Quinta Parte
DEUTERENÔMIO
A Unificação de Israel

5.26. SEGUNDO DISCURSO (Dt 5, 1-26,19):

Essa exortação tem por objetivo principal a constatação de todas as glórias até então alcançadas em virtude duma sistemática e acidentada fidelidade aos fundamentos da Aliança, recordados e ratificados. Para uma melhor análise e compreensão de seu teor é útil a divisão seguinte:

  • Retrospecto Geral (Dt 5,1-11,32); e,
  • A Legislação Deuteronomista (Dt 12,1-26,19).

 

RETROSPECTO GERAL
(Dt 5,1-11,32)

5.26.1  Moisés Reforça os Fundamentos da Aliança

Moisés fala com muita objetividade, rememorando fatos, vivencialmente conhecidos, "por todos os que aqui estamos ainda vivos". São, portanto, mais que testemunhas oculares, pela participação emocional, racional e vivencial do evento. Dele, não só presenciaram, mas participaram ativamente e se tornaram parte atuante, integrante e indestacável:

"Chamou Moisés a todo o Israel e disse-lhe: Ouvi, ó Israel, os estatutos e juízos que hoje vos falo aos ouvidos, para que os aprendais e cuideis em os cumprirdes. Iahweh, nosso Deus, fez aliança conosco em Horeb. Não foi com nossos pais que fez Iahweh esta aliança, e sim conosco, todos os que, hoje, aqui estamos vivos. Face a face falou Iahweh convosco, no monte, do meio do fogo. Nesse tempo, eu estava em pé entre Iahweh e vós, para vos transmitir a palavra de Iahweh, porque temestes o fogo e não subistes ao monte" (Dt 5,1-5).

"Chamou Moisés a todo o Israel e disse-lhe..." - Moisés não se dirige a um Israelita, isolado, um indivíduo, ou como se falasse só a cada um, mas a Israel, ao Povo de Iahweh, como um todo indiviso. Dessa maneira chama-o à responsabilidade comunitária pela Aliança contraída, pela consciência histórica que dela tomam, tal como um "memorial", que se torna assim eficaz. Se bem que as exigências mandamentais, em relação direta com a Aliança, as mais das vezes se dirijam a cada indivíduo, os efeitos dos atos dele emanados, por ação ou omissão, são sociais ou comunitários, pois atingem sempre outra pessoa, um grupo ou até mesmo a coletividade, e têm por fonte Iahweh:

"A Aliança e o diálogo entre Deus e o homem são ainda comprovados pelo fato de todas as obrigações serem enunciadas em primeira pessoa ("Eu sou o Senhor...") e dirigidas a um outro sujeito ("tu..."). Em todos os mandamentos de Deus, é um pronome pessoal singular que designa o destinatário. E, ao mesmo tempo que a todo o povo, Deus faz conhecer a sua vontade a cada um em particular:

O Senhor prescreveu o amor para com Deus e ensinou a justiça para com o próximo, para que o homem não fosse nem injusto nem indigno de Deus. Assim, através do Decálogo, Deus preparava o homem a tornar-se seu amigo e a ter um só coração com o seu próximo... As palavras do Decálogo continuam a ser o que eram, conosco (cristãos); longe de serem abolidas, elas receberam amplificação e desenvolvimento, com o fato da vinda do Senhor na carne (Santo Ireneu, Haer. 4,16,3-4)" (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2063, negritos destacando a propósito).

Aparentemente há contradição ao dizer-lhes Moisés que, "face a face falou Iahweh convosco, no monte, do meio do fogo" e logo em seguida afirmar que "...eu estava em pé entre Iahweh e vós, para vos transmitir a palavra de Iahweh" - contradição que se esclarece comparando-se com um trecho anterior:

"Então, Iahweh vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma. Então, vos anunciou ele a sua aliança, que vos prescreveu, os dez mandamentos, e os escreveu em duas tábuas de pedra. Também Iahweh me ordenou, ao mesmo tempo, que vos ensinasse estatutos e juízos, para que os cumprísseis na terra a qual passais a possuir" (Dt 4,12-14).

Vê-se facilmente que " Iahweh vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes...", bem como, "também Iahweh me ordenou, ao mesmo tempo, que vos ensinasse estatutos e juízos...", o que Iahweh falou, eles escutaram, e o próprio Iahweh escreveu, "em duas tábuas de pedra" (Dt 5,22b), o Decálogo. Assim, afora os Mandamentos, "que Iahweh falou", a legislação conhecida por Código da Aliança e as demais leis complementares, sejam familiares, sociais ou religiosas, objeto desta e outras comunicações, foram "ensinadas por Moisés", o Medianeiro. Vem a ser muito útil uma comparação mais sistemática com a exposição da Teofania do Meio do Fogo, a Teofania do Sinai (Ex 19-20), seguindo o mesmo princípio de somar as informações, sem eliminar as de aparente contradição. Colocando-se os textos assim lado a lado e buscando-se a seqüência natural de assuntos, facilmente se consegue uma ordem ideal. Então, pela concomitância dos fatos ou a cronologia possível dos acontecimentos e a comparação do passado, atina-se facilmente com o aperfeiçoamento conquistado:

Ex. 19,17-20,17

Dt 4,10-40

Dt 5,1-6,1

ANÁLISE

 

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Chamou Moisés a todo o Israel e disse-lhe: Ouvi, ó Israel, os estatutos e juízos que hoje vos falo aos ouvidos, aprendei-os e cuidai de observá-los. Iahweh, nosso Deus, fez aliança conosco em Horeb. Não foi com nossos pais que fez Iahweh esta aliança, e sim conosco, todos os que, hoje, aqui estamos vivos. Face a face falou Iahweh convosco, no monte, do meio do fogo. Eu estava então entre Iahweh e vós, para vos transmitir a palavra de Iahweh, porque.

Moisés aqui faz um hábil resumo da Teofania do Sinai ou Horeb, recordando que Iahweh não é uma crença vinda dos antepassados, ou uma lenda de geração em geração, ou herança supersticiosa sem outra causa que a imaginação humana. Iahweh é um Deus Vivo, que, à viva voz, fez com o Povo de Israel uma Aliança real, que impõe deveres e obrigações mútuas,, cuja essência é o Decálogo, cuja promulgação foi um feito visível, majestoso, extraordinário, e inesquecível, que já pertence imorredoramente a sua História, tendo sido, na ocasião, por todos presenciado e ouvido.

E Moisés levou o povo fora do arraial ao encontro de Elohim; e puseram-se ao pé do monte.

Não te esqueças do dia em que estiveste perante Iahweh, teu Deus, em Horeb, quando Iahweh me disse: Reúne este povo em assembléia, e os farei ouvir as minhas palavras, a fim de que aprenda a temer-me todos os dias que na terra viver e as ensinará a seus filhos.

 

O fato não poderá ser esquecido por ninguém ('não te esqueças'), assistido que foi por todos, fazendo com que se estabelecesse um elo de união, entre eles, e ainda transmitindo a Aliança por toda a descendência deles, uma Aliança Eterna. Igualam-se Elohim e Iahweh, no Decálogo.

Apesar da diferença de redação, por causa da diferença de objetivos, o relato é o mesmo, com diferenças apenas acidentais.

Aparece aqui a palavra, que se traduz por "assembléia", em uso para especificar a reunião do povo com Iahweh, para a conclusão ou ratificação da Aliança, e também receber a Lei da Aliança (Dt 9,10; 10,41; 18,16; 31,30), bem como a Missão, e se tornar o Povo de Iahweh. Essa assembléia, a reunião do povo de Israel, é o tipo da comunhão de todos e cada um, uns com os outros e, todos e cada um, com Iahweh, formando assim a comunidade em que se constitui o Povo de Iahweh (Dt 23,2-9). O termo grego que a exprime, ("eclesia") vai se tornar Igreja, em uso atualmente.

Todo o monte Sinai fumegava, pois Iahweh descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia demais.

Então, chegastes e vos pusestes ao pé do monte, que ardia em fogo até ao meio dos céus, em meio a trevas, nuvens e em escuridão espessa.

Temestes o fogo e não subistes ao monte

Acrescenta-se o registro do medo de que foi acometido o povo em geral... Foi apenas por temor ao fogo e à cena que não subiram ao Monte. Espanta não terem fugido em debandada, seja por causa da suntuosidade dos fatos, seja pelo pavor que lhes causou, em virtude da concepção cultural vigente de que a um fenômeno da natureza, tal como a um trovão, se atribuíam poderes de demônios ou deuses, e muito se temia.

E o clangor da trombeta ia aumentando cada vez mais; Moisés falava, e Elohim lhe respondia no trovão. Desceu Iahweh para o cimo do monte Sinai, chamou Iahweh a Moisés para o cimo do monte. Moisés subiu, e Iahweh disse a Moisés: Desce, adverte ao povo que não traspasse o limite até a Iahweh para vê-lo, a fim de muitos deles não perecerem. Também os sacerdotes, que se chegam a Iahweh, se hão de consagrar, para que Iahweh não os fira. Então, disse Moisés a Iahweh: O povo não poderá subir ao monte Sinai, porque tu nos dissestes: Marca limites ao redor do monte. Iahweh Replicou-lhe: Desce e depois, subirás tu, e Aarão contigo; os sacerdotes e o povo, não traspassem o limite para subir a Iahweh, para que não os fira. Desceu, pois, Moisés ao povo e lhe disse...

Então, Iahweh vos falou do meio do fogo;

 

Constata-se que Iahweh falou, fato extraordinário que se impõe pela enorme majestade, não se olvidando a instituição das trombetas (Nm 10,1-10) de que se falou no comentário feito da peregrinação pelo deserto, deduzindo-se então o uso delas já desde tempos anteriores, pelo menos desde o Sinai.

Mais digno de destaque é o fato de que Iahweh elegeu Moisés para ser o intermediário com o Povo de Israel, fato que o próprio povo também quis, pelo que vai se tornar "o profeta" ímpar, por excelência (Dt 34,10).

Além dele, os sacerdotes e toda a comunidade participam de uma comunhão muito estreita com Iahweh, pelo que sempre se dirá que "Iahweh habita entre o Povo de Israel".

 

a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma. Então, vos anunciou ele a sua aliança, que vos prescreveu, os dez mandamentos, e os escreveu em duas tábuas de pedra. Também Iahweh me ordenou, ao mesmo tempo, que vos ensinasse estatutos e juízos, para que os cumprísseis na terra a qual passais a possuir.

 

Já se falou a respeito dessa transcendência de Iahweh nos comentários ao capítulo anterior (Dt 4), bem como na familiar proximidade e comunhão com Israel. Formam tão estreito relacionamento que até a conduta de cada membro do povo será conforme a vontade de Deus, expressa, ou nos Mandamentos, ou na mediação de Moisés e os sacerdotes.

Então, Elohim falou, pronunciando todas estas palavras:

 

Ele

disse:

O povo todo ouviu as palavras "pronunciadas uma a uma" por Elohim - Iahweh - não ouvissem eles mesmos, poderiam ter alguma dúvida ou hesitação.

