Domingo, 21 de novembro de 2010

Jesus Cristo, Rei do Universo, Ofício Solene 2ª Semana do Saltério (Livro III), cor Branca

 

 

Hoje: Dia Nacional da Homeopatia e Dia da Vida Religiosa de Clausura

 

Santos: Alberto de Lovaina (bispo, mártir), Amelberga de Susteren (abadessa), Celso e Clemente (mártires de Roma), Columbano de Luxeuil (abade), Demétrio e Honório (mártir de Óstia), Gelásio I (papa), Heliodoro e Companheiros (mártires), Hilário de Volturno (abade), Honório, Êutico e Estêvão (mártires), Mauro de Verona (bispo), Rufo de Roma (bispo, citado por São Paulo em Rm 16, 13 como o “eleito do Senhor”), Nicolau Giustiniani (monge, bem-aventurado)

 

Antífona: Meus pensamentos são de paz e não de aflição, diz o Senhor. Vós me invocareis, e hei de escutar-vos, e vos trarei de vosso cativeiro, de onde estiverdes. (J. 29, 11.12.14)

 

Oração: Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, rei do universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

I Leitura: 2º Livro de Samuel (2Sm 5, 1-3)
Eles ungiram Davi como rei de Israel

 

Naqueles dias, 1todas as tribos de Israel vieram encontrar-se com Davi em Hebron e disseram-lhe: “Aqui estamos. Somos teus ossos e tua carne. 2Tempo atrás, quando Saul era nosso rei, eras tu que dirigias os negócios de Israel. E o Senhor te disse: ‘Tu apascentarás o meu povo Israel e serás o seu chefe’”. 3Vieram, pois, todos os anciãos de Israel até o rei em Hebron. O rei Davi fez com eles uma aliança em Hebron, na presença do Senhor, e eles o ungiram rei de Israel. Palavra do Senhor!

 

 

 

Salmo Responsorial: 121 (122), 1-2.4-5 (R/.cf.1)

Quanta alegria e felicidade: vamos à casa do Senhor!

 

1Que alegria, quando ouvi que me disseram: “Vamos à casa do Senhor!” 2E agora nossos pés já se detêm, Jerusalém, em tuas portas.


4Para lá sobem as tribos de Israel, as tribos do Senhor. Para louvar, segundo a lei de Israel, o nome do Senhor. 5A sede da justiça lá está e o trono de Davi.

 

 

II Leitura: Colossenses (Cl 1, 12-20)
Recebeu-nos no reino de seu filho amado

 

Irmãos, 12com alegria dai graças ao Pai, que vos tornou capazes de participar da luz, que é a herança dos santos. 13Ele nos libertou do poder das trevas e nos recebeu no reino de seu Filho amado, 14por quem temos a redenção, o perdão dos pecados. 15Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, 16pois por causa dele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, tronos e dominações, soberanias e poderes. Tudo foi criado por meio dele e para ele. 17Ele existe antes de todas as coisas e todas têm nele a sua consistência. 18Ele é a cabeça do corpo, isto é, da Igreja. Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos; de sorte que em tudo ele tem a primazia, 19porque Deus quis habitar nele com toda a sua plenitude 20e por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz. Palavra do Senhor!

 

 

Lucas (Lc 23, 35-43)
Crucifixão

 

Naquele tempo, 35os chefes zombavam de Jesus dizendo: “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o escolhido!” 36Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, 37e diziam: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!” 38Acima dele havia um letreiro: “Este é o rei dos judeus”. 39Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” 40Mas o outro o repreendeu, dizendo: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? 41Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”. 42E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado”. 43Jesus lhe respondeu: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no paraíso”.Palavra da Salvação!

 

Comentando o Evangelho

Jesus toma posse do seu reinado

Na cruz vai morrer o Rei dos Judeus, a esperança de um salvador da nação judaica apenas. Na cruz podemos chamar Jesus de rei, não dos judeus, mas da humanidade inteira, a começar com os criminosos crucificados com ele.

 

Jesus, na ocasião, é visto como um rei de palhaçada, é objeto do olhar curioso do povo, olhar de desinteresse e de desprezo. É também objeto de zombaria por parte das autoridades judaicas e dos soldados romanos.

 

A zombaria por parte dos dirigentes judeus é, em Lucas, mais discreta do que em Mateus e em Marcos, evangelhos nos quais eles fazem alusão ao título de “rei de Israel” e desafiam Jesus a descer da cruz. “O Cristo”, “o Ungido”, de Lucas, contudo, também lembra a esperança de um Messias rei. Lucas acrescenta o título de “Eleito” ou Escolhido, o querido de Deus. Nem por isso o que dizem as autoridades dos judeus deixa de ter o caráter de zombaria e de tentativa de desmoralizar o “reinado” de Jesus.

