Domingo, 8 de janeiro de 2012

Epifania do Senhor, Ofício da Solenidade, Leituras para os anos A, B e C, cor litúrgica

 

Hoje: Dia Nacional do Fotógrafo e dia da Fotografia, Dia da Liberdade de Culto, Dia da Gratidão

 

Santos: Alderico de Le Mans (bispo), Anastácio de Sens (bispo), Canuto Layard (rei, mártir), Clero (diácono, mártir da África), Crispim de Pavia (bispo), Emílio de Saujon (monge), Félix e Januário (mártires de Heracléia), Juliano de Cagliari (mártir), Luciano de Antioquia (presbítero, mártir), Nicetas de Rémésiana (bispo), Reinaldo de Colônia (monge, mártir), Teodoro do Egito (eremita), Tilo de Solignac (abade), Valentim de Rhaetua (bispo), Eduardo Waterson (mártir, bem-aventurado)

 

Antífona: Eis que veio o Senhor dos senhores, em suas mãos o poder e a realeza. (Ml 3,1; 1Cr 19,12)

 

Oração: Ó Deus, que hoje revelastes o vosso Filho às nações, guiando-as pela estrela, concedei aos vossos servos e servas que já vos conhecem pela fé, contemplar-vos um dia face a face no céu. Por nosso Senhor Jesus, a unidade do Espírito Santo.

 

 

A liturgia do dia: A festa da Epifania é a grande convocação que Deus faz, a fim de que todas as nações e raças encontrem forças para tornar humano e fraterno o nosso mundo. Essa é, no fundo, a expectativa de Deus que transparece em toda a Bíblia. Mas é em Jesus que ela toma corpo e forma, aparecendo como proposta oferecida a todos. Contudo, a ganância e o desejo de poder – presentes no Herodes do tempo de Jesus e nos Herodes de todos os tempos – tentam sufocar essa esperança. Porém, os homens de boa vontade têm uma “estrela”, não cessam de “sonhar” um caminho alternativo, que não passa pelos poderosos, mas nasce do menino-pastor. Essa caminhada é cheia de dificuldades, mas é Deus quem a ilumina, gerando forças e vida nova.

 

 

I Leitura: Isaías (Is 60, 1-6)

A reconstrução gloriosa de Jerusalém

 

1Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor. 2Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. 3Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora. 4Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços. 5Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte, pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações; 6será uma inundação de camelos e dromedários de Madiá e Efa a te cobrir; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a glória do Senhor. Palavra do Senhor!

 

Comentando a I Leitura

Cristo aparece como “luz” cheia do mistério de Deus


Como foi recordado na 1ª leitura da noite de Natal, o profeta Isaías (9,1) anunciou nova luz para a Galileia, região despovoada pelas deportações praticadas pelos assírios em 732 a.C. Duzentos anos depois, o “Terceiro Isaías” retoma a imagem da luz. Aplica-a à Sião (Jerusalém) e ao povo de Judá, que acaba de voltar do exílio babilônico e está iniciando a reconstrução da cidade e do Templo (Is 60,1). Jerusalém, restaurada depois do exílio babilônico, é vista como o centro para o qual convergem as caravanas do mundo inteiro. O profeta anuncia a adoração universal em Jerusalém. Enquanto as nações estão cobertas de nuvens escuras, a luz do Senhor brilha sobre Jerusalém. Esqueçam-se a fadiga e o desânimo, pois Deus está perto. As nações devolvem a Jerusalém seus filhos e filhas que ainda vivem no estrangeiro, e estes oferecem suas riquezas ao Deus que realmente salva seu povo. Quinhentos anos depois, os magos (sábios, astrólogos) vindos do Oriente darão um sentido pleno e definitivo ao texto de Isaías: a eles o Cristo aparece como “luz” cheia do mistério de Deus. [Pe. Johan Konings, sj, Vida Pastoral n.282, Paulus]

 

 

Salmo: 71(72), 2.7-8.10-11.12-13 (+ 11)
As nações de toda a terra hão de adorar-vos, ó Senhor!

