Domingo, 14 de fevereiro de 2010

VI Domingo do Tempo Comum - Ano “C”  (Ímpar) - 2ª Semana do Saltério (Livro III) - Cor Verde

 

Santos do Dia: Abraão de Harran (bispo), Antonino de Sorrento (abade), Auxêncio da Bitínia (eremita), Basso, Antônio e Protólico (mártires de Alexandria), Cirion, Bassiano, Ágato e Moisés (mártires de Alexandria), Dionísio e Amônio (mártires de Alexandria), Leocádio de Ravena (bispo), João Batista da Conceição (trinitário), Maron de Beit-Marun (abade), Nostriano de Nápoles (bispo), Próculo, Efebo e Apolônio (mártires), Teodósio de Vaison (bispo), Valentino de Terni (bispo, mártir), Valentim de Roma (mártir), Vital, Felícula e Zeno (mártires de Roma), Ângelo de Gualdo (monge, bem-aventurado), Nicolau Palea (dominicano, bem-aventurado), Vicente de Sena (franciscano, bem-aventurado).

 

Antífona: Sede o rochedo que me abriga, a casa bem defendida que me salva. Sois minha fortaleza e minha rocha; para honra do vosso nome, vós me conduzis e alimentais. (Sl 30, 3-4)

 

Oração: Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo, que possais habitar em nós. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Jeremias (Jr 17, 5-8)

Maldito o homem que confia no homem

 

5Isto diz o Senhor: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor; 6como os cardos no deserto, ele não vê chegar a floração, prefere vegetar na secura do ermo, em região salobra e desabitada. 7Bendito o homem que confia no Senhor; cuja esperança é o Senhor; 8é como a árvore plantada junto às águas, que estende as raízes em busca de umidade, por isso não teme a chegada do calor: sua folhagem mantém-se verde, não sofre míngua em tempo de seca e nunca deixa de dar frutos". Palavra do Senhor!

 

Salmo: 1, 1-2.3. 4 e 6 (R/.Sl 39[40], 39, 5a)
É feliz quem a Deus se confia!

 

Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos; que não entra no caminho dos malvados, nem junto aos zombadores vai sentar-se; mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar.

 

Eis que ele é semelhante a uma árvore, que à beira da torrente está plantada; ela sempre dá seus' frutos a seu tempo, e jamais as suas folhas vão murchar. Eis que tudo o que ele faz vai prosperar.

 

Mas bem outra é a sorte dos perversos. Ao contrário, são iguais à palha seca espalhada e dispersada pelo vento. Pois Deus vigia o caminho dos eleitos, mas a estrada dos malvados leva à morte.

 

II Leitura: I Carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 15, 12.16-20)

Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é vã

 

Irmãos, 12se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos; como podem alguns dizer entre vós que não há ressurreição dos mortos? 16Pois, se os mortos não ressuscitam, então Cristo também não ressuscitou. 17E se Cristo não ressuscitou, a vossa fé não tem nenhum valor e ainda estais nos vossos pecados. 18Então, também os que morreram em Cristo pereceram. 19Se é para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, nós somos - de Lodos os homens - os mais dignos de compaixão. 20Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Palavra do Senhor!

 

Evangelho: Lucas (Lc 6, 17.20-26)

Bem aventurados os pobres

 

Naquele tempo, 17Jesus desceu da montanha com os discípulos e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e grande multidão de gente de toda a Judéia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia.

 

20E, levantando os olhos para os seus discípulos, disse: 21"Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus! Bem-aventurados, vós que agora tendes fome, porque sereis saciados! Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir! 22Bem-aventurados, sereis, quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome, por causa do Filho do Homem! 23Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois será grande a vossa recompensa no céu; porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas.

 

24Mas, ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação! 25Ai de vós, que agora tendes fartura, porque passareis fome! 26Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e lágrimas! Ai de vós quando todos vos elogiam! Era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas. Palavra da Salvação!

 

O anúncio que transforma o mundo:

as bem-aventuranças.

 

Com este domingo se inicia a leitura do discurso da "planície", com que Lucas apresenta a nova lei, a vida moral do cristão. No fundo, toda moral natural se pode resumir nesta norma: age segundo aquilo que és. A ação moral está incluída na linha da natureza. Na Bíblia as coisas são diferentes.