 

Os soldados romanos, representando o império, os senhores deste mundo, caçoavam da placa que chamava Jesus de rei dos judeus, um rei incapaz, um rei totalmente fracassado. Oferecem ao “rei” o vinagre ou vinho azedo dos soldados e dos escravos.

 

Entretanto, o vinagre que lhe oferecem lembra o Salmo 69,22, que diz: “para a minha sede deram vinagre”, fazendo eco ao v. 5 do mesmo salmo: “odiaram-me gratuitamente”. A resposta ao ódio gratuito é um amor mais gratuito ainda.

 

Vem, então, o outro lado, o verdadeiro reinado do Cristo. Seu trono é a cruz, as testemunhas de sua entronização são dois criminosos. Ele reina porque perdoa; seu poder se manifesta acima de tudo no perdão, jamais na crueldade, como era próprio da onipotência de César.

 

Um dos criminosos ou malfeitores com ele crucificados reproduz os insultos das autoridades judaicas e dos soldados romanos. O outro o recrimina e chama-lhe a atenção. Apela para o “temor de Deus”, expressão que, em toda a Bíblia, traz a conotação de respeito ao mais fraco.1 Eles estão sendo punidos por seus crimes; Jesus, não: ele é inocente.

 

Em seguida, esse malfeitor dirige-se a Jesus, pede-lhe que se lembre dele quando entrar em seu reino ou reinado. Na Ceia, Jesus havia dito aos apóstolos: “Assim como o Pai me confiou o reino, assim também eu vos confio o reino. Havereis de comer e beber em minha mesa no meu reino e de vos sentar em tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Lc 22,29-30). Agora, morrendo na cruz, ele toma posse do seu reino.

 

Assim é que ele responde ao criminoso: “Hoje estarás comigo no paraíso!”, hoje estarás comendo e bebendo comigo em meu reino. É o último “hoje”, tão presente nos lábios de Jesus em todo o Evangelho de Lucas (“hoje se cumpre essa palavra”, “hoje devo me hospedar na tua casa”, “hoje a salvação entrou nesta casa”). Hoje, morrendo na cruz, Jesus toma posse do seu reinado. [Pe. José Luiz Gonzaga do Prado, Vida Pastoral nº 275, Paulus 2010]

 

 

Cristo, Senhor da paz e da unidade

 

Cristo é chamado a dirigir o povo de Deus, a ser seu condutor (cf 1ª leitura); sua realeza é de origem divina e tem o primado sobre tudo, porque nele o Pai pôs a plenitude de todas as coisas (2ª leitura). No entanto, o evangelho de Lucas apresenta a realeza de Jesus narrando a paródia da sua investidura como Rei dos Judeus na cruz, que lembra a outra paródia que se deu no pretório de Pilatos e narrada pelos outros evangelistas. A investidura real de Jesus se desenrola em torno da cruz, trono improvisado do novo Messias. Para tornar mais evidente essa aproximação, Lucas recorda a inscrição que encabeça a cruz (v. 38), mas sem dizer que se trata de um motivo de condenação (cf Mt 27, 37). Assim, a inscrição tem o lugar da palavra de investidura, como a do Pai que investe seu Filho no batismo (Lc 3,22). Além disso, Lucas introduz aqui um episódio que se refere a outro lugar (v. 36a; cf Mt 27,48) e lhe acrescenta uma frase (v. 37b) com a qual a multidão espera que Jesus se manifeste como rei; mas ele não quer que sua realeza lhe advenha da fuga à sua sorte, e sim de sua fidelidade a ela!

 

Cristo, rei de reconciliação

 

Como em todas as coisas importantes na lei mosaica, é necessário que a entronização seja reconhecida por duas testemunhas. Mas, enquanto as testemunhas da investidura real da transfiguração são dois entre as principais personagens do Antigo Testamento (Lc 9,28-36) e as testemunhas da ressurreição são também misteriosas (Lc 24,4), as duas testemunhas da entronização no Gólgota são apenas dois vulgares bandidos. Investidura ridícula daquele que só será rei assumindo até o fim o escárnio!

