Domingo, 2 de janeiro de 2011

Epifania do Senhor, Ofício da Solenidade, Leituras para os anos A, B e C, cor Branca

 

Santos: Abel (patriarca bíblico, o segundo filho de Adão, cuja história se encontra em Gn 4; foi citado por Jesus em Mt 23,35 como sendo o primeiro mártir), Abelardo de Corbie (abade), Argeu, Narciso e Marcelino (mártires de Tomes, no Ponto), Aspásio de Melun (presbítero), Bladulfo de Bobbio (monge), Claro (abade de São Marcelo), Gaspar de Búfalo (fundador dos Missionários do Precioso Sangue), Isidoro de Antioquia (bispo, mártir), Isidoro de Nitria (bispo), Macário de Alexandria (abade), Martiniano de Milão (bispo), Vicenciano de Limousin (eremita), Airaldo de Maurienne (bispo, bem-aventurado), Bentivoglio de Bonis (franciscano, bem-aventurado), Geraldo Cagnoli (franciscano, bem-aventurado), Estefânia de Quinzanis (virgem, bem-aventurada).

 

Antífona de Entrada: Eis que veio o Senhor dos senhores; em suas mãos, o poder e a realeza (Ml 3,1; 1Cr 19,12)

 

Oração do Dia: Ó Deus, que hoje revelastes o vosso Filho às nações, guiando-as pela estrela, concedei aos vossos servos e servas que já vos conhecem pela fé, contemplar-vos um dia face a face no céu. Por nosso Senhor Jesus, a unidade do Espírito Santo.

 

A liturgia do dia: A festa da Epifania é a grande convocação que Deus faz, a fim de que todas as nações e raças encontrem forças para tornar humano e fraterno o nosso mundo. Essa é, no fundo, a expectativa de Deus que transparece em toda a Bíblia. Mas é em Jesus que ela toma corpo e forma, aparecendo como proposta oferecida a todos. Contudo, a ganância e o desejo de poder – presentes no Herodes do tempo de Jesus e nos Herodes de todos os tempos – tentam sufocar essa esperança. Porém, os homens de boa vontade têm uma “estrela”, não cessam de “sonhar” um caminho alternativo, que não passa pelos poderosos, mas nasce do menino-pastor. Essa caminhada é cheia de dificuldades, mas é Deus quem a ilumina, gerando forças e vida nova. [A liturgia de hoje vale para os anos A, B e C.]

 

 

I Leitura: Isaías (Is 60, 1-6)

A reconstrução gloriosa de Jerusalém

 

1Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor. 2Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. 3Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora. 4Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços. 5Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte, pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações; 6será uma inundação de camelos e dromedários de Madiá e Efa a te cobrir; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a glória do Senhor. Palavra do Senhor!

 

Leitura paralela: Ap 21―22

 

 

Comentando a I Leitura

Deus sustenta a caminhada da comunidade


O texto se refere à cidade de Jerusalém, embora seu nome não seja mencionado. A situação da cidade é desanimadora. Estamos no período do pós-exílio, onde tudo está para ser feito. Se o exílio era amargo, a saída dele e a reconstrução do país foram marcadas por grandes dificuldades. Jerusalém está prostrada por causa de sua população diminuta, pela falta de recursos e pela dominação estrangeira (império persa) que não permite a organização política dos que retornaram, além de impor pesado tributo. Teria Javé abandonado seu povo e a cidade santa? O papel do profeta (chamado de Terceiro Isaías) aqui é suscitar ânimo e esperança. Javé continua sendo o esposo da cidade (e, por extensão, de todo o povo). Por causa do amor fiel que tem para com Jerusalém, esta será transformada em ponto de convergência da caminhada das nações. Javé está nela como esposo que a orna de esplendor, tornando-a fecunda em filhos e rica em presentes. É um marido apaixonado que deseja todo o bem à sua amada, ele é luz e permite à cidade participar dessa luz.


