Domingo, 20 de março de 2011

II Semana da Quaresma, Ano “A” 2ª Semana do Saltério (II Volume), cor Litúrgica Roxa

 

Santos: Alexandra, Cláudia, Eufrásia, Matrona, Juliana, Eufêmia, Teodósia, Derfuta, e uma irmã de Derfuta (mártires de Amiso, na Paflagônia), Anastácio de São Sabas (arquimandrita, mártir), Arquipo de Colossos (considerado o primeiro bispo desta cidade, citado por São Paulo em Cl. 4,17), Benigno de Flay (abade), Clemente de Paris Schools (monge), Cutberto de Lindisfarne (bispo), Fotina, a Samaritana do Evangelho, José e Vítor, seus filhos, Sebastiao, oficial, Anatólio, Fócio, Fotilde e suas irmãs Parasceve e Ciríaca (mártires da Galiléia), Guilherme de Peñacorada (eremita), Herberto (eremita), Martinho de Braga (bispo),Nicetas de Bitínia (bispo), Paulo, Cirilo, Eugênio e Companheiros (mártires da Síria), Tétrico de Langres (bispo), Urbício de Metz (bispo), Wulfrano de Fontenelle (bispo), Ambrósio Sansedoni (dominicano, bem-aventurado), Everaldo de Mons (monge, bem-aventurado), Evangelista e Peregrino (agostinianos, bem-aventurados), Hipólito Galantini (bem-aventurado), João Batista Spagnuolo (carmelita, bem-aventurado), Marcos de Montegallo (franciscano, bem-aventurado), Maurício Csaky (dominicano, bem-aventurado), Remígio de Estrasburgo (bispo, bem-aventurado).

 

Antífona: Meu coração disse: Senhor, buscarei a vossa face. É vossa face, Senhor, que eu procuro, não desvieis de mim o vosso rosto! (Sl 26, 8-9)

 

Oração do Dia: Ó Deus, que nos mandastes ouvir o vosso Filho amado, alimentai nosso espírito com a vossa palavra, para que, purificado o olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão da vossa glória. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

I Leitura: Gênesis (Gn 12, 1-4a)

Vocação de Abraão, pai do povo de Deus

 

1Naqueles dias, o Senhor disse a Abrão: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. 2Farei de ti um grande povo e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma bênção. 3Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão abençoadas todas as famílias da terra!”. 4aE Abrão partiu, como o Senhor lhe havia dito. Palavra do Senhor!

 

Comentando a I leitura

A fé que se transforma em caminho

 

A Bíblia nos apresenta a figura de Abraão como o pai do povo de Israel. Sua fé e confiança em Deus tornam-se a principal herança para as futuras gerações. Abraão é representativo de grupos seminômades, em torno de 1500 a.C. Esses grupos, por natureza, não se submetem à dominação do poder político, como o exercido naquela época pelas cidades-estado. São caminhantes, sempre em busca de terra fértil que proporcione pastagens para a sobrevivência dos seus rebanhos e, consequentemente, de suas famílias e clãs.

 

A experiência que Abraão possui de Deus está intimamente ligada ao estilo de vida dos pastores. A garantia da terra e o senso de liberdade são fundamentais. A presença de Deus se dá onde se encontram as famílias. Ele caminha com os pastores, conduz os seus passos e lhes dá a terra de que necessitam. A terra é promessa e dom de Deus, porém é necessário que Abraão esteja disposto a romper com as seguranças que impedem a caminhada na direção que Deus lhe aponta.

 

Confiar no Deus da promessa é ter a certeza de um mundo sem exploração e sem fome. Essa promessa é motivadora para os movimentos populares, especialmente em época de opressão, como aquela exercida pelo Egito e, posteriormente, pela monarquia israelita. Abraão torna-se a “memória perigosa” que desacomoda os oprimidos, proporcionando-lhes inspiração para a resistência e a mobilização em vista de uma nova sociedade. (Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 277, Paulus)

 

Salmo: 32 (33), 4-5.18-19.20.22 (R/.22)

Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, venha a vossa salvação!

