Domingo, 13 de novembro de 2011

33º do Tempo Comum, Ano “A”, 1ª Semana do Saltério (Livro III), cor litúrgica Verde

 

Santos: Alberico de Utrecht (monge, bispo), Clementino, Teodoro e Filomeno (mártires de Heracléia, na Trácia), Dubrício de Madley (bispo), Gregório do Sinai (mártir), Hipácio de Gangra (bispo, mártir), Jucundo de Bolonha (bispo), Lourenço de Dublin (agostiniano, bispo), Modano de Aberdeen (bispo), Montano de Lorena (eremita, bispo), Nicolau Tavelic e companheiros (mártires), Serapião de Algiers (mercedário, mártir), Serapião de Alexandria (mártir), Sidônio de Saint-Saëns (abade), Veneranda de Gaul (virgem, mártir), Venerando de Troyes (mártir), João Liccio (dominicano, bem-aventurado) , Maria de Jesus López de Rivas (virgem, bem-aventurada)

 

Antífona: Meus pensamentos são de paz e não de aflição, diz o Senhor. Vós me invocareis, e hei de escutar-vos, e vos trarei de vosso cativeiro, de onde estiverdes. (J. 29, 11.12.14)

 

Oração: Senhor nosso Deus, fazei que a nossa alegria consista em vos servir de todo o coração, pois só teremos felicidade completa servindo a vós, o criador de todas as coisas. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

A liturgia do 33º Domingo do Tempo Comum recorda a cada cristão a grave responsabilidade de ser, no tempo histórico em que vivemos, testemunha consciente, ativa e comprometida desse projeto de salvação/libertação que Deus Pai tem para os homens.

 

 

 

1ª Leitura: Livro dos Provérbios (Pr 31, 10-13.19-20.30-31)
A mulher que teme ao Senhor, essa sim, merece louvor

 

10Uma mulher forte, quem a encontrará? Ela vale muito mais do que as jóias. 11Seu marido confia nela plenamente, e não terá falta de recursos. 12EIa lhe dá só alegria e nenhum desgosto, todos os dias de sua vida. 13Procura lá e linho, e com habilidade trabalham as suas mãos.

 

19Estende a mão para a roca, e seus dedos seguram o fuso. 20Abre suas mãos ao necessitado e estende suas mãos ao pobre.

 

30O encanto é enganador e a beleza é passageira; a mulher que teme ao Senhor, essa sim, merece louvor. 31Proclamem o êxito de suas mãos, e na praça louvem-na as suas obras!  Palavra do Senhor!

 

Comentando a I Leitura

O exemplo da mulher

 

O texto do qual foram tirados os versículos da primeira leitura (Pr 31,10-31) retrata uma visão patriarcalista, descrevendo a mulher na perspectiva masculina. No entanto, seguindo a indicação de algumas estudiosas da Bíblia, é preciso atentar para o fato de que esse texto conclui o livro de Provérbios. A conclusão está ligada ao início do livro, dedicado à reflexão sobre a sabedoria. Mulher e sabedoria estão relacionadas. Nesse sentido, os versículos selecionados para a liturgia deste domingo visam contribuir para a reflexão sobre o bom uso do tempo.

 

A mulher é apresentada como alguém que tem extrema habilidade de gerenciar a sua casa; exerce ofícios diversos com destreza; é aplicada e sabe como adquirir os bens necessários para a família. Além disso, é sensível às necessidades alheias e sabe partilhar: “Estende a mão ao pobre e ajuda o indigente”. A conclusão revela a característica de uma pessoa sábia: “Enganosa é a graça e fugaz é a formosura! A mulher que teme ao Senhor, essa merece o louvor...”.

