Domingo, 10 de julho de 2011

15º do Tempo Comum, Ano “A”, 3ª Semana do Saltério (Livro III), cor litúrgica Verde

 

 

Hoje: Dia Internacional da Pizza

 

Santos: Bem-Aventurado Pacífico, Francisco Masabki, Maurício; Januário, Filipe, Alexandre, Vital e Marcial (mártires em Roma); Rufina e Segunda (mártires); Leôncio, Maurício e Daniel (Armênia); Bianor, Silvano e Apolônio (Ásia Menor); Alexandre, Emanuel Ruiz, Félix, Marco Ki-Tien-Siang, Vital e Verônica de Gkuliani (virgem franciscana da segunda ordem)

 

Antífona: Contemplarei, justificado, a vossa face; e serei saciado quando se manifestar a vossa gloória. (Sl 16, 15)

 

Oração: Ó Deus, que mostrais a luz da verdade aos que erram para retomarem o bom caminho, daí a todos os que professam a fé rejeitar o que não convém ao cristão e abraçar tudo o que é digno desse nome. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

1ª Leitura: Isaias (Is 55, 10-11)
 A chuva faz a terra germinar

 

Isto diz o Senhor: 10"Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, 11assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la". Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a I Leitura

Fé e esperança na palavra dada por Deus

 

A primeira leitura de hoje faz parte do segundo livro atribuído ao profeta Isaías (Is 40-55). Situado no final do exílio do povo de Deus na Babilônia (587-539), Is 55,10-11 fecha a sua temática, a da consolação, direcionada a um povo sem esperança. O Segundo Isaías lança uma luz no fim do túnel: a palavra de Javé cumpre sua missão, assim como a chuva e a neve que fecundam a terra, fazendo-a germinar e produzindo sementes para o semeador. A imagem é estupenda. Imagine o povo sofrendo no exílio e lembrando-se de sua terra em Canaã, onde, de fato, no verão, tudo é árido, mas, no período das chuvas, tudo renasce com vigor. Para eles, terra é sinônimo de vida. Não por menos o ser humano, Adão (Adam), é aquele que foi tirado da terra (Adamáh). A terra torna-se mãe por causa da água que a engravida (v. 10). A nossa reflexão de hoje tem o seu ponto de partida nessa rica imagem da palavra de Deus que germina a terra, a vida dos exilados sem esperança. É como se o profeta estivesse dizendo: Coragem! Tudo está chegando ao fim. A libertação já não tarda mais. Tenham fé na palavra dada por Deus! [Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011]

 

 

Salmo: 64(65), 10abcd.10e-11.12-13.14   (R/.Lc 8,8) 

A semente caiu em terra boa e deu fruto

 

Visitais a nossa terra com as chuvas, e transborda de fartura. Rios de Deus que vêm do céu derramam águas, e preparais o nosso, trigo.

 

E assim que preparais a nossa terra: vós a regais e aplainais, os seus sulcos com a chuva amoleceis e abençoais as sementeiras.

 

O ano todo coroais com vossos dons, os vossos passos são fecundos; transborda a. fartura onde passais, brotam pastos no deserto.

 

As colinas se enfeitam de alegria, e os campos, de rebanhos; nossos vales se revestem de trigais: tudo canta de alegria!

 

 

II Leitura: Romanos (Rm 8, 18-23)

Participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus

 

Irmãos: 18Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós.

 

19De fato, toda a criação está esperando ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus. 20Pois a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua livre vontade, mas por sua dependência daquele que a sujeitou; 21também ela espera ser libertada da escravidão da corrupção e, assim, participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus.

