Domingo, 16 de outubro de 2011

29º do Tempo Comum, Ano “A”, 1ª Semana do Saltério (Livro III), cor litúrgica Verde

 

 

Hoje: Dia da Ciência e da Tecnologia, Dia Mundial da Alimentação, Dia Mundial do Pão, Dia do Anestesiologista, Dia do Instrutor de Auto-Escola.

 

Santos: Nossa Senhora da Graça (Padroeira principal da diocese de Parnaíba, PI), Zenaide, Jaime, Alexandre Saulo; Tarago, Probo e Andróico (mártires célebres no oriente, Séc. IV); Sármatas (357, Tebaida, mártir), Cainech (600, monge irlandês), Gomário (Bélgica), Bruno (965, Colônia, Alemanha), Alexandre Sauli  (1592)

 

Antífona: Clamo por vós, meu Deus, porque me atendestes; inclinai vosso ouvido e escutai-me. Guardai-me como a pupila dos olhos, à sobra das vossas asas abrigai-me. (Sl 16, 6.8)

 

Oração: Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos a graça de estar sempre ao vosso dispor e vos servir de todo o coração. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

1ª Leitura: Isaias (Is 45, 1.4-6)
Eu sou o Senhor, não existe outro

 

1Isto diz o Senhor sobre Ciro, seu Ungido: 'Tomei-o pela mão para submeter os povos ao seu domínio, dobrar o orgulho dos reis, abrir todas as portas à sua marcha, e para não deixar trancar os portões.

 

4Por causa de meu servo Jacó, e de meu eleito Israel, chamei-te pelo nome; reservei-te, e não me reconheceste. 5Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus. Armei-te guerreiro, sem me reconheceres, 6para que todos saibam, do oriente ao ocidente, que fora de mim outro não existe. Eu sou o Senhor, não há outro".  Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a I Leitura

Eu sou o Senhor e não há outro

O texto bíblico começa com a afirmação de que Ciro, o rei persa que dominava sobre os judeus, tinha sido escolhido por Deus para executar a tarefa de fazer o povo exilado voltar à terra de Israel. É uma afirmação muito estranha na Bíblia, porque o termo “ungido” (messias ou cristo) era reservado apenas para três categorias em Israel: reis, sacerdotes e profetas. Afirmar isso de um rei estrangeiro, que servia a outros deuses, é algo único na Bíblia.

 

Para entender esse versículo, é necessário imaginar o que as pessoas da época poderiam estar pensando. Quando souberam do decreto do imperador que os liberava para voltar a Israel, os judeus poderiam pensar: “Que feliz coincidência e que sorte nós tivemos, a política do imperador vai nos favorecer”. O profeta entrou em ação para dizer que as coisas não eram bem assim como estariam pensando, deixando claro que não se tratava de sorte ou coincidência. Deus é sumamente fiel e ama os filhos de Israel; ele os tirou da escravidão do Egito, levou-os para a terra prometida e para lá os faz retornar. Ciro não passa de um instrumento de Deus para executar uma tarefa. O imperador não é uma divindade, ao contrário, é como uma criança conduzida por um adulto para fazer algo que ela nem tem consciência do que seja. Ciro é tomado pela mão e levado pelo SENHOR para libertar os judeus.

 

Assim, o texto bíblico orientou as pessoas antigamente e nos orienta hoje para a consciência de que nenhuma autoridade é eterna ou absoluta: há um único Deus e tudo está submetido a ele e ao seu plano. Nada nem ninguém podem impedir a realização do projeto divino. O livre-arbítrio humano pode apenas escolher entre colaborar ou não com Deus. A história da humanidade está imersa no projeto de Deus como peixes num aquário, que podem nadar de um lado a outro, mas sempre estão dentro do mesmo recipiente. Mesmo quando se tenta impedir que o projeto divino se realize, Deus é suficientemente criativo para do mal fazer um bem. Prova disso é que a morte de Jesus na cruz se tornou vida plena para quem o segue. [Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj, Vida Pastoral nº 280, Paulus]  

 

 

 

Salmo: 95(96), 1 e 3.4-5.7-8.9-10a e c (R/.7b) 
Ó família das nações, daí ao Senhor poder e glória!

 

Cantai ao Senhor Deus um canto novo, cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira! Manifestai a sua glória entre as nações, e entre os povos do universo seus prodígios!

 

Pois Deus é grande e muito digno. de louvor, é mais terrível e maior que os outros deuses, porque um nada são os deuses dos pagãos. Foi o Senhor e nosso Deus quem fez os céus.

 

O família das nações, dai ao Senhor, ó nações, dai ao Senhor poder e glória, dai-lhe a glória que é devida ao seu nome! Oferecei um sacrifício nos seus átrios.

 

Adorai-o no esplendor da santidade, terra inteira, estremecei diante dele! Publicai entre as nações: "Reina o Senhor!", pois os povos ele julga com justiça.

 

 

 

 

II Leitura: Tessalonicenses (1Ts 1, 1-5b)
Os tessalonicenses dão alegria a Paulo

 

1Paulo, Silvano e Timóteo, à Igreja dos tessalonicenses, reunida em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo: a vós, graça e paz! 2Damos graças a Deus por todos vós, lembrando-vos sempre em nossas orações. 3Diante de Deus, nosso Pai, recordamos sem cessar a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo.

