Quinta Parte
DEUTERENÔMIO
A Legislação Deteuronomista

5.27. AS LEIS DE IAHWEH ("CÓDIGO DEUTERONÔMICO")

Pelo fato de apresentar alguns dos dispositivos anteriores, ampliados pela experiência do deserto (cfr. Dt 11,2-7 / Dt 5,15), e melhor descrever as algumas instituições, é que as denominações do grego, "Recapitulação da Lei" ou "Segunda lei", seriam impróprias, não ocorrendo o mesmo com o significado hebraico, "Cópia da Lei" (Dt 17,18). Não se trata de nova codificação, mas de uma exortação à fidelidade e obediência irrestritas, oferecendo explicações e esclarecimentos necessários à uma conscientização racional, exaltando sempre os motivos para as acatar. Na realidade, no momento da conquista definitiva, Moisés apresenta as Leis de Iahweh, que condicionarão o comportamento Israelita na Terra Prometida:

"(11)31 Pois ides passar o Jordão para entrardes e possuirdes a terra que vos dá Iahweh, vosso Deus; possuí-la-eis e nela habitareis.32 Tende, pois, cuidado em cumprir todos os estatutos e os ordenamentos que eu, hoje, vos prescrevo.(12)1 São estes os estatutos e os ordenamentos que cuidareis de cumprir na terra que vos deu Iahweh, Deus de vossos pais, para a possuirdes todos os dias que viverdes sobre a terra" (Dt 11,31-12,1).

Unificado todo o povo em torno de um Único Deus, Iahweh, torna-se indispensável uma só estrutura com fundamento religioso, em que se projetará com a Glorificação do Nome de Iahweh, no Território da Sua "Herança". É a Missão de Israel, em cumprimento da Aliança, cuja glorificação se refletiria no comportamento Israelita, difundindo-a assim, aos demais povos, pelo "Filho Primogênito de Iahweh" (Ex 4,23; 13,2 / Nm 8,16-18). Ao mesmo tempo, por primeiro e necessariamente, era indispensável "purificar" o solo da Terra Prometida, contaminada pela adoração de deuses pagãos, dos cananeus que habitavam a região, erradicando-os, e assim caracterizando-se a supremacia de Iahweh, "O Deus dos deuses" (Dt 10,17):

"2 Destruireis por completo todos os lugares onde as nações que ides desapossar serviram aos seus deuses, sobre as altas montanhas, sobre os outeiros e debaixo de toda árvore frondosa;3 deitareis abaixo os seus altares, e despedaçareis as suas colunas, e os troncos sagrados queimareis, e despedaçareis as esculturas dos seus deuses, e apagareis o seu nome daquele lugar" (Dt 12,2-3).

Ao contrário dos costumes pagãos, que erigiam seus locais de culto nas alturas, "não fareis assim para com Iahweh, vosso Deus..." - os antigos desconheciam o universo imenso e acreditavam em vários "céus" onde habitavam os deuses. Dessa maneira, quanto mais alto, mais próximo da divindade. Nesses locais se transmitiam e se memorizavam as suas mais caras tradições religiosas, bem como a história da tribo ou grupo ou povo. Ai se localizavam os sacrifícios e até mesmo centros de instrução, à sombra fresca das árvores, ainda muito apreciada no Oriente Médio, considerada como a estadia preferida dos deuses, quando visitavam o mundo. Ainda se traz na linguagem cotidiana vestígios dessa crença ao se dizer "Glória a Deus no mais alto dos céus", "O Deus Altíssimo" etc.. Ao contrário, Israel, "...buscará o lugar que Iahweh, vosso Deus, escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome e sua habitação; e para lá ireis", repetindo-se, do deserto, idêntica centralização do culto num Único Santuário, onde "Iahweh habita entre eles" (Ex 25,8 / Dt 12,5.11). Novamente vai o Santuário se estruturar como centro gravitacional da vida do Israelita, congregado e consagrado à Aliança, para a santificação do seu primeiro protagonista, separado dentre todos os povos da terra, "primícias" da vida em comunhão com Iahweh:

"4 Não fareis assim para com Iahweh, vosso Deus,5 mas buscareis o lugar que Iahweh, vosso Deus, escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome e sua habitação; e para lá ireis.6 A esse lugar fareis chegar os vossos holocaustos, e os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos, e a oferta das vossas mãos, e as ofertas votivas, e as ofertas voluntárias, e os primogênitos das vossas vacas e das vossas ovelhas.7 Lá, comereis perante Iahweh, vosso Deus, e vos alegrareis em tudo o que fizerdes, vós e as vossas casas, no que vos tiver abençoado Iahweh, vosso Deus. (...) 13 Guarda-te, não ofereças os teus holocaustos em todo lugar que vires;14 mas, no lugar que Iahweh escolher numa das tuas tribos, ali oferecerás os teus holocaustos e ali farás tudo o que te ordeno" (Dt 12,4-14).

Diferentemente da sistemática anteriormente usada, onde com mais detalhes e técnica, foram apresentados os Sacrifícios (cfr. Lv 1-7), Moisés apresenta as modificações nos rituais, numa exposição menos formal e em termos de obediência às Leis da Aliança de Iahweh. Destaca-se a primeira delas, vinculada à Missão de Israel, pela disposição de um único Santuário, onde seriam oferecidas as vítimas dos vários sacrifícios rituais. Tal disposição se impunha culturalmente pelo fato de que a Iahweh pertencia aquele território, prometido desde Abraão, motivo por que sua soberania exigia a "purificação pelo expurgo dos vestígios de deuses estranhos", com a conseqüente e exclusiva adoração de Iahweh. Também, pelo reconhecimento e gratidão devidos, para a própria segurança, paz e felicidade, pois "...passareis o Jordão e habitareis na terra que vos fará herdar Iahweh, vosso Deus; e vos dará descanso de todos os vossos inimigos em redor, e morareis seguros; e, haverá um lugar que escolherá Iahweh, vosso Deus, para ali fazer habitar o seu nome; a esse lugar fareis chegar tudo o que vos ordeno: os vossos holocaustos..." Também, por fidelidade a quem lhes dá a Terra Prometida, "não procedereis em nada segundo estamos fazendo aqui, cada qual tudo o que bem parece aos seus olhos..." (Dt 12,8), deixariam os costumes tribais em que se dividiam quanto às várias tradições do nome de Deus, fixando-se apenas em Iahweh, que "amarás com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força" (Dt 6,5). Somente então conheceriam vivencialmente a comunhão com Iahweh, "porque, até agora, não entrastes no descanso e na herança que vos dá Iahweh, vosso Deus", "...e vos alegrareis perante Iahweh, vosso Deus...".

 

5.27.1. As Leis Cultuais

Algumas disposições relativas ao Sacrifício sofrem alteração pelo fato da impraticabilidade delas se realizarem no Santuário único. Tal é o caso do abate de animais para o consumo cotidiano ou doméstico que sempre se faria nele (cfr. Lv 17,3-5) e, na Terra Prometida, poderá ser feito fora dele e em cada tribo. Neste caso não haveria o rigor na matança de animais, puros ou impuros, e por pessoas contaminadas ou impuras religiosamente. Não se destinando ao sacrifício, a exigência anterior de buscar o santuário central, num grande território ainda cheio de gentios, seria penoso e impraticável pela distância. Pela possível proximidade de algum altar pagão, seria tentador e mais fácil o seu uso, incorrendo-se em idolatria. Nada mais prático que, liberar o caráter sagrado de todas as matanças não sacrificiais, de uma refeição profana, imposto temporariamente no deserto. Poder-se-ia então comer, em qualquer lugar que não o santuário, tanto o animal puro como o impuro, bem como participar da refeição, tanto o puro como o impuro religiosamente:

"15 Porém, consoante todo desejo da tua alma, poderás matar e comer carne nas tuas cidades, segundo a bênção de Iahweh, teu Deus; o impuro e o puro dela comerão, assim como se come da carne do corço e do veado.16 Tão-somente o sangue não comerás; sobre a terra o derramarás como água (...) 23 Somente empenha-te em não comeres o sangue, pois o sangue é a vida; pelo que não comerás a vida com a carne.24 Não o comerás; na terra o derramarás como água.25 Não o comerás, para que bem te suceda a ti e a teus filhos, depois de ti, quando fizeres o que é reto aos olhos de Iahweh" (Dt 12,15-16.20-25).

Com a condição de não se alimentar do sangue, pelo que se mantinha essa sacralidade até mesmo do alimento profano, separam-se ("santificam-se") os Sacrifícios Rituais ou Sagrados. Somente estes, seriam celebrados na forma tradicional e no Santuário Central, por intermédio do Sacerdócio Oficial, e com a combustão ou distribuição das Oferendas ou Vítimas, a serem queimadas ou "comidas" pelos participantes. Incorpora-se, entre as várias Oferendas rituais, o Dízimo, motivo pelo qual encabeça a nomeação (Dt 12,17), apresentando-o como uma das oferendas, numa terminologia própria do Ritual de uma Refeição Sagrada e do Holocausto: - "...dízimo... primogênitos... ofertas votivas... ofertas voluntárias... ofertas das tuas mãos... comerás perante Iahweh...", "...e perante Iahweh, teu Deus, te alegrarás...", "e oferecerás os teus holocaustos, a carne e o sangue sobre o altar de Iahweh, teu Deus; e o sangue dos teus sacrifícios se derramará sobre o altar de Iahweh, teu Deus; porém a carne comerás". O Sangue é Vida, e como tal pertence só a Iahweh, cuja soberania é reconhecida e ratificada, dele não se alimentando nem mesmo na refeição profana, enquanto que, na Refeição Sagrada e no Holocausto, é ele queimado no Altar. Por sua vez, a carne será "comida" pelo ofertante e familiares, com a distribuição ao Sacerdote Oficiante de sua participação, consumando-se assim a comunhão com Iahweh (cfr. Lv 3 / Lv 7,15-21 / Lv 19,5-8):

"13 Guarda-te, não ofereças os teus holocaustos em todo lugar que vires;14 mas, no lugar que Iahweh escolher numa das tuas tribos, ali oferecerás os teus holocaustos e ali farás tudo o que te ordeno (...) 17 Nas tuas cidades, não poderás comer o dízimo do teu cereal, nem do teu vinho, nem do teu azeite, nem os primogênitos das tuas vacas, nem das tuas ovelhas, nem nenhuma das tuas ofertas votivas, que houveres prometido, nem as tuas ofertas voluntárias, nem as ofertas das tuas mãos;18 mas o comerás perante Iahweh, teu Deus, no lugar que Iahweh, teu Deus, escolher, tu, e teu filho, e tua filha, e teu servo, e tua serva, e o levita que mora na tua cidade; e perante Iahweh, teu Deus, te alegrarás em tudo o que fizeres.19 Guarda-te, não desampares o levita todos os teus dias na terra. (...) 26 Porém tomarás o que houveres consagrado daquilo que te pertence e as tuas ofertas votivas e virás ao lugar que Iahweh escolher.27 E oferecerás os teus holocaustos, a carne e o sangue sobre o altar de Iahweh, teu Deus; e o sangue dos teus sacrifícios se derramará sobre o altar de Iahweh, teu Deus; porém a carne comerás" (Dt 12,13-14.17-19.26-27).

Poder-se-ia até mesmo fazer um parêntesis para se tentar definir a Teologia do Deuteronômio, fundamentada por sua vez na Teologia do Repouso, cuja fundamentação é esclarecida por São Paulo, na Epístola aos Hebreus, vinculando-a à fidelidade ("fé") e à obediência, e oferecendo elementos para uma melhor compreensão:

"(c. 3)10 Por isso, me indignei contra essa geração e disse: sempre se enganam no coração; e também não conhecem os meus caminhos.11 Assim, jurei na minha ira: Não entrarão no meu repouso.12 Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo;13 pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado.14 Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos.15 Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como foi na provocação.16 Ora, quais os que, tendo ouvido, se rebelaram? Não foram, de fato, todos os que saíram do Egito por intermédio de Moisés?17 E contra quem se indignou por quarenta anos? Não foi contra os que pecaram, cujos cadáveres caíram no deserto?18 E contra quem jurou que não entrariam no seu repouso, senão contra os que foram desobedientes?19 Vemos, pois, que não puderam entrar por causa da incredulidade.(c. 4)1 Temamos, portanto, que, sendo-nos deixada a promessa de entrar no repouso de Deus, suceda parecer que algum de vós tenha falhado.2 Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas, como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram.3 Nós, porém, que cremos, entramos no repouso, conforme Deus tem dito: Assim, jurei na minha ira: Não entrarão no meu repouso. Embora, certamente, as obras estivessem concluídas desde a fundação do mundo.4 Porque, em certo lugar, assim disse, no tocante ao sétimo dia: E repousou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera.5 E novamente, no mesmo lugar: Não entrarão no meu repouso.6 Visto, portanto, que resta entrarem alguns nele e que, por causa da desobediência, não entraram aqueles aos quais anteriormente foram anunciadas as boas-novas,7 de novo, determina certo dia, Hoje, falando por Davi, muito tempo depois, segundo antes fora declarado: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração.8 Ora, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria, posteriormente, a respeito de outro dia.9 Portanto, resta um repouso para o povo de Deus.10 Porque aquele que entrar no repouso de Deus, também ele mesmo repousará de suas obras, como Deus das suas.11 Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele repouso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência.12 Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração" (Hb 3,10-4,12).

"Embora, certamente, as obras estivessem concluídas desde a fundação do mundo, (...) assim disse, no tocante ao sétimo dia: E repousou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera (...) Porque aquele que entrar no repouso de Deus, também ele mesmo repousará de suas obras, como Deus das suas. Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele repouso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência" - Esta vinculação feita pela Epístola aos Hebreus, traz à tona o significado do "repouso de Iahweh", tal como já analisado, de onde se transcreve para facilitar o acompanhamento do raciocínio:

O SÁBADO

O escritor bíblico ao idealizar os acontecimentos do passado mesclou-os com a cultura de então, levando para a origem ou para a Criação as instituições vigentes no seu tempo, ai localizando-as, tal como que justificando-as. É o caso do SÁBADO, como é conhecido o sétimo dia da semana. Com base no que já vimos podemos compreender o significado dado originariamente a ele, e qual o seu sentido religioso:

"Assim foram terminados o céu e a terra e todo o seu exército. E no sétimo dia Deus deu por terminada a obra por ele feita; e no sétimo dia CESSOU DE TODA A OBRA QUE HAVIA FEITO; e, por isso, DEUS ABENÇOOU O SÉTIMO DIA E O SANTIFICOU, porque nele cessou de toda a obra que, ele, CRIANDO, tinha feito. Esta é a geração do céu e da terra na sua CRIAÇÃO" (Gn 2,1-4).

A palavra "cessar" em hebraico pronuncia-se mais ou menos "shabat", de onde nos veio o nome e a pronúncia do sétimo dia da semana, do sábado, tal como é conhecido. Nesse trecho não se trata da instituição do respeito ao sábado, mas de explicar a sua distinção entre os outros dias, a ponto de se lhe vedar nele todo e qualquer trabalho. Não se trata de um "repouso de Deus", propriamente falando, Deus não precisa de repouso algum (Jo 5,17), mas do dia em que termina a Criação (Hb 4,4) e lhe dá o acabamento final, "abençoando-a". E, quando Deus abençoa, fecunda e "energiza" para que cumpra a sua finalidade, conforme os Seu Desígnios, tal como abençoara os animais e o homem ao criá-los. Não se trata de fecundar e "energizar" um dia tornando-o fértil para a "reprodução de outros dias", mas de imprimir na Obra da Criação as leis que lhe são peculiares, fecundando-a e "energizando-a" para que prossiga de conformidade com seus desígnios, abençoando-a toda. Deus CESSA DE CRIAR, apenas, tal como o próprio Jesus nos revela:

"...: meu pai trabalha sempre e eu também trabalho" (Jo 5,17).