 

22Com efeito, sabemos que toda a criação, até o tempo presente, está gemendo como que em dores de parto. 23E não somente ela, mas nós também, que temos os primeiros frutos do Espírito, estamos interiormente gemendo, aguardando a adoção filial e a libertação para o nosso corpo. Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a II Leitura

Palavra ratificada pelo Espírito


“Os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se em nós” (v. 18). Essas são as palavras iniciais da reflexão paulina que hoje celebramos. Voltando aos temas da perseguição, sofrimento e desânimo de que falam a primeira leitura e o evangelho de hoje, podemos compreender a ressonância dessa palavra na comunidade de fé. Muitos pregadores, de forma equivocada, fizeram uso dessas palavras para justificar moralmente o sofrimento advindo da condição humana e das injustiças sociais, afirmando que no céu tudo será diferente e que devemos suportar o sofrimento com passividade, sem ao menos lutar por um ser humano e mundo novos.

 

A imagem do sofrimento do parto, associado ao Espírito que intercede por nós, retoma a mesma mensagem de esperança da primeira leitura e do evangelho. A mulher sofre para dar à luz uma nova vida. A mulher é terra, é mãe! A nova comunidade de fé foi gerada pela força da Palavra e será perpetuada pela presença do Espírito. Mas, para que tudo isso aconteça, é preciso que o cristão aja em favor da vida, gerando um novo tempo, sabendo que o tempo futuro, em Deus, será a consequência de sua ação realizada no presente. [Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011]

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 13, 1-23)
Parábola do Semeador

 

1Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galiléia. 2Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso, Jesus entrou numa barca e sentou-se,' enquanto a multidão ficava de pé, na praia.

 

3E disse-lhes muitas coisas em parábolas: "O semeador saiu para semear. 4Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. 5Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. 6Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. 7Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. 8Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. 9Quem tem ouvidos, ouça!"

 

10Os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: "Por que falas ao povo em parábolas?" 11Jesus respondeu: "Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. 12Pois à pessoa que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem será tirado até o pouco que tem. 13E por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não vêem, e ouvindo, eles não escutam nem compreendem. 14Desse modo se cumpre neles a profecia de Isaias: 'Havereis de ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver. 15Porque o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos, nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração, de modo que se convertam e eu os cure'. 16Felizes sois vós, porque vossos olhos vêem e vossos ouvidos ouvem. 17Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram.

 

18Ouvi, portanto, a parábola do semeador: 19Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho. 20A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; 21mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento; quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo. 22A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto. 23A semente que caiu em terra boa é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta". Palavra da Salvação!

 

 

Comentando o Evangelho


Fé nas palavras de esperança, resistência e fé proferidas por Jesus

 

A palavra de Deus, no evangelho deste domingo, chama-se palavra de Jesus, também apresentada na imagem da semente e da terra no conhecido ensinamento de Jesus: a parábola do semeador. Quem já não ouviu, na catequese ou nas homilias, a história de um semeador que saiu a semear? Sementes caíram em quatro lugares diferentes: à beira do caminho, em solo pedregoso, entre espinhos e, por fim, em terra boa, a qual contrasta com os demais. O recurso literário “3 elementos + 1” é usado na poesia hebraica para ressaltar o último, no caso, a terra boa. O que isso significa?

 

A comunidade de Mt 13,1-23 usa também os recursos narrativos parábola e alegoria. Parábola, tradução do substantivo hebraico maxal, significa provérbio, comparação. O grego traduziu maxal por parabolé. A parábola tem a força moral de ensinamento. Jesus, ao falar em parábola, insere-se na mais pura tradição judaica. A parábola fala do cotidiano das pessoas, transformando-o e chamando a atenção para uma problemática, deixando o ouvinte pensativo. Não por menos, os discípulos questionam Jesus pelo fato de ele falar-lhes em parábolas (v. 10-16).

 

A alegoria é o fruto da reflexão que a comunidade produz, tendo em vista o objetivo de encontrar uma solução para os seus problemas, normalmente apresentados em uma parábola. O sentido original de um texto pode ser transformado totalmente na alegoria, o que não constitui um problema para a comunidade. O evangelho de hoje nos apresenta uma parábola e uma alegoria. As alegorias foram usadas em grande escala pelas primeiras comunidades e, na sequência, pelos pais e mães da Igreja. Santo Agostinho alegorizou a parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37) na perspectiva da história da Igreja do seguinte modo: homem caído, Adão; Jerusalém, céu; Jericó, terra; samaritano, sacerdotes da Igreja Católica; hotel, Igreja Católica; hospedeiro, papa; duas moedas, sacramentos do batismo e da confirmação. Vejamos, agora, três modos possíveis de compreender a parábola do semeador.

