Domingo, 4 de dezembro de 2011

Segundo do Advento, Ano “B”, Segunda Semana do Saltério (Livro I), Cor Litúrgica Roxa

 

Hoje: Dia do Publicitário, dia do Orientador Educacional, dia do Perito Criminal Oficial, dia Nacional do Podólogo e dia do Casal.

 

Santos: Annon de Colônia (bispo), Bárbara da Nicomédia (virgem, mártir), Bernardo de Parma (bispo), Cirano de Bourges (abade), Cristiano da Prússia (bispo), Félix de Bolonha (bispo), Isa e Tecla (mártires do Egito), Maria de Roma (mártir), Maruta de Mayferqat (bispo), Mauro de Pécs (bispo), Melécio de Sebastópolis (mártir), Melécio de Spoleto (bispo), Osmundo de Salzburgo (bispo), Sol da Germânia (eremita), Suairlech de Less Mor (abade), Teófano e Companheiros (mártires de Constantinopla), Arcângelo Canetoli (presbítero, bem-aventurado), Bertoara de Bourges (bem-aventurado), Catarina dos Anjos (bem-aventurada), Francisco Galvez (franciscano), Jerônimo De Angelis (jesuíta), Simão Yempo (jovem catequista) e vários outros companheiros (mártires, bem-aventurados), Maria de Pisa (bem-aventurada), Wisinto de Kremsmünster (monge, bem-aventurado).

 

Antífona: Povo de Sião, o Senhor vem para salvar as nações! E, na alegria do vosso coração, soará majestosa a sua voz (Cf Is 30, 19-30)

 

Oração: Ó Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia, nós vos pedimos que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro de vosso  Filho, mas, instruídos pela vossa sabedoria, participemos da plenitude do Espírito Santo. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

1ª Leitura: Isaias (Is 40, 1-5.9-11)
Preparai o caminho do Senhor

 

1"Consolai o meu povo, consolai-o! - diz o vosso Deus. 2Falai ao coração de Jerusalém e dizei em alta voz que sua servidão acabou e a expiação de suas culpas foi cumprida; ela recebeu das mãos do Senhor o dobro por todos os seus pecados".

 

3Grita uma voz: "Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso Deus. 4Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas; endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas: 5a glória do Senhor então se manifestará, e todos os homens verão juntamente que a boca do Senhor falou. 9Sobe a um alto monte, tu, que trazes a boa-nova a Sião; levanta com força a tua voz, tu, que trazes a boa-nova a Jerusalém, ergue a voz, não temas; dize às cidades de Judá: 'Eis o vosso Deus, 10eis que o Senhor Deus vem com poder, seu braço tudo domina: eis, com ele, sua conquista, eis à sua frente a vitória. 11Como um pastor, ele apascenta o rebanho, reúne, com a força dos braços, os cordeiros e carrega-os ao colo; ele mesmo tange as ovelhas-mães'". Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a I Leitura

Consolai, consolai meu povo

 

Esse texto corresponde ao início da profecia de Isaías Segundo (Is 40-55). É um movimento de animação da esperança, suscitado por Deus, no meio do povo exilado na Babilônia, ao redor do ano 550 a.C. Com entusiasmo poético, o profeta anuncia novo êxodo: o povo de Israel será libertado e reintroduzido à terra que Deus concedera aos antepassados.  Assim como o clamor do povo escravizado no Egito chegou aos ouvidos do Senhor, também o sofrimento do povo exilado é conhecido por Deus. O profeta avalia-o como um sofrimento expiatório. Deus acolhe e apaga toda a culpa. Na sua bondade, perdoa-lhes todos os pecados e os livra de todo mal.

 

Assim como no primeiro êxodo Deus havia libertado os escravos das mãos dos opressores egípcios e os conduzido à terra prometida, também agora ele os livrará da opressão da Babilônia e os conduzirá à sua pátria. Assim como no primeiro êxodo o deserto constituiu caminho de libertação para o povo, sendo guiado pelo próprio Deus, também agora serão conduzidos pela mesma mão divina. Toda barreira será vencida e toda dificuldade transposta. No horizonte: um tempo de bênçãos.

 

O Senhor vem ao encontro do seu povo como o pastor em busca de suas ovelhas. Ele as reúne, tomando no colo as que necessitam ser carregadas. Deus é o resgatador da vida ameaçada e o cuidador das pessoas enfraquecidas e indefesas. Nisto consiste a sua glória: a vida do povo.

