Domingo, 22 de fevereiro de 2009
Sétimo do Tempo Comum, Ano B, 3ª Semana do Saltério (Livro III), cor litúrgica verde
Confiei, Senhor, na vossa misericórdia; meu coração exulta porque
me salvais. Cantarei ao Senhor pelo bem que me fez (Sl 12,6).
Santos do Dia: Abílio de Alexandria (bispo), Aristeu de Salamis (mártir), Atanásio de Nicomédia (abade), Margarida de Cortona (franciscana terciária), Maximiano de Ravena (bispo), Papias de Hierápolis (bispo), Pascásio de Viena (bispo), Rainério de Beaulieu (monge), Talássio e Lineu (eremitas), Ângelo Portasole (bispo, bem-aventurado)
Oração: Concedei, ó Deus todo-poderoso, que, procurando conhecer sempre o que é reto, realizemos vossa vontade em nossas palavras e ações. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
A liturgia do dia: A liturgia deste domingo convida-nos, uma vez mais, a tomar consciência de que Deus tem um projeto de salvação para os homens e para o mundo. Esse projeto (que em Jesus se torna vivo, palpável, realmente libertador) é um dom de Deus que o homem deve acolher com fé.
I
Leitura: Isaias (Is 43, 18-19.21-22.24b-25)
O perdão de Deus infunde no crente uma vida nova
Assim fala o Senhor: 18"Não relembreis coisas passadas, não olheis para os fatos antigos. 19Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis? Pois abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca.
21Este povo, eu o criei para mim e ele cantará meus louvores. 22Mas tu, Jacó, não me invocaste, e tu, Israel, de mim te fatigaste. 24bCom teus pecados, trataste-me como servo, cansando-me com tuas maldades. 25Sou eu, eu mesmo, que cancelo tuas culpas por minha causa e já não me lembrarei de teus pecados". Palavra do Senhor!
Salmo:
40(41), 2-3.4-5.13-14 (+ 5b)
Curai-me, Senhor, pois pequei contra vós! (5b)
2Feliz de quem pensa no pobre e no fraco: o Senhor o liberta no dia do mal! 3O Senhor vai guardá-lo e salvar sua vida, o Senhor vai torná-lo feliz sobre a terra, e não vai entregá-lo à mercê do inimigo.
4Deus irá ampará-lo em seu leito de dor, e lhe vai transformar a doença em vigor. 5Eu digo: "Meu Deus, tende pena de mim, curai-me, Senhor, pois pequei contra vós!"
13Vós, porém, me havereis de guardar são e salvo e me pôr para sempre na vossa presença. 14Bendito o Senhor, que é Deus de Israel, desde sempre, agora e sempre. Amém!
II Leitura:: 2Cor 1, 18-22
Em Deus tudo se afirma
Irmãos: 18Eu vos asseguro, pela fidelidade de Deus: O ensinamento que vos transmitimos não é "sim-e-não". 19Pois o Filho de Deus, Jesus Cristo, que nós - a saber: eu, Silvano e Timóteo - pregamos entre vós, nunca foi "sim-e-não", mas somente "sim".
20Com efeito, é nele que todas as promessas de Deus têm o seu "sim" garantido. Por isso também, é por ele que dizemos "amém" a Deus, para a sua glória.
21E Deus que nos confirma, a nós e a vós, em nossa adesão a Cristo, como também é Deus que nos ungiu. 22Foi ele que nos marcou com o seu selo e nos adiantou como sinal o Espírito derramado em nossos corações. Palavra do Senhor!
Evangelho:
Marcos (Mc 2, 1-12)
A cura do paralítico
1Alguns dias depois, Jesus entrou de novo em Cafarnaum. Logo se espalhou a notícia de que ele estava em casa. 2E reuniram-se ali tantas pessoas, que já não havia lugar, nem mesmo diante da porta. E Jesus anunciava-lhes a Palavra.
3Trouxeram-lhe, então, um paralítico, carregado por quatro homens. 4Mas não conseguindo chegar até Jesus, por causa da multidão, abriram então o teto, bem em cima do lugar onde ele se encontrava. Por essa abertura desceram a cama em que o paralítico estava deitado.
5Quando viu a fé daqueles homens, Jesus disse ao paralítico:" Filho, os teus pecados estão perdoados". 6Ora, alguns mestres da Lei, que estavam ali sentados, refletiam em seus corações: 7"Como este homem pode falar assim? Ele está blasfemando; ninguém pode perdoar pecados, a não ser Deus".
8Jesus percebeu logo o que eles estavam pensando em seu íntimo, e disse: "Por que pensais assim em vossos corações? 9O que é mais fácil: dizer ao paralítico: 'Os teus pecados estão perdoados', ou dizer: 'Levanta-te, pega a tua cama e anda?'
10Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem, na terra, poder de perdoar pecados, - disse ao paralítico: - 11eu te ordeno: levanta-te, pega tua cama, e vai para tua casa!"
12O paralítico então se levantou e, carregando a sua cama, saiu diante de todos. E ficaram todos admirados e louvavam a Deus, dizendo: "Nunca vimos uma coisa assim". Palavra da Salvação!
A Misericórdia [1]
Quando o homem adquire a consciência de ser indigente e pecador, então lhe é revelada a face da misericórdia de Deus. De fato, o homem é profundamente pecador. Suas relações com Deus são marcadas muito freqüentemente pelo pecado.
O pecado atravessa toda a história do homem
A Bíblia nos descreve a história humana e a história de Israel como uma contínua volta ao pecado original e ao pecado do deserto. Em lugar de andar nos caminhos de Deus, o homem percorre seu próprio caminho e se afasta de seu Deus.
Mas Deus não abandona seu povo, como não se esquece da humanidade. Antes, paradoxalmente, é no momento preciso do pecado do homem que Deus revela mais profundamente o mistério de sua "ternura".
"O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e compassivo, lento à cólera e rico em graça e fidelidade, que conserva seu favor por mil gerações" (Ex 34,6-7).
"Como um pai tem piedade de seu filho, assim o Senhor tem piedade dos que o temem. Porque ele sabe de que somos feitos, lembra-se de que somos pó" (Sl 102,13-14).
De fato, ao longo de toda a história sagrada, Deus revela que, devendo castigar o povo que pecou, é tomado de misericórdia logo que este clama a ele do fundo de sua miséria. "Meu coração se comove dentro de mim, meu íntimo freme de compaixão. Não darei largas ao ardor da minha ira" (Os 11,8-9).
Nesta linha coloca-se a missão de Jesus. Ele veio revelar a face misericordiosa do Pai, que cura e perdoa. Para além do mal físico, Jesus quer curar o mal espiritual, causa do outro. Não veio para dar demonstrações de atividade taumatúrgica sensacional, não busca a celebridade; veio buscar e salvar os que estavam perdidos por causa do pecado (evangelho).
O milagre que Jesus faz ao paralítico é prova de sua divindade (quem pode perdoar os pecados a não ser somente Deus?)... mas é sinal da radical eficácia do seu perdão: um perdão que renova completamente. O passado pesa, o pecado prostra, os homens se lembram do mal. Mas Deus esquece e, quando cura, o faz radicalmente. Não restaura, mas cria de novo. Perdoa os pecados, cancela-os, lança-os para trás de si, não mais se lembra deles. Eis o que faz Cristo no paralítico: uma nova criação.
"Eu cancelo os teus crimes, por mim mesmo, não me lembro mais de teus pecados. Eis que faço uma coisa nova" (1ª leitura).
Pecado e perdão postos em questão
À medida que o homem moderno perde o sentido de Deus, põe em questão as categorias cristãs do pecado e do perdão. O maior pecado do nosso tempo - foi dito - é que o homem perdeu o sentido do pecado, e, conseqüentemente, a necessidade de perdão e de misericórdia.
Enquanto o Deus do homem moderno é apenas uma falsa imagem do Deus de Jesus Cristo, também a concepção de pecado e de perdão corre o risco de ser uma deformação da realidade especificamente cristã da misericórdia e do perdão.
Em verdade, existiram e ainda existem deficiências quanto a uma idéia precisa de pecado. Temos insistido demasiadamente sobre a materialidade do ato que chamamos pecado, sobre uma rígida classificação, um certo legalismo, uma preocupação quantitativa; negligenciando as causas, dando pouca atenção às atitudes e opções fundamentais, insistindo quase morbidamente sobre certos setores da moral; reduzindo o pecado a um gesto individual e menosprezando a dimensão social e comunitária; esquecendo-nos das culpas coletivas ligadas ao nosso comodismo, e secretas conivências com instituições ou sistemas opressores...
Deve-se acrescentar ainda a concepção dos que pensam obter o perdão de maneira semimágica, sem as disposições necessárias. A crise atual com relação ao sacramento da penitência pode revelar-se providencial, se libertar o cristão de uma série de esclerosamentos inúteis e perigosos, ajudá-lo a reduzir-se ao essencial nos ritos e a voltar ao justo sentido do pecado.
Uma concepção demasiado restrita da sacramentalidade levou o cristão a limitar indevidamente ao sacramento da penitência o exercício do poder sacramental do perdão confiado à Igreja. Hoje, redescobrimos o valor originariamente penitencial da eucaristia no seu conjunto e em alguns de seus ritos particulares.