Domingo, 15 de fevereiro de 2009
Sexto do Tempo Comum, Ano B, 2ª Semana do Saltério (Livro III), cor litúrgica verde
Sede o rochedo que me abriga, a casa bem defendida que me salva. Sois minha fortaleza e
minha rocha, para honra do vosso nome, vós me conduzis e alimentais. (Sl 30, 3-4)
Santos do Dia: Ágape de Terni (virgem, mártir), Cláudio de la Colombière (jesuíta), Craton e Companheiros (mártires de Roma), Decoroso de Capua (bispo), Eusébio de Aschia (eremita), Euseus de Serravalle (eremita), Faustino e Jovita (mártires), Fausto de Glanfeuil (monge), Geórgia de Clermont (virgem), José de Antioquia (diácono, mártir), Quinídio de Vaison (bispo), Saturnino, Cástulo, Magno e Lúcio (mártires), Sigfrido de Wexlow (monge, bispo), Tanco de Werden (monge, bispo, mártir), Walfrido della Gheradesca (abade), Winaman, Unaman e Sunaman (monges de Wexlow, mártires), André de Conti (franciscano, bem-aventurado), Ângelo de Borgo San Sepolcro (agostiniano, bem-aventurado), Conrado da Bavária (monge, bem-aventurado) , Júlia de Certaldo (virgem, bem-aventurada)
Oração: Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo, que possais habitar em nós. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
A liturgia do dia: A liturgia de hoje apresenta-nos um Deus cheio de amor, de bondade e de ternura, que convida todos os homens e todas as mulheres a integrar a comunidade dos filhos amados de Deus. Ele não exclui ninguém nem aceita que, em seu nome, se inventem sistemas de discriminação ou de marginalização dos irmãos.
I
Leitura: Levítico (Lv 13, 1-2.44-46)
A lepra era sinal de pecado e exigia purificação
1O Senhor falou a Moisés e Aarão, dizendo: 2"Quando alguém tiver na pele do seu corpo alguma inflamação, erupção ou mancha branca, com aparência do mal da lepra, será levado ao sacerdote Aarão ou a um dos seus filhos sacerdotes. 44Se o homem estiver leproso é impuro, e como tal o sacerdote o deve declarar. 45O homem atingido por este mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: 'Impuro! Impuro!' 46Durante todo o tempo em que estiver leproso será impuro; e, sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento". Palavra do Senhor!
Salmo:
31(32), 1-2.5.11 (+7)
Sois, Senhor, para mim, alegria e refúgio
1Feliz o homem que foi perdoado e cuja falta já foi encoberta! 2Feliz o homem a quem o Senhor não olha mais como sendo culpado, e em cuja alma não há falsidade!
5Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta vos fiz conhecer Disse: "Eu irei confessar meu pecado!" E perdoastes, Senhor, minha falta.
11Regozijai-vos, ó justos, em Deus, e no Senhor exultai de alegria! Corações retos, cantai jubilosos!
II Leitura: 1ª Carta de S.Paulo aos Coríntios (1Cor
10, 31―11,1)
Que seja tudo para a glória de Deus
Irmãos: 10,31Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. 32Não escandalizeis ninguém, nem judeus, nem gregos, nem a Igreja de Deus.
33Fazei como eu, que procuro agradar a todos, em tudo, não buscando o que é vantajoso para mim mesmo, mas o que é vantajoso para todos, a fim de que sejam salvos. 11,1Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo. Palavra do Senhor!
Evangelho: Marcos (Mc 1, 40-45)
Jesus move-se pela compaixão, fazendo dela sua lei
Naquele tempo, 40um leproso chegou perto de Jesus e, de joelhos, pediu: "Se queres, tens o poder de curar-me". 41Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: "Eu quero: fica curado!". 42No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado.
43Então Jesus o mandou logo embora, 44falando com firmeza: "Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles!"
45EIe foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade; ficava fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-lo. Palavra da Salvação!