 

a) Parábola do semeador e sua explicação alegórica segundo o evangelho da comunidade de Mateus. Havia certo desânimo entre os cristãos. Se a promessa do reino feita por Jesus era iminente, como explicar os fracassos e conflitos que os assolavam? Era em torno dos anos 70 da Era Comum. Décadas já haviam passado após a morte de Jesus. Roma havia invadido Jerusalém e destruído o Templo. Os judeus estavam sem referência política e religiosa. A comunidade que escreveu o evangelho de hoje era formada por judeus convertidos à fé cristã. A resposta, atualizada de forma alegórica e posta na boca de Jesus, parece lógica: os cristãos deviam voltar a atenção para o interno da comunidade, para o terreno não da semente, mas de seus corações, e se perguntar sobre o modo como estavam sendo coerentes com a proposta do reino. A parábola ressalta, assim, as dificuldades já previstas por Jesus: superficialidade, simbolizada na semente lançada à beira do caminho; perseguições políticas, representadas na terra pedregosa; deixar-se seduzir pela riqueza e pelas estruturas políticas e econômicas, a semente lançada entre espinhos. Na outra ponta da linha está o exemplo de cristão-terra boa, aquele que compreende a proposta da palavra do reino pregada por Jesus, produz frutos e não desanima nunca.

 

b) Parábola do semeador, sem a explicação alegórica, da comunidade de Tomé. No evangelho apócrifo de Tomé, dito 9, encontramos a parábola do semeador sem a sua alegoria, como no caso de Mateus e Marcos. Esse fato é importante, pois provavelmente Jesus estaria se colocando como contrário ao império romano. A comunidade de Mateus é que, lembrando as palavras de Jesus, busca um conforto espiritual. A parábola do semeador em Tomé pode ser datada antes dos evangelhos, no ano 50 d.C. Muitos camponeses estavam perdendo suas terras férteis, no norte do país – Galileia –, para os apadrinhados políticos do império romano. A comunidade estava preocupada com a expropriação da terra. Muitos se tornavam sem terra e foram obrigados a sair de suas terras e peregrinar em direção às cidades, mais especificamente a Jerusalém, a capital. A comunidade de Tomé procurou, com a parábola do semeador, recordar as palavras fortes de Jesus contra essa situação social inaceitável. Sem querer alegorizar, mas alegorizando, podemos fazer a interpretação de que, nesse caso, o semeador é o sem-terra à beira do caminho, caminhando em direção a Jerusalém; os passarinhos são os romanos oportunistas que comem sem plantar, isto é, recebem de graça a terra fértil da Galileia; os espinhos simbolizam a luta do camponês para sobreviver; semear é o protesto do camponês por não haver terra disponível para plantar; a terra pedregosa é Jerusalém, cidade onde vivem os opressores; a terra boa é o sinal evidente de que “temos terra para plantar”, mas elas nos foram roubadas. A terra é um dom de Deus e não pode ser tirada do povo eleito. O Jesus histórico de Tomé ensina o camponês a resistir contra os falsos donos da terra e denuncia: “Mesmo que estejamos em tempos difíceis, tem semente que brota e produz cem por um! Resistir deve ser a nossa bandeira de luta” (cf. Faria, 2003, p. 108).