Deus nada criou sem motivo e sem meta a atingir, muito menos para destruir. Daí porque Deus santificou o sétimo dia, qual seja, num sentido bíblico, "separou", distinguiu. Aparece então com toda a clareza a irreversibilidade e inexorabilidade da criação:

"Enquanto durar a terra, semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não há de faltar" (Gn 8,22)' [v. Capítulo I, n.º 7, deste Curso de Bíblia, negritos a propósito].

Tal como se pode verificar, o verbo "sh'bat" hebraico tem o sentido de "cessar o que se está fazendo e voltar ao estado anterior" - Foi isso o que Iahweh fez, "cessou somente de Criar, com o quê "volta" ao estado anterior da Criação, permanecendo na própria intimidade". Com base nessas conclusões, amparadas nas citações transcritas e destacadas, facilmente se deduz que o oferecido aos Israelitas fiéis é o Repouso de Iahweh, o Cessar de Combater, com a Bênção da Terra Prometida e sua entrega ao gozo de suas qualidades naturais. Porém, tal fato somente se completará com o Rei Messias Davi, num anúncio Profético e Messiânico. A Teologia do Repouso prepara e representa "em figura" a Redenção de Cristo:

"1 Sucedeu que, habitando o rei Davi em sua própria casa, tendo-lhe Iahweh dado repouso de todos os seus inimigos em redor (...) 4 ...naquela mesma noite, veio a palavra de Iahweh a Natã, dizendo:5 Vai e dize a meu servo Davi: Assim diz Iahweh: (...) 10 Prepararei um lugar para o meu povo, para Israel, e o plantarei, para que habite no seu lugar e não mais seja perturbado, e jamais os filhos da perversidade o aflijam, como dantes,11 desde o dia em que mandei houvesse juízes sobre o meu povo de Israel. Dar-te-ei, porém, repouso de todos os teus inimigos; também Iahweh te faz saber que ele, Iahweh, te fará casa" (2 Sm 7,1.4-5.10-11).

É a este "Repouso de Deus" que Jesus leva o Bom Ladrão, tal como lhe diz no Calvário, antes de Sua Morte e Ressurreição:

"...hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23,43).

Vê-se que não se trata de um repouso caracterizado pela ausência de tribulações ou o cessar de atividades em geral, mas da faculdade de exercer os direitos atinentes à "herança" que recebem, com paz, segurança e plenitude, numa repetição da Vida em comunhão com Iahweh tal como vai refletir o Jardim do Éden em toda a História da Salvação:

"8 Não procedereis em nada segundo estamos fazendo aqui, cada qual tudo o que bem parece aos seus olhos,9 porque, até agora, não entrastes no repouso e na herança que vos dá Iahweh, vosso Deus.10 Mas passareis o Jordão e habitareis na terra que vos fará herdar Iahweh, vosso Deus; e vos dará o repouso de todos os vossos inimigos em redor, e morareis seguros." (Dt 12,8-10)

Promete-se-lhes felicidade, porém, vinculada e advinda, indestacavelmente, da fidelidade a Iahweh e à Aliança, traduzida no cumprimento de todas as ordenanças e prescrições feitas. Principalmente, não imitando a idolatria dos pagãos ao seu redor, corrompendo-se, da mesma maneira que irá vigorar no cristianismo (Hb 3,10-4,12):

"(C. 12)28 Guarda e cumpre todas estas palavras que te ordeno, para que bem te suceda a ti e a teus filhos, depois de ti, para sempre, quando fizeres o que é bom e reto aos olhos de Iahweh, teu Deus. 29 Quando Iahweh, teu Deus, eliminar de diante de ti as nações, para as quais vais para possuí-las, e as desapossares e habitares na sua terra,30 guarda-te, não te deixes seduzir por elas, após terem sido destruídas diante de ti; e que não indagues pelos seus deuses, dizendo: Assim como serviram estas nações aos seus deuses, do mesmo modo também farei eu.31 Não farás assim a Iahweh, teu Deus, porque tudo o que é abominável a Iahweh e que ele odeia fizeram eles a seus deuses, pois até seus filhos e suas filhas queimaram aos seus deuses.(c. 13)1 Tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás" (Dt 12,28-31-13,1).

Dentre todas as tentações que seriam enfrentadas pelos Israelitas na Terra de Canaã, estava a possibilidade do surgimento dos Falsos Profetas. Buscariam Impressioná-los com sinais e prodígios, apresentando-se como representantes, assim credenciados, de deuses pagãos. Tal como era comum naquela época, ambicionavam também serem bem recompensados, recebendo pagamentos por seus augúrios ou visões (Nm 22,7.17 / 1Sm 9,7 / 1Rs 14,3). Em terra antes habitada por outros povos, devotos dum panteão de deuses, os quais dominavam aquele território na concepção do tempo (cfr. 1Sm 26,19 / 1Rs 20,23 / 2Rs 5,17; 17,25-28), esses visionários e taumaturgos poderiam iludi-los e afastá-los de Iahweh. Difundia-se a crença de que não se podia deixar de oferecer sacrifícios aos deuses do território, para não se incorrer em sua ira e maldição. Por isso, adverte-os Moisés, para "tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás", ou seja, nada mudar na lei, principalmente não imitando os costumes pagãos, mesmo sob a influência de algum prodígio:

"1 Tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás.2 Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio,3 e realizar o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los,4 não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto Iahweh, vosso Deus, vos prova, para saber se amais Iahweh, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma.5 Andareis após Iahweh, vosso Deus, e a ele temereis; guardareis os seus mandamentos, ouvireis a sua voz, a ele servireis e a ele vos achegareis.6 Esse profeta ou sonhador será morto, pois pregou rebeldia contra Iahweh, vosso Deus, que vos tirou da terra do Egito e vos resgatou da casa da servidão, para vos apartar do caminho que vos ordenou Iahweh, vosso Deus, para andardes nele. Assim, eliminarás o mal do meio de ti" (Dt 13,1-6).

Iahweh impusera-se soberanamente aos Israelitas pelo grande poder que comprovou com a libertação do Egito, "resgatando-os da casa da servidão". Por isso, o convite para adorar outros deuses comprovaria a falsidade do profeta ou visionário, mesmo que aqueles sinais milagrosos que anunciasse viessem a se realizar. Todo aquele que insuflasse a rebeldia deveria então ser morto, para "assim se eliminar mal do meio" deles (Dt 13,6), não se poupando ninguém (Dt 13,7). Aparece aqui a lapidação, o apedrejamento do condenado à morte, pena aplicada "à distância, evitando-se o contágio com o impuro", causando a impureza pelo contato. Aquele que fora seduzido à rebeldia idolátrica seria a principal testemunha, e teria o "privilégio" de "ser a sua mão a primeira a atirar-lhe a pedra inicial" (Dt 17,7). Assim procedendo, não se solidarizaria com a corrupção (Ex 19,13; 21,28), assim também a comunidade (Js 7,25-26), não se poupando nem mesmo amigos e parentes próximos, que praticassem tais atos "abomináveis":

"7 Se teu irmão, filho de tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu amor, ou teu amigo que amas como à tua alma te incitar em segredo, dizendo: Vamos e sirvamos a outros deuses, que não conheceste, nem tu, nem teus pais,8 dentre os deuses dos povos que estão em redor de ti, perto ou longe de ti, desde uma até à outra extremidade da terra,9 não concordarás com ele, nem o ouvirás; não olharás com piedade, não o pouparás, nem o esconderás,10 mas, certamente, o matarás. A tua mão será a primeira contra ele, para o matar, e depois a mão de todo o povo.11 Apedrejá-lo-ás até que morra, pois te procurou apartar de Iahweh, teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão.12 E todo o Israel ouvirá e temerá, e não se tornará a praticar maldade como esta no meio de ti" (Dt 13,7-12).

Nada de mais grave poderia ocorrer do que a prática de atos de selvajaria idolátrica tais como "...fizeram eles a seus deuses, pois até seus filhos e suas filhas queimaram aos seus deuses...", "...porque tudo o que é abominável a Iahweh e que ele odeia...": - por isso, "...não farás assim a Iahweh, teu Deus..." (Dt 12,31; 18,9-10 / Lv 18,21). Culminavam-se tais atitudes, que as mais das vezes são descritas num clima de máxima crueldade, no voto ao interdito (Lv 27 / Dt 20,10-18), a que Israel somente recorria no caso de resistência do povo conquistado, não aceitando a paz que se lhe oferecia (Dt 20,10-18 / 17,7). Também o praticava quando necessário, em defesa da integridade doutrinária nacional, para a qual a idolatria significava, culturalmente, a maldição de Iahweh. Essa maldição iria se traduzir em ser Israel tratada com a mesma rejeição com que foram os pagãos tratados, por cuja causa se lhes tirava e entregava-se-lhe o território. Um território contaminado com tais práticas deveria ser purificado pelo expurgo, feito em cumprimento da Missão de Israel, "destruindo-lhes os altares, as esculturas...". Pior que tal atitude de pagãos, resistindo ao Poder de Iahweh, é a apostasia daquelas aldeias ou lugarejos Israelitas, traindo a Aliança com Iahweh (cfr. Ex 32,26-29 / Nm 25,4-5), seja pelo compromisso livremente assumido, seja pela ingratidão, seja pela traição, buscando outros deuses e suas práticas, e incitando a servi-los:

"13 Quando em alguma das tuas cidades que Iahweh, teu Deus, te dá, para ali habitares, ouvires dizer14 que homens malignos saíram do meio de ti e incitaram os moradores da sua cidade, dizendo: Vamos e sirvamos a outros deuses, que não conheceste,15 então, inquirirás, investigarás e, com diligência, perguntarás; e eis que, se for verdade e certo que tal abominação se cometeu no meio de ti,16 então, certamente, ferirás a fio de espada os moradores daquela cidade, destruindo-a completamente e tudo o que nela houver, até os animais.17 Ajuntarás todo o seu despojo no meio da sua praça e a cidade e todo o seu despojo queimarás por oferta total a Iahweh, teu Deus, e será montão perpétuo de ruínas; nunca mais se edificará.18 Também nada do que for condenado deverá ficar em tua mão, para que Iahweh se aparte do ardor da sua ira, e te faça misericórdia, e tenha piedade de ti, e te multiplique, como jurou a teus pais,19 se ouvires a voz de Iahweh, teu Deus, e guardares todos os seus mandamentos que hoje te ordeno, para fazeres o que é reto aos olhos de Iahweh, teu Deus" (Dt 13,13-19).

A Teologia do Deuteronômio gira em torno do mesmo centro gravitacional motivador de todo o comportamento histórico Israelita: - a Santidade do Povo de Iahweh, muito bem expressa na frase "sede Santos, pois eu sou Santo, Eu, Iahweh, vosso Deus" (Lv 11,44; 19,2), pelo que dever-se-ia preservar de contaminação tanto o Santuário Único de Iahweh, como todo Israel:

"Porque sois povo santo a Iahweh, vosso Deus, e Iahweh vos escolheu de todos os povos que há sobre a face da terra, para serdes o seu povo peculiar" (Dt 14,2).

Essa Santidade se traduzia tanto na obediência e fidelidade a Iahweh, como no cumprimento das exigências das Leis da Aliança, das prescrições cultuais diversas e de outros mandamentos ou ordenações, explicitados e ratificados nessas Leis de Iahweh. Também, na rejeição de todo e qualquer procedimento ou conduta pagã, assim como algumas práticas cultuais, tais como o flagelo ou mutilações diversas ou incisões no corpo, em sinal de luto "por um morto" (Dt 14,1 / 1Rs 18,28 / Os 7,14), e se alimentando de "qualquer coisa abominável" (Dt 14,3-21). Tais determinações são caracterizadas pelos costumes pagãos, que as tornam abomináveis por se saberem, por si mesmas, destinadas aos seus deuses, com os quais Iahweh, "o deus ciumento" não se permitia confundir nem se identificar. Assim, a imitação de incisões ou mutilações e flagelos, tais e quais os dos pagãos, mesmo como consagração a Iahweh, poderia estimular a idolatria pela confusão causada, pela mesma forma de culto exteriorizada. Da mesma forma os animais impuros para o sacrifício, usados em profusão pelos demais povos a seus deuses, eram abomináveis aos olhos de Iahweh, pelo mesmo motivo já apontado. O tema já foi amplamente desenvolvido em Levítico e Números, a que se remete o leitor. Essa Santidade também se vincula ao cumprimento do preceito do Dízimo, em virtude da instituição do Único Santuário, onde deverá ser "comido". Essa terminologia dá a entender que deverá ser incluído entre as Oferendas Imoladas ou Hóstias dos Sacrifícios, como uma delas, ou seja, "... comerás os dízimos do teu cereal, do teu vinho, do teu azeite e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas...", para a comunhão com Iahweh (1Cor 10,18) e conseqüente Santificação, numa Refeição Sagrada (Lv 3,1-17 / Lv 7,11-15), na qual "... te alegrarás...". Também, por causa da licença em transformar a Oferenda em dinheiro, dada a longa distância a percorrer até o Santuário Único (Dt 14,25), é que existiam "os cambistas", que Jesus teria expulso do Templo (Mt 21,12 / Mc 11,15 / Jo 2,15). Os judeus que moravam longe e recorriam a essa licença, trocariam o dinheiro dos pagãos, que trazia a efígie do seu rei, considerado por eles um deus, por dinheiro judaico. Só assim teria condição, para ser introduzido no Templo como Oferenda, sem contaminá-lo com a mancha idólatra:

"22 Certamente, darás os dízimos de todo o fruto das tuas sementes, que ano após ano se recolher do campo.23 E, perante Iahweh, teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu cereal, do teu vinho, do teu azeite e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer Iahweh, teu Deus, todos os dias.24 Quando o caminho te for comprido demais, que os não possas levar, por estar longe de ti o lugar que Iahweh, teu Deus, escolher para ali pôr o seu nome, quando Iahweh, teu Deus, te tiver abençoado,25 então, vende-os, e leva o dinheiro na tua mão, e vai ao lugar que Iahweh, teu Deus, escolher.26 Esse dinheiro, dá-lo-ás por tudo o que deseja tua alma, por vacas, ou ovelhas, ou vinho, ou bebida forte, ou qualquer coisa que te pedir a tua alma; come-o ali perante Iahweh, teu Deus, e te alegrarás, tu e a tua casa;27 porém não desampararás o levita que está dentro da tua cidade, pois não tem parte nem herança contigo" (Dt 14,22-27).