O anúncio do profeta convida a cidade a levantar-se de sua prostração e resplandecer (v. 1). Os vv. 1-3 repetem os termos luz, raiar, esplendor. A idéia é muito clara: enquanto no mundo inteiro só há trevas, Jerusalém é só luz e esplendor. O sol, portanto, não nasce mais no oriente, mas em Jerusalém, porque Javé, com sua presença, é o próprio esplendor da cidade da paz (cf. Ap 22,5). A presença de Javé na cidade põe em movimento todas as nações, que começam a peregrinação para a cidade-luz. Tudo isso porque Javé se levanta sobre a cidade, manifestando aí sua glória (cf. o desejo expresso em Zc 8,23).


No v. 4 o profeta convida novamente a cidade-esposa a se levantar e contemplar a romaria que a ela se dirige. Nessa procissão está a resposta de Javé: ele dá a Jerusalém filhos e filhas, que vêm a ela carregados ao colo pelas nações. As nações tratam com carinho os frutos do amor de Deus para com seu povo. A cidade-esposa tornou-se mãe, cujos filhos são reconhecidos entre todos os povos. Os vv. 5-6 mostram os demais presentes que o esposo dá à esposa, presentes que a comovem: são as riquezas do mar, que vêm do oeste, da Fenícia e da Grécia; são as riquezas do oriente, que vêm através das caravanas de camelos e dromedários (Madiã, Efa, Sabá). A procissão dos que trazem presentes vem proclamando os louvores de Javé. E os dons – incenso e ouro – têm uma finalidade específica: servem para o culto no Templo reconstruído. É Javé quebrando o jugo dos tributos e devolvendo ao povo os bens que sustentam a vida.


O texto oferece algumas orientações pastorais. A comunidade que, com esforço, luta para reconstruir o projeto de Deus, precisa se levantar porque o próprio Deus é quem sustenta a caminhada, tornando-a a esposa amada e fecunda, luz para as demais comunidades que necessitam ver para discernir seu futuro. O próprio Deus a torna fecunda em filhos e recursos para que seja comunidade justa e fraterna, a ponto de atrair todos a si. Atraindo todos à paz e à justiça, faz com que possam se encontrar definitivamente com o Deus que nela habita. A comunidade é sacramento do encontro com Deus.


Sabemos que esse ideal não se concretizou em Jerusalém (cf. evangelho), pois ela recusou o Salvador. De fato, o texto não cita Jerusalém, a cidade-comunidade. A perspectiva, portanto, permanece aberta. E cada qual pode se perguntar: qual é essa comunidade-esposa? Não será, por acaso, a cidade-comunidade à qual pertencemos? Além disso, a Judéia continuou por séculos dependente dos impérios estrangeiros, sustentando com suor e sangue o luxo e os caprichos dos poderosos. Quando isso tudo irá acabar? O Novo Testamento, na pessoa de Jesus, irá propor o Reino de Deus como alternativa contra os imperialismos que esmagam a vida do povo. [Vida Pastoral n.252, Paulus, 2007]

 

Salmo: 71(72)[1], 2.7-8.10-11.12-13 (+ 11)
As nações de toda a terra hão de adorar-vos, ó Senhor!

 

1Dai ao Rei vossos poderes, Senhor Deus, vossa justiça ao descendente da realeza! 2Com justiça ele governe o vosso povo, com eqüidade ele julgue os vossos pobres.

 

7Nos seus dias a justiça florirá e grande paz, até que a lua perca o brilho! 8De mar a mar estenderá o seu domínio, e desde o rio até os confins de toda a terra!

 

10Os reis de Társis e das ilhas hão de vir e oferecer-lhe seus presentes e seus dons; e também os reis de Seba e de Sabá hão de trazer-lhe oferendas e tributos. 11Os reis de toda a terra hão de adorá-lo, e todas as nações hão de servi-lo.

 

12Libertará o indigente que suplica, e o pobre ao qual ninguém quer ajudar 13Terá pena do indigente e do infeliz, e a vida dos humildes salvará.

