Maria e Abraão em Lucas 
José Haical Haddad


  


INTRODUÇÃO 

A narrativa da CRIAÇÃO diz que “Deus plantou UM JARDIM no Éden, no oriente, e aí colocou o homem que modelara” (Gn 2, 8). Focalizando o conjunto da narração, intriga por demais o ato especialmente praticado pelo próprio Deus de “plantar” Ele mesmo o Jardim, tendo criado o Homem com esse “múnus”:

Quando Iahweh Deus fez a terra e o céu, não havia ainda nenhum arbusto dos campos sobre a terra e nenhuma erva dos campos havia crescido, porque Iahweh Deus não tinha feito chover sobre a terra e NÃO HAVIA HOMEM PARA CULTIVAR O SOLO. ENTÃO IAHWEH DEUS MODELOU O HOMEM..." (Gn 2,4-7)  
  
Significa isso que o “plantio” do “Jardim de Deus” (Ez 28,13; 31,9), por ter sido feito pelo próprio Criador, não tem a mesma qualidade material da Criação, mas tem uma dimensão espiritual, qual seja uma elevação do estado material do homem a um estado especial. Tanto é assim que, figurativamente, “Iahweh Deus passeava no jardim, à brisa do dia” (Gn 3,8), indicando uma profunda familiaridade, intimidade e comunhão de vidas que nesse lugar se estabelecera entre Adão e Eva, e Deus. O mais dramático efeito da denominada Queda Original, conseqüente à expulsão, foi, então, o retorno do Homem ao seu “múnus” anterior de “cultivar o solo de onde tinha sido tirado” (Gn 3,23 / 2,4-7), confirmando a perda do estado a que havia sido elevada a criatura predileta de Deus. Esclarece mais ainda o narrador que “Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, E OS VESTIU” (Gn 3,21), significando a irreversibilidade dos desígnios de Deus para o Homem e a Mulher, e para toda a Criação: 

Deus não é homem para que minta, nem filho de Adão, para que se retrate. Por acaso ele diz e não o faz, fala e não realiza?” (Nm 23,19) 

Assim sendo, dada a irreversibilidade dos desígnios de Deus para toda a Criação, as conseqüências da Queda Original atingem-na, mas se concentram no Homem:

Penso, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se em nós. Pois a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a criação foi submetida à vaidade - não por seu querer, mas por vontade daquele que a submeteu - na esperança de ela ser também liberta da escravidão da corrupção para entrar na li-berdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores do parto até o presente. E não somente ela. Mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo." (Rm 8,18-23) 

Para ele é que tudo piorou, a partir de sua própria natureza, agora corrompida pelas conseqüências do pecado, e da terra, agora amaldiçoada e demandando um maior esforço para, a duras penas, produzir-lhe frutos para a subsistência (Gn 3,17-19). Porém, aquele desígnio de Deus de elevar o Homem ao “estado de comunhão” com Ele persiste, manifestando-se de várias maneiras no desenrolar de toda a História Humana. Exprime-se com mais firmeza principalmente pela ALIANÇA que contraiu com ABRAÃO, ISAAC E JACÓ (ISRAEL), tornando-se, por meio de Moisés, o Povo de Deus, e conduzindo-os “a uma terra onde mana o leite e o mel” (Ex 3,8). A conquista da Terra Prometida e o estabelecimento nela das doze tribos refletem ainda o ingresso do Homem no Paraíso, que em definitivo será propiciada por Jesus Cristo, tal como Ele mesmo diz, no Alto da Cruz:

... hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43) 

Assim, alguns dos eventos narrados no Antigo Testamento, pertinentes à História da Salvação, são “anúncios e figuras” (Rm 15,4; 4,23s; 1Cor 10,6.11 etc.) do que sucederá “definitivamente” com a Encarnação do Verbo, a concretização da Aliança, tal como confirmam os Evangelhos. Lucas diz, no início do dele, que se inteirou dos fatos que narra com os que “desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra” e “após acurada investigação de tudo desde o princípio” (Lc 1,1-3). Afirma duas vezes que “Maria conservava a lembrança de todos estes fatos em seu coração” (Lc 2,19 e 51). Daí se conclui que tudo aquilo que estava no “coração de Maria”, fatos que somente Ela conhecia, foi-lhe por Ela mesma relatado ou confirmado. Entre esses fatos está, evidentemente, o narrado da ANUNCIAÇÃO DO ANJO (Lc 1,26-38). Facilmente se percebe a semelhança e harmonia deste com outros episódios da Bíblia, a partir da ALIANÇA COM ABRAÃO, em que se repetem vários elementos, e cuja repetição faz entrever uma identificação de “anúncios e figuras”, que vinculam o acontecimento de então àqueles, assim como ao que se pode de-nominar de ANUNCIAÇÃO DE ISAAC (Gn  15,1-20; 17,19). 

