Domingo, 27 de março de 2011

III Semana da Quaresma, Ano “A” 3ª Semana do Saltério (II Volume), cor Litúrgica Roxa

 

 

Hoje: Dia Mundial do Circo e dia Mundial do Teatro.

 

Santos: Filetas (mártir), Zanitas e seus Companheiros (mártires), João (eremita egípcio), Ruperto (bispo), João Damasceno (doutor da Igreja), Guilherme Tempier (beato, bispo), Arcângela Tardera (serva de Deus, franciscana virgem, 3ª ordem), Lídia e Lázaro

 

Antífona: Tenho os olhos sempre fitos no Senhor, porque livra os meus pés da armadilha. Olhai para mim, tende piedade, pois vivo sozinho e infeliz. (Sl 24,15-16)

 

Oração do Dia: Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Êxodo (Ex 17, 3-7)

Deus não abandonará os israelitas

 

Naqueles dias, 3o povo, sedento de água, murmurava contra Moisés e dizia: "Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado?" 4Moisés clamou ao Senhor, dizendo: "Que farei por este povo? Por pouco não me apedrejam!"  5O Senhor disse a Moisés: "Passa adiante do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma a tua vara com que feriste o rio Nilo e vai. 6Eu estarei lá, diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber". Moisés assim fez na presença dos anciãos de Israel. 7E deu àquele lugar o nome de Massa e Meriba, por causa da disputa dos filhos de Israel e porque tentaram o Senhor, dizendo: "O Senhor está no meio de nós ou não?" Palavra do Senhor! 

 

Comentando a I leitura

Deus sustenta a caminhada do povo

 

No nível superficial, o texto de hoje quer explicar a origem dos lugares chamados Massa e Meriba. Na língua hebraica esses nomes significam, respectivamente, “provocação” e “contestação”. Tentou-se, por isso, associar esses lugares a um momento difícil da caminhada do povo de Deus em direção à Terra Prometida, caracterizado pela falta d’água no deserto.

 

No nível profundo, o texto lê os acontecimentos à luz da fé no Deus libertador, aliado do povo no processo de conquista de liberdade e vida. O deserto é etapa intermediária entre a casa da servidão (Egito) e o final do êxodo (a posse da Terra Prometida). Só na Terra Prometida é que vai correr leite e mel. A falta d’água aparece como sintoma de que o processo de libertação não foi assumido em sua enorme complexidade. O povo reclama contra Moisés, preferindo ter ficado escravo no Egito a enfrentar a precariedade do caminho pelo deserto (vv. 3-4). Em outras palavras, o povo está a ponto de cometer a maior idolatria: abandonar o Deus da vida para servir aos ídolos que sustentavam o sistema de morte vigente no Egito. Quer dizer, o povo quer voltar a um projeto político opressor em vez de lutar por um novo projeto de liberdade e vida, ainda que no momento sinta a precariedade dos meios à sua disposição.

 

Apesar da inconstância do povo no processo de libertação, Deus continua fiel ao seu projeto e faz jorrar água da rocha (vv. 5-6). Javé é aquele que caminha à frente, dando segurança e apoio (v. 6). Por isso, em outros textos do AT ele é chamado de Rocha (cf., por exemplo, Sl 18,3).

 

O Novo Testamento leu esse texto à luz do acontecimento pascal. Jesus dá à humanidade a água que sacia a sede (cf. evangelho): “Se alguém tem sede venha a mim, aquele que acredita em mim, beba…” (Jo 7,37-38). Moisés golpeou a rocha e dela saiu água para o povo; o soldado atravessou o lado de Jesus, e imediatamente saiu sangue e água (cf. Jo 19,34). (Vida Pastoral nº 258, Paulus)

Salmo: 94(95), 1-2.6-7.8-9 (R/.8)

Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor

 

1Vinde, exultemos de alegria no Senhor, aclamemos o rochedo que nos salva! 2Ao seu encontro caminhemos com louvores, e com cantos de alegria o celebremos! 

 

6Vinde adoremos e prostremo-nos por terra, e ajoelhemos ante o Deus que nos criou! 7Porque ele é o nosso Deus, nosso pastor, e nós somos o seu povo e seu rebanho, as ovelhas que conduz com sua mão. 

 

8Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: "Não fecheis os corações como em Meriba, 9como em Massa, no deserto, aquele dia, em que outrora vossos pais me provocaram, apesar de terem visto as minhas obras".