A tais práticas caracterizadoras da Santidade se acrescentariam outras, que parecem novações da legislação, mas são na verdade aperfeiçoamentos introduzidos pela prática e em face das novas condições de vida que se descortinavam. Principalmente, com a centralização do culto sacrificial num Único Santuário, evitando-se a possibilidade de sincretismo religioso, pelo contato com altares pagãos e aquilo que praticavam, usando vários santuários espalhados na Terra de Canaã. Assim, a introdução do Dízimo, igualando-o às demais Oferendas Sagradas no ritual do Sacrifício, a possibilidade de convertê-lo em dinheiro, bem como a instituição do Dízimo Trienal. Anualmente o Levita, Sacerdote Auxiliar, co-herdeiro da Casa de Aarão, da Tribo de Levi, que não se cotizou na divisão das terras, recebe o Dízimo das rendas, "comendo-o" com o Ofertante, num Sacrifício, no Santuário. Além disso, a cada três anos, em que a décima parte da colheita é oferecida ao "estrangeiro, ao órfão, à viúva e ao Levita", este Levita, além da sua compensação anual no Santuário Central (Dt 14,27), recebe junto com eles, mais uma parcela, em uma solenidade festiva realizada, não no Santuário, mas "...na tua cidade...", isto é, "familiarmente":

"27 porém não desampararás o levita que está dentro da tua cidade, pois não tem parte nem herança contigo.28 Ao fim de cada três anos, tirarás todos os dízimos do fruto do terceiro ano e os recolherás na tua cidade.29 Então, virão o levita (pois não tem parte nem herança contigo), o estrangeiro, o órfão e a viúva que estão dentro da tua cidade, e comerão, e se fartarão, para que Iahweh, teu Deus, te abençoe em todas as obras que as tuas mãos fizerem" (Dt 14,27-29).

Certas instituições têm o condão de demonstrar o caráter dinâmico das diversas normas, pela acomodação sistemática e coerente, formando um todo. É o caso do Ano Sabático (Ex 23,10-11 / Lv 25,2-7) em que havia o "repouso" da terra, nada se plantava nesse ano, deixando-a e somente colhendo o que se lhe brotasse naturalmente, inicialmente destinando-se essa colheita "aos pobres e aos animais do campo" (Ex 23,11). Coerentemente, e no mesmo espírito de Santidade invocado, há também na vida econômica um reflexo desse norma, tornando necessário, da mesma forma, procurando satisfazer as necessidades dos pobres (Dt 15,7-10):

"1 Ao fim de cada sete anos, farás remissão.2 Este, pois, é o modo da remissão: todo credor que emprestou ao seu próximo alguma coisa remitirá o que havia emprestado; não o exigirá do seu próximo ou do seu irmão, pois a remissão de Iahweh é proclamada.3 Do estranho podes exigi-lo, mas o que tiveres em poder de teu irmão, quitá-lo-ás;4 para que entre ti não haja pobre; pois Iahweh, teu Deus, te abençoará abundantemente na terra que te dá por herança, para a possuíres,5 se apenas ouvires, atentamente, a voz de Iahweh, teu Deus, para cuidares em cumprir todos estes mandamentos que hoje te ordeno.6 Pois Iahweh, teu Deus, te abençoará, como te tem dito; assim, emprestarás a muitas nações, mas não tomarás empréstimos; e dominarás muitas nações, porém elas não te dominarão.7 Quando entre ti houver algum pobre de teus irmãos, em alguma das tuas cidades, na tua terra que Iahweh, teu Deus, te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás as mãos a teu irmão pobre;8 antes, lhe abrirás de todo a mão e lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade.9 Guarda-te não haja pensamento vil no teu coração, nem digas: Está próximo o sétimo ano, o ano da remissão, de sorte que os teus olhos sejam malignos para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada, e ele clame contra ti a Iahweh, e haja em ti pecado.10 Livremente, lhe darás, e não seja maligno o teu coração, quando lho deres; pois, por isso, te abençoará Iahweh, teu Deus, em toda a tua obra e em tudo o que empreenderes.11 Pois nunca deixará de haver pobres na terra; por isso, eu te ordeno: livremente, abrirás a mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na tua terra" (Dt 15,1-11).

"...o que tiveres em poder de teu irmão, quitá-lo-ás, para que entre ti não haja pobre..." - a remissão plena da dívida será feita quando, em virtude do Ano Sabático, concorrer a possível pobreza ou dificuldade de outro Israelita, pela falta de produção havida no repouso sagrado. Quitar-se-á toda a dívida do, temporariamente, carente ou pobre, "pois nunca deixará de haver pobres na terra; por isso, eu te ordeno: livremente, abrirás a mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na tua terra", e "livremente, lhe darás, e não seja maligno o teu coração, quando lho deres...". Acumulando-se a dívida contraída com a falta de produção, em virtude do Repouso Sabático, será impossível o pagamento ao que viver exclusivamente dessa renda, donde essa obrigação moral, de se evitar o seu empobrecimento à custa de rendimento próprio. Assim procedendo, por motivo religioso e de justiça, "...Iahweh, teu Deus,...", o único proprietário da terra "...te abençoará, em toda a tua obra e em tudo o que empreenderes." A situação do Israelita reduzido à escravidão (Dt 15,12-18), em virtude de dívida que não pudera pagar (Lv 25,39), as Leis da Aliança já haviam amplamente regulamentado (Ex 21,1-6 / Lv 25,35-55), estabelecendo dois limites: um, de seis anos corridos, liberando-o no sétimo ano independentemente do Ano Sabático; e, outro, no Jubileu, donde o tempo máximo de escravatura permitido, de quarenta e nove anos. Em todos os casos o tratamento ao escravo hebreu será mitigado à condição de servidor doméstico assalariado (Lv 25,39-40), distinguindo-se assim do dispensado ao estrangeiro, não radicado definitivamente. Quando da alforria, deveria ser bem gratificado, ficando ao alvitre dele permanecer escravo permanente:

"12 Quando um de teus irmãos, hebreu ou hebréia, te for vendido, seis anos servir-te-á, mas, no sétimo, o despedirás forro.13 E, quando de ti o despedires forro, não o deixarás ir de mãos vazias.14 Liberalmente, lhe fornecerás do teu rebanho, da tua eira e do teu lagar; daquilo com que Iahweh, teu Deus, te houver abençoado, lhe darás.15 Lembrar-te-ás de que foste servo na terra do Egito e de que Iahweh, teu Deus, te remiu; pelo que, hoje, isso te ordeno.16 Se, porém, ele te disser: Não sairei de ti; porquanto te ama, a ti e a tua casa, por estar bem contigo,17 então, tomarás uma sovela e lhe furarás a orelha, na porta, e será para sempre teu servo; e também assim farás à tua serva.18 Não pareça aos teus olhos duro o despedi-lo forro; pois seis anos te serviu por metade do salário do jornaleiro; assim, Iahweh, teu Deus, te abençoará em tudo o que fizeres." (Dt 15,12-18).

Emoldurando o quadro da Santidade do comportamento do Israelita, regulamenta-se a Consagração dos Primogênitos, também alterada em virtude das dimensões do território de que se apossa (Ex 13, 1-2.11-16; 22,28-29 / Dt 15,19-23). Inexiste o tempo limite para a entrega, proibindo-se ainda a tosquia e o uso do animal. Deverá ser "comido" anualmente, no Santuário Único e com os familiares, quando sem defeito (Dt 15,19-20), ou em qualquer lugar, independentemente de prescrições rituais, como se fora qualquer animal e por qualquer pessoa, "puros ou impuros", se defeituoso (Dt 15,21-23). Moisés vem completar a recomendação a respeito das Oferendas referindo-se assim aos Primogênitos, também imolados em ritual sacrificial para a comunhão com Iahweh e a Santificação:

"19 Todo primogênito que nascer do teu gado ou de tuas ovelhas, o macho consagrarás a Iahweh, teu Deus; com o primogênito do teu gado não trabalharás, nem tosquiarás o primogênito das tuas ovelhas.20 Comê-lo-ás perante Iahweh, tu e a tua casa, anualmente, no lugar que Iahweh escolher.21 Porém, havendo nele algum defeito, se for coxo, ou cego, ou tiver outro defeito grave, não o sacrificarás a Iahweh, teu Deus.22 Na tua cidade, o comerás; o imundo e o limpo o comerão juntamente, como a carne do corço ou do veado.23 Somente o seu sangue não comerás; sobre a terra o derramarás como água" (Dt 15,19-23).

O Único Santuário que seria implantado na Terra Prometida veio trazer uma série de mudanças na vida religiosa, principalmente na esfera cultual, impondo modificações às Festas da Páscoa e dos Ázimos, que não mais serão familiares mas celebradas no Santuário Central ou Único (Ex 12,21-27 / Dt 16,1-8). Também a Festa das Semanas ou Pentecostes ou da Colheita (Ex 23,14 / Lv 23,15-21 / Nm 28,26-31 / Dt 16,9-12), bem como a das Tendas ou Tabernáculo (Lv 23,33-43 / Nm 29,12-39 / Dt 16,13-15), são ratificadas e incluídas no calendário religioso a ser observado na Terra Prometida (Dt 16,9-15). Não se especificam os tipos preferenciais de Oferendas, tais como as Primícias antes determinadas em Pentecostes, mas "ninguém se apresente de mãos vazias, mas cada um traga bens conforme a bênção que Iahweh, teu Deus te houver proporcionado" (Dt 16,17). Tal preceito será cumprido em peregrinação, três vezes ao ano, não podendo faltar o homem (Ex 23,17) e ficando condicionada a mulher às "purificações legais" de seu estado, podendo comparecer em condições normais (1Sm 1,4-5):

"16 Três vezes no ano, todo varão aparecerá perante Iahweh, teu Deus, no lugar que escolher, na Festa dos Pães Ázimos, e na Festa das Semanas, e na Festa dos Tabernáculos; porém não aparecerá de mãos vazias perante Iahweh;17 cada um oferecerá na proporção que possa dar, segundo a bênção que Iahweh, seu Deus, lhe houver concedido" (Dt 16,16-17).

Essas Festas já foram suficientemente comentadas nos livros anteriores, dispensando-se a repetição, bastando uma recordação, e fazendo-se um estudo comparativo independente de cada uma e suas acomodações.

 

5.27.2. A Estrutura Judiciária, Política e Doutrinária

a) A Estrutura Judiciária

Aquela organização anunciada várias vezes (Ex 18,13-26 / Nm 11,14 / Dt 1,9-18) irá se corporificar numa espécie de Tribunal Religioso de estrutura bem rudimentar, mas suficiente para a solução dos vários casos de então, e com o Poder suficiente para a coerção indispensável à decisão, derivada diretamente de Iahweh (Dt 1,17b):

"13 Tomai-vos homens sábios, inteligentes e experimentados, segundo as vossas tribos, para que os ponha por vossos cabeças.14 Então, me respondestes e dissestes: É bom cumprir a palavra que tens falado.15 Tomei, pois, os cabeças de vossas tribos, homens sábios e experimentados, e os fiz cabeças sobre vós, chefes de milhares, chefes de cem, chefes de cinqüenta, chefes de dez e oficiais, segundo as vossas tribos.16 Nesse mesmo tempo, ordenei a vossos juízes, dizendo: ouvi a causa entre vossos irmãos e julgai justamente entre o homem e seu irmão ou o estrangeiro que está com ele" (Dt 1,13-16) / "18 Juízes e escrivães constituirás em todas as tuas cidades que Iahweh, teu Deus, te der entre as tuas tribos, para que julguem o povo com reto juízo" (Dt 16,18).

Basicamente, impunha-se a imparcialidade e retidão de julgamento, frutos indeclináveis da incorruptibilidade, sem temor algum, alicerçados no Poder de Iahweh que era então outorgado, "...porque a sentença é de Deus..." (Dt 16,17). Caberá aos juízes buscar sempre a "justiça, somente a justiça...":

"17 Não sereis parciais no juízo, ouvireis tanto o pequeno como o grande; não temereis a face de ninguém, porque a sentença é de Deus; porém a causa que vos for demasiadamente difícil fareis vir a mim, e eu a ouvirei" (Dt 1,17) / .19 Não torcerás a justiça, não farás acepção de pessoas, nem tomarás suborno; porquanto o suborno cega os olhos dos sábios e subverte a causa dos justos.20 A justiça seguirás, somente a justiça..." (Dt 16,19-20).

Para a consecução da "...justiça, somente a justiça...", almejada e pretendida, dever-se-ão cumprir algumas determinações fundamentais, que se estruturam nas condições básicas de fidelidade à Aliança com Iahweh, "o Deus Ciumento...":

"(16)20 A justiça seguirás, somente a justiça, para que vivas e possuas em herança a terra que te dá Iahweh, teu Deus.21 Não estabelecerás poste sagrado, plantando qualquer árvore sagrada junto ao altar de Iahweh, teu Deus, que fizeres para ti.22 Nem levantarás coluna, a qual Iahweh, teu Deus, odeia.(17)1 Não sacrificarás a Iahweh, teu Deus, novilho ou ovelha em que haja imperfeição ou algum defeito grave; pois é abominação a Iahweh, teu Deus.2 Quando no meio de ti, em alguma das tuas cidades que te dá Iahweh, teu Deus, se achar algum homem ou mulher que proceda mal aos olhos de Iahweh, teu Deus, transgredindo a sua aliança,3 indo, e servindo e adorando a outros deuses, ou ao sol, ou à lua, ou a todo o exército do céu, o que eu não ordenei;4 e te seja denunciado, e o ouvires; então, indagarás bem; e eis que, sendo verdade e certo que se fez tal abominação em Israel,5 então, levarás o homem ou a mulher que praticou este mal, às tuas portas e os apedrejarás até que morram.6 Por depoimento de duas ou três testemunhas, será morto o que houver de morrer; por depoimento de uma só testemunha, não morrerá.7 A mão das testemunhas será a primeira contra ele, para matá-lo; e, depois, a mão de todo o povo; assim, eliminarás o mal do meio de ti" (Dt 16,20-17,7).

Toda a atividade judiciária terá por meta primeira e principal a erradicação de qualquer vestígio de idolatria ou infidelidade a Iahweh, "...transgredindo a sua aliança, indo, e servindo e adorando a outros deuses, ou ao sol, ou à lua, ou a todo o exército do céu...". Então, "por depoimento de duas ou três testemunhas, será morto o que houver de morrer...", qual seja, uma vez julgado e condenado com base num exame criterioso do tribunal, "indagarás bem; e eis que, sendo verdade e certo que se fez tal abominação em Israel", "...eliminarás o mal do meio de ti". A pena de morte para aquele que desviasse seu irmão de Iahweh, fazendo-o um idólatra (Dt 13,7-12) e a aqui prevista, só poderia ser aplicada pelo depoimento mínimo de duas ou três testemunhas e mesmo assim exigindo um exame bem cauteloso e criterioso, para não se condenar um inocente com falsos testemunhos (cfr.: Dt 19,15-21). A lapidação, que se daria fora do Santuário (Lv 24,14 / Nm 15,36 / At 7,58 / Hb 13,12), seria iniciada pelas principais testemunhas, "...a mão das testemunhas será a primeira contra ele, para matá-lo; e, depois, a mão de todo o povo...", para se firmar que não se comprometiam com o mesmo pecado, e com isso inocentando-se. Para aqueles casos mais difíceis, que os escolhidos das tribos não pudessem resolver, haveria um Tribunal Superior, formado naturalmente por "Sacerdotes, Levitas e Chefes de Famílias Israelitas, para promulgar as sentenças de Iahweh e julgar os processos" (2Cro 19,8-11). Essas decisões seriam definitivas e se impunham soberanamente, com a pena de morte aos que, desacatando-as, se opusessem a Iahweh, na pessoa de seus representantes. Desses Tribunais do Santuário Central é que originar-se-á o Sinédrio, presidido pelo Sumo Sacerdote (Mc 14,53-64 / At 22,4-5), que "condenou" Jesus:

"8 Quando alguma coisa te for difícil demais em juízo, em casos de homicídio, de litígios, de lesões corporais e outras questões controvertidas, levantarás e subirás ao lugar que Iahweh, teu Deus, escolher.9 Virás aos levitas sacerdotes e ao juiz que houver naqueles dias; inquirirás, e te anunciarão a sentença do juízo.10 E farás segundo o mandado da palavra que te anunciarem do lugar que Iahweh escolher; e terás cuidado de fazer consoante tudo o que te ensinarem.11 Segundo o mandado da lei que te ensinarem e de acordo com o juízo que te disserem, farás; da sentença que te anunciarem não te desviarás, nem para a direita nem para a esquerda.12 O homem, pois, que se houver soberbamente, não dando ouvidos ao sacerdote, que está ali para servir a Iahweh, teu Deus, nem ao juiz, esse morrerá; e eliminarás o mal de Israel,13 para que todo o povo o ouça, tema e jamais se ensoberbeça" (Dt 17,8-13).