 

O texto exalta, portanto, uma vida pautada no temor ao Senhor. É um dom do Espírito Santo. É a fonte de onde brota a sabedoria, com todas as suas boas ações. Quem teme a Deus faz de sua vida um dom que lhe agrada. Todas as coisas são transitórias, também a graça e a beleza. As obras da sabedoria, porém, duram para sempre, porque são expressões do amor. Como escreverá Paulo: “O amor jamais passará” (1Cor 13,8). [Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 281, Paulus]  

 

 

 

Salmo: 127 (128), 1-2.3.4-5 (R/cf.1a) 
Felizes os que temem o senhor e trilham seus caminhos!

 

Feliz és tu, se temes o Senhor e trilhas seus caminhos! Do trabalho de tuas mãos hás de viver, serás feliz, tudo irá bem!

 

A tua esposa é uma videira bem fecunda no coração da tua casa; os teus filhos são rebentos de oliveiral ao redor de tua mesa.

 

Será assim abençoado todo homem que teme o Senhor O Senhor te abençoe de Sião cada dia de tua vida.

 

 

 

II Leitura: 1ª Carta de São Paulo aos Tessalonicenses (1Ts 5, 1-6)
Vivamos vigilantes como filhos da luz e do dia!

 

1Quanto ao tempo e à hora, meus irmãos, não há por que vos escrever. 2Vós mesmos sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá como um ladrão, de noite. 3Quando as pessoas disserem. "Paz e segurança!", então de repente sobrevirá a destruição, como as dores de parto sobre a mulher grávida. E não poderão escapar.

 

4Mas vós, meus irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão. 5Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite, nem das trevas. 6Portanto, não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios. Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a II Leitura

Viver como filhos da luz

 

Um dos temas centrais da primeira carta aos Tessalonicenses diz respeito à segunda vinda do Senhor Jesus. Conforme se constata em vários outros textos do Segundo Testamento, a volta de Jesus ou o “dia do Senhor” é uma convicção de fé (cf. 1Cor 1,8; 5,5; Fl 1,6.10; 2,16...). As dúvidas referiam-se a quando e como se daria esse acontecimento. Paulo preocupa-se em orientar a comunidade cristã de Tessalônica, pondo ênfase no verdadeiro modo de se comportar neste tempo de espera. No que se refere à época da volta de Jesus, ela não deve motivar especulação por parte dos cristãos. Estes devem apenas ter consciência de que ele virá de surpresa. O próprio Jesus havia prevenido seus discípulos: “Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas... Felizes os servos que o Senhor, à sua chegada, encontrar vigilantes... Vós também estai preparados, porque o Filho do homem virá numa hora em que não pensais” (Lc 12,35-40).

 

A expressão “dia do Senhor” aparece também em vários textos do Primeiro Testamento. Refere-se à intervenção especial de Deus na história humana, normalmente com o objetivo de estabelecer um julgamento. Para Paulo, ter consciência da volta inesperada do Senhor é de extrema importância, pois determina a maneira correta de viver a fim de, assim, não temer o julgamento divino. Todo momento é decisivo. Portanto, é necessário agir como o vigilante que não sabe a hora em que o ladrão vai chegar. Não podemos dormir!

 

Tessalônica era uma cidade portuária, capital da província da Macedônia, com grande fluxo de gente provinda de várias partes do mundo. O ambiente social favorecia a oferta de variadas propostas prazerosas que davam a sensação de “paz e segurança”. Viver acordados ou vigilantes significa ter o cuidado para não “dopar-se” com o modo de ser dos que querem “aproveitar o tempo” para a satisfação dos seus desejos egoístas; é vencer a insensibilidade e a indiferença diante das necessidades do próximo; é viver na sobriedade, na simplicidade e na transparência; enfim, é acolher Jesus Cristo, Luz que brilha nas trevas e Verdade que nos liberta de todo tipo de escravidão... [Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 281, Paulus]  

 

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 25, 14-30)
Não podemos fugir das realidades deste mundo

 

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 14"Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. 15A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro, um; a cada qual de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou. 16O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles e lucrou outros cinco. 17Do mesmo modo, o que havia recebido dois lucrou outros dois. 18Mas aquele que havia recebido um só saiu, cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu patrão.

