Domingo, 25 de dezembro de 2011

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, 1ª Semana do Saltério, Livro I, cor Branca

 

 

Santos: Anastácia de Roma (virgem e mártir), Eugênia de Roma (virgem, mártir, filha de São Filipe, também mártir), Pedro, o Venerável (abade de Cluny), Alberto Chmielowski (bem-aventurado), Jacopone de Todi (franciscano, autor do hino “Stabat Mater”, bem-aventurado)

 

Missa da Noite

 

Antífona: Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz! (Sl 2,7)

 

Oração: Ó Deus, que fizestes resplandecer esta noite santa com a claridade da verdadeira luz, concedei que, tendo vislumbrado na terra este mistério, possamos gozar no céu sua plenitude. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Isaias (Is 9, 1-6)

Foi-nos dado um filho

 

1O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. 2Fizeste crescer a alegria, e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença como alegres ceifeiros na colheita, ou como exaltados guerreiros ao dividirem os despojos. 3Pois o jugo que oprimia o povo - a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais - tu os abateste como na jornada de Madiã. 4Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas. 5Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: conselheiro admirável, Deus forte, pai dos tempos futuros, príncipe da paz. 6Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado, que ele irá consolidar e confirmar em justiça e santidade, a partir de agora e para todo o sempre. O amor zeloso do Senhor dos exércitos há de realizar estas coisas. Palavra do Senhor!

 

Comentário da I Leitura

Chegou a salvação para os pobres e oprimidos

 

No ano 732 a.C. Teglat-Falasar III, rei da Assíria, tomou os territórios de Zabulon e Neftali, pertencentes ao Reino do Norte. A situação do povo é descrita por Isaías como lugar de trevas e país tenebroso (9,1). Para esse povo dominado, sem identidade e liberdade, o profeta anuncia a salvação que se aproxima.


O texto de hoje descreve em três momentos a libertação desses territórios dominados: 1. Luz que brilha: Isaías faz ver que está para nascer nova aurora (9,1), como no início da criação, quando Deus fez a luz (Gn 1,3), pondo ordem no caos; 2. A libertação se traduz, concretamente, no fim da opressão inimiga, possibilitando ao povo crescer e viver em paz e alegria. A satisfação do povo libertado é semelhante à alegria experimentada durante uma colheita abundante; é como a alegria de repartir os despojos da guerra, onde o povo não só faz festa porque derrotou o inimigo, mas sobretudo porque, mediante o despojo, reconquistou para si o que o opressor lhe havia roubado brutal e violentamente (v. 2). Terminando a guerra, acaba também a opressão: Deus quebra a canga que oprimia o povo, a carga que sobre ele pesava, quebrando a vara do capataz (v. 3). O equilíbrio é restabelecido, a justiça volta a vigorar. A vitória dos pobres e oprimidos recorda o episódio de Madiã (cf. Jz 7,15-25), quando Gedeão, organizando e liderando um punhado de pessoas, desbaratou numeroso exército. Isaías continua descrevendo a vitória dos pobres: eles irão fazer uma grande fogueira com os símbolos da opressão: as botas dos soldados e os mantos embebidos de sangue (v. 4). 3. O nascimento de um menino que irá trazer a libertação para o povo. Esse é o motivo central, que explica e realiza o que até agora tinha sido anunciado.


As esperanças dos pobres e oprimidos reflorescem a partir desse nascimento. O v. 5 descreve, em primeiro lugar, a característica do menino-esperança para o povo sofrido: ele traz sobre os ombros o manto de rei. Em segundo lugar, mostra qual é a identidade dessa personagem. Seu nome dá a conhecer suas ações em favor do povo: “Conselheiro Maravilhoso”, “Deus Forte”, “Pai para Sempre”, “Príncipe da Paz”. Esse nome estranho, de significado profundo, traduz a prática do novo rei: será mais sábio que Salomão, capaz de fazer justiça ao povo (Conselheiro Maravilhoso); será mais forte que Davi, defendendo o povo das ameaças externas, pois tem a própria força de Deus (Deus Forte); será líder que supera a liderança de Moisés, conduzindo o povo à vida definitiva (Pai para Sempre); mediante sua liderança, o exercício da justiça e a defesa do povo, criará a paz-plenitude dos bens (Príncipe da Paz). É a síntese de tudo o que aconteceu de bom no passado do povo de Deus.


O v. 6 descreve as consequências da administração justa: haverá um reino sem limites, realizando assim as promessas feitas a Davi. Como poderá tal reino se manter? Qual a força que o sustenta de forma perene? O próprio texto nos dá a resposta: esse reino vai durar para sempre porque fundado na administração do direito e da justiça.