Eu sou Iahweh, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.

 

Eu sou Iahweh, teu Deus, que te tirei do Egito, da casa da servidão.

"Eu Sou o teu Deus", e o que melhor comprova isso é tê-lo libertado da escravidão do Egito, sem o que estaria ainda lá no regime de servidão.

Não terás outros deuses diante de mim.

 

Não terás outros deuses diante de mim.

Não foram os deuses falsos que os libertaram, mas o Deus Vivo, não se podendo atribuir essa glória a nenhum outro.

 

['...a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes figura...']. Guardai pois, com muito cuidado, a vossa alma, pois forma nenhuma vistes no dia em que Iahweh, vosso Deus, vos falou em Horeb, no meio do fogo; para que não vos corrompais e vos façais imagem na forma de ídolo, semelhança de um homem ou de mulher, semelhança de algum animal que há na terra, semelhante a algum volátil que voa pelos, semelhança de algum animal que rasteja sobre a terra, semelhança de algum peixe que há nas águas debaixo da terra. Guarda-te não levantes os olhos para os céus e, vendo o sol, a lua e as estrelas, a saber, todo o exército dos céus, sejas seduzido a inclinar-te perante eles e dês culto àqueles, coisas que Iahweh, teu Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus. Mas Iahweh vos tomou e vos tirou da fornalha de ferro do Egito, para que lhe sejais o povo de sua herança, tal como hoje se vê. Também Iahweh se indignou comigo, por vossa causa, e jurou que eu não passaria o Jordão e não entraria na boa terra que Iahweh, teu Deus, te dá por herança. Porque eu morrerei neste lugar, não passarei o Jordão; porém vós o passareis e possuireis aquela boa terra.

 

‘Não prestarás culto aos ídolos de outros deuses, não existem, não são vivos, eis que vós não os ouvistes, nem vos libertaram do Egito, nação idólatra, que adora os falsos deuses, de cuja opressão Iahweh vos livrou’.

Essa visão Deuteronomista é uma argumentação para justificar o Segundo Mandamento (Ex 20,4 / Dt 5,8), o qual proíbe a confecção de imagens para a adoração, fato mais que do conhecimento de todos, tal como também reforçado quando diz: "Não fareis para vós ídolos, nem imagem esculpida nem coluna, nem poreis na vossa terra figuras de pedra, para vos inclinardes a ela; porque eu sou Iahweh vosso Deus (...) Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos e os cumprires.../... Também porei o meu tabernáculo no meio de vós, e a minha alma não vos abominará. Andarei no meio de vós, e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo. Eu sou Iahweh o vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para que não fôsseis seus escravos; e quebrei as cangas do vosso jugo, e vos fiz andar erguidos" (Lv 26,1.11-13).

Assim sendo, Iahweh se revelou a Israel e veio habitar em seu meio, e, aos outros povos, "deu as coisas para a adoração" - essa é a diferença principal... (Sb 13,1-9).

Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra

Guardai-vos não vos esqueçais da aliança feita com Iahweh, vosso Deus, e convosco, e façais imagem de alguma coisa que Iahweh, o vosso Deus, vos proibiu. Iahweh, o teu Deus, é um fogo devorador, é um Deus ciumento.

Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra

O fato de que Moisés tenha colocado dois querubins na Arca (Ex 25,18-20), uma Serpente de Bronze (Nm 21,4-9), na haste, com a qual o próprio Jesus se compara (Jo 3,14), e Salomão várias esculturas no Templo, faz entender que, essa proibição só prevalecia, para as imagens que se fizessem, para cultuar como deuses, tal como os povos pagãos. Isso é confirmado no próprio Código da Aliança, logo após a promulgação do Decálogo: "Então disse Iahweh a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: Vós tendes visto que do céu eu vos falei. Não fareis outros deuses ao meu lado; deuses de prata, ou deuses de ouro, não os fareis para vós" (Ex 20,22-23). (cfr. Catecismo da Igreja Católica, n.ºs 2129 a 2132).

Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou Iahweh, teu Deus, Deus ciumento,

 

Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu, Iahweh, teu Deus, sou Deus ciumento,

Esse versículo afirma por qual motivo não se pode esculpir imagens. Não se pode adorar outro Deus que Iahweh, por ser Iahweh, o único Deus de Israel e um "Deus ciumento", isto é que não aceita parelha.

que puno a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem

Quando, pois, gerardes filhos e netos, e fordes velhos na terra, e vos corromperdes, e fizerdes alguma imagem esculpida, qualquer, e fizerdes o mal aos olhos de Iahweh, teu Deus, para o provocar à ira, hoje, tomo por testemunhas contra vós o céu e a terra, que, com efeito, sereis exterminados depressa da terra que, ides possuir, ao passar o Jordão. Não prolongareis os vossos dias nela; mas, de todo sereis destruídos. Iahweh vos espalhará entre todos os povos, e restareis poucos em número entre as gentes para onde Iahweh vos levará. Lá, servireis aos deuses que são obra de mãos de homens, madeira e pedra, que não vêem, nem ouvem, nem comem, nem cheiram.

 

Daqui se pode concluir o significado e alcance da "punição" que Deus aplica "àqueles que O aborrecem", "que fazem mal aos olhos de Iahweh, provocando-O à ira, esculpindo imagens para as adorar". É de se lembrar, do critério de então, de que num território, somente o seu deus poderia ser cultuado. Aquele que adorasse as imagens, seria exilado, para adorar os falsos deuses tal como escolheu, "deuses que são obras de mãos de homens" - é a "ira" de Iahweh. É uma espécie de rebaixamento, passando de adoradores do Deus Vivo, Verdadeiro e Eterno, a adoradores de "coisas", que Iahweh permitiu aos povos pagãos.

e uso de misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.

De lá, buscarás a Iahweh, teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma. Quando estiveres em angústia, e todas estas coisas te sobrevierem nos últimos dias, e te voltares para Iahweh, teu Deus, e lhe dirigires a voz, então, Iahweh, teu Deus, não vai te desamparar, pois, misericordioso é, nem te destruir, nem se esquecer da aliança jurada a teus pais.

E uso de misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.

Aqui aparece a misericórdia de Deus, significada na Teologia do Resto, daqueles poucos, que permanecem fiéis, mantendo viva a fé em Deus e na sua doutrina - a misericórdia de Deus, - não os deixou extraviar.

Lembra-se dos Patriarcas, "os teus pais" (v. Dt 1,21), com quem iniciou a Aliança (Dt 7,12), por cujo amor elegeu e libertou Israel (Dt 4,37; 7,8), aos quais "jurou" dar a Terra de Canaã (Dt 1,8.35; 6,10; 8,1; 10,11; 26,3). Aliança que será eternamente transmitida às gerações dos Filhos de Israel (Dt 10,15).

 

Agora, pois, pergunta aos tempos passados, que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra, desde uma extremidade do céu até à outra, se sucedeu jamais coisa tamanha como esta ou se ouviu coisa como esta; ou se algum povo ouviu falar a voz de algum deus do meio do fogo, como tu a ouviste, ficando vivo; ou se um deus intentou ir tomar para si um povo do meio de outro povo, com provas, e com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão poderosa, e com braço estendido, e com grandes espantos, segundo tudo quanto Iahweh, vosso Deus, vos fez no Egito, aos vossos olhos. A ti te foi mostrado para que soubesses que Iahweh é Deus; nenhum outro há, senão ele. Dos céus te fez ouvir a sua voz, para te ensinar, e sobre a terra te mostrou o seu grande fogo, e do meio do fogo ouviste as suas palavras. Porquanto amou teus pais, e escolheu a sua descendência depois deles, e te tirou do Egito, ele mesmo presente e com a sua grande força, para lançar de diante de ti nações maiores e mais poderosas do que tu, para te introduzir na sua terra e ta dar por herança, como hoje se vê. Por isso, hoje, saberás e refletirás no teu coração que só Iahweh é Deus em cima no céu e embaixo na terra; nenhum outro há. Guarda, pois, os seus estatutos e os seus mandamentos que te ordeno hoje, para que te vá bem a ti e a teus filhos depois de ti e para que prolongues os dias na terra que Iahweh, teu Deus, te dá para todo o sempre.

 

Em busca das raízes de Israel, realça sobremaneira a comunhão que se estabeleceu entre ambos, Iahweh e Israel, fato inédito nunca visto igual, desde a Criação. Povo algum foi alvo de tamanha dignidade de "ouvir o seu Deus, e ser arrebanhado por ELE, para ser o SEU Povo" (v. tb. Dt 14,2), libertando-o da opressão do Egito, com tais prodígios que mais demonstram ser o Único Deus, "nenhum outro Deus há senão ELE", tendo destruído todos os deuses do Egito. Por causa de tudo isso, há de se impor ao seu coração, a todo o ser Israelita, uma profunda fidelidade e obediência ao Decálogo, temor de Deus que vai se manifestar sempre na vida de cada um, na conduta e comportamento, tendo assim condições de viver feliz com os filhos, e todas as futuras gerações prolongando os dias sobre a terra que agora recebiam.

A finalidade que se busca com essas exortações é a integração da Aliança, expressa nos atos externos de procedimento geral. Basicamente, outro não era o objetivo que a projeção do Nome de Iahweh, a cuja fidelidade e obediência são comprometidos os Filhos de Israel. O perigo de contaminação com os povos da região para a qual se dirigiam, a sua "herança", adorando outros deuses, romperia a Aliança. Essa lembrança da transcendência e onipotência de Iahweh, tão bem demonstradas na Teofania do Sinai, bem como aqui destacadas, pela distribuição que faz dos objetos de adoração aos gentios, a eles destinando os astros, revelando-se, no entanto, aos Filhos de Abraão, que escolhe para o Povo de Iahweh (Dt 4,19-20 / Dt 4,2), mostra a distinção e o privilégio que Iahweh lhe faz.

Não tomarás o nome de Iahweh, teu Deus, em vão, porque Iahweh não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.

 

Não tomarás o nome de Iahweh, teu Deus, em vão, porque Iahweh não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.

Repetem-se os mesmos termos do anterior (cfr. Ex 20,7), nada havendo a comentar além do já exposto. A Vulgata usa "em vão" em lugar do sentido de "falsamente", da Hebraica. O que importa é o sentido de se evitar o uso do nome de Deus seja em juramentos falsos (Mt 5,33), no falso testemunho (Ex 20,16 / Dt 5,20) ou em ritos mágicos ou supersticiosos.

Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado de Iahweh, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez Iahweh os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, Iahweh abençoou o dia de sábado e o santificou.

 

Guarda o dia de sábado, para o santificar, como te ordenou Iahweh, teu Deus. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado de Iahweh, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro das tuas portas para dentro, para que o teu servo e a tua serva descansem como tu; porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que Iahweh, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que Iahweh, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado.

