Domingo, 11 de dezembro de 2011

Terceiro do Advento, Ano B, 3ª Semana do Saltério (Livro I), cor Litúrgica Roxa ou Róseada

 

Hoje: Dia da Bíblia, dia do engenheiro Civil e dia do Arquiteto

 

Santos: Benjamin de Jerusalém (bispo), Blatmaco da Escócia (abade), Daniel, o Estilita (monge de Samósata), Eutíquio da Espanha (mártir), Savino de Piacenza (bispo), Segundo, Zózimo, Paulo e Ciríaco (mártires), Senchan de Emly (abade-bispo), Trasão, Ponciano, Pretextato (mártires de Roma), Vitorino de Tixtier (mártir), Batista de Áquila (bem-aventurado), Tassilão III (duque da Baviera, bem-aventurado), Teodorico Coelde (bem-aventurado), Ugolino Magalotti (bem-aventurado), Vilburga de São Floriano (eremita, bem-aventurada), Vilfero de Moutier-Saint-Jean (monge, bem-aventurado)

 

Antífona: Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo, alegrai-vos! O Senhor está perto. (Fl 4, 4-5)

 

Oração: Ó Deus de bondade, que vedes o vosso povo esperando fervoroso o natal do Senhor, daí chegarmos às alegrias da salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

As leituras do 3º Domingo do Advento garantem-nos que Deus tem um projeto de salvação e de vida plena para propor aos homens e para os fazer passar das “trevas” à “luz”.

 

 

1ª Leitura: Isaias (Is 61, 1-2a.10-11)
O Senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória

 

1O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; 2apara proclamar o tempo da graça do Senhor.

 

10Exulto de alegria no Senhor e minh'alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa, ou uma noiva com suas jóias.

 

11Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações. Palavra do Senhor!

 

Comentando a I Leitura

O Espírito Santo nos ungiu

 

O movimento profético de Isaías Terceiro (Is 56-66) emergiu no período do pós-exílio (ao redor do ano 500 d.C.). A situação do povo é conturbada. Há sérios conflitos entre os que voltaram do exílio e os que permaneceram na terra de Judá. Um pequeno grupo se impõe com o apoio do governo persa, arrogando-se o direito de tomar posse da terra. Uma elite sacerdotal reconstrói o templo e organiza o sistema de pureza. O povo é oprimido e cada vez mais empobrecido sob a obrigatoriedade de pagamento de impostos tanto para os persas como para o templo.

 

O grupo profético toma posição a favor dos pobres. Sente-se vocacionado por Deus e ungido pelo Espírito Santo para fortalecer o ânimo e a esperança das pessoas vítimas do poder político e religioso. Pelas categorias citadas, descobrimos a condição social dessa gente: são pobres, possuem coração ferido, são pessoas oprimidas e são presas. A elas Deus envia o profeta com a missão específica de anunciar a boa notícia, curar, proclamar a liberdade e libertar. É Deus intervindo na história humana para resgatar a vida onde ela está sendo ameaçada.

 

A utopia que move esse movimento profético é a de uma sociedade justa e fraterna, como foi no tempo do tribalismo israelita. É o que se constata pela referência à promulgação do “ano da graça do Senhor”: diz respeito à celebração do ano jubilar, com a tomada de medidas para a repartição da terra às tribos, o perdão de todas as dívidas e a libertação dos escravos, a fim de que não houvesse pessoas excluídas. Essa utopia serviu de matriz inspiradora para a ação do grupo profético do Terceiro Isaías, comprometido com a organização de uma sociedade justa. Sua concepção de Deus contrapõe-se à dos sacerdotes do templo. É outra teologia, que emerge do lugar social das pessoas injustiçadas. Jesus se alimentou dessa teologia comprometida com a vida em abundância para todos. Conforme vai relatar o Evangelho de Lucas (4,18-19), será exatamente esse texto de Isaías (61,1-2a) que Jesus vai assumir como síntese reveladora de sua missão.

 

A segunda parte desta I leitura (61,10-11) consiste num hino de louvor e alegria pela certeza do agir libertador de Deus junto a seu povo. Vislumbra-se a realização da utopia de um novo mundo, porque Deus assim o quer. “Eis que vou criar um novo céu e uma nova terra” (Is 65,17). O povo, ungido pelo Espírito de Deus, sente-se renovado: vestido com vestes de salvação, coberto com o manto da justiça, preparado para a celebração de um novo casamento. Deus, sempre fiel à aliança, “faz germinar a justiça e o louvor em todas as nações”. A vinda de Jesus é a realização desse sonho... [Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 281, Paulus]

 

Cântico: Lc 1, 46-48.49-50.53-54 (R/.Is 61, 10b) 
A minh'alma se alegra no meu Deus

 

A minha alma engrandece ao Senhor, e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador, pois, ele viu a pequenez de sua serva, desde agora as gerações hão de chamar-me de bendita.

