Domingo, 1º de março de 2009

Primeiro da Quaresma, Ano B, 1ª Semana do Saltério (Volume II) cor Litúrgica Roxa

 

Quando meu servo chamar, hei de atendê-lo, estarei com ele na tribulação. Hei de livrá-lo e glorificá-lo e lhe darei longos dias. (Sl 90, 15-16)

 

Santos do Dia: Alberto de Fontenelle (monge, bispo), Alexandre e Companheiros (mártires de Roma), Alto de Altomünster (abade), Amon, Emiliano, Lassa e Companheiros (mártires de Membressa, na África), Amônio e Alexandre (mártires de Soli, em Chipre), Aniano de Llanengan (eremita), Apolônia de Alexandria (virgem) com Metras, Quinta e Serapião (todos mártires), Elídio de Llandaff (bispo), Miguel do Equador (religioso), Nebrídio de Egara (bispo), Nicéforo de Antioquia (mártir), Primo e Donato (diáconos, mártires da África), Reinaldo de Nocera (monge, bispo), Sabino de Canossa (bispo), Álvaro de Córdoba (dominicano, bem-aventurado), Mariano Scoto (abade, bem-aventurado)

 

Oração do Dia: Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta Quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa.  Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 

 

I Leitura: Gêneses (Gn 9, 8-15)
Uma vida longa será sinal de bênção

8Disse Deus a Noé e a seus filhos: 9"Eis que vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, 10com todos os seres vivos que estão convosco: aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra, que saíram convosco da arca. 11Estabeleço convosco a minha aliança: nunca mais nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra".

12E Deus disse: "Este é o sinal da aliança que coloco entre mim e vós, e todos os seres vivos que estão convosco, por todas as gerações futuras: 13ponho meu arco nas nuvens como sinal de aliança entre mim e a terra. 14Quando eu reunir as nuvens sobre a terra, aparecerá meu arco nas nuvens. 15Então eu me lembrarei de minha aliança convosco e com todas as espécies de seres vivos. E não tomará mais a haver dilúvio que faça perecer nas suas águas toda criatura". Palavra do Senhor!

 

 

Salmo: 24(25), 4bc-5ab.6-7bc.8-9 (R/.cf.10) 
Verdade e amor são os caminhos do Senhor

Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação.

Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e a vossa compaixão que são eternas! De mim lembrai-vos, porque sois misericórdia, e sois bondade sem limites, ó Senhor!

O Senhor é piedade e retidão, e reconduz ao bom caminho os pecadores Ele dirige os humildes na justiça, e aos pobres ele ensina seu caminho.

 

II Leitura: 1ª carta de S. Pero (1Pd 3, 18-22)
Salvos por meio das águas

Caríssimos: 18Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Sofreu a morte, na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito.

19No Espírito, ele foi também pregar aos espíritos na prisão, 20a saber, aos que foram desobedientes antigamente, quando Deus usava de longanimidade, nos dias em que Noé construía a arca. Nesta arca, umas poucas pessoas - oito - foram salvas por meio da água.

21A arca corresponde o batismo, que hoje é a vossa salvação. Pois o batismo não serve para limpar o corpo da imundície, mas é um pedido a Deus para obter uma boa consciência, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo. 22Ele subiu ao céu e está à direita de Deus, submetendo-se a ele anjos, dominações e potestades. Palavra do Senhor!

 

 

Evangelho: Marcos (Mc 1, 12-15)
Jesus luta e vence satanás

Naquele tempo, 12o Espírito levou Jesus para o deserto. 13E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e ai foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos o serviam.

14Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: 15"O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!" Palavra da Salvação!

 

 

Convertei-vos e crede no evangelho[1]

 

A vigília de um grande acontecimento é marcada por um tempo de reflexão, como que um recolhimento antes de penetrar na nova vida. Todas as interrogações e hesitações desaparecerão depois na viagem para novos horizontes.