 

Leitura paralela caso queira ler o Salmo 72 completo: 2Sm 23, 1-7. Este Salmo faz companhia aos 2, 45 e 110

 

 

II Leitura: Carta de Paulo aos Efésios (Ef 3, 2-3a.5-6)

A manifestação do mistério de Deus

 

Irmãos: 2Se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito, 3ae como, por revelação, tive conhecimento do mistério. 5Este mistério Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: 6os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho. Palavra do Senhor!

 

Comentando a II Leitura

O projeto de Deus é para todos

 

A carta aos Efésios é um texto que Paulo, ou um discípulo seu, escreveu para diversas comunidades das regiões próximas a Éfeso. As cópias desse texto deviam ser lidas pelos grupos cristãos das cidades vizinhas. Paulo não conheceu esses grupos. Ele só esteve em Éfeso, centro urbano importante daquela época (cf. At 19-20), onde fundou uma comunidade cristã. A estratégia pastoral de Paulo era atingir os grandes centros urbanos, fundar aí comunidades, deixando-lhes a responsabilidade de passar adiante a mensagem às comunidades da região. É a essas comunidades que ele escreve, a partir da prisão, tentando sintetizar para elas o projeto de Deus e o esforço que ele fez para dar continuidade a esse projeto.


Paulo não utiliza a palavra projeto de Deus. Prefere falar de mistério. Mas esse termo nada tem a ver com algo obscuro ou incompreensível. Pelo contrário, mistério corresponde à revelação do plano divino. Esse mistério se realizou através da prática e da pregação de Jesus, condensadas naquilo que Paulo chama de Evangelho. Pois bem, mediante esse Evangelho, todos são chamados à vida e à liberdade trazidas por Jesus. É disso que Paulo se torna anunciador e missionário, dedicando toda a vida à evangelização dos pagãos. Estes, pela adesão a Jesus, não são mais estrangeiros, mas concidadãos dos santos (os cristãos) e membros da família de Deus (2,19).


Com esses pressupostos, podemos entender melhor o texto que a liturgia de hoje oferece à nossa reflexão. Paulo afirma que a consciência desses pressupostos é graça de Deus a ele concedida em benefício dos pagãos (3,2). E a solidez dessa afirmação está no fato de que ele a recebeu diretamente de Deus, por revelação (v. 3), ou seja, a partir da experiência que Paulo fez de Jesus nas comunidades e a partir da contínua assimilação do projeto de Deus. Quem toma consciência disso se torna apóstolo e profeta, sob a ação do Espírito (v. 5) que suscita nos fiéis a contínua memória das ações e palavras de Jesus (cf. Jo 14,26).


As conseqüências disso são condensadas no v. 6: os pagãos são, a partir da prática de Jesus e de Paulo, co-herdeiros. Não mais Israel somente, nem só os judeus convertidos, mas todos são objeto do amor e da predileção de Deus, que os salva (herança). O projeto de Deus, portanto, é para todos. Os pagãos são membros do mesmo Corpo, ou seja, da Igreja. A comunidade cristã não está subordinada a uma raça ou nação. Excluir alguém seria pertencer a um corpo mutilado. Seria eliminar a Cabeça (Cristo), pois ele veio para todos (cf. Jo 10,10). Os pagãos são, finalmente, participantes da promessa em Cristo Jesus. A salvação é acessível, como oferta graciosa de Jesus, a todos, sem discriminação. Tudo isso é o projeto de Deus, condensado no Evangelho que Paulo se esforça por anunciar, apesar de estar preso. [Vida Pastoral n.252, Paulus, 2007]

 

Leia o Sermão da Epifania (1662) de Pe. Antônio Vieira em:

http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/BT2803065.html

 

Evangelho: Mateus (Mt 2, 1-12)

Os magos do Oriente

 

1Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, 2perguntando: "Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo". 3Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém. 4Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer. 5Eles responderam: "Em Belém, na Judéia, pois assim foi escrito pelo profeta: 6E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo". 7Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido. 8Depois os enviou a Belém, dizendo: "Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo".

 

9Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. 10Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande. 11Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra. 12Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho. Palavra da Salvação!

 

Comentando o Evangelho

Como se posicionar diante de Jesus?

