Domingo, 10 de abril de 2011

V Semana da Quaresma, Ano “A” 1ª Semana do Saltério (II Volume), cor Litúrgica Roxa

 

Santos: Bademo (abade), Mártires trucidados sob os dinamarqueses, Macário de Gand, Fulberto de Chartres (bispo), Paterno de Abdinghof, Antônio Neyrot (beato e mártir), Marcos Fantucci (beato), Miguel dos Santos, Ezequiel, Pompeu, James Oldo (bem aventurado, confessor franciscano da 3ª ordem)

 

Antífona: A mim, ó Deus, fazei justiça, defendei a minha causa contra a gente sem piedade; do homem perverso e traidor libertai-me, porque sois, ó Deus, o meu socorro. (Sl 42, 1-2)

 

Oração do Dia: Senhor nosso Deus, dai-nos, por vossa graça, caminhar com alegria na mesma caridade que levou o vosso Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

I Leitura: Ezequiel (Ez 37,12-14)

Porei em vós o meu espírito para que rivais

12Assim fala o Senhor Deus: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel; 13e quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, sabereis que eu sou o Senhor. 14Porei em vós o meu espírito, para que vivais e vos colocarei em vossa terra. Então sabereis que eu, o Senhor, digo e faço - oráculo do Senhor”. Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a I leitura

Porei o meu Espírito em vós

 

Na tradição judaico-cristã, profecia é tempo de graça: tempo que se faz pleno porque Deus se comunica e interpela seu povo, recordando a sua aliança e demonstrando o seu amor. Ezequiel profetizou junto aos exilados na Babilônia ao redor do ano 580 a.C. O povo encontra-se mergulhado em profunda crise. Está longe da terra que Deus lhes concedeu conforme a promessa feita a Abraão. Sente-se abandonado por Deus e sem esperanças de futuro. A situação realmente parece desesperadora. Nesse pequeno texto, aparece três vezes a palavra “túmulos”. Deus, porém, não se conforma com a morte de ninguém. Por isso, suscita o profeta Ezequiel para anunciar um novo tempo: vai infundir nos exilados o seu Espírito, que lhes dará força e coragem para se reerguerem das cinzas.

 

Em nome de Deus, Ezequiel anuncia um novo êxodo. No primeiro êxodo, Deus libertou o seu povo da escravidão do Egito e lhe deu a terra prometida. Deus também vai livrá-los do domínio da Babilônia e serão reintroduzidos na terra de Israel. O jugo estrangeiro será quebrado, e o povo disperso (parecendo ossos secos espalhados num vale) poderá voltar a se reunir em sua própria terra, onde habitará com segurança. Isso acontecerá pela intervenção gratuita de Deus. Ele desperta para a vida os que se encontram em situação de morte. Faz sair os esqueletos dos seus túmulos. Reanima os “cadáveres ambulantes”. O seu Espírito penetra nos corpos sem vida. O povo disperso e abandonado toma consciência de que é amado por Deus e, por isso, descobre-se como capaz de mobilizar-se para a reconquista da terra de liberdade.. (Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 277, Paulus)

 

 

Salmo: 129 (130),1-2.3-4ab.5-6.7-8 (R.7)

No Senhor, toda graça e redenção!

 

1Das profundezas eu clamo a vós, Senhor, 2escutai a minha voz! Vossos ouvidos estejam bem atentos ao clamor da minha prece!

 

3Se levardes em conta nossas faltas, quem haverá de subsistir? 4Mas em vós se encontra o perdão, eu vos temo e em vós espero.

 

5No Senhor ponho a minha esperança, espero em sua palavra. 6A minh'alma espera no Senhor mais que o vigia pela aurora.

7Espere Israel pelo Senhor, pois no Senhor se encontra toda graça e copiosa redenção. 8Ele vem libertar a Israel de toda a sua culpa.

 

 

II Leitura: Paulo aos Romanos (Rm 8,8-11)

O Espírito daquele que ressuscitou mora em vós

 

8Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus. 9Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus mora em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. 10Se, porém, Cristo está em vós, embora vosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça. 11E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós.Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a II Leitura

Vida nova no Espírito Santo

 

Viver no Espírito de Cristo é o que propõe são Paulo aos romanos. Somente no capítulo 8, aparece mais de 20 vezes a palavra “espírito”. A vida no Espírito Santo contrapõe-se à vida segundo a carne, ou seja, aos instintos egoístas. Toda pessoa carrega dentro de si essas duas tendências, que lutam entre si permanentemente. Aquelas que foram regeneradas em Jesus Cristo estão mergulhadas em seu Espírito. Por isso, possuem a luz e a força do próprio Jesus, que realizou a vontade de Deus e redimiu a humanidade. Ele nos justificou pela graça e nos tornou novas criaturas, participantes de sua natureza divina.