 

O Poderoso fez por mim maravilhas. E Santo é o seu nome! seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam.

 

De bens saciou os famintos, e despediu, sem nada, os ricos. acolheu Israel, seu servidor, fiel ao seu amor.

 

II Leitura: 1Ts 5, 16-24
Aquele que vos chamou é fiel

 

Irmãos: 16Estai sempre alegres! 17Rezai sem cessar. 18Dai graças em todas as circunstâncias, porque essa é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo.

 

19Não apagueis o espírito! 20Não desprezeis as profecias, 21mas examinai tudo e guardai o que for bom. 22Afastai-vos de toda espécie de maldade! 23Que o próprio Deus da paz vos santifique totalmente, e que tudo aquilo que sois - espírito, alma, corpo - seja conservado sem mancha alguma para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo! 24Aquele que vos chamou é fiel; ele mesmo realizará isso. Palavra do Senhor!

 

Comentando a II Leitura

Alegrai-vos sempre


Em sua primeira carta aos Tessalonicenses (que também é o primeiro escrito canônico do Segundo Testamento), Paulo demonstra preocupação especial com o comportamento da comunidade cristã, que vive a expectativa da vinda de Cristo. Ele usa a palavra “parúsia” (“vinda”), que, na cultura greco-romana, designa a chegada solene de uma pessoa ilustre. Nesse caso, refere--se à volta triunfal de Jesus.

 

Paulo exorta os cristãos a viver preparados para a parúsia, que se dará de forma repentina. Em que consiste essa preparação? Pode ser resumida neste apelo: “Vede que ninguém retribua o mal com o mal; procurai sempre o bem uns dos outros e de todos” (5,15). Tendo por fundamento o amor fraterno, a comunidade não precisa temer. Pelo contrário, pode alegrar-se sempre. Na certeza do encontro com o Senhor, deve orar incessantemente, dando graças a Deus.

 

A alegria do cristão é contínua e funda-se na fé no Senhor Jesus. Ela não depende de circunstâncias externas; mesmo num mundo hostil, permanece viva. A alegria constante está intimamente ligada ao hábito da oração, num espírito de ação de graças a Deus, fonte de todo bem. É de sua vontade que estejamos conscientes disso e levemos uma vida de gratidão. Ele nos dá o Espírito Santo com seus dons; ele suscita profecias, isto é, maneiras diversas de instruir para edificar e para discernir o que é bom. Paulo continua com tom imperativo: “Guardai-vos de toda espécie de mal”.

 

Percebe-se que o apóstolo oferece suas instruções num tom de seriedade e vigilância. Ele nos exorta a ser íntegros e irrepreensíveis, vivendo conforme a vontade do “Deus da paz”, que nos concede a santidade perfeita e nos sustenta nesta caminhada ao encontro do Senhor que vem. Essa paz divina é muito mais do que a ausência de conflitos, não consiste em mera tranquilidade: ela está ligada à reconciliação definitiva com Deus e com as bênçãos messiânicas. [Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 281, Paulus]

 

Evangelho:  João (Jo 1, 6-8.19-28)
Jesus vem para resgatar a humanidade

 

6Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. 7Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. 8Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.

 

19Este foi o testemunho de João, quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar: "Quem és tu?" 20João confessou e não negou. Confessou: "Eu não sou o Messias". 21Eles perguntaram: "Quem és, então? És tu Elias?" João respondeu: "Não sou". Eles perguntaram: "És o Profeta?" Ele respondeu: "Não". 22Perguntaram então: "Quem és, afinal? Temos que levar uma resposta para aqueles que nos enviaram. O que dizes de ti mesmo?" 23João declarou: "Eu sou a voz que grita no deserto: 'Aplainai o caminho do Senhor'" - conforme disse o profeta Isaias. 24Ora, os que tinham sido enviados pertenciam aos fariseus 25e perguntaram: "Por que então andas batizando, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?" 26João respondeu: "Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, 27e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias". 28Isso aconteceu em Betânia, além do Jordão, onde João estava batizando. Palavra da Salvação!

 

Comentando o Evangelho

O testemunho de João Batista


O prólogo do Evangelho de João apresenta Jesus como a Palavra que existe desde sempre, pois ele é Deus. Por meio dela, tudo foi feito. “Nela estava a vida, e a vida era a luz dos seres humanos. Essa luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram apagá-la... E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (1,4-5.14). Quem poderia acreditar nessas afirmações?

