Quinta Parte
DEUTERENÔMIO
A Unificação de Israel

5.25. PRIMEIRO DISCURSO (Dt 1-4):

Consiste basicamente na tomada de consciência das origens e transformações históricas, em busca da unificação de Israel como o Povo de Iahweh, com todos os compromissos daí advindos, principalmente quanto às finalidades da Aliança. Por primeiro, é de se observar que os dois primeiros versículos com que se inicia o livro, à guisa de introdução, devem pertencer ao final do livro anterior. É que a situação geográfica descrita neles não é identificável com a mencionada nos versículos que os seguem, tratando-se de locais distintos como mostram os detalhes subscritos no gráfico demonstrativo, com o remanejamento e destaques feitos:

"São estas as palavras que Moisés falou a todo o Israel, dalém do Jordão, no deserto, na Arabá, defronte do mar de Suf, entre Faran, Tofel, Laban, Haserot e Di-Zaab. Jornada de onze dias há desde Horeb, pelo caminho da montanha de Seir, até Cades Barne. Sucedeu que, no ano quadragésimo, no primeiro dia do undécimo mês, falou Moisés aos filhos de Israel, segundo tudo o que Iahweh lhe mandara a respeito deles, depois que feriu a Seon, rei dos amorreus, que habitava em Hesebon, e a Og, rei de Basan, que habitava em Astarot, em Edrai. Além do Jordão, na terra de Moab, encarregou-se Moisés de explicar esta lei..." (Dt 1,1-5).

Dt 1,1-2

Dt 1,5

"São estas as palavras que Moisés falou a todo o Israel,

dalém do Jordão, no deserto, no Arabá, defronte do mar de Suf,

entre Faran, Tofel, Laban, Haserot e Di-Zaab. Jornada de onze dias há desde Horeb, pelo caminho da montanha de Seir, até Cades Barne."

["...encarregou-se Moisés de explicar esta lei

além do Jordão, na terra de Moab, ..."]

"Nota: acomodação da ordem do texto, aqui disposta, para melhor se compreender a diferença entre as localidades mencionadas. Deveria estar só no último quadro abaixo."

Sucedeu que, no ano quadragésimo, no primeiro dia do undécimo mês, falou Moisés aos filhos de Israel, segundo tudo o que Iahweh lhe mandara a respeito deles, depois que derrotou Seon, rei dos amorreus, que habitava em Hesebon, e Og, rei de Basan, que habitava em Astarot, em Edrai

 
 

Além do Jordão, na terra de Moab, encarregou-se Moisés de explicar esta lei..."

Entre a afirmação de que "...Moisés falou a todo o Israel, dalém do Jordão, no deserto, no Arabá, defronte do mar de Suf..." (Dt 1,1) e a de que "encarregou-se Moisés de explicar esta lei, além do Jordão, na terra de Moab" (Dt 1,5), nota-se que se referem a locais e à ocasiões diferentes. Então, "nas planícies de Moab" (cfr. Nm 26,2-4 c/ Dt 1,5), "... no quadragésimo ano ... depois que derrotou Seon, rei dos amorreus, que habitava em Hesebon, e Og, rei de Basan" (Dt 1,4), e após o flagelo de Baal-Fegor, passa Moisés à revisão histórica desde o Sinai, o Horeb, até as Conquistas da Transjordânia. Donde se entender que a Introdução real seria a partir do versículo cinco (Dt 1,5). Coerentemente com o que já dissera anteriormente (Nm 9,23), Moisés, preliminarmente, reafirma o comando da conquista por Iahweh, em busca de Canaã, a Terra Prometida aos Patriarcas, da qual se apossariam os Filhos de Israel, em cumprimento da Aliança:

"Iahweh nosso Deus, nos falou em Horeb, dizendo: Tempo bastante permanecerdes neste monte. Voltai-vos e parti; ide (...), entrai e possuí a terra que Iahweh, com juramento, deu a vossos pais, Abraão, Isaac e Jacó, a eles e à sua descendência depois deles" (Dt 1,6-8).