A lepra do pecado [1]
A mentalidade religiosa dos contemporâneos de Jesus considerava a alma humana mais intimamente unida ao corpo do que a mentalidade grega. Daí resultava que toda enfermidade física devia ser reflexo e conseqüência de uma enfermidade moral.
O leproso, um banido
Entre todas as doenças, a lepra era considerada pelos judeus a que tornava mais impuro o homem, porque, destruindo-o em sua integridade e vitalidade física, era, por excelência, sinal do pecado e de sua gravidade. Por isto, a lepra nunca é considerada única ou principalmente do ponto de vista médico; reveste-se de um caráter mais religioso. Só assim se explicam as medidas severas e repulsivas narradas na 1ª leitura. Não se trata simplesmente de medidas profiláticas; tal isolamento visava a preservar a santidade do povo de Deus". A lepra, sinal do pecado, colocava o homem fora da comunidade do povo de Deus, fazia dele um "excomungado".
Assim, as curas da lepra, narradas nos evangelhos - levando-se em conta o contexto social presente na 1ª leitura -,tornam-se símbolo da libertação do pecado, sinal e prova do poder de Jesus.
O encontro com Jesus
Mas a cura operada por Jesus representa algo mais do que simples libertação de uma moléstia e readmissão no seio da comunidade. Ele se torna participe da situação do leproso, tocando-o com a mão; de certo modo, contrai sua impureza... Neste gesto, Jesus se mostra como aquele que "carregou sobre si nossos sofrimentos"; contraiu o mal que desagrega as forças vivas do homem, e assim nos curou na raiz do nosso ser. Tem-se aqui uma primeira realização da profecia: do Servo de Javé, que se apresenta com o aspecto de um leproso por que carregou nossos pecados, e, conseqüentemente, o castigo deles (cf Is 53,3-12). Isto se realizará literalmente em sua paixão e morte, quando morrerá entre dois malfeitores, "fora do acampamento", fora dos muros da cidade.
Sob os diversos elementos da narrativa evangélica, percebe-se nitidamente o dinamismo da confissão-penitência, como se faz hoje na Igreja. A celebração da penitência é um encontro com Jesus, que cura da lepra do pecado e reintroduz na comunidade eclesial. O relato se desenrola de um modo quase litúrgico e não é difícil situar, nos gestos do leproso e nos de Jesus, um evidente simbolismo penitencial.
Os banidos de hoje
Infelizmente, ainda existe a lepra em nossa sociedade. Ela tem a mesma face desumana de sempre, e, paradoxalmente, a condição do leproso hoje é muito diferente da do tempo de Jesus.
Mas nossa consideração não pode deter-se unicamente sobre a lepra. Há tantas outras categorias de banidos em nossa sociedade, pessoas marginalizadas e mantidas "fora do acampamento", isto é, fora de uma sociedade onde se decide por eles, mas sem considerá-los ou interrogá-los.
Os leprosos de hoje são os que vivem nos barracos das favelas das cidades ricas e opulentas, são os fracassados, os desempregados das cidades industriais, os jovens drogados, todos vítimas de uma civilização do consumo e do sucesso; são as crianças excepcionais, retardadas, nas quais a sociedade não pensa, porque não produzem e são um peso; são os anciãos que "esperam", sem esperança, a morte num isolamento e numa inércia que frustra e degrada... são os encarcerados, "rotulados" mesmo depois de pagarem sua pena.
"...A ação caritativa pode e deve abraçar agora absolutamente todos os homens e todas as necessidades. Onde quer que falte alimento, bebida, roupa, casa, medicamentos, trabalho, instrução, meios necessários para levar uma vida verdadeiramente humana, onde estiver um aflito por tribulações e saúde abalada, alguém que sofre exílio ou prisão, aí deve a caridade cristã ir buscá-los, encontrá-los, consolá-los com cuidadosa afeição e reerguê-los, oferecendo-lhes auxílio. Esta obrigação se impõe antes de tudo aos homens e povos que vivem na prosperidade" (AA 8,cd). Este é talvez o grande testemunho que o mundo de hoje espera da Igreja e dos cristãos.