Domingo, 7 de agosto de 2011

19º do Tempo Comum, Ano “A”, 3ª Semana do Saltério (Livro III), cor litúrgica Verde

 

 

Santos: Máximo Auspício, Betário, Celsino, Eufrônio Pedro de Osma (bispos) Catarina, Teódota Evádio, Rutílio (Mártires) Pedro Fabro, Estêvão I (papa, Roma, 257), Pedro Julião (1868) e Rutílio

 

Antífona: Considerai, Senhor, vossa aliança, e não abandoneis para sempre o vosso povo. Levantai-vos, Senhor, defendei vossa causa, e não desprezeis o clamor de que vos busca. (Sl 73, 20.19.22.23)

 

Oração: Deus eterno e todo-poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia a herança que prometestes. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

1ª Leitura: 1º Livro dos Reis (1Rs 19, 9a.11-13a)
Elias encontra-se com Deus de bondade e misericórdia

 

Naqueles dias, ao chegar a Horeb, o monte de Deus, 9ao profeta Elias entrou numa gruta, onde passou a noite. E eis que a palavra do Senhor lhe foi dirigida nestes termos: 11"Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar". Antes do Senhor, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos. Mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, houve um terremoto. Mas o Senhor não estava no terremoto.

12Passado o terremoto, veio um fogo. Mas o Senhor não estava no fogo. E, depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. 13aOuvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta. Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a I Leitura

Experimentar Deus nos conflitos


Com o massacre dos profetas de Baal (1Rs 18), Elias livrara o Reino de Israel da catástrofe nacional e da idolatria que sustentava e fomentava a exploração das massas populares sob o reinado de Acab. Esse episódio, contudo, fez explodir o furor de Jezabel, esposa do rei e patrocinadora do culto a Baal, a qual decreta a morte de Elias.


O profeta foge rumo ao sul, atravessando o Reino de Judá e entrando no deserto. Deseja morrer, mas Javé o nutre com misterioso alimento, atraindo-o ao monte Horeb (= Sinai), lugar da aliança de Deus com seu povo.


A situação e a experiência de Elias são semelhantes às de Moisés, depois que o povo pecou (cf. Ex 32-33). Ambos experimentam Deus em momentos de profundas crises no meio do povo. A ambos Deus se mostra próximo e íntimo, dialogando com eles.


A forma como Elias experimenta Deus é diferente da de Moisés (cf. Ex 33,18-23): Javé não está no furacão que racha as montanhas e quebra os rochedos, nem no terremoto ou no fogo, elementos ordinários das teofanias do Êxodo (cf. também 2Sm 22,7-16; Is 29,6; Sl 50,3; 97,3-5), mas no murmúrio de uma brisa suave, quase imperceptível.

 

Elias tem de fazer uma experiência nova de Deus, que já não se serve dos fenômenos espetaculares da natureza para se manifestar. Por quê? Qual o sentido do novo nessa experiência? Segundo as narrativas mitológicas de Ugarit, Baal era o deus da tempestade, senhor do trovão e do raio, diante dos quais a terra entrava em pânico (terremoto). A vitória de Javé sobre Baal (cap. 18) não quer afirmar que ele toma o lugar do deus da tempestade. Elias sente que a experiência com Javé é totalmente diferente em relação às anteriores: a majestade de Deus se manifesta nas coisas quase imperceptíveis, como a brisa da manhã. Não é majestade que apavora e espanta, mas cativa e transmite serenidade. Aí reside a novidade da experiência de Deus. Ao fazê-la, percebe-se que só Javé pode ser considerado Deus, pois só ele “faz sair” da caverna para a comunhão e compromisso com ele.


Vento e fogo estão associados à vida de Elias, homem impetuoso e fogoso por caráter. Sua missão anterior e posterior a essa experiência o demonstra: era um demolidor. Contudo, encontra Deus na solidão da montanha e no silêncio da brisa mansa, longe do tumulto. Ouvindo o vento suave, ele cobre o rosto com o manto, pois aí percebe a presença de Javé.


