Domingo, 10 de outubro de 2010

28º do Tempo Comum (Ano “C”), 4ª Semana do Saltério (Livro III), cor Litúrgica Verde

 

Hoje: Dia Mundial da Saúde Mental, dia do Lions Internacional e Dia do Círio de Nossa Senhora de Nazaré

 

Santos: Paulino de York, Gereão e seus companheiros (mártires na Alemanha), Victor, Malosso, Cássio, Florêncio e seus Companheiros (Bonn, Alemanha), Francisco de Bórgia, Bem-Aventurado Daniel Comboni, Pinto (Séc. II, Ilha de Creta), Cernóbio (Séc. VI, Etrúria), Paulino (644, monge beneditino romano), Telquida (670, França), Daniel e seus companheiros (1227, Calábria, Itália, presbítero, mártir franciscano da Ordem I), Telcida.

 

Antífona: Senhor, se levardes em conta as nossas faltas, quem poderá subsistir?  Mas em vós encontra-se o perdão, Deus de Israel. (Sl 129, 3-4)

 

Oração: Ó Deus, sempre nos proceda e acompanhe a vossa graça para que estejamos sempre atentos ao bem que devemos fazer. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

I Leitura: II livro dos Reis (2Rs 5, 14-17)
Naamã voltou para junto do homem de Deus

 

Naqueles dias, 14Naamã, o sírio, desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado.

 

15Em seguida, voltou com toda a sua comitiva para junto do homem de Deus. Ao chegar, apresentou-se diante dele e disse: "Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda a terra, senão o que há em Israel! Por favor, aceita um presente de mim, teu servo". 16EIiseu respondeu: "Pela vida do Senhor, a quem sirvo, nada aceitarei". E, por mais que Naamã insistisse, ficou firme na recusa. 17Naamã disse então: "Seja como queres. Mas permite que teu servo leve daqui a terra que dois jumentos podem carregar. Pois teu servo já não oferecerá holocausto ou sacrifício a outros deuses, mas somente ao Senhor". Palavra do Senhor!

 

 

 

Salmo Responsorial: 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R/ 2b)

O Senhor fez conhecer a salvação e às nações revelou sua justiça

 

1Cantai ao Senhor Deus um canto novo, porque ele fez prodígios! Sua mão e o seu braço forte e santo alcançaram-lhe a vitória.

 

2O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua justiça; 3arecordou o seu amor sempre fiel 3bpela casa de Israel.

 

3cOs confins do universo contemplaram 3da salvação do nosso Deus. 4Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, alegrai-vos e exultai!

 

 

 

II Leitura: Paulo a Timóteo (2Tm 2, 8-13)
Nas dificuldades do ministério, lembra-te de Jesus Cristo!

 

Caríssimo, 8lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho. 9Por ele eu estou sofrendo até às algemas, como se eu fosse um malfeitor; mas a palavra de Deus não está algemada. 10Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação, que está em Cristo Jesus, com a glória eterna.

 

11Merece fé esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos. 12Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos. Se nós o negamos, também ele nos negará. 13Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo. Palavra do Senhor!

 

 

Evangelho, Lucas (Lc 17, 11-19)
Cura de dez leprosos

 

11Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galiléia. 12Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam a distância, 13e gritaram: "Jesus, mestre, tem compaixão de nós!" 14Ao vê-los, Jesus disse: "Ide apresentar-vos aos sacerdotes". Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. 15Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; 16atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. 17Então Jesus lhe perguntou: 18"Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?" 19E disse-lhe: "Levanta-te e vai! Tua fé te salvou". Palavra da Salvação!

 

 

 

 

 

A fé se torna ação de graças

 

 

 

O anúncio do reino de Deus é anúncio de salvação, proclamado não só com a palavra, mas também com ações.

 

Os milagres confirmam o triunfo do Espírito sobre satanás, e é por isso que Jesus, investido do Espírito, entra em luta com satanás no deserto. O Cristo é o homem forte, que, lutando arduamente, tira ao espírito do mal aquilo que ele usurpou. Jesus inaugura o reino messiânico destruindo a obra do adversário.