 

Um homem, enviado por Deus, vem para testemunhar essa verdade. Seu nome é João, que significa “Deus é favorável”. O seu testemunho é verdadeiro, pois não é dado por algum interesse pessoal, mas pelo cumprimento de uma missão divina. Em sua humildade, ele nega ser Elias ou algum dos profetas. No entanto, ele “foi enviado”, assim como os profetas eram enviados por Deus para proclamar a sua vontade ao povo. Alguns deles anunciaram a vinda do Messias. João Batista completa a profecia do Primeiro Testamento, bem próximo à vinda do Messias, preparando-lhe o seu caminho.

 

O testemunho fala alto. A pregação que sai da boca de quem vive o que fala penetra fundo no coração dos ouvintes. O testemunho de João Batista era tão forte, que muitos achavam que ele fosse a verdadeira luz. Possuía uma autoridade especial, sem a delegação do sistema religioso centrado no Templo. Isso provocou ciúme nas autoridades religiosas e também preocupação, por causa do seu poder de atrair multidões. Por isso, os judeus de Jerusalém enviam uma comissão de sacerdotes e levitas para investigar quem era João Batista. Ele esclarece: “Eu não sou o Cristo”. Ao negar também ser Elias ou qualquer outro profeta, está renunciando a entrar na forma institucional para permanecer livre e fiel à missão de precursor do verdadeiro Messias, que vem de forma transgressora e contrária à expectativa oficial.

 

A postura firme e coerente de João Batista, que culminou com o seu martírio, tornou-se para as primeiras comunidades cristãs um sinal de luz muito forte. Ao redor dele formou-se um movimento de seguidores. Foi necessário dirimir as dúvidas a respeito da sua identidade e da sua missão. João Batista “não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz”. Ele não é um obstáculo ou uma sombra, mas um reflexo da grande luz. Seu ministério possui imensurável importância, que é proporcionar a acolhida do dom da fé no Messias verdadeiro.

 

O evangelho fundamenta a missão de João Batista no texto do Segundo Isaías (40,3): ele é “a voz que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor”. Os que entortaram o caminho do Senhor foram as autoridades judaicas, ali representadas pela delegação de sacerdotes e levitas. Elas vão se opor radicalmente a Jesus, tentando impedi-lo de exercer o seu ministério. É preciso ouvir a voz da profecia que clama no deserto. Pelo deserto, apoiado na certeza da presença de Deus, o povo foi abrindo o caminho para a terra de liberdade e vida. A presença salvadora de Jesus Cristo abre caminho para um novo mundo: depende de nossa acolhida e adesão à sua proposta. A voz da profecia – conforme o testemunho e a pregação de João Batista – incomoda quem não deseja mudanças. É para a nossa conversão e consequente adesão a Jesus como nosso salvador que João Batista foi enviado... [Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 281, Paulus]

 

 

A palavra se faz oração (Missal Dominical)

Nosso Deus é um Deus que salva, o Deus da paz e da alegria. Podemos falar-lhe com coração aberto e cheio de confiança: Senhor, dai-nos a paz.

Pelos que creem, a fim de que sejam, para todos os homens, as testemunhas da alegria que nasce da certeza de que Jesus já salvou o mundo e de que a história e a vida têm um sentido, rezemos ao Senhor.

Para que vejamos em Jesus o que realmente ele é; não só um mestre de moral, um profeta, um contestador de tradições mortas, mas o Filho de Deus feito homem, rezemos ao Senhor.

Para que a vida dos membros da nossa comunidade seja um alegre e real anúncio de libertação para os pobres, os que sofrem, os oprimidos por qualquer forma de escravidão, rezemos ao Senhor.

(outras intenções)

 

Concedei, Senhor, que nossa atitude na vida de todos os dias seja o sinal da nossa vinda. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Oração sobre as Oferendas:

Possamos, ó Pai, oferecer-vos sem cessar estes dons da nossa devoção, para que, ao celebrarmos o sacramento que nos destes, se realizem em nós as maravilhas da salvação. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Dizei aos tímidos: coragem, não temais; eis que chega o nosso Deus, ele mesmo vai salvar-nos (cf Is 35,4)

 

Oração Depois da Comunhão:

Imploramos, ó Pai, vossa clemência para que estes sacramentos nos purifiquem dos pecados e nos preparem para as festas que se aproximam. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Ecos de uma Profecia

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte - MG

 

A beleza das decorações ou as alegrias das confraternizações do Natal devem enraizar-se no mais recôndito do coração humano. A preparação para o Natal é um caminho interior para dar sustento e consistências aos caminhos da vida e às vicissitudes que desafiam a existência humana cotidianamente. Sabiamente, a Igreja Católica na sua liturgia do tempo do Advento inclui na proclamação da Palavra de Deus a profecia de Isaías. Os ecos dessa sua profecia têm forças indicativas indispensáveis.