 

Estar com o Espírito de Cristo, porém, não significa anulação da tendência para o pecado. A tensão à santidade deve ser permanente. É uma questão de opção fundamental pelo mesmo modo de pensar e de agir de Jesus. Ele mesmo advertiu que “ninguém pode servir a dois senhores”. Paulo lembra que os cristãos não podem viver segundo a carne e segundo o Espírito ao mesmo tempo. Não se pode viver na liberdade e na escravidão ao mesmo tempo.

 

Na carta aos Gálatas, Paulo escreve: “Foi para sermos livres que Cristo nos libertou” (5,1). Ele nos libertou da escravidão do pecado por pura graça. Portanto, somente na graça de Jesus Cristo vivemos a autêntica liberdade. Somente no Espírito de Jesus nos libertamos da escravidão das obras dos instintos egoístas. E, para não haver dúvidas sobre os dois caminhos que se opõem entre si, Paulo fala a respeito das obras que caracterizam cada um deles. “As obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas... Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (Gl 5,19-23).

 

Uma vez que aderimos, pela fé, a Jesus Cristo, a ele pertencemos e seu Espírito habita em nós. Esse Espírito é o agente das obras que agradam a Deus. Podemos, então, contar com a plenitude de sua graça. Assim, morremos para as obras do egoísmo e permanecemos na vida. Pois o mesmo “Espírito daquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dá a vida aos nossos corpos mortais”. Temos a graça de viver desde agora a vida eterna, pois em Cristo fomos divinizados. (Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 277, Paulus)

 

 

Evangelho: João (Jo 11, 1-45) ou a forma breve: Jo 11, 3-7.17.20-27.33-45

Eu sou a ressurreição e a vida

 

1Havia um doente, Lázaro, que era de Betânia, o povoado de Maria e de Marta, sua irmã. 2Maria era aquela que ungira o Senhor com perfume e enxugara os pés dele com seus cabelos. O irmão dela, Lázaro, é que estava doente. 3As irmãs mandaram então dizer a Jesus: 'Senhor, aquele que amas está doente.' 4Ouvindo isto, Jesus disse: 'Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.' 5Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro. 6Quando ouviu que este estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. 7Então, disse aos discípulos: 'Vamos de novo à Judéia.'

 

8Os discípulos disseram-lhe: Mestre, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?' 9Jesus respondeu: 'O dia não tem doze horas? Se alguém caminha de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. 10Mas se alguém caminha de noite, tropeça, porque lhe falta a luz'. 11Depois acrescentou: 'O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo.' 12Os discípulos disseram: 'Senhor, se ele dorme, vai ficar bom.' 13Jesus falava da morte de Lázaro, mas os discípulos pensaram que falasse do sono mesmo. 14Então Jesus disse abertamente: 'Lázaro está morto. 15Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos para junto dele'. 16Então Tomé, cujo nome significa Gêmeo, disse aos companheiros: 'Vamos nós também para morrermos com ele'. 17Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias. 18Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém. 19Muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. 21Então Marta disse a Jesus: 'Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele to concederá.' 23Respondeu-lhe Jesus: 'Teu irmão ressuscitará.' 24Disse Marta: 'Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia.'25Então Jesus disse: 'Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?' 27Respondeu ela: 'Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo.'

 

28Depois de ter dito isto, ela foi chamar a sua irmã, Maria, dizendo baixinho: 'O Mestre está aí e te chama'. 29Quando Maria ouviu isso, levantou-se depressa e foi ao encontro de Jesus. 30Jesus estava ainda fora do povoado, no mesmo lugar onde Marta se tinha encontrado com ele. 31Os judeus que estavam em casa consolando-a, quando a viram levantar-se depressa e sair, foram atrás dela, pensando que fosse ao túmulo para ali chorar. 32Indo para o lugar onde estava Jesus, quando o viu, caiu de joelhos diante dele e disse-lhe: 'Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido.'

 

33Quando Jesus a viu chorar, e também os que estavam com ela, estremeceu interiormente, ficou profundamente comovido, 34e perguntou: 'Onde o colocastes?' Responderam: 'Vem ver, Senhor.' 35E Jesus chorou. 36Então os judeus disseram: 'Vede como ele o amava!' 37Alguns deles, porém, diziam: 'Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?' 38De novo, Jesus ficou interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma caverna, fechada com uma pedra. 39Disse Jesus: 'Tirai a pedra'! Marta, a irmã do morto, interveio: 'Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias.' 40Jesus lhe respondeu: 'Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?' 41Tiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: 'Pai, eu te dou graças porque me ouviste. 42Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste.' 43Tendo dito isso, exclamou com voz forte: 'Lázaro, vem para fora!' 44O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano. Então Jesus lhes disse: 'Desatai-o e deixai-o  caminhar!' 45Então, muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele. Palavra da Salvação!