Esse texto serviu, erroneamente, para apoiar certa fuga aos compromissos e lutas próprios do ser cristão. O episódio de Elias no monte Horeb não é fuga ou subtração mais ou menos velada às exigências da atitude profética. A ação de Elias, antes e depois da experiência de Deus, denota-o muito bem. Basta ler essa experiência em seu contexto para perceber que se trata de uma “refontização”, tendo em vista a luta pela justiça desejada por Deus. É a mística dos que enfrentam a idolatria, particularmente a do poder absolutista e tirano. [Vida Pastoral nº 261, Paulus, 2008]

 

 

Salmo: 84(85), 9ab-10.11-12.13-14 (R/.8) 
Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, e 

a vossa salvação nos concedei!

 

Quero ouvir o que o Senhor irá falar: é a paz que ele vai anunciar. Está perto a salvação dos que o temem, e a glória habitará em nossa terra.

 

A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão; da terra brotará a fidelidade, e a justiça olhará dos altos céus.

 

O Senhor nos dará tudo o que é bom, e a nossa terra nos dará suas colheitas; a justiça andará na sua frente e a salvação há de seguir os passos seus.

 

 

 

II Leitura: Carta de São Paulo aos Romanos (Rm 9, 1-5)
Deus está perto de nós e sua salvação é certa

 

Irmãos: 1Não estou mentindo, mas, em Cristo, digo a verdade, apoiado no testemunho do Espírito Santo e da minha consciência.

 

2Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua, 3a ponto de desejar ser eu mesmo segregado por Cristo em favor de meus irmãos, os de minha raça.

 

4Eles são israelitas. A eles pertencem a filiação adotiva, a glória, as alianças, as leis, o culto, as promessas 5e também os patriarcas. Deles é que descende, quanto à sua humanidade, Cristo, o qual está acima de todos, Deus bendito para sempre! Amém! Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a II Leitura

O projeto de Deus sofre resistências


Rm 9-11 trata do tema da fidelidade de Deus e da incredulidade de Israel. A grande angústia que atormentou a vida de Paulo foi a rejeição de seus irmãos na carne ao anúncio do evangelho. De fato, desde a sua conversão até a estada em Roma, Paulo se esforçou por anunciar o projeto de Deus aos de sua raça. Em troca recebeu rejeições, acusações e perseguição sistemática.


Estando em Corinto, ele escreve aos romanos, fazendo-os partilhar de sua angústia e dor. A rejeição do evangelho por parte dos parentes de Paulo “segundo a carne” criava obstáculos à própria evangelização no meio dos pagãos.


Paulo inicia sua argumentação com plena consciência de estar dizendo a verdade em Cristo, apelando para o testemunho do Espírito Santo (v. 1). Ele não entende o porquê da rejeição. E sua dor é tamanha (v. 2), que, para conduzi-los a Cristo, desejaria ser amaldiçoado por Cristo (v. 3), isto é, privado da comunhão com Jesus (cf. também Gl 1,9). É possível ver nesse gesto de Paulo a repetição do pedido de Moisés, que põe em jogo a própria vida para salvar o povo: “Agora, se perdoasses seu pecado… Se não, risca-me, peço-te, do livro que escreveste” (Ex 32,32).


A seguir (vv. 4-5), são relacionados oito privilégios dos israelitas, como provas indiscutíveis do amor de Deus. Nota-se um crescendo da fidelidade de Deus, que vai da adoção de Israel como povo eleito até o fato de o Cristo segundo a carne ter nascido no meio dele: “a adoção filial, a glória, as alianças, a lei, o culto e as promessas; a eles pertencem os patriarcas, e deles é o Cristo segundo a carne” (vv. 4-5a).


Paulo constata que o projeto de Deus sofre resistências exatamente por parte dos que receberam as maiores provas da fidelidade de Deus. Contudo, sua preocupação não é estimular a polêmica; pelo contrário, aceita até ser amaldiçoado por Cristo para que o impasse seja superado. Sua vida não conta quando se trata de encontrar formas a fim de que o projeto de Deus seja aceito por todos. Ele crê firmemente que Deus não abandonou seu povo, pois a fidelidade divina permanece inalterada.