 

c) A parábola do semeador na perspectiva judaica do “Shemá” Israel. Em Dt 6,4-9, encontramos a clássica profissão de fé do povo judeu: “Escuta, ó Israel: o Senhor é nosso Deus, o Senhor é um. Portanto, amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força”. Escutar é compreender. Um é o Deus de Israel. Amar é pôr-se no serviço e na missão de santificação, é a tarefa diária de todo judeu. Coração é razão e sentimentos integrados, é o pensar e sentir. Alma é o ser de cada judeu, sua dignidade e a de seu irmão. Força, em hebraico me’od, tem a conotação de posses, dinheiro, poder aquisitivo, e não vigor. Vários textos dos evangelhos releem a ação e a pregação de Jesus à luz do Shemá Israel. Observe como o três aparece em vários momentos. Pedro nega Jesus três vezes. Judas Iscariotes aparece três vezes nos evangelhos etc. Na parábola do semeador, o simples fato de enumerar três coisas já nos remete ao Shemá. O ouvinte, certamente, terá compreendido que Jesus pedia o cumprimento da Torá expresso pelo Shemá. As dimensões do Shemá aparecem no texto do seguinte modo: coração – aqueles que estão à beira do caminho. Quem é superficial não coloca paixão naquilo que faz. A semente semeada será comida pelos pássaros. Quem está à beira do caminho ouve a Palavra e não a entende, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração (v. 19). Alma – aqueles semeiam entre pedregulhos. O amor à Palavra pode exigir até o martírio. Quem tem medo da perseguição não está preparado. Morrer por causa do Reino é conferir dignidade à Palavra semeada. Quem não tem profundidade no seu modo de ser ouve a Palavra, mas, diante da perseguição, logo sucumbe (v. 21). Força (posses) – aqueles que semeiam entre espinhos. Semear entre espinhos significa ter apego aos bens materiais. Quem assim age é sufocado pelo dinheiro. E a Palavra ouvida deixa de dar frutos de vida e esperança. A sedução da riqueza sufoca a Palavra e ela se torna infrutífera (v. 22). Todos ouvem a Palavra, mas nem todos dão fruto em plenitude. Quem produz cem por um ama a Deus de coração, alma e força. Quem produz sessenta por um ama a Deus com o coração e com todas as forças, mas não é capaz de sacrificar a sua alma pelo reino. Quem produz trinta por um ama a Deus somente com o coração. Por outro lado, amar a Deus é amá-lo com minha limitação, naquilo que me é possível. Nisso também está o desafio (cf. Faria, 2001, p. 52-65). [Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011]

 

 

A palavra

 

"Têm boca e não falam" (Si 113 B, 5). Esta sátira dos "ídolos mudos" acentua, por contraste, um dos traços mais característicos do Deus vivo. Ele fala aos homens. Revela-se não só na linguagem silenciosa da natureza e dos sinais das criaturas; "fala" por suas intervenções históricas de salvação e misericórdia, de apelo e castigo. Fala no Antigo Testamento, através dos profetas, seus mediadores privilegiados e seus porta-vozes. Fala-lhes em sonhos e visões (Nm 16.6); revela-se nas inspirações pessoais (2Rs 3,15); a Moisés fala "face a face" (Nm 12,8).

 

Palavra que é experiência de vida

 

No Antigo Testamento, a palavra de Deus é, antes de tudo, um fato, uma experiência: Deus fala diretamente a homens privilegiados e por meio deles a todo o seu povo. A centralidade da palavra de Deus no Antigo Testamento prepara o fato do Novo Testamento, que vem transtornar o mundo, onde esta palavra - o Verbo - se toma carne. As leituras de hoje nos convidam a aprofundar o tema da palavra. Na história da Igreja, as épocas de "aggiornamento" sempre acarretaram uma revalorização da escuta e do confronto com a palavra de Deus.   É  o  que está  acontecendo  hoje.  Prova-o o fervor de obras provocadas pelo Concílio, e o confirma a reforma litúrgica que se esforça por restituir à celebração da palavra o lugar que lhe compete. Hoje ainda, como no tempo de Jesus, é a palavra que convoca e reúne a Igreja, em torno do Pai, e é no aprofundamento da palavra que os cristãos tomam consciência de ser família de Deus, seu novo povo de homens salvos. É também a atitude perante a palavra (indiferença, recusa, desprezo, acolhimento), que define a nossa posição no Reino de Deus (evangelho).