O texto messiânico de Isaías se encerra afirmando que esse é o projeto que Deus pretende ver realizado no mundo (v. 6b). O Novo Testamento leu esse texto à luz do nascimento, morte e ressurreição de Jesus, porque tal espécie de realeza não encontrou ressonância nos reis de Judá e Israel. O oráculo ficava aberto, na expectativa-esperança. Lendo-o à luz do nascimento de Jesus, os cristãos constatam já possuir a realização da promessa. Contudo, permanece aberta a pergunta: por que o povo de Deus continua oprimido? Por que ainda não chegamos a fazer uma grande fogueira de tudo o que é sinal de opressão e morte?
[Vida Pastoral   n. 269, Paulus 2009]

 

 

Salmo: 95(96),1-2a.2b-3.11-12.13 (R/.Lc 2, 11)
Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor

 

Cantai ao Senhor Deus um canto novo, cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira! Cantai e bendizei seu santo nome!

 

Dia após dia anunciai sua salvação, manifestai a sua glória entre as nações, e entre os povos do universo seus prodígios!

 

O céu se rejubile e exulte a terra, aplauda o mar com o que vive em suas águas; os campos com seus frutos rejubilem e exultem as florestas e as matas.

 

Na presença do Senhor, pois ele vem, porque vem para julgar a terra inteira. Governará o mundo todo com justiça, e os povos julgará com lealdade.

 

II Leitura: Carta de Paulo a Tito (Tt 2, 11-14)

Manifestou-se a bondade de Deus

para toda a humanidade

 

Caríssimo: 11a graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens. 12Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade 13aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e salvador, Jesus Cristo. 14Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem. Palavra do Senhor!

 

 

Comentário da II Leitura

A manifestação de Jesus é catequese para a vida cristã

 

“A carta a Tito foi escrita provavelmente pelos anos 64-65. Tito, seu destinatário, é o delegado pessoal de Paulo na ilha de Creta. Paulo conta com ele para organizar a comunidade de Creta e lutar contra os que falseiam a palavra de Deus. O Evangelho foi anunciado, as comunidades foram fundadas e, algumas dezenas de anos mais tarde, apareceram os verdadeiros problemas. Alguns cristãos… misturaram o Evangelho com teorias propagadas por grupos judaicos… Por outro lado, também os costumes relevados do paganismo se infiltram na comunidade, falseando a moral. É preciso recordar aos cristãos que a salvação foi trazida por Cristo, e também traçar as grandes linhas do comportamento para a vida particular e social…” (Bíblia Sagrada – Ed. Pastoral – Paulus, 2002, p. 1540).

 

Para Paulo, o ponto de partida é a manifestação da graça de Deus que, em Jesus Cristo, trouxe a salvação para todas as pessoas (2,11). O evento central de nossa fé repercute na prática dos cristãos, tornando-se catequese para a vida cristã. Vivendo em meio à sociedade estabelecida, que contrasta com o projeto de Deus, e sem fugir dos desafios que ela apresenta, os cristãos são convocados a viver a novidade de vida própria do evangelho. A novidade possui um aspecto de ruptura: abandonar a impiedade e as paixões mundanas, ou seja, romper com os esquemas e propostas de vida apresentados pelo “status quo”, o modo de viver paganizado que não traduz a sociedade justa e fraterna desejada por Deus e inaugurada por Jesus Cristo; mas possui também caráter construtivo: viver no mundo com equilíbrio, justiça e piedade (v. 12). Essas três expressões (equilíbrio, justiça e piedade) sintetizam o modo de viver sintonizado com o projeto de Deus. Portanto, a comunidade cristã não só rompe os esquemas iníquos, mas vive a justiça do Deus vivo (piedade), prolongando dessa forma a prática de Jesus.


A tensão entre a ruptura da impiedade e a vivência da justiça conduz a comunidade dos fiéis a caminhar na expectativa da feliz esperança e da manifestação definitiva da glória do nosso grande Deus e Salvador, Cristo Jesus (v. 13).

 

O v. 14, que encerra a leitura de hoje, é breve catequese sobre quem é Jesus e quem são os cristãos: “Ele se entregou por nós para nos resgatar de toda maldade, purificando para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem”. Jesus é aquele que se entregou ao Pai por nós. Sua morte é resgate. Esta palavra recorda a compra de escravos no mercado. A morte de Cristo é libertação. Portanto, ninguém mais está autorizado a escravizar, dominar ou manipular pessoas ou grupos. Ser cristão é ser livre, comprometido com a liberdade e a vida para todos! A morte e ressurreição de Jesus colocaram o povo sob o domínio de Deus: ninguém poderá outorgar-se direitos sobre o povo, que pertence exclusiva e definitivamente a Deus. Mas pertencer ao povo de Deus é dedicar-se à prática do bem, prolongando as ações libertadoras do Salvador. [Vida Pastoral   n. 269, Paulus 2009]

 

 

Evangelho: Lucas (Lc 2, 1-14)

Hoje, nasceu para vós um Salvador

 

1Aconteceu que, naqueles dias, César Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento de toda a terra. 2Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. 3Todos iam registrar-se cada um na sua cidade natal. 4Por ser da família e descendência de Davi, José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, 5para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.