Violações ao respeito do repouso sabático (v. Nm 15,32-36), exigiram uma revisão da dimensão do preceito, pelo que foi ampliado com mais elementos que os advindos da Criação (Gn 2,3), integrando-o a libertação do Egito à noção, nacionalizando-o e ligando-o a Israel pela História. Muitas normas, além do Decálogo (Ex 20,,2 / Dt 5,6), terão seu apoio comunitário pela experiência do tempo de servidão do Egito e da libertação patrocinada por Iahweh. Por causa desse respeito ao sábado, muitos judeus serão martirizados (1Mc 2,32-41). Esse rigor atingirá tal dimensão arbitrária, que causará grande desencontro com Jesus (Mt 12,1-13; Lc 13,10-17; 14,1-6; Jo 5,1-18; 9,14-17).

Quando da promulgação do Decálogo, este Mandamento se inicia com a expressão "lembra-te" (Ex 20,8-11) pelo que se deduz a anterioridade de sua vigência no meio Israelita (Ex 16,22).

Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que Iahweh, teu Deus, te dá.

 

Honra a teu pai e a tua mãe, como Iahweh, teu Deus, te ordenou, para que se prolonguem os teus dias e para que te vá bem na terra que Iahweh, teu Deus, te dá.

A bênção aqui outorgada, a quem cumprir o mandamento de honrar os pais, se identifica por demais com as que destina ao cumprimento de toda a Lei (Dt 5,32-33; 11,8-9.18-21), com a promessa de que "tudo vá bem ('em paz')", na "terra onde mana o leite e o mel", (Dt 5,16.29; 6,3.18; 10,13; 12,25.28; 22,7; 30,9s.15s) e em avançada idade (Dt 4,26.40; 5,33; 11,9; 17,20; 22,7; 30,18; 32,47).

Não matarás.

Não adulterarás.

Não furtarás.

Não dirás falso testemunho contra o teu próximo

 

Não matarás.

Não adulterarás.

Não furtarás.

Não dirás falso testemunho contra o teu próximo

Além do já visto quando se analisou o Decálogo, relembra-se a proteção ao próximo quanto à vida, à integridade matrimonial, aos bens materiais e ao direito à verdade, fatos por demais importantes durante o deserto e mais ainda com o assentamento de cada qual na sua herança, passando a uma vida tranqüila e sedentária. Indispensáveis para a paz social, estes atos protegem direitos naturais indispensáveis à sobrevivência pessoal e do gênero humano.

As exceções de monta dizem respeito ao derramamento de sangue na guerra e à vingança de sangue. Não é necessário nenhuma exposição quanto às mortes causadas na guerra, muitas vezes coloridas de crueldade até mesmo nos tempos atuais. A regulamentação da vingança de sangue é de certa forma uma limitação aos abusos da Lei do Talião. Assim, as cidades refúgio vêm de certa forma castigar o criminoso e evitar a violência arbitrária, injusta, ilimitada e privada.

Quando ao adultério, muito se estranha a diferença de critérios de sua aplicação à mulher apenas. Isso, em virtude de duas situações distintas, porém, importantes; a primeira é o uso da poligamia, então aceitável para o homem apenas; e, a segunda á a herança que não podia ser legada a elemento estranho que viesse a se formar no seio de uma família, advindo do adultério.

Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo.

 

Não cobiçarás a mulher do teu próximo. Não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

Há um evidente mudança no critério de não mais se considerar a mulher como um dos bens do marido. É claro que um dos motivos disso é a desnecessidade de proteção, tão indispensável no deserto.

Estes mandamentos finais, exprimem a necessidade de vida interior para cumprimento pleno, por causa da referência ao próximo. Extirpa-se o mal, em suas raízes interiores do homem, tais como os maus desejos, a concupiscência, deixando de ser cumprimentos mecânicos, mas frutos de escolha consciente, por causa do próximo. Cabe lembrar aqui que o próximo a esse tempo era outro Israelita.

Os fundamentos da Aliança com Iahweh "... são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou Iahweh, teu Deus, ensinar-te...", ou sejam, o Decálogo e a Legislação que o acompanha ditada a Moisés e por ele retransmitida:

"Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou Iahweh, teu Deus, ensinar-te, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir; para que temas a Iahweh, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o teu neto, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados. Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os cumprires, para que bem te suceda, e muito te multipliques na terra que mana leite e mel, como te disse Iahweh, Deus de teus pais" (Dt 6,1-3).


5.26.2. A Nomeação De Moisés

A nomeação de Moisés não foi imposta por ele mesmo e de maneira arbitrária. Sua liderança, eficaz e atuante, impôs-se pelos prodígios e sucesso, desde o Egito e, a pedido do próprio povo, é ratificada por Iahweh no Sinai. Ganha então a feição de Profeta , levando os Israelitas ao cumprimento da Vontade de Iahweh, por ele manifestada, com maior empenho: "A palavra "Decálogo" significa literalmente "Dez Palavras" (Ex 34,28; Dt 4,13; 10,4). Estas dez palavras, Deus as revelou ao seu povo na montanha sagrada. Escreveu-as com o "seu dedo" (Ex 31,18; Dt 5,22), o que não aconteceu com os outros mandamentos, que foram escritos por Moisés (Cf. Dt 31,9-24). São palavras de Deus a título privilegiado e foram-nos transmitidas no Livro do Êxodo (Cf. Ex 20,1-17) e no Deuteronômio (Cf. Dt 5,6-22). Desde o Antigo Testamento que os livros santos fazem referência às "Dez Palavras" (Cf. p. ex., Os 4,2; Jr 7,9; Ez 18,5-9); mas é na Nova Aliança em Jesus Cristo que será revelado o seu sentido pleno" (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2056).

Ex 20,18-23

Dt 5,22-6,1

ANÁLISE

Todo o povo presenciou os trovões, e os relâmpagos, e o clangor da trombeta, e o monte fumegante;

   
 

Estas palavras falou Iahweh a toda a vossa assembléia no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz. Sem nada acrescentar, escreveu-as em duas tábuas de pedra e deu-as a mim. Sucedeu que, ouvindo a voz do meio das trevas, enquanto ardia o monte em fogo, vos achegastes a mim, todos os cabeças das vossas tribos e vossos anciãos,

As narrativas se completam e mostram com clareza que o Decálogo foi ouvido por todo o povo, e Moisés foi encarregado de acolher as demais determinações de Iahweh e transmiti-las. Assim, sendo uma opção deles essa mediação de Moisés, qualquer ordem de Iahweh, por intermédio dele, deveria ser obedecida, tal como o Decálogo.

Esse termo, assembléia, será usado sempre para as reuniões comunitárias (Dt 4,10; 18,16 23,2-9; 2Cro 31,18), até que no Cristianismo (Mt 16,18; At 7,38) dará origem ao termo Igreja, do grego "eklesia", nome dado ao hebraico, "qahal".

e o povo, observando, se estremeceu e ficou de longe. Disseram a Moisés: Fala tu conosco, e te ouviremos; porém não nos fale Elohim, para que não morramos.

e dissestes: Eis aqui Iahweh, nosso Deus, nos fez ver a sua glória e a sua grandeza, e ouvimos a sua voz do meio do fogo; hoje, vimos que Deus fala com o homem, e este permanece vivo. Agora, pois, por que morreríamos? Pois este grande fogo nos consumiria; se ainda mais ouvíssemos a voz de Iahweh, nosso Deus, morreríamos. Porque quem há, de toda carne, que tenha ouvido a voz do Deus vivo falar do meio do fogo, como nós ouvimos, e permanecido vivo? Chega-te, e ouve tudo o que disser Iahweh, nosso Deus; e tu nos dirás tudo o que te disser Iahweh, nosso Deus, e o ouviremos, e o cumpriremos.

Com facilidade pode-se observar a interpolação de fatos ocorridos e narrados por diferentes testemunhos ou tradições, mantidos pela tradição oral, até que se redigisse em conjunto com as demais. Não se anulam, apenas se completam.

A pedido de todo o povo Moisés continua a exercer a função de mediador entre Iahweh, agindo como Profeta, isto é, falando aquilo que Iahweh colocava na sua boca, tornado-se a "boca de Deus", com uma autoridade reconhecida e aceita sem condições. Ouvir Moisés era ouvir Iahweh.

"Deus Vivo" - expressão claramente aplicada a Iahweh, o Deus Vivo, não um deus feito por mãos humanas, imagens de escultura. Também é a maneira Israelita de distinguir Iahweh, cuja voz ouviram, presenciaram as várias maravilhas que fez para retirá-los do Egito e alimentá-los no deserto. Diferencia-se, assim, dos outros deuses, adorados pelos povos pagãos e esculpidos em madeira ou pedra, sem vida, que nada poderiam fazer, nem fizeram.

Respondeu Moisés ao povo: Não temais; Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis. povo estava de longe, em pé; Moisés, porém, se chegou à nuvem escura onde Deus estava. Então, disse Iahweh a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: Vistes que dos céus eu vos falei. Não fareis deuses de prata ao lado de mim, nem deuses de ouro fareis para vós outros.

Ouvindo, pois, Iahweh as vossas palavras, quando me faláveis a mim, Iahweh me disse: Eu ouvi as palavras deste povo, as quais te disseram; em tudo falaram eles bem. Quem dera que eles tivessem tal coração, que me temessem e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamentos, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos, para sempre! Vai, dize-lhes: Tornai-vos às vossas tendas.

" Tornai-vos às vossas tendas" - com essas palavras Iahweh tranqüiliza os Israelitas, concordando com a escolha e anunciando a nomeação de Moisés para o encargo de secundá-LO no pastoreio do Povo dos Filhos de Israel. A obediência a Moisés corresponderia à obediência a Iahweh, que lhes daria os demais estatutos e juízos do Código da Aliança.

 

Tu, porém, fica-te aqui comigo, e eu te direi todos os mandamentos, e estatutos, e juízos que tu lhes hás de ensinar que cumpram na terra que eu lhes darei para possuí-la. Cuidareis em fazerdes como vos mandou Iahweh, vosso Deus; não vos desviareis, nem para a direita, nem para a esquerda. Andareis em todo o caminho que vos manda Iahweh, vosso Deus, para que vivais, bem vos suceda, e prolongueis os dias na terra que haveis de possuir. Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou Iahweh, teu Deus, se te ensinassem, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir;

Não se confundem o Decálogo e as demais normas ditadas por Iahweh a Moisés, tal como pedido pelos Israelitas. Para receber as demais determinações, Moisés permanece no alto do Sinai.

 

5.26.3. Moisés Revela a Essência da Aliança

Não se há de perder de vista os comentários anteriores (cfr.: Ex 20), cujas diferenças, de pouca monta aliás, são de profunda significação tal como foi demonstrado. Trazem em seu bojo a experiência de vida na peregrinação terminada e as distinções necessárias à vida sedentária que passarão a ter. Vão se estabelecer de maneira definitiva, deixando o nomadismo de quarenta anos para o passado, fixando-se com ânimo definitivo na Terra Prometida, o seu próprio território. Deve haver outro motivo para Moisés repetir, mesmo com as diferenças apontadas, o Decálogo e a Lei que lhes transmitiu a pedido dos Israelitas. O modo como os apresenta evidencia que, antes de rememorar o conjunto legislativo, já então promulgado e em uso geral, Moisés buscava apresentar o princípio, que se-lhe conservava aderente e indestacável e de valor essencial para a vida Israelita. Por causa disso, era necessário repetir, apontando e sistematizando os fundamentos, para incluí-lo na Teologia da Doutrina Israelita ou Teologia do Deuteronômio, que se sistematizava.