E o que dizer, hoje, quando o projeto de Deus encontra resistências no meio das próprias comunidades cristãs, nas legislações que não levam em conta o bem comum, a justiça, a paz social? Não é um escândalo que cristãos rejeitem Cristo nos necessitados? Não é escandaloso quando nos dividimos em tantas Igrejas, sendo Cristo um só? Quem é capaz de ter os sentimentos de Paulo? [Vida Pastoral nº 261, Paulus, 2008]

 

 

Evangelho: Mateus (Mt 14, 22-33)
Jesus espera de nós uma entrega sem reservas a ele

 

Depois da multiplicação dos pães, 22Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho.

 

24A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar.

 

26Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: "E um fantasma". E gritaram de medo.

 

27Jesus, porém, logo lhes disse: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" 28Então Pedro lhe disse: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água".

 

29E Jesus respondeu: "Vem!" Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: "Senhor, salva-me!"

 

31Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: "Homem fraco na fé, por que duvidaste?" 32Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: "Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!" Palavra da Salvação!

 

Comentando o Evangelho


Deus está presente nas lutas da comunidade

 

No Evangelho de Mateus, a seção 13,53 a 17,27 é a parte narrativa do quarto livrinho, que pode ser sintetizado assim: o seguimento do mestre da justiça. O trecho de hoje (e o do domingo passado) pertence a essa parte narrativa.


No trecho do domingo passado, vimos Jesus inaugurando com os pobres e explorados nova humanidade, em que o comércio é substituído pela partilha dos bens da criação. A partilha é o grande milagre capaz de saciar a todos. E a abundância do que sobra será capaz de matar a fome de tantos outros.


O texto de hoje se inicia com uma afirmação estranha: Jesus obriga os discípulos a entrar na barca e seguir à sua frente, para o outro lado do mar (v. 22). Três coisas chamam a atenção: 1. Jesus obriga os discípulos a embarcar (é a única vez que o verbo obrigar aparece em Mateus). Jesus mostrou, no episódio anterior, que a partilha é a regra de ouro para o mundo novo. O ideal da partilha é confiado, agora, aos que seguem a Jesus. Ele os obriga a continuar o que acabou de fazer. 2. Os discípulos têm de atravessar o mar. O texto sintetiza bem a situação de uma comunidade em missão, em meio a dificuldades e tentativas de instauração do projeto de Deus. 3. Os discípulos são mandados à outra margem do lago, em território pagão, para semear as sementes do mundo novo: é o aspecto universal da missão da comunidade cristã.


Jesus passa a noite em oração (v. 23). No Evangelho de Mateus só há duas menções a Jesus que reza a sós (cf. 26,36ss). Não sabemos o conteúdo da oração de Jesus no monte, mas certamente está relacionado com a missão dos discípulos e os desafios da “travessia” missionária. De fato, “a barca, já longe da terra, era batida pelas ondas, pois o vento era contrário” (v. 24). O vento contrário são as resistências ao projeto de Deus. A fragilidade da barca, a noite, o vento contrário dão a dimensão exata da fragilidade, obscuridade e desafios enfrentados pelas comunidades cristãs, sementes do reino da justiça. O mar fala da dimensão itinerante do cristianismo, abrindo caminhos desconhecidos.


Jesus vai ao encontro dos discípulos de madrugada, andando sobre o mar (v. 25). Andar sobre o mar é prerrogativa divina (cf. Jó 9,8; 38,16). E a menção à madrugada pode ser entendida como referência à manhã da ressurreição. No Evangelho de Mateus Jesus é o Deus-conosco (cf. 1,23) para sempre (cf. 28,20). A memória disso o torna presente sobretudo nas horas difíceis da “travessia”.


Contudo, há sempre o risco de não captar sua presença nos acontecimentos, considerando-o um fantasma (cf. v. 26). Jesus se dá a conhecer como Deus presente que liberta das dificuldades: “Sou eu” (v. 27; em grego ego eimi, que recorda a revelação do Nome divino em Ex 3,14). O contato com sua palavra dá coragem e afasta o temor. A expressão “coragem!” possui, no Novo Testamento, duas conotações: 1. Tomar coragem depois de algo que assustou e fez desfalecer (9,2.22; Mc 10,49); 2. Abastecer-se de coragem, por conta dos desafios futuros ou das perseguições (cf. Jo 16,33; At 23,11). O encorajamento de Jesus tem essas duas dimensões.