 

Lucas coloca a seguir deste trecho o episódio dos dois ladrões, como que a indicar que, para Cristo, o modo de exercer sua realeza sobre todos os homens, inclusive sobre seus inimigos, é oferecendo-lhes o perdão (vv. 34a.39-43). Lucas é muito sensível a esta idéia em toda a narrativa da paixão, mas aqui ela chega ao máximo. Com esse perdão, Cristo se apresenta como novo Adão, aquele que pode ajudar a humanidade a reintegrar o paraíso perdido pelo primeiro homem (cf Lc 3,38). É preciso ainda que essa humanidade nova aceite o perdão de Deus e não se volte orgulhosamente sobre si mesma. Cristo chega ao momento de sua vida em que poderá inaugurar uma nova humanidade, libertada das alienações do pecado; oferece ao bom ladrão participar dela, porque a sua vontade de perdoar é sem limites. O reino de Cristo se manifesta sobre convertidos.

 

Cristo, rei de perdão

 

Os termos Rei e Messias ressoam em torno da cruz em fases zombeteiras e provocantes. Nesta situação, Jesus tem um gesto verdadeiramente régio e assegura ao malfeitor arrependido a entrada no reino do Pai. Também diante dos adversários mais encarniçados, Jesus dirá palavras de perdão: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem". Jesus exerce, pois, e manifesta sua realeza não nas afirmações de um poder despótico, mas no serviço de um perdão que busca a reconciliação.

 

Ele é o primogênito de toda a criatura (2ª leitura), e como todas as coisas foram criadas nele, "foi do agrado de Deus reconciliar consigo todas as coisas, por meio dele, estabelecendo a paz no sangue da sua cruz". Cristo é rei porque, perdoando e morrendo para a remissão dos pecados, cria uma nova unidade entre os homens. Quebrando a corrente do ódio, oferece a possibilidade de um novo futuro.

 

Um rei que veio para servir

 

Reconhecendo que Jesus é rei, cremos que com ele Deus manifestou plenamente que a realização do homem só se pode dar pela obediência à sua vontade. Não há ação do homem que não esteja sob o juízo de Deus. Não pode haver lugar na historia sem relação com Deus por meio de Jesus.

 

A doutrina do senhorio de Cristo nos ensina ainda que a vida a que somos chamados é a mesma que viveu Jesus Cristo: vida de serviço aos irmãos. Vivendo-a, confessamos seu senhorio e nos tornamos, como ele, homens de paz e de reconciliação.

 

Na Igreja de Cristo, como em toda comunidade, o ministério (= serviço) da autoridade é dado não para a afirmação pessoal, mas em função da unidade e da caridade. Cristo, bom pastor, veio não para ser servido, mas para servir (Mt 20,28; Mc 10,45) e dar a vida pelas ovelhas (Jo 10,11).

 

Essas afirmações ajudam a evitar as ambiguidades inerentes ao conceito de realeza quando não compreendido no sentido da realeza de Cristo. [Missal Dominical, Paulus]

 

À Escuta da Palavra

 

Na oração do Pai Nosso, Jesus faz-nos pedir, e reza conosco: “Não nos deixeis cair em tentação”. De fato, Jesus foi submetido à tentação e resistiu. A este propósito, Lucas dá uma estranha precisão, dizendo que o diabo afastou-se de Jesus até ao momento fixado. Este momento é quando Jesus é pregado na cruz. No deserto, o diabo tinha dito: “Se és o Filho de Deus…” Agora Jesus ouve: “Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também”. É a mesma tentação: se Jesus é verdadeiramente o Messias, o Filho de Deus, deve dispor de toda a onipotência de Deus. Então, que utilize este mesmo poder para cumprir um último milagre e despegar-se da cruz. Até os seus inimigos ficariam confundidos. Mas Jesus resistiu. É porque algo de supremamente importante está aqui em jogo. Trata-se, uma vez mais, do verdadeiro rosto de Deus que Jesus veio revelar. Não um Deus todo-poderoso à maneira dos homens, mas um Deus Pai que só pode fazer uma coisa: amar, amar os seus inimigos, ainda e sempre, mesmo quando eles O rejeitam e crucificam o seu Filho bem-amado. Ora, se esta tentação acompanhou Jesus até à cruz, não é de admirar que ela acompanhe sempre os seus discípulos, que a própria Igreja não lhe escape! Na cruz, Jesus, o Rei, exerce outro poder, outra realeza. Não utiliza um poder à maneira do mundo. O segundo malfeitor, que chamamos de “bom ladrão”, só pede uma coisa a Jesus: que se lembre dele no seu Reino. O que ele pede não é que o livre da morte iminente, a mesma de Jesus! É que, depois da morte, Jesus se lembre dele. Simplesmente, diz: “Jesus, preciso de ti”. É um grito de pobreza. Então Jesus diz-lhe: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”. E o assassino tornou-se o primeiro homem a entrar com Jesus no Reino do Pai. Aí está o verdadeiro, o único poder de Jesus. [Dehonianos de Portugal]