Domingo, 17 de julho de 2011

16º do Tempo Comum, Ano “A”, 4ª Semana do Saltério (Livro III), cor litúrgica Verde

 

 

Hoje: Dia do Protetor da Floresta

 

Santos: Aleixo (o homem de Deus, Século V), Bartolomeu de las Casas, Enódio (bispo de Pavia, 521 A.D.), Cenelmo (ou Quenelmo, jovem mártir, Inglaterra, 812, A.D), Marcelina (Virgem, 398 A.D., Milão), Teodósia, Leão IV (papa, 855 A.D.), Clemente de Okrida (e seus Companheiros, os sete Apóstolos da Bulgária, Seculo IX), Nerses Lampronatsi (arcebispo de Tarso, 1198 A.D.), Beato Ceslau (A.D. 1242), As Carmelitas Mártires de Compiègne (1794 A.D.), Maria Madalena Leidone.

 

Antífona: É Deus quem me ajuda, é o Senhor quem defende a minha vida. Senhor, de todo o coração hei de vos oferecer o sacrifício e dar graças ao vosso nome, porque sois bom. (Sl 53, 6.8)

 

Oração: Ó Deus, sede generoso para com os vossos filhos e filhas e multiplicai em nós os dons da vossa graça, para que, repletos de fé, esperança e caridade, guardemos fielmente os vossos mandamentos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

1ª Leitura: Sabedoria (Sb 12, 13.16-19)
Deus é amor, misericórdia e bondade

 

13Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que teu julgamento não foi injusto 16A tua força é principio da tua justiça, e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente. 17Mostras a tua força a quem não crê na perfeição do teu poder; e nos que te conhecem, castigas o seu atrevimento.

 

18No entanto, dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração; pois, quando quiseres, está ao teu alcance fazer uso do teu poder.

 

19Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores. Palavra do Senhor!

 

 

 

Comentando a I Leitura

Ser sábio é aprender de Deus: rei, humano e misericordioso

 

As palavras de sabedoria da primeira leitura de hoje são permeadas de esperança para o povo judeu, que vivia em meio à cultura e dominação gregas, sobretudo na cidade de Alexandria, onde esse livro foi composto, entre os anos 50 e 60 antes da Era Comum (a.C.). O judaísmo era desafiado pelos valores gregos do ser. Os judeus se perguntavam: como se adaptar à nova realidade sem perder a fé no Deus dos pais e da libertação do Egito? A resposta era simples: testemunhar que o Deus de Israel era diferente. E foi isso que o piedoso judeu e autor do livro da Sabedoria quis mostrar, diferentemente de outros judeus, seus antecessores, que apresentavam Deus forte, violento para com os inimigos. Deus, no livro da Sabedoria, é o cuidador de todos (v. 13), que julga com justiça (v. 13), perdoa e governa com indulgência (v. 18). Por ser assim, Deus não deixa de ser menos poderoso que os deuses dos pagãos. E, mais do que isso, o ser humano é convocado a ser como Deus, misericordioso. Deus é humano no seu proceder. E ao ser humano, aprendendo de Deus, resta também governar e agir com justiça, misericórdia e solidariedade. Eis o nosso grande desafio: aprender da pedagogia de Deus. [Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011]

 

 

Salmo: 85(86), 5-6.9-10.15-16a (R/.5a) 

Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel!

 

O Senhor, vós sois bom e clemente, sois  perdão para quem vos invoca. Escutai, ó Senhor, minha prece, o lamento da minha oração.

 

As nações que criastes virão adorar e louvar vosso nome. Sois tão grande e fazeis maravilhas; vós somente sois Deus e Senhor!

 

Vós, porém, sois clemente e fiel, sois amor, paciência e perdão. Tende pena e olhai para mim! Confirmai com vigor vosso servo.

 

 

II Leitura: Romanos (Rm 8, 26-27)

O Espírito Santo nos ensina a rezar

 

Irmãos, 26o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. Pois nós não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis.

 

27E aquele que penetra o intimo dos corações sabe qual é a intenção do Espírito. Pois é sempre segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos santos. Palavra do Senhor!

 

 

 

Comentando a II Leitura

Deus Pai e Deus Espírito estão em nós, na oração pelo Reino.