Os vv. 28-31 são breve cena dentro do conjunto maior. Aparece a figura de Pedro que, desejando andar sobre as águas, retrata o anseio da comunidade cristã em participar da condição divina de Jesus. Pedro o reconhece como Senhor que tem poder de superar os desafios (v. 28). Mas revela também a insegurança e a inconstância dos que, desejando superar os obstáculos, se detêm mais nas dificuldades do que na força do apelo daquele que enviou e chama: “Venha!” Demonstra, além disso, que nem ele nem os cristãos chegaram ainda a compreender que participar da vida de Jesus e do seu projeto é superar os desafios e obstáculos, sem pretender que Jesus resolva tudo com um milagre. O milagre é o de caminhar em meio aos desafios. O cristão se torna filho de Deus e participa do seu plano em meio às oposições e perseguições da sociedade que rejeita o projeto de Deus.


A repreensão de Jesus vale, portanto, para todos: “Homem fraco na fé, por que você duvidou?” (v. 31). A dúvida é o oposto ao risco ante os desafios. Não é o risco que faz afundar, mas a dúvida paralisante: “Quem enfrenta os desafios arrisca errar; quem não arrisca erra sempre!”


Os vv. 32-33 salientam dois aspectos importantes: 1. Depois que Jesus subiu à barca o vento cessou; ou seja, quando a comunidade cristã reconhece que Jesus caminha com ela, nenhum desafio é maior que a força ou a capacidade de superá-lo. A memória da presença do Deus-conosco é determinante para atravessar qualquer tempestade. 2. Essa memória leva ao reconhecimento de quem é Jesus: ajoelharam-se diante dele, dizendo: “De fato, tu és o Filho de Deus”.

 

O Deus perto de nós

 

As leituras apresentam duas cenas de teofania: Deus se manifesta ao profeta Elias na brisa à entrada da caverna do Horeb; aos apóstolos, e particularmente a Pedro, manifesta-se na pessoa de Jesus que domina o mar (1ª leitura e evangelho). A mensagem contida nessas duas revelações de Deus nos é mostrada no salmo de meditação que fala de salvação, agora próxima, expressa na rica terminologia de misericórdia, paz, graça, fidelidade, justiça...

 

Deus está conosco

 

Deus vem ao encontro do homem especialmente nos momentos de necessidade, quando ele o invoca com fé. O Deus dos profetas e de Jesus é aquele que toma a defesa dos pobres e dos fracos, e decepciona as esperanças dos que querem se servir de seu poder. Ele não está nos fenômenos naturais grandiosos e violentos: vento, terremoto, fogo; mas no sopro leve da brisa, como que significando a espiritualidade e a intimidade das manifestações de Deus ao homem.

 

Deus está próximo e assiste a sua Igreja

 

A comunidade cristã vive uma existência atormentada pela hostilidade das forças adversas, que se manifestam nas perseguições e dificuldades externas e internas. Unicamente com suas forças, ela não chegaria ao fim de seu caminho. Mas Jesus ressuscitado está presente no meio dos seus, embora invisível, ele os assiste. A Igreja revive, assim, a experiência da peregrinação do Êxodo. Sua fé, como a de Pedro, é posta a dura prova, mas a mão de Jesus que salva do abismo nunca deixa de estender-se. Jesus oferece, pois, à sua Igreja, a vitória sobre as forças do mal e a segurança nas provações, mas pede como condição essencial uma confiança sem hesitação. Só a fé é vitoriosa, a fé do cristão que caminha ao encontro do Senhor ressuscitado, no meio da tempestade. Uma fé que às vezes, como a de Pedro, impele a ir longe, a deixar a segurança tranquila da terra firme, para caminhar sobre as águas.

 

Deus é o absolutamente-Outro

 

Afirmar que Cristo venceu as forças do mal é, na realidade, reconhecer as dimensões cósmicas da sua obra. Antes dele, a solidariedade no pecado abrangia toda a criação: ele rompe essa cadeia. A vitória do cristão, portanto, não é apenas uma vitória sobre si mesmo: nem também uma ressonância cósmica. O cristão vence realmente o mundo cujos elementos domina, como Cristo e Pedro dominaram o mar. A missão do cristão consiste em abalar o domínio do mal em qualquer campo em que ele se manifeste.

