é sua profunda disponibilidade: a vontade de cumprir, não com palavras, mas com fatos, as obras de penitências.

 

Deus não decidiu, um dado momento da história, rejeitar Israel e adotar as nações pagãs. Foi o comportamento perante o Messias que os fez perder o papel que desempenhavam na ordem da mediação. O modo como viviam o seu “sim” à Lei os levou a dizer “não” ao evangelho.

 

Para além das práticas

 

Existe ainda uma concepção exterior e quantitativa da religiosidade dos grupos e das pessoas (como se só fosse possível medir a religiosidade pela pertença sociológica ou a presença a certas práticas religiosas facilmente verificáveis: missa, sacramentos, orações, devoções, esmolas...) Contribuem para provocar este equívoco certas pesquisas sócio-religiosas que codificam convencionalmente uma escala de religiosidade e de pertença eclesial que, se de certo ponto de vista obriga a abrir os olhos para situações penosas, de outro está bem longe de esgotar o complexo fenômeno da religiosidade, tanto de grupo como individual.

 

Para além da prática e da pertença exterior e jurídica, existe uma presença e um evidente influxo cristão e evangélico em camadas de populações aparentemente marginais e alheias.

 

A religião, como é vivida pelos cristãos, apresenta diversos níveis e modalidades de experiência. Pode ser vivida como uma soma de práticas, de devoções, de ritos, como fins em si mesmos; como uma visão do mundo e das coisas; como um critério de juízo sobre pessoas, valores, acontecimentos. Pode manifestar-se como código moral e norma de ação ou como integração fé-vida, isto é, como síntese no plano do juízo e da ação, entre a mensagem do evangelho e as exigências e os esforços da própria vida pessoal e comunitária.

 

O cristão opera a integração fé-vida. Isto é, o “sim” de sua fé se torna o “sim” de sua vida; a palavra e a confissão dos lábios se tornam ação e gesto das mãos. Assim, a discriminação entre o “sim” e o “não” não passa través das práticas e da observância das leis, mas através da vida.

 

Dia da Bíblia

Dom Eugenio Sales[2]

 

Celebramos festivamente o Dia da Bíblia no último domingo do mês de setembro. A grandeza do conteúdo faz desse livro único, o mais conhecido em todos os tempos. Aliás, foi com ele que Gutenberg inaugurou seu invento – a imprensa – talvez a mais útil criação da inteligência humana, por ter possibilitado a difusão, em larga escala, das idéias.

 

Em um mundo onde é crescente a agitação e o isolamento, temos na Bíblia seguramente o melhor interlocutor. Ali está o conforto aos desiludidos, que não obtiveram no imenso progresso da técnica e da ciência a razão da própria existência. Os famintos, materialmente ou não, recebem um alimento que os reanima.

 

A explicação é encontrar-se na Sagrada Escritura, interpretada pela autêntica tradição, um Deus que se revela aos homens, a todos e em todos os tempos, pois a palavra divina não se cristaliza na História, a ela ultrapassa e transcende.

 

O fato central, a essência desse fenômeno que supera todas as vicissitudes, perseguições e ameaças, é a manifestação de uma aliança. Esse é o fio condutor para o entendimento desses setenta e três livros escritos à luz da inspiração, durante mais de um milênio.

 

A referida aliança do criador com a criatura assume a forma de vocação, diálogo, oração, e diretrizes práticas na vida cotidiana com repercussão na eternidade. O aspecto coloquial nada tem de dependência escravizante, pois respeita a liberdade característica de um ser responsável que se dirige ao Todo-Poderoso.

 

Frustrado o plano divino pelos primeiros pais, o Senhor promete restaurá-lo em Noé e realiza-o em Abrão – que terá o nome alterado para Abraão: "Dar-te-ei, e à tua posteridade depois de ti, a terra em que moras como peregrino" (Gn 17,8). "Deixa tua terra, tua família, a casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrarei" (Gn 12,1).

 

Assim, o transcorrer dos dias e das gerações não são violentados em seu curso natural, mas se transformam em uma manifestação salvífica. A Bíblia é um conjunto de verdades propostas, uma interpelação na qual aquele que dialoga com Deus deve dar uma resposta. O remédio para a miséria e marginalização dos oprimidos, a solidão e a dor, a desesperança e angústia em todas as dimensões estão na sagrada escritura e não nas ideologias e em elucubrações exclusivamente humanas. Ali há permanentemente uma indicação viva e eficaz: a pobreza espiritual e as injustiças sociais são um insulto ao Redentor, pois "o que fizerdes a um destes pequeninos é a mim que o fareis" (Mt 25,40). Ou ainda: o Senhor é quis abrir o caminho da libertação a um povo prisioneiro dos erros, em todos os níveis. "Fá-lo com mão forte e braço estendido" (Dt 5,15). Alguém que ouviu "o grito destes pobres, viu a miséria do seu povo" (Ex 3,7.9).

 

Essa mensagem, entretanto, foi e será sempre uma afronta ao mundo. Eis alguns exemplos: a exortação "não acumulem tesouros na terra" (Mt 6,19), soa como uma aberração. Entre os conflitos e divergências somos chamados a viver as bem-aventuranças: "Felizes os que constroem a paz" (Mt 5,9). Na procura de soluções terrenas para as doenças e sofrimentos de toda espécie, Ele replica: "Vinde a mim vós que estais aflitos" (Mt 11,28). Ou: "Pedi e recebereis, batei e abrir-se-vos-á" (Mt 7,7; Lc 11,9). O apelo à esperança, que "nem o ouvido ouviu o que Deus preparou" (1Cor 2,9), diverge profundamente dos conceitos emitidos, inclusive por cristãos, que atraiçoando o Mestre, tentam mascarar a pureza desse pacto transcendental.

 

Por isso, a aliança reclama necessariamente uma conversão. Surge, então, o sentido profanador do pecado. Reconhecendo-o nos atos que praticamos e na sociedade em que estamos inseridos, somos convidados a uma mudança interior. Dizia-nos o papa Paulo VI na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (nº 18): "Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude. E, pelo seu influxo, transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade. No entanto, não haverá humanidade nova se não houver em primeiro lugar homens novos pela novidade do batismo e da vida segundo o Evangelho. A finalidade da evangelização, portanto, é precisamente esta mudança interior".

 

Conscientes de nossa fraqueza diante de tão grande tarefa, esse livro admirável contém o remédio, pois ele é essencialmente sabedoria divina. Um reconhecimento público do poder do senhor e de sua misericórdia em atender-nos no que se refere ao cumprimento da nossa destinação temporal e eterna. Sua leitura torna-se prece, adoração.

 

A celebração do Dia da Bíblia nos lembra também a importância dos círculos bíblicos. Por esse Brasil a fora, nas diversas paróquias em comunidades se reúnem, semanalmente, milhares e milhares de cristãos em pequenos grupos para uma reflexão profunda do ensino sagrado. Todos eles são levados a um compromisso sempre mais consciente com a dimensão espiritual de sua fé que se concretiza em todas as dimensões da vida humana.

 

Tais celebrações estimulam a busca de Cristo, sua encarnação do Salvador na vida pessoal e social do cristão, como radical resposta à Aliança, que é a síntese de toda a Sagrada Escritura.

 

O Dia da Bíblia fortifica ou restaura este pacto com Deus, única solução ao mundo conturbado e insatisfeito.

 

 

 



[1] MISSAL DOMINICAL ©Paulus, 1995

[2] Arcebispo emérito do Rio; fonte: Jornal do Brasil, edição eletrônica, 27/09/2008