"Cuidareis em fazerdes como vos mandou Iahweh, vosso Deus; não vos desviareis, nem para a direita, nem para a esquerda. Andareis em todo o caminho que vos manda Iahweh, vosso Deus, para que vivais, bem vos suceda, e prolongueis os dias na terra que ireis de possuir. Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou Iahweh, teu Deus, ensinar-te, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir; para que temas a Iahweh, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o teu neto, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados. Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os cumprires, para que bem te suceda, e muito te multipliques na terra que mana leite e mel, como te disse Iahweh, Deus de teus pais" (Dt 5,31-6,3).

O primeiro e fundamental princípio, a que devem os Israelitas se firmar, vai se traduzir e se resumir num relacionamento único e exclusivo com Iahweh. É expresso de maneira visível na conduta e comportamento, "...não vos desviareis, nem para a direita, nem para a esquerda (...) em todo o caminho que vos manda Iahweh, vosso Deus...", procedendo "...como vos mandou Iahweh, vosso Deus". Outro não é que o binômio, fidelidade e obediência, conhecido biblicamente por "Temor de Iahweh", ou seja, a "piedade" ou "espiritualidade" Israelita: - "... para que temas a Iahweh, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o teu neto, todos os dias da tua vida...". Esse "temor", que se caracteriza pelo cumprimento dos "estatutos e mandamentos" de Iahweh, não se confunde com o "medo", emoção oriunda do desconhecido e da ignorância, somados ao sentimento de insegurança que os acompanha. Diferentemente, é um "temor" reverencial e racional de Iahweh - Deus, um receio de perdê-LO, e não mais gozar de Sua Bênção, Presença e Proteção. São estes, frutos da opção pelo "...Deus vivo..." (Dt 5,26), fonte da vida, "...para que vivais, bem vos suceda, e prolongueis os dias na terra que ireis de possuir..." É um profundo sentimento de pequenez ou fraqueza ante a Justiça e Poder de Iahweh, já bem conhecidos, tal como a "nudez de Adão", quando defronta a Santidade Infinita de Deus. Conhecendo-O, tendo sido ouvido e presenciado, reconhecendo a libertação e prodígios realizados desde o Egito, dando-lhes segurança, outra dinâmica é apontada para se unir mais estreitamente em comunhão com Iahweh. Além da fidelidade e a obediência, seja quanto à Aliança, seja quanto ao Decálogo, um único princípio é essencial ao cumprimento de todos os mandamentos e juízos de Iahweh, e vem integrar-se com majestade e de maneira indestacável ao "temor" de Iahweh - é o AMOR A IAHWEH:

"Ouve, Israel, Iahweh, nosso Deus, é um. Amarás, pois, a Iahweh, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força" (Dt 6,4).

É o Amor a Iahweh, em contra partida do Amor que Iahweh lhes vem demonstrando, livrando-os da servidão, dos vários entraves da peregrinação no deserto e conduzindo-os à Terra Prometida a seus antepassados. "... Iahweh, nosso Deus, é um. Amarás, pois, a Iahweh, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força". - Então, são duas as condições efetivas e eficazes da Aliança: a unicidade de invocação e o "amor", com todas as implicações de fidelidade e obediência, o "temor" pelo único deus de Israel - IAHWEH. Este amor exclusivo, impõe-se inicialmente como uma monolatria Israelita, sedimentando-se na História, até Cristo, quando se solidificará na fé em um Único Deus, num monoteísmo Universal, característica fundamental do Messianismo (Zc 14,9 / Ml 1,11). A palavra hebraica "éhadh", que se traduz aqui por um, causa alguma dificuldade de significado na tradução, muitas das vezes inconciliável com o conceito atual da unicidade universal de Iahweh, como um só Deus, com a exclusão de qualquer outro. Ora, essa concepção conflita com a cultura daquele tempo, que admitia um panteão, uma variedade de deuses [Dt 6,14-15 / Dt 12,2-3 / Js 24,2; Jz 2,11-13; 3,7; 1Rs 14,22-24; 16,31-34; 2Rs 21,2-7; Sl 50(49),1; 82(81),1; 81(80),10-11; 86(85),8; 89(88),7; 95(94),3; 96(95),4; 97(96),7; 138(137),1 ('TEB')]. Com mais objetividade e coerência, impõe-se então a unicidade em torno de Iahweh, numa monolatria restrita ao Povo de Israel, único povo que gozava de Bênçãos, advindas também da Promessa aos Patriarcas, a quem se dera a conhecer:

"Será, pois, que, se, ouvindo estes juízos, os guardares e cumprires, Iahweh, teu Deus, te guardará a aliança e a misericórdia prometida sob juramento a teus pais; ele te amará, e te abençoará, e te fará multiplicar; também abençoará os teus filhos, e o fruto da tua terra, e o teu cereal, e o teu vinho, e o teu azeite, e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas, na terra que, sob juramento a teus pais, prometeu dar-te. Bendito serás mais do que todos os povos; não haverá entre ti nem homem, nem mulher estéril, nem entre os teus animais. Iahweh afastará de ti toda enfermidade; sobre ti não porá nenhuma das doenças malignas dos egípcios, que bem sabes; antes, as porá sobre todos os que te odeiam. Consumirás todos os povos que te der Iahweh, teu Deus; os teus olhos não terão piedade deles, nem servirás a seus deuses, pois isso te seria por ciladas..." (Dt 7,12-19).

Outro fator que muito contribui para essa conclusão é o objetivo principal e claro de Moisés, pretendendo a invocação exclusiva de Iahweh, como único deus de Israel. Fica evidente essa sua disposição, quando da violência, usada ao dominar o gesto que teve todas as características de uma tentativa de retorno a Elohim, em que se deu "a morte de três mil homens" (Ex 32,28):

"Moisés pôs-se em pé à entrada do acampamento, e disse: Quem está ao lado de Iahweh, venha a mim. Ao que se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi. Então ele lhes disse: Assim diz Iahweh, o Deus de Israel: Cada um ponha cinja a sua espada; e passai e tornai a passar pelo acampamento de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, a seu amigo, a seu parente. E os filhos de Levi fizeram conforme a palavra de Moisés; e morreram do povo naquele dia cerca de três mil homens. Então Moisés disse: Fostes consagrados hoje a Iahweh; cada qual contra o seu filho, e contra o seu irmão; para que Iahweh vos conceda hoje a bênção" (Ex 32,26-29).

Este trecho foi analisado quando do estudo do episódio do "Bezerro de Ouro" (Ex 32,1-29), ocasião em que se concluiu ser esse o desejo de Moisés, que se expressou na atitude que tomou - como agora se transcreve: "[...descoberta a sedição, coloca-se Moisés "à entrada do acampamento exclamando:

"Quem for de Iahweh venha a mim" (Ex 32,26).

Esta frase só tem sentido no contexto se a sedição se deu contra a Aliança contraída com Iahweh e concluída no Sinai por meio de Moisés. É por isso que Moisés quebra as Tábuas de Pedra (Ex 32,19), escritas "pelo dedo de Elohim" (Ex 31,18, texto hebraico). Também a frase: "Moisés viu que o povo estava abandonado, pois que Aarão o abandonara, expondo-o à zombaria dos adversários" (Ex 32,25) só tem sentido em referência aos que permaneceram fiéis a Iahweh e Moisés. Tudo isso confirma que o episódio do Bezerro de Ouro não se refere a uma idolatria, isto é, à adoração de um ídolo. Vem em favor dessa conclusão o fato de Aarão não ter sido punido, tendo ele fundido a imagem (Ex 32,4), apesar da sedição não ter sido da Tribo de Levi à qual pertencia. Foram os levitas que apoiaram Moisés (Ex 32,26), correspondendo bem à fama que desfrutavam de sanguinários, motivo da recusa deles na escala descendente da substituição de Rúben pelo próprio Jacó (Gn 34,25-31 / 49,5-7), matando naquele dia "três mil homens" (Ex 32,28). A frase de Moisés: "Cinge, cada um de vós, a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo acampamento, de porta em porta, e mate, cada qual, a seu irmão, a seu amigo, a seu parente" (Ex 32,27), só teria sentido e melhor se identifica se dirigida também a Josué, "braço direito de Moisés", responsável pela pacificação e sendo da tribo de Efraim, por força do cargo a ele cabia também a reação, até mesmo por uma questão de ordem e disciplina.]

Conclui-se então que, a unicidade aqui tão tenazmente firmada, se limita ao único nome de Deus a ser invocado por Israel, na Terra Prometida - Iahweh. Não se cogitava de um reconhecimento especulativo e cabal da inexistência de outros deuses, tese de difícil condição cultural de sobrevivência na região, mas, da opção exclusiva e definitiva, da adoração e do culto de "um" só Deus - IAHWEH. Não um monoteísmo, mas uma monolatria ou henolatria, qual seja a adoração regional de um só deus, sem se cogitar da exclusão ou da impossibilidade de existência de outros deuses:

"OUVE, ISRAEL, Iahweh, nosso Deus, é o único Iahweh. Amarás, pois, a Iahweh, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas" (Dt 6,4-9)

"OUVE, ISRAEL..." - coerentemente, com essas palavras inicia-se uma oração tradicional Israelita, ainda invocada, daí recebendo o nome de "shem'a" (= "ouve"). Este versículo teria uma tradução literal assim: "Ouve, Israel, Iahweh nosso Deus, Iahweh um" (Dt 6,4), sem o verbo, por não ser usado em hebraico. Colocando-se os verbos em seus lugares soaria a frase assim: "Ouve, Israel, Iahweh [ é ] nosso Deus, Iahweh [ é ] um" (Dt 6,4). Vê-se então não se referia a uma unicidade absoluta, mas a uma individualidade, indivisível, e em contraste com a variedade enorme de santuários de deuses falsos, assim divididos e distribuídos em Canaã, contra os quais deverá se insurgir Israel, destruindo-os e assim cumprindo a sua Missão (Dt 12,2-12). Essa oração, tal qual ao tempo de Jesus ainda se conhecia (Mc 12,29), compõe-se de três passagens (Dt 6,4-9 / Dt 11,13-21 / Nm 15,37-41), assim composta, possivelmente:

"Ouve, Israel, Iahweh, nosso Deus, é o único Iahweh. Amarás, pois, a Iahweh, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas" (Dt 6,4-9)

Se diligentemente obedecerdes a meus mandamentos que hoje vos ordeno, de amar Iahweh, vosso Deus, e de o servir de todo o vosso coração e de toda a vossa alma, darei as chuvas da vossa terra a seu tempo, as primeiras e as últimas, para que recolhais o vosso cereal, e o vosso vinho, e o vosso azeite. Darei erva no vosso campo aos vossos gados, e comereis e vos fartareis. Guardai-vos não suceda que o vosso coração se engane, e vos desvieis, e sirvais a outros deuses, e vos prostreis perante eles; que a ira de Iahweh se acenda contra vós outros, e feche ele os céus, e não haja chuva, e a terra não dê a sua messe, e cedo sejais eliminados da boa terra que Iahweh vos dá. Ponde, pois, estas minhas palavras no vosso coração e na vossa alma; atai-as por sinal na vossa mão, para que estejam por frontal entre os olhos. Ensinai-as a vossos filhos, falando delas assentados em vossa casa, e andando pelo caminho, e deitando-vos, e levantando-vos. Escrevei-as nos umbrais de vossa casa e nas vossas portas, para que se multipliquem os vossos dias e os dias de vossos filhos na terra que Iahweh, sob juramento, prometeu dar a vossos pais, e sejam tão numerosos como os dias do céu acima da terra"(Dt 11,13-21)

"Disse Iahweh a Moisés: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes que nos cantos das suas vestes façam borlas pelas suas gerações; e as borlas em cada canto, presas por um cordão azul. E as borlas estarão ali para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos de Iahweh e os cumprais; não seguireis os desejos do vosso coração, nem os dos vossos olhos, após os quais andais adulterando, para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sereis a vosso Deus. Eu sou Iahweh, vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para vos ser por Deus. Eu sou Iahweh, vosso Deus"(Nm 15,37-41).