 

O batismo de um adulto comporta essa radicalidade, uma mudança de hábitos, atitudes, centros de interesse; começa realmente outra vida. É análoga à experiência do matrimônio, da consagração sacerdotal ou religiosa. Cristo é levado ao deserto pelo Espírito, a fim de se preparar para sua missão (evangelho): deixa os hábitos cotidianos, o ritmo de vida, os laços de família e amizade, para seguir um caminho que o conduzirá à sua páscoa; esse corte do que ficou para trás já é uma antecipação do sacrifício de sua vida.

 

Tudo ou nada

Também a  nós  o  anúncio  do evangelho de hoje é feito em termos que levam a pensar. É global, não analítico. "O reino de Deus está presente": portanto, mudai de vida, disponde-vos a fazer o que o evangelho (isto é, a realidade de Cristo, filho de Deus) vos propõe.

 

Nessas afirmações, Cristo não admite compromissos ou ambigüidades. Só há um caminho para o homem: converter-se. Para um semita, a conversão implica a imagem de um homem que se afasta do caminho habitual e se volta para outra direção. Nesse esforço de libertação há perigo de ilusões, enquanto quem aspira à conversão pode perder-se em exterioridades e práticas. A conversão é uma atitude que envolve "todo" o homem, não só como renúncia ao pecado, mas principalmente como nova orientação para o futuro. Implica freqüentemente uma crise de fé que termina na mais profunda experiência de Deus.

 

Cada um de nós estará pronto, nossa comunidade estará pronta a crer no evangelho? a cortar o que ficou para trás, a levar a sério a aliança com Deus? a viver segundo a "reta consciência , a deixar-se conduzir pelo Espírito aonde ele o quiser e a percorrer o caminho de Cristo rumo à sua páscoa, com plena disponibilidade a todas as exigências de uma autêntica "conversão"?

Este nosso tempo é um "dilúvio": salvam-se os que, como Noé, não estão satisfeitos com o bem-estar alcançado por sua civilização, e crêem na palavra de Outro, mesmo a custa de enfrentar o ridículo de construir uma arca (1ª leitura). Salvam-se os que, como Cristo, deixam tudo para, com ele, construir a humanidade nova (2ª leitura).

 

Não basta um "prudente" reformismo

Diante da situação social do nosso tempo, com suas dramáticas injustiças, são muitos os que refutam as soluções parciais, os retoques para melhorar o quadro geral, as intervenções limitadas a esse ou àquele setor a fim de torná-lo mais funcional. Em uma palavra, refutamos o reformismo, espécie de compromisso que só atinge os particulares, deixando intato todo o sistema. Precisamos de uma solução global. O convite peremptório de João: "Convertei-vos e crede no evangelho" é convite à conversão total, para além de todo reformismo interior.

Não se trata de retocar algo em nossa vida, mas de mudança radical de mentalidade, de quadros de valores, de opções fundamentais. O homem deve crer em alguma coisa e em alguém; não vive sem uma fé.

Há os que crêem nos mitos do tempo, nas solicitações publicitárias, no puro egoísmo pessoal que bloqueia e esteriliza o homem.

 

Indicações para um percurso futuro

A Quaresma nos convida, como indivíduos e comunidades, a crer no evangelho, isto é, a libertar-nos de todo ídolo e mitologia; a confiar plenamente no Cristo e em sua palavra; a engajar-nos profundamente no caminho por ele indicado, passando pelo sacrifício e a cruz, visando a atingir a libertação da Páscoa. A conversão a Cristo deve exprimir-se em todos os campos e todas as relações, tanto em pequena escala, entre homem e homem, como em grande escala, entre as instituições que governam a sociedade, segundo as indicações da Populorum Progressio. Pensar em conversões rápidas, repentinas, é precisamente não querer mudar nada; é necessário comprometer-se em algo de concreto, dar um passo cada dia, como a Quaresma nos convida a fazer; é preciso cada dia interrogar-se sobre o que se pode fazer, e querer fazê-lo.

 

 



[1] Missal Cotidiano, ©Paulus, 1995