 

1Dai ao Rei vossos poderes, Senhor Deus, vossa justiça ao descendente da realeza! 2Com justiça ele governe o vosso povo, com eqüidade ele julgue os vossos pobres.

7Nos seus dias a justiça florirá e grande paz, até que a lua perca o brilho! 8De mar a mar estenderá o seu domínio, e desde o rio até os confins de toda a terra!

 

10Os reis de Társis e das ilhas hão de vir e oferecer-lhe seus presentes e seus dons; e também os reis de Seba e de Sabá hão de trazer-lhe oferendas e tributos. 11Os reis de toda a terra hão de adorá-lo, e todas as nações hão de servi-lo.

 

12Libertará o indigente que suplica, e o pobre ao qual ninguém quer ajudar 13Terá pena do indigente e do infeliz, e a vida dos humildes salvará.

 

 

II Leitura: Carta de Paulo aos Efésios (Ef 3, 2-3a.5-6)

A manifestação do mistério de Deus

 

Irmãos: 2Se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito, 3ae como, por revelação, tive conhecimento do mistério. 5Este mistério Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: 6os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho. Palavra do Senhor!

 

Comentando a II Leitura

Os gentios são chamados à paz messiânica

 

As promessas do Antigo Testamento dirigem-se ao povo de Israel. Deus, porém, vê as promessas feitas a Israel num horizonte bem mais amplo. Seu plano é universal e inclui todos os povos, judeus e gentios. Os antigos profetas já tinham certa visão disso, mas os judeus do ambiente de Paulo apóstolo não pareciam percebê-lo. Paulo mesmo havia aprendido com surpresa a revelação do grande mistério, de que também os gentios são chamados à paz messiânica. Essa revelação, ele a assume como sua missão pessoal, a fim de levar a boa-nova aos gentios. [Pe. Johan Konings, sj, Vida Pastoral n.282, Paulus]

 

Leia o Sermão da Epifania (1662) de Pe. Antônio Vieira em:

http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/BT2803065.html

 

Evangelho: Mateus (Mt 2, 1-12)

Quando entraram na casa viram o menino com Maria

 

1Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, 2perguntando: "Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo". 3Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém. 4Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer. 5Eles responderam: "Em Belém, na Judéia, pois assim foi escrito pelo profeta: 6E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo". 7Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido. 8Depois os enviou a Belém, dizendo: "Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo".

 

9Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. 10Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande. 11Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra. 12Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho. Palavra da Salvação!

 

Comentando o Evangelho

A chegada dos magos do Oriente

 

O evangelho narra a chegada dos magos do Oriente que querem adorar o Messias recém-  -nascido, cujo astro eles viram brilhar sobre Jerusalém (cf. 1ª leitura). A chegada dos magos e sua volta constituem a moldura (inclusão) dessa narrativa, cujo centro é a estupefação de Herodes e de toda a cidade por causa da notícia que os magos trazem. O ponto alto é a busca, pelos escribas, de um texto que aponte para esse fato. O texto em questão é Miqueias 5,1: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”. Informado pelos escribas, Herodes encaminha os magos para adorarem o recém-nascido em Belém e informá-lo para que ele também vá (Belém fica a oito quilômetros de Jerusalém). O narrador, entretanto, deixa prever a má-fé de Herodes, que planeja matar os meninos recém-nascidos da região, tema que será desenvolvido no próximo episódio de Mateus, igualmente construído em torno de uma citação do Antigo Testamento. No novo povo de Deus, não importa ser judeu ou gentio, importa a fé. O Evangelho de Mateus termina na missão de evangelizar “todas as nações” (28,18-20), e desde o início os “magos” prefiguram essa missão universal. Os doutores de Jerusalém, ao contrário, sabiam, pelas Escrituras, onde devia nascer o Messias – em Belém, a poucos quilômetros de Jerusalém –, mas não tinham a estrela da fé para os conduzir. [Pe. Johan Konings, sj, Vida Pastoral n.282, Paulus]

 

Esse episódio nos recorda que é grave engano supor que a salvação e a vida venham dos poderosos. Ao se aliar com eles, a Igreja se torna cúmplice de seus projetos de morte. Os magos, ao tomar rumo novo, apontam para a novidade que nos espera e desafia no campo da evangelização.