 

4Pois reta é a palavra do Senhor, e tudo o que ele faz merece fé. 5Deus ama o direito e a justiça, transborda em toda a terra a sua graça.


18Mas o Senhor pousa o olhar sobre os que o temem, e que confiam esperando em seu amor, 19para da morte libertar as suas vidas e alimentá-los quando é tempo de penúria.


20No Senhor nós esperamos confiantes, porque ele é nosso auxílio e proteção! 22Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos!

 

 

II Leitura: Paulo a Timóteo (2Tm 1, 8b-10)

Deus nos chama e ilumina

 

Caríssimo, 8bsofre comigo pelo evangelho, fortificado pelo poder de Deus. 9Deus nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não devido às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio e da sua graça, que nos foi dada em Cristo Jesus desde toda a eternidade. 10Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do evangelho. Palavra do Senhor!

 

 

 

Comentando a II Leitura

A santa vocação


A segunda carta a Timóteo faz parte das tradicionalmente conhecidas “cartas pastorais” (junto com 1Tm e Tt). São dirigidas aos animadores de Igrejas cristãs, num tom pessoal. Os autores atribuem essas cartas a Paulo. Foram escritas algum tempo depois de sua morte, no intuito de iluminar e fortalecer a missão desses “pastores” junto às comunidades.

 

 

Timóteo havia sido um companheiro de Paulo. Participou da segunda e terceira viagens missionárias. Pessoa de confiança e dedicado à evangelização. Paulo podia contar com ele para enviá-lo às comunidades a fim de levar instruções e animar a fé dos cristãos. Após a morte de Paulo, continuou a missão de ministro da Palavra, revelando-se como importante liderança. A tradição o venera como bispo de Éfeso. Etimologicamente, Timóteo significa “aquele que honra a Deus”.

 

 

O texto da leitura de hoje indica uma situação difícil pela qual está passando Timóteo. O intuito é confortá-lo e animá-lo à perseverança. Timóteo é convidado a participar solidariamente dos sofrimentos pelos quais Paulo também passou por causa do evangelho. Quem assumiu a missão de servir à Palavra não pode sucumbir às dificuldades nem manifestar-se timidamente. A tribulação é inerente ao anúncio do evangelho quando feito com autenticidade. Como aconteceu com Jesus, também acontece com os seus discípulos. Nessa mesma carta, encontramos o alerta: “Todos os que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus serão perseguidos” (3,12).

 

 

A confiança plena na graça de Deus deve ser característica da pessoa que evangeliza. Deus nos salvou gratuitamente em Jesus Cristo. Ele nos chama com uma santa vocação para servi-lo e amá-lo. A santidade nos faz andar cotidianamente na intimidade divina, como o fez Jesus. A pessoa santa é portadora da graça e irradiadora da boa notícia de Jesus, o Salvador, que venceu a morte e fez brilhar a vida. A missão de Timóteo e de toda pessoa seguidora de Jesus é anunciar, de modo permanente e corajoso, esse projeto salvador de Deus, concebido desde toda a eternidade e revelado plenamente em Jesus Cristo. (Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 277, Paulus)

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 17, 1-9)

O seu rosto brilhou como o sol

 

Naquele tempo, 1Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. 2E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. 3Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 4Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. 5Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!”

 

6Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. 7Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos, e não tenhais medo”. 8Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. 9Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do homem tenha ressuscitado dos mortos”. Palavra da Salvação!

 

 

Comentando o Evangelho

A transfiguração de Jesus


A narrativa da transfiguração de Jesus está permeada de elementos simbólicos teologicamente muito significativos. Vemos Jesus subindo à montanha com Pedro, Tiago e João. Todos participam de uma experiência mística inédita. Moisés e Elias também se fazem presentes e dialogam com Jesus.