 

 

II Leitura: Paulo aos Romanos (Rm 5, 1-2.5-8)

O sacrifício de Cristo suplanta nossa situação de pecado

 

Irmãos, 1justificados pela fé, estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo. 2Por ele tivemos acesso, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança  da glória de Deus. 5E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. 6Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. 7Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. 8Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. Palavra do Senhor! 

 

Comentando a II Leitura

Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores

 

Paulo afirma que a humanidade não pode se salvar por própria conta. Mas Deus salva a humanidade, isto é, justifica-a, concedendo-lhe a anistia sob esta condição: que ela creia em Jesus Cristo, que tornou conhecido o projeto do Pai. Crer é aceitar Jesus e comprometer-se com ele. A morte e ressurreição de Jesus são a anistia que Deus concedeu à humanidade: “Agora que fomos justificados por Deus por meio da fé, estamos em paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 1). Jesus restabeleceu a aliança entre Deus e seu povo, não por causa dos méritos das pessoas, mas por ação do Deus fiel. De fato – pensa Paulo –, se nós fôssemos justos, não precisaríamos de alguém que morresse por nós; se fôssemos pessoas de bem, talvez. Fato é que Cristo morreu por nós quando ainda estávamos sem força, ímpios e pecadores (vv. 6-8), e isso só ressalta a força da graça de Deus. É a grande descoberta que sepulta o Paulo fariseu e faz nascer o Paulo cristão, apoiado na graça de Deus: Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Esse dado anima a esperança dos cristãos em meio aos conflitos, na certeza de alcançar a glória de Deus (v. 2). Os discípulos de Jesus caminham da fé para a esperança na salvação definitiva, apesar de não terem superado ainda todas as alienações, das quais a morte é a expressão última. Caminham sob o impulso da Trindade, pois o Pai justificou a humanidade por meio do Filho, que nos tirou da alienação e nos concedeu o Espírito Santo, a fim de que possamos pôr em prática o projeto divino. (Vida Pastoral nº 258, Paulus)

 

 

Evangelho: João (Jo 4, 5-42 ou 5-15.19-26.39-42))

Uma fonte de água que jorra para a vida eterna

 

Naquele tempo, 5chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. 6Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia.  

 

7Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: "Dá-me de beber". 8Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. 9A mulher samaritana disse então a Jesus: "Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?" De fato, os judeus não se dão com os samaritanos. 10Respondeu-lhe Jesus: "Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: 'Dá-me de beber', tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva". 11A mulher disse a Jesus: "Senhor; nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? 12Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?" 13Respondeu Jesus: "Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. 14Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna". 15A mulher disse a Jesus: "Senhor; dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la". 16Disse-lhe Jesus: "Vai chamar teu marido e volta aqui". 17A mulher respondeu: "Eu não tenho marido". Jesus disse: "Disseste bem, que não tens marido, 18pois tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é o teu marido. Nisso falaste a verdade". 19A mulher disse a Jesus: "Senhor; vejo que és um profeta! 20Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar". 21Disse-lhe Jesus: "Acredita-me, mulher; está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. 22Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. 23Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai e procura. 24Deus espírito aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade". 25A mulher disse a Jesus: "Sei que o messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier; vai nos fazer conhecer todas as coisas". 26Disse-lhe Jesus: "Sou eu, que estou falando contigo". 

 

27Nesse momento, chegaram os discípulos e ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher. Mas ninguém perguntou: "Que desejas?" ou: "Por que falas com ela?" 28Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: 29"vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?" 30O povo saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus. 31Enquanto isso, os discípulos insistiam com Jesus, dizendo: "Mestre, come". 32Jesus, porém, disse-lhes: "Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis". 33Os discípulos comentavam entre si: "Será que alguém trouxe alguma coisa para ele comer?" 34Disse-lhes Jesus: "O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra. 35Não dizeis vós: 'Ainda quatro meses, e aí vem a colheita!' Pois eu vos digo: Levantai os olhos e vede os campos: eles estão dourados para a colheita! 36O ceifeiro já está recebendo o salário, e recolhe fruto para a vida eterna. Assim, o que semeia se alegra junto com o que colhe. 37Pois é verdade o provérbio que diz: 'Um é o que semeia e outro o que colhe'. 38Eu vos enviei para colher aquilo que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós entrastes no trabalho deles".  