Este Amor a Iahweh "...de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças...", a essência da Teologia desde o Antigo Testamento, assinala também a possibilidade de entrar no Reino de Deus, como ensina Jesus:

"Qual é o primeiro de todos os mandamentos? Respondeu Jesus: O primeiro é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças. E o segundo é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que esses. Ao que lhe disse o escriba: Muito bem, Mestre; com verdade disseste que ele é um, e fora dele não há outro; e que amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios. E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus...." (Mc 12,28-34).

Coerente com esse ensino, repete, diz e ensina a Igreja Católica:

"2054 - Jesus retomou os dez mandamentos, mas revelou a força do Espírito que atua na letra em que eles se exprimem. Pregou a "justiça que excede a dos escribas e fariseus" (Mt 5,20), do mesmo modo que a dos pagãos (cf. Mt 5,46-47). E expôs todas as exigências dos mandamentos: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás (...); pois Eu vos digo: Todo aquele que se irar contra seu irmão, será sujeito ao tribunal" (Mt 5,21-22).

2055 - Quando Lhe perguntaram: "Qual é o maior mandamento que há na Lei?" (Mt 22,36), Jesus responde: "Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente; tal é o maior e primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. A estes dois mandamentos está ligada toda a Lei, bem como os Profetas" (Mt 22,37-40; cf. Dt 6,5; Lv 19,18). O Decálogo deve ser interpretado à luz deste duplo e único mandamento da caridade, plenitude da Lei.

"Os mandamentos que dizem: 'Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não hás de cobiçar' bem como qualquer outro mandamento, resumem-se nestas palavras: 'Amarás ao próximo como a ti mesmo'. A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é, pois, o pleno cumprimento da Lei" (Rm 13,9-10)" (Catecismo da Igreja Católica).

 

5.26.4.  Moisés e a Missão de Israel

Em prosseguimento, Moisés adverte quanto à Aliança com Israel como um todo indiviso e para sempre, prosseguindo com as gerações futuras no mesmo diapasão, com a mesma fidelidade, obediência e "temor", o mesmo Amor a Iahweh, uma Aliança imorredoura, para sempre:

"Estas palavras que hoje te ordeno estarão em teu coração; tu a inculcarás aos teus filhos..." (Dt 6,6-7a).

Nasce na seqüência dessas palavras o uso sistemático dos filactérios, estojos contendo em pergaminho a Lei, os quais eram presos na testa ou no punho (Mt 23,5):

"...e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas." (Dt 6,7b-9).

Lança ainda as bases para uma vida feliz na Terra de Canaã, - as normas delineadas, - consoante o cumprimento da Promessa por Iahweh, devendo receber a contra partida da fidelidade e gratidão, não se curvando a outros deuses, e assim orientando os filhos:

"Havendo-te, pois, Iahweh, teu Deus, introduzido na terra que, sob juramento, prometeu a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó, te daria, grandes e boas cidades, que tu não edificaste; e casas cheias de tudo o que é bom, casas que não encheste; e poços abertos, que não abriste; vinhais e olivais, que não plantaste; e, quando comeres e te fartares, guarda-te, para que não esqueças Iahweh, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão. Iahweh, teu Deus, temerás, a ele servirás, e, pelo seu nome, jurarás. Não seguirás outros deuses, nenhum dos deuses dos povos que houver à roda de ti, porque Iahweh, teu Deus, é Deus ciumento no meio de ti, para que a ira de Iahweh, teu Deus, se não acenda contra ti e te destrua de sobre a face da terra. Não tentarás Iahweh, teu Deus, como o tentaste em Massá. Diligentemente, guardarás os mandamentos de Iahweh, teu Deus, e os seus testemunhos, e os seus estatutos que te ordenou. Farás o que é reto e bom aos olhos de Iahweh, para que bem te suceda, e entres, e possuas a boa terra a qual Iahweh, sob juramento, prometeu dar a teus pais, lançando todos os teus inimigos de diante de ti, como Iahweh tem dito" (Dt 6,10-19).

"...guarda-te, para que não esqueças Iahweh, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão..." - assim começa Moisés a advertir Israel quanto a outros deuses, determinando a transmissão de pai para filho da história nacional Israelita. É indispensável torná-lo o consciente dos motivos do temor de Iahweh, para Lhe ser fiel e obediente conforme os antepassados, vinculando-o a toda a História de Israel. Não fora Iahweh seriam ainda escravos no Egito, e assim se torna o Único Deus de Israel:

"Quando teu filho, no futuro, te perguntar: Que significam os testemunhos, e estatutos, e normas que Iahweh, nosso Deus, vos ordenou? Então, dirás a teu filho: Éramos escravos de Faraó, no Egito; porém Iahweh de lá nos tirou com mão forte. Aos nossos olhos fez Iahweh sinais e maravilhas, grandes e terríveis, contra o Egito e contra Faraó e toda a sua casa; e dali nos tirou, para nos levar e nos dar a terra que sob juramento prometeu a nossos pais. Iahweh nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos e temêssemos Iahweh, nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como tem feito até hoje. Será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante Iahweh, nosso Deus, como nos tem ordenado" (Dt 6,20-25).

"Será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante Iahweh, nosso Deus, como nos tem ordenado" - aqui se define o termo bíblico "justiça". São aqueles atos do homem praticando a Vontade de Iahweh, seja com referência ao próximo a quem se deve amar como a si mesmo (Lv 19,18), seja atendendo às determinações e aos desígnios de Deus (Gn 15,6; Dt 9,4-6), usados como medida de mérito por Jesus Cristo, no aperfeiçoamento que imprimiu à Lei, conduzindo-a ao "pleno cumprimento" (Mt 5,17-18):

"Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo. Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta. Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz, ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão. Em verdade te digo que não sairás dali, enquanto não pagares o último centavo. Ouvistes que foi dito..." (Mt 5,20).

Após essa introdução religiosa e comprometedora, pela qual Moisés demonstra a unidade de Iahweh, o Deus de Israel, com o Seu Povo, assumindo o Poder total, tendo agora também um território próprio, onde se manifesta, deverá se impor aos demais povos, expulsando-os. Prepara assim o terreno para Israel cumprir a sua Missão, votando-os ao interdito (v. n.º 19.2, no estudo feito do Livro de Levítico; v. tb. Dt 20,10-18), em guerra contra a idolatria, para a imposição de Iahweh aos demais povos:

"Quando Iahweh, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; e Iahweh, teu Deus, as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas; nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos; pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira de Iahweh se acenderia contra vós e depressa vos destruiria" (Dt 7,1-4).

Moisés, temeroso da idolatria dos pagãos, adverte Israel para não se deixar influenciar pelos seus costumes, trazendo "...a ira de Iahweh se acenderá contra vós e depressa vos destruirá". Deverão proceder conforme os termos da Aliança, no que se refere à Missão de Israel:

"Porém assim lhes fareis: derrubareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, cortareis os seus postes sagrados e queimareis os seus ídolos. Porque tu és povo santo a Iahweh, teu Deus; Iahweh, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, dentre todos os povos que existem sobre a terra" (Dt 7,5-6).

Para se compreender essa atitude exigida por Iahweh, como soe acontecer em toda a Bíblia, é indispensável situar-se dentro da cultura do tempo da narrativa. Não se pode transportar para o passado a nossa maneira de pensar e julgar os atos dos idos tempos com as concepções atuais. É bom que se lembre e não faz mal repetir, que ao tempo acreditava-se na existência de vários deuses, cada um com o seu povo e dominando um território, junto com outros ou conforme sua especialidade. Assim, aos Baals e às Astartes atribuía-se em Canaã tanto a fertilidade do solo como a prosperidade geral, bem como o amor procriador humano e a fecundidade geral. Qualquer outro deus que não Iahweh, comprometeria a plenitude da conquista, com a possibilidade de levar ao culto e à adoração de outros deuses pelos Israelitas, perdendo assim a sua personalidade própria e peculiar de Povo de Iahweh. Além disso o interdito dos povos só se praticava quando rejeitados os propósitos de paz , como já foi exposto por ocasião em que se estudou a interdição (Lv 27 / Dt 20,10-18). Era tal qual uma questão de "segurança nacional", nos termos em que atualmente se entende quando se refere à paz e segurança interna de um país. Acontecia também, com a mesma crueldade de uma guerra dos tempos atuais, como se tem assistido, não se esquecendo que se tratava da descrição de uma GUERRA SANTA de Iahweh contra todos os deuses dos povos de então, impondo-se como um Deus Vivo, não obra de mãos de artífices humanos. Além de tudo isso, Israel é o Povo Primogênito de Iahweh, na concepção cultural do tempo (Ex 4,22), "o que abre o seio materno" (Ex 13,1), a primícia, "o primeiro de uma série" - "abrindo" o caminho de outros povos para Iahweh. Israel, na qualidade de primogênito, tem por Missão levar, pela efusão de sua santificação, todos os povos a Iahweh. Donde, os interditos foram instituídos em Israel não como uma forma de derrotar e destruir os inimigos, mas como forma de conversão. Por isso, de acordo com o aculturamento da época, e tudo o que fosse "impuro" deveria ser afastado ou destruído. Então, é de se situar os interditos como uma forma de coerência religiosa com a santificação de Israel, separado dos outros povos por Iahweh, por causa da "impureza" de seus costumes sociais e principalmente religiosos. É esse o motivo pelo qual não poderiam contrair matrimônio os filhos Israelitas com os filhos dos pagãos, colocando em perigo a "pureza" da adoração a Iahweh:

"Porque tu és povo santo a Iahweh, teu Deus; Iahweh, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra. Não vos teve Iahweh afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque Iahweh vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais, Iahweh vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que Iahweh, teu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e cumprem os seus mandamentos; e dá o pago diretamente aos que o odeiam, fazendo-os perecer; não será demorado para com o que o odeia; prontamente, lho retribuirá" (Dt 7,6-10)

Basicamente, no entanto, Iahweh se mantém fiel à Aliança que contraiu com os Patriarcas, seus antepassados , e à eleição praticada. No entanto é necessária a fidelidade e a obediência de Israel, cumprindo a Vontade Soberana de Iahweh, despertando-lhe a Misericórdia com essa prova vivencial de que O ama, para que lhes venham bênçãos em plenitude:

"Guarda, pois, os mandamentos, e os estatutos, e os juízos que hoje te mando cumprir. Será, pois, que, se, ouvindo estes juízos, os guardares e cumprires, Iahweh, teu Deus, te guardará a aliança e a misericórdia prometida sob juramento a teus pais; ele te amará, e te abençoará, e te fará multiplicar; também abençoará os teus filhos, e o fruto da tua terra, e o teu cereal, e o teu vinho, e o teu azeite, e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas, na terra que, sob juramento a teus pais, prometeu dar-te. Bendito serás mais do que todos os povos; não haverá entre ti nem homem, nem mulher estéril, nem entre os teus animais. Iahweh afastará de ti toda enfermidade; sobre ti não porá nenhuma das doenças malignas dos egípcios, que bem sabes; antes, as porá sobre todos os que te odeiam. Consumirás todos os povos que te der Iahweh, teu Deus; os teus olhos não terão piedade deles, nem servirás a seus deuses, pois isso te seria por ciladas" (Dt 7,11-16)

A fim de não sofrer danos advindos da infidelidade não haverá relacionamento com os pagãos, anteriores donos da terra, evitando-se a idolatria, cuja influência sofreria. A santidade que lhe imprime a eleição divina, a prosperidade (v. tb. - Ex 23,25-27), os benefícios recebidos, o temor da perda das bênçãos em caso de desvio ou corrupção, bem como a necessidade de segurança, tudo vai concorrer para o fortalecimento do amor e obediência que dele espera Iahweh:. Assim como Iahweh lhes tem sido fiel, como demonstrou desde a saída do Egito e pelas dificuldades no deserto, assim será quando tiver de enfrentar os antigos donos da terra que irão conquistar, não devendo por isso temê-los, mas crer em Iahweh e no carinho com que trata o Seu Povo, até mesmo combatendo por ele, assegurando-lhe o triunfo:

"Se disseres no teu coração: Estas nações são mais numerosas do que eu; como poderei desapossá-las? Delas não tenhas temor; lembrar-te-ás do que Iahweh, teu Deus, fez a Faraó e a todo o Egito; das grandes provas que viram os teus olhos, e dos sinais, e maravilhas, e mão poderosa, e braço estendido, com que Iahweh, teu Deus, te tirou; assim fará Iahweh, teu Deus, com todos os povos, aos quais temes. Além disso, Iahweh, teu Deus, mandará entre eles vespões, até que pereçam os que ficarem e se esconderem de diante de ti. Não te espantes diante deles, porque Iahweh, teu Deus, está no meio de ti, Deus grande e temível. Iahweh, teu Deus, lançará fora estas nações, pouco a pouco, de diante de ti; não poderás destruí-las todas de pronto, para que as feras do campo se não multipliquem contra ti. Mas Iahweh, teu Deus, te vai entregá-las e lhes infligirá grande confusão, até que sejam destruídas. Entregar-te-á também nas mãos os seus reis, para que apagues o nome deles de debaixo dos céus; nenhum homem poderá resistir-te, até que os destruas. As imagens de escultura de seus deuses queimarás; a prata e o ouro que estão sobre elas não cobiçarás, nem os tomarás para ti, para que te não enlaces neles; pois são abominação a Iahweh, teu Deus. Não colocarás, pois, coisa abominável em tua casa, para que não sejas amaldiçoado, semelhante a ela; de todo, a detestarás e, de todo, a abominarás, pois é amaldiçoada" (Dt 7,17-26).

Somente não será uma conquista imediata, mas paulatina, "para que não se multipliquem as feras" (Ex 23,29-30), nos locais desertos advindos da expulsão ou por se votar ao interdito o antigo habitante pagão ou gentio, bem como destruindo-lhe os ídolos de escultura, os seus altares, e os seus santuários e locais de culto, e assim cumprindo a Missão que competia primordialmente ao Povo de Iahweh.

 

5.26.5.  Moisés E Os Perigos Da Prosperidade

: - Durante a peregrinação pelo deserto viram-se os Israelitas na dependência absoluta de Iahweh, e, por isso, não deveriam esquecê-LO. Porém, Moisés teme que, uma vez na Terra Prometida, vivendo em paz e prosperidade em sua "herança", viessem os Israelitas a se vangloriar e atribuir esse bem estar ao próprio mérito ou valor. Era necessário tomar consciência de dois fatores, causas eficazes da vitória alcançada:

  • - Primeiro, a fidelidade à Aliança de Iahweh com os Patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, ratificada no Horeb com todo o Povo (Dt 8,1-16); e,
  • - Segundo, as prevaricações praticadas pelas nações, causando a "ira" de Iahweh, motivo pelo qual eram desalojadas para dar lugar a Israel (Dt 8,17-20 / Dt 9,1-6):

"Cuidareis de cumprir todos os mandamentos que hoje vos ordeno, para que vivais, e vos multipliqueis, e entreis, e possuais a terra que Iahweh prometeu sob juramento a vossos pais. Recorda-te de todo o caminho pelo qual Iahweh, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que não conhecias, nem teus pais, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca de Iahweh viverá o homem. Nunca envelheceu a tua veste sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos" (Dt 8,1-4).

"... não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca de Iahweh viverá o homem" - com essa frase Moisés lembra-lhes de que Iahweh os "sustentou com o maná" no deserto, levando-os a superar todas as vicissitudes por que passaram. Porém, o objetivo principal de Iahweh foi pedagógico, levando-os à maturidade necessária para se tornar um povo consciente e autônomo, ensinando-os com Amor de Pai (Ex 4,22-23 / Os 11,1). Tal como se disse alhures, o deserto não lhes foi como um castigo, pela covardia demonstrada quando do envio dos batedores à terra a conquistar, mas como uma maturação de que careciam, para a própria autonomia e personalidade. Mais que isso, ainda, para levá-los a maior comunhão com seu Deus, conhecendo-O mais e melhor, amando-O e cumprindo fielmente seus desígnios, retribuindo assim, com a gratidão da conduta, aos dons advindos da Promessa:

"Sabe, pois, no teu coração, que, como um homem disciplina a seu filho, assim te disciplina Iahweh, teu Deus. Guarda os mandamentos de Iahweh, teu Deus, para andares nos seus caminhos e o temeres" (Dt 8,5-6).

Assim também se exprimem alguns Profetas, sustentando a fase pedagógica do deserto (cfr. Os 2,16; 11,1; Jr 2,2; Ez 16), bem como os primeiros cristãos viram nessa fase do período da saída do Egito e da estadia no deserto a "figura" dos bens da Graça da Eucaristia e do Batismo, principalmente:

"Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo. Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, razão por que ficaram prostrados no deserto. Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles; porquanto está escrito: O povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se. E não pratiquemos imoralidade, como alguns deles o fizeram, e caíram, num só dia, vinte e três mil. Não ponhamos o Senhor à prova, como alguns deles já fizeram e pereceram pelas mordeduras das serpentes. Nem murmureis, como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo exterminador. Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado" (1 Cor 10,1-11).

Agora, então, demostrando-se maduros, aptos para a Conquista da Terra que se lhes destinara, Moisés aponta-lhes as qualidades paradisíacas dela, "...terra onde mana o leite e o mel..." (Ex 3,17c), tal como anunciado por Iahweh, acariciando-os desde então com as delícias dessa sua "herança". Ao mesmo tempo que os conscientiza da dinâmica de sua própria História, aponta-lhes o perigo de um orgulho despropositado, supervalorizando-se, esquecendo-se da presença atuante de Iahweh entre eles, não mais cumprindo os Mandamentos do Único responsável por tudo, e que "habita no meio deles" (Ex 25,8). Povo "separado" dos outros povos, por e para Iahweh, para ser "santo" (cfr.: Lv 17-26), não poderia nem ao menos ter contato com outros deuses e seus povos, sob pena de se contaminar com a "impureza da idolatria", fonte da desgraça dos outros, causa até mesmo da expulsão e substituição deles pelos Israelitas (Dt 8,17-20; 9,1-6 ). Incorreriam no mesmo erro, e receberiam o mesmo destino, não mais participando da Gloriosa Missão de "Filho Primogênito de Iahweh" (Ex 4,22-23), decaindo da comunhão com o Deus Vivo, para a vida de servo de ídolos sem vida e inúteis, isto é, na mesma desgraça dos gentios. Ao invés de impressioná-los pela sabedoria externada na conduta, em pervertendo-se, imitando-os seus comportamentos profanos, colherão os mesmos frutos da "ira" de Iahweh, o "Deus Ciumento", e serão tal como eles destruídos:

"Porque Iahweh, teu Deus, te faz entrar numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes, de mananciais profundos, que saem dos vales e das montanhas; terra de trigo e cevada, de vides, figueiras e romeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel; terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te faltará nela; terra cujas pedras são ferro e de cujos montes cavarás o cobre. Comerás, e te fartarás, e louvarás Iahweh, teu Deus, pela boa terra que te deu. Guarda-te de não te esqueceres de Iahweh, teu Deus, não cumprindo os seus mandamentos, os seus juízos e os seus estatutos, que hoje te ordeno; para não suceder que, depois de teres comido e estiveres farto, depois de haveres edificado boas casas e morado nelas; depois de se multiplicarem os teus gados e os teus rebanhos, e se aumentar a tua prata e o teu ouro, e ser abundante tudo quanto tens, se eleve o teu coração, e te esqueças de Iahweh, teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão, que te conduziu por aquele grande e terrível deserto de serpentes abrasadoras, de escorpiões e de sede, em que não havia água; e fez sair para ti água do rochedo; que no deserto te sustentou com o maná que teus pais não conheciam; para te humilhar, e para te colocar à prova, e, para tornar feliz o teu futuro" (Dt 8,7-16).