 

Igreja Cristo se revela a todos os povos

 

Entre todas as orientações que o Concílio Vaticano II encaminhou ou pôs em relevo, uma das mais importantes e significativas é indubitavelmente o apelo à unidade fundamental da família humana (cf, por ex., GS 24; 26; 27).

 

Visando ao universalismo

A humanidade tende a um universalismo até agora nunca atingido e que produzirá um novo tipo de homem, cuja cultura não será mais limitado à da sua civilização e cujos meios técnicos serão patrimônio de todos. Este dinamismo impressionante é tão característico da esperança contemporânea, que os que manifestam exclusivismo racial, nacional ou cultural são considerados ultrapassados.

 

Mas de que meios dispõe a humanidade para atingir este sonho? Experimentam-se muitos métodos que têm certa parte de verdade e eficácia, mas que acarretam muitos problemas. Convirá recorrer à força?  A experiência de Grandes impérios baseados universal do trabalho e  da  técnica? Mas na violência nos põe de sobreaviso contra ela. Convém confiar na consciência princípios de direito, de cultura etc., nos quais se baseia essa consciência para realizar a unificação do mundo, serão verdadeiramente os mais profundos? Não menosprezam deliberadamente um elemento irredutível, a pessoa? E o cristão? Não terá uma palavra a dizer? Segundo a Escritura, o primeiro homem que acreditou no universalismo foi Abraão, o pai das nações. Deus lhe prometeu que estas, um dia, estariam reunidas na sua descendência, e o patriarca acreditou; foi o primeiro ato de fé feito por um homem.

 

Os povos caminharão à tua luz

Israel recebeu a missão de reunir todos os povos na descendência de Abraão e de realizar assim a promessa do universalismo. Israel acreditou, erroneamente, poder formar essa unidade com certo numero de práticas particulares: a lei, o sábado, a circuncisão. Só a fé de Abraão teria sido capaz de reunir todos os pagãos, e os judeus não souberam desligá-la de suas práticas legais.

 

O anúncio de um novo povo de Deus, de dimensões universais, prefigurado e preparado no povo eleito, realiza-se plenamente em Jesus Cristo, para quem converge e que recapitula todo o plano de Deus (Ef 1,9-1 0). Nele, tudo o que estava dividido encontra de novo a unidade (2ª leitura).

 

Convocando os magos do Oriente, Jesus começa a reunir os povos, a dar unidade à grande família humana, que se realizará plenamente quando a fé em Jesus Cristo fizer cair as barreiras existentes entre os homens, e na unidade da fé todos se sentirão filhos de Deus, igualmente redimidos e irmãos (evangelho).

 

Este novo povo é a Igreja, comunidade dos que creem; ela realiza e testemunha, através dos séculos, o chamado universal de todos os homens à salvação, pela obra unificadora de Cristo. É significativa a visão final do Novo Testamento (Ap 7,4-12; 15,34; 21,24-26): uma multidão de raças, povos e línguas, que saúdam a Deus, orei das nações, e que habitarão a nova Jerusalém, onde a família humana encontrará a unidade.