É de se notar a tônica tanto de exortação como de recapitulação deste primeiro discurso, que abrange algumas fases do passado, oferecendo novas informações, ou esclarecendo, ou exp2licando as instituições e legislação, desde as suas origens e objetivos. Dessa maneira, relata-se novamente a seleção de juízes auxiliares de Moisés (Dt 1,6.9-18), onde parecem existir algumas diferenças do relato anterior (Ex 18,5.13-27). Porém, dispondo-se as exposições feitas em colunas paralelas, fácil será notar a existência de conteúdos que se somam ao invés de contradições que se anulam:

Dt 1,6.9-18

Ex 18,5.13-27

Iahweh, nosso Deus,

nos falou

em Horeb, dizendo: Tempo bastante haveis estado neste monte.

Veio Jetro, sogro de Moisés, com os filhos

e a mulher deste,

a Moisés no deserto onde se achava acampado, junto ao monte de Elohim,

 

No dia seguinte, assentou-se Moisés para julgar o povo; e o povo estava em pé diante de Moisés desde a manhã até ao pôr-do-sol. Vendo, pois, o sogro de Moisés tudo o que ele fazia ao povo, disse: Que é isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até ao pôr-do-sol? Respondeu Moisés a seu sogro: É porque o povo me vem a mim para consultar a Elohim; quando tem alguma questão, (...) Não é bom o que fazes. Sem dúvida, desfalecerás, tanto tu como este povo que está contigo; pois isto é pesado demais para ti; tu só não o podes fazer. Ouve, pois, as minhas palavras; eu te aconselharei, e Elohim seja contigo; representa o povo perante Elohim, leva as suas causas a Elohim, ensina-lhes os estatutos e as leis e faze-lhes saber o caminho em que devem andar e a obra que devem fazer. Procura dentre o povo homens capazes, tementes a Elohim, homens de verdade, (...); para que julguem este povo em todo tempo. Toda causa grave trarão a ti, mas toda causa pequena eles mesmos julgarão; será assim mais fácil para ti, e eles levarão a carga contigo. Se isto fizeres, e assim Elohim to mandar, poderás, então, suportar; e assim também todo este povo tornará em paz ao seu lugar. Moisés atendeu às palavras de seu sogro e fez tudo quanto este lhe dissera.

Nesse mesmo tempo, eu vos disse: eu sozinho não poderei levar-vos. Iahweh, vosso Deus, vos tem multiplicado; e eis que, já hoje, sois multidão como as estrelas dos céus. Iahweh, Deus de vossos pais, vos faça mil vezes mais numerosos do que sois e vos abençoe, como vos prometeu. Como suportaria eu sozinho o vosso peso, a vossa carga e a vossa contenda? Tomai-vos homens sábios, inteligentes e experimentados, segundo as vossas tribos, para que os ponha por vossos cabeças.

 

Então, me respondestes e dissestes: É bom cumprir a palavra que tens falado.

 

Tomei, pois, os cabeças de vossas tribos, homens sábios e experimentados,

e os fiz cabeças sobre vós, chefes de milhares, chefes de cem, chefes de cinqüenta, chefes de dez e oficiais, segundo as vossas tribos.

Nesse mesmo tempo, ordenei a vossos juízes, dizendo: ouvi a causa entre vossos irmãos e julgai justamente entre o homem e seu irmão ou o estrangeiro que está com ele. Não sereis parciais no juízo, ouvireis tanto o pequeno como o grande; não temereis a face de ninguém, porque o juízo é de Deus;

Escolheu Moisés

homens capazes, de todo o Israel,

e os constituiu por cabeças sobre o povo: chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dez.

Estes julgaram o povo em todo tempo;

 

 

toda causa simples julgaram eles

porém a causa que vos for demasiadamente difícil fareis vir a mim, e eu a ouvirei.

E a causa grave

trouxeram a Moisés.

Assim, naquele tempo, vos ordenei todas as coisas que havíeis de fazer.

 
 

Então, se despediu Moisés de seu sogro, e este se foi para a sua terra.