 

 

Comentando o Evangelho

Jesus é a ressurreição e a vida


A narrativa da ressurreição de Lázaro corresponde ao último dos sete sinais de libertação realizados por Jesus no Evangelho de João. Os relatos dos sete sinais procuram levar os cristãos a refletir sobre o sentido profundo dos fatos da vida humana: a falta de vinho numa festa de casamento (2,1-12), a doença do filho de um funcionário real (4,46-54), o paralítico à beira da piscina de Betesda (5,1-18), a fome do povo (6,1-15), o barco dos discípulos ameaçado pelas águas do mar (6,16-21), o cego de nascença (9,1-41) e, finalmente, a morte de Lázaro. Todos eles visam apresentar Jesus como o Messias que veio para resgatar a vida plena para os seres humanos. Em cada sinal, percebe-se um propósito pedagógico: a representação de um caminho novo apontado por Jesus para derrubar todas as barreiras que impedem a pessoa de realizar-se plenamente.

 

Jesus é o “Bom Pastor” que dá a vida por suas ovelhas (cf. 10,11). Ele é o verdadeiro caminho para a vida com dignidade e liberdade, vencendo as causas de todos os males. Vence a própria morte: é a vida definitiva. Somente os que creem em Jesus, com convicção, compreendem e acolhem essa verdade. Portanto, a finalidade principal dos sinais é levar os discípulos à fé autêntica. Ao informar que Lázaro havia morrido e, por isso, iria ao seu encontro, Jesus diz aos discípulos: “É para que vocês creiam” (11,15). Também lemos no final do evangelho: “Jesus fez ainda muitos outros sinais, que não se acham escritos neste livro. Esses, porém, foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham a vida em seu nome” (20,30-31).

 

As personagens que aparecem no relato – Marta, Maria e os judeus – refletem diferentes concepções a respeito de Jesus. Primeiramente, podemos observar o comportamento de Marta. Sabendo que Jesus chegara a Betânia, “saiu ao seu encontro” e a ele se dirigiu, chamando-o pelos títulos cristológicos de “Senhor” e “Filho de Deus”. Diante da promessa da ressurreição, declara-lhe convictamente sua fé: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que vem ao mundo”. E vai anunciar à sua irmã Maria, que, por sua vez, imediatamente segue ao encontro de Jesus, mas não consegue declarar a fé nele como fez Marta. Está ainda angustiada e paralisada diante da realidade da morte. Já os judeus apenas seguem Maria, sem ter consciência de ir ao encontro de Jesus e muito menos fazer-lhe alguma confissão de fé.

 

São três modos de comportar-se diante de Jesus. O comportamento de Marta é o retrato das pessoas de fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus, Salvador da humanidade. Para os que acreditam nele, a ressurreição é uma realidade não apenas para o futuro, mas para o presente. Toda atitude em favor da vida é sinal de ressurreição e gesto de glorificação a Deus, criador e libertador.

 

Os autores do evangelho fazem questão de mostrar o rosto humano de Jesus. Ele participa da dor das pessoas que sofrem, comove-se e chora. Sua comoção, porém, pode ser traduzida como impaciência com a falta de fé tanto de Maria como dos judeus. E, para além das lamentações, Jesus reza ao Pai para que, diante desse sinal definitivo da ressurreição, “eles acreditem” nele como enviado de Deus.

 

Lázaro (cujo nome significa “Deus ajuda”) está enterrado há quatro dias. O “quarto dia” refere-se ao tempo depois da morte de Jesus; é o tempo das comunidades que creem em Jesus morto e ressuscitado. Portanto, é o tempo da graça por excelência, que deve ser vivido de forma totalmente nova. Lázaro e as comunidades cristãs são chamados a sair dos túmulos do medo, da acomodação, do egoísmo e da tristeza; são chamados a “desatar-se” das amarras dos sistemas que oprimem e matam. As pessoas de fé autêntica, seguidoras de Jesus, são verdadeiramente livres. O “quarto dia” é o tempo da ressurreição, dom de Deus. (Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 277, Paulus)

 

Oração da assembleia (Missal Dominical)

Deus nos criou para a vida e não para a morte. Viemos dele, vivemos nele, viveremos para sempre nele. Peçamos-lhe com confiança: Senhor, dai-nos a vida!

 

-Para que creiamos com todas as nossas forças numa vida mais plena para além da morte, rezemos ao Senhor.

-Para que os esforços dos homens de ciência por prolongar e melhorar a vida sejam sempre inspirados no bem da pessoa toda, rezemos ao Senhor.