 

6Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, 7e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria. 8Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho.

 

9Um anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. 10O anjo, porém, disse aos pastores: "Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: 11Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura". 13E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da corte celeste. Cantavam louvores a Deus, dizendo: 14"Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados". Palavra da Salvação!

 

 

Comentário o Evangelho

“Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês

um Salvador, que é o Messias, o Senhor”

 

No Evangelho de Lucas, o relato do nascimento de Jesus faz parte das narrativas da infância. Essas narrativas não nasceram da curiosidade em saber como tudo aconteceu; pelo contrário, surgiram da necessidade de reler os acontecimentos da infância de Jesus à luz de sua morte e ressurreição. Dessa forma, o texto de hoje não é um relato histórico, mas uma leitura teológica da história da salvação. O anúncio central do trecho de hoje (2,11) traz em si o início e a realização da salvação. Isso se torna compreensível se levarmos em conta o título que o Menino recebe da parte dos anjos: ele é Salvador (a salvação não se esgota no nascimento de Jesus, mas se completa com a morte e ressurreição).


Ao descrever o nascimento de Jesus, o evangelista estabelece estreito paralelismo com a morte e ressurreição do Messias. De fato, em 2,7a se diz que “Maria enfaixou Jesus e o colocou na manjedoura”; em 23,53a afirma-se que “José de Arimatéia enfaixou o corpo de Jesus e o colocou num sepulcro”. Os paralelismos são muitos, e não é necessário apresentá-los todos aqui. O importante é notar a preocupação de Lucas: ele descreve o nascimento de Jesus à luz do evento central da nossa fé. Seu nascimento é já anúncio de sua morte e ressurreição.


a. O Salvador nasce pobre no meio dos pobres (vv. 1-7)

O Messias entra na história da humanidade por caminhos alternativos não trilhados pelos poderosos. O imperador Augusto decreta, para todo o império romano, um recadastramento (2,1) que tem por objetivo arrecadar taxas sobre pessoas livres e escravas, homens e mulheres. A ordem vem de Roma, centro do poder de “Augusto”, que entende o poder na linha da dominação sobre as pessoas, arrogando-se direitos de explorar e dominar. O fato, para Lucas, se presta para uma leitura teológica da história: 1. A salvação não procede dos poderosos que dominam e abusam do poder; 2. Ela vem de um pobre, filho de migrantes marginalizados e explorados. José e Maria peregrinam de Nazaré, na Galiléia, para Belém, na Judéia, pois Belém era a cidade natal de José (v. 3). Com isso, o evangelista faz ver que Jesus, o Messias pobre, nasce como líder e Salvador na cidade de Davi, o rei que unificou o povo, trazendo-lhe vida, liberdade e paz.


O nascimento de Jesus contrasta com o de João Batista: este nasce em casa, Isabel recebe visitas dos parentes e amigos, e o povo do lugar comenta o fato na expectativa da missão que o menino irá realizar. Maria, por sua vez, dá à luz sozinha, durante uma viagem, fora de casa, sem encontrar lugar entre os parentes (a casa da qual se fala no v. 7 é, provavelmente, a casa dos parentes de José), na maior solidão e abandono. Jesus é colocado numa manjedoura e recebe a visita dos pastores, gente marginalizada e odiada por causa de sua conduta. O comentário do fato fica por conta do anjo, e aqui reside a grande novidade: o pobre que nasceu no abandono é o Salvador, o Messias, o Senhor (título do Cristo ressuscitado). O povo não sabia qual seria o futuro de João Batista; mas os pastores recebem o anúncio da Boa Nova, do início da nova sociedade nascida desse pobre marginalizado. Na perspectiva de Lucas, portanto, a história da salvação não nasce em Roma, sede do poder absolutizado, e sim em Belém, na pessoa de alguém que foi marginalizado antes mesmo de nascer.


b. O Salvador pobre optou pelos pobres e marginalizados (vv. 8-11)

O centro do trecho de hoje é o v. 11: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor”. Esse tipo de notícia era bem conhecido naquele tempo. Utilizava-se essa expressão para anunciar o nascimento ou entronização de reis e imperadores, interpretados como epifania (manifestação) dos deuses. O anúncio era feito aos nobres e graúdos da sociedade (hoje os meios de comunicação anunciam ao mundo inteiro o nascimento dos herdeiros ao trono dos poderosos).


O Menino pobre que nasce em Belém possui o poder da comunicação que vem de Deus: um anjo do Senhor se encarrega de comunicar a grande novidade (evangelho) à humanidade. Mas a comunicação de Deus possui caminhos alternativos: não se dirige aos poderosos, e sim aos pastores. Estes eram odiados por não respeitar as propriedades alheias, invadindo-as com seus rebanhos e cobrando preços exorbitantes pelos produtos. Um pastor – segundo o Talmud babilônico – não podia ser eleito a cargo de juiz ou testemunha nos tribunais, por causa da má fama e do desrespeito à propriedade.