 

Os milagres entram, pois, na perspectiva da inauguração do reino messiânico. Por seu conteúdo, o milagre é antecipação do reino escatológico, que só será revelado definitivamente quando o último inimigo, a morte, for vencido. Os milagres, com algumas exceções e por razões que é fácil compreender, são vivificações; por isso, profetizam a vivificação definitiva; a vida eterna. Por meio do milagre, o poder vivificador de Deus irrompe no tempo. Insere-se num mundo que declina para a morte. O milagre é uma ruptura na orientação normal das coisas,e essa ruptura no  atinge como sinal de transcendência. No intervalo do tempo, os milagres são penhor da realidade futura. Realçam concretamente a eficácia invisível da Palavra de Salvação" (Duquoc).

 

 

Manifestam a gratuidade essencial; dizem claramente que a salvação não é uma conquista humana, mas um dom de Deus; visam a suscitar a fé na pessoa de Jesus e fazer brotar ação de graças.

 

A ação de graças não é simples reconhecimento humano...

 

A mensagem das leituras deste domingo não é, portanto, simples ensina­mento sobre o dever moral do reconhecimento humano.

 

Naaman, o sírio, passa da cura à fé: não reconhece mais outro Deus senão o Deus de Israel (1ª leitura).

 

O leproso do evangelho volta, "louvando a Deus em alta voz". O milagre lhe abriu os olhos para o sentido da missão e da pessoa de Jesus. Dá graças a Deus, não tanto por ter sido satisfeito seu desejo de cura, mas porque compreende que Deus está em Jesus e nele atua. Reconhece que Cristo é o Salvador em quem Deus opera não só a salvação do corpo, mas a do homem todo. Isto é fé. Em Jesus, vê manifestar-se a glória de Deus (evangelho).

 

Por isso, Lucas conclui a narrativa com a palavra de Jesus: "Levanta-te e vai; tua fé te salvou".

 

Salvou-o não só da lepra, mas salvou-o no sentido cristão do termo. A salvação da lepra é apenas sinal de outra salvação.

 

...mas um ato de fé

 

A ação de graças do leproso curado nasce, pois, antes de tudo, da fé e não da utilidade; é contemplação jubilosa e gratuita do amor salvador de Deus, mais do que alegria pela saúde readquirida. Só num segundo tempo inclui o reconhecimento, mas não o simples e cortês agradecimento por um beneficio recebido.

 

O evangelho não nos quer dar uma lição de boas maneiras; quer dizer-nos que a ação de graças é a atitude fundamental do homem que descobriu, na fé, que sua salvação provém só da ação de Deus em Cristo.

 

Gratidão e eucaristia

 

Se gratidão humana e ação de graças divina não se identificam, é porém verdade que há continuidade entre uma e outra.

 

Quando as relações pessoais se baseiam unicamente na utilidade e no prazer é muito difícil abrir-se à contemplação do amor gratuito de Deus. A mentalidade utilitarista e egocêntrica desvirtua os atos religiosos. Se tivermos perdido o senso do gratuito, se só agimos movidos pela esperança de algo ou pelo direito à recompensa, muito provavelmente não poderemos ter a experiência da eucaristia.

 

O homem de hoje precisa descobrir o sentido do receber para abrir-se ao agradecimento. A eucaristia não é tanto uma lei a observar para ter a consciência em dia, nem apenas o alimento da comunhão fraterna. É, como diz o termo, ação de graças sem outra utilidade, sem outro fim senão ela mesma; é a alegria que brota da contemplação do Deus que é grande no amor, que nasce da descoberta de sermos salvos gratuitamente.

 

 

 

Os Dez Leprosos, a Gratidão do Samaritano

 

No Evangelho do próximo domingo, Lc 17, 11-19, o ponto alto da narrativa é a fé do samaritano. O samaritano tem uma fé madura, que nasce da esperança, cresce na obediência à Palavra de Jesus e se manifesta na gratidão. Com isso, ele não só recebe a cura, mas é salvo. Sua vida chega à plenitude, ao reconhecer que, em Jesus, o amor de Deus leva os homens a viver na alegria da gratidão. A vida que Deus dá em Jesus Cristo é gratuita, é graça.

