Domingo, 24 de julho de 2011

17º do Tempo Comum, Ano “A”, 1ª Semana do Saltério (Livro III), cor litúrgica Verde

 

 

Santos: Aliprando de Ciel d'Oro (abade), Cristiana de Termonde (virgem), Cristina de Bolsena (virgem, mártir), Cristina de Tiro (virgem, mártir), Declano de Ardmore (bispo), Ditino de Astorga (bispo), Godo de Oye (abade), João Boste (presbítero, mártir), Kinga da Polônia (virgem), Levina de Berg (virgem, mártir), Menefrida de Cornwall (virgem), Nicolau Hermanssön (bispo), Segolena de Troclar (abadessa), Ursicínio de Sens (bispo), Vicente de Roma (mártir).

 

Antífona: Deus habita em seu templo santo, reúne seus filhos em sua casa; é ele que dá força e poder a seu povo (Sl 67, 6s.36)

 

Oração: Ó Deus, sois o amparo dos que vós esperam e, sem vosso auxilio, ninguém é forte, ninguém é santo: redobrai de amor para conosco, para que, conduzidos por vós, usemos de tal modo os bens que passam, que possamos abraçar os que não passam. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

1ª Leitura: I Reis (1Rs 3, 5.7-12)
Salomão se dirige ao Senhor em oração e é atendido

 

Naqueles dias, 5em Gabaon, o Senhor apareceu a Salomão, em sonho, e lhe disse: "Pede o que desejas, e eu te darei".

 

7E Salomão disse: "Senhor meu Deus, tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. 8Além disso, teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. 9Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?"

 

10Esta oração de Salomão agradou ao Senhor. 11E Deus disse a Salomão: "Já que pediste esses dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, 12vou satisfazer o teu pedido; dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti". Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a I Leitura[1]

O poder a serviço do povo

 

Os fatos narrados nesse texto situam-se por volta do ano 971 a.C. Salomão herdou de seu pai Davi grande império. Cabe-lhe, agora, administrá-lo sabiamente. O rei está em Gabaon para oferecer um sacrifício (v. 4). É ali que Javé se comunica com ele em sonho e lhe diz: “Peça-me o que desejar e lhe darei” (v. 5).

 

Salomão tem consciência de suas limitações e incapacidades, que se tornam mais evidentes quando comparadas com a capacidade e equilíbrio encontrados em Davi (v. 7). A função do rei pode ser sintetizada em três itens, presentes no texto: 1. Governar: o rei é responsável pelo bom uso do bem público, preocupando-se em primeira mão com o bem-estar e a prosperidade do povo (cf. v. 9); 2. Julgar: cabe a ele preservar e promover a justiça, sem discriminações. A ordem social depende de leis justas que não privilegiem uns em detrimento de outros; 3. Ter bom senso e discernimento em vista da justiça: o poder se converte em benefício ou iniqüidade, dependendo do uso que dele se faz.

 

Na oração de Salomão, todos esses requisitos estão presentes. Ele foi escolhido para governar, julgar e saber discernir. Mais ainda: essa oração do rei revela qual seja a posição da autoridade em relação a Deus e ao povo. Em relação a Deus: Salomão assume a atitude de servo, chamando a Deus de Senhor e considerando-se servo dele (cf. v. 7). O rei, portanto, não é senhor, mas servo. Em relação ao povo: Salomão tem consciência de que o povo pertence a Deus (cf. v. 9). Ele, pois, não poderá assenhorear-se do povo sem estar em gritante contradição com sua função de servo do povo de Deus.

 

O discernimento que Salomão fez agradou a Deus (v. 10), que lhe concede sabedoria para praticar a justiça (v. 11) e um coração sábio e inteligente (v. 12; o coração, para o povo de Deus, é a sede do discernimento).