 

A reflexão feita por Paulo, nessa carta dirigida aos cristãos de Roma, aponta-nos a oração como caminho de construção do reino de Deus. Se não sabemos rezar, é o próprio Espírito que intercede, que reza por nós. Ele suplica a Deus em favor dos que lutam por justiça e paz, assim como vimos nas parábolas do evangelho de hoje. A oração é fonte de vida para o cristão. Jesus foi um homem de oração. Deus Pai e Deus Espírito se entendem e se encontram em nós, quando rezamos e lutamos na construção do reino de Deus. [Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011]

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 13, 24-43)
A missão de Cristo é instaurar o Reino de Deus

 

Naquele tempo, 24Jesus contou outra parábola à multidão: "O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. 27Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?' 28O dono respondeu: 'Foi algum inimigo que fez isso'. Os empregados lhe perguntaram: 'Queres que vamos arrancar o joio?'

 

29O dono respondeu: 'Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. 30Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!"'

 

31Jesus contou-lhes outra parábola: "O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos".

 

33Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: "O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado".

 

34Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35para se cumprir o que foi dito pelo profeta: "Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo".

 

36Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: "Explica-nos a parábola do joio!" 37Jesus respondeu: "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. 40Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: 41O Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. 43Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça". Palavra da Salvação!

 

 

Comentando o Evangelho


A dinâmica do reino

Dando continuidade ao discurso de Jesus em forma de parábolas com a devida explicação alegórica, encontramo-nos diante de três modos de Jesus definir o sentido do reino de Deus, que nos questionam: o reino é semelhante ao trigo ou ao joio? Ao fermento ou à mulher? À semente de mostarda ou ao pé de mostarda? Vejamos uma por uma. Ah! Outro detalhe importante: se a primeira leitura falou do proceder de Deus rei, agora faz sentido falar do reino.

 

a) O reino é apocalíptico e como o trigo. A comparação parece simples. O trigo é semeado. Vem alguém e semeia o joio. O que fazer? Arrancá-lo para não sufocar o trigo? Não. Basta esperar o crescimento de ambos até que o tempo da colheita chegue, quando o joio será queimado e o trigo recolhido em celeiros (v. 24-30). Essa é a única parábola explicada de forma apocalíptica por Jesus. Trata-se do fim dos tempos: aqueles que praticam a injustiça serão queimados na fornalha ardente e os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai. A menção de diabo – o inimigo que semeou o joio – e do Filho do homem – aquele que semeia a boa semente no campo (mundo) – evoca a urgência apocalíptica da realização dos ensinamentos de Jesus pela comunidade de Mateus. Somos herdeiros desta que se tornou a tradicional interpretação da parábola: o joio foi identificado como elemento ruim que impede o reino de crescer e por isso, no fim dos tempos, será arrancado e queimado. Em outras palavras: o mal deve crescer junto com o bem, o reino, representado pelo trigo.

 

b) O reino de Deus tem a ver com o cultivo. A comunidade de Mateus releu a parábola no contexto escatológico. E o fez muito bem! No entanto, considerando o contexto agrário e de confronto com o império romano, no qual essa parábola foi criada, podemos definir o reino de Deus de três modos. A erva daninha, chamada de joio, é uma graminha que cresce anualmente e é muito comum nos países do Mediterrâneo oriental. É uma erva venenosa, seus grãos possuem toxina. O gado que a come morre. O joio não cresce em terrenos a mais de 550 metros de altitude. Nos anos chuvosos, ele cresce mais que o trigo. A experiência campesina aprendeu, desde cedo, que colher o joio junto com o trigo é desaconselhável, pois ele contaminará o trigo. Daí o conselho que aparece no final de ambos os textos. Mas, então, como definir de três modos o reino de Deus nessa parábola? Ele pode ser comparado ao joio, ao fazendeiro próspero ou ao agricultor sem-terra. O reino é como o joio, essa erva daninha que cresce em qualquer lugar, sem pedir licença. O reino é assim, chega e se espraia, independentemente da vontade das pessoas, seja ele um rico fazendeiro, seja ele um pobre sem-terra. Ninguém pode impedi-lo. Assim aconteceu, mais tarde, com o império romano: ele teve de aceitar o cristianismo como religião. O reino é como um fazendeiro próspero que possui uma rica plantação de trigo e não pode impedir que cresça o joio (reino de Deus) jogado na sua plantação pelo inimigo. Por fim, o reino é como o agricultor que não tem terra, que não pode se livrar do grande fazendeiro que tirou as suas terras. O reino está dentro de cada um de nós. Mesmo sendo arrancado e queimado, ele cresce em outro lugar (cf. Faria, 2003, p. 117-119).