 

Lembremos, especialmente, que a comunidade de Mateus é formada de judeus que vivem a fé cristã. Portanto, é importante que a tradição judaica seja respeitada e aprofundada agora em novo contexto. Assim, a montanha tem um significado especial de manifestação de Deus. Basta lembrar o dom da Lei de Deus a Moisés no monte Sinai. Assim também a expressão “seis dias depois”, bem como a presença da nuvem. Lemos em Ex 24,16: “Quando Moisés subiu ao monte, a nuvem cobriu o monte. A glória do Senhor pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu durante seis dias”. Como vemos, há íntima relação entre a transfiguração de Jesus e a experiência religiosa de Moisés. É um momento extraordinário de manifestação divina. Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas, caminho que aponta para o Messias. Jesus é o cumprimento da promessa do Pai revelada na Sagrada Escritura.

 

Podemos considerar como centro dessa narrativa a declaração de Deus: “Este é meu Filho amado, nele está meu pleno agrado: escutai-o”. Essa voz que vem do céu declarando a filiação divina de Jesus também se fez ouvir no seu batismo (Mt 3,17). É, sem dúvida, a confissão de fé da comunidade cristã, representada nesse momento por Pedro, Tiago e João. De fato, os discípulos, no barco, reconhecem a Jesus caminhando sobre as águas e salvando a Pedro de sua fraqueza de fé: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus” (14,33). Na ocasião em que Jesus pergunta o que dizem dele, Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (16,16). É no momento da morte de Jesus que o centurião e os guardas declaram: “De fato, esse era Filho de Deus” (27,54). O anúncio da verdade sobre Jesus não foi feito aos que detinham o poder político ou religioso. Também não foi feito em algum centro ou instituição importante. E sim a um grupo de gente simples, num lugar social periférico.

 

O imperativo “escutai-o” enfatiza a perfeita relação entre a profissão de fé em Jesus como “Filho de Deus” e a atenção cuidadosa ao seu ensinamento. O elemento fundamental do ensino de Jesus é que ele terá de passar pelo sofrimento e pela morte, na perspectiva do “Servo sofredor” anunciado pelo profeta Isaías (cf. 42,1-9). Não é por acaso que Mateus insere o relato da transfiguração logo após o primeiro anúncio de sua paixão e morte e o convite ao discipulado: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (16,24). Portanto, os discípulos deverão compreender que o caminho para o seguimento de Jesus, Servo de Deus, implica “descer da montanha” e assumir as consequências, conforme o testemunho do Mestre. Porém, esse não é um caminho derrotista. A vida triunfa sobre a morte. A glória de Deus se manifestará plenamente na ressurreição. A transfiguração é um sinal antecipado da realidade da Páscoa. (Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 277, Paulus)

 

 

 

 

O risco da Fé

 

Revelar-nos ao outro é um ato de confiança, porque lhe da poder para intervir sobre nós; e partilhar a mesma vida como acontece na amizade, no matrimônio; é deixar que seja envolvida toda nossa existência.

 

Um homem deixa sua terra

 

A vocação de Abraão é um exemplo eficaz de resposta à proposta de Deus: por isso ele é chamado o nosso pai na fé.

 

Com Abraão, Deus retoma a iniciativa do diálogo: faz as suas pro­postas em termos acessíveis a esse homem, mas com uma exigência de totalidade. A resposta de Abraão difere inteiramente do pecado de Adão: um se distância, outro se aproxima; um quer possuir a ter­ra, outro se desapega; um desconfia da palavra de Deus, outro tem fé em suas promessas e troca a segurança do enraizamento em uma terra, de uma família, dos próprios deuses, pelo risco generoso em seguir o Deus que chama para uma terra "que lhe será indicada mais tarde". Da parte de Deus, a "maldição" destinada ao homem pecador muda-se num anúncio de "bênção" aberta a todas as nações (1ª leitura).

 

 

Os cristãos são chamados por uma vocação santa a seguir Cristo em sua vida de obediência a Deus, com a qual "venceu a morte e faz resplandecer a vida e a imortalidade por meio do evangelho" (2ª leitura). O "Filho bem-amado" torna os batizados semelhantes a si, associando ao seu destino de sofrimento e de glória os que ouvem com fé sua palavra.

 

Ainda hoje é proposto a todos os homens, a todo grupo eclesial, partir da sua terra e seguir a palavra que os guia, iluminando-os com a promessa - que em Cristo já é realidade - da "bênção" como plenitude de bens. Mas nada é definitivo em sua origem; quanto aos pormenores, é preciso ter criatividade, humildade, coragem, aceitar os sofrimentos, para encontrar enfim a luz e o repouso.