 

Há sempre uma estrela no céu

Todo discurso sobre a "unidade”, em qualquer campo, corre facilmente o risco de ser mal compreendido. Frequentemente se entende por unidade uma uniformidade monótona, a anulação de todas as diferenças individuais, um total nivelamento. Inaugura-se assim um sistema de simples rótulos e simples exclusão. Quem não se adapta à medida geral é rotulado como extremista, reacionário ou herege. No entanto, a diversidade e a variedade dos caracteres das nações são a riqueza da humanidade. Também o fato de ser a Igreja una e universal não impede que possam coexistir em seu seio "diversos modos - de viver a única fé. Durante muito tempo esteve a Igreja ligada ao mundo cultural ocidental e ao homem branco, a ponto de reduzir-se o cristianismo a imagens e categorias mentais tipicamente europeias; mas a Igreja de Cristo não pode ser branca, negra nem amarela, como não pode ser proletária, burguesa ou capitalista; suas portas estão abertas a todos. O cristão autêntico não pode refutar aprioristicamente a novidade ou a originalidade por si mesmas, mas deve antes verificar se não são elas apenas uma nova dimensão da fé no único Cristo. Muitas experiências atuais, que às vezes escandalizam os defensores da uniformidade (não da unidade), são o sinal do vigor da vida da Igreja. Cristo nos dá o sentido de tudo: Ama a Deus com todo o teu coração; amai-vos como eu vos amei (cf Mc 12,30; Jo 13,34). Aqui encontramos o sentido e a direção: essa é a estrela que devemos seguir para atingir nosso autêntico e único centro de unidade. [Missal Cotidiano, ©Paulus, 1995]

 

 

Palavra se faz oração (Missal Dominical)

Deus quer iluminar a humanidade com a palavra e a pessoa de seu Filho Jesus. Na fé que recebemos em nosso batismo, roguemos ao Senhor: Venha o vosso reino, Senhor.

-Pela Santa Igreja, para que, iluminada pelo cristo Senhor, leve a luz do evangelho a todos os homens e cumule a esperança dos povos rezemos ao Senhor.

-Pelos povos do mundo inteiro, para que se incremente tudo o que contribui para o entendimento e a fraternidade universal e os governos procurem sobretudo os interesses da justiça e da paz, rezemos ao Senhor.

-Pela nossa comunidade, para que não seja só praticante mas tenha fé, e saiba reconhecer nos sinais dos tempos a vontade do Senhor, rezemos ao Senhor.

-Pelos homens da ciência, para que encontrem o Deus vivo e verdadeiro, que dará pleno sentido às suas pesquisas e à sua vida, rezemos ao Senhor.

(Outras intenções)

 

Ó Pai, alargai nossa oração às dimensões do mundo que quereis salvar; tornai-nos solidários com as aspirações de todos os homens, particularmente as dos irmãos na fé, em Cristo nosso Senhor.

 

 

Oração sobre as Oferendas:

Ó Deus, olhai com bondade as oferendas da vossa Igreja, que não mais vos apresenta outro, incenso e mirra, mas o próprio Jesus Cristo, imolado e recebido em comunhão nos dons que o simbolizam. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Vimos a sua estrela no Oriente, e viemos com presentes adorar o Senhor. (Cf Mt 2,2)

 

Depois da Comunhão:

Ó Deus, guiai-nos sempre e por toda parte com a vossa luz celeste, para que possamos acolher com fé e viver com amor o mistério de que nos destes participar. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Reis Magos

 

Enquanto no Oriente a Epifania é a festa da Encarnação, no Ocidente se celebra com esta festa a revelação de Jesus ao mundo pagão, a verdadeira Epifania. A celebração gira em torno à adoração à qual foi sujeito o Menino Jesus por parte dos três Reis Magos (Mt 2 1-12) como símbolo do reconhecimento do mundo pagão de que Cristo é o salvador de toda a humanidade.

 

De acordo com a tradição da Igreja do século I, estes magos são como homens poderosos e sábios, possivelmente reis de nações ao leste do Mediterrâneo, homens que por sua cultura e espiritualidade cultivavam seu conhecimento do homem e da natureza esforçando-se especialmente para manter um contato com Deus. Da  passagem bíblica sabemos que são magos, que vieram do Oriente e que como presente trouxeram incenso, ouro e mirra; da tradição dos primeiros séculos nos diz que foram três reis sábios: Belchior, Gaspar e Baltazar. Até o ano de 474 d.C seus restos estiveram na Constantinopla, a capital cristã mais importante no Oriente; em seguida foram trasladados para a catedral de Milão (Itália) e em 1164 foram trasladados para  a cidade de Colônia (Alemanha), onde permanecem até nossos dias.