 

c) O reino é como a semente de mostarda, uma árvore ou pé de mostarda. A outra parábola do evangelho de hoje encontra-se também em Mc 4,30-32 e Lc 13,18-19. Vale a pena ler as narrativas, comparando-as para perceber as mudanças recebidas ao longo da transmissão: de terra para campo e horta, de ramo para árvores etc. Considere que a linha histórica é: Tomé (anos 50), Marcos, Mateus e Lucas (entre os anos 60, 70 e 80, respectivamente). Estamos diante de uma parábola que, ao ser transmitida, recebeu algumas modificações. Analisemos essa passagem à luz das seguintes questões: qual seria a intenção de Jesus ao contar essa parábola? Onde está o centro da parábola? Interpretações tradicionais insistem em mostrar o reino como uma semente pequena que cresce e fica grande. Vejamos três modos possíveis de ler a parábola da semente de mostarda com base em seu centro. Centro da parábola: semente. Compreendido desse modo, o enfoque desse texto está na passagem do pequeno para o grande. A pequena semente de mostarda é o novo Israel, isto é, os seguidores de Jesus, que se tornarão “grandes árvores”. Tomé, Marcos e Mateus, com exceção de Lucas, falam de algo menor que se torna grande. Não acreditamos ser essa a melhor interpretação. Não obstante, há que considerar que cada seguidor do reino é chamado a lavrar constantemente o seu interior para deixar a semente do reino crescer e produzir abundantes frutos. O centro da parábola é a árvore apocalíptica. Nesse sentido, o pequeno Israel tornar-se-ia uma grande árvore apocalíptica. Textos do Primeiro Testamento falam do cedro do Líbano como árvore apocalíptica (Sl 104,12; Ez 31,3.6; Dn 4,10-12). E é nessa grande árvore que os pássaros fazem os seus ninhos. Acreditamos que, se Jesus, de fato, quisesse referir-se a uma árvore apocalíptica, teria mencionado o cedro e não a mostarda. Não, esse não pode ser o centro da parábola. Centro da parábola: pé de mostarda. A mostarda é uma planta medicinal e culinária que chega a medir no máximo 1 metro e meio de altura. Ela se desenvolve melhor ao ser transplantada. Depois de plantada, torna-se uma erva daninha. Temos dois tipos de mostarda, a selvagem e a culinária. Por ser uma planta impura, o código deuteronômico (Dt 22,9) proíbe a sua plantação. O centro da parábola está, portanto, no pé de mostarda, seja ele doméstico ou selvagem. Assim é o reino de Deus, ele chega e se esparrama. Não pode ser controlado, torna-se abundante como a nossa tiririca. Atrai pássaros, inimigos de qualquer agricultor. O reino, depois de semeado, perde o controle, toma conta do terreno todo. Assim como o reino, a mostarda é motivo de escândalo para muitos. O reino é indesejável e violador das regras de santidade. Essas interpretações nos ajudam a compreender o valor do reino (Crossan, 1994, p. 313-318).

 

d) O reino é semelhante à mulher que usa o fermento. O simples fato de a parábola comparar o reino à mulher que usa o fermento é significativo. A interpretação tradicional dessa passagem considerou o fermento como ponto crucial na sua compreensão. Ousamos perguntar se, de fato, nisso estaria o centro desse texto. Comecemos por compreender as simbologias utilizadas. Mulher: representa a fertilidade e a impureza religiosa. Suas regras deviam ser controladas pelos sacerdotes. Dessa forma, o sagrado estaria também sob controle. Por outro lado, mulher e a Torá (lei, caminho, conduta) eram os bens preciosos dos judeus. Sem elas, a vida não se multiplicaria. Fermento: símbolo também da impureza e da corrupção moral. O fermento era feito com base na putrefação da batata, escondida por vários dias em um lugar escuro. O fermento cheirava mal e era detestado por judeus piedosos e escrupulosos. O medo de tocar em coisas impuras e tornar-se uma delas levava os judeus a estabelecer regras de contato com coisas e pessoas impuras. O código da santidade (Lv 17-26) é exemplo claro desse modo de pensar judaico. Sede santos como eu sou santo (Lv 19,2) passou a ser símbolo de pureza moral. Três medidas: o fato de o fermento ser colocado em três medidas de farinha pode não significar nada em absoluto, pois uma mulher não necessitaria fazer 40 quilos de pão. Essa quantidade demonstra a abundância do reino e o três relembra o Shemá Israel (Escuta, ó Israel), profissão de fé israelita baseada no amor vivido com o coração, o ser e as posses (Dt 6,4-9). Em vários textos bíblicos do Segundo Testamento encontramos alusão ao Shemá (Faria, 2001). Considerando a simbologia e as diferenças nos textos, suspeitamos que o centro da parábola de Tomé não está no fermento, mas no processo de sua fabricação. Ele é feito pela mulher, no escuro, é impuro e cheira mal. Assim também era considerada a mulher. Aceitar o reino é ir contra o que está ocorrendo de errado na sociedade, é não aceitar o erro tido como coisa normal. O reino ataca a estrutura má da sociedade. E, por mais insignificante que seja, ele contagia, produz “grandes pães” (cf. Faria, 2003, p. 113-116).