 

Teologicamente, esse segundo êxodo aponta para um horizonte ilimitado, a libertação em plenitude. Ela acontecerá com a vinda de Jesus Cristo, o Emanuel – “Deus conosco”. Como em terceiro e definitivo êxodo, ele nos põe em marcha, na certeza não apenas das libertações históricas, mas da salvação eterna. O Advento é tempo de vencer as resistências e pôr-se em caminhada, celebrando a presença salvadora de Deus. [Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 281, Paulus]

 

 

Salmo: 85 (84), 9ab-10.11-12.13-14  (R/.8)
Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, e a
vossa salvação nos concedei!
(R/.8)

 

9aQuero ouvir o que o Senhor irá falar: é a paz que ele vai anunciar; ba paz para o seu povo e seus amigos, para os que voltam ao Senhor seu coração. 10Está perto a salvação dos que o temem, e a glória habitará em nossa terra.

 

11A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão; 12da terra brotará a fidelidade, e a justiça olhará dos altos céus.

 

13O Senhor nos dará tudo o que é bom, e a nossa terra nos dará suas colheitas; 14a justiça andará na sua frente e a salvação há de seguir os passos seus.

 

II Leitura: 2ª Carta de São Pedro (2Pd 3, 8-14)
O que nós esperamos são novos céus e uma nova terra

8Uma coisa vós não podeis desconhecer, caríssimos: para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia. 9O Senhor não tarda a cumprir sua promessa, como pensam alguns, achando que demora. Ele está usando de paciência para convosco. Pois não deseja que alguém se perca. Ao contrário, quer que todos venham a converter-se. 10O dia do Senhor chegará como um ladrão, e então os céus acabarão com barulho espantoso; os elementos, devorados pelas chamas, se dissolverão, e a terra será consumida com tudo o que nela se fez. 11Se desse modo tudo se vai desintegrar, qual não deve ser o vosso empenho numa vida santa e piedosa, 12enquanto esperais com anseio a vinda do Dia de Deus, quando os céus em chama se vão derreter, e os elementos, consumidos pelo fogo, se fundirão 13O que nós esperamos, de acordo com a sua promessa, são novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça 14Caríssimos, vivendo nessa esperança, esforçai-vos para que ele vos encontre numa vida pura e sem mancha e em paz. Palavra do Senhor!

 

 

Comentando a II Leitura

Para que ninguém se perca

 

A segunda carta de Pedro pode ser considerada um “testamento”. Atribuída ao apóstolo Pedro, oferece conselhos às comunidades cristãs espalhadas pelo império romano no início do segundo século, orientando-as para viverem na fidelidade à tradição apostólica. Diversas situações estão desencorajando os cristãos a permanecer na fé que receberam das primeiras testemunhas da vida e da proposta de Jesus.

 

Uma dessas situações diz respeito à fé na segunda vinda de Jesus. A expectativa da iminência da sua volta já não é tão grande. Um grupo de pregadores trata da questão com zombaria, dizendo: “Não deu em nada a promessa de sua vinda... Tudo continua como desde o princípio da criação” (3,4). O texto deste domingo rebate as ideias desses falsos pregadores. Argumenta que não é uma questão a ser medida pela lógica humana. Os cálculos humanos não conseguem penetrar os desígnios divinos. Seus pensamentos e seus caminhos não são os nossos (cf. Is 55,88-9). A atitude a ser tomada é de nos abandonar, com toda a confiança, ao plano salvador de Deus.

 

O texto reafirma a volta de Jesus numa nova dimensão de tempo: “Para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia”. O tempo aqui é entendido em seu sentido cairológico. Esse tempo cronológico, tão fugaz, pode se transformar em cairológico, propício para acolher a salvação que Deus nos oferece gratuitamente. O tempo do relógio é a oportunidade que Deus nos dá para entrarmos na dinâmica do “tempo eterno”. Deus usa de muita bondade e paciência para conosco “porque não quer que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se”. A primeira carta a Timóteo (2,4) completa: “Ele quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade”. O nosso empenho cotidiano, portanto, não é fantasiar sobre quando ou como será o fim do mundo e a volta de Jesus, mas viver na santidade e na justiça, contribuindo para que já neste mundo seja concretizada a sua proposta de vida em abundância, conforme anunciada no evangelho. [Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 281, Paulus]

 

Evangelho: Marcos (Mc 1, 1-8)
 Endireitai as estradas do senhor

 

1Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. 2Está escrito no livro do profeta Isaías: "Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. 3Esta é a voz daquele que grita no deserto: 'Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!'" 4Foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados. 5Toda a região da Judéia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro. Confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão. 6João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo. 7E pregava, dizendo: "Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. 8Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo". Palavra da Salvação!