Caberia aos juízes, os Sacerdotes ou os Líderes Tribais, o julgamento de questões as mais variadas que incluíam desde o Decálogo, o Código ou Leis da Aliança (Ex 19-24), os dispositivos atinentes ao culto e outras normas. Até mesmo a legislação esparsa que não sofreu alterações com o Código Deuteronômico, bem como aqueles dispositivos aperfeiçoados. Em todos os casos sob sua jurisdição, a sentença obrigava sob pena de morte, "e eliminarás o mal de Israel, para que todo o povo o ouça, tema e jamais se ensoberbeça".

 

b) A Estrutura Política

A Organização Política poderia vir a se identificar à de outras nações do tempo, no regime monárquico, com a constituição de um Rei, desde que fosse escolhido por consulta a Iahweh e que fosse Israelita. Além disso, ao Rei aconselhava-se algumas atitudes de fidelidade e obediência a Iahweh, a que se submeterá, nos termos da Aliança. Seu comportamento e conduta deveriam ser condizentes à Santidade, que norteava a vida Israelita, diferenciando-se das condutas dos pagãos idólatras e corrompidos (Dt 17,14-17), destacando-se, como exemplo, o que se julgou na época ser a causa do malogro e rejeição deles por Iahweh (Dt 18,9):

"18 Também, quando se assentar no trono do seu reino, escreverá para si uma cópia desta lei num livro, que lhe ditarão os levitas sacerdotes.19 E o terá consigo e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer Iahweh, seu Deus, a fim de guardar todas as palavras desta lei e estes estatutos, para os cumprir.20 Isto fará para que o seu coração não se eleve sobre os seus irmãos e não se aparte do mandamento, nem para a direita nem para a esquerda; de sorte que prolongue os dias no seu reino, ele e seus filhos no meio de Israel" (Dt 17,18-20).

É bom que se mencione a grande dificuldade para Israel se submeter a um regime monárquico, nos moldes culturais daquele tempo. Podem-se citar duas causas principais dessa aversão: primeiro, a teocracia de Israel, em que Iahweh era o seu Chefe Supremo; e, segundo, a concepção idolátrica daqueles tempos pela qual o rei era um deus, com poderes absolutos e supremos, a quem se deveria submeter incondicionalmente. Para se evitar tal perigo de idolatria é que se impunha a escolha por Iahweh (Dt 17,15) e ao rei escolhido fazer uma cópia da Torah, para seu uso (Dt 17,18), submetendo-se assim ao Soberano Iahweh, não podendo se arvorar idolatricamente em um deus. Quando for instituída a Monarquia, sob Samuel, os monarcas seriam escolhidos por Iahweh (1Sm 9,16) e "ungidos" pelo Sacerdote, submetendo-se assim ao império da Aliança (1Sm 10,1).

 

c) A Estrutura Doutrinária ou Religiosa

Os vários mandamentos e estatutos concernentes ao Instituto do Sacerdócio Pleno e Auxiliar e ao Serviço Religioso e Cultual, com a detalhada descrição dos Ritos foi feita anteriormente nos livros que antecedem. O que então se oferece não é uma Carta de Direitos ou Deveres do Sacerdócio, mas os deveres do Israelita com relação aos membros da Tribo de Levi, que não foram contemplados com herança na Terra Prometida. Não se igualam o levita e o Sacerdote Aaronita, como pode parecer à primeira vista; cada qual continua desempenhando as suas funções já prescritas desde o deserto, onde se consagrou a Casa de Aarão ao Sacerdócio Pleno (Ex 28,1-4 / Lv 8-9) e os Levitas ao Sacerdócio Auxiliar (Nm 8,5-22). Tal como se disse desde o início, o teor deste livro é complementar aos demais, nunca uma derrogação, somando-se as várias ordenanças como aperfeiçoamentos decorrentes da experiência:

"1 Os sacerdotes levitas e toda a tribo de Levi não terão parte nem herança em Israel; das ofertas queimadas a Iahweh e daquilo que lhes é devido comerão.2 Pelo que não terão herança no meio de seus irmãos; Iahweh é a sua herança, como lhes tem dito.3 Será este, pois, o direito devido aos sacerdotes, da parte do povo, dos que oferecerem sacrifício, seja gado ou rebanho: que darão ao sacerdote a espádua, e as queixadas, e o bucho.4 Dar-lhe-ás as primícias do teu cereal, do teu vinho e do teu azeite e as primícias da tosquia das tuas ovelhas.5 Porque Iahweh, teu Deus, o escolheu de entre todas as tuas tribos para ministrar em o nome de Iahweh, ele e seus filhos, todos os dias.6 Quando vier um levita de alguma das tuas cidades de todo o Israel, onde ele habita, e vier com todo o desejo da sua alma ao lugar que Iahweh escolheu,7 e ministrar em o nome de Iahweh, seu Deus, como também todos os seus irmãos, os levitas, que assistem ali perante Iahweh,8 porção igual à deles terá para comer, além das vendas do seu patrimônio" (Dt 18,1-8).

Em torno das Oferendas muito já se falou desde os comentários ao Maná até os delineados com referência aos Sacrifícios, devendo se recapitular, para uma maior compreensão da distribuição aqui resumida aos participantes do ritual sagrado. O que não se pode esquecer é que as Oferendas, dentre elas as Primícias e o Dízimo, deveriam ser "comidas", como estabelecido e no Santuário Central e Único. Além disso, como entrega à Tribo de Levi de sua cota na "herança", "porque Iahweh, teu Deus, o escolheu de entre todas as tuas tribos para ministrar em o nome de Iahweh, ele e seus filhos, todos os dias...". Por esse motivo, "os sacerdotes levitas e toda a tribo de Levi não terão parte nem herança em Israel; das ofertas queimadas a Iahweh e daquilo que lhes é devido comerão; não terão herança no meio de seus irmãos; Iahweh é a sua herança..." (cfr.: Nm 18). Não recebendo herança terão necessidade de meios para a subsistência e manutenção familiar, com a satisfação e apresentação condigna das funções sagradas que desempenham. O que recebem não é pagamento pelo ofício religioso, mas o direito da tribo assim entregue, por pertencer a Iahweh, que a eles deu em herança, para a dedicação exclusiva ao culto.

Pela influência nefasta que naquela época exerciam, Moisés adverte os Israelitas contra os feiticeiros, os visionários, os que praticavam a evocação dos espíritos ou mortos e outros "Falsos Profetas". Para tanto, dita-lhes mais normas (cfr.: Dt 13,2-11) para conhecê-los, distingui-los e combatê-los, sempre com vistas ao dano da idolatria que poderia advir, "...pois todo aquele que faz tal coisa é abominação a Iahweh; e por estas abominações Iahweh, teu Deus, os lança de diante de ti". Antes, porém, e concomitantemente, proíbe o sacrifício dos filhos "pelo fogo" e atos de feitiçaria, bem como "quem interrogue oráculos, pratique o sortilégio, magia, encantamentos, enfeitiçamentos, adivinhação; quem consulte espíritos e quem consulte os mortos".

"9 Quando entrares na terra que Iahweh, teu Deus, te der, não aprenderás a fazer conforme as abominações daqueles povos.10 Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem quem interrogue oráculos, pratique o sortilégio, magia, encantamentos,11 enfeitiçamentos, adivinhação; nem quem consulte espíritos, nem quem consulte os mortos;12 pois todo aquele que faz tal coisa é abominação a Iahweh; e por estas abominações Iahweh, teu Deus, os lança de diante de ti.13 Perfeito serás para com Iahweh, teu Deus.14 Porque estas nações que hás de possuir ouvem os que praticam sortilégios e os adivinhadores; porém a ti Iahweh, teu Deus, não permitiu tal coisa" (Dt 18,9-14)

Faz ainda um retrospecto de sua nomeação como Profeta de Iahweh, a pedido do Povo Israelita e, também, "profetiza" e anuncia o envio de um Profeta para conduzi-lo, suprindo-o, pois, a "...ti Iahweh, teu Deus, não permitiu..." "...ouvir os que praticam sortilégios e os adivinhadores...". Diferentemente dos pagãos, será ele suscitado dentre Israelitas , por Iahweh, contrastando com os visionários e mágicos dos pagãos, que eram remunerados (Nm 22,7.17) e até mesmo estrangeiros (Nm 22,5-6 / Is 2,6). Teriam então o privilégio da presença e comunicação direta, por meio de um "eleito", pelo próprio "Iahweh, teu Deus", "em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar":

"15 Iahweh, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás,16 segundo tudo o que pediste a Iahweh, teu Deus, em Horeb, quando reunido o povo: Não ouvirei mais a voz de Iahweh, meu Deus, nem mais verei este grande fogo, para que não morra.17 Então, Iahweh me disse: Falaram bem aquilo que disseram.18 Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar.19 De todo aquele que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, disso lhe pedirei contas.20 Porém o profeta que presumir de falar alguma palavra em meu nome, que eu lhe não mandei falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta será morto" (Dt 18,15-20).

Torna-se agora indispensável um exame mais acurado, entre as duas formas de verificação do Falso Profeta (Dt 13,2-6 / Dt 18,21-22):

Dt 18,18-22

Dt 13,2-6

COMENTÁRIO

18 Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar.

19 De todo aquele que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome,

disso lhe pedirei contas.

20 Porém o profeta que presumir de falar alguma palavra em meu nome, que eu lhe não mandei falar, ou o que falar em nome de outros deuses,

esse profeta será morto

 

A Profecia é a Palavra de Iahweh, colocada na boca do Profeta para dizê-la: é "a boca de Deus". Aquilo que o Profeta diz é o que Iahweh diz, por cujo motivo se impõe, devendo ser acatada com o mesmo respeito, fidelidade e obediência. A palavra do próprio Profeta não se impõe à observância obrigatória, falando ele por sua conta e risco. Além disso, se for profeta de deuses outros, induzindo Israel em erro, será irremissivelmente morto: - Aquele que não acatar a Palavra de Iahweh, "disso lhe pedirá contas".

"21 Se disseres no teu coração: Como conhecerei a palavra que Iahweh não falou?

22 Sabe que, quando esse profeta falar em nome de Iahweh,

e a palavra dele se não cumprir, nem suceder, como profetizou,

esta é palavra que

Iahweh não disse,

com soberba, a falou o tal profeta,

não o temerás.

 

Como para Deus não há tempo, essa Sua Palavra é eterna, imutável e irreversível. Então, o anunciado pelo Profeta, como Palavra de Iahweh, realiza-se inexoravelmente a todo o tempo, a começar no momento em que se fala. Não se realizando não é a Palavra de Iahweh, é Falso, o Profeta. Nada acontece a àquele que não o ouve, "disso não prestando contas" a Iahweh.

 

"2 Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio,3 vier a acontecer tal sinal ou prodígio de que te houver falado, mas, disser: Vamos seguir outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, 4 não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador, porquanto Iahweh, vosso Deus, vos prova, para saber se amais Iahweh, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma.5 Seguireis Iahweh, vosso Deus, e a ele temereis; guardareis os seus mandamentos, ouvireis a sua voz, a ele servireis e a ele vos achegareis.

Mesmo que aquilo que disser venha a se realizar, mas falar em nome de outros deuses e buscar seduzir Israel, desviando-o de Iahweh, esse fato somente será útil, para por à prova o amor de Israel por Iahweh, a quem somente se deverá servir, com a fidelidade e a obediência exigidas pela Aliança, livremente contraída.

20 Será morto porém,

o profeta

que presumir de falar alguma palavra em meu nome,

que eu lhe não mandei falar,

ou o que falar em nome de outros deuses,

esse profeta será morto

6 Será morto porém,

esse profeta ou sonhador que pregou rebeldia contra Iahweh, vosso Deus, que vos tirou da terra do Egito e vos resgatou da casa da servidão, para vos apartar do caminho que vos ordenou Iahweh, vosso Deus, para andardes nele.

Como toda a apostasia deve ser erradicada de Israel, com a pena de morte, o profeta ou visionário ou feiticeiro, mentiroso e falso, deverá ser morto inexoravelmente, como um idólatra e apóstata.

 

Assim,

eliminarás o mal

do meio de ti"

A finalidade de tudo isso é a eliminação do mal, que se resume no rompimento com Iahweh.

Observações:

- 1.ª) - A palavra "profeta" é composta de "pro" mais "feta", do grego, e significam, respectivamente, "em lugar de outro" e "falar", que seria então "falar em lugar de outro", tal como a palavra "pronome", que significa "em lugar do nome".

- 2.ª) - Pode-se até mesmo dizer que aqui se separam as três maiores religiões do mundo atual:

- a Primeira é a Israelita ou Judaica, que ainda espera o Prometido "Profeta";

- a Segunda é a Cristã, para quem Jesus Cristo é o "Profeta", o "Messias ou o Cristo, nomes que traduzem o Ungido"; e,

- a Terceira, é a Muçulmana, para quem Maomé é "O Profeta". Maomé foi criado por um Padre Católico pertencente à heresia de Ario, que negava a divindade de Cristo, motivo pelo qual anunciou que "Jesus foi um grande profeta, mas Maomé é O Profeta".


5.27.3. O Profeta e o Messias

Toda a Profecia tem no mínimo dois pontos de comprovação, devendo, por primeiro, cumprir-se imediatamente (Jr 28,9), sob pena de não vir a ser reconhecido o Profeta. Assim acontecendo, "não será temido" (Dt 18,22), e será até mesmo condenado à morte (Dt 18,20). Quanto a esta Profecia, o lance inicial e imediato só poderia estar se referindo a Josué, para substituir Moisés ao Povo Israelita, indicado pelo próprio Iahweh (Dt 18,18 / Js 1,1-9). Em prosseguimento, refere-se o mesmo anúncio aos Juízes, aos Profetas, aos Sacerdotes e aos Ungidos. São todos condutores da Nação, como representantes ou mandatários de Iahweh, sempre pautando pela fidelidade à Aliança, a quem dever-se-ia obediência, tal como ao próprio Iahweh (Dt 18,19). Pela fidelidade de Israel à Aliança, teria a assistência direta do próprio Iahweh, não de feiticeiros e outros místicos daquela época, dos pagãos, que assim se ofereciam em busca de rendas. Porém, nenhum dos anunciados como Profetas legítimos, irá se igualar a Moisés quanto à revelação direta, "face a face" (Nm 12,6-8 / Dt 34,10). O lance definitivo e perfeito vai se concluir somente em Jesus, o Ungido de Iahweh, o Messias, o Cristo, "...digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra...", em quem se "cumpre", não apenas essa, mas "toda a Lei e os Profetas" (Mt 5,17):

"1 Por isso, santos irmãos, que participais da vocação celestial, considerai atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus,2 o qual é fiel àquele que o constituiu, como também o era Moisés em toda a casa de Deus.3 Jesus, todavia, tem sido considerado digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a estabeleceu.4 Pois toda casa é estabelecida por alguém, mas aquele que estabeleceu todas as coisas é Deus.5 E Moisés era fiel, em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que haviam de ser anunciadas;6 Cristo, porém, como Filho, em sua casa; a qual casa somos nós, se guardarmos firme, até ao fim, a ousadia e a exultação da esperança" (Hb 3,1-6).