 

Trazer presentes às crianças no dia 6 de janeiro corresponde à comemoração da generosidade que estes magos tiveram ao adorar o Menino Jesus e trazer-lhe presentes levando em conta que "o que fizerdes a cada um destes pequenos, a mim o fazeis" (Mt. 25, 40); às crianças fazendo-lhes viver formosa e delicadamente a fantasia do acontecimento e aos adultos como mostra de amor e fé a Cristo recém nascido.

 

A arqueologia faz revelações

sobre os Reis Magos

 

Os Reis Magos não são personagens criados por séculos de tradição cristã. Sua existência, além de estar bem testemunhada no Evangelho, agora é documentada pelas descobertas arqueológicas.

 

Esta curiosa e extraordinária revelação encontra-se contida em um tabuinha, na qual foram acunhados caracteres cuneiformes. Trata-se de um autêntico documento astronômico e astrológico (então as duas ciências eram irmãs gêmeas) que revela a existência de uma conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Piscis no ano 7 antes de Cristo.

 

Os Evangelhos marcam o nascimento de Jesus em tempos do censo do império ordenado por César Augusto, quando Quirino era governador da Síria, e nos últimos anos do rei Herodes, que faleceu no mês de março do ano 4 a.C. Para os historiadores, Jesus nasceu uns sete anos antes do ano zaro. O evangelista Mateus (2, 2) relaciona o evento de Belém com a aparição de uma estrela particularmente luminosa no céu da Palestina. E é precisamente neste momento em que na tabuinha de argila oferece um testemunho particular.

 

Existem muitas hipóteses sobre a estrela que os magos viram ("magoi" em grego era a palavra com que se denominava à casta de sacerdotes persas e babilônios que se dedicavam ao estudo da astronomia e da astrologia) e que os levou a enfrentar uma viagem de uns mil quilômetros com o objetivo de prestar homenagem a um recém nascido.

 

Em 17 de dezembro de 1603, Johannes Kepler, astrônomo e matemático da corte do imperador Rodolfo II de Habsburgo, ao observar com um modesto telescópio do castelo de Praga a aproximação de Júpiter e Saturno na constelação de Piscis, perguntou-se pela primeira vez se o Evangelho não se referia precisamente a esse mesmo fenômeno.  Foram feitos grandes  cálculos até descobrir que uma conjunção deste tipo ocorreu no ano 7 a.C. lembrou também que o famoso rabino e escritor Isaac Abravanel (1437-1508) havia falado de um influxo extraordinário atribuído pelos astrólogos hebreus àquele fenômeno: o Messias tinha que aparecer durante uma conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Piscis. Kepler falou em seus livros de sua descoberta, mas a hipótese caiu no esquecimento perdida entre seu imenso legado astronômico.

 

Faltava uma demonstração científica clara. Chegou em 1925, quando o erudito alemão Pe Schnabel decifrou anotações neobabilônicas de escritura cuneiforme gravadas em uma tábua encontrada entre as ruínas de um antigo templo do sol, na escola de astrologia de Sippar, antiga cidade localizada na confluência do Tigre e do Eufrates, a uns cem quilômetros ao norte da Babilônia. A tabuinha encontra-se agora no Museu estadual de Berlim.

 

Entre os vários dados de observação astronômica sobre os dois planetas, Schnabel encontra na tábua um dado surpreendente: a conjunção entre Júpiter e Saturno na constelação de Piscis ocorreu no ano 7 a.C., em três ocasiões, durante poucos meses: de 29 de maio a 8 de junho; de 26 de setembro a 6 de outubro; de 5 a 15 de dezembro. Além disso, segundo os cálculos matemáticos, esta tripla conjunção pôde ser vista com grande claridade na região do Mediterrâneo.