Com facilidade observa-se que as duas narrativas se completam, apesar de tradições distintas, uma Deutoronomista e a outra Eloísta. É a mesma situação, em virtude de então se situarem na mesma região ["no deserto onde se achava acampado, junto ao monte de Elohim" (cfr.: 'montanha de Horeb' - Dt 1,6)] e na mesma oportunidade, em virtude do conselho de seu sogro, haver consultado a Deus (Ex 18,15) e submetido a questão à aprovação do povo ("Então, me respondestes e dissestes: É bom cumprir a palavra que tens falado"). Moisés impõe assim a instituição dos juízes à obediência dos Israelitas, tendo eles mesmos participado ativamente da sua organização, desde o Sinai, pertencendo então à estrutura tradicional do povo. Recapitula a instituição em virtude da imperiosa necessidade de paz social, que advém de boa administração da justiça, para cujo encargo escolhe "homens capazes" e idôneos, e "dentre os chefes das tribos", para a aceitação geral. Assim, vai ele rememorando e recapitulando a História Israelita, sedimentando e consubstanciando, cada vez mais, a unidade e o objetivo comum compromissados. Lembra várias vezes a Promessa aos ancestrais, de que "possuiriam a Terra de Canaã" (Gn 15,18) e "seriam em maior número que as estrelas do céu" (Gn 15,5; 22,17; 26,4 / Ex 32,13 / Dt 10,22; 28,62), como um compromisso de Iahweh. Já se vislumbram as condições para o cumprimento dela, e lançam-se as bases para a sua aquisição pela conquista. Passa a seguir a recapitular vários fatos já narrados anteriormente (Nm 13-14 / Nm 20,14-21,35 / Nm 27,12-23 / Nm 32), cujas diferenças poderão ser objeto do mesmo modo de análise, sedimentando-se as informações das diversas tradições ou narrativas, sem se anular qualquer uma delas. Porém, não se perca de vista, que o objetivo da recapitulação, também é a demonstração de que a demora em receber e possuir a Terra Prometida, se deve, principalmente, à sedição praticada quando da penetração dos batedores, a fim de inspecioná-la (Dt 1,19-45 / 2,7 / Nm 13-14), não sendo imputável a Iahweh.

Quando do estudo dos livros anteriores, muitas vezes se referiu a trechos de outros, e até mesmo deste em exame, pela mútua dependência e para melhor elucidar narrativas de outras tradições, vez ou outra em aparente contradição. Por exemplo, com referência a esse episódio da exploração da Terra de Canaã (Nm 13-14), já analisada anteriormente (Capítulo 5, n.º 5.9, "in fine"), foi então sugerida a leitura de todo o texto atual.

Assim, passam pacificamente através dos reinos de Edom e Moab, sempre ao comando absoluto e em obediência plena a Iahweh, que ordena e esclarece que não lhes dará nem as terras dos Filhos de Esaú (Gn 32,4 / Gn 36,6-8), nem as de Moab, tendo destinado Ar e Amon aos Filhos de Ló (Gn 13,5-12 / Gn 19,36-37):

"Depois, viramo-nos, e seguimos para o deserto, caminho do mar Vermelho como Iahweh me dissera, e muitos dias contornamos a montanha de Seir. E Iahweh me falou, dizendo: Tendes já contornado bastante esta montanha; ide para o norte. Ordena ao povo, dizendo: Passareis pelas fronteiras de vossos irmãos, os filhos de Esaú, que habitam em Seir; e eles terão medo de vós; portanto, guardai-vos bem. Não os ataqueis, porque vos não darei da sua terra nem ainda a pisada da planta de um pé; pois a Esaú dei a montanha de Seir. Comprareis deles, por dinheiro a comida para comer; também a água para beber, comprareis por dinheiro. Pois Iahweh, teu Deus, te abençoou em toda a obra das tuas mãos; ele sabe que andas por este grande deserto; estes quarenta anos Iahweh, teu Deus, esteve contigo; coisa nenhuma te faltou. Passamos, pois, flanqueando assim nossos irmãos, os filhos de Esaú, que habitavam em Seir (...) viramo-nos e seguimos o caminho do deserto de Moab. Então, Iahweh me disse: Não molestes Moab e não contendas com eles em peleja, porque te não darei possessão da sua terra; pois dei Ar em possessão aos filhos de Ló. (...) Levantai-vos, agora, e passai o ribeiro de Zared; assim, passamos o ribeiro de Zared. O tempo que caminhamos, desde Cades Barne até passarmos o ribeiro de Zared, foram trinta e oito anos, até que toda aquela geração dos homens de guerra se consumiu do meio do arraial, como Iahweh lhes jurara. Também foi contra eles a mão de Iahweh, para os destruir do meio do arraial, até os haver consumido. Sucedeu que, consumidos já todos os homens de guerra pela morte, do meio do povo, Iahweh me falou, dizendo: Hoje, passarás por Ar, pelos limites de Moab, e chegarás até defronte dos filhos de Amon; não os molestes e com eles não contendas, porque da terra dos filhos de Amon te não darei possessão, porquanto aos filhos de Ló a tenho dado por possessão" (Dt 2,1-19).