É até bom e conveniente se dizer que Jesus é a foz onde deságuam todos os mananciais das Profecias, o Único Mediador entre Deus e os Homens, tal como São Paulo também assim se exprime (Gl 3,15-19) e o próprio Jesus se define (Mt 5,17):

"15 Irmãos, falo como homem. Ainda que uma aliança seja meramente humana, uma vez ratificada, ninguém a revoga ou lhe acrescenta alguma coisa.16 Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo.17 E digo isto: uma aliança já anteriormente confirmada por Deus, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a pode ab-rogar, de forma que venha a desfazer a promessa.18 Porque, se a herança provém de lei, já não decorre de promessa; mas foi pela promessa que Deus a concedeu gratuitamente a Abraão. 19 Qual, pois, a razão de ser da lei? Foi adicionada por causa das transgressões, até que viesse o descendente a quem se fez a promessa, e foi promulgada por meio de anjos, pela mão de um mediado" (Gl 3,15-19) / "17 Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas 'cumprir'" (Mt 5,17).

Quando Cristo usa essa expressão bíblica "cumprir" (Mt 5,17), está se referindo à eficácia da Lei, que só atinge a sua plenitude quando se realiza. Tal como se diz, ainda e atualmente, quanto a "'cumprir' a palavra empenhada". Jesus leva a Lei e os Profetas à plenitude da eficácia, tornando-se uma realidade concreta. Era assim que entendiam os primeiros Cristãos, tal como diz Lucas, pelo testemunho de São Estevão e de São Pedro, vinculando "o Profeta" unicamente a Cristo, com base nesse trecho de Moisés, em face da Promessa:

"35 A este Moisés, a quem negaram reconhecer, dizendo: Quem te constituiu autoridade e juiz? A este enviou Deus como chefe e libertador, com a assistência do anjo que lhe apareceu na sarça.36 Este os tirou, fazendo prodígios e sinais na terra do Egito, assim como no mar Vermelho e no deserto, durante quarenta anos.37 Foi Moisés quem disse aos filhos de Israel: 'Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim'.38 É este Moisés quem esteve na assembléia no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai e com os nossos pais; o qual recebeu palavras vivas para no-las transmitir" (At 7,35-38) / "19 Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados,20 a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus,21 ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antigüidade.22 Disse, na verdade, Moisés: 'O Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser.23 Acontecerá que toda alma que não ouvir a esse profeta será exterminada do meio do povo'.24 E todos os profetas, a começar com Samuel, assim como todos quantos depois falaram, também anunciaram estes dias.25 Vós sois os filhos dos profetas e da aliança que Deus estabeleceu com vossos pais, dizendo a Abraão: 'Na tua descendência, serão abençoadas todas as nações da terra.'" (At 3,20-22).

Essa "figura" Messiânica do Profeta foi assim transmitida também pelos Evangelistas, em várias ocasiões, nas quais se manifestava uma profunda identidade, pela expectativa manifestada:

"19 Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: Quem és tu?20 Ele confessou e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo.21 Então, lhe perguntaram: Quem és, pois? És tu Elias? Ele disse: Não sou. És tu o profeta? Respondeu: Não. (...) 25 E perguntaram-lhe: Então, por que batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? (...) 45 Filipe encontrou a Natanael e disse-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José" (Jo 1,19-21.25.45).

"...És tu o profeta?", "...por que batizas, se não és o Cristo (= "O Ungido"), nem Elias, nem o profeta?", "...achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei...Jesus...", ",,,este é, verdadeiramente, o profeta que devia vir ao mundo,,,", "...este é verdadeiramente o profeta...": esses trechos realçados, indicam claramente a identificação de Jesus com esse Profeta, tendo sido então mencionado "em figura" por Moisés. Esse fato concorre até mesmo para uma melhor interpretação de algumas passagens dos Evangelhos, (Mt17,4-5p / Lc 24,27.44 / Jo 1,45), tais como A Transfiguração de Jesus:

" 1 Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte.2 E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.3 E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele.4 Então, disse Pedro a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias.5 Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.6 Ouvindo-a os discípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo.7 Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos e não temais!8 Então, eles, levantando os olhos, a ninguém viram, senão Jesus" (Mt 17,1-8).

A expressão imperativa, "...a ele ouvi...", conjugada com a presença de "Moisés e Elias, falando com ele", informam formalmente a identificação de Jesus com "o Profeta" por causa das palavras da Profecia, "...aquele que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, disso lhe pedirei contas...". A "figura" assim concretizada plenamente em Jesus; não foi uma criação romântica ou acadêmica dos primeiros cristãos, mas decorre de uma afirmação de Jesus. Também, logo aparece quando se realça uma discussão entre os judeus, quanto a Sua possível identidade com o "Cristo", ou o "Ungido", o "Messias", ao dizer o Evangelista que "...assim, houve uma dissensão entre o povo por causa dele..."

"45 Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança.46 Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito" (Jo 5,46) / "45 Filipe encontrou a Natanael e disse-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José" (Jo 1,45) / "40 Então, os que dentre o povo tinham ouvido estas palavras diziam: Este é verdadeiramente o profeta;41 outros diziam: Ele é o Cristo; outros, porém, perguntavam: Porventura, o Cristo virá da Galiléia?42 Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi e da aldeia de Belém, donde era Davi?43 Assim, houve uma dissensão entre o povo por causa dele..." (Jo 7,40-43)..

Daí em diante não foi difícil a propagação dessa possibilidade entre a multidão, a partir da convicção assumida pelos Apóstolos e Primeiros Discípulos, e vai se confirmar na Multiplicação dos Pães (Jo 1,35-41):

"13 Assim, pois, o fizeram e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada, que sobraram aos que haviam comido.14 Vendo, pois, os homens o sinal que Jesus fizera, disseram: Este é, verdadeiramente, o profeta que devia vir ao mundo.15 Sabendo, pois, Jesus que estavam para vir com o intuito de arrebatá-lo para o proclamarem rei, retirou-se novamente, sozinho, para o monte.16 Ao descambar o dia, os seus discípulos desceram para o mar" (Jo 6,13-16) / "38 Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.39 Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado.40 Então, os que dentre o povo tinham ouvido estas palavras diziam: Este é verdadeiramente o profeta..." (Jo 7,38-40).

Percebe-se facilmente que essa profecia não foi proferida por Moisés, sabendo-a um anúncio Messiânico, eis que somente lhe era possível o conhecimento da nomeação de Josué, que já lhe fora anunciada:

"15 Então, disse Moisés a Iahweh:16 Iahweh, autor e conservador de toda vida, ponha um homem sobre esta congregação17 que saia adiante deles, e que entre adiante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar, para que a congregação de Iahweh não seja como ovelhas que não têm pastor.18 Disse Iahweh a Moisés: 'Toma Josué, filho de Num, homem em quem há o Espírito, e impõe-lhe as mãos;19 apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação; e dá-lhe, à vista deles, as tuas ordens.20 Põe sobre ele da tua autoridade, para que lhe obedeça toda a congregação dos filhos de Israel'.21 Apresentar-se-á perante Eleazar, o sacerdote, o qual por ele consultará, segundo o juízo do Urim, perante Iahweh; segundo a sua palavra, sairão e, segundo a sua palavra, entrarão, ele, e todos os filhos de Israel com ele, e toda a congregação.22 Fez Moisés como lhe ordenara Iahweh, tomou a Josué e apresentou-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação;23 e lhe impôs as mãos e lhe deu as suas ordens, como Iahweh falara por intermédio de Moisés" (Nm 27,15-23).

Moisés pediu a Iahweh "...ponha um homem sobre esta congregação, que saia adiante deles, que entre adiante deles, os faça sair e que os faça entrar...", "...para que a congregação de Iahweh não seja como ovelhas que não têm pastor...". "...Disse Iahweh a Moisés: 'Toma Josué, filho de Num, homem em quem há o Espírito, e impõe-lhe as mãos;19 apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação...". Assim, após essa indicação de Iahweh, da pessoa de Josué, a seu pedido, Moisés não poderia ter pensado em outra pessoa para o comando, estando então se concentrando na sua seqüela, naqueles a serem suscitados até mesmo a fixação do Povo na Terra Prometida A identificação desses "profetas" com um "Ungido", que é o significado da palavra "Messias", não lhe era possível, tanto que Josué não foi "ungido", apenas se "lhe impôs as mãos". A única unção humana, que se praticava a esse tempo, era a dos Sacerdotes Aaronitas. Somente com Samuel, quando ocorrer a Instituição da Monarquia é que serão "ungidos" os Reis de Israel (1Sm 10,1), motivo pelo qual serão conhecidos como "Messias". O Messianismo vai ser propagado após a queda dos Reinos de Israel e Judá com a destruição do Templo, o exílio e o desaparecimento da Arca da Aliança, como esperança de restauração depositada na Promessa de Iahweh a Davi, anunciada pelos Profetas:

" 10 Prepararei lugar para o meu povo, para Israel, e o plantarei, para que habite no seu lugar e não mais seja perturbado, e jamais os filhos da perversidade o aflijam, como dantes,11 desde o dia em que mandei houvesse juízes sobre o meu povo de Israel. Dar-te-ei, porém, descanso de todos os teus inimigos; também Iahweh te faz saber que ele, Iahweh, te fará casa.12 Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino.13 Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino.14 Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; se vier a transgredir, castigá-lo-ei com varas de homens e com açoites de filhos de homens.15 Mas a minha misericórdia se não apartará dele, como a retirei de Saul, a quem tirei de diante de ti.16 Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre" (2 Sm 7,10-16)

Com a Encarnação, Morte e Ressurreição de Cristo, solidificou-se a identificação, pelo próprio Jesus, principalmente a partir de outra situação conflitiva com os fariseus:

" 41 Reunidos os fariseus, interrogou-os Jesus:42 Que pensais vós do Cristo? De quem é filho? Responderam-lhe eles: De Davi.43 Replicou-lhes Jesus: Como, pois, Davi, pelo Espírito, chama-lhe Senhor, dizendo:44 Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés?45 Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é ele seu filho?46 E ninguém lhe podia responder palavra, nem ousou alguém, a partir daquele dia, fazer-lhe perguntas" (Mt 22,41-46).

 

5.27.4. - Normas Complementares

A finalidade principal das prescrições deste livro é apresentar a codificação legal com os aperfeiçoamentos havidos, indispensáveis tanto à tranqüilidade como à segurança, para a vida em comunidade na Terra Prometida. Mas, apesar do cunho religioso ou místico das normas, o objetivo profano de sua implantação era a paz social, tal como atualmente é a finalidade do direito. Vivendo em sociedade ou em comunidade, tem o homem deveres a cumprir consigo, com a família e com o grupo onde vive. Já desde então se implantavam regras com a finalidade de assegurar aqueles comportamentos diversos que se poderiam ou se deveriam praticar. Não deixa de ser uma maneira intuitiva de estabelecer o direito, ainda que em germe. Para fins pedagógicos podem-se dividi-las em normas criminais, de combate ou conquista, familiares e comunitárias, observando-se sempre o caráter sagrado de todas elas. O Direito como Instituição coercitiva social é uma concepção mais atual, enquanto que naqueles tempos as normas se impunham e coagiam por sua base mística, muitas das vezes supersticiosa e voltada para a moral. Entre os Israelitas eram consideradas condições da Aliança de Iahweh, cujos mandamentos ou estatutos cumpridos, se tornavam fonte de Bênçãos e se traduziam em felicidade na Terra Conquistada. Eram indispensáveis para a Paz Comunitária ou Social, "...desde que guardes todos estes mandamentos que hoje te ordeno, para cumpri-los, amando Iahweh, teu Deus, e andando nos seus caminhos todos os dias...", evitando-se dissabores ou descontentamentos.

a) Normas Criminais

Nessa perspectiva é que se devem analisar as Instituições, principalmente as criminais, tal como por exemplo a Lei do Talião, da qual se tem as piores impressões. A finalidade prática dela é explicada na regulamentação da pena a ser aplicada à testemunha falsa: - retribuir ao faltoso a mesma conseqüência do seu ato. Esta lei, "... vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé..." - assim denominada por determinar a dosagem da punição: - Tal o Ato, Tal a Pena ("tal...tal..." = talião), - não era a imposição de um castigo vingativo e cruel. Era uma política criminal nos moldes culturais do tempo, "...para que (...) o ouçam, e temam, e nunca mais tornem a fazer semelhante mal no meio de ti...", isto é, um meio de atemorizar para impedir a repetição do ato criminoso, buscando-se a Paz Comunitária.

"18 Os juízes indagarão bem; se a testemunha for falsa e tiver testemunhado falsamente contra seu irmão,19 far-lhe-eis como cuidou fazer a seu irmão; e, assim, exterminarás o mal do meio de ti;20 para que os que ficarem o ouçam, e temam, e nunca mais tornem a fazer semelhante mal no meio de ti.21 Não o olharás com piedade: vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé." (Dt 19,18-21).

Essa norma facultava o "vingador de sangue" (Nm 35,19), vingar o seu parente, retribuindo ao ofensor a mesma ofensa, tal como o vitimou. Essa disposição vingativa se tornava cega, eliminando-se até o homicida involuntário ou culposo (por exemplo:- Dt 19,5), com a mesma pena do voluntário, ou doloso. Para a manutenção da paz buscou-se a amenização dessa :injustiça e assim se evitar o derramamento legal de sangue inocente, prevendo-se a instituição das Cidades de Refúgio a esses homicidas involuntários (Ex 21,12-14 / Nm 35,9-34). Porém, dessa proteção não gozaria o criminoso voluntário, aquele que matou dolosamente, que poderia até mesmo ser retirado do asilo que buscasse, abrigando-se no "altar de Iahweh" (Ex 21,14), e "sem piedade, para exterminar de Israel a culpa do sangue inocente, para que sejas feliz", em virtude da responsabilidade comum e solidária da comunidade Israelita (Lv 19,17b; 20,4-5 / 2Sm 21,1):

"4 Este é o caso tocante ao homicida que nelas se acolher, para que viva aquele que, sem o querer, ferir o seu próximo, a quem não aborrecia dantes.5 Assim, aquele que entrar com o seu próximo no bosque, para cortar lenha, e, manejando com impulso o machado para cortar a árvore, o ferro saltar do cabo e atingir o seu próximo, e este morrer, o tal se acolherá em uma destas cidades e viverá;6 para que o vingador do sangue não persiga o homicida, quando se lhe enfurecer o coração, e o alcance, por ser comprido o caminho, e lhe tire a vida, porque não é culpado de morte, pois não o aborrecia dantes. (...) 10 para que o sangue inocente se não derrame no meio da tua terra que Iahweh, teu Deus, te dá por herança, pois haveria sangue sobre ti.11 Mas, havendo alguém que aborrece a seu próximo, e lhe arma ciladas, e se levanta contra ele, e o fere de golpe mortal, e se acolhe em uma dessas cidades,12 os anciãos da sua cidade enviarão pessoas para tirá-lo dali e entregá-lo na mão do vingador do sangue, para que morra.13 Não o olharás com piedade; antes, exterminarás de Israel a culpa do sangue inocente, para que te vá bem." (Dt 19,4-13).