 

19Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados. 20O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: 'Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco, que lucrei'. 21O patrão lhe disse: 'Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!'

 

22Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: 'Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei'. 23O patrão lhe disse: 'Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!'

 

24Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento, e disse: 'Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. 25Por isso, fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence'.

 

26O patrão lhe respondeu: 'Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que eu colho onde não plantei e ceifo onde não semeei? 27Então, devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence'.

 

28Em seguida, o patrão ordenou: 'Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez! 29Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. 30Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes!"  Palavra da Salvação!

 

 

Comentando o Evangelho

Para que servem os talentos?

O evangelho deste domingo faz parte do quinto e último discurso de Jesus (Mt 24-25), conforme o esquema literário de Mateus. Está voltado para as realidades futuras, apontando a segunda vinda de Jesus como o evento norteador de todo comportamento no tempo presente.

 

A parábola apresenta um homem que, ao viajar para o estrangeiro, chama seus três servos, confiando-lhes os seus bens. A cada um entrega os talentos conforme a sua capacidade. Mesmo o que recebe um talento tem em mãos algo de muito valor, considerando que o talento equivalia a aproximadamente 34 quilos de ouro. O centro da questão está na maneira como cada um aplica o que recebe do seu senhor. A forte reprimenda dada ao que enterrou o talento indica a chamada de atenção que os autores desejam fazer aos interlocutores. O que estaria acontecendo na comunidade cristã de Mateus, ao redor do ano 85, época da redação do seu evangelho?

 

Podemos suspeitar que, entre os judeu-cristãos, havia alguns que se acomodaram numa situação de fechamento e de indiferença para com o próximo. Considerando o conjunto do livro, percebemos a intenção fundamental que é a prática da justiça, não conforme a interpretação oficial da Lei, e sim conforme a vontade divina. Esta se realiza pela vivência do amor aos pobres e pequeninos. Acontece que alguns judeu-cristãos ainda manifestavam extrema dificuldade de abrir-se à nova proposta inaugurada por Jesus. Permaneciam fechados num sistema religioso legalista e excludente. Não conseguiam conceber que o próximo também são os estrangeiros, os doentes, os marginalizados e todas as pessoas em situação de necessidade.

 

Portanto, o personagem que enterrou o talento por medo do seu senhor representa as pessoas que permanecem na “segurança” do sistema em que se encontravam antes de sua adesão à fé cristã. Representa todas as que estão acomodadas em seu “ninho”, preocupadas apenas com o seu bem-estar e indiferentes ao sofrimento alheio. A comunidade toda é chamada a fazer render os talentos, isto é, agir de modo criativo, promovendo relações de justiça e fraternidade. Esse é o jeito certo de se preparar para a volta do Senhor.

 

Percebemos que a parábola não pode ser interpretada na ótica capitalista. Ela não foi contada para legitimar a produção econômica em vista do acúmulo de bens nas mãos dos espertos, e sim para corrigir as atitudes egoístas e encorajar à prática do amor e da justiça, superando os sistemas de poder que excluem a maioria da população. A proposta de Jesus é de inclusão de todos no seu reino, e, para isso, ele conta com o empenho dos seus seguidores. Temos muitas e diferentes qualidades. Não podemos enterrá-las por egoísmo, medo ou comodismo. [Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 281, Paulus]  

 

 

A palavra se faz oração (Missal Dominical)

Deus Pai quis que Jesus, seu Filho encarnado, trabalhasse com mãos de homem e ganhasse o pão com o suor de seu rosto, para que fosse em tudo igual a nós. Peçamos-lhe que o trabalho seja, para o homem, instrumento de libertação e de encontro, não de opressão e de luta. Senhor, escutai a nossa prece.

Pela santa Igreja de Deus, para que leve ao mundo do trabalho e boa nova da salvação e da libertação, rezemos.