 

39Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: "Ele me disse tudo o que eu fiz". 40Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. 41E muitos outros creram por causa da sua palavra. 42E disseram à mulher: "Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós  mesmos ouvimos e sabemos, que este é verdadeiramente o salvador do mundo". Palavra da Salvação!

 

Sicar costuma identificar-se com a atual Askar, no sopé do monte Ebal, perto da antiga Siquém e da atual Nablus (Gn 33,18-19)

 

 

Comentando o Evangelho

Jesus e a sede da humanidade


a. Ao redor do poço (vv. 5-6)

Tudo começa ao redor do poço. Aí Jesus se encontra com uma mulher samaritana (para o surgimento dos samaritanos, em 722 antes de Cristo, cf. 2Rs 17,24-41. Formaram-se da miscigenação de israelitas com cinco povos estrangeiros e seus cinco deuses). O poço recorda muitos fatos do Antigo Testamento, entre os quais o poço em que o servo de Abraão encontrou Rebeca, futura esposa de Isaac (Gn 24,13ss); o poço onde Jacó se encontrou com Raquel (Gn 29,1-14); o lugar onde Moisés se encontrou com as filhas de Jetro, entre as quais Séfora, com a qual casou (Ex 2,16-21). O poço de Sicar é, pois, o lugar onde a humanidade encontra seu esposo e líder. As personagens acima recordadas se aproximaram do poço à tarde, e quem tinha sede eram os animais. No episódio de Sicar é Jesus quem tem sede, em pleno meio-dia. O meio-dia recorda, no Evangelho de João, a Hora de Jesus, a sua crucifixão, onde ele declara ter sede (cf. Jo 19,28).

 

Para o povo da Bíblia, o poço é símbolo da Lei, das instituições judaicas e da sabedoria. Nesse contexto, Jesus recorda um arranjo social que não satisfaz aos anseios do povo por liberdade e vida. Sentando sobre o poço, Jesus se dá a conhecer como fonte da qual a humanidade inteira bebe. A partir de agora não se deve mais beber água da Lei ou das instituições, porque foram superadas pela fonte de água viva que é Jesus.

 

Uma mulher sem nome se aproxima, ao meio-dia, para buscar água. Ela não tem nome porque é a própria humanidade que está procurando, no sufoco do calor, algo que sacie de uma vez por todas sua sede (lembremos as primeiras palavras de Jesus em Jo 1,38: “O que vocês estão procurando?”).

 

b. Quebrando o preconceito racial (vv. 7-15)

Jesus sente o que é próprio de todo ser humano: sede. E pede de beber. Com isso está começando a quebrar o preconceito racial. Judeus e samaritanos se detestavam mutuamente. Os judeus mais radicais haviam decretado o estado permanente de impureza das mulheres samaritanas. Pedir que essa mulher lhe dê de beber parece ser um ato insano por parte de Jesus. Mas ele está acabando com a pretensa superioridade dos judeus e dos homens sobre as mulheres. Dar água é a mesma coisa que acolher, dar hospedagem (normalmente os samaritanos negavam água aos judeus).

 

Jesus está com sede, mas quem acaba pedindo água é a mulher, pois ele tem água capaz de saciar para sempre a sede de todos: “Se você conhecesse o dom de Deus e quem é que está dizendo a você: Dê-me de beber, você é que lhe pediria, e ele lhe daria água viva… Aquele que beber da água que eu vou dar, esse nunca mais terá sede” (vv. 10.14a). Jesus é o presente de Deus que a humanidade precisa conhecer. Os judeus acreditavam se aproximar de Deus mediante o conhecimento e a prática da Lei. Jesus, aquele que revela o Pai, mostra-o presente nas relações de fraternidade e gratuidade.

 

A água que Jesus dá é o Espírito, a força que vem de dentro e jorra para a vida eterna. A mulher-humanidade tem sede dessa água, e por isso pede: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir mais aqui para tirar” (v. 15).