 

Comentando o Evangelho

Preparai o caminho do Senhor

 

Marcos apresenta o “princípio do evangelho de Jesus Cristo” – o alegre anúncio do Filho de Deus que assumiu a condição humana. A palavra “princípio” vai além do sentido cronológico. Indica nova origem, novo tempo inaugurado por Jesus. Ele vem para dar início a nova criação. João Batista é o mensageiro que vem preparar-lhe o caminho.

 

De acordo com a tradição judaica, o Messias seria precedido por Elias (cf. Ml 3,23). Marcos respeita essa tradição, apresentando João Batista como o novo Elias. Sua missão é comprovada por meio da citação de dois textos da Primeira Aliança (Ml 3,1 e Is 40,3). Sua mensagem é ousada; ele fala no mesmo espírito de Elias. É verdadeiramente um profeta. E até “mais do que um profeta”, como dirá Jesus (Lc 7,26). Sua pregação no deserto corresponde ao anúncio de um tempo de graça e libertação. O deserto, na história de Israel, constituiu lugar teológico da manifestação de Deus tanto no primeiro como no segundo êxodos (cf. comentário da I leitura); constituiu caminho pedagógico de conversão do povo ao projeto de Deus. Também agora, com João Batista, o “deserto” é o espaço/tempo de arrependimento e de conversão. A intervenção salvadora de Deus vai se dar por meio do seu Filho, Jesus Cristo.

 

O batismo de João indica o início de novo movimento que será levado à plenitude por Jesus. Enquanto João batiza com água, Jesus batizará com o Espírito Santo. O batismo de João está associado à confissão e ao perdão dos pecados. A imersão na água constituía rito purificatório com consequente transformação do coração, conforme se percebe nas palavras do profeta Ezequiel: “Borrifarei água sobre vós e ficareis puros; sim, purificar-vos-ei de todas as vossas imundícies e de todos os vossos ídolos imundos. Dar-vos-ei coração novo, porei no vosso íntimo espírito novo, tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei coração de carne” (Ez 36,25-26).

 

João Batista deve ter causado profunda impressão aos olhos dos que o conheceram. Vários se fizeram seus discípulos. Chegou a ser considerado o Messias esperado. O texto de Marcos corrige essa concepção. O Messias é Jesus. Seu batismo é com o Espírito Santo, isto é, sua prática é produzida de acordo com a dinâmica eficaz do Espírito Santo. Ele vem combater todas as forças demoníacas. Diante dele, João Batista apresenta-se como um servo indigno de desatar-lhe as correias das sandálias. Jesus é “mais forte”. Percebe-se aqui o eco das palavras de Isaías (9,5): “Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre seus ombros, e lhe foi dado este nome: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-para-sempre, Príncipe-da-paz”.

 

A atitude de humildade e de serviço de João Batista diante de Jesus torna-se modelo e caminho para todos os que desejam celebrar o Natal de uma maneira coerente com a fé cristã. O convite que nos é lançado é de mudança de vida. “Dobrar-se” perante Jesus é não desperdiçar a graça da salvação que entra definitivamente na história humana. [Celso Loraschi, Vida Pastoral nº 281, Paulus]

 

A palavra se faz oração (Missal Dominical)

Deus anunciou também a nós a alegre notícia de que ele está em ação para libertar-nos de nossas escravidões. Acolhamos com alegria esse anuncio, e respondamos-lhe com a súplica: Salvai nosso povo, Senhor!

 

Para que a Igreja imite, em sua obra de evangelização, a paciência de Deus que dá ao homem tempo para optar livremente por ele, rezemos, ao Senhor.

Para que a consciência de pertencer a um mundo que “passa” nos estimule a viver em comunhão com Deus, rezemos ao Senhor.

Para que todos os cristãos, especialmente neste tempo de Advento, se ponham em estado de conversão e se aproximem do sacramento do perdão, rezemos ao Senhor.