O povo do Messias pobre são esses marginalizados da sociedade. Eles são envolvidos pela luz divina (v. 9) e recebem a comunicação da Boa Notícia, ao mesmo tempo em que são encarregados de transmiti-la a todo o povo (v. 10): a salvação não vem de “Augusto” ou de seu sucessor, não parte de Roma, mas nasce em meio ao povo sofrido e segregado; nasce em Belém, a cidade de Davi, o rei pastor.


c. Identidade e ação do Salvador (vv. 12-14)

O Salvador é pobre e se comunica a seu povo como pobre: “Vocês encontrarão um recém-nascido envolto em faixas e deitado na manjedoura” (v. 12). Deus utiliza a linguagem dos empobrecidos (faixas, manjedoura), dos migrantes e rejeitados da sociedade. A salvação entra na história da humanidade com as características do povo pobre, longe dos palácios e dos berços dourados. O modo de nascer do Salvador já é comunicação perfeita daquilo que irá realizar em vida: a glória de Deus e a paz para as pessoas de sua predileção (cf. v. 14). A glória de Deus é sua ação na história, e sua ação irá concretizar a paz (shalom = plenitude dos bens) para o povo no meio do qual ele optou nascer. [Vida Pastoral   n. 269, Paulus 2009]

 

Palavra se faz oração (Missal Dominical)

Por todos os homens, para que encontrem em Jesus a luz que ilumina sua vida e dá sentido a tudo, rezemos ao Senhor: Ouvi-nos, Senhor!

Por todos os que creem, para que conservem integra a fé em Jesus, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, rezemos ao Senhor.

Por todos os que sofrem por causa das guerras, das injustiças, da solidão, para que Jesus, o homem-amor, revelação do Deus-amor, seja sua esperança e sua salvação, rezemos ao Senhor.

Por todos nós aqui presentes, para que nossa fé em Jesus se manifeste cada dia no amor gratuito por todos os homens, rezemos ao Senhor.

(Outras intenções)

 

 

Oração sobre as Oferendas:

Acolhei, ó Deus, a oferenda da festa de hoje, na qual o céu e a terra trocam os seus dons, e dai-nos participar da divindade daquele que uniu a vós a nossa humanidade. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

O verbo se fez carne, e vimos a sua glória (Jo 1, 14)

 

Depois da Comunhão:

Senhor nosso Deus, ao celebrarmos com alegria o Natal do nosso Salvador, dai-nos alcançar por uma vida santa seu eterno convívio. Por Cristo, nosso Senhor.

Missa da Aurora

 

Antífona: Hoje surgiu a luz para o mundo: O Senhor nasceu para nós. Ele será chamado admirável, Deus, Príncipe da paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim.

 

Oração: Ó Deus onipotente, agora que a nova luz do vosso Verbo Encarnado invade o nosso coração, fazei que manifestemos em ações o que brilha pela fé em nossas mentes. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Isaias (Is 62, 11-12)

Eis que está chegando o teu Salvador

 

11Eis que o Senhor fez-se ouvir até as extremidades da terra: "Dizei à cidade de Sião: eis que está chegando o teu salvador, com a recompensa já em suas mãos e o prêmio à sua disposição. 12O povo será chamado Povo santo, os Resgatados do Senhor; e tu terás por nome Desejada, Cidade-não-abandonada". Palavra do Senhor!

 

Salmo: 96(97), 1 e 6.11-12
Brilha hoje uma luz sobre nós, pois nasceu para nós o Senhor

 

Deus é Rei! Exulte a terra de alegria, e as ilhas numerosas rejubilem! E proclama o céu sua justiça, todos os povos podem ver a sua glória.

 

Uma luz já se levanta para o justos, e a alegria para os retos corações. Homens justos, alegrai-vos no Senhor, celebrai e bendizei seu santo nome!

 

II Leitura: Carta de Paulo a Tito (Tt 3, 4-7)

Ele salvou-nos por sua misericórdia

 

Caríssimo: 4Manifestou-se a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pelos homens: 5Ele salvou-no, não por causa dos atos de justiça que tivéssemos praticado, mas por sua misericórdia, quando renascemos e fomos renovados no batismo pelo Espírito Santo, 6que ele derramou abundantemente sobre nós por meio de nosso Salvador Jesus Cristo. 7Justificados assim pela sua graça, nos tornamos na esperança herdeiros da vida eterna. Palavra do Senhor!

 

Evangelho: Lucas (Lc 2, 15-20)

Os pastores encontraram Maria e José e o recém-nascido

 

15Quando os anjos se afastaram, voltando para o céu, os pastores disseram entre si: "Vamos a Belém ver este acontecimento que o Senhor nos revelou".

 

16Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. 17Tendo-o visto, contaram o que lhes fora dito sobre o menino. 18E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam.

 

19Quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração. 20Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito. Palavra da Salvação!