 

A fórmula clássica da lei moral no Antigo Testamento começa assim: "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair do Egito, da condição de escravo. Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20,2-3). Em seguida, Determina os preceitos morais: não matar, não roubar, não cometer adultério. Começa-se com uma declaração de fatos históricos, vistos à luz da fé. Os fatos se referem à libertação do povo da escravidão e à sua constituição em nação livre. Os mandamentos são o corolário dos acontecimentos. No Novo Testamento a fundamentação é análoga; o ensinamento moral está ligado ao anúncio do evangelho. Mas aqui há um fato, um acontecimento histórico preciso do qual deriva o compromisso moral.

 

A hora zero da experiência humana

 

No evento-Jesus encontra-se a "hora zero da experiência humana». A hora que exige o ato supremo. Esta situação radicalmente nova, o ingresso do Deus "Santo” na história, se realiza sem a contribuição ou o cálculo humano. Simplesmente por um ato de Deus.

 

Mas essa situação muda a existência. A relação do homem com Deus, e, consequentemente, com os outros homens e com as coisas, é transformada pela raiz.

 

A hierarquia dos valores é totalmente revolucionada. Cria-se uma situação nova, da qual não é possível escapar. Exige-se uma resposta, o sim ou o não, a fé ou a incredulidade; a aceitação comporta uma "vida nova”. O evento-Jesus é a grande ocasião oferecida aos homens de instaurar um novo tipo de relação com Deus, no qual não é permitido fugir dos grandes compromissos morais, enquanto as possibilidades da vida são ilimitadamente ampliadas.

 

As bem-aventuranças (evangelho) exprimem a inversão radical na ordem dos valores, que o evento-Jesus realizou. São o "sinal” do evento. Com elas, Lucas proclama a ratificação das promessas messiânicas (bem-aventurados os pobres: Is 61,1ss; Lc 4,18-19.21; 7,22; 10,21ss. Bem-aventurados vós que agora chorais...: Is 35,10; Lc 2, 25).

 

Nestes pobres e perseguidos, Lucas vê a Igreja em que vive (At 14, 12; Lc 11 ,49ss; 12, 4-7.51ss; 21,12-19; 22,35-38).

 

Quem responde afirmativamente ao evento-Jesus tem a alegria de sentir-se amado por Deus e inscrito na história da salvação, participando da sorte dos profetas e de Jesus. Os quatro “ai de vós” apresentam a sorte oposta dos que dizem não, dos que não creem no evangelho e, por isso, não se inserem na história salvífica.

 

As bem-aventuranças não podem ser separadas da pessoa que as pronunciou. Jesus é o "homem das bem-aventuranças". Os pobres são bem-aventurados e a nossa fé não é vã (1 Cor 15) porque ele ressuscitou (2ª leitura).

 

As bem-aventuranças, lei ou evangelho?

 

As bem-aventuranças não são lei, mas evangelho. A lei abandona o homem às próprias forças e o incita a adaptar-se a ela até o extremo. O evangelho, ao contrário, põe o homem diante do dom de Deus e o incita a fazer desse inexprimível dom o fundamento da vida.

 

Em uma civilização de consumo, em que o dinheiro é o ídolo ao qual se sacrificam o homem e todos os outros valores, em um mundo superindustrializado e superseguro, em que não há mais lugar para a liberdade autêntica, só "o homem das bem-aventuranças”, o homem livre das coisas, pode fazer redescobrir a verdadeira face do homem. Jesus louva os pobres que vivem ao mesmo tempo em dois mundos, o presente e o escatológico; ameaça os ricos que vivem em um só mundo, o mundo que escraviza quase inevitavelmente aquele que leva uma vida cômoda. O rico já está tão satisfeito como que possui, que não entra no mais Intimo do próprio ser.

 

O pobre, entretanto, só possui a solidão, mas a vive com uma coragem que o leva ao íntimo do seu ser, onde é percebido um mundo novo. Assim solitário, ele já partilha das vitórias e revela a proximidade desse novo mundo que caminha com dificuldade, através de sucessos e fracassos, vitórias e traições. [Missal Cotidiano, ©Paulus, 1995]