Fundamental a esse relacionamento é o reconhecimento da dependência absoluta e da proteção , nunca devendo o Povo de Israel se ufanar das vitórias alcançadas, devidas exclusivamente à fidelidade de Iahweh ao juramento feito aos Patriarcas, que então se confirmava. O maior perigo advindo da prosperidade seria a presunção de que foram "minha força e o poder do meu braço me conquistaram estas riquezas", orgulho que traria a mesma conseqüência advinda aos gentios, pela desobediência a Iahweh:

"Não digas, pois, no teu coração: A minha força e o poder do meu braço me conquistaram estas riquezas. Antes, lembrar-te-ás de Iahweh, teu Deus, porque é ele o que te fortalece para enriquecer; para confirmar a sua aliança, que, sob juramento, prometeu a teus pais, como hoje se vê. Se te esqueceres de Iahweh, teu Deus, e andares após outros deuses, e os servires, e os adorares, declaro, hoje, contra vós que perecereis. Como as nações que Iahweh destruiu diante de vós, também perecereis; por não terdes obedecido à voz de Iahweh, vosso Deus" (Dt 8,17-20).

Não se pode negar a visão de Moisés e sua grande capacidade de liderança, e o conhecimento da natureza humana e das inclinações Israelitas, fatores somados a vários outros, que lhe deram condições para a obra estrutural da futura Nação Israelita. Mostra isso o empenho, até mesmo obsessivo, pela exclusiva nomeação de Iahweh como um único Deus Israelita, com a declinação de qualquer outro nome, criando assim clima para uma unidade tanto social como comunitária, "corpo e alma", com um fundamento religioso e cultual único, em torno do qual vai se edificar sua obra. Nota-se, em especial e insistente destaque, o uso exclusivo do nome Iahweh, com a exclusão dos demais, neste rolo da Torah, eis que Moisés não usa outro nome nessas exortações finais que lhes objetiva. Deixa bem clara a presença dinâmica de Iahweh, derrotando os inimigos de Israel, bem como o perigo do envaidecimento orgulhoso e presunçoso, olvidando toda a obra de Iahweh, em cumprimento à Promessa feita a Abraão, Isaac e Jacó:

"1 Ouve, ó Israel, tu passas, hoje, o Jordão para entrares a possuir nações maiores e mais fortes do que tu; cidades grandes e amuralhadas até aos céus;2 povo grande e alto, filhos dos anaquitas, que tu conheces e de que já ouvistes: Quem poderá resistir aos filhos de Enaque?3 Sabe, pois, hoje, que Iahweh, teu Deus, é que passa adiante de ti; é fogo que consome, e os destruirá, e os subjugará diante de ti; assim, os desapossarás e, depressa, os farás perecer, como te prometeu Iahweh.4 Quando, pois, Iahweh, teu Deus, os tiver lançado de diante de ti, não digas no teu coração: Por causa da minha justiça é que Iahweh me trouxe a esta terra para a possuir, porque, pela maldade destas gerações, é que Iahweh as lança de diante de ti.5 Não é por causa da tua justiça, nem pela retitude do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela maldade destas nações Iahweh, teu Deus, as lança de diante de ti; e para confirmar a palavra que Iahweh, teu Deus, jurou a teus pais, Abraão, Isaac e Jacó.6 Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que Iahweh, teu Deus, te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo de dura cerviz" (Dt 9,1-6).

Temeroso pela instabilidade sempre demonstrada pelo povo, bem como do advento de nova covardia nos moldes da já havida anteriormente, ao iniciar a conquista, Moisés os adverte quanto à presença de Iahweh lutando por eles. Assim, entregando os donos da terra em suas mãos, cumprindo o que prometera, nada devem temer face à repetição do mesmo panorama então encontrado de "...nações maiores e mais fortes do que tu; cidades grandes e amuralhadas até aos céus; povo grande e alto...". É que "....Iahweh, teu Deus, é que passa adiante de ti; (...) e os destruirá, e os subjugará (...); assim, os desapossarás e, depressa, os farás perecer, como te prometeu Iahweh...." Iahweh, porém, não fará isso por causa dos vários méritos que tenham, "pela vossa justiça", mas por fidelidade ao Juramento e à Promessa aos Patriarcas, seus antepassados. Além disso, também, por causa da maldade e corrupção moral dos povos pagãos que infestam de nódoas a terra tornando-a "impura", fato por demais mencionado na Escritura (Gn15,16; Lv 18,3.24-30; Dt 18,12; 20,18; 1Rs 14,24; 21,26; 2Rs 16,3; 17,8; 21,2). Não há então nenhum motivo para se vangloriarem, nem presumirem ou se orgulharem, como se o fizessem por própria capacidade. É Iahweh que o faz "...pela maldade destas nações (...) as lança de diante de ti; e para confirmar a palavra que Iahweh, teu Deus, jurou a teus pais, Abraão, Isaac e Jacó...."

Jesus no início de sua vida pública vai ao deserto, e lá permanece quarenta dias e quarenta noites (Dt 9,9.18 / Ex 34,28), repetindo os dias de vistoria que os batedores gastaram, em vez dos anos de peregrinação, pela imaturidade (Nm 14,34 / Dt 8,2.4). Recapitula as tentações pelas quais passou o Povo de Israel, rejeitando-as e vencendo-as definitivamente. Traça o programa do Reino de Deus que inaugura, "cumprindo" a "figura" esboçada por Moisés, fruto da peregrinação no deserto nos quarenta anos. Repassando a luta de Moisés, ratifica:

  • após se recusar a se alimentar por um milagre para si mesmo, que "... não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca de Deus..." (Mt 4,4; e, Lc 4,4 / Dt 8,3 / Ex 16,1-36));
  • após recusar a satisfação própria nos prazeres deste mundo, que "...não tentarás ao Senhor teu Deus..." (Mt 4,7; e, Lc 4,2-3 / Dt 6,16 / Ex 17,1-7); e,
  • após contemplar todos os reinos (Dt 34,1-4), e se recusar a servir os falsos deuses (o próprio demônio), para ganhá-los, que "...ao Senhor teu Deus adorarás e a ele só prestarás culto..." (Mt 4, 10; e, Lc 4,8 / Dt 6,13).

 

5.26.6. Moisés E As Sedições Contra Iahweh

Feita essa introdução, passa a rememorar as várias sedições havidas em que se opôs contra a opção por Iahweh. Quer assim incriminar a consciência de todo o povo, agora entusiasmado com o cumprimento da Promessa de Iahweh, alcançadas as primeiras vitórias de conquista. Com isso vai fulminar qualquer possibilidade de reconhecimento de outros deuses ou outro nome, demonstrando o domínio de toda a apostasia havida, nos movimentos tribais, irradiados pelos antigos desencontros e conflitos familiares da Casa de Jacó. De todas elas, uma das sedições mais notáveis nessa perspectiva, foi a do episódio conhecido como O Bezerro de Ouro", já estudado alhures (cfr. Ex 34), quando se mostrou a revolta contra o nome de Iahweh, em detrimento do de Elohim. Nessa ocasião Moisés destruiu, significativamente, as Tábuas escritas "pelo dedo de Elohim" (Ex 31,18 / Dt 9,10), substituindo-as pelas escritas por Iahweh (Ex 34,1-4.28 / Dt 10,1-5), "...escreveu as mesmas palavras que estavam nas primeiras tábuas..." (Dt 10,2). É esse o episódio que Moisés recorda, com amplos detalhes, e com as vivas cores do drama por que passou na ocasião, apresentando Iahweh "irado" pela rejeição então manifestada. Observe-se que é Moisés quem quebra as tábuas de pedra, não Iahweh:

"7 Lembrai-vos e não vos esqueçais de que muito provocastes à ira Iahweh, vosso Deus, no deserto; desde o dia em que saístes do Egito até que chegastes a este lugar, rebeldes fostes contra Iahweh;8 pois, em Horeb, tanto provocastes à ira Iahweh, que a ira de Iahweh se acendeu contra vós para vos destruir.9 Subindo eu ao monte a receber as tábuas de pedra, as tábuas da aliança que Iahweh fizera convosco, fiquei no monte quarenta dias e quarenta noites; não comi pão, nem bebi água.10 Deu-me Iahweh as duas tábuas de pedra, escritas com o dedo de Elohim; e, nelas, estavam todas as palavras segundo Iahweh havia falado convosco no monte, do meio do fogo, estando reunido todo o povo.11 Ao fim dos quarenta dias e quarenta noites, Iahweh me deu as duas tábuas de pedra, as tábuas da aliança.12 E Iahweh me disse: Levanta-te, desce depressa daqui, porque o teu povo, que tiraste do Egito, já se corrompeu; cedo se desviou do caminho que lhe ordenei; imagem fundida para si fez.13 Falou-me ainda Iahweh, dizendo: Atentei para este povo, e eis que ele é povo de dura cerviz.14 Deixa-me que o destrua e apague o seu nome de debaixo dos céus; e te faça a ti nação mais forte e mais numerosa do que esta.15 Então, me virei e desci do monte; e o monte ardia em fogo; as duas tábuas da aliança estavam em ambas as minhas mãos.16 Olhei, e eis que havíeis pecado contra Iahweh, vosso Deus; tínheis feito para vós um bezerro fundido; cedo vos desviastes do caminho que Iahweh vos ordenara.17 Então, peguei as duas tábuas, e as arrojei das minhas mãos, e as quebrei ante os vossos olhos" (Dt 9,7-17).

"Atentei para este povo, e eis que ele é povo de dura cerviz" - Moisés informa que Iahweh compara o Povo de Israel, por causa do acontecimento, com o animal teimoso, que não obedece o comando da rédea, mantendo-se firme em uma só direção, "com o pescoço endurecido", isto é, "de dura cerviz". "Deixa-me que o destrua e apague o seu nome de debaixo dos céus; e te faça a ti nação mais forte e mais numerosa do que esta..." - com essas frases Moisés informa a intenção de Iahweh e o motivo da sua interferência eficaz, para não se destruir Israel, substituindo-o por um povo da sua descendência. Essas afirmações têm o condão de comunicar o grau de rejeição então praticado e o quanto atingiu tão grave violação da Aliança, a troca de Iahweh por outro: "Olhei, e eis que havíeis pecado contra Iahweh, vosso Deus; tínheis feito para vós um bezerro fundido..." - ora, o Bezerro de Ouro, era uma representação efraimita, que a História de Israel revelará (1Rs 12,28):

"18 Prostrado estive perante Iahweh, como dantes, quarenta dias e quarenta noites; não comi pão e não bebi água, por causa de todo o vosso pecado que havíeis cometido, fazendo mal aos olhos de Iahweh, para o provocar à ira.19 Pois temia por causa da ira e do furor com que Iahweh tanto estava irado contra vós outros para vos destruir; porém ainda esta vez Iahweh me ouviu.20 Iahweh se irou muito contra Aarão para o destruir; mas também orei por Aarão ao mesmo tempo.21 Porém tomei o vosso pecado, o bezerro que tínheis feito, e o queimei, e o esmaguei, moendo-o bem, até que se desfez em pó; e o seu pó lancei no ribeiro que descia do monte" (Dt 9,18-21).