 

 

Comentando Lc 2, 15-20

Os pobres reconhecem o pobrezinho

O nascimento de Jesus foi todo envolvido em pobreza. Maria e José tiveram de contentar-se com as acomodações encontradas numa gruta usada pelos pastores para proteger seus rebanhos. O recém-nascido foi acomodado num cocho onde os animais comiam. Nesta situação de total carência irrompia, na história, o Salvador da humanidade.

 

Os pastores, vítimas de marginalização e preconceito, foram os primeiros a ir-lhe ao encontro, orientados pela revelação divina, comunicada pelos anjos. Desde sua entrada neste mundo, o Filho de Deus foi um pobrezinho em meio aos pobres.

 

Este será um traço marcante de sua identidade e de sua missão. Nascido como pobre e entre os pobres, em momento algum Jesus se apartará desta situação original. Ele preferirá a convivência dos pobres e marginalizados, pôr-se-á ao lado deles e os defenderá, declará-los-á bem-aventurados. Enfim, reconhecer-se-á enviado para proclamar-lhes o Evangelho. Correspondendo à preferência de Jesus, serão os pobres os mais sensíveis ao anúncio

 

do Reino, os mais disponíveis para acolhê-lo e se alegrar com a sua vinda. Por fim, o Mestre padecerá a morte dos pobres e dos marginais, num contexto de abandono semelhante ao de Belém. Para compreender o mistério do Natal urge entrar nesta dinâmica existencial que envolveu toda a vida de Jesus. Sem despojamento, não se pode compreender o esvaziamento - kénosis - do Filho de Deus. E na pobreza que ele deve ser encontrado, pois só assim é possível contemplar o mistério divino que resplandece nele. [COMENTÁRIO BÍBLICO, Vol.III,  ©Loyola, 1999]

 

Palavra se faz oração (Missal Dominical)

Por todos os que creem, para que sintam, como os pastores, a exigência de serem missionários e não guardarem para si o anúncio recebido, mas comunicá-lo aos outros, rezemos ao Senhor: Salvai vosso povo, Senhor!

Pela Igreja, para que, como Maria, medite continuamente os grandes acontecimentos da história da salvação para apresentá-los ao mundo de modo sempre novo e atual, rezemos ao Senhor.

Por todos os homens, para que vejam em Jesus o homem novo, pelo qual anseiam e que lhes revela a verdadeira face do homem, rezemos ao Senhor.

Pelos nossos irmãos já falecidos, a fim de que nasçam para a vida eterna com Cristo Senhor, rezemos ao Senhor.

Pela nossa comunidade, para que seja um sinal de esperança e de paz no meio dos homens, rezemos ao Senhor.

(Outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Nós vos pedimos, ó Deus, que estas oferendas realizem em nós o mistério do Natal. Com neste recém-nascido resplandecem o homem e Deus, assim possam estes frutos da terra trazer-nos o que é divino. Por Cristo nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Exulta, filha de Sião, canta louvores, filha de Jerusalém! Eis que teu Rei vem a ti: o santo, o Salvador do mundo

 

Depois da Comunhão:

Senhor Deus, celebrando de todo o coração o nascimento do vosso Filho, dai-nos a graça de aprofundar nossa fé em tão grande mistério e crescer cada vez mais em seu amor. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Missa do Dia

Antífona: Um menino nasceu para nós: um filho nos foi dado! O poder repousa nos seus ombros. Ele será chamado “Mensageiro do Conselho de Deus”. (Is 9,6)

 

Oração: Ó Deus, que admiravelmente criastes o ser humano e mais admiravelmente restabelecestes a sua dignidade, dai-nos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Isaias (Is 52, 7-10)

Todos os confins da terra hão de ver a
salvação que vem do nosso Deus

 

7Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação, e diz a Sião: "Reina teu Deus!" 8Ouve-se a voz de teus vigias, eles levantam a voz, estão exultantes de alegria, sabem que verão com os próprios olhos o Senhor voltar a Sião. 9Alegrai-vos e exultai ao mesmo tempo, 6 ruínas de Jerusalém, o Senhor consolou seu povo e resgatou Jerusalém. 10O Senhor desnudou seu santo braço aos olhos de todas as nações; todos os confins da terra hão de ver a salvação que vem do nosso Deus. Palavra do Senhor!

 

Salmo: 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4.5-6 (R/.3c)
Os confins do universo contemplaram

a salvação do nosso Deus

 

Cantai ao Senhor Deus um canto novo, porque ele fez prodígios! Sua mão e o seu braço forte e santo alcançaram-lhe a vitória.

 

O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua justiça; recordou o seu amor sempre fiel pela casa de Israel.

 

Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus. Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, alegrai-vos e exultai!

 

Cantai salmos ao Senhor ao som da harpa e da citara suave! Aclamai, com os clarins e as trombetas, ao Senhor, o nosso Rei!