Pelos trabalhadores cristãos, para que deem o exemplo de como se podem resolver, pela justiça, as contradições do mundo do trabalho, rezemos.

Pelos técnicos e os cientistas, para que suas pesquisas e invenções tornem menos pesado e mais humano o trabalho do homem, rezemos.

(outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Concedei, Senhor nosso Deus, que a oferenda colocada sob o vosso olhar nos alcance a graça de vos servir e a recompensa de uma eternidade feliz. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Em verdade eu vos digo: o que pedirdes em oração, crede que o recebereis, e vos será concedido, diz o Senhor. (Mc 11, 23.24)

 

Oração Depois da Comunhão:

Tendo recebido em comunhão o Corpo e o Sangue do vosso Filho, concedei, ó Deus, possa esta Eucaristia que ele mandou celebrar em sua memória fazer-nos crescer em caridade. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

O risco da responsabilidade

 

Na parábola, as particularidades estão em função da mensagem; nem todos os elementos têm a mesma importância. O elemento que aqui unifica o quadro não é tanto o diálogo entre o senhor e os dois primeiros servidores, quando o diálogo travado entre o servidor condenado por sua preguiça e o senhor exige uma justificação.

Risco ou prudência?

 

A prudência, para merecer este nome, requer também a previsão do riso. A razão adotada pelo servo preguiçoso parece, à primeira vista, um raciocínio justo, um comportamento de quem se põe em segurança; é mais sensato conservar aquele pouco que se tem do que perdê-lo.

 

O servo se crê dentro da justiça quando não ousa arriscar e quando enterra o talento recebido para poder restituí-lo intacto; defende-se dizendo que o Senhor “colhe onde não semeou”. Assim, em nome da justiça, contesta ao seu senhor o direito de pedir-lhe mais do que o que lhe dera: “Eu sou justo, tu é que não és”. É a atitude dos operários da primeira hora, que ficam indignados com a conduta do senhor da vinha. São as recriminações do filho mais velho contra o pai, na parábola do “filho pródigo”. As argumentações desta parábola são claramente dirigidas contra os escribas e fariseus observantes da lei, e contra todos os que procuram evitar o risco de responsabilidade, o risco de perder a vida. No fundo, seu raciocínio tem certa lógica: Deus exige a perfeição; a lei exprime sua vontade; só uma observância escrupulosa da lei nos põe em segurança.

 

A lógica do senhor da parábola é, porém, diferente. A salvação passa através do risco: “Sabias que colho onde não semeei, portanto...” O talento que o servidor recebeu não dá salvação por si só; a quantidade dos talentos não pode constituir uma segurança ou simplesmente um álibi. O dom deve ser multiplicado. Quem não se arrisca não pode lucrar. A “vinda” do Senhor, imprevista para todos, não permite esperar para negociar com os dons recebidos. A defesa é tática da desconfiança. Não ousar pode parecer prudência, mas é, finalmente, uma prova de preguiça. Quem traduz em obras o anúncio recebido e não sabe tirar alguma vantagem do que recebeu é como o convidado ao banquete que não traja a veste nupcial ou como as jovens do cortejo nupcial que não encheram sua lâmpada de óleo; comodismo e tolice.

 

Criatividade e esforço

 

O evangelho é uma mensagem pela qual nos devemos deixar transformar e com a qual conformar toda a nossa atividade. A imagem da mulher perfeita é um modelo de sabedoria e comportamento que deve caracterizar a espera do reino.: felicidade conjugal, trabalho, autenticidade de valores (1ª leitura). No entanto, o terceiro servo da parábola não é um modelo,; tem medo do senhor, um medo que o cristão não deve ter, desde que no batismo se tornou “filho” (2ª leitura). Paulo, porém, exorta: “não durmamos como os outros” Empenhar os próprios talentos não é “acumular” uma fortuna para si, nem usar as próprias capacidades unicamente para si, nem tampouco desperdiçá-las: fazem parte do plano de Deus.