 

Como vimos acima, a definição do reino é ampla e muito nos tem a ensinar. Todas elas têm o seu mérito. [Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011]

 

Oração da assembleia (Missal Dominical)

Senhor, sois o Deus paciente e bom, lento para a ira e cheio de misericórdia e perdão; ouvi as orações que vossa família vos dirige com confiança. Senhor, atendei-nos.

Pela santa Igreja de Deus, para que viva na unidade e saiba superar os momentos de tensão na verdade e na caridade, rezemos.

Pelos cristãos desorientados, para que os temerosos vejam um sinal do Espírito Criador na coragem dos profetas, e os impacientes vejam um sinal de fidelidade na lentidão dos prudentes, rezemos.

Pela nossa comunidade paroquial, para que Deus nos ajude a superar, pelo diálogo, a escuta e o encontro sereno, as inevitáveis diferenças de ideias, de sensibilidade e formação, rezemos.

(outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Ó Deus, que no sacrifício da cruz, único e perfeito, levastes à plenitude os sacrifícios da Antiga Aliança, santificai, como o de Abel, o nosso sacrifício, para que os dons que cada um trouxe em vossa honra possam servir para a salvação de todos. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

O Senhor bom e clemente nos deixou a lembrança de suas grandes maravilhas. Ele dá o alimento aos que o temem. (Ap 3,20)

 

Oração Depois da Comunhão:

Ó Deus, permanecei junto ao povo que iniciastes nos sacramentos do vosso reino, para que, despojando-nos do velho homem, passemos a uma vida nova. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

A paciência

 

Uma tendência natural dos homens é a de dividir a humanidade em duas grandes categorias: os bons de um lado, os maus de outro. Esta tendência existe também no plano religioso. Invocamos bênçãos sobre nós mesmos, sobre nossa família, nossa nação; as maldições caiam sobre os outros, os inimigos, os que se opõem a nós.

 

A paciência de Deus...

 

De uma leitura superficial da Bíblia (especialmente dos Salmos) poder-se-ia talvez deduzir a concepção de um Deus impaciente, que queima as etapas". Os apelos à vingança são bastante freqüentes (1Rs 18,40; SI 82 e 108). Mas as passagens mais importantes da Bíblia desmentem essa impressão. Elias, cheio de zelo, compreende, às próprias custas, que Deus não está no furacão ou no terremoto; está na brisa leve, no sopro do vento mais delicado (1 Rs 19,9-13). Tiago e João são censurados por causa de seu desejo de fazer cair raios sobre os samaritanos que não acolhem Jesus (Lc 9,51-55; Mt 26,51). A Escritura é o livro da paciência divina, que sempre adia o castigo do seu povo (Ex 32,7-14). Os profetas falam de cólera de Deus. Mas a cólera não é o último e definitivo  momento  da  manifestação divina: o perdão sempre vence. Javé é rico em graça e fidelidade, e sempre pronto a retirar suas ameaças, quando Israel volta novamente ao caminho da conversão (1ª leitura).

 

Jesus inaugura o reino dos “últimos tempos”, não como juiz que separa os bons dos maus, mas como pastor universal, vindo antes de tudo para os pecadores. Não exclui ninguém do reino; todos são a ele chamados, todos podem aí entrar. Em todas as atividades da sua vida, Jesus encarna a paciência divina. Nenhum pecado pode cortar irremediavelmente as pontes de comunicação com a força misericordiosa de Deus (evangelho). A Igreja, corpo de Cristo, tem por missão encarnar entre os homens a paciência de Jesus. Seu papel é revelar, no mundo, a verdadeira face do amor. Na terra, o trigo está sempre misturado com o joio, e a linha de demarcação entre um e outro não passa pelas páginas dos registros paroquiais ou pelas fronteiras dos países; está no coração e na consciência de cada homem. Deve-se sempre recordar que a separação entre os bons e os maus só será feita depois da morte.