 

 

II Leitura: Hebreus (Hb 1, 1-6)

Deus falou-nos por meio de seu Filho

 

1Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; 2nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também ele criou o universo. 3Este é o esplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser. Ele' sustenta o universo com o poder de sua palavra. Tendo feito a purificação dos pecados, ele sentou-se à direita da majestade divina, nas alturas. 4Ele foi colocado tanto acima dos anjos quanto o nome que ele herdou supera o nome deles. 5De fato, a qual dos anjos Deus disse alguma vez: 'Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei"? Ou ainda: "Eu serei para ele um Pai e ele será para mim um filho"? 6Mas, quando faz entrar o primogênito no mundo, Deus diz: 'Todos os anjos devem adorá-lo!" Palavra do Senhor!

 

 

Evangelho: João (Jo 1, 1-18)

A palavra se fez carne e habitou entre nós

 

1No princípio era a palavra, e a palavra estava com Deus; e a palavra era Deus. 2No princípio estava ela com Deus. 3Tudo foi feito por ela e sem ela nada se fez de tudo que foi feito. 4Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. 5E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la.

 

6Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. 7Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. 8Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: 9daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano. 10A palavra estava no mundo - e o mundo foi feito por meio dela - mas o mundo não quis conhecê-la. 11Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram. 12Mas, a todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto e, aos que acreditam em seu nome, 13pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do varão, mas de Deus mesmo.

 

14E a palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como filho unigênito, cheio de graça e de verdade. 15DeIe, João dá testemunho, clamando: "Este é aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim passou à minha frente, porque ele existia antes de mim. 16De sua plenitude todos nós recebemos graça por graça. 17Pois por meio de Moisés foi dada a lei, mas a graça e a verdade nos chegaram através de Jesus Cristo. 18A Deus, ninguém jamais viu. Mas o unigênito de Deus, que está na intimidade do Pai, ele no-lo deu a conhecer.Palavra da Salvação!

 

 

Comentando Jo 1, 1-18

A tenda divina armada entre nós

 

Só uma reflexão atenta sobre o nascimento de Jesus permitiu ao evangelista compreender, em profundidade, o que se passou na humildade de Belém. Aí, o Filho de Deus armou sua tenda entre nós, na qualidade de enviado para nos falar de Deus e nos levar a conhecê-lo. Ele veio para nos transmitir tudo quanto aprendeu do Pai.


Sua condição divina foi descrita num linguajar elevado. Ele era a Palavra de Deus, estava em Deus e gozava da condição divina. Toda a Criação traz a sua marca, por ser obra sua. Nenhum ser existe independente de seu querer, pois nele estava a fonte da vida. Foi ele que arrancou o ser humano das trevas do erro, sendo uma luz brilhando nas trevas. Desde então, toda pessoa pode beneficiar-se desta luz, oferecida abundantemente.


Fazendo-se carne, em Jesus de Nazaré, a Palavra divina tornou-se visível. E assim, toda a humanidade passou a ter acesso a Deus, de maneira nova, por meio do Filho único, "cheio de graça e verdade". Só ele pode nos falar do Pai.


Todas estas credenciais não foram suficientes para que os seus acolhessem Jesus. Antes, movidos pelas paixões humanas - "a vontade da carne" -, muitos o rejeitaram recusando-se a partilhar da plenitude que lhes tinha sido oferecida.


Contudo, a insensatez humana não foi suficientemente forte para anular o projeto do Pai. A tenda do Verbo encarnado continua armada entre nós. Aproximemo-nos dela! [EVANGELHO NOSSO DE CADA DIA, Pe. Jaldemir Vitório, ©Paulinas]

 

Palavra se faz oração (Missal Dominical)

Por todos os homens, para que, como os pastores, reconheçam naquela Criança, em tudo semelhante às nossas crianças, a face visível do Deus invisível, o Salvador esperado, rezemos ao Senhor: Pai, Ouvi-nos!

Pela Igreja, para que, como Maria, dê ao mundo Jesus Cristo e somente ele, e escolha para revelá-lo os sinais que ele escolheu: a pobreza, a mansidão, a humildade, rezemos ao Senhor.

Pelos pobres, os marginalizados, os rejeitados, para que descubramos neles a face de Cristo e abramos nosso coração e nossas casas para acolhê-los, rezemos ao Senhor.

Pela paz no mundo, para que nos lembremos sempre de que a paz é ao mesmo tempo fruto da boa vontade do homem e dom de Deus, rezemos ao Senhor.

Por todos nós aqui presentes, para que façamos do Natal uma autêntica festa cristã, e não uma ocasião de presentes ou despesas supérfluas, rezemos ao Senhor.

(Outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Sejam de vosso agrado, ó Pai, as oferendas da festa de hoje, que nos trazem a perfeita reconciliação e a plenitude do culto divino. Por Cristo, nosso Senhor.