 

Se esta descoberta se identifica com a estrela de Natal da qual fala o Evangelho de Mateus, o significado astrológico das três conjunções torna sumamente verossímil a decisão dos Magos de empreender uma longa viagem até Jerusalém para encontrar o Messias recém nascido. Segundo explica o prestigioso catedrático de fenomenologia da religião da Pontifícia Universidade Gregoriana, Giovanni Magnani, autor do livro “Jesus, construtor e mestre” (“Gesú costruttore e maestro, Cittadella, Asís, 1997), “na antiga astrologia, Júpiter era considerado como a estrela do Príncipe do mundo e a constelação de Piscis como o sinal do  final dos tempos. O planeta Saturno era considerado no Oriente a estrela da Palestina. Quando Júpiter se encontra com Saturno na constelação de Piscis, significa que o Senhor do final dos tempos aparecerá neste ano na Palestina. Com esta expectativa chegam os Magos a Jerusalém, segundo o Evangelho de Mateus 2,2”. “Onde está o Rei dos judeus que nasceu? Pois vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” perguntam os magos aos habitantes de Jerusalém e depois a Herodes.

 

A tripla conjunção dos dois planetas na constelação de Piscis explica também a aparição e a desaparição da estrela, dado confirmado pelo Evangelho. A terceira conjunção de Júpiter e Saturno, unidos como se fosse um grande astro, ocorreu de 5 a 15 de dezembro. No  crepúsculo, a intensa luz podia ser vista ao olhar para o  Sul, de modo que os Magos do Oriente, ao caminhar de Jerusalém a Belém, a tinham diante de si. A estrela parecia se mover, como explica o Evangelho, “diante deles” (Mt 2, 9). [ACI DIGITAL]

 

 

Os lados, histórico e bíblico, dos magos[1]

Fernando Armellini

Os Magos sempre desfrutaram de muita popularidade; é suficiente, para comprovar isso, notar que 150 anos após o nascimento de Cristo, começa a ser reproduzida a figura deles nos cemitérios cristãos.

 

Os cristãos nunca se sentiram satisfeitos com as escassas informações encontradas no Evangelho. Faltam muitos detalhes: De onde vinham? Quantos eram? Qual era o nome deles? Qual o meio de transporte que usaram? O que fizeram depois que voltaram à sua terra? Onde estão enterrados?

 

Para responder a todas estas perguntas, surgiram, ao longo dos tempos, muitas histórias. Foi dito que eram reis, que eram em número de três, que vinham um da África, um da Ásia, um da Europa, e que eram um negro, outro amarelo e outro branco. Guiados pela estrela, se encontraram num mesmo ponto, e depois de percorrerem juntos o último trecho da estrada, chegaram até Belém. Chamavam-se Gaspar, Melquior e Baltazar. Para a viagem serviram-se de camelos e dromedários. Depois de voltarem para casa, após atingir a venerável idade de 120 anos, certo dia, viram novamente a estrela, retomaram a viagem e se reencontraram juntos numa cidade da Anatólia para celebrar a missa de Natal, e no mesmo dia, felizes, morreram.

 

Suas relíquias deram a volta ao mundo e repousam agora na Catedral de Colônia, na Alemanha.

 

Muito bem! Mas estas são histórias! Voltemos agora ao texto evangélico e tentemos entender a mensagem que Mateus nos quer passar. Para isto precisamos esclarecer alguns detalhes.

 

Primeiro, os Magos não eram reis. Com certeza pertenciam àquele grupo de pessoas, muito comuns na antiguidade, que sabiam interpretar os sonhos, prever o futuro observando o curso dos astros ou observando o voo dos pássaros, e sabiam ler a vontade de Deus através dos acontecimentos comuns ou extraordinários da vida.

 

Não deve causar espanto, portanto, quando se afirma que os Magos conseguiram interpretar, como uma mensagem do céu, o aparecimento de uma estrela.

 

Com relação à estrela: nos tempos antigos acreditava-se que, quando nascia uma pessoa destinada a uma grande missão, aparecia ao mesmo tempo uma estrela no céu.