As cidades seriam distribuídas conforme a dimensão proporcional das terras ocupadas (Dt 11,22-24 / Dt 19,8-9), facilitando-se "...o alcance, por ser comprido o caminho...", ao fugitivo inocente (Dt 19,6). É necessário destacar aqui que, tais cidades se tornam condição complementar e indestacável, na Conquista da Terra Prometida, sempre proporcional a seus limites, tal "...como jurou a teus pais, e te der toda a terra que lhes prometeu (...) acrescentarás outras três cidades além destas três...":

" 7 Portanto, te ordeno: três cidades separarás.8 Se Iahweh, teu Deus, dilatar os teus limites, como jurou a teus pais, e te der toda a terra que lhes prometeu,9 desde que guardes todos estes mandamentos que hoje te ordeno, para cumpri-los, amando Iahweh, teu Deus, e andando nos seus caminhos todos os dias, então, acrescentarás outras três cidades além destas três,10 para que o sangue inocente se não derrame no meio da tua terra que Iahweh, teu Deus, te dá por herança, pois haveria sangue sobre ti" (Dt 19,7-10).

Ainda, no tocante à manutenção da Paz Comunitária ou Social, duas outras situações são aperfeiçoadas, respectivamente, a usurpação de limites da propriedade (Dt 19,14) e as conseqüências do falso testemunho (Dt 19,15-20). Também, o deslocamento desonesto dos limites é uma ofensa a Iahweh, que distribuiu as terras em herança a cada tribo, em determinada porção, não podendo sofrer nenhuma alteração. Até mesmo na venda da propriedade, esse motivo é tão determinante, a ponto de impor a restituição dela no Jubileu (Lv 25). Com referência aos testemunhos, pelo menos duas situações vividas por Jesus Cristo, ajudam a compreender o valor e merecem destaque. A primeira delas se dá quando foi posto à prova com o julgamento de uma mulher a quem se acusou de adultério:

"1 Jesus, entretanto, foi para o monte das Oliveiras.2 De madrugada, voltou novamente para o templo, e todo o povo ia ter com ele; e, assentado, os ensinava.3 Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos,4 disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério.5 E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes?6 Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo.7 Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a lhe atirar a pedra.8 E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão.9 Mas, ouvindo eles esta resposta, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até aos últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava.10 Erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?11 Respondeu ela: Ninguém, Senhor! Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais. " (Jo 8,1-11).

"...seja o primeiro a lhe atirar a pedra..." - Apesar de ter o mesmo sentido da frase usualmente usada, "...atire a primeira pedra...", no contexto melhor seria aquela, mais conforme a intenção de Jesus, invocando o Mandamento tal como deveria ser cumprido: a execução seria feita pelas próprias testemunhas do ato ilícito, que assumiriam assim a responsabilidade pela execução, após o julgamento justo por elas provocado:

"7 A mão das testemunhas será a primeira para matá-lo, e depois a mão de todo o povo. Assim, eliminarás o mal do meio de ti." (Dt 17,7) / " 6 Não perverterás o julgamento do teu pobre na sua causa.7 Da falsa acusação te afastarás; não matarás o inocente e o justo, pois não justifico o culpado." (Ex 23,6-7).

A outra ocasião se dá, quando em julgamento, inquirido por Anás, o Sumo Sacerdote, Jesus é esbofeteado por um dos guardas, por tê-lo alertado da necessidade legal de testemunhas reais para um julgamento. Cristo, por lhe dizer: - "Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que lhes falei; bem sabem eles o que eu disse" -, não mereceu a agressão sofrida, a não ser que tenha, com essa palavras, chamado a atenção do Sumo Sacerdote pela violação da Lei de Moisés, que proíbe a pena de morte sem o mínimo de duas testemunhas (Dt 17,6; 19,15), tal como estava acontecendo:

"19 Então, o sumo sacerdote interrogou a Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina.20 Declarou-lhe Jesus: Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto.21 Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que lhes falei; bem sabem eles o que eu disse.22 Dizendo ele isto, um dos guardas que ali estavam deu uma bofetada em Jesus, dizendo: É assim que falas ao sumo sacerdote?23 Replicou-lhe Jesus: Se falei mal, dá testemunho do mal; mas, se falei bem, por que me feres?" (Jo 18,19-23).

 

b) Normas de Combate ou Conquista

A Missão de Israel (Ex 23,24-25; 34,11-13 / Dt 7,1-6; 12,2-3), já por várias vezes destacada, sofre uma revisão pela proximidade da conquista e em face dos novos dados reconhecidos. Basicamente era necessário destacar a Soberania de Iahweh, refletindo-se na incorruptibilidade da Terra Santa, o Seu Domínio. Impunha-se então, necessariamente, a erradicação de todo e qualquer vestígio de idolatria, que significasse a mínima homenagem a deuses estranhos, dos cananeus e de outros povos pagãos. Era o extermínio completo de qualquer vestígio da antiga presença profana de falsos deuses, contaminando o país. Impunha-se uma "limpeza" radical de toda e qualquer "impureza" e até mesmo o menor contato com esses povos, que seriam votados ao interdito (Nm 21,2; 33,55):

"1 Quando Iahweh, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu;2 e Iahweh, teu Deus, as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas;3 nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos;4 pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira de Iahweh se acenderia contra vós outros e depressa vos destruiria.5 Porém assim lhes fareis: derribareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, cortareis os seus postes sagrados e queimareis as suas imagens.6 Porque tu és povo santo a Iahweh, teu Deus; Iahweh, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra." (Dt 7,1-6).

Algumas situações inesperadas vêm se somar as anteriores e se impor: - não temerão o confronto, muitas vezes com povos mais desenvolvidos e poderosos. Neste caso, uma exortação será feita, pelo Sacerdote, à confiança em Iahweh, que já os libertara do Egito e combaterá todos os inimigos por eles (Js 6 / Jz 7,1-8 / 1Sm 7,10 / 2Cro 20,20-25):

"1 Quando saíres à peleja contra os teus inimigos e vires cavalos, e carros, e povo maior em número do que tu, não os temerás; pois Iahweh, teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, está contigo.2 Quando vos achegardes à peleja, o sacerdote se adiantará, e falará ao povo,3 e dir-lhe-á: Ouvi, ó Israel, hoje, vos achegais à peleja contra os vossos inimigos; que não desfaleça o vosso coração; não tenhais medo, não tremais, nem vos aterrorizeis diante deles,4 pois Iahweh, vosso Deus, é quem vai convosco a pelejar por vós contra os vossos inimigos, para vos salvar." (Dt 20,1-4).

Também, algumas circunstâncias impunham um desligamento no dever militar, situações culturalmente valorizadas, em nome da justiça, para que "...outro homem..." não venha a usufruir o seu direito, se morrer, motivo suficiente para permanecer com a família e em sua propriedade. Da mesma maneira; o medo ou a covardia, para não se influir negativamente na tropa (1Mac 3,56):

"5 Os escribas falarão ao povo, dizendo: Qual o homem que edificou casa nova e ainda não a inaugurou? Vá, torne-se para casa, para que não morra na peleja, e outrem a inaugure.6 Qual o homem que plantou uma vinha e ainda não a desfrutou? Vá, torne-se para casa, para que não morra na peleja, e outrem a desfrute.7 Qual o homem que está desposado com alguma mulher e ainda não a recebeu? Vá, torne-se para casa, para que não morra na peleja, e outro homem a receba.8 E continuarão os escribas a falar ao povo, dizendo: Qual o homem medroso e de coração tímido? Vá, torne-se para casa, para que o coração de seus irmãos se não derreta como o seu coração.9 Quando os escribas tiverem falado ao povo, designarão os capitães dos exércitos para a dianteira do povo." (Dt 20,5-9).

Há uma Parábola de Jesus, que confirma e amplia esse entendimento da gravidade do motivo que impunha essa dispensa, até mesmo em caso de guerra. Fazia parte da hierarquia de valores culturais a inauguração do uso pelo proprietário, daquilo que adquiriu, facultando-lhe a Lei escusar-se de qualquer outro ato, por mais imperioso que fosse. Jesus fazendo uso da prescrição legal, para caracterizar a diferença que ocorre no Reino de Deus, em que não há escusa que isente da responsabilidade. Demonstra assim o motivo que causou a eleição de outro povo para as bodas, pela recusa de Israel.

"16 Ele ("Jesus"), porém, respondeu: Certo homem deu uma grande ceia e convidou muitos.17 À hora da ceia, enviou o seu servo para avisar aos convidados: Vinde, porque tudo já está preparado.18 Não obstante, todos, à uma, começaram a escusar-se. Disse o primeiro: Comprei um campo e preciso ir vê-lo; rogo-te que me tenhas por escusado.19 Outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; rogo-te que me tenhas por escusado.20 E outro disse: Casei-me e, por isso, não posso ir.21 Voltando o servo, tudo contou ao seu senhor. Então, irado, o dono da casa disse ao seu servo: Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos.22 Depois, lhe disse o servo: Senhor, feito está como mandaste, e ainda há lugar.23 Respondeu-lhe o senhor: Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa.24 Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia." (Lc 14,15-20).

É preciso que não se faça a mais leve confusão entre a "limpeza" do território e sua conseqüente "purificação", pelo extermínio dos idólatras ou inimigos de Iahweh e Israel (Dt 20,17), com a maneira de tratar os habitantes dos locais sitiados. Neste caso era de se observar que Israel teria que proceder diferentemente dos pagãos, "separados" dos habitantes daquele território, distinguindo-se deles pela "pureza" de costumes e manifestando-se com mais humanidade. No que concerne à guerra, deveriam se distinguir pela "santidade" de suas práticas, buscando em primeiro lugar a "purificação" do território e a conversão dos povos conquistados, que conforme a cultura da época se submeteriam a Iahweh, o Deus vitorioso (Dt 7,21-26). Além disso, mesmo por que. Israel desconhecia a região, seriam úteis no trabalho forçado e como escravos. Iahweh mesmo já avisara que não seriam expulsos do território imediatamente (Dt 7,22), tendo que conviver com eles algum tempo, sem se contaminarem nem se deixando influenciar pelos seus costumes idólatras. Somente aqueles que não se submetessem a Iahweh, seriam exterminados como despojo, isto é, votados ao interdito (Nm 21,2 / Lv 27,28-29 / Dt 2,34-35; 7,1-2 / Js 6,17 / 1Sm 15 etc.), bem como os inimigos tradicionais de Iahweh e os habitantes cananeus corrompidos pela idolatria contumaz. Aos habitantes do território e a outros povos distantes, propor-se-ia a paz, a qual, recusada, seriam sitiados e conquistados, votados ao interdito. O bom senso deveria sempre nortear a conduta Israelita, não devastando os campos conquistados ou as áreas adjacentes à localidade assediada, como faziam os pagãos, limitando-se a cortar apenas as árvores necessárias e úteis ao assédio (Dt 21,19-20):

10 Quando te aproximares de alguma cidade para pelejar contra ela, oferecer-lhe-ás a paz.11 Se a sua resposta é de paz, e te abrir as portas, todo o povo que nela se achar será sujeito a trabalhos forçados e te servirá.12 Porém, se ela não fizer paz contigo, mas te fizer guerra, então, a sitiarás.13 E Iahweh, teu Deus, a dará na tua mão; e todos os do sexo masculino que houver nela passarás a fio de espada;14 mas as mulheres, e as crianças, e os animais, e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti; e desfrutarás o despojo dos inimigos que Iahweh, teu Deus, te deu.15 Assim farás a todas as cidades que estiverem mui longe de ti, que não forem das cidades destes povos.16 Porém, das cidades destas nações que Iahweh, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida tudo o que tem fôlego.17 Antes, como te ordenou Iahweh, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus,18 para que não vos ensinem a fazer segundo todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, pois pecaríeis contra Iahweh, vosso Deus." (Dt 20,10-18).

 

c) - Normas Familiares, Comunitárias e Cultuais

Bem deslocado do tema em desenvolvimento, das normas vigentes em caso de guerra, surge inopinadamente a descrição de um ritual, a se praticar no caso de um homicida desconhecido (Dt 21,1-9). Essa ocorrência, além de grande perigo para a paz comunitária, traz séria "impureza" e "maldição", pelo sangue inocente derramado (Dt 19,13 / Gn 4,10-12). A cidade mais próxima da ocorrência devendo ser a provável residência do assassino, assume a responsabilidade pelo cerimonial expiatório (Dt 21,3-8). Celebrava-se um "julgamento", pelos juizes e anciãos, para a satisfação do vingador de sangue (Dt 19,11-12 / Dt 16,18 / Dt 21,3-4), em nome de todo Israel, responsável pelo sangue inocente derramado. A cerimônia é de caráter sacro, expresso pela presença de sacerdotes levitas, medianeiros no ritual de expiação da "...culpa do sangue inocente do meio de ti...". Com esse cerimonial sagrado consegue-se a restituição da Bênção, esvaída pela maldição advinda com o homicídio (Gn 4,11-12). Por causa disso é que o narrador separou este trecho do contexto geral, intercalando-o antes as normas de combate, para o qual era indispensável a "pureza" de Israel, como um todo. Além disso, destaca-se assim o pedido de perdão sagrado e comunitário a Iahweh, junto à declaração de inocência (cfr. Pilatos - Mt 27,24), não se identificando a nenhum instituto penal já mencionado. Trata-se de uma forma de "impureza", a ser erradicada na Terra Prometida, tal como se procedia no Santuário do Deserto, cuja "Santidade" dever-se-ia preservar (Nm 5,1-3):

"6 Todos os anciãos desta cidade mais próxima do morto, lavarão as mãos sobre a novilha desnucada no vale7 e dirão: As nossas mãos não derramaram este sangue, e os nossos olhos o não viram derramar-se.8 Sê propício ao teu povo de Israel, que tu, ó Iahweh, resgataste, e não ponhas a culpa do sangue inocente no meio do teu povo de Israel. E a culpa daquele sangue lhe será perdoada.9 Assim, eliminarás a culpa do sangue inocente do meio de ti, pois farás o que é reto aos olhos de Iahweh." (Dt 21,6-9).

A seguir, ainda para a preservação da Santidade do Território de Iahweh, destaca-se, inicialmente, a eventualidade de ocorrer o casamento com uma prisioneira de guerra, (Dt 21,10-14), a qual deveria também ser "purificada". Tal ela fará "...raspando os cabelos, cortando as unhas, despindo a veste de prisioneira..." e, em seu novo lar, "...durante um mês, chorará seu pai e sua mãe...". Torna-se então a esposa, por cujo ritual e pelo mês de lágrimas, símbolo de luto (Nm 20,29 / Dt 34,8), abandona os familiares e os costumes pagãos. Assim, se torna uma Israelita, não podendo mais ser vendida como escrava (Ex 21,8), caso venha a ser rejeitada pelo marido. Ainda, ratifica-se a norma, já observada costumeiramente (Gn 48,5-6), do direito à dupla porção de herança do filho mais velho, do sexo masculino, sempre em busca da preservação da Santidade. Quando se analisou o Instituto da Primogenitura falou-se nesse direito à dupla porção da herança, que caberia ao primogênito, mesmo sendo ele filho de mulher não amada... Essa norma então regulamentada parece ser uma represália à velha rixa familiar, advinda em virtude de Jacó, apesar de se justificar com a traição, ter retirado o Direito de Primogenitura de Rúben (Gn 49,4c), o primogênito, filho de Lia, a mulher menos amada (Gn 29,31), e dado a José (Gn 48,5-6), o filho de Raquel, a mulher mais amada e predileta (Gn 29,30). Já se falou por demais a respeito desse direito, de sua Bênção peculiar e seus privilégios, dispensando-se maiores comentários. Não se perca de vista, porém, que se tratam de atitudes destinadas a "extirpar o mal do meio" de Israel, para o que, até mesmo um filho rebelde, trazendo o desassossego e o desgosto à família e ao meio onde vive, pela corrupção moral e bebedeira, perturbando a honra familiar e tribal, a paz, a ordem e a tranqüilidade gerais, deveria ser eliminado. Deverá ser punido com a lapidação, pelos anciãos da tribo (Dt 21,18-21), após julgamento e condenação, pelos juízes e anciãos (Dt 19,12), "na porta do local onde vive" (Dt 21,19b), o "fórum" daqueles tempos [Rt 4,1-2 / Am 5,10.12.15 / Is 29,21 / Sl 127(126),5]. São exemplos destinados ao esclarecimento da necessidade de ordem, obediência, fidelidade, disciplina na vida comunitária ou social, e o respeito aos Mandamento de Iahweh, da "pureza", por causa e concernentes à Aliança, até mesmo no âmago do lar e a qualquer preço. Outro caso de preservação da pureza do solo Israelita é o de não se permitir a permanência do morto na forca, "...o maldito de Deus..." (Dt 21,22-23), vindo a noite, fato que irá servir de fundamento para a retirada de Cristo da Cruz (Mt 27,57-60). Por sua vez, São Paulo aplica esse preceito a Jesus Cristo, "...tornando-se Ele mesmo maldição da lei por nós...", por ter sido "...suspenso no madeiro..." (Gl 3,13 / Dt 21,23).