Antífona da comunhão:

O mundo inteiro viu o Salvador que nos foi enviado por Deus. (Sl 97,3)

 

Depois da Comunhão:

Ó Deus de misericórdia, que o Salvador do mundo hoje nascido, como nos fez nascer para a vida divina, nos conceda também sua imortalidade. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Orientações da CNBB

1.  A Missa da Aurora não é conventual

2.  Ao Et incarnatus est (no Credo), todos genufletem. Se o Credo for cantado: com os dois joelhos.

3.  Os sacerdotes podem celebrar ou concelebrar três Missas, contanto que sejam celebradas nas respectivas horas, e receber a espórtula de cada Missa.

4.  O sacerdote que sofre da vista pode, com seu indulto, celebrar três Missas votivas

5.  Nas Missas de Natal, usam-se regularmente as leituras propostas, com a possibilidade de escolher os textos mais apropriados de uma das três Missas, para a utilidade da respectiva  assembleia

 

 

Deus se faz homem por nós

 

 “Apalpamos como cegos a parede, andamos tateando; jazemos como mortos nas trevas; rugimos como ursos e gememos como pombas, à espera da salvação". Assim falava Isaias aos seus contemporâneos.

 

Nós, porém, anunciamos uma grande alegria: eis o nosso Deus. Hoje nasceu nosso salvador, Cristo Senhor; esta é a nossa alegre certeza; embora muitos homens ainda vivam as palavras de Isaias, nossos ouvidos escutaram no meio da noite: a estrela da manhã se levantou; um menino nasceu para nós. O seu nome é "Deus vem salvar-nos". "Salvador" é em nossa língua o nome mais elevado para Jesus de Nazaré; salvador significa certeza. Salvador. Um salvador na figura de uma criança, um salvador tão vulnerável, tão frágil e desarmado como uma criança.

Um menino nasceu para nós

Para reconquistar os homens, para elevá-los a si, para falar com eles, Deus veio a este mundo como uma criança;  como um balbucio que é  fácil

sufocar. E, de fato, o sufocam. Sufocam-no, fazendo do Natal a festa da sociedade de consumo, do esbanjamento institucionalizado; festa dos presentes e das decorações luminosas, do décimo terceiro salário e dos champanhas e panetones; festa de certa poesia de bondade generalizada, de um difuso sentimentalismo com verniz de generosidade e emoção.

 

Outros sufocam o Deus-Menino impedindo-o de crescer: Deus permanece criança por toda a sua vida; uma frágil estatueta de terracota, relegada a uma caixa, que se coloca no presépio uma vez por ano; é preciso um pretexto para dar certa aparência religiosa a esse natal pagão. As palavras que essa Criança trouxe aos homens não são ouvidas; são exigentes e inoportunas, enquanto um cristianismo adocicado é muito mais cômodo.

 

"Veio entre os seus"(Jo 1, 11)

Jesus não é uma tradição anual, não é um mito, não é uma fábula. Jesus é parte verdadeira da nossa história humana. O sentido teológico da vinda de Cristo não destrói por si só a moldura festiva e a poesia do Natal, mas a redimensiona e a coloca em seu justo contexto; Jesus que nasce é a Palavra de Deus que se faz carne; nós, seres humanos, somos levados talvez a nos deter mais na criancinha, terna e frágil, do que em seu aspecto de Verbo encarnado. Por isso, na liturgia de hoje, o alegre anúncio do nascimento de Cristo nos é dado com as palavras de Lucas e de João. Lucas se detém em algumas particularidades históricas que nos dão suficiente garantia de historicidade e credibilidade, e nos mostram um Jesus pobre, filho de humildes operários, um número apenas de uma remota província do império romano, um portador de todas as promessas do Antigo Testamento, embora de um modo um pouco diferente do que era esperado e suspirado pelo povo judeu, tanto que só os pobres, os vazios de si", os vigilantes, o reconhecem. João inclui a encarnação no plano da história da salvação. Assim como através do Verbo eterno foi esboçada a primeira criação, pela obra da encarnação do mesmo Verbo advém uma nova criação: o homem adquire a condição de filho de Deus; a relação homem-Deus, que o pecado havia rompido, é restabelecida em Cristo. Tornado filho de Deus, o homem está em condições de realizar seu papel de criatura; pode dirigir-se a Deus e chamá-lo "pai", e é livre, porque filho e não servo, e ama os outros homens porque irmãos.

 

Um homem como nós!

Não é fácil, tampouco, tentar descrever o grande mistério da encarnação de Deus. Como escreve João, "não bastariam todos os livros do mundo". "Em todos os testemunhos da fé cristã primitiva uma coisa é clara: no âmbito da história apresenta-se um homem, um homem como todos nós; porém, em toda a sua existência terrena, do nascimento à terrível morte na cruz, ultrapassa de tal modo as dimensões do humano que nos abre uma porta que faz entrever a transcendência da existência humana. Um homem que faz sinais extraordinários e pronuncia palavras que não passam; põe em prática o amor como nenhum outro; revela o que é o amor que salva os homens; é imagem e sinal de Deus neste mundo. Um homem em quem o eterno irrompe no tempo; através do qual os homens vêm a conhecer a profundidade e a altura da existência humana.