 

c. Quebrando o preconceito religioso (vv. 16-26)

A samaritana não tem nome, mas certamente vários nomes lhe foram impostos por ter tido cinco maridos e conviver com o sexto, que não é seu marido e, apesar disso, continuar com sede da água que só Jesus, esposo da humanidade, pode dar. Os cinco maridos podem ser tomados simbolicamente (cinco divindades), e o sexto seria o próprio Javé transformado em ídolo (linguagem simbólica de Oséias). Assim se entra no assunto religioso. Os samaritanos aguardavam um messias diferente – chamado Taeb – do esperado pelos judeus. Ao preconceito racial era acrescentado o religioso. Jesus acaba com esses preconceitos, mostrando que a época dos templos chegou ao fim, pois ele é o novo santuário de onde brota o Espírito fiel: “Está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores vão adorar o Pai em espírito e verdade. E, de fato, estes são os adoradores que o Pai procura” (v. 23).

 

d. O anúncio que leva à fé (vv. 27-42)

Os discípulos de Jesus continuam presos à mentalidade judaica que discrimina pela raça, sexo e religião. O verdadeiro discípulo – início da comunidade-esposa de Jesus Messias – é a samaritana, que, depois de abandonar o balde, anuncia aos habitantes da cidade seu encontro com um homem, levando as pessoas a conhecê-lo. O diálogo com os discípulos (vv. 31-38) mostra que o alimento de Jesus, sua nova lei, é levar a termo a criação do Pai, restabelecendo a harmonia perdida pela auto-suficiência humana. Jesus é, ao mesmo tempo, o semeador do projeto do Pai e o trigo a ser semeado. A experiência da mulher conduziu as pessoas a Jesus e fez deste o hóspede dos samaritanos. Agora, porém, eles não precisam mais do testemunho dela, pois sabem que Jesus é realmente o salvador do mundo (cf. v. 42). (Vida Pastoral nº 258, Paulus)

 

 

Cristo, água para nossa sede

 

O tema da água que salva volta com freqüência na liturgia quaresmal. A partir deste domingo, a Igreja oferece à comunidade cristã que revive seu batismo uma síntese da história da salvação, servindo-se do rico simbolismo da água. 

 

A água tem sua linguagem 

Necessária para a existência de todos os seres vivos, a água é um elemento "natural" que nos é dado, não é fruto de trabalho: a água viva de uma fonte exprime também o milagre  renovado da vida. Fazendo brotar água da rocha, Deus se manifesta salvador de seu povo e o põe em condições de prosseguir a viagem até a terra prometida (1ª leitura). Repensando essas maravilhas de Deus nos momentos mais obscuros e difíceis de sua história, Israel projeta para um futuro mais ou menos distante a posse de uma terra de águas abundantes, na qual o deserto se transformará em viçoso pomar. A abundância de água se torna símbolo da abundante salvação que virá unicamente de Deus: um rio que brota do templo purificará o povo, saciará sua sede, fecundará a terra.  

 

No Novo Testamento, a água exprime simbolicamente o dom do Espírito para a geração de uma humanidade nova. Cristo, sobre quem desceu o Espírito no momento do batismo, anuncia um renascimento na água e no Espírito, promete uma abundância de água-Espírito para os que crêem (evangelho). Sua pessoa se identifica, pois, com a Rocha (como observava são Paulo, recapitulando os "sinais" do deserto, 1Cor 10,4), o novo Templo, a fonte que mata a sede na vida eterna. João vê o cumprimento do sinal na hora da morte-glorificação de Jesus, quando ele "entrega o espírito" e do seu lado traspassado correm sangue e água. 

 

A água do nosso batismo 

A água do batismo pode, portanto, lavar os pecados e fazer renascer os filhos de Deus em virtude do sangue de Cristo, fonte de todo perdão. Quem confessa que Cristo é o messias, o enviado de Deus, aceita que a salvação se faça da maneira e no momento querido por Deus; compreende que sua sede profunda só é saciada pelo dom de Cristo; toma-se, para os que o cercam como a mulher samaritana-, revelador da presença que tudo transforma (evangelho).

 

No momento do batismo, a Igreja, que através da catequese preparou a profissão de fé no Filho de Deus, recapitula em sua oração os acontecimentos salvíficos relacionados com a água e cumpre a ordem de Cristo: batizai em nome da Trindade. Assim, como gostava de repetir Agostinho, "pela união da palavra (da fé) com o elemento (água) realiza-se o sacramento", dom de Deus e livre resposta do homem. 