 

...de um Deus misericordioso

 

Não há dúvida de que a idéia que cada um faz de Deus, condiciona seu comportamento diante de Deus (adoração, oração...) e nas suas relações com o próximo. Isto significa que somos levados a fazer das nossas relações com os outros um prolongamento das que temos com Deus. A palavra de Deus (1ª leitura e evangelho) faz uma descrição muito clara do conceito e da imagem de Deus. Deus aceita o escândalo do homem limitado e mau, e Cristo parece até mesmo provocá-lo com seu comporta­mento, tratando livremente com bons e maus, Justos e pecadores. Não anuncia uma comunidade de puros e santos. E paciente com todos e deixa aos pecadores tempo para amadurecer sua conversão.

 

Portanto, não nos deve perturbar o escândalo de uma Igreja medíocre, pecadora, comprometida, distante do ideal evangélico de pureza, de santidade, de desapego. Sendo feita de homens e vivendo mergulhada no mundo, a Igreja corre continuamente o risco de se contaminar com o mundo e ver crescer em suas fileiras o joio ao lado do trigo. Alguns cristãos desejariam recorrer aos meios violentos e decisivos: excomungar os membros mais fracos, queimar os hereges, lançar violentamente em face dos cristãos e não cristãos as exigências do evangelho, com a política do "comigo ou contra mim”...

 

O fundamento dessas atitudes está em duas distorções. Uma idéia errada de Deus que seria um Deus ciumento dos homens, pronto a lançar seus raios; portanto, um Deus avarento, mesquinho, não um Deus Pai misericordioso. É uma falta de confiança em Deus e de esperança, que gera medo e insegurança.

 

...respeita as etapas de crescimento e amadurecimento

 

No entanto, o Reino de Deus tolera os maus e os pecadores, porque tem uma inabalável confiança na ação de Deus que sabe esperar a livre decisão do homem. João XXIII escreveu: "A mansidão é a plenitude da força". Não, pois, uma aceitação passiva dos acontecimentos, nem certo desleixo, mas uma atitude construtiva de tolerância, paciência e respeito pelos tempos e pelas etapas de crescimento, tanto no interior da vida das comunidades como no de cada pessoa, e uma atenção ativa aos momentos da graça e aos sinais dos tempos, que surgirão no instante preciso. [MISSAL DOMINICAL ©Paulus, 1995]

 

 

Explicação da parábola do trigo e do joio

Pe. Lucas de Paula Almeida, CM

 

Muita gente nunca viu a planta do joio, nem tem a menor idéia do que seja. O joio é uma gramínea que nasce no meio do trigo e parecem muito com ele. O joio pode danificar terrivelmente a plantação. É uma praga simplesmente.


Por causa da larga difusão da parábola de Jesus no Evangelho deste XVI domingo do Tempo Comum, mesmo para aquele que nunca viu o joio é conhecida a frase proverbial: "Semear joio no meio do trigo".


E todos entendem o que isso significa. Isto é, o trabalho malvado dos que espalham o mal no mundo no meio do bem. Dos que ensinam o erro. Dos que criam desavença no seio da família, ou no ambiente de trabalho. Dos que querem que a comunidade fique desunida, separada e lutando cada um por seu grupinho, em vez de olhar para a união da comunidade.


Quanta semente por aí que não saiu das mãos do divino semeador. Foi semeada pelo homem, inimigo de Deus e da humanidade. Diante desse fenômeno, há os afoitos que queriam eliminar tudo violentamente, correndo risco de destruir muita coisa boa na pressa de acabar com o mal.

 

São os autoritários, os radicais, os que tem vocação para ditador. Deus não é assim. Ele é o Senhor da história. Tem paciência. Ele sabe que existe a hora do mal e do poder das trevas...


Mas ele tem pela frente a eternidade e o julgamento final para o definitivo triunfo da luz. E espera. Inclusive porque deseja a conversão do pecador como nos ensina em outros lugares do Livro Sagrado.


O que assusta em determinadas épocas da história é o crescimento demasiado de gente semeando o joio. O joio da pornografia, por exemplo...