 

Torna-se ele esperança para os homens destinados à morte, pois morrendo nos merece a vida e nos abre um novo futuro. Tudo isso se revela desde o seu nascimento; a frágil criancinha que jaz na manjedoura é o salvador do mundo. Isto é a imperecível mensagem do Natal - sem mito nem lenda" (R. Schnackenburg). [Missal Cotidiano, ©Paulus, 1995]

 

 

 

 

 

Mensagem de Natal 2011

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB, Arcebispo de Olinda e Recife - PE

 

“Quando a noite ia no meio do seu curso e um silêncio profundo envolvia o universo, a tua palavra todo-poderosa desceu do seu trono real para a terra” (Antiga antífona de introito do domingo dentro da oitava do Natal baseada no livro da Sabedoria 18, 14- 15).

 

Queridos irmãos e irmãs,

 

O Natal é a festa da Palavra. Nós, cristãos, acreditamos que uma Palavra revelou: o mundo está ‘grávido’ de Deus. O nascimento de Jesus é a manifestação desse mistério da presença divina na história. Atualmente, nossa sociedade está inflacionada por muitas palavras e imagens. Tende a tornar a comunicação uma mera publicidade comercial. Por isso, mais do que nunca, nós que cremos que a Palavra Divina se fez carne somos chamados/as a testemunhar a importância e a centralidade desta Palavra em nossas vidas e na nossa fé.

 

O mundo atual se debate em uma grave crise econômica, ética e cultural. Em vários países, setores da juventude têm ido às ruas e praças para pedir outra forma de organizar o mundo que não seja a partir do mercado e do lucro privado de minorias, ao custo do desemprego e do sofrimento de multidões. É uma situação de escuro, na qual não se vislumbra um futuro promissor. Como na noite do Êxodo bíblico da qual fala o livro da Sabedoria e a noite na qual nasceu Jesus em Belém, a Palavra de Deus pode ser luz e servir de orientação para que o mundo resolva seus conflitos no diálogo e no respeito ao direito de todos.

 

Hoje, o Natal vai além da sua importante dimensão religiosa. Serve também de ocasião para que as pessoas se confraternizem e expressem umas às outras o seu bem-querer. Isso é bom e humano. Mesmo como festejo popular e simplesmente civil, o Natal pode ser uma feliz ocasião de vivermos um encontro com as outras pessoas e isso está dentro do espírito da celebração. Afinal, damos presentes uns aos outros porque recebemos de Deus o primeiro e maior presente. Podemos viver essa troca de presentes e de cartões desejando feliz Natal sem ceder ao comercialismo que tenta fazer da festa mera ocasião de mais lucro e consumismo. O Natal pode ser uma excelente contribuição do cristianismo para toda a humanidade, se esta festa puder ser ocasião para se celebrar o diálogo e a amizade humana, sinais privilegiados de que, em cada pessoa humana, há uma dimensão divina.

 

Celebramos este Natal de 2011, às vésperas do início das comemorações do 50º aniversário do Concílio Vaticano II que trouxe à Igreja e ao mundo, como disse o papa João XXIII, um novo Pentecostes. Neste cinquentenário do Concílio, a nossa arquidiocese está vivendo um momento novo e fecundo. Os seis Vicariatos e as doze Comissões Arquidiocesanas de Pastoral estão elaborando para nossa Igreja particular um novo Plano de Pastoral que aplicará à nossa região as diretrizes pastorais da CNBB (DGAE) e nos ajudará a sermos cada vez mais uma Igreja discípula de Jesus e missionária, no testemunho do reino de Deus no mundo. O objetivo desse plano é assegurar que nossa palavra seja expressão da Palavra Divina que nos foi dada no Natal. O Plano de Pastoral deve fazer com que a nossa palavra seja, como diz o Evangelho, acompanhada pelos sinais concretos que realizamos (Cf. Mc 16, 20).

 

A encarnação de Jesus em nosso mundo aparecerá hoje se nos tornarmos, cada vez mais humanos e capazes de dialogar e de viver em comunhão. O mundo reconhecerá essa presença de Jesus no meio de nós se nossas vidas se tornarem sempre mais a serviço da humanidade. Assim, testemunharemos que, dentro de nós mesmos e nesse mundo que jaz na escuridão, há um presépio, no qual descansa não mais o menino Jesus e sim o Cristo ressuscitado, na forma dos rostos concretos das pessoas com as quais convivemos e que encontramos no hoje de nossas vidas.

 

Que a luz do amor divino rompa todas as escuridões, de nossos corações e das estruturas do mundo. Com este desejo imenso de viver o idioma do diálogo como cântico universal do Natal, saúdo de coração a todos os fiéis da nossa arquidiocese, a todos os irmãos e irmãs de outras Igrejas cristãs que, conosco celebram que o Verbo Divino se fez carne e a todas as pessoas de boa vontade.

 

A todos/as, desejo um Feliz Natal!

[Fonte: CNBB]