 

Tal é o ideal do rei ou administrador da coisa pública. A história de Israel, contudo, leu em Salomão, e na sua posterior administração, a perversão do poder. Isso se explica tendo em conta o seguinte: esses relatos sobre Salomão receberam sua redação definitiva no período que vai de antes até o fim do exílio na Babilônia. São fruto da redação deuteronomista do tempo de Josias (640-609 a.C.) e do exílio. A redação deuteronomista reflete sobre os porquês da catástrofe nacional e detecta em Salomão um “vírus” que passou a seus sucessores, culminando com a desgraça total do povo e da nação (exílio). Esse vírus pode ser detectado na política de Salomão – tão diferente de Davi –, na administração e na burocracia que, já no seu tempo, haviam levado o povo à escravidão.

 

Pondo no início do reinado de Salomão a oração que lemos hoje, a escola deuteronomista quis fazer grave advertência: as intenções iniciais do rei podiam ser boas, mas ele não foi capaz de promover o bem do povo, a justiça e a paz, porque a febre do poder tomou conta dele. E, se hoje amargamos a catástrofe nacional, é porque o vírus salomônico se tornou epidemia… [Vida Pastoral nº 261, Paulus, 2008]

 

 

 

Salmo: 118(119), 57 e 72,76-77.127-128.129-130 (R/.97a)

Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!

 

E esta a parte que escolhi por minha herança: observar vossas palavras, ó Senhor! A lei de vossa boca, para mim, vale mais do que milhões em ouro e prata.

 

Vosso amor seja um consolo para mim, conforme a vosso servo prometestes. Venha a mim o vosso amor e viverei, porque tenho em vossa lei o meu prazer!

 

Por isso amo os mandamentos que nos destes, mais que o ouro, muito mais que o ouro fino! Por isso eu sigo bem direito as vossas leis, detesto todos os caminhos da mentira.

 

Maravilhosos são os vossos testemunhos, eis por que meu coração os observa! Vossa palavra, ao revelar-se, me ilumina, ela dá sabedoria aos pequeninos.

 

 

 

 

II Leitura: Romanos (Rm 8, 28-30)

Fomos eleitos para participarmos da sua glória

 

Irmãos: 28Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, de acordo com o projeto de Deus. 29Pois aqueles que Deus contemplou com seu amor desde sempre, a esses ele predestinou a serem conformes a imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito numa multidão de irmãos.

 

30E aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos; e aos que tornou justos, também os glorificou. Palavra do Senhor!

 

Comentando a II Leitura

Filhos no Filho, destinados à glória

 

Os três versículos da carta aos Romanos lidos na liturgia deste domingo são a conclusão da argumentação paulina em torno do segundo princípio fundamental (8,14-30) que rege a vida do cristão: a filiação divina (para o primeiro princípio, cf. o comentário à II leitura dos domingos anteriores).

 

Nós somos filhos de Deus e, como tais, somos destinados à glória. Isso faz parte do projeto de Deus, que propõe vida em plenitude, de acordo com a sua vontade. Deus criou o ser humano destinado à glória e não ao fracasso, como pregavam certas correntes de pensamento da época.

Paulo, mediante o discernimento à luz da prática de Jesus morto e ressuscitado, chegou à certeza (“sabemos”) de que “todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus e são chamados segundo o seu desígnio” (v. 28). Como chegou a essa conclusão? Lendo os acontecimentos e a vida na perspectiva do que Deus realizou com a morte e ressurreição do seu Filho, Jesus, e com a efusão do Espírito Santo. Com base nisso Paulo descobre o Deus de amor que provê às necessidades dos que nele crêem (cf. Sl 97,10; 145,20; Tb 13,14; Ecl 8,12; Eclo 34,16), chegando ao gesto ímpar de amor, anistiando a humanidade e convidando-a à vida mediante a morte e ressurreição do seu Filho (cf. 8,3).

 

Os cristãos de Roma tiveram conhecimento do amor de Deus por meio do anúncio do evangelho. Tornando-se cristãos, responderam ao evangelho e, mais ainda, ao amor de Deus.

 

Os dois versículos seguintes (vv. 29-30) desenvolvem o pensamento já esboçado no v. 28. O ápice do projeto divino é Deus sendo glorificado e os seres humanos participando dessa glória, tornando-se “imagem do Filho, a fim de que o Filho seja o primeiro entre muitos irmãos” (v. 29). Paulo sintetiza o que é a filiação divina: é ser filho no Filho, fazendo que o mundo seja grande fraternidade, com um mesmo Pai: Deus. Tal é o objetivo do anúncio evangélico dirigido às pessoas.