No tempo de Jesus, havia rivalidades entre os habitantes da Samaria (samaritanos) e os judeus. Estes desprezavam aqueles acirradamente. Esse ressentimento era infundado e Jesus quer mostrar que pessoas de bem não são, necessariamente, apenas os judeus. Aqueles de quem não gostamos ou que desprezamos, pode, de repente, ser melhor do que nós.

 

Há várias parábolas em que Jesus coloca o samaritano como aquele que age melhor, que está mais perto de Deus. Somos todos irmãos e precisamos agradecer a Deus, a cada manhã, pela oportunidade de mais um dia de vida.

 

Jesus não quer que desprezemos as pessoas, mas que entendamos que aquele que desprezamos pode nos dar uma lição de vida muito mais bonita do que a que levamos.

 

Os dez leprosos viram-se "curados" da sua doença, mas só um foi "salvo": aquele que, movido pela sua fé, deu glória a Deus e agradeceu a Jesus. São Lucas põe em relevo o fato de o leproso salvo ser um estrangeiro. Como estrangeiro era também Naamã, comandante do exército dos Arameus mas ferido de lepra. Naamã ficou curado quando, obedecendo à palavra do profeta Eliseu, foi lavar-se nas águas do rio Jordão. A Palavra de Deus põe em evidência que "a salvação do Senhor é para todos os povos". O destino universal da salvação e a fidelidade a Israel, que à primeira vista podem parecer em contradição, são na realidade dois aspectos inseparáveis e recíprocos do mesmo mistério salvífico: é precisamente a intensidade e a solidez do amor de Deus pelo povo por Ele escolhido que torna este amor uma "bênção" para todos os povos (cf. Gn 12, 3). A manifestação mais alta disto mesmo está na cruz de Cristo, o máximo sinal da sua dedicação às ovelhas perdidas da Casa de Israel e, simultaneamente, da redenção da humanidade inteira.

 

São Paulo nos diz que, quando ele está fraco, aí é que se torna forte porque é na fraqueza que mais precisamos da graça e da força de Deus. E é então que a recebemos em toda a sua plenitude.

 

No cumprimento das leis e prescrições mosaicas, os leprosos que encontram Cristo param "à distância", sentem-se impuros, fora da convivência humana; quem os toca também ficará impuro. O Senhor cura-os e manifesta-lhes a sua vontade salvífica com as palavras e com dois sinais muito consistentes: estende as mãos e toca-os. Cristo não aceita somente aproximar-se aos leprosos mas estende a sua mão, recebe-os e toca-os. Cristo identifica-se com o leproso, torna-se completamente solidário com eles. Destrói a impureza e a marginalização deles, manifesta a sua plena solidariedade com eles.

 

A solidariedade coincide com a autêntica espiritualidade, ou seja: a ação do Espírito Santo, o amor. O Espírito Santo é o amor de Deus que se faz história na misericórdia solidária do Pai Eterno que nos envia o seu Filho redentor através da sua encarnação pascal. O Espírito Santo é a intercomunicação trinitária infinita no amor. A Terceira Pessoa da Santíssima Trindade mostra-nos a natureza divina de Deus como Amor; um amor que é a entrega total do Pai ao seu Filho e do Filho ao seu Pai que, na sua total dedicação, fazem proceder deles a pessoa Amor, a pessoa Dom, que é o Espírito Santo. Portanto, o Espírito Santo significa a infinita posse pessoal individual tanto do Pai como do Filho em si próprios, posse que o coloca em condição de se poder doar de modo absoluto. Aqui encontra-se a essência da solidariedade. Quando falamos da solidariedade humana, esta é autêntica somente quando é feita à imagem de Deus. O homem torna-se filho de Deus somente através da solidariedade, que significa receber numa doação gratuita plena tudo aquilo que é e doá-lo também sem medida a Deus e aos outros.

 

Somente sob esta luz se pode entender o mistério da solidariedade redentora: de fato, a maior doação que se possa pensar é a doação até à morte: "Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos" (Jo 15, 13). Desta doação, até à morte, o Pai cria a solidariedade da humanidade redimida. Consequentemente, a autêntica solidariedade é aquela a que não importa o risco da perda da vida até ao ponto de poder dar a vida pelos outros. [Dom Eurico dos Santos Veloso, CNBB]