 

Mas a palavra de Deus (1ª leitura) quer ressaltar também outro aspecto do mistério de Deus e da visão religiosa do universo. A experiência de Elias o leva a compreender que Deus não está nos fenômenos naturais: furacão, terremoto, raios, como pensavam os pagãos e as religiões da natureza; nem está no fogo, onde o imaginava a tradição javista (Ex 19,18). Deus não se deixa aprisionar por nenhum dos elementos que ele mesmo criou. A experiência de Elias é particularmente significativa da fé vivida no mundo moderno. Na mesma medida com que a ciência secularizou a natureza e o mundo, prestou um serviço à idéia de Deus, pois Deus não pode ser aprisionado dentro das categorias humanas, nem contido - e portanto atingível - nos fenômenos da natureza: ele é o absolutamente-Outro.

 

O homem o descobre através dos sinais

 

No mundo ateu e secularizado em que vivem aqueles que creem. Deus não lhes fala tanto através da natureza e dos fenômenos cósmicos; eles se tornaram opacos e fechados; os fiéis reconhecem Deus em muitos outros sinais dos tempos que revelam sua vontade, seu plano sobre o mundo e o homem. Eles não ouvem a Deus através da linguagem maravilhosa, mas ambígua, das criaturas, e sim através do sinal privilegiado de Deus no mundo: o homem. Feito à imagem e semelhança de Deus, o homem, descobre sua presença no íntimo do próprio ser, na própria história, nas aspirações profundas pelas quais "o homem supera infinitamente o homem" (Pascal).

 

"Uma vez que tudo foi criado em Cristo, por meio de Cristo, em vista de Cristo, todo aspecto de verdade, beleza, bondade, dinamismo, que se encontra nas coisas e em todo o universo, nas instituições humanas, nas ciências, nas artes, em todas as realidades terrestres e particularmente no homem e na história, tudo isto é sinal e caminho para anunciar o mistério de Cristo". [MISSAL DOMINICAL ©Paulus, 1995]

 

Oração da assembleia (Missal Dominical)

Peçamos ao Senhor que nos ajude a descobrir sua presença e proximidade nos acontecimentos de nossa vida de cada dia. Senhor, ouvi a nossa prece.

Pela santa Igreja de Deus, para que nas tempestades deste mundo ponha em Cristo toda a sua confiança, rezemos.

Pelo Papa e os Pastores da igreja, para que não se deixem vencer pelo desânimo e o medo, mas confiando na presença de Cristo saibam infundir e suscitar esperança e otimismo, rezemos.

Pelos vacilantes e fracos na fé, para que a caridade e o otimismo dos que os cercam, façam-lhes sentir a proximidade de Deus, rezemos.

(outras intenções)

Concedei, Senhor todo-poderoso, que saibamos reconhecer-vos com os olhos da fé, aqui na terra a fim de podermos contemplar-vos face a face com os vossos santos no céu. Por Cristo nosso Senhor.

 

Oração sobre as Oferendas:

Ó Deus, acolhei com misericórdia os dons que concedestes a vossa Igreja e que ela agora vos oferece. Transformai-os por vosso poder em sacramento de salvação. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo, diz o Senhor. (o 6,52)

 

Oração Depois da Comunhão:

Ó Deus, o vosso sacramento que acabamos de receber nos traga a salvação e nos confirme na vossa verdade. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Sustentabilidades

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte - MG

 

No quadro dos tratamentos adequados para a realidade contemporânea, à luz de responsabilidades sociais e políticas, tendo em vista seus inadiáveis e demandados avanços, situa-se o tema pertinente em torno das sustentabilidades.