 

Trata-se de uma profecia que cultiva a inclinação para ouvi-la em razão de ressoar a sua voz com uma singular plenitude. É ímpar a beleza com que Isaías anuncia o Messias, Um anúncio com força de interpretação do presente indicando caminhos novos e a premência de novos propósitos assumidos em âmbito pessoal para configurar e sustentar um tempo novo sempre esperado por todos em cada etapa da história. A profecia tem, pois, força de interpelação. Necessária quando se considera o congelamento de consciências e a naturalidade de certas posturas advindas de arriscadas relativizações de valores e de compromissos cidadãos.

 

Isaías atuou na história de Israel na segunda metade do século 8 a.C. Historicamente, profetizou quando a poderosa Assur se preparava para conquistar a Síria e a Palestina, tendo assistido a queda do reino de Israel e de Samaria, vendo com os próprios olhos a extrema desolação de Jerusalém. Portanto, um tempo de derrocadas e desolações, morais e na infraestrutura dessas sociedades. Sua palavra torna-se um forte sinal de esperança. Seus discursos ganharam uma admirável contundência na ordem interna da sociedade, situando bem o contexto político mais global e incidindo sobre a conduta moral de cada cidadão, mostrando, com argumentos incontestáveis, o quanto este valor tem força definidora nos rumos da sociedade, levando-a a conquistas ou a derrocadas.

 

Seu discurso atingia assim uma amplitude jamais vista. Essa amplitude é força educativa indispensável para que uma sociedade supere seus descompassos e consiga fixar seu horizonte emoldurado por razões que não incluem a mesquinhez, a desonestidade, a ganância e a luxúria. O enfrentamento deste embate não pode prescindir das referências morais com suas raízes em tradições e fontes sapienciais. O profeta ajuda uma sociedade perdida a assumir a convicção de que seus desastres advêm da imoralidade e a restauração de sua força brotará sempre da busca de uma conduta ilibada.

 

O profeta, pois, educa a consciência moral do povo e mostra-lhe que ela é o sustentáculo de suas conquistas, de sua recomposição e a dinâmica de superação de suas incontáveis fragilidades gerando descompassos e pesando sobre os próprios ombros. A derrocada moral dos chefes, a regra de um jogo em que vale tudo e qualquer coisa situa o povo num exílio que traz amarguras. Também faz perder a independência, alimenta as ilusões dos números e das posses, tendo como resultado a projeção em ruínas de todos extremamente enfraquecidos no seu poder que um dia pareceu inabalável e inexpugnável.

 

A profecia tem, então, como meta a correção desta obstinação que cega impedindo de fixar o olhar noutro alguém. Seu anúncio messiânico convida a encontrar a realidade nova que está visível no coração desse tempo indicando que o novo não virá do simples poder e das posses, mas da simplicidade amorosa da manifestação de Deus. Anuncia assim que ‘um broto vai surgir do tronco seco... das velhas raízes um ramo brotará’. O sinal será dado pelo próprio Deus, pois ‘eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho e lhe porá o nome de Emanuel’.

 

Isaías, entendido de política internacional, e à luz dela interpreta com autoridade os acontecimentos, traz ao povo o único caminho possível, no encontro com o Messias, na força de sua presença, para a superação de tudo o que desfigura uma sociedade que foi poderosa. Um povo que foi forte, de reis imbatíveis agora exilados.

 

Essa presença, do Messias, Cristo Jesus, o Menino Deus do Natal, é a única fonte com força para incidir na conduta de cada um fazendo de todos capazes. Uma sociedade diferente da lógica que Deus chama de mãos sujas de sangue, dos que, gananciosamente, ajuntam casas a casas, emendando terreno com terreno, diz o profeta Isaías, até não sobrar espaço para mais ninguém, tornando-se donos de tudo.