 

Sede de valores numa sociedade de consumo  

Encontramo-nos diante da sede de um povo no deserto, da sede de uma mulher no poço. A sede é símbolo de uma necessidade íntima, vital, torturante. Além da sede fisiológica há uma sede mais profunda em todo homem, em toda sociedade, em toda comunidade do nosso tempo: buscamos cada vez mais "coisas para sacia-la; nada nos basta, nada nos satisfaz. Nossa civilização só nos oferece "bens de consumo", não valores espirituais. Convida-nos ao oportunismo, ao mais fácil, mais seguro, mais cômodo. Os ideais de coerência, de sinceridade, de amor, que existem em todos os homens, são em geral frustrados, traídos por quem os propugna ou pelo indivíduo incapaz de resistir à pressão dos que o cercam. Todos falam do valor da colaboração, todos reconhecem que somos globalmente responsáveis pelo caminho da humanidade; no entanto, o que encontramos é insensatez, orgulho, instintos de domínio, de grandeza, inclinação para a agressividade, para um prazer ás vezes exacerbado,  incontrolado e irracional. Mas muitas vezes renunciamos, e justificamos a renúncia definindo os valores como "sonhos de adolescente". 

 

A revolta dos jovens tem sua raiz nessa sede não aplacada, nessa decepção por tudo que lhes é oferecido, tão distante das verdadeiras e profundas exigências do homem, que tem hoje maior consciência dos valores de fraternidade, justiça, amor, solidariedade. 

Não é a primeira vez que, no decorrer da história, o homem enfrenta desafios que põem em discussão modos de pensar e pedem soluções inéditas. Continuamente o homem faz a experiência de que aquilo que conquistou nunca é uma conquista definitiva. A técnica, as descobertas científicas não matam a sede de segurança, de esperança, de felicidade que todo homem sente. Lentamente, descobre ou tem a intuição de que só um "homem-infinito" pode dar-lhe o que busca no meio da confusão. [Missal Cotidiano, ©Paulus, 1995]

 

 

Oração da assembleia (Missal Dominical)

Deus quer adoradores em espírito e verdade. Animados por seu Espírito Santo e sustentado por Cristo, nosso mediador, temos confiança de que nossa oração lhe será agradável. Digamos juntos: Senhor, escutai a nossa prece.

-Pelos que se preparam para o batismo, a fim de que cresça neles o desejo da água viva e espiritual que deles fará homens novos, rezemos ao Senhor.

-Pelos que conhecem o cristianismo, sobretudo como um código de comportamentos morais ou de prescrições rituais, e não como experiência viva de fé pessoal e comunitária, rezemos ao Senhor.

-Por todos os que são considerados pelas leis religiosas ou civis a margem da sociedade, para que saibam que são amados por Deus como pessoas e chamados à salvação, rezemos ao Senhor.

-Pelo mundo e seus problemas, especialmente o dos recursos econômicos e da fome crônica, para que com um esforço em escala mundial seja assegurada a vida e o bem-estar a todos,  rezemos ao Senhor.

-Outras intenções

 

Prefácio (a samaritana):

Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, em todo lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso. Ao pedir à samaritana que lhe desse de beber, Jesus lhe dava o dom de crer. E, saciada sua sede de fé, lhe acrescentou o fogo do amor. Por essa razão vos servem todas as criaturas, com justiça vos louvam os redimidos e, unânimes, vos bendizem os vossos santos. Concedei-nos também a nós associar-nos aos seus louvores, cantando (dizendo) a uma só voz:

 

Oração sobre as Oferendas:

Ó Deus de bondade, concedei-nos por este sacrifício que, pedindo perdão de nossos pecados, saibamos perdoar a nossos semelhantes. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Antífona da comunhão:

Naquele que beber da água que eu darei, diz o Senhor, brotará uma fonte que jorra para a vida eterna. (Jo 4, 13-14)

 

Oração Depois da Comunhão:

Ó Deus, tendo recebido o penhor do vosso mistério celeste, e já saciados na terra com o pão do céu, nós vos pedimos a graça de manifestar em nossa vida o que o sacramento realizou em nós. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Jesus e a samaritana

Dom Orani João Tempesta, O. Cist., Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

 

Durante estes dias da Quaresma, o nosso itinerário batismal tem neste domingo um sinal claríssimo sobre o sinal da Água e a importância do encontro com Jesus, o Cristo. Neste ano, de maneira especial aparece este sinal, que nos ajuda a caminhar para a renovação das promessas batismais na vigília pascal.