 

É um imprescindível capítulo para todo e qualquer projeto e programa. Sua abordagem e efetivação são uma obviedade que se configura como exigência determinante no que se faz e para quem se faz. Não se pode fazer por fazer, simplesmente por querer ou sem razões plausíveis em vistas de atendimentos de necessidades e prioridades, com uma competência traduzida na inteligência da sustentabilidade. Assim, sustentabilidade é questão de inteligência e, ao mesmo tempo, de exigência e de respeito à integridade da vida, da natureza e ao conjunto da sociedade nos seus funcionamentos balizados pelos serviços prestados a todos, particularmente aos mais pobres e excluídos.

 

A abordagem da sustentabilidade em todos os seus capítulos e diversificadas nuances é um luzeiro que permite diagnósticos importantes na vida social e política de sociedades e nações. Não é, portanto, uma questão que se restringe a uma única dimensão, tal como aquela da economia. Quando, pois, se percorre os diversos cenários que configuram a sociedade contemporânea – como, por exemplo, a nossa, brasileira, tratando basicamente o que a mídia oferece a cada dia -, pode-se chegar à conclusão importante de que as sustentabilidades não são restritas ao que diz respeito à natureza no seu funcionamento, às necessidades humanas na sua sobrevivência ou à manutenção de projetos e programas com seus impactos e influências para a vida chamada moderna.

 

Vale aqui fazer um rápido percurso nestes cenários contemporâneos bem próximos de todos para detectar uma imprescindível sustentabilidade entre as sustentabilidades, pensadas na sua sofisticação própria de ciência e de estratégia quando se defronta com o mal endêmico da corrupção na sociedade. Referência, por exemplo, ao pedreiro laranja ou ao vendedor, que se descobriram empresários e donos de fortuna, vítimas do uso criminoso de seus nomes em favor de beneficiários que assaltaram os cofres públicos, trazendo enormes prejuízos.

 

Na esteira destes absurdos estão aqueles que multiplicam seu patrimônio no exercício de mandatos governamentais. E os dribles dados na Receita Federal? As auditorias de órgãos competentes revelam sobejamente irregularidades de contratos que pesam desafortunadamente aos cofres públicos em detrimento do urgente atendimento de necessidades básicas da população carente, passando fome, subnutrida e enjaulada pela condição abominável de não ter moradia decente. Privada de uma participação digna na vida da sociedade na qual está inserida também como cidadã.

 

Percorrendo os bastidores da vida política, de encontro ao seu sentido próprio e de grande importância como coluna sustentadora da sociedade, se conhece o fluxo de disputas felinas por cadeiras, poder, domínio de fontes de dinheiro, ainda quando na contramão de uma mínima coerência ideológico-partidária.

 

É um enorme desafio. Até inexplicável no âmbito da realidade da infraestrutura na sociedade brasileira, em se considerando as demandas existentes como transporte, moradia, saúde e trabalho, a lentidão dos fluxos nas respostas e incompetências contracenando com as possibilidades econômicas, sem deixar de fazer menção ao que já se conquistou. Do bojo deste âmbito determinante para a vida da sociedade surgem escândalos de corrupção, os atrasos advindos das burocracias que revelam má vontade e até preguiça, envenenando a nobreza do altruísmo e do sentido de cidadania, com o usufruto imoral do que pertence ao erário publico e com destinação própria.

 

Destas questões grandes, hospedadas em cenários que compõem a sociedade contemporânea, se chega facilmente aos desvios de condutas que revelam cidadanias comprometidas - fruto de mesquinhez e de maldades, impedindo uma participação com maior dignidade e nobreza no que diz respeito à edificação da sociedade em maiores ou menores proporções. Desde o que está no seio de uma família, passando por projetos pequenos, mas importantes, até a honestidade esperada nos gestos e nas palavras de cada pessoa, nos âmbitos públicos e privados.

 

Esta ladainha de descalabros nas suas contas intermináveis produz um prejuízo material incalculável. Atrasos centenários, sacrifícios intoleráveis e um desgosto que desfigura o mais precioso da vida de cada um: o sentido de viver. Este mal não é sanado apenas pela inteligência e pela ciência de sustentabilidades outras, senão, ao tudo que tem a ver com a sustentabilidade que advém da moralidade.

 

A moralidade é um investimento urgente e permanente sob pena de comprometer, com desarranjos e preponderância da tendência natural de desorganização, a inviabilização de outras pretendidas sustentabilidades. [CNBB]