 

Mateus 1 e 2 são a porta de entrada do evangelho e podem ser resumidos numa frase: Jesus é o Rei que vai fazer justiça. O capítulo 2 de Mateus quer mostrar a missão de Jesus, o mestre da justiça. Essa missão se concentra na salvação dos pagãos, aqui representados pelos magos. Mas uma análise detalhada do trecho de hoje nos mostra um verdadeiro drama – que é o próprio drama das pessoas e da história – no esforço contínuo de se posicionar a favor ou contra Jesus, aceitando ou rejeitando a salvação que ele oferece. O texto de hoje tem duas partes: vv. 1-5 e vv. 7-12. O v. 6, que é uma mistura de duas citações bíblicas, funciona como eixo em torno do qual se movem as duas partes.


O v. 1 põe em cena as principais personagens do drama. Jesus contra o rei Herodes; Belém contra Jerusalém. Os magos (pagãos), indo a Jerusalém entrevistar-se com Herodes e dirigindo-se depois a Belém para adorar Jesus, funcionam como resposta, como modelo de discernimento dentro desse drama, pois são eles os que chamam Jesus de “rei dos judeus”, ao qual desejam adorar (v. 2). Os magos reconhecem o poder alternativo nascido em Belém (Jesus). Conseqüentemente o poder de Herodes, aliado dos dominadores romanos, não tem mais vigência. A primeira parte (vv. 1-5) mostra que:

 

·     O verdadeiro rei dos judeus não é o violento (assassino), prepotente e politiqueiro Herodes, estrangeiro idumeu, lacaio do poder romano opressor. A sede desse poder está em Jerusalém, onde o poder religioso (chefes dos sacerdotes e escribas do povo, v. 4) contemporiza com Herodes, servindo-lhe de suporte ideológico. Herodes e a cidade inteira se agitam com o anúncio de novo rei (compare com 1Rs 1,41).

·     O verdadeiro rei dos judeus é um recém-nascido (vv. 2.4.8.9.11), que tem suas raízes no poder popular alternativo que se forma a partir do descontentamento e das necessidades básicas do povo, ou seja, é rei à semelhança do pastor Davi. (Sabe-se que Davi começou sua campanha político-militar junto aos descontentes.) De fato, Mateus salienta com força que a salvação não vem de Jerusalém, onde está o tirano Herodes, mas de Belém (vv. 1.5.6.8), cidade do pastor Davi. O v. 6 – posto na boca dos chefes dos sacerdotes e dos doutores da Lei – reúne dois textos bíblicos: Mq 5,1 e 2Sm 5,2, situando em Belém o nascimento do rei dos judeus, e caracterizando a função desse rei: ele é um chefe que apascentará o povo de Israel. Portanto, de Belém (poderíamos dizer, da periferia de Jerusalém, pois Belém era uma aldeia a 8 km ao sul de Jerusalém), vai sair o líder alternativo, o chefe-pastor, aquele que vai defender o povo (ovelhas) da ganância dos exploradores (lobos).

·     O verdadeiro tipo de adorador é aquele que – no meio dessa sociedade conflituosa – descobre que a salvação não pode vir pela ação violenta do poderoso tirano, nem pela falsa religião patrocinada pelos líderes religiosos serviçais do prepotente Herodes. A salvação vem através do pequeno da periferia de Jerusalém. Os magos são os primeiros a intuir isso, e seu desejo é adorar esse novo poder que nasce do pobre (vv. 2.11). Eles são guiados por uma estrela (vv. 2.7.9.10), que exprime as intuições mais puras e os anseios mais profundos da humanidade sedenta de paz, justiça, fraternidade. Herodes, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei têm as Escrituras. Por meio delas sabem onde nascerá a esperança do povo, mas sua ambição e febre de poder procuram ardilosamente eliminá-la, como o rei Saul pretendera eliminar Davi (cf. 1Sm 18,11).