 

4Sabemos, irmãos amados por Deus, que sois do número dos escolhidos. 5bporque o nosso Evangelho não chegou até vós somente por meio de palavras, mas também mediante a força que é o Espírito Santo; e isso, com toda a abundância. Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a II Leitura

O evangelho foi anunciado entre vós


Paulo escreve uma carta à Igreja que se encontrava em Tessalônica, cidade pagã cujos habitantes estavam a serviço de vários ídolos. Os cristãos dessa cidade, ao contrário, são assembleia santa, são eleitos de Deus e congregados em Jesus Cristo.

 

O apóstolo sempre se lembra da “ação da fé” dos tessalonicenses. Essa expressão pode parecer estranha aos ouvidos atuais, porque hoje comumente se compreende fé como se se tratasse de um sentimento. Mas, nos idiomas antigos, fé é um modo de viver, é a vida em ação colaborando com Deus. Colaborar significa “trabalhar com”. Assim a fé é mais que um sentimento: é uma tarefa, um ofício, um trabalho, uma missão. O plano de Deus se realiza independentemente da fé do ser humano; mas os que vivem a fé assumem consciente e livremente esse plano como um objetivo de vida a ser realizado e trabalham com Deus na efetivação desse projeto, até que chegue à plenitude. [Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj, Vida Pastoral nº 280, Paulus]  

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 22, 15-21)
É lícito ou não pagar imposto a César?

 

Naquele tempo, 15os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. 16Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes, para dizerem a Jesus: "Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. 17Dize-nos, pois, o que pensas: É licito ou não pagar imposto a César?"

 

18Jesus percebeu a maldade deles e disse: "Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha? 19Mostrai-me a moeda do imposto!" Levaram-lhe então a moeda. 20E Jesus disse: "De quem é a figura e a inscrição desta moeda?" 21Eles responderam: "De César". Jesus então lhes disse: "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Palavra da Salvação!

Comentando o Evangelho

Daí a Deus o que é de Deus

O evangelho de hoje nos põe diante de um dilema no qual muitas vezes travamos: como conciliar em nosso cotidiano duas realidades por vezes antagônicas, a autoridade política e a religiosa? Nesse caso, Jesus nos aponta o caminho a seguir.

 

A pergunta feita a Jesus certamente é bem maliciosa. Os judeus estavam sob o domínio romano, e o pagamento do tributo era prova de sujeição ao imperador. Se Jesus respondesse que o povo deveria pagar o imposto, perderia sua popularidade, seria acusado de trair sua nação e perderia qualquer pretensão messiânica. Caso respondesse que não deveria pagar o imposto, seria acusado de rebelião contra o império e seria preso. Fosse qual fosse a resposta, Jesus estaria em perigo. Mas ele ultrapassa a questão do lícito ou ilícito e conduz seus interlocutores a uma reflexão mais profunda: a autoridade política não pode tomar o lugar de Deus.

 

Para Israel, só Deus podia reinar sobre o povo, mediante um representante tirado de uma das tribos. Por isso, a sujeição ao imperador romano era sinal de idolatria. Além disso, essa situação se agravou quando o imperador se autoproclamou divino.

 

Quando Jesus pergunta de quem é a figura e a inscrição na moeda, entra no âmago da questão. Os judeus usavam a moeda romana e, por isso, não tinham por que se opor ao pagamento do imposto. Mas ele acrescenta que se deve dar a Deus o que é de Deus, reafirmando a soberania do SENHOR sobre Israel e as nações. No grego, a palavra “dar” também significa “devolver”. E, já que a imagem de Deus está gravada em nós, devemos “devolver” nossa vida em adoração a ele, cumprindo a sua soberana vontade. Assim, a prática de devolver a Deus o que é de Deus destrói toda idolatria.

 

A autoridade política deve ser respeitada, porque está a serviço do bem comum, mas nunca terá o poder de exigir o que é devido somente a Deus, cuja imagem está impressa em nós. [Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj, Vida Pastoral nº 280, Paulus]  

 

 

A palavra se faz oração (Missal Dominical)

Ao Pai, rico em misericórdia e bondade, elevemos, com fé, nossa oração comum: Senhor, atendei-nos.

Pela santa Igreja de Deus, para que busque antes de tudo o Reinado de Deus e não se deixe prender por compromissos nem seduzir por alianças com os poderosos, rezemos.

Pelos cristãos que se engajam na política, para que não busquem o interesse e o poder, mas se ponham a serviço do bem comum, rezemos.

Por todos os cristãos, para que se sintam comprometidos e responsáveis no esforço de promoção humana e de libertação de todas as opressões, rezemos.

(outras intenções)

Ó Deus, nosso refúgio e nossa força, acolhei as orações de nossa Igreja, pois sois a fonte de nosso fervor, e concedei-nos obter com plenitude o que pedimos com fé. Por Cristo nosso Senhor.