 

Na verdade, o profeta revela onde estão as raízes dos males que afligem o povo. Comprova que o povo anda para trás porque abandonou o seu Senhor, na pretensão de ser dono. A vinda do Messias, o Cristo Salvador, tempo de uma nova aliança, traz os ecos da profecia como convite: “Lavai-vos, limpai-vos, tirai das minhas vistas as injustiças. Parai de fazer o mal e aprendei a fazer o bem. Buscai o que é correto, defendei o direito, fazei justiça. Natal é busca do novo pela força dos ecos de uma profecia. [Fonte: CNBB]

 

 

 

Deus vem para alegria dos pobres

 

 

O Deus que vem quer ser "pobre"; contesta as imagens que espontaneamente dele fazemos, e vem ao nosso encontro numa dimensão incomum para uma religião. Mas esse Deus "diferente" despertará muito mais a fé daqueles que procuram uma religião autêntica. Toda uma linha profética havia apresentado aos israelitas o Messias segundo as categorias do poder, da vitória, do domínio universal; isso, aliás, correspondia à experiência do Êxodo, que permanece o ponto de referência necessário para o Deus da aliança. Mas sobretudo com o exílio, que favorece a reflexão sobre a aliança e sua interiorização, o Deus de Israel e Aquele que ele consagra para a missão de salvador do povo são encarados sob uma luz nova, mais espiritual (mais simbólica também); e do mesmo modo é encarada a missão e seus destinatários (1ª leitura).

 

Os privilegiados do Reino

 

"Os pobres" são mais disponíveis para o alegre anúncio da salvação: os que não se apoiam em sua suficiência pessoal ou na segurança material, que estão atentos, à escuta da palavra de Deus e capazes de uma fidelidade simples e firme à sua lei.

 

Certamente há o perigo de poetizar a sorte dos infelizes (enquanto nós estamos bem) e nada fazer para mudar a situação das populações urbanas ou rurais indigentes; seria cômodo limitar-se a falar da alegria messiânica a propósito das massas que penam para ganhar o pão de cada dia, enquanto Cristo teve entranhas de compaixão, curando suas enfermidades e multiplicando para eles o pão. Na realidade, para esses irmãos mais pobres a esperança messiânica se concretizará na presença fraterna de quem estende a mão para socorrer a extrema necessidade e, mais do que isso, partilhar sua sorte, tornando digno de crédito e perceptível o anúncio de um mundo melhor. Mas só com isso não se satisfaz a expectativa.

 

O precursor do anúncio de alegria aos pobres define-se a si mesmo "voz que clama"; ele não é "a luz". Quer "dar testemunho da luz" (evangelho). O verdadeiro portador da "Boa-nova" - o Cristo - já está no meio dos seus, mas "esses não o conhecem"; ele é a "Palavra", é a "Luz" e não é ouvido nem visto. Está no meio de nós e nós corremos o risco de não o reconhecer se nos limitamos a ver nele o herói de um messianismo humano, o teórico de uma fraternidade ou de uma felicidade terrena, o taumaturgo extraordinário. O segredo da personalidade do Homem-Deus revela uma atenção especial aos pobres e humildes que tem fé e se abandonam a Deus, e ressalta que a chegada do "dia do Senhor" trará consigo a viravolta das estruturas humanas.

 

Testemunhas da alegria de Cristo

 

A intervenção de Jesus na história gera em torno de si uma atmosfera de entusiasmo e alegria; Jesus é o iniciador definitivo dessa alegria que vem do alto e é dom do Pai: "Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas ele quem nos amou" (1Jo 4,10). O "Magnificat" da Virgem Maria exprime maravilhosamente a tonalidade fundamental da alegria cristã (salmo de meditação). Mas importa não se enganar: a ação de graças não é a atitude passiva de alguém que apenas reconhece que tudo lhe vem do alto; é a alegria do colaborador que descobre ser chamado a contribuir para a edificação do mundo. O cristão sabe que vive na terra uma existência igual à de qualquer outro homem, mas que tem uma certeza da salvação e um sentido da história que lhe permitem reconhecer em todos os acontecimentos o Reino que vem. Isso lhe proporciona uma alegria profunda, que ele testemunha não fugindo da própria condição, mas considerando-a como uma etapa da vinda do Senhor. Torna-se assim o sinal real dessa vinda.

 

Enviou-me para trazer o Alegre Anúncio

 

Que significa para nós, para nossa comunidade, esta frase? O cristão, unido ao Pai pelo sacrifício eucarístico da cruz, está convencido de que sua mansidão e bondade manifestam a presença do Senhor no mundo; renuncia, por isso, a dar testemunho de Deus no poder e no triunfalismo das instituições. Convém cuidar também que a celebração eucarística não desperte à alegria simplesmente humana de um encontro entre homens que já são irmãos por afinidade de raça, de ambiente social ou de interesses comuns. Não podemos limitar-nos a isso; importa abrir as nossas comunidades eucarísticas à riqueza da diversidade humana. A alegria será então talvez menos espontânea, mas muito mais verdadeira. [Missal Dominical, Paulus, 1995]