A segunda parte do texto de hoje (vv. 7-12) mostra a coerência dos pagãos em relação à nova forma de entender a sociedade e o mundo. Guiados pela estrela (vv. 9.10; note-se que ela só reaparece depois que se afastaram de Herodes e de Jerusalém), chegam a Belém e encontram o menino (vv. 9.11). Nesse “menino da periferia” reconhecem o Rei que faz justiça, e se prostram diante dele. De fato, os magos vêem “o menino e a mãe” (v. 11), prostram-se e oferecem tributos. A expressão “o menino e a mãe” faz pensar nos reis de Judá, quase sempre apresentados com sua mãe no dia da entronização. Os magos reconhecem, pois, a nova maneira de exercer a realeza e o poder. Aderem ao projeto de Deus que salva as pessoas a partir do pequeno e do pobre, e não a partir dos poderosos e violentos como Herodes.


O gesto de reconhecimento é acompanhado da oferta do que há de melhor em seus países: ouro, incenso e mirra. É possível ver aqui um eco do que diz o Salmo 72, que tem como eixo a pessoa do rei: “Que os reis de Társis e das ilhas lhe paguem tributos. Que os reis de Sabá e Seba lhe ofereçam seus dons. Que todos os reis se prostrem diante dele, e as nações todas o sirvam” (vv. 10-11; o episódio dos magos tem outras referências ao Antigo Testamento: Gn 49,10; Nm 24,17; Mq 5,1-3; Is 49,23; 60,1-6). Por que servir a esse rei e pagar-lhe tributo? Porque ele é o rei que faz justiça, defendendo os pobres do povo e salvando os filhos do indigente (v. 4). Para os Padres da Igreja, essas riquezas simbolizam a realeza (ouro), a divindade (incenso) e a paixão de Jesus (mirra). Fato é que os magos – símbolo dos que aceitam o poder de Deus manifestado no menino Jesus – em primeiro lugar doam-se a serviço do Salvador (= prostram-se) e, em seguida, põem à disposição de Jesus o melhor do que possuem, seus dons.


O texto termina mostrando que, definitivamente, o caminho da salvação não passa por Jerusalém, e menos ainda tem algo a ver com o aparato político-repressor do despótico Herodes. Os magos voltam para casa por outro caminho, que o discernimento lhes indicou. (O trecho recorda a atitude do profeta anônimo de 1Rs 13,9-10.) Romperam de uma vez por todas com Herodes e Jerusalém. O texto diz que foram “avisados em sonho”. Como entender isso? Teriam tido de fato uma visão? Não será mais fruto de intuição profunda, iluminada pela presença do menino ao qual adoram e servem, de que a salvação não passa por Jerusalém e por Herodes? De fato, todos nós sonhamos, mas nem sempre lembramos nossos sonhos. Permanecem puras intuições, fantasias, sem que mudem a rota de nossas vidas e nossa pastoral. O sonho dos magos é a inspiração de que do poder opressor nada nasce de bom para a sociedade. Eles souberam mudar suas perspectivas e sonhar um mundo novo… Adorando o menino Jesus, pondo-se a serviço dele, saberemos nós também sonhar um futuro melhor, sem voltarmos aos Herodes de hoje? [[Vida Pastoral n.252, Paulus, 2007]

 

Esse episódio nos recorda que é grave engano supor que a salvação e a vida venham dos poderosos. Ao se aliar com eles, a Igreja se torna cúmplice de seus projetos de morte. Os magos, ao tomar rumo novo, apontam para a novidade que nos espera e desafia no campo da evangelização.

 

A Palavra se faz oração (Missal Dominical)

·     Pela Santa Igreja, para que, iluminada pelo Cristo Senhor, leve a luz do evangelho a todos os homens e cumule a esperança dos povos rezemos ao Senhor: Venha o vosso reino, Senhor!

·     Pelos povos do mundo inteiro, para que se incremente tudo o que contribui para o entendimento e a fraternidade universal e os governos procurem, sobretudo os interesses da justiça e da paz, rezemos ao Senhor:

·     Pela nossa comunidade, para que não seja só praticante, mas tenha fé, e saiba reconhecer nos sinais dos tempos a vontade do Senhor, rezemos ao Senhor:

·     Pelos homens de ciência, para que encontram o Deus vivo e verdadeiro, que dará pleno sentido às suas pesquisas e à sua vida, rezemos ao Senhor:

·     (Outras intenções, a critério da equipe de liturgia).