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OS “NÃO TEMAS” 

 Constata-se inicialmente a presença sistemática da expressão “...NÃO TEMAS...”, expressão que surge sempre que um eleito se vê face a face com uma missão a que Deus o convoca (Gn 15,1; 26,24; 46,3; 50,19;...; Mt 1,20; 10,26.28.31; Lc 1,13.30;...), bem como quando da oposição que as mais das vezes surge do desencontro da fé com as coisas do mundo. Aconteceu isso com Abraão, ao recusar os despojos a que tinha direito (cfr. Gn 15,1). Ora, desde a sua conversão teve que enfrentar inúmeras dificuldades, tendo que se afastar de seu clã, garantia de sua segurança e sobrevivência naquele tempo. Numa época em que se acreditava em vários deuses, cada clã ou tribo se formava em torno de um deles. Quando Abraão deixa de adorar o deus do clã (Jos 24,2) e passa a adorar Iahweh ou El Shaddai (Ex 6,3), não poderia mais nele permanecer. São coisas da cultura do tempo em que se deram tais fatos. Hoje em dia, e para qualquer pessoa, não é um problema insuperável se afastar da família, do convívio dos conterrâneos ou da terra natal, e até mesmo da religião. Pode-se viver praticamente em segurança em qualquer lugar do mundo. Mas, nos dias de Abraão, era-lhe por demais comprometedora a sobrevivência. Basta se lembrar que foi esse o castigo imposto por Deus a Caim (Gn 4,11-14), e, o mesmo Abraão, sentiu-se obrigado a pedir que sua mulher Sara dissesse ser sua irmã, por causa do perigo de ser morto para dela se apropriarem (Gn 12,10-13; 20,1-7). Da mesma forma, não reteve os despojos advindos da sua vitória, libertando Lot e os Reis reduzidos à escravidão (Gn 14,21-24). Se bem que, além da prudência, havia também a sua consagração a Deus (Gn 14,22-23 / 2 Rs 5,16) e, não pertencendo a um clã que lhe servisse de suporte, adorando um deus desconhecido e impotente face aos olhos do mundo de então, temeu. O próprio Deus vem então em seu socorro, ocasião em que Abraão exala a sua ansiedade mais íntima: faltava-lhe um filho, um herdeiro:

 “Depois desses acontecimentos, a palavra de Iahweh foi dirigida a Abrão, numa visão: ‘NÃO TEMAS, ABRAÃO! Eu sou o teu escudo, tua recompensa será muito grande.’ Abrão respondeu: ‘Meu Senhor Iahweh, que me darás? Continuo sem filho, e Damasco Eliezer será o herdeiro de minhaAbrão disse: ‘Eis que não me deste descendência e um dos servos de minha casa será meu herdeiro.’ Então foi-lhe dirigida esta palavra de Iahweh: ‘Não será esse o teu herdeiro, mas alguém saído de teu sangue.’ Ele o conduziu para fora e disse: ‘Ergue os olhos para o céu e conta as estrelas, se as puderes contar’, e acrescentou: ‘Assim será a tua posteridade.’ Abrão creu em Iahweh, e lhe foi tido em conta de justiça” (Gn 15,1-6)  

Quando o narrador situa essa manifestação de Iahweh “depois desses acontecimentos...” a está situando após todos os fatos narrados desde a conversão de Abraão, que modificara e dificultara por demais a sua vida. Não tendo filho, teria que se contentar com um herdeiro que não era de sua descendência, como lhe exigia a cultura do tempo. De tudo isso e da entrega incondicional, adveio-lhe o temor seguido do consolo, que o próprio Deus lhe traz com o “NÃO TEMAS”. Essa expressão aparece também tanto na Anunciação de João Batista (a Zacarias) como na Anunciação de Jesus Cristo (a Maria), conforme a tabela abaixo:

Gn 15, 1
Lc 1, 13
Lc 1, 30
Não temas, Abrão! Eu sou o teu escudo, tua recompensa será muito grande”   Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi ouvida...”  Não temas, Maria! Encontraste Graça junto de Deus...”  

É o próprio Lucas quem registra que as duas últimas foram o “cumprimento” da primeira, qual seja em João Batista e em Jesus Cristo a Promessa feita a Abrão e sua descendência se concretiza para sempre, por exemplo, dentre outros versículos:

Lc 1, 54-55
Lc 1, 72-73
“Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia, - conforme prometera a nossos pais, - em favor de Abraão e de sua descendência para sempre!  “(...) para fazer misericórdia com nossos pais, lembrado de sua Aliança Sagrada, do jura-mento que fez ao nosso pai Abraão... 

Também com Zacarias e Maria há a explícita referência ao nascimento de um filho advindo diretamente de Deus, para uma missão específica a:

Abraão
Zacarias
Maria
"Continuo sem filho, eis que não me deste descendência... Então foi-lhe dirigida esta palavra de Iahweh: ‘Não será esse o teu herdeiro, mas alguém saído de teu sangue (...) (Gn 15,1-20). 
"... tua súplica foi ouvida, 


"Encontraste Graça diante de Deus. 
Não, mas tua mulher Sara te dará um filho: tu o chamarás Isaac; estabelecerei minha ALIANÇA com ele, como ALIANÇA PERPÉTUA,  e Isabel, tua mulher, vai te dar um filho, ao qual porás o nome de João. Terás alegria e regozijo, e muitos se alegrarão com o seu nascimento. Pois ele  Eis que conceberás e darás à luz um Filho, e o chamarás com o nome de Jesus. 