 

O trabalho é o meio pelo qual o homem produz sua criação. No “cotidiano”, ele experimenta suas capacidades transformadoras, sua fantasia criativa. Mas no “cotidiano” sente também a desordem do pecado em dimensão pessoal, social e de estruturas.

 

Deus é pelo risco

 

A vida nos nossos dias é muito dura para a maior parte dos homens, a concorrência é desumana, não existe segurança profissional para ninguém, o relaxamento dos costumes cresce de maneira inquietadora, os homens confiam cada vez menos uns no outros. Aumenta a delinqüência, o sofrimento não poupa ninguém e a morte continua a ser o pavor de todos. Persa sobre a humanidade o perigo de guerras: reina ainda na terra o estado da injustiça, que clama vingança, e no qual se encontra o Terceiro Mundo. Todos experimentam, às próprias custas, quais as consequências, quando o pecado domina. Quem pode sentir-se em segurança?

 

Entretanto, Cristo age nesta humanidade como força de renovação, difundindo dons e talentos a homens livres que saibam fazê-los frutificar corajosamente. Deus não tem o hábito de transformar as leis da natureza ou de agir em nosso lugar; não organiza nenhum sistema de segurança nem mesmo para os que crêem nele; mas o Espírito de Deus nos impele a tornarmo-nos homens novos, isto é, homens que, apesar dos contragolpes e oposições,s continuam a edificar com amor um futuro mais sorridente. [MISSAL DOMINICAL ©Paulus, 1995]

 

 

Os talentos a nós confiados

Dom Orani João Tempesta, O. Cist., Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro - RJ

 

Mais um ano litúrgico está terminando e celebramos neste final de semana o penúltimo domingo – o XXXIII - do Tempo Comum. Os textos da Palavra de Deus desta época nos levam ao tema das últimas coisas e nos fazem pensar sobre a parusia. E o apóstolo São Paulo nos traz de volta à realidade da nossa vida e de nossa existência aguardando a vinda do Senhor. No trecho da segunda leitura, tirada da primeira Carta aos Tessalonicenses (1Ts 5,1-6), fala-nos exatamente do dia do Senhor.

 

Há no texto um convite claro para a vigilância na espera desse encontro com o Senhor. Existem muitos que discursam sobre o final dos tempos marcando falaciosamente datas. Porém, para nós, o convite nos é dirigido para estarmos preparados cada dia. No início do mês celebramos a comemoração dos fiéis defuntos e rezamos nessa intenção. No domingo passado recordarmos com alegria os nossos irmãos que se encontram na visão beatífica, os santos, e nos alegramos com seus exemplos e intercessão. Porém, é fato também que existe uma cultura que tem causado violências e mortes em nossa sociedade e que nos questiona sobre o sentido que damos às nossas vidas. Essas celebrações e ocorrências nos ajudam a olhar com mais profundidade os nossos caminhos. Nestas terras da Jornada Mundial da Juventude, chamam a nossa atenção  algumas mortes precoces de jovens por causa da violência em nosso país, como por exemplo: pela violência oriunda da contravenção, as que ocorrem pelos acidentes de trânsito, as causadas pelos motoristas bêbados, e tantas outras em circunstâncias e detalhes que enchem as páginas de alguns jornais. Com a campanha “contra o extermínio de jovens”, somos chamados a pensar sobre nosso compromisso com a vida e com uma sociedade mais justa. É doloroso ver os nossos jovens enveredados por tantos caminhos que só levam à infelicidade e morte. Porém, diante de tantas ocorrências somos chamados a refletir sobre o último ato da nossa vida. Nossa vida de fé deve ser uma vida ativa e dinâmica, no sentido de que não podemos adormecer sobre a nossa condição, às vezes sem expressão clara da verdadeira fé.