(outras intenções)

 

Oração sobre as Oferendas:

Acolhei, ó Deus, com bondade nossas humildes preces e oferendas, e, como não podemos invocar os nossos méritos, venha em nosso socorro a vossa misericórdia. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Levanta-te, Jerusalém, põe-te no alto e vê: vem a ti a alegria do teu Deus. (Br 5, 5;4,36)

 

Oração Depois da Comunhão:

Alimentados pelo pão espiritual, nós vos suplicamos, ó Deus, que, pela participação nesta Eucaristia, nos ensineis a julgar com sabedoria os valores terrenos e colocar nossas esperanças nos bens eternos. Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Deus vem para que voltemos a ele

 

 

Aos judeus do século VI a.C que permaneceram na Palestina ou aos deportados para a Babilônia, a palavra do profeta restitui a esperança e convida à confiança: Deus vem e caminha à frente do seu povo para reconduzi-lo, livre, da terra da escravidão à sua própria terra. Bom Pastor, cuida dos fracos e pequenos; Deus forte, alegra-se em perdoar e renovar todas as coisas. Salvação, alegria, amor, verdade, justiça, constituem o cortejo do Senhor Deus. São os bens da aliança, da amizade entre Deus e os seus (1ª Leitura). Esses bens não provêm de nós, dos nossos esforços, mas nos são dados por aquele que nos chama a converter-nos a ele, a fim de que nossos pecados sejam perdoados.

 

A espera de Deus

 

Respondendo às objeções de certos fiéis sobre a volta do Senhor, Pedro afirma: Deus tem uma noção de tempo diferente da do homem; e acrescenta: Deus é paciente e espera que o maior número possível de pecadores se converta (v.9)

 

Ao encarnar-se, Deus leva em conta o crescimento e o comportamento do homem; não salva sem a fé, sem a conversão; toma o tempo necessário para partilhar a vida com seu interlocutor (cf Sb 11, 23-26; Ez 18,23).

 

Num mundo sujeito à mudança e à espera do “dia de Deus”, a “santidade de vida” e a “piedade” dão segurança e tranqüilidade no meio dos elementos que se “dissolvem” e se “fundem” (2ª leitura). A santidade da vida não é só objeto do juízo final, mas já prepara esse juízo; a oração que sobe do coração não pede só a vinda do Senhor como um acontecimento improviso, mas o lê desde já nos episódios da história humana.

 

Preparai o caminho para o Senhor

 

Ao se completar o tempo messiânico, João convida a exprimir, através de um sinal que não é apenas cerimonial, a vontade de conversão e a esperança dos tempos novos, caracterizados pela efusão do Espírito Santo. Nesses tempos novos, que para nós já começaram, embora ainda não totalmente realizados, o convite à conversão manifesta-se necessariamente em gestos significativos, “sacramentais” no sentido mais amplo da palavra. Entre esses há certamente o batismo (dos adultos) e a penitência, momentos privilegiados de encontro com o Deus que salva e que perdoa, mas também as atitudes concretas da comunidade e de cada coração novo. São os que o profeta e João, hoje presentes no anúncio litúrgico, indicam na imagem de “preparar o caminho” (evangelho).

 

Sem dúvida, vistos com olhos profanos podem parecer pobres inúteis; mas na realidade, nos gestos de um homem e de uma comunidade renovados, quem sabe ler entrevê “novos céus e nova terra, nos quais a justiça terá morada estável” (2ª leitura)

 

O sacramento da volta

 

Na linguagem comum o sacramento da penitência se identifica com “confissão”, e é conhecido com esse nome. Na realidade, a confissão é apenas um elemento do sacramento e não é certamente o primeiro nem na ordem nem na importância. Há uma mentalidade formalista e exteriorizante a respeito desse sacramento, dos mais centrais da vida cristã, ameaçada de resvalar lentamente para uma crise perigosa. As motivações variam muito: vão da recusa do confessor distribuidor automático de absolvições à recusa do confessor psicanalista. A acusação individual dos pecados, seguida a absolvição e de uma leve penitência, é uma solução em geral demasiado fácil e mecânica; só Poe ter sentido cristão se for um sinal eclesial de  conversão e reconciliação do cristão pecador. Justifica-se, pois repensar da justa forma da penitência  e da confissão; tanto deve tornar-se mais autêntico, profundo, vivo e eficaz. A conversão cristã é uma maturação contínua, um crescimento contínuo sobre si mesmo, em geral um ato difícil, abrir o caminho para Deus na própria carne; sofrimento e desapego do cômodo e do habitual; é mudança de vida levada a sério. Ele expiou na cruz todos os nossos pecados e depois de sua ressurreição confiou à Igreja à faculdade de perdoar os pecados. A celebração do sacramento da penitência não pode ser “privatizada”; é sempre um gesto ao mesmo tempo comunitário e pessoal, como comunitário e pessoal é o pecado. Por isto, em muitas comunidades eclesiais celebra-se, juntos, este sacramento: “É como se a Igreja inteira tomasse sobre si o peso do pecador, cujas lágrimas ele deve partilhar em oração e na dor” (Santo Ambrósio) [MISSAL DOMINICAL, ©Paulus, 1995]

 

 

Tempo de Presépios

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

 

Certos sinais são importantes para fecundar o sentido que sustenta a vida. Vivemos um tempo especial. O Natal é rico em sinais, com uma força que vem da beleza, dos gestos de fraternidade e dos convites para compromissos de solidariedade. De novo, neste tempo, as praças atrairão multidões pela singularidade de sua ornamentação, com iluminações criativas, muita gente, novidades, festa.