 

Indiferença e não escuta da palavra

 

À atitude de não-escuta ou de rejeição da palavra de Deus no tempo de Jesus, corresponde em nossos dias a de indiferença e incompreensão por parte do homem moderno. As vezes, os pastores, os pregadores e missionários de hoje dão a impressão de estar falando uma língua estrangeira. Os próprios cristãos têm a sensação de que há uma espécie de dissociação entre sua vida de cada dia e a palavra que lhes é anunciada na assembleia eucarística; esta lhes parece demasiado ligada a outros tempos, estática e sem impacto sobre a vida real. Será a palavra de Deus que está sendo questionada? Ou será o mundo e o homem moderno que ainda não conseguiram sintonizar essa palavra?

 

No decorrer dos séculos do cristianismo, a teologia da palavra pôs a tônica quase exclusivamente na proclamação da palavra. A palavra era objeto de uma pregação: um "dado" que deve ser fielmente entregue, transmitido como um depósito precioso. A vida do cristão, sua experiência cotidiana só era vista como um terreno em que a palavra era posta em prática. A experiência, a vida, a existência concreta não eram vistas como "falando", nem como reveladoras de novos aspectos e significados da ­palavra. Deus só falava quando a palavra era proclamada, quando as Escrituras eram lidas e comentadas.

 

O acontecimento como palavra

 

De algum tempo para cá vem se verificando mudança na consideração e na compreensão da palavra de Deus. Descobre-se que o Deus da fé fala antes de tudo no acontecimento, isto é, através da história, da vida vivida pelo povo de Deus, empenhado na aventura única dos homens. Na práxis pastoral, e sobretudo na catequese, a experiência do homem é assumida cada vez mais completamente, não só como instrumento didático ou como suporte psicológico, mas realmente como o lugar privilegiado onde a palavra de Deus se manifesta em toda a sua riqueza e força. Uma catequese entendida como Deus que fala e o homem que escuta, é gradualmente substituída por uma catequese mais encarnada nas situações, mais atenta aos problemas do homem, isto é, mais "antropológica", que poderemos exprimir do seguinte modo: O homem interroga e Deus responde. Dá-se total inversão de perspectivas, em favor de compreensão mais profunda da palavra de Deus. A mensagem deve iluminar a existência. A experiência não é posta a serviço da mensagem para ilustrá-la, mas, antes, a mensagem é utilizada para conferir à existência toda a significação que tem na fé. Só assim a palavra é verdadeiramente anunciada, porque só assim incide profundamente na experiência do homem de hoje. [MISSAL DOMINICAL ©Paulus, 1995]

 

Oração da assembleia (Missal Dominical)

Peçamos ao divino Semeador que abra nosso coração à escuta e ao acolhimento da Palavra de Deus, que a faça crescer, e que no dia da colheita sejamos encontrados com uma medida plena e transbordante. Senhor, ouvi-nos.

Pela santa Igreja de Deus, para que acolha e medite a palavra de Deus e a difunda pela pregação de seus mistérios e o testemunho da vida cristã, rezemos. Senhor, ouvi-nos.

Pela nossa comunidade, para que realize sua vocação de comunidade de culto e de salvação, na escuta responsável da palavra de Deus e na participação ativa da eucaristia, rezemos.

Pelos nossos irmãos separados, para que a escuta e o aprofundamento da mesma palavra de Deus ajudem todas as Igrejas cristãs a reencontrar a unidade pela qual Cristo orou, rezemos.

(outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Acolhei, ó Deus, as oferendas da vossa Igreja em oração e fazei crescer em santidade os fiéis que participam deste sacrifício. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele, diz o Senhor. (Jo 6,56)

 

Oração Depois da Comunhão:

Alimentados pela vossa eucaristia, nós vos pedimos, ó Deus, que cresça em nós a vossa salvação cada vez que celebramos este mistério. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

 

As Parábolas do Reino dos céus

Dom Caetano Ferrari, Bispo de Bauru,SP

 

Jesus gostava de falar ao povo da Galileia usando parábolas. Ele era um comunicador extraordinário, de colocar no banco de reservas os melhores craques da comunicação de hoje. Em meio a um povo que vivia do cultivo da terra, plantando vinhas, trigais, olivais, e pastoreando animais (ovelhas, porcos), e da pesca no mar da Galiléia e no Jordão, o divino Mestre só se comunicava em parábolas magistralmente montadas a partir destes elementos da realidade social, para falar das coisas do Pai. Os profetas do passado, como Isaías, já previram que o Messias Salvador se comunicaria ao povo com parábolas. De acordo com Isaías, Ele falaria assim inclusive para confundir a muitos, segundo estas suas palavras: “Havereis de ouvir sem nada entender. Havereis de olhar sem nada ver”.

 

Lembrando esta profecia, Mateus diz no Evangelho de hoje - Mt 13,1-23 – que Jesus, embora falando a todos, só explicou o sentido das parábolas aos seus mais próximos, como por exemplo, os discípulos, conforme a resposta que Ele deu a eles sobre a pergunta do por que Ele fala ao povo em parábolas?: “Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do reino dos céus, mas a eles não é dado... É por isso que Eu lhes falo em parábolas, porque olhando não veem e, ouvindo, não escutam nem compreendem... Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos, nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração, de modo que se convertam e Eu os cure”.

 

No Evangelho deste domingo e dos próximos, ouviremos de Mateus a série de parábolas geniais inventadas por Jesus. No de hoje, temos a conhecidíssima parábola do Semeador que saiu a semear a semente, algumas caindo à beira da estrada, outras em terreno pedregoso, outras entre os espinhos, todas sem nada produzirem, e, por fim, outras caindo em terra boa, vindo cada semente a produzir na base de 100, 60 e 30.

 

E Jesus explicou o seu sentido somente aos discípulos: “Felizes sois vós porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem”. Quem ouve a palavra do reino e não a compreende, como a que foi semeada à beira do caminho e os pássaros a comeram, é o que a tem roubada de seu coração pelo maligno. Quem a acolhe com alegria, mas logo em seguida desiste da força de seu apelo em face de alguma provação ou sofrimento, é como a que caiu em terreno pedregoso que logo secou e morreu. Quem a recebe com satisfação, mas deixa que as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza a sufoquem, é como a que brotou em meio aos espinhos e asfixiada definhou. Quem, contudo, a ouve e a compreende com todo o coração produz muito fruto, na base de 100, 60 e 30.

 

Nós bem sabemos que o dom da fé, esperança e caridade e da salvação é pura graça de Deus concedida a nós independentemente de nossos méritos. No dizer dos escolásticos: “Gratia gratis data” (graça dada gratuitamente). Explicando a parábola, Jesus deixa claro que o ouvir e o compreender a palavra tem o momento concomitante do acolher ou aceitar a palavra e o do corresponder ou do operar em favor dela. Isto é: do lidar com as tentações do maligno, com as provações do sofrimento e perseguições, com as preocupações do mundo e a ilusão das riquezas. Os escolásticos também diziam que a graça pressupõe o esforço humano e a natureza, não os prescindem, mas os plenificam: “Gratia praesupponit sibi naturam” (a graça pressupõe para si a natureza). Assim sendo, como toda graça é dom e empenho, pela parábola do semeador, Jesus nos pede acolher e compreender a palavra e operar, isto é, trabalhar em seu favor, contra dificuldades, preocupações e tentações. De acordo com o empenho de cada um é que cada semente da palavra produzirá na base de 100, 60 e 30.

 

Este ensinamento da teologia escolástica, o Pe. Kentenich, fundador da Obra Internacional de Schönstatt, o transformou numa singela, mas sábia oração: “Nada sem vós, nada sem nós!” Santo Inácio de Loyola, por sua vez, o expressou de outro modo: “No que tens a fazer, confia em Deus como se tudo dependesse dEle, mas aplica-te no fazer como se tudo dependesse de ti mesmo!”

 

“Quem tem ouvidos ouça!” [Fonte: CNBB]