 

Os cristãos de Roma tinham consciência do que significava ser filhos de Deus. Mas custava-lhes crer, porque olhavam demais para o número dos próprios limites e falhas. Paulo garante: quem foi chamado a viver, no Filho, a filiação divina, já foi anistiado por Deus (“os que chamou, também justificou”). A precariedade humana não é o fator decisivo; decisivo é o amor do Pai que perdoa. E não só perdoa, mas também glorifica, ou seja, vai conduzindo até que todos possam viver a plenitude do seu amor (v. 30). [Vida Pastoral nº 261, Paulus, 2008]

 

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 13, 44-52)
 Nada deve impedir o nosso desejo de salvação

 

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 44"O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo.

 

45O Reino dos Céus é também como um comprador que procura pérolas preciosas. 46Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola. 47O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50e lançarão os maus na fornalha de fogo. E ai haverá choro e ranger de dentes. 51Compreendestes tudo isso?" Eles responderam: "Sim". 52Então Jesus acrescentou: "Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas". Palavra da Salvação!

 

Comentando o Evangelho


Discernimento e opção pelo Reino

 

O texto de hoje é a conclusão do discurso sobre o mistério do Reino (13,1-52). Podemos dividir o texto deste dia em três partes: vv. 44-46; vv. 47-50; vv. 51-52.

 

a. Opção radical pelo Reino (vv. 44-46)

Estes três versículos encerram duas pequenas parábolas: a do tesouro escondido (v. 44) e a da pérola de grande valor (vv. 45-46). Ambas focalizam o tema da opção radical pelo reino da justiça, diante do qual vale a pena arriscar tudo, alegremente (veja 6,33). Ambas mostram a atitude de alguém que vende tudo o que possui para conquistar o novo, algo de valor incalculável, o único valor absoluto. Podemos imaginar os efeitos que essas parábolas tiveram sobre as comunidades siro-palestinenses, desiludidas e ameaçadas de afrouxamento.

 

A primeira parábola é a do tesouro escondido no campo (v. 44). A parábola não compara o Reino com o tesouro, mas quer mostrar o estado de ânimo de quem encontra esse tesouro, comparando esse estado de ânimo com o que deveria animar os que descobrem o reino da justiça como valor absoluto de suas vidas. Como reage quem encontra um tesouro? Como reage quem descobriu que a justiça é o único caminho para conseguirmos sociedade e história novas?

O texto não afirma que o descobridor estivesse à caça de tesouros escondidos. Simplesmente topa com ele, sem esforço. O reino da justiça também não é objeto de buscas intermináveis; está debaixo de nossos pés, a nosso alcance, em nosso chão. A reação de quem encontrou o tesouro é de alegria e desembaraçamento de tudo para a obtenção desse tesouro. Aí está, diz Mateus, o estado de ânimo de quem descobriu, na prática da justiça do Reino, o filão escondido do mundo novo.

 

O Reino é dom gratuito, manifestado na prática de Jesus. A esse achado inesperado correspondem alegria e desprendimento total. Não se trata de renunciar para obter o Reino. É sua descoberta que possibilita desembaraçar-se alegremente de tudo.

 

A segunda parábola é a da pérola de grande valor (vv. 45-46). Há algumas diferenças em relação à anterior: o fato de o comprador estar buscando pérolas e a falta de menção da alegria com que vende todos os seus bens. Contudo, o significado é o mesmo da parábola anterior: pelo fato de encontrar um valor maior, desfaz-se de tudo para possuí-lo, porque vale a pena. Fique bem claro, porém, que o Reino não é troca de mercadorias. Não pode ser comprado como o campo que esconde o tesouro ou como a pérola. As parábolas querem salientar que nada faz falta a quem descobriu o sentido e o valor da luta pela justiça.