Ele 
["... engrandecerei o teu nome..." (12,2)]. 



será grande diante do Senhor; não beberá vinho, nem bebida inebriante; ficará ple-no do Espírito Santo ainda no seio de sua mãe, e converterá muitos dos filhos de Israel ao  Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, 



 
para ser o seu Deus e o de sua descendência depois dele” (Gn 17,19). Senhor, seu Deus. Ele caminhará a sua frente com, (...) para preparar ao Senhor um  e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; 
“...um grande povo...”(12,2)
À tua posteridade darei esta terra...” (Gn 15,20).
povo bem disposto. (...)”(Lc 1,13-20). 
pele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim...”  
(Lc. 1,28-38). 

Abraão, enquanto “Abrão”, preocupou-se com um herdeiro para os seus bens materiais, seja em virtude da Promessa seja para atender ao que exigia a vocação que Deus lhe dirigira, na qual se fazia referência a se tornar “um grande povo... e uma bênção” (Gn 12,2-3) e que “daria aquela terra à sua posteridade” (Gn 12,7 e 15,7.18). Os motivos referentes à História da Salvação ou à Redenção propriamente dita despontavam em Abrão apenas em “figura”. Não era essa a situação de Zacarias, muito menos a de Maria, eis que não buscavam especificamente um herdeiro, muito menos pelos mesmos motivos, principalmente culturais, de Abraão. Com Zacarias e Maria, porém, a Redenção exala majestosamente da narrativa e de todo o contexto cultural. Tudo era Messiânico naqueles dias na Judéia, e dali irradiar-se-ia “para todos os povos” (Gn 12,3) como ‘GRAÇA’, uma fecundidade em plenitude (Jo 10,10), de que a ‘BÊNÇÃO’ prometida a Abraão é “figura”. 

Paralelamente vê-se que, apesar de Zacarias ser um membro da Casa de Aarão, a quem pertencia o exercício do sacerdócio “por decreto perpétuo” (Ex 29,9) e cujas funções agora exercia (Lc 1,5-9 / 1 Cr 24,10), “ao ver o Anjo do Senhor perturbou-se, e o temor apoderou-se dele” (Lc 1,11), pelo que foi tranqüilizado:

“Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi ouvida, e Isabel, tua mulher, vai te dar um filho, ao qual porás o nome de João” (Lc 1, 13) 

Diferentemente de Abraão, inexistindo motivos circunstanciais para “temer”, é clara a afirmação do Anjo de que a oração dele fora atendida. Porém, vê-se que, em virtude de não haver acreditado (Lc 1,20), bem como de estarem, Ele e Isabel, com “avançada idade” (Lc 1,18-20), o atendimento “à tua súplica” se refere a pedido já resignadamente conformado, feito quando ainda em pleno vigor físico. Com a aparição do Anjo naquela solenidade que agora dirigia, claro fica que se atendia ao pedido que habitualmente se fazia nela, pessoalmente e com todo o Povo de Deus, pelo “cumprimento” das Promessas feitas a Abraão, conforme canta no “Benedictus” (Lc 1,68-79, destacando-se os vv. 72-73), e pelo advento da era messiânica. Ambos os pedidos, o de um filho, quando feito por ele e Isabel, e o do cerimonial, estavam sendo atendidos conjuntamente naquele momento, conforme o conteúdo messiânico da Anunciação de João Batista, então feita (Lc 1,11-25). Zacarias temeu antes mesmo de qualquer manifestação do Anjo, e sem nenhum motivo aparente, a não ser que lhe ocorresse um possível temor reverencial, aquele “ver Deus é morrer” (cfr. Jr. 6,22; 13,22; Is 6,5; Ez 2,1; Dn 10,8 etc.), face a Gloriosa Majestade de Iahweh. E, mesmo se admitindo que Zacarias, argumentando apenas, e contra os fatos já ditos, estivesse pedindo ainda um filho, inexistia uma herança tal como no caso de Abraão, não se tratando da necessidade “material” de um herdeiro. Também inexistia conflito com o mundo, pois Zacarias já era membro de um povo estabelecido e um respeitado sacerdote em exercício, escalado dentre outros para as funções relativas ao “incenso”. Não havia motivo para o “Não Temas” de Zacarias, tal como o que houvera para o de Abraão.  

Com Maria, também, inexistia motivo para “temer” e o pano de fundo é o mesmo, UM FILHO, com uma grande diferença dos demais: sabe-se pelo próprio contexto da narração que não foi pedido por Ela, nem por Ela reclamado. A narrativa é clara ao dizer que ao ouvir a saudação do Anjo, “ficou intrigada com esta palavra e pôs-se a pensar qual seria o significado da saudação” (Lc 1,28-29), ao que o Anjo lhe diz:

Não temas, Maria! Encontraste GRAÇA junto de Deus. Eis que conceberás e darás à luz UM FILHO, e o chamarás com o nome de JESUS. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor lhe dará o trono de Davi, seu pai” (Lc 1, 30-32) 

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