Terminada essa recordação, vai Moisés buscar outras sedições, melhor dito, apostasias, em que se primou pela tentativa de retorno ao Egito, - símbolo vivo da idolatria pagã e de cuja opressão haviam sido libertados por Iahweh, "para servi-LO" (Ex 7,16.26...). O retorno ao Egito significava, nada menos que uma apostasia, a volta ao panteão dos deuses do qual se livraram, aliás, foram libertados por Iahweh. Passa Moisés então a rever os incidentes e sedições havidas em Tabera (Nm 11,1-3), Massa (Ex 17,1-7), Cibrote-ataava (Nm 11,4-34) e Cades Barne (Nm 13,25-14,38):

"22 Também em Tabera, em Massá e em Cibrote-ataava provocastes muito a ira de Iahweh.23 Quando também Iahweh vos enviou de Cades - Barne, dizendo: Subi e possuí a terra que vos dei, rebeldes fostes ao mandado de Iahweh, vosso Deus, e não o crestes, e não obedecestes à sua voz.24 Rebeldes fostes contra Iahweh, desde o dia em que vos conheci.25 Prostrei-me, pois, perante Iahweh e, quarenta dias e quarenta noites, estive prostrado; porquanto Iahweh dissera que vos queria destruir.26 Orei a Iahweh, dizendo: Iahweh Deus! Não destruas o teu povo e a tua herança, que resgataste com a tua grandeza, que tiraste do Egito com poderosa mão.27 Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaac e Jacó; não atentes para a dureza deste povo, nem para a sua maldade, nem para o seu pecado,28 para que o povo da terra donde nos tiraste não diga: Não tendo podido Iahweh introduzi-los na terra de que lhes tinha falado e porque os aborrecia, os tirou para matá-los no deserto.29 Todavia, são eles o teu povo e a tua herança, que tiraste com a tua grande força e com o braço estendido" (Dt 9,22-29).

Moisés quer realçar que a entrega da Terra de Canaã a Israel não foi por causa de algum mérito ou valor especial demonstrado, nem forçado pelas apostasias ou sedições que praticou, mas somente em cumprimento da Promessa feita aos Patriarcas. A Paciência de Iahweh, mantendo-se fiel à Aliança, e a Sua Condescendência, são frutos do Amor e em honra de Seu Nome, manifestado desde a origem na formação e condução de Seu Povo ao Seu Território. Dessa maneira não pode ser ultrajado pelos pagãos, como seria se não tivesse assegurado ao Seu Povo um Território, tal como afirma Moisés, intercedendo por ele e pela Aliança (Ex 15,25; 17,4-7; 32,11-14; 33,12-17; 34,9; Nm 11,2; 12,13-14; 14,13-20; 21,7-9).

 

5.26.7. Moisés Restaura a Aliança Com Iahweh

"Prostrei-me, pois, perante Iahweh e, quarenta dias e quarenta noites, estive prostrado; porquanto Iahweh dissera que vos queria destruir. Orei a Iahweh, dizendo: "Iahweh Deus! Não destruas o teu povo e a tua herança, que resgataste com a tua grandeza, que tiraste do Egito com poderosa mão. Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaac e Jacó...". A gravidade da situação arrebata Moisés para a oração e penitência, retirando-se em retiro espiritual e contemplativo de "quarenta dias e quarenta noites", "prostrado" aos pés de Iahweh. Moisés encontra a solução na intimidade com Iahweh, e toda a Aliança é restaurada. Recobrando o equilíbrio recebe o comando de toda a operação, conforme se expressa: - "...escreveu Iahweh nas tábuas (...) os dez mandamentos (...) ...deu-as a mim...e coloquei-as na Arca... e me disse: 'levanta-te, põe-te a caminho diante do povo, para que entre e possua a terra que, sob juramento, prometi dar a seus pais'":

"Naquele tempo, me disse Iahweh: Lavra duas tábuas de pedra, como as primeiras, e sobe a mim ao monte, e faze uma arca de madeira.2 Escreverei nas duas tábuas as palavras que estavam nas primeiras que quebraste, e as porás na arca.3 Assim, fiz uma arca de madeira de acácia, lavrei duas tábuas de pedra, como as primeiras, e subi ao monte com as duas tábuas na mão.4 Então, escreveu Iahweh nas tábuas, segundo a primeira escritura, os dez mandamentos que ele vos falara no dia da congregação, no monte, no meio do fogo; e Iahweh deu-as a mim.5 Virei-me, e desci do monte, e pus as tábuas na arca que eu fizera; e ali estão, como Iahweh me ordenou. (...) 10 Permaneci no monte, como da primeira vez, quarenta dias e quarenta noites; Iahweh me ouviu ainda por esta vez; não quis Iahweh destruir-te.11 Porém Iahweh me disse: Levanta-te, põe-te a caminho diante do povo, para que entre e possua a terra que, sob juramento, prometi dar a seus pais" (Dt 10,1-11).

Pacificado Iahweh, reata-se a Aliança reforçando-lhe ainda mais os termos mais essenciais, pretendendo-se de ora em diante uma união mais íntima, a partir do Amor e do Temor de Iahweh. É a Piedade Israelita, então traduzida em fidelidade e obediência, em virtude da eleição dos Patriarcas, seus pais, de quem "...Iahweh se afeiçoou para os amar; e a vós, descendentes deles, escolheu de todos os povos, como hoje se vê":

"Agora, pois, ó Israel, que é que Iahweh requer de ti? Não é que temas Iahweh, teu Deus, e andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas a Iahweh, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma,13 para guardares os mandamentos de Iahweh e os seus estatutos que hoje te ordeno, para o teu bem?14 Eis que os céus e os céus dos céus são de Iahweh, teu Deus, a terra e tudo o que nela há.15 Tão-somente Iahweh se afeiçoou a teus pais para os amar; a vós outros, descendentes deles, escolheu de todos os povos, como hoje se vê.16 Circuncidai, pois, o vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz. (...) 20 A Iahweh, teu Deus, temerás; a ele servirás, a ele te chegarás e, pelo seu nome, jurarás.21 Ele é o teu louvor e o teu Deus, que te fez estas grandes e temíveis coisas que os teus olhos têm visto.22 Com setenta almas, teus pais desceram ao Egito; e, agora, Iahweh, teu Deus, te pôs como as estrelas dos céus em multidão.1 Amarás, pois, Iahweh, teu Deus, e todos os dias guardarás os seus preceitos, os seus estatutos, os seus juízos e os seus mandamentos" (Dt 10,12-11,1).

Moisés, após retratar as sedições, por demais ultrajantes para Iahweh, por ser rejeitado, adverte-os então no sentido de não mais O desprezarem, mas servi-LO com Amor. Com o Amor de gratidão e reconhecimento, por causa do que foi-lhes feito no passado, do que lhes faz no presente e do que lhes promete fazer no futuro. A obediência e fidelidade trarão a Bênção de Iahweh e no caso de infidelidade receberão a maldição (Dt 11,2-32), tal qual outras rebeliões apóstatas (Nm 16), agora lembradas ao lado dos prodígios do Egito, salientando o mais amplo poder do Deus de Israel:

"2 Considerai hoje, pois não falo com os vossos filhos que não conheceram, nem viram a disciplina de Iahweh, vosso Deus, considerai a grandeza de Iahweh, a sua poderosa mão e o seu braço estendido;3 e também os seus sinais, as suas obras, que fez no meio do Egito a Faraó, rei do Egito, e a toda a sua terra;4 e o que fez ao exército do Egito, aos seus cavalos e aos seus carros, fazendo passar sobre eles as águas do mar Vermelho, quando vos perseguiam, e como Iahweh os destruiu até ao dia de hoje;5 e o que fez no deserto, até que chegastes a este lugar;6 e ainda o que fez a Datan e a Abiram, filhos de Eliab, filho de Rúben; como a terra abriu a boca e os tragou e bem assim a sua família, suas tendas e tudo o que os seguia, no meio de todo o Israel;7 porquanto os vossos olhos são os que viram todas as grandes obras que fez Iahweh.8 Guardai, pois, todos os mandamentos que hoje vos ordeno, para que sejais fortes, e entreis, e possuais a terra para onde vos dirigis;9 para que prolongueis os dias na terra que Iahweh, sob juramento, prometeu dar a vossos pais e à sua descendência, terra que mana leite e mel.10 Porque a terra que passais a possuir não é como a terra do Egito, donde saístes, em que semeáveis a vossa semente e, com o pé, a regáveis como a uma horta;11 mas a terra que passais a possuir é terra de montes e de vales; da chuva dos céus beberá as águas;12 terra de que cuida Iahweh, vosso Deus; os olhos de Iahweh, vosso Deus, estão sobre ela continuamente, desde o princípio até ao fim do ano" (Dt 11,2-12).

Torna-se indispensável, porém, nessa altura dos acontecimentos "circuncidar, pois, o vosso coração e não mais endurecer a vossa cerviz. Pois Iahweh, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Chefe dos Chefes, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno". A circuncisão é o sinal da Aliança, pelo qual o Israelita afirma a sua consagração e retidão moral, não se identificando aos procedimentos pagãos, obedecendo os Mandamentos e todas as disposições legais da referida Aliança, com isso exprimindo não mais ter "dura nuca". Assim, deverá abrir o seu coração, "circuncidando-o", e amar e servir a Iahweh com todas as suas forças, não apenas em uma atitude exterior de procedimento sem eco íntimo, mas, como se diria atualmente, numa identificação de corpo e alma, interiorizada em plenitude de comunhão, que se abre e se exprime no procedimento individual e comunitário:

"22 Porque, se diligentemente guardardes todos estes mandamentos que vos ordeno para os guardardes, amando Iahweh, vosso Deus, andando em todos os seus caminhos, e a ele vos achegardes,23 Iahweh desapossará todas estas nações, e possuireis nações maiores e mais poderosas do que vós.24 Todo lugar que pisar a planta do vosso pé, desde o deserto, desde o Líbano, desde o rio, o rio Eufrates, até ao mar ocidental, será vosso.25 Ninguém vos poderá resistir; Iahweh, vosso Deus, porá sobre toda terra que pisardes o vosso terror e o vosso temor, como já vos tem dito.26 Eis que, hoje, eu ponho diante de vós a bênção e a maldição:27 a bênção, quando cumprirdes os mandamentos de Iahweh, vosso Deus, que hoje vos ordeno;28 a maldição, se não cumprirdes os mandamentos de Iahweh, vosso Deus, mas vos desviardes do caminho que hoje vos ordeno, para seguirdes outros deuses que não conhecestes.29 Quando, porém, Iahweh, teu Deus, te introduzir na terra a que vais para possuí-la, então, pronunciarás a bênção sobre o monte Garizin e a maldição sobre o monte Ebal.30 Porventura, não estão eles além do Jordão, na direção do pôr-do-sol, na terra dos cananeus, que habitam na Arabá, defronte de Galgal, junto aos carvalhais de Moré?31 Pois ides passar o Jordão para entrardes e possuirdes a terra que vos dá Iahweh, vosso Deus; possuí-la-eis e nela habitareis.32 Tende, pois, cuidado em cumprir todos os estatutos e os juízos que eu, hoje, vos prescrevo." (Dt 11,22-32).

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