 

Mas, enfim, os Magos viram de fato um cometa? Muitos astrônomos consumiram boa parte de suas pesquisas e estudos para verificar se, há dois mil anos atrás, apareceu no céu um cometa. Poderiam ter empregado melhor o seu tempo em qualquer outro rumo, pois a estrela que os Magos viram não era um astro material, mas a estrela da qual fala a Escritura.

 

Vamos aos fatos. Se lermos os caps. 22-24 do Livro dos Números, encontramos a surpreendente história de Balaão e da sua jumenta falante. Balaão era um adivinho, um mago do Oriente, exatamente como aqueles dos quais nos fala o evangelho de hoje.

 

Certo dia, ele, sem querer, fez uma profecia importante. Disse:

 

"Eu o vejo, mas não é um acontecimento que virá dentro em breve; eu o sinto, mas não está perto: uma estrela desponta da estirpe de Jacó, um reino, nascido de Israel, se levanta... Alguém sai de Jacó e dominará os seus inimigos" (Nm 24, 17.19).

 

Assim falava, cerca de 1.200 anos antes do nascimento de Jesus, Balaão, "o homem do olhar penetrante" (Nm 24,3).

 

Desde então, os "israelitas começaram a aguardar com ansiedade o despontar desta estrela que não é senão o próprio Messias".

 

Estas ideias eram muito familiares para Mateus e para seus leitores. Apresentando-nos os Magos do Oriente que veem a estrela, o evangelista simplesmente nos quer dizer que finalmente chegou o esperado Libertador da estirpe de Jacó. É aquele Jesus que os Magos reconheceram e adoraram. E ele a estrela.

 

Tentemos agora relacionar o Evangelho de hoje com a primeira leitura. O profeta dizia que, quando em Jerusalém tivesse brilhado a luz do Senhor, todas as nações se teriam posto a caminho em direção à cidade santa, levando seus dons. Mateus interpreta o episódio dos Magos como sendo a realização desta profecia: guiados pela luz do Messias, os povos pagãos (representados pelos Magos) se dirigem para Jerusalém, para levar os seus dons: ouro, incenso e mirra.

 

Da mesma forma, a história da caravana de animais não foi inventada à toa; a primeira leitura já nos fala de "um tropel de camelos e dromedários", vindos do Oriente (Is 60, 6).

 

Mas então, seremos obrigados a tirar dos nossos presépios e apagar a imagem do cometa? Não! Vamos continuar contemplando esta estrela, vamos apontá-la para nossas crianças, mas ensinemos a elas que a estrela não é um astro do céu, mas é Jesus, é ele a luz que ilumina todos os homens.

 

Os Magos representam os homens do mundo inteiro que se deixam guiar pela mensagem de paz e de amor de Cristo.

 

Eles são a imagem da Igreja, formada por povos de todas as etnias, tribos, línguas, nações. Entrar para a Igreja não quer dizer renunciar à própria identidade, não quer dizer submeter-se a uma injusta e falsa uniformidade. Todas as pessoas e todos os povos devem manter as próprias características culturais, que até enriquecem a Igreja universal. Ninguém é tão rico que não precise de nada e nem tão pobre que não tenha nada para dar. 

 

Nos dias de hoje, como nos tempos de Jesus, diante da estrela as pessoas assumem posturas diferentes. Há as que, como os Magos, se ajoelham (v. 11), reconhecem nele a luz do mundo e se submetem; há outras que permanecem indiferentes e outras, enfim, que tentam apagar esta luz. Todos viram a mesma realidade: um menino recém-nascido, mas as opções foram e são diferentes. Quem está em condições de reconhecê-lo? Os que se deixam iluminar pela Escritura que nos fala dele.

 

 



[1] Fernando Armellini é um estudioso da Bíblia, formado no Instituto Bíblico de Roma. Este comentário foi extraído do livro CELEBRANDO A PALAVRA, Ano A, ©Editora Ave-Maria, 1995