 

Parêntesis de luz

 

O abandono das certezas, das seguranças jamais é total. Permanece sempre, no fundo, a lembrança e a saudade da terra em que se habitava. Nos apóstolos chamados a seguir a Cristo permanece a interrogação de quem seria realmente aquele a quem ouviram e por quem abandonaram sua terra. Sua vida oculta, seu messianismo tão diferente do que esperavam deixam algo de duvidoso. Jesus toma a iniciativa e se manifesta sob outra forma que revela seu verdadeiro ser, sua majestade divina: concede aos apóstolos contemplar o fim que o espera. Assim, os discípulos podem ver que o Servo repelido e incompreendido é o Filho do homem descrito por Daniel. A condição humana, frágil e oculta, é apenas um tempo de passagem, um parêntesis. Com essa antecipação da glória de que se revestirá no momento da ressurreição, a fé dos discípulos deveria sair reanimada, confirmada (evangelho).

 

Ignoramos o que será a "cidade" futura

 

Os futurólogos nos dão imagens de um mundo que se assemelha a uma "cidade cujo crescimento demográfico é rápido, as cidades aumentam e absorvem os povoados vizinhos. Caminhamos para "a unicidade", para um novo mundo-cidade. Mas que forma deve assumir, que deve ela tornar-se para não ser um uniforme formigueiro? Nossa liberdade de construir está realmente em condições de construir?

 

Quando se propõe o problema da realização futura, as trevas caem sobre nós. Estamos diante de um devir que é muito mais obscuro do que se pode pensar; nossa fé vacila. Nossa fé não nos diz nada mais do que isto: para adotar as opções que nos permitam obter sucesso é necessário abranger­mos os dois extremos da história e podermos concentrar num instante o passado e o futuro. Esse é o risco que a fé comporta. O cristão que recebeu o batismo decide viver nesse risco. Sente a obscuridade que pesa sobre todos os homens na construção do presente, e não se assusta, não tem medo porque vê a meta, o Cristo transfigurado, e em Abraão um modelo a seguir. [Missal Cotidiano, ©Paulus, 1995]

 

Oração da assembleia (Missal Dominical)

Não tenhamos medo de encontrar a Deus, porque ele nos fala por seu próprio Filho, o homem Cristo Jesus. Digamos com confiança: Senhor, escutai-nos!

-Para que todos os homens possam encontrar pessoalmente o Senhor e responder-lhe com a fé de Abraão e dos apóstolos, rezemos ao Senhor.

-Para que não procuremos separar a promessa de felicidade feita por Deus, do caminho da cruz que a ela conduz, rezemos ao Senhor.

-Para que os religiosos que optaram por dedicar-se à contemplação de Deus sejam fiéis ao seu carisma, para o bem de toda a Igreja, rezemos ao Senhor.

-Pelos que deixarem a segurança e as comodidades de suas casas para servir os irmãos, a fim de que não cedam à tentação de voltar atrás, rezemos ao Senhor.

-Outras intenções

 

Prefácio (a tentação do Senhor):

Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, em todo lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso. Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha sagrada, todo o seu esplendor. E, com o testemunho da lei e dos profetas, simbolizados em Moisés e Elias, nos ensina que, pela paixão e cruz, chegará à glória da ressurreição. E, enquanto esperamos a realização plena de vossas promessas, com os anjos e com todos os santos, nós vos aclamamos,  cantando (dizendo) a uma só voz:

 

Oração sobre as Oferendas:

Ó Deus, que estas oferendas lavem os nossos pecados e nos santifiquem inteiramente para celebrarmos a Páscoa. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Antífona da comunhão:

Este é o meu Filho muito amado, no qual eu pus todo o meu amor: escutai-o! (Mt 17,5)

 

Oração Depois da Comunhão:

Nós comungamos, Senhor Deus, no mistério da vossa glória e nos empenhamos em render-vos graças, porque nos concedeis, ainda na terra, participar das coisas do céu. Por Cristo, nosso Senhor.