 

b. O Reino em meio aos conflitos (vv. 47-50)

A parábola da rede lançada ao mar (vv. 47-50) prolonga o tema da parábola do joio no meio do trigo (cf. a parábola do domingo passado) e tem sabor de escatologia final. Na sociedade convivem lado a lado “peixes bons” e “peixes ruins” (Lv 11,9-12 e Dt 14,9 prescreviam quais peixes podiam ou não ser comidos). Quem lança a rede é Deus e só a ele compete ordenar a triagem. O juízo constará de separação. A parábola, portanto, mostra às comunidades cristãs qual será sua sorte final se perseverarem no discernimento e na opção definitiva pelo reino de justiça.

 

c. Convite ao discernimento (vv. 51-52)

Os vv. 51-52 pretendem ser a conclusão das parábolas. A insistência do v. 51 recai sobre a compreensão ou o discernimento: “Vocês compreenderam tudo isso?” Não se trata simplesmente de entender o sentido das parábolas, mas antes de compreender (tomar consigo, apropriar-se), assumir o ensinamento e a prática do Reino que elas manifestam. Trata-se de compreender o mistério do Reino, que pode ser resumido em dois pontos: 1. O mistério do Reino já foi e continua sendo manifestado naquilo que Jesus diz e realiza; 2. O que ele diz e realiza se prolonga na práxis da comunidade cristã em meio a uma sociedade conflituosa. A função da comunidade não é fazer a triagem ou fugir da realidade, mas dar continuidade à prática de Jesus.

 

Os discípulos (e as comunidades cristãs) afirmam ter compreendido tudo isso. “Por isso – diz Jesus – todo doutor da Lei que se torna discípulo no reino do céu é como um pai de família que tira do seu baú coisas novas e velhas” (v. 52). O versículo faz uma comparação entre o doutor da Lei e o pai de família. É possível ver nesse doutor da Lei uma referência ao próprio autor do evangelho (Mateus) que relê o AT (coisas velhas) à luz da novidade de Jesus (coisas novas). Tudo faz parte do patrimônio da fé; porém, seu valor está em se ter feito discípulo do Reino.

Mas pode ser também o modo pelo qual Mateus justifica as adaptações das parábolas às novas realidades das comunidades (a “explicação” da parábola do joio é uma releitura das comunidades). Ser discípulo do reino de justiça permite administrá-lo sabiamente (o pai de família), para que sua mensagem ilumine e transforme os novos desafios.

 

Pode, ainda, ser uma referência à catequese. O Evangelho de Mateus era uma espécie de manual do catequista cristão (doutor da Lei que se torna discípulo do Reino). Ora, também a catequese primitiva sentiu a necessidade de adaptar o núcleo central da fé às novas situações e desafios de uma sociedade conflituosa. Por isso o catequista estava e está sempre em busca de algo que, partindo da prática de Jesus, possa constituir fonte de inspiração e levar à solução dos novos conflitos que se apresentam. [Vida Pastoral nº 261, Paulus, 2008]

 

O Reino de Deus

 

Existe um evidente contraste entre a riqueza do ensinamento bíblico sobre o "Reino" e a pobreza da idéia que dele têm os cristãos. A imagem de Reino não lembra mais quase nada às nossas mentes. E mesmo que continuem a persistir algumas expressões no vocabulário eclesial corrente (construção do Reino, vinda do Reino...), parece que perderam seu dinamismo interior e um conteúdo claro e definido. No entanto, o Reino constitui o objeto primário da pregação do NT. João Batista e Jesus iniciam sua pregação como anúncio de alegria: "Está próximo o Reino de Deus". A Boa-nova proclamada por Jesus é, em suma, a vinda do Reino. Que quer dizer-nos Jesus?

 

O plano salvífico de Deus.

 

Usando uma expressão altamente significativa para o povo eleito (o Antigo Testamento já esboça a doutrina do Reino!), o Messias quer anunciar a Israel que a longa expectativa já está terminada; as promessas, que constituíam a substância e o fundamento da sua esperança, se tornaram agora realidade. Mas, ao mesmo tempo. Jesus quer corrigir toda uma mentalidade que se havia sedimentado há séculos na consciência de Israel: o Reino de Deus não consiste na restauração da monarquia davídica nem numa compensação de tipo nacionalista.