 

Este domingo, chamado da “samaritana”, é o terceiro Domingo da Quaresma (cf.Jo 4,5-42). A hostilidade entre judeus e samaritanos conhecemos por outros episódios, como, por exemplo, o caso do chamado “bom samaritano”. As relações entre judeus e samaritanos eram de hostilidade constante e a Samaria era considerada território impuro para o ambiente judaico, de modo que não se deveria cruzá-la durante os percursos das viagens.

 

Jesus quis passar pela Samaria como uma necessidade salvífica, teológica porque nas suas intenções (que são aquelas do Pai), tinha a vontade de que também aquele povo, como todos os outros existentes, entrassem na ordem da salvação, tornando-se destinatário do anúncio do Reino e da vida nova trazida pelo Cristo.

 

A objeção dessa mulher: "Tu que és um judeu pedes de beber a uma mulher samaritana?", dá oportunidade a Jesus para anunciar o amor infinito de Deus, a universalidade da salvação e para comunicar a nova dimensão da vida, que agora está totalmente renovada e foi estabelecida com o Reino para todos os povos e indivíduos, homens e mulheres. Superam-se as barreiras, as restrições e as divisões étnicas e raciais.

 

A água tornou-se a motivação do anúncio. Vemos os vários episódios sobre ela como um símbolo e um "lugar" de salvação e novidade de vida. Recordemos isso como em Meriba, quando o povo de Israel, nômade no deserto, vê a água jorrar da rocha para saciar o povo. Também a vemos no dilúvio, quando a água é destrutiva da raça humana, que deu a oportunidade de Deus mostrar a sua misericórdia para com o homem e o mundo na restauração completa da humanidade. O grande sinal desse tempo de êxodo, ou seja, a passagem do Mar Vermelho, quando as águas foram divididas para o povo de Deus passar para o outro lado e depois fechar sobre os egípcios. Quando a lança do soldado atingiu o lado de Jesus no alto da cruz, sairá água e sangue: o sinal do Batismo e da Eucaristia.

 

É dessa mesma água de vida eterna que Jesus está falando com a mulher samaritana no poço de Jacó. Ele deixa claro que a água viva é o próprio Cristo, dom do Pai à humanidade, que, acolhendo-O se obtém a salvação e a vida plena, não importa se samaritanos, ou judeus, palestinos, gregos ou outros. Como a água sacia todos os homens e todos estão prontos para usá-la quando estão sob o domínio da sede, assim o Cristo sacia toda a humanidade e, reconciliando-a com o Pai, para tornar-se referência vital e indispensável.

 

Jesus satisfaz a nossa fome e a nossa sede, e com a sua presença e o seu anúncio pode ter a certeza de ter exaltados e postos ao seu lado e perante o mundo. Foi o que saiu anunciando a Samaritana a todos.

 

Dessa água da vida e da salvação, todos nós precisamos! Saciar a sede na fonte, que é Cristo, é cultivar em nós mesmos o equilíbrio, a confiança a constância de espírito, experimentando a salvação n’Ele.

 

Ao comentar a liturgia do terceiro domingo deste tempo favorável, o Papa Bento XVI ensina que: “O pedido de Jesus à Samaritana: “Dá-Me de beber” (Jo 4, 7), que é proposto na liturgia do terceiro domingo, exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da “água a jorrar para a vida eterna” (v. 14): é o dom do Espírito Santo, que faz dos cristãos “verdadeiros adoradores” capazes de rezar ao Pai “em espírito e verdade” (v. 23). Só esta água pode extinguir a nossa sede do bem, da verdade e da beleza! Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatisfeita, “enquanto não repousar em Deus”, segundo as célebres palavras de Santo Agostinho”.

 

Depois do anúncio da samaritana, todos os que chegaram até Jesus devido ao seu testemunho foram unânimes em dizer: nós mesmos vimos e sabemos que Ele é o Cristo!

 

A experiência do cristão, que renasce no batismo e se torna discípulo de Jesus, será ainda maior quando os que ele encontrar pela vida ou que evangelizar disserem a mesma coisa, ou seja, que o testemunho foi o início, mas, agora, amadureceram e se encontraram com o Cristo vivo. Assim, a nossa missão leva as pessoas ao aprofundamento da fé e ao encontro com Jesus, multiplicando os discípulos missionários.