 

O Evangelho deste domingo (cf. Mt 25,14-30) nos ajuda a examinar nossos caminhos porque fala dos frutos dos talentos recebidos. Deus nos deu uma importante missão, que devemos levar adiante e que identificamos como talentos. Temos o dever de trabalhar para a conquista do Reino de Deus e a sua propagação entre nós. Isso nos foi confiado pelo Senhor. A parábola dos talentos ajuda-nos a assumir um comportamento mais responsável sobre a fé, para vivê-la e repassá-la não somente pela palavra, mas, sobretudo, pelo exemplo de vida. Isso deve ser claro, especialmente para aqueles que vivem sobre o legado do passado, sobre os bens já feitos e executados imaginando que nada mais é necessário hoje. Devemos, porém, estar sempre vigilantes e ativos.

 

Deus vê o coração, a generosidade, o empenho, a dedicação, a vigilância, o compromisso de cada um de nós. Nessa perspectiva, é muito eficaz o que lemos na primeira leitura deste domingo (cf. Pr 31,10-13.19-20.30-31): o texto é retirado do livro de Provérbios, um dos livros sapienciais do Antigo Testamento, cheio de razões espirituais e morais. É claro que o padrão das mulheres fortes e trabalhadoras, honestas e generosas, que cuidam de sua beleza interior é um exemplo de vida para todos que se preocupam com o destino de sua felicidade terrena e eterna.

 

A leitura do Evangelho deste domingo mais uma vez insiste na vigilância ativa e sobre a responsabilidade corajosa que devem distinguir quem acolheu a mensagem da salvação. A parábola não deixa de ter um aspecto polêmico: Mateus, obviamente, estava pensando numa comunidade não muito comprometida, que adormece sobre os louros. O servo que se contentou em esconder o seu talento, servilmente fazendo o que ele pensa ser a tarefa do mestre, é chamado de "mau e preguiçoso".

 

A parábola vai bem além dos padrões morais que encontramos na primeira leitura. Não se trata apenas de valorizar os dons recebidos: o capital que o Senhor nos confiou é, antes de tudo, a Sua Palavra, que abre horizontes infinitos para as nossas vidas. É também a missão de evangelização, que se refere ao futuro da Igreja e do reino.

 

O homem da parábola representa o próprio Cristo, os servos são os discípulos e os talentos são os dons que Jesus lhes confia. Por isso, tais dons, além das qualidades naturais, representam as riquezas que o Senhor Jesus nos deixou em herança, para que as multipliquemos. E, em consequência, toda a transformação da sociedade na civilização do amor. Em síntese: o Reino de Deus, que é Ele mesmo, presente e vivo no meio de nós.

 

A parábola insiste na atitude interior com que acolher e valorizar este dom. A atitude errada é a do receio: o servo que tem medo do seu Senhor e teme o seu retorno, esconde a moeda debaixo da terra e ela não produz qualquer fruto. Isto acontece, por exemplo, com quem, tendo recebido o Batismo, a Comunhão e a Crisma, depois enterra tais dons debaixo de uma camada de preconceitos, sob uma falsa imagem de Deus, que paralisa a fé e as obras a ponto de atraiçoar as expectativas do Senhor.

 

A realidade salta aos nossos olhos: Sim, o que Cristo nos concedeu multiplica-se quando é doado! Cristo nos oferece, generosamente, um tesouro feito para ser despendido, investido, compartilhado com todos. A mensagem central da liturgia deste domingo diz respeito ao espírito de responsabilidade com que devemos acolher o Reino de Deus – responsabilidade em relação a Deus e à humanidade. Encarna perfeitamente esta atitude do coração a Virgem Maria que, recebendo o mais precioso dos dons, o próprio Jesus, ofereceu-O ao mundo com imenso amor. A Maria Santíssima peçamos que nos ajude a ser "servos bons e fiéis" para que possamos um dia, com júbilo, entrar e participar "na alegria do nosso Senhor, o Cristo Redentor". [CNBB]