 

Jesus se insere na linha dos profetas quando compara o Reino por ele anunciado ao tesouro ou à pérola preciosa (evangelho), diante dos quais tudo o mais é desprovido de valor; quando afirmam que a Boa nova e' anunciada aos pobres e só se chega a esse Reino assumindo as exigências bem precisas que se resumem na palavra: conversão, penitência.

 

Comparando o Reino com a semente, o grão de mostarda, o lêvedo, Jesus quer dizer que este Reino já está presente, mas ainda longe sua realização definitiva. Edificar-se-á gradualmente, graças à fidelidade dos discípulos ao mandamento novo do amor sem limites. Trata-se de um Reino que não é deste mundo, embora sua construção comece aqui. E um Reino universal, aberto a todos, porque é o Reino do Pai, comum a todos os homens.

     

Reino de Deus e Igreja

 

O tema do Reino de Deus e da Igreja estão estreitamente ligados, mas não indicam a mesma realidade.

 

Na perspectiva de sua consumação final, a Igreja coincide verdadeiramente como Reino; mas em sua realidade histórica e sociológica na terra, a Igreja é unicamente o terreno privilegiado - e sempre ambíguo, por causa do pecado - em que se edifica lentamente o Reino; esse Reino não está preso a nenhuma realidade sociológica, nem mesmo de caráter religioso; vai sempre além de qualquer realização concreta em que se manifesta.

 

O Reino de Deus já está presente, como uma semente; mas é necessário que cresça. Instaurado por Jesus, é certamente a atualização da antiga esperança, mas terá que se edificar progressivamente em toda a face da terra. É papel dos cristãos serem os artífices desta construção, sob o impulso do Espírito; como a Igreja, estão eles, antes de tudo, a serviço do Reino.

 

Depois dos primeiros tempos, a Igreja compreendeu que o Reino não é objeto de expectativa passiva; para tomar-se a realidade definitiva, cujo penhor se possui, exige o esforço constante e ativo de todos. No Reino de Deus, tudo lá está realizada, mas tudo deve ainda realizar-se, e se realiza cada dia com a intervenção conjunta, em Cristo Jesus, de Deus e dos homens.

 

A Igreja, germe e início do Reino

 

Até há pouco tempo, o perigo para os cristãos era identificar o Reino de Deus com a Igreja-instituição. Hoje, parece verificar-se o perigo contrário, isto é, o de se esquecer de que a Igreja não se identifica com o Reino; "constitui, na terra, o germe e o inicio deste Reino"

 

A evangelização, sensível aos valores humanos atuais, esforça-se por inserir-se cada vez mais profundamente na vida, na situação e cultura humana; mas se inclina a transferir para um futuro não facilmente previsível o convite à conversão, a pregação da mensagem, a proposta de uma inserção plena na Igreja, por respeito aos tempos de maturação e aos ritmos lentos da conversão. O perigo está numa falsa concepção da missão da Igreja, e na inconsciente tentativa de reduzir a dimensão do cristianismo. Certa catequese, por exemplo, para ser fiel ao homem não é mais fiel a Deus, e assim trai a fidelidade radical ao homem, cujo plano coincide com o de Deus. [MISSAL DOMINICAL ©Paulus, 1995]

 

Oração da assembleia (Missal Dominical)

Enquanto agradecemos ao Senhor o dom da vocação cristã, peçamos que ele nos faça entrar no Reino definitivo do seu amor. Senhor, atendei-nos.

Pela Santa Igreja de Deus, para que se ponha a serviço do Reino de Deus, com esforço de humanização do mundo e com a pregação do evangelho, rezemos.

Por todos os batizados, para que sejam dóceis a ação do Espírito Santo e considerem sua vocação cristã como louvor a Deus e serviço aos irmãos, rezemos.

Por todos nós, participantes desta eucaristia, para que o testemunho de nossa vida seja para todos sinal e antecipação do Reino que Jesus veio inaugurar, rezemos.

(outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Acolhei, ó Pai, os dons que recebemos da vossa bondade e trazemos a este altar. Fazei que estes sagrados mistérios, pela força da vossa graça, nos santifiquem na vida presente e nos conduzam à eterna alegria. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Bendize, ó minha alma, ao Senhor, não esqueças nenhum de seus favores! (Sl 102,2)

 

Oração Depois da Comunhão:

Recebemos, ó Deus, este sacramento, memorial permanente da paixão do vosso Filho, fazei que o dom da vossa inefável caridade possa servir à nossa salvação. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

 

 

O Reino de Deus e as Sagradas Escrituras

 

No AT Deus apresenta-se como Rei-Pastor do seu povo. Israel era o reino, a pertença de Javé, entendido, a princípio, em sentido material (Ex 15,18; 16,9; 19,6; Is 5,4; Jz 8,23; 1Sm 8,7;Sl 24,7-10; 11,4; 47,3; 103,19; Jr 10,7-10).

 

Instaurada a monarquia real, esta deve estar subordinada à realeza de Javé (1Sm 8,1-7.19s; 2Cor 13,8; 2Sm 7,14; Sl 2,7).

 

As infidelidades dos reis, a divisão do reino e o exílio permitiram a espiritualização do conceito de Reino, despertando a esperança para uma realização definitiva do reinado de Javé nos tempos escatológicos (Mq 2,13; Ez 34,11; Is 40,9s; 52,7; Sf 3,14s). Será um reino universal (Zc 14,9; Is 24,23; Sl 47; 96; 99; Dn 2,4-44; 7,14-27; Sb 3,8).

 

No tempo de Jesus o povo tinha nostalgia deste passado e esperava que Deus estabelecesse seu reinado definitivo sobre Israel e as nações. Os judeus esperavam uma intervenção maravilhosa de Deus, de caráter político, mas numa relação particular com Deus (Mt 4,3-9; 20,21; Jo 6,14s; At 1,6).

 

Jesus dá ao Reino de Deus (Marcos) ou ao Reino dos Céus (Mateus) o primeiro lugar na sua pregação (Mt 3,2; 4,17; 9,35; 10,7; Lc 12,31; 16,16; 22,29; Jo 12,13-15). Apresenta a sua ação na linha das manifestações do reinado messiânico escatológico, anunciado pelos profetas (Mt 4,23; 12,28; Lc 7,21s; cf. Is 35,5s; 61,1-3).

 

Os apóstolos recebem de Cristo a missão de proclamar o Evangelho do Reino (Mt 10,7).

 

 Depois de Pentecostes o Reino é o tema central da pregação evangélica (At 14,22; 19,8; 20,25; 28,23-31; 1Ts 2,12).

 

Só aos humildes e aos pequenos é dado conhecer os mistérios do Reino (Mt 11,25).

 

O Reino é “como a semente depositada na terra”(Mt 13,3-9.18-23) que crescerá por seu próprio poder como o grão (Mc 4,26-29). É como “fermento na massa”(Mt 13,33). Converter-se-á numa grande árvore onde se aninharão as aves do céu (Mt 13,31s).

 

O Reino é dom de Deus (Mt 5,3; 13,44-46; 18,1-4; 20,1-16; 1Cor 6,9s; Gl 5,21; Ef 5,5).

O Reino está em crescimento até a Parusia (Mt 9,37s; 11,12s; 13; 25,34; Mc 2,19; Jo 4,35; 2,1-11; At 1,9s; Lc 21,31; 22,14s.17s). Ver “Senhor”.

 

 

O Reino de Deus no  Catecismo da Igreja Católica

 

543. – Todos os homens são chamados a entrar no Reino. Anunciado primeiro aos filhos de Israel, este Reino messiânico é destinado a acolher os homens de todas as nações. Para ter acesso a ele, é preciso acolher a Palavra de Jesus.

 

544. – O Reino é dos pobres e pequenos, quer dizer, dos que o acolheram  com o coração humilde. Jesus foi enviado para “trazer a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18). Declara-os bem-aventurados, porque “é deles o reino dos Céus” (Mt.5,3). Foi aos “pequenos” que o Pai se dignou revelar o que continua oculto aos sábios e inteligentes. Jesus  partilha  a  vida  dos pobres, desde o presépio até à cruz. Sabe o que é sofrer a fome, a sede e a nudez.  Mais  ainda: Identifica-Se com os pobres de toda a espécie, e faz do amor para com eles a condição  da entrada no Reino.

 

 



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