 

As casas também são enfeitadas. Lojas e shoppings recebem especial tratamento de beleza. Papai Noel ganha um destaque fora do comum, um realce que merece preocupação. O que acontece quando crianças entendem o Natal apenas como tempo de Papai Noel? O perigo se manifesta quando o sentido de Papai Noel se reduz ao interesse de ganhar um presente.

 

O sonho de ser presenteado pelo velhinho encantado é também um sinal que possui força de evocações. Mas esse sinal terno do Papai Noel não remete, pelo menos de forma mais direta, às raízes do sentido do Natal. Mais importante que entender que é tempo de ganhar presente, até com riscos de alimentar alguma mesquinhez, o que vale é aprender a lição de que o bom velhinho nasceu da tradição narrada a respeito de São Nicolau, bispo de Mira, na Lícia, hoje parte da Turquia.

 

O destinatário mais importante dos presentes era o mais pobre, aquele que também tinha o direito de experimentar alegrias, nascidas de gestos de solidariedade. Pode-se imaginar a revolução de valores que viveríamos caso fosse resgatado esse entendimento de Papai Noel. O Natal não seria tempo de se receber presentes, mas de oferecer e repartir mais. Nesta direção está o horizonte largo e de inesgotável riqueza presente no sinal mais importante deste tempo: o presépio.

 

As lições do presépio, entendidas e praticadas, ajudam a livrar, homens e mulheres, dos caminhos que estão desfigurando a sociedade. São ensinamentos que precisam ser resgatados nas praças, nas igrejas, nas casas e em todo lugar. A tradição dos presépios nasce em 1223, quando, depois da aprovação da Regra dos Frades Menores, São Francisco de Assis foi para o eremitério de Greccio (Itália), com o propósito de ali celebrar o Natal do Senhor. São Francisco disse a alguém que queria ver, com os olhos do corpo, como o menino Jesus, escolhendo a humilhação, foi deitado numa manjedoura. Assim, entre o boi e o jumento, foi celebrada a missa de Natal, ainda sem estátuas e pinturas. Esse acontecimento foi a inspiração para, mais tarde, o Natal ser representado por meio do presépio, que simboliza a encarnação de Jesus Cristo, o Verbo de Deus.

 

A retratação do amor misericordioso de Deus na encarnação do Filho Amado, o Redentor, no presépio, faz desta arte, nas mais diversas modalidades e com a inteligência de criatividades interpelantes, um ensinamento da mais alta importância. O presépio se torna assim um patrimônio da cultura e da fé popular. Esta retratação remete, pois, ao núcleo mais genuíno do sentido autêntico do Natal. O presépio, pela arte e pela beleza, mesmo pela simplicidade e pobreza, tem força para propagar o Evangelho com um entusiasmo singular, capaz de atrair toda atenção para Jesus, a pessoa que é a razão insubstituível das festas natalinas.

 

A arte do presépio, de miniaturas a imagens em tamanho normal, com a riqueza dos personagens, da singeleza nobre das figuras de José e Maria venerando o menino Deus, pode e deve tocar os corações. A celebração do Natal se torna consequentemente uma festa da interioridade sem eliminar, absolutamente, o que luzes, sons e enfeites significam na beleza amorosa deste tempo. Não se pode abrir mão do presépio, sinal que remete a Cristo.

 

Jesus deve ser e estar no centro do Natal, sem prescindir de tantas outras coisas que compõem e dão graça especial a este tempo. Vale recuperar e investir na armação de presépios, nas casas, nas igrejas e nos lugares públicos. Uma oportunidade para os pais exercerem a catequese dos filhos, reavivando no próprio coração as lições insubstituíveis aprendidas com Cristo.

 

Assim, o tempo do Natal, respeitando seu genuíno sentido, torna-se época especial de aproximação. Passa-se a viver um encontro que transforma corações e superam-se descompassos como a corrupção, a mesquinhez de ter só para si. O presépio ajuda a dar estatura a quem só tem tamanho, fazendo brotar a sabedoria emoldurada por serenidade, um presente para quem contempla esse sinal e aprende o sentido de sua lição.