 

Oração sobre as Oferendas:

Dai-nos, ó Deus, usar os vossos dons servindo-vos com liberdade, para que, purificados pela vossa graça, sejamos renovados pelos mistérios que celebramos em vossa honra. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Eis que o Senhor pousa o olhar sobre os que o temem e que confiam esperando em seu amor, para da morte libertar as suas vidas e alimentá-los quando é tempo de penúria. (Sl 32, 18-19)

 

Oração Depois da Comunhão:

Dai-nos, ó Deus, colher os frutos da nossa participação na Eucaristia para que, auxiliados pelos bens terrenos, possamos conhecer os valores eternos. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Daí a César

 

Diversas, e às vezes divergentes, são as interpretações dadas à célebre frase-resposta de Jesus aos que queriam armar-lhe uma cilada: uma frase de efeito, como que evasiva, com a que Jesus responde sem se perturbar; uma resposta irônica, como se Jesus quisesse dizer: só quando se tem que pagar os impostos aparece o problema da consciência; uma definição precisa dos limites do campo e das relações recíprocas entre Estado e Igreja.

 

De qualquer modo, é claro que o que importa é o reino de Deus. É o único absoluto a ser buscado, Jesus veio pregar o reino; esta é a realidade fundamental e clara. Diante deste anúncio, tudo passa para segundo plano. Com isto, Jesus não quer negar a função de César, mas quer atingir seus adversários que não compreenderam sua missão e esquecem a questão decisiva.

 

Soberania espiritual ou senhorio temporal?

 

O trecho é usado hoje, com frequência, para reafirmar e dar um fundamento bíblico, revelado, à distinção e recíproca autonomia entre Igreja e Estado. Muito provavelmente, a resposta de Jesus não tinha esta intenção: tanto pelo contexto do relato, que não exigia um pronunciamento sobre este problema, como pelo contexto histórico de seu tempo, no qual não se distinguia ainda entre poder político e religioso. Mas a resposta de Jesus é igualmente esclarecedora, porque indica uma direção. Os judeus do tempo de Jesus estavam habituados a conceber o reino, inaugurado pelo futuro Messias, na forma de uma teocracia, isto é, como domínio direto de Deus, através de seu povo, sobre toda a terá. A palavra de Jesus revela a existência de um reino de Deus na história, no qual é possível a todos, não só aos judeus, entrar desde já, sem esperar que se inaugure um hipotético reino político de Deus em toda a terra. De fato, o reino de Deus tanto é possível dentro de um reino pagão como no quadro de uma teocracia, pois não se identifica com nenhum dos dois. Revelam-se assim dois modos qualitativamente diferentes de domínio e de sabedoria de Deus no mundo: a soberania espiritual, que constitui o reino de Deus e que ele exerce diretamente em Cristo, e o senhorio temporal, que ele exerce indiretamente, através do livre jogo das causas segundas.

 

A tarefa do cristão no mundo

 

A palavra de Jesus leva nossa reflexão a um dos problemas mais importantes  e cruciais dos cristãos de hoje. O homem moderno tem a profunda convicção de lhe caber uma tarefa histórica e desempenhar na terra, tarefa proporcional à sua possibilidade cada vez maior, e que implica um real domínio sobre o universo. O fim é este: a promoção da comunidade humana no meio d e uma “cidade” cada vez mais fraterna. Esta tomada de consciência é acompanhada às vezes de uma crítica amarga da religião, considerada a responsável pela secular alienação dos homens. Muitos assumem perante a religião uma atitude de desconsideração, como se ela não tivesse nenhuma contribuição positiva a oferecer.

 

A fé cristão, vivia integralmente, longe de sugerir demissão e evasão frente as tarefas terrestres do homem, ajusta os que creem a assumir suas responsabilidades na conquista dos objetivos que se impõem à consciência moderna. Os apelos do mundo atual encontram um eco cada vez mais profundo em vastas camadas do povo cristão, e felizmente não são raros os cristãos coerentes que assumem os papéis da promoção, libertação e construção de uma cidade terrestre mais justa e humana. O Vaticano II dedicou uma parte importante de seus trabalhos à análise das preocupações do homem do Século XX, problemas em aparência mais profanos que religiosos, de tal  modo que as reticências ou ausências do cristão de ontem em relação ao seu compromisso com o mundo, deveriam ser superadas.

A construção da cidade terrestre

 

Entretanto, permanece uma pergunta: a construção da cidade terrestre é uma tarefa importante, mas não será ela caduca? Construindo a cidade dos homens contribui-se ou não para a edificação do reino de Seu? Não serão dois reinos diversos?

 

A esperança cristã não se realiza, certamente, em plenitude, senão no mundo futuro. Contudo, ela manifesta desde já sua eficácia: é uma força imensa no mundo, é um fermento que o faz levedar, é um sal que dá sentido e sabor ao esforço humano de libertação, ao empenho temporal. Não é alienação, não é álibi. Não existem duas esperanças: uma terrena e outra celeste; a esperança é uma só: diz respeito à realidade futura, mas através do empenho cristão, a antecipa na realidade terrestre. [MISSAL DOMINICAL ©Paulus, 1995]