 

§  Semeando no meio do trigo da dignidade, e do respeito;

§  O joio do amor livre e do adultério, no meio do trigo da família e da fidelidade;

§  O joio do egoísmo e da ganância, no campo onde deve crescer o trigo da justiça, da fraternidade;

 

O joio da violência, no campo onde deve crescer o trigal da paz e da concórdia que constrói o amor.


Assim, o mal vai tomando conta e pode afogar de uma vez a semente do bem que vai crescendo. Poderá haver áreas totalmente dominadas pela depravação que se tornam irrespiráveis, como acontece com a poluição do que acaba tornando impossível a vida em determinadas regiões. Isso porque se chegou ao grau de saturação: acima do que as forças da vida e da saúde podem suportar. Penso que isso deve levar muita gente a refletir em suas responsabilidades. Principalmente aqueles que por causa do dinheiro fecham os ouvidos à voz da consciência e vão usando de todos os meios lícitos ou ilícitos pouco importam para terem cada vez mais ainda que isso seja a custa de dinheiro, da paz e da consciência dos outros. [www.padrelucas.com.br]

 

 

Ponto de reflexão

 

Essa parábola do joio leva também a uma oportuna consideração. vezes ouvimos reclamações assim: "Fulano faz tanto mal aos outros. Por que, pois, Deus não o castiga? Eu procuro ser honesto com todos, e não consigo ter nada. Fulano de tal é tapeador, mentiroso, ladrão, não teme a Deus...


No entanto tudo lhe vai bem. Parece que as coisas dão certo para ele melhor que para mim. Lembremos aqui da parábola do joio. Agora não é tempo de julgamento. Deus está deixando o joio crescer com o trigo, sem arrancá-lo agora. No fim de nossa vida, cada um receberá a recompensa ou o castigo que merece. Agora é o tempo de semear a boa semente, de fazer o bem, de cumprir cada um o seu dever. O julgamento e a separação definitiva do bem e do mal, isso compete a Deus que conhece não só o nosso procedimento, mas até o nosso pensamento. Outro pensamento que podemos tirar dessa parábola é este: O mal procura infiltrar-se no meio do bem, com a aparência de coisa boa. O mal, como mal, é comumente rejeitado. O homem sente-se envergonhado de fazer o mal, como mal. Então, todo o mal que há sobre a terra procura ter uma aparência de coisa boa para poder entrar no coração do homem. Não se esqueçam de que o joio era uma erva ruim, mas tinha a mesma aparência do trigo que é bom.

 

Os falsos profetas (Mt 7,15-23)

 

Cristo já previa que no decorrer dos tempos haveria de surgir falsos profetas, que, com aparência de bons, tentariam enganar as pessoas mais simples. Por isso os ensinamentos de Jesus valem para o passado, para o presente e para o futuro.

 
Em outro lugar do Evangelho, Cristo disse claramente: "Cuidado  com os falsos profetas, que vêm a vós com pele de ovelha, mas por  dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis.

 

Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Portanto, toda árvore boa dá bons frutos e toda árvore má dá maus frutos. Não pode uma árvore boa dar frutos maus, nem uma árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não dá bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos, portanto, os conhecereis.

 
"Nem todo que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, em teu nome não expulsamos demônios e em teu nome não fizemos milagres? Então lhes declararei publicamente: Nunca vos conheci, apartai-vos de mim, obreiros de iniquidade" (Mt 7,15-23).

 

Explicação

 

"Falsos profetas" - São os inventores de novas religiões. Cristo fundou uma só Igreja, uma só religião, e colocou à frente de seu rebanho um único chefe -o Papa. No entanto, com o correr dos séculos apareceram novas religiões e diferentes pregadores, dizendo falar em nome de Deus. Ora, a Igreja verdadeira deve ter sua origem nos tempos em que Cristo estava neste mundo. Através de vinte séculos a Igreja Católica formou seus santos e provou a santidade autêntica de milhares de homens e de mulheres; sacerdotes e leigos. Hoje, porém, vemos os nomes desses santos e o nome do próprio Deus explorados pela macumba, pelo espiritismo e por tantos curandeiros e feiticeiros. Os santos são os bons "frutos" da Igreja. Cada religião que quiser se apresentar como verdadeira, deve apresentar também suas boas obras e seus santos, pois, como disse Jesus, "toda árvore boa dá bons frutos". 


Mesmo o católico - não basta só dizer: "Eu sou muito católico". Se sua vida não corresponder ao Evangelho, Cristo dirá no juízo final "Nunca te conheci; aparta-te de mim".