-Para os que estão espiritualmente mortos, por desânimo, pelos sofrimentos ou pelos hábitos de pecado, a fim de que redescubram o gosto da vida e da vida na fé, rezemos ao Senhor.

-Outras intenções

 

Prefácio (Lázaro):

Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, em todo lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso. Verdadeiro homem, Jesus chorou o amigo Lázaro. Deus vivo e eterno, ele o ressuscitou, tirando-o do túmulo. Compadecendo-se da humanidade, que jaz na morte do pecado, por seus sagrados mistérios ele nos eleva ao reino da vida nova. Enquanto esperamos a glória eterna, com os anjos e com todos os santos, nós vos aclamamos, cantando (dizendo) a uma só voz:

 

Oração sobre as Oferendas:

Deus todo-poderoso, concedei aos vossos filhos e filhas que, formados pelos ensinamentos da fé cristã, sejam purificados por este sacrifício. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Antífona da comunhão:

Todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre, diz o Senhor. (Jo 11,26)

 

Oração Depois da Comunhão:

Concedei, ó Deus todo-poderoso, que sejamos sempre contados entre os membros de Cristo, cujo Corpo e Sangue comungamos. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Dom Aldo Pagotto

Arcebispo Metropolitano da Paraíba - PB

 

A bênção, João de Deus! Seis anos se passaram de sua partida, após 26 anos de serviço incansável à humanidade, na tentativa de reconstrução da civilização cristã. João Paulo II foi um líder espiritual reconhecido mundialmente pelo seu estilo ecumênico, aberto à colaboração para a superação dos males sociais que ameaçam a vida das pessoas e dos povos. Preposto à Igreja que tanto amou, dispôs-se a edificar a civilização do amor, da justiça e da paz entre os povos.

 

Sua intuição sobre a missão específica da Igreja no mundo moderno foi de serviçal humanitária, não de instituição mantenedora de um poder temporal, reprodutora de esquemas de defesa e engrandecimento de si mesma. Seu ardor missionário codifica nas inúmeras viagens pelas terras próximas e longínquas. Voltava-se ao diálogo entre a razão e a fé, entre as filosofias filhas da pós-modernidade e as novas formas de manifestação de espiritualidade e estilos místicos característicos da pluralidade hodierna.

 

Foi do agrado do Pai confiar ao dileto pastor os desígnios misteriosos de transformação histórica. Karol Wojtila viveu os transtornos deletérios do nazismo sucedido pelo comunismo. Com seu povo viveu na própria pele as contradições dos regimes totalitários, que se julgaram acima da liberdade inalienável dos seres humanos. Esses regimes de governo fracassaram, após a dizimação de milhares de pessoas, famílias, povos, culturas.

 

Os horrores da guerra favoreceram a formação do caráter do varão resistente ao ódio e às lutas fratricidas, baseadas em ideologias que servem tão somente para desconstruir e desestabilizar a pessoa e a sociedade.

 

Ele dedicou toda a sua vida à regeneração do tecido social em base à instituição familiar. Seus ensinos e práticas contemplam as dimensões pertinentes à identidade, vida e missão da Igreja, como se ampliam às bases constitutivas da vida e da sociedade, com forte acento no humanismo cristão.

 

Seu programa apostólico desenvolveu-se em função da verdade sobre Jesus Cristo, sobre a Igreja e sobre o homem. Seu lema “totus tuus” refere-se ao sentimento de filial pertença a Maria, Mãe de Jesus, sublinhando o que sempre viveu, ou seja, a ternura maternal com a firmeza indomável do apóstolo da fé e da justiça. A trajetória de João de Deus é perscrutada, analisada, comentada por cientistas, historiadores, políticos, antropólogos, sociólogos, espiritualistas.

 

João de Deus é respeitado e admirado não apenas por católicos, mas por representantes dos povos e dos mais variados segmentos da sociedade. Tido como uma espécie de conselheiro experiente, todos enxergam nele os misteriosos desígnios de Deus. Como um profeta da verdade, incomodou e continuará a desinstalar a muitos de suas certezas particulares.

 

João Paulo II se comprometeu com a formação de lideranças para enfrentar a mudança de época histórica, em curso. Exercia um fascínio inexplicável sobre pessoas e multidões. Seu segredo? Amar de verdade. 

 

João de Deus inovou com seus braços abertos a crianças e pessoas idosas, afagando-as, beijando o chão das terras em suas inúmeras visitas. Para ele não há estrangeiro. Amou a pátria de todos como a sua (Polônia). Deus o dotou de dons inestimáveis. João de Deus é santo porque obrou o milagre de levar as pessoas a acreditarem na força transformadora do amor do Pai. [CNBB]