Vários dispositivos são apresentados, numa casuística pormenorizada, exemplificativa e genérica, para estimular maior estreitamento e unidade de vida em comum. Formam um elenco de gestos de amizade e respeito mútuo, em nome da paz social (p. ex.: Dt 22,1-4), bem como, prevenindo-se atos que causassem o desassossego, a insegurança ou qualquer incômodo, por falta de solidariedade e pudor (Dt 22,1-23,1). Alguns deles, só são explicáveis como práticas para se evitar a superstição, a magia, ou que fossem mesclados de misticismo ou idolatria pagãos (Dt 22,5.9-11), coibindo-lhes a influência e o alastramento. Para melhor exemplificar essa contingência, observe-se que, a restrição ao uso de roupas de outro sexo, se deve ao fato de que tais práticas eram observadas nos cerimoniais de prostituição sagrada. Tinham o significado da renúncia ao próprio sexo, consagrado em oferenda sacrificial num ato libidinoso, invertido e anormal (Dt 22,5 / Dt 23,18-19), ao deus ou deusa pagãos. Uma simples leitura é suficiente para se inteirar de seu conteúdo, apesar de escaparem à compreensão, as mais das vezes, na atual conjuntura histórica, pela mudança de mentalidade, hábitos e costumes. Tal é o caso, por exemplo, da necessidade de prova, a cargo exclusivamente dos pais da noiva, da virgindade da filha na noite de núpcias, quando estiver sendo difamada pelo marido. Naquela época, entregavam-se aos pais da noiva, os panos que cobriram a cama na noite de núpcias e receberam o vestígio sangüíneo da ruptura himenal. Essa a prova, a cargo dos pais da esposa, em justificação da reputação da noiva e familiar, tinha caráter irrefutável, como se percebe pelas conseqüências advindas, tanto da sua comprovação, como de sua inexistência (Dt 22,13-21). São fatos da vida familiar, comunitária e social que excitam os ânimos, muitas vezes extremos e dramáticos, principalmente ao se difamar a reputação familiar e a da noiva. Tais casos, assim como o defloramento, o abuso sexual, o estupro ou o adultério (Dt 22,22-29), atualmente denominados crimes sexuais, ainda são causas de vários conflitos de toda ordem, inexistindo civilização que os tolere. O narrador sintetiza essas conseqüências dramáticas com uma espécie de refrão em toda a exposição, dando como finalidade principal "...o afastamento do mal de teu meio..." (Dt 23,22.24). Ainda, vigorando a poligamia em Israel, cumpria evitar atos dos filhos, que se traduzissem em desonra para o pai, unindo-se com uma de suas mulheres, não "levantarás dela o manto paterno", mesmo num ato de fornicação, uma união sexual passageira (Dt 23,1). São Paulo, com base nesse dispositivo irá se insurgir contra essa prática em Corinto (1Co 5,1-5 / Lv 18,8 / Dt 27,20), acomodando a situação ao mesmo motivo, repetindo a mesmo refrão - "afastai o mau do meio de vós" (Dt 13,6; 17,7 / Gn 34,22). A observação feita de que as prescrições muitas das vezes são incompreensíveis em virtude de virem mescladas como causas idolátricas, é o que pode esclarecer o impedimento, de "ser admitido na assembléia de Iahweh, o homem que tivesse os testículos esmagados ou castrado" (Dt 23,2). Parece à primeira vista que o motivo é a mutilação que inutiliza a capacidade reprodutora do varão, mas, além disso, é de se considerar que, o fundamento religioso das várias admoestações de Moisés têm por fim o afastamento de toda e qualquer influência idolátrica pagã. E entre eles era comum a prática do castramento religioso, em sinal de consagração plena, colocando-se a serviço de uma deusa ou deuses pagãos. Por isso, o castrado era portador de amputação feita em sacrifícios pagãos, oferecidos indelevelmente a seus deuses, ficando assim corrompido e impossibilitado de participar da comunhão com Iahweh. Antes vedava-se só aos Sacerdotes (Lv 21,20) ou às Vítimas do Sacrifício (Lv 22,24), portadores de qualquer defeito físico ou castrados, que participassem dos Sacrifícios. Agora, com esse aperfeiçoamento da Lei, essa proibição se estende a todo e qualquer pessoa, sem que com isso se impedisse a participação de eunucos na comunidade Israelita. A presença deles na corte de Israel (1Rs 22,9 / 2Rs 8,6; 9,32 / Jr 29,2; 34,19), mostra "em figura" a sua redenção na "corte" do Reino de Deus. Essas restrições serão abolidas, tal como anunciarão os Profetas, nos tempos Messiânicos, com a integração dos eunucos juntamente com todos os povos a Israel, sob a mesma Aliança. Assim se conclui pelas frases: - "...guardam os meus sábados... e abraçam a minha aliança...", "...todos os que guardam o sábado, não o profanando, e abraçam a minha aliança...", usadas pelo Profeta:

"3 Não diga o estrangeiro que se entregou a Iahweh: 'Iahweh, com efeito, me afastará do seu povo'; nem tampouco diga o eunuco: 'Eis que eu sou uma árvore seca'.4 Porque assim diz Iahweh: Aos eunucos que guardam os meus sábados, escolhem aquilo que me agrada e abraçam a minha aliança,5 darei na minha casa e dentro dos meus muros, um memorial e um nome melhor do que filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará.6 Aos estrangeiros que se chegam a Iahweh, para o servirem e para amarem o nome de Iahweh, sendo deste modo servos seus, sim, todos os que guardam o sábado, não o profanando, e abraçam a minha aliança,7 também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha Casa de Oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada Casa de Oração para todos os povos.8 Assim diz Iahweh Deus, que congrega os dispersos de Israel: Ainda congregarei outros aos que já se acham reunidos." (Is 56,3-8).

Essa libertação do eunuco de seu estigma irá sendo abrandado, tal como vai se revelando na Escritura, até se erradicar indiscutivelmente nos tempos Messiânicos:

"Feliz também o eunuco cuja mão não praticou o mal e que não alimentou maus pensamentos contra o Senhor; por sua fidelidade ser-lhe-á dada uma graça excelente, e o quinhão preferido no Templo do Senhor." (Sb 3,14)

Todos esses anúncios proféticos vão se corporificar e se cumprir com Cristo, em duas ocasiões. A primeira, se dará quando o colocam à prova, em virtude de já conhecer sua pregação. Conforme a resposta que desse o fariam cair em desgraça com Herodes, que havia abandonado a mulher sem motivo, podendo receber a mesma punição imposta a João Batista. Mas, Jesus não se deixa iludir e vai ao "princípio", à Criação, antes do Pecado Original, ao Paraíso, para onde a Sua Encarnação irá reconduzir a Criação. Fazendo assim referência ao "princípio", junta em uma só, a Criação e a Aliança, a que dá prosseguimento (Mt 5,17). E vai mais longe ainda ao afirmar que "...há eunucos de nascença; há outros a quem os homens fizeram tais; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos céus. Quem é apto para o admitir admita" (Mt 19,3-12). É de se observar que, em se tratando de casamento, não há lugar para se falar em "eunucos", incapazes de procriação, não se podendo concluir outra coisa que um aperfeiçoamento da Lei antiga. Traça assim as bases das duas únicas consagrações plenas do cristianismo, iguais em sacralidade, distintas na função material, qual sejam, o Matrimônio e o Sacerdócio Cristãos, pelos quais um Homem ou um casal, Homem e Mulher, se consagram plenamente e colocam-se integralmente a Serviço de Deus:

"3 Vieram a ele alguns fariseus e o experimentavam, perguntando: É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo?4 Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher5 e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne?6 De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.7 Replicaram-lhe: Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar?8 Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio.9 Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério e o que casar com a repudiada comete adultério.10 Disseram-lhe os discípulos: Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar.11 Jesus, porém, lhes respondeu: Nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado.12 Porque há eunucos de nascença; há outros a quem os homens fizeram tais; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos céus. Quem é apto para o admitir admita." (Mt 19,3-12).

A segunda, se dará quando da Expulsão dos Vendilhões do Templo, ocasião em que Jesus mais acentua a universalidade da Obra da Redenção, pelo que "...no templo curou os cegos e coxos que a ele vieram..." Com esse ato, abre as portas do Templo de Iahweh a todos, "sem acepção de pessoas", "curando-as, "limpando-as" ou "purificando-as", tal como a Lei de Moisés e tal como "no princípio", para poderem entrar no Santuário. "Purificou" até mesmo o Templo, afastando dele os vestígios exclusivos dos Sacrifícios Israelitas, tornando-o participável pela universalidade humana, assim como anunciaram os Profetas: "... porque a minha casa será chamada Casa de Oração para todos os povos..." (Is 56,7 / Jr 7,11). Faz jus então ao reconhecimento então advindo: - "Este é O Profeta Jesus..."

"11 E as multidões clamavam: Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia!12 ¶ Tendo Jesus entrado no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam; também derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas.13 E disse-lhes: Está escrito: 'A minha casa será chamada casa de oração'; 'vós, porém, a transformais em covil de salteadores'.14 Vieram a ele, no templo, cegos e coxos, e ele os curou." (Mt 21,11-14).

Da mesma forma que no Santuário do Deserto da Peregrinação Israelita, por se tratar da "habitação de Iahweh" (Nm 19,13), vários cuidados serão observados na Terra Prometida, no Santuário Único ou Central e no Templo, pelo mesmo motivo. Assim, das Assembléias Sacrificiais também não participariam os denominados "bastardos", visto serem descendentes de casais mistos com estrangeiros, igualando-se a eles os amonitas e moabitas (Dt 23,2-9). Essa identificação leva a admitir que a causa principal da exclusão deles das Assembléias é a mesma pela qual se excluíram os "bastardos". Assim como esses filhos de casais de Israelita com cônjuge estrangeiro não podem participar, também os moabitas e amonitas, descendentes do "incesto" de Ló com as suas filhas (Gn 19,30-38), em virtude de ambos serem portadores de "impureza" incompatível com a Santidade do Santuário, "a habitação de Iahweh". Além dessa tradição moral, vai agravar o relacionamento o fato de "... não foram ao vosso encontro com pão e água, no caminho, quando saíeis do Egito; e porque Moab alugou contra ti Balaão, filho de Beor, de Petor, da Mesopotâmia, para te amaldiçoar..." (Ne 13,1-2):

"4 Nenhum amonita ou moabita entrará na assembléia de Iahweh; nem ainda a sua décima geração entrará na assembléia de Iahweh, eternamente.5 Porquanto não foram ao vosso encontro com pão e água, no caminho, quando saíeis do Egito; e porque alugaram contra ti Balaão, filho de Beor, de Petor, da Mesopotâmia, para te amaldiçoar.6 Porém Iahweh, teu Deus, não quis ouvir a Balaão; antes, trocou em bênção a maldição, porquanto Iahweh, teu Deus, te amava.7 Não lhes procurarás nem paz nem bem em todos os teus dias, para sempre." (Dt 23,4-7).

O mesmo não acontecerá ao edomita e ao egípcio (Dt 23,8-9), aquele por ser descendente de Esaú, irmão de Jacó, procedentes ambos da mesma tribo de Isaac, havendo a uni-los forte laço de parentesco entre os orientais, superiores até mesmo às rusgas ou desencontros ocasionais (Gn 36 / Nm 20,18-21 / Dt 2,4-8). Este, o egípcio, por terem se abrigado em seu solo, naqueles já amplamente relatados quatrocentos e trinta anos, considerados como uma hospedagem, num gesto eloqüente de gratidão. Até mesmo nos acampamentos militares (Dt 23,10-15), dever-se-ão observar as condições de higiene e "pureza", por onde "...Iahweh teu Deus anda para te proteger e para entregar-te os inimigos...", devendo então "...ser santo (= "limpo, puro") para que Iahweh não te volte as costas...", abandonando-o à própria sorte. No que se refere à "polução noturna", culturalmente seria uma "impureza" de ordem sexual (Nm 5,1-4 / Lv 15,16-17), comprometendo a "santidade" do soldado, numa guerra comandada pelo próprio Iahweh, uma "guerra santa".

Acentua-se o caráter humanitário do Deuteronômio, no tratamento que se há de dispensar ao escravo de origem estrangeira, que buscou abrigo em Israel: - "não o entregarás ao seu senhor..., ficará, no meio de ti, no lugar que escolher, em alguma de tuas cidades onde lhe agradar; não o oprimirás". A expressão - "...em alguma de tuas cidades...", demonstra a sua fuga do exterior e a - "...não o oprimirás...", acentua a determinação, desde a Aliança (Ex 22,20), do modo de se tratar o estrangeiro, que passa a nortear a permanência junto aos Israelitas (v. tb.: Dt 24,14.17-22). Por esses dispositivos se verifica que esse escravo, passando a viver em Israel será livre e "...amá-lo-eis como a vós mesmos...", sendo alvo do mesmo tratamento dispensado a outro Israelita pelo Código de Santidade (Lv 19,18b):

"33 Se o estrangeiro emigrar para vossa terra, não o oprimireis.34 Como o natural, será tratado entre vós o migrante que mora entre vós; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou Iahweh, vosso Deus." (Lv 19,33-34).

Digno de destaque na miscelânea que se relata a seguir (Dt 23,17-25,19) é, de novo, a ocorrência da prostituição sagrada (Dt 23,18-19), um dos temores de Moisés a se infiltrar em Israel, por influência pagã. Era um costume por demais difundido no oriente, proibindo-se até a penetração de rendimentos advindos dessa prática, na Casa de Iahweh. Aqui aparece a denominação de "cão", termo pejorativo aplicado ao prostituto sagrado, a respeito dos quais Jesus recomenda a "não atirar vossas pérolas aos 'cães'..." (Mt 7,6), isto é, "não oferecer o puro a idólatras, impuros". Seguem-se disposições atinentes ao empréstimo a um Israelita, ao qual se veda auferir rendimentos ou juros (Dt 23,20-21 / Dt 24,10-13), bem como quanto aos votos que, feitos oralmente, deverão ser obrigatoriamente cumpridos (Dt 23,22-24). Também, com Jesus e seus discípulos, vai acontecer a colheita permitida, quando de passagem em plantação alheia, do necessário à alimentação pessoal, frugal e temporária (Dt 23,25-26 / Mt 12,1-8), tendo sido então criticados por fazê-la no sábado.