Várias diferenças de narrativa comparando-se com as anteriores (Nm 20-21), não devem ser objeto de dificuldades, tendo-se sempre em vista as observações já oferecidas a respeito dessas ocorrências. Além disso, Moisés tem em mira, recordar, a quem já conhecia o ocorrido, pelo que se dispensa de maiores detalhes, que, mantendo-se obedientes, serão sempre agraciados com a vitoria, tal como conquistaram os reinos de Hesebon e Basan (Dt 2,24-3,12a):

"Mas Seon, rei de Hesebon, não nos quis deixar passar por sua terra, porquanto Iahweh, teu Deus, endurecera o seu espírito e fizera obstinado o seu coração, para entregá-lo em tuas mãos, como hoje se vê. Disse-me, pois, Iahweh: Eis aqui, tenho começado a dar-te Seon e a sua terra; passa a desapossá-lo, para lhe ocupares o país. Então, Seon saiu-nos ao encontro, ele e todo o seu povo, à peleja em Jasa. E Iahweh, nosso Deus, no-lo entregou, e o derrotamos, a ele, e a seus filhos, e a todo o seu povo. Naquele tempo, tomamos todas as suas cidades e a cada uma destruímos com os seus homens, mulheres e crianças; não deixamos sobrevivente algum. Somente tomamos, por presa, o gado para nós e o despojo das cidades que tínhamos tomado. Desde Aroer, que está à borda do vale de Arnon, e a cidade que nele está, até Galaad, nenhuma cidade houve alta demais para nós; tudo isto Iahweh, nosso Deus, nos entregou. Somente à terra dos filhos de Amon não chegaste; nem a toda a borda do ribeiro de Jaboc, nem às cidades da região montanhosa, nem a lugar algum que nos proibira Iahweh, nosso Deus" (Dt 2,30-37).

"...Iahweh, teu Deus, endurecera o seu espírito e fizera obstinado o seu coração, para entregá-lo em tuas mãos, como hoje se vê. Disse-me, pois, Iahweh: Eis aqui, tenho começado a dar-te Seon e a sua terra; passa a desapossá-lo, para lhe ocupares o país. Então, Seon saiu-nos ao encontro, ele e todo o seu povo, à peleja em Jasa. E Iahweh, nosso Deus, no-lo entregou, e o derrotamos..." - Tal como já demonstrado quando comentado o "endurecimento do coração do Faraó por Iahweh" (cfr. Ex 4,21...), aqui cabem as mesmas observações, acrescidas do fato de que Deus não se opõe a nenhum ato livre do homem, até mesmo àquele ato, bom ou mal, que corresponda ou concorra para a consecução de seus desígnios. Também, o Israelita admitia que, caso Iahweh permitisse um ato humano, qualquer que fosse, tal ato assim praticado seria conforme a Sua Vontade Soberana, e teria sido praticado por Ele. Iahweh seria sempre a causa primeira de todo acontecimento. O "endurecimento do coração de Seon", pelo seu ato de ojeriza e repulsa a Israel, é então atribuído a Iahweh, como fonte de todo ato, não como causa predeterminante do mal, mas por força dessa conotação de que Deus é a fonte de todo o acontecimento, e sem a Vontade dEle nada acontece. Por isso a derrota sofrida soa como uma provocação de Iahweh, estimulando o rei à guerra para ser derrotado, eis que não se pode ir contra a Vontade de Deus, que queria a vitória dos Israelitas, e a obteve. Então, assim concluída essa conquista preliminar e a do reino de Og (Dt 3,1-12a / Nm 21,33-35), praticaram uma divisão antecipada aos rubenitas e gaditas (cfr. os comentários a Nm 32,1-42), das terras de então, às margens anteriores do Jordão (Dt 3,12b-17). Comprometem-se, como já exposto, em virtude de terem aquinhoado a sua cota antecipadamente, a prosseguirem em combate junto com as demais tribos, até a conquista definitiva e a distribuição da herança de cada qual, somente após podendo retornar aos seus lares.