 

Oração sobre as Oferendas:

Ó Deus, olhai com bondade as oferendas da vossa Igreja, que não mais vos apresenta outro, incenso e mirra, mas o próprio Jesus Cristo, imolado e recebido em comunhão nos dons que o simbolizam. Por Cristo, nosso Senhor.

 

Antífona da comunhão:

Vimos a sua estrela no Oriente e vivemos com presentes adorar o Senhor. (Mt 2,2)

 

Oração Depois da Comunhão:

Ó Deus, guia-nos sempre e por toda parte com a vossa luz celeste, para que possamos acolher com fé e viver com amor o mistério de que nos destes participar. Por Cristo, nosso Senhor!

  

Para sua reflexão: Durante esta semana reflita sobre o Salmo 71(72) 12-13. O pobre, o indigente, não é necessariamente o miserável que não tem dinheiro, não tem casa, não tem alimento, não tem saúde; o pobre pode ser aquele irmão vizinho, o colega de trabalho do lado, carente de amor, atenção, de uma palavra amiga, de um conselho, frente aos desatinos da via (drogas, bebidas, vícios destrutivos à família). Madre Tereza dizia: "Cada um deles é Jesus disfarçado" O mundo está carente de amor, de fato! Senhor, o que queres que eu faça?

 

Benção Final (ou a critério do celebrante), em três tempos:

·     Deus, que vos chamou das trevas à sua luz admirável, derrame sobre vós as suas bênçãos e vos confirme na fé, na esperança e na caridade;

·     Porque seguis confiantes o Cristo, que hoje se manifestou aos mundo como luz entre as trevas, Deus vos torne também uma luz para os vossos irmãos.

·     Terminada a vossa peregrinação, possais chegar ao Cristo Senhor, luz da luz, que os magos procuravam guiados pela estrela e com grande alegria encontraram.

 

Abençoe-vos Deus todo-poderoso, Pai e Filho e Espírito Santo.

 

Curiosidades das Igrejas Orientais:

O Natal armênio acontecerá no dia 6 de janeiro de 2011;

A Epifania ortodoxa acontecerá também no dia 6 de janeiro;

Natal Ortodoxo: 7 de janeiro de 2011. A diferença nas comemorações natalinas data do tempo do Papa Gregório XIII que mudou o calendário Juliano para o Gregoriano. Várias igrejas não católicas se recusaram a usar o novo calendário. Só as igrejas ortodoxas da Rússia, Ucrânia, Servia e Grécia observam esta data.

Epifania Ortodoxa[2]: 19 de janeiro de 2011



[1] Numeração dos Salmos: a numeração dentro do primeiro parêntese refere-se á anotação hebraica; a de fora segue a Nova Vulgata, adotada pela Igreja Católica e também usada pela Bíblia AVE-MARIA; as demais seguem a numeração inversa (Nova Vulgata dentro do parêntese). A numeração dos versículos (estrofes) é obtida no DIRETÓRIO LITÚRGICO DA CNBB, 2011; a numeração do segundo parêntese está relacionada ao versículo de resposta.

[2] Epifania vem da palavra grega "epiphaneia" que significa "manifestação" quando se comemora a aparição do Menino Jesus para os Magos (ou os Três Reis Magos). Ele marca o fim do período de doze dias de Natal e é também chamada de "A Adoração dos Magos" ou "A Manifestação de Deus". Segundo a lenda baseada em um capítulo da Bíblia, três reis, Caspar, Melchior e Baltazar viram uma estrela brilhante na noite do nascimento de Cristo. Eles seguiram a estrela para Belém onde encontraram o menino Jesus. Os três reis deram à criança ouro, incenso e mirra. A religião ortodoxa segue o calendário juliano e não o gregoriano