Como se torna desnecessário o comentário pormenorizado de todas as demais disposições, facilmente compreensíveis a uma simples leitura, limitar-se-á a análise a algumas instituições só aqui mencionadas. São importantes e se torna necessário o seu exame para uma melhor compreensão de algumas passagens do Novo Testamento. É o caso do Repúdio da Mulher ou Divórcio, aqui regulamentado de maneira a impedir a separação conjugal irrefletida, não permitindo, no caso de nova separação e morte do segundo marido, "retomá-la como esposa, após ela ter-se tornado impura, pois isso seria uma abominação diante de Iahweh" (Dt 24,4). O uso dessa palavra "abominação" (Dt 7,25 / Dt 24,4c), caracteriza sempre um ato de significação idolátrica, contra a Aliança, e corrompido por "impureza", com cujo ato "... farás pecar a terra que Iahweh, teu Deus, te dá por herança...." Jesus vai acabar com esses abusos, não permitindo o repúdio da mulher ou o divórcio (Mt 5,32), classificando essa liberalidade de Moisés como causada "pela dureza de vossos corações" (Mt 19,6-8). Tornará o matrimônio tão indissolúvel, tal quanto era "no princípio" (Mt 19,4.8b), isto é, quando da Criação, que suscitará dos discípulos a exclamação: - "Se tal é a condição do homem em relação a sua mulher, não convém casar-se" (Mt 19,10), consideração que não teria sentido se houvesse alguma tergiversação, dizendo ainda: - "O que Deus uniu, o Homem não separe." (Mt 19,6b).

Algumas disposições humanitárias vêm catalogadas, tais como a faculdade do recém casado vir a ser dispensado de serviço militar ou outro de interesse público, e "ficará em casa", por um para cuidar da esposa (Dt 24,5 / cfr.: - Dt 20,7); restrições ao penhor da mó (Dt 24,6); estabelecendo a pena de morte ao seqüestrador (Dt 24,7); cuidados para se evitar a lepra (Dt 24,8-9); cuidados com a dignidade do tomador de empréstimo (Dt 24,10-11), principalmente se for pobre (Dt 24,12-13 / Ex 22,25-26); algumas recomendações quanto ao assalariado pobre ou necessitado (Dt 24,14-15 / cfr.: - Dt 15,7-11; 23,20; 24,6); o princípio da responsabilidade penal exclusiva do autor do crime (Dt 24,16), em virtude do qual se comprova a inexistência de "castigo" dos filhos por causa dos pais em várias citações mandamentais (cfr.: - Ex 20,5; 34,7 / Dt 5,9). Quando lá se menciona uma espécie de vingança de Iahweh nos filhos por pecado dos pais, são expressões da época para demonstrar a proporcionalidade da misericórdia de Deus, comparada à ira, caso existisse e se manifestasse. Também, não se confundindo a responsabilidade individual no crime com a "solidariedade tribal", quanto aos compromissos da Aliança, principalmente na idolatria (Lv 20,4). Vem a seguir, o respeito ao direito do estrangeiro, do órfão e da viúva, e a parte que lhes é destinada nas colheitas (Dt 24,17-18.19-22 / Lv 19,9-10); a justiça nos julgamentos e a fixação do limite máximo de quarenta chicotadas, que o uso limitou em "quarenta menos uma", com que foi castigado São Paulo (2Cor 11,24), para não se aviltar publicamente o irmão de raça; e, chega a realçar a isenção de crueldade que deve nortear o procedimento mesmo com animais, com base em que São Paulo aplica o preceito ao ser humano (Dt 25,4 / 1Cor 9,9 / 1Tm 5,18).

O Instituto do Levirato ( do latim, levir = cunhado) é outra exclusividade de relato do aperfeiçoamento, existente costumeiramente desde os Patriarcas, tal como o acontecido entre Judá e Tamar (Gn38). Destinado também à manutenção da paz e a concórdia, regulamentando a herança de um falecido, sem ter descendentes para recebê-la, evitando a sua dispersão por outra família da propriedade. Para evitar isso, o irmão vivo, domiciliado na propriedade e mesmo local, desposaria obrigatoriamente a viúva. Dessa maneira, o primogênito advindo receberia a herança e o nome do falecido, impedindo assim a dispersão da propriedade para fora da família e "perpetuando-lhe o nome" (Dt 25,5-10). Na eventualidade do irmão não desejar se casar com a cunhada, o fato será apresentado ao exame dos anciãos "na porta da cidade", o fórum local. Sustentando publicamente sua disposição, a cunhada retira pé dele a sandália, símbolo da perda da posse, e cospe-lhe na face (Nm 12,14), dizendo-lhe: "É isto o que se faz a um homem que não edifica a casa do seu irmão", passando a ter o apelido de "casa do descalçado" (Rt 4,8). Toda essa reação à atitude do irmão traduz o repúdio ao seu ato e suas conseqüências desastrosas que adviriam para o falecido e à viúva. Os Saduceus, opondo-se à ressurreição dos mortos, apresentam a Jesus um argumento com base nesse dispositivo: - Uma mulher fica viúva e casa-se com um irmão, que também falece; casa-se novamente e o irmão também falece, e assim faz com sete irmãos, até que falece também a viúva. Perguntam a Jesus com qual deles irá a viúva conviver na ressurreição. Jesus responder-lhes-á que na vida eterna não há casamento, nem procriação, sendo os ressuscitados como os anjos, assexuados e que "Deus é Deus dos vivos e não de mortos" (Mt 22,23-28 / Mc 12,18-23 / Lc 20,27-33).

O pudor de uma mulher era tão criterioso que se apresenta como exemplo de punição esse caso impossível, dela agarrar o membros de um agressor para livrar o seu marido, de uma surra: mesmo assim, numa eventualidade tão hipotética e atenuante, sua mão lhe será cortada (Dt 25,11-12). Também a desonestidade e a injustiça no relacionamento cotidiano, tornam "abomináveis" perante Iahweh, tais como os que adulteram pesos e medidas (Dt 25,13-16).

Moisés insere aqui uma determinação que soa como um "testamento político", que deverá ser cumprido pelos Israelitas na Terra Prometida, em virtude de várias circunstâncias e acontecimentos prejudiciais, praticados pelos Amalecitas, os quais exigem uma séria retaliação (cfr. Ex 17,8-16 / Nm 14,43-45) ordenada pelo próprio Iahweh (Ex 17,16).

 

5.27.5. Normas Parenéticas de Integração e Ação de Graças

Nada mais natural que, a esta altura, Moisés finalizasse essa exortação em que apresenta a súmula dos fundamentos estruturais, desenvolvidos para integrar Israel em unidade religiosa. Esta consolidar-se-á em torno de Iahweh, seu único Deus, em Orações de Ação de Graças e atos indispensáveis, demonstrativos do reconhecimento e submissão, perenemente indestacáveis da vida Israelita: as Primícias, o Dízimo e a fidelidade à Aliança.

 

a) As Primícias

A começar com as Primícias, desde sempre um Direito de Iahweh, tanto de homens, como de animais (Ex 13,1-2), frutos da terra (Ex 23,19; 34,26), o primeiro feixe (Lv 23,10) e até mesmo o primeiro pão (Nm 15,17-21), conforme o Mandamento:

"As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à Casa de Iahweh, teu Deus." (Ex 34,26a; 23,19a).

Muito já se desenvolveu a respeito das Primícias e outras Oferendas em vários comentários anteriores, a que se remete o leitor, desnecessária a repetição. Não há novidade a se apresentar a não ser uma nova qualidade de ritual, aperfeiçoados para se comemorar "quando entrares na Terra que Iahweh, teu Deus te dará como herança, e a possuíres e nela habitares...": Isto significa que a partir da primeira, toda a colheita será seguida dessa cerimônia, num ato solene de reconhecimento e Ação de Graças, pelo cumprimento histórico da Promessa e Aliança feita por Iahweh. As Primícias são simbolicamente dispostas num "cesto", apresentando-se a parte como um resumo do todo, que o Sacerdote receberá e porá diante do Altar, traduzindo a entrega em agradecimento feita a Iahweh, junto com uma oração. Após essa oração de reconhecimento e gratidão, participarão todos, Ofertante, Familiares, Convivas (tb. - levitas e estrangeiros - Dt 12,6-7.11-12.17-18;16,11.14) e Sacerdote, de uma Refeição Sagrada, em regozijo por todos os benefícios recebidos. No cristianismo, tal cerimônia será praticada na Celebração Eucarística, no Ofertório, donde o Lava Mãos do Oficiante e o nome de "espórtula" à Oferenda que seria então entregue ao Sacerdote, num "cesto (em latim "sportula")":

"1 Ao entrares na terra que Iahweh, teu Deus, te dá por herança, ao possuí-la e nela habitares,2 tomarás das primícias de todos os frutos do solo que recolheres da terra que te dá Iahweh, teu Deus, e as porás num cesto, e irás ao lugar que Iahweh, teu Deus, escolher para ali fazer habitar o seu nome.3 Virás ao que, naqueles dias, for sacerdote e lhe dirás: "Hoje, declaro a Iahweh, teu Deus, que entrei na terra que Iahweh, sob juramento, prometeu dar a nossos pais".4 O sacerdote tomará o cesto da tua mão e o porá diante do altar de Iahweh, teu Deus.5 Então, testificarás perante Iahweh, teu Deus, e dirás: "Arameu errante foi meu pai, e desceu para o Egito, e ali viveu como estrangeiro com pouca gente; e ali veio a ser nação grande, forte e numerosa.6 Mas os egípcios nos maltrataram, e afligiram, e nos impuseram dura servidão.7 Clamamos a Iahweh, Deus de nossos pais; e Iahweh ouviu a nossa voz e atentou para a nossa angústia, para o nosso trabalho e para a nossa opressão;8 e Iahweh nos tirou do Egito com poderosa mão, e com braço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres;9 e nos trouxe a este lugar e nos deu esta terra, terra que mana leite e mel.10 Eis que, agora, trago as primícias dos frutos da terra que tu, ó Iahweh, me deste". Então, as porás perante Iahweh, teu Deus, e te prostrarás perante ele Iahweh, teu Deus.11 Alegrar-te-ás por todo o bem que Iahweh, teu Deus, te tem dado a ti e a tua casa, e, junto contigo, o levita, e o estrangeiro que está no meio de ti." (Dt 26,1-11).

 

b) O Dízimo Trienal

Da mesma forma, "...ao entrares na terra que Iahweh, teu Deus, te dá por herança, ao possuí-la e nela habitares...", de três em três anos, "nas portas", será distribuído o Dízimo Trienal, já anteriormente instituído (Dt 14,28-29), para o pobre e o levita de sua cidade. Tudo deverá ser feito de acordo com os mandamentos e disposições rituais, que não sofreram modificação quando aqui não especificada, motivo pelo qual "nada transgredi dos teus mandamentos, nem deles me esqueci. Dos dízimos não comi no meu luto e deles nada tirei estando imundo, nem deles dei para a casa de algum morto; obedeci à voz de Iahweh, meu Deus; segundo tudo o que me ordenaste, tenho feito". Não se confunde com o Dízimo já em vigor, entregue num Sacrifício a Iahweh, que o deu em herança aos levitas (Dt 14,22-27), apesar de se tratar de ato igualmente religioso (Dt 12,7.12.18; 14,23.26; 15,20; 16,11; 19,17). E, por ser um ato religioso é que dever-se-á resguardar de toda a impureza legal, por isso, "...não comi no meu luto e deles nada tirei estando imundo, nem deles dei para a casa de algum morto...", evitando-se macular e à oferenda com um contato, mesmo involuntário com um cadáver (Lv 22,3-6 / Nm 18,11.13):

"28 Ao fim de cada três anos, tirarás todos os dízimos do fruto do terceiro ano e os recolherás na tua cidade.29 Então, virão o levita (pois não tem parte nem herança contigo), o estrangeiro, o órfão e a viúva que estão dentro da tua cidade, e comerão, e se fartarão, para que Iahweh, teu Deus, te abençoe em todas as obras que as tuas mãos fizerem." (Dt 14,28-29) / "12 Quando acabares de separar todos os dízimos da tua messe no ano terceiro, que é o dos dízimos, então, os darás ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que comam dentro das tuas cidades e se fartem.13 Dirás perante Iahweh, teu Deus: "Tirei de minha casa o que é consagrado e dei também ao levita, e ao estrangeiro, e ao órfão, e à viúva, segundo todos os teus mandamentos que me tens ordenado; nada transgredi dos teus mandamentos, nem deles me esqueci.14 Dos dízimos não comi no meu luto e deles nada tirei estando imundo, nem deles dei para a casa de algum morto; obedeci à voz de Iahweh, meu Deus; segundo tudo o que me ordenaste, tenho feito.15 Olha desde a tua santa habitação, desde o céu, e abençoa o teu povo, a Israel, e a terra que nos deste, como juraste a nossos pais, terra que mana leite e mel." (Dt 26,12-15).

 

c) O Compromisso Mútuo De Fidelidade À Aliança

"...hoje, Iahweh, teu Deus, te manda cumprir estes estatutos e juízos; guarda-os, pois, e cumpre-os de todo o teu coração e de toda a tua alma." / "segundo todos os teus mandamentos que me tens ordenado; nada transgredi dos teus mandamentos, nem deles me esqueci. Dos dízimos não comi no meu luto e deles nada tirei estando imundo, nem deles dei para a casa de algum morto; obedeci à voz de Iahweh, meu Deus; segundo tudo o que me ordenaste, tenho feito..." / "...hoje, declaro a Iahweh, teu Deus, que entrei na terra que Iahweh, sob juramento, prometeu dar a nossos pais..." Em conclusão à exortação, Moisés reafirma os compromissos à Aliança, cumprido por Iahweh, devendo então ser cumprido por Israel. Foi um compromisso mútuo e livremente assumido em que, com base na confiança mútua, Iahweh aceitou ser o Deus de Israel, que seguirá os mandamentos que ditar, enquanto que, Israel, com base na mesma confiança mútua, aceitou ser o Povo de Iahweh, cumprindo todas exigências desse compromisso. Assim será engrandecido ante todos os povos e reconhecido "consagrado a Iahweh", melhor dito, um "Povo Santo", "separado":

"16 Hoje, Iahweh, teu Deus, te manda cumprir estes estatutos e juízos. Guarda-os e cumpre-os de todo o teu coração e de toda a tua alma..17 Hoje, fizeste Iahweh declarar que será teu Deus, e que andarás nos seus caminhos, observarás os seus estatutos, os seus mandamentos, os seus juízos e obedecerás à sua voz.18 E Iahweh, hoje, te fez dizer que serás o seu próprio povo, como te disse, e que guardarás todos os seus mandamentos.19 Para, assim, te exaltar em louvor, renome e glória sobre todas as nações que fez e para que sejas povo santo a Iahweh, teu Deus, como tem dito." (Dt 26,16-19).

 Para o formato Netscape são necessárias 38 folhas A4 para imprimir este documento

|Volta|  |Índice Cap 5|  |Índice do Curso|  |Continua|


[Volta ao Índice Geral]  [Cadastro no Curso]  [Evangelho do Dia]  [Home]

CURSO DE BÍBLIA PELA INTERNET
- MUNDO CATÓLICO WEB SITE
  Copyright © 1997-2000 by J.Haical Haddad - Página criada em 15/05/00
Hosted by C.Ss.R.Redemptor, Visite a Editora Santuário