Termina a alocução com a Missão que destina a Josué, como substituto de Moisés:

"Nesse mesmo tempo, vos ordenei, dizendo: Iahweh, vosso Deus, vos deu esta terra, para a possuirdes; passai, pois, armados, todos os homens valentes, adiante de vossos irmãos, os filhos de Israel. Tão-somente vossas mulheres, e vossas crianças, e vosso gado (porque sei que tendes muito gado) ficarão nas vossas cidades que já vos tenho dado, até que Iahweh dê descanso a vossos irmãos como a vós outros, para que eles também ocupem a terra que Iahweh, vosso Deus, lhes dá dalém do Jordão; então, voltareis cada qual à sua possessão que vos dei. Também, nesse tempo, dei ordem a Josué, dizendo: os teus olhos vêem tudo o que Iahweh, vosso Deus, tem feito a estes dois reis; assim fará Iahweh a todos os reinos a que tu passarás. Não os temais, porque Iahweh, vosso Deus, é o que peleja por vós" (Dt 3,18-22).

Finalmente, traz a decisão de Iahweh quanto a Moisés, também apresentando versão distinta das já narradas (cfr. Nm 20,12 / Nm 27,12-14), sem no entanto comprometer em nada a verdade dos fatos, pela diferença de objetivos da alocução então feita. Moisés, culpando os Israelitas, "...por vossa causa..." (v. tb. Dt 4,21-22), implora que permita sua penetração em Canaã, mas a decisão de Iahweh é irrevogável, pelo que se põe termo ao assunto, consolando-o apenas com uma visão de toda a Terra Prometida (Dt 34,1-4) e determina a transferência da Missão a Josué (cfr. os comentários a Nm 20,12 / Nm 27,15-23), que vai levá-la a termo, "cumpri-la", eis que "...ele passará adiante deste povo e o fará possuir a terra que tu apenas verás" (Dt 3,29):

"Também eu, nesse tempo, implorei o favor de Iahweh, dizendo: Ó Iahweh Deus! Passaste a mostrar ao teu servo a tua grandeza e a tua poderosa mão; porque que deus há, nos céus ou na terra, que possa fazer segundo as tuas obras, segundo os teus poderosos feitos? Rogo-te que me deixes passar, para que eu veja esta boa terra que está dalém do Jordão, esta boa região montanhosa e o Líbano. Porém Iahweh indignou-se muito contra mim, por vossa causa, e não me ouviu; antes, me disse: Basta! Não me fales mais nisto. Sobe ao cimo de Fasga, levanta os olhos para o ocidente, e para o norte, e para o sul, e para o oriente e contempla com os próprios olhos, porque não passarás este Jordão. Dá ordens a Josué, e anima-o, e fortalece-o; porque ele passará adiante deste povo e o fará possuir a terra que tu apenas verás. Assim, ficamos no vale defronte de Bet-Fegor" (Dt 3,24-29).

Termina esse discurso com uma enérgica exortação à observância fiel da Lei e Estatutos de Iahweh (Dt 4,1-43), dirigindo-lhes a palavra como àqueles que permaneceram fiéis a Iahweh, estando por isso "todos vivos", ao contrário dos que foram exterminados por causa da infidelidade praticada em Baal Fegor (Dt 4,3-4):

"Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes, para que vivais, e entreis, e possuais a terra que Iahweh, Deus de vossos pais, vos dá. Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos de Iahweh, vosso Deus, que eu vos mando. Os vossos olhos viram o que Iahweh fez por causa de Baal-Fegor; pois a todo homem que seguiu a Baal-Fegor Iahweh, vosso Deus, exterminou do vosso meio. Porém vós que permanecestes fiéis a Iahweh, vosso Deus, todos, hoje, estais vivos. Eis que vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou Iahweh, meu Deus, para que assim façais no meio da terra que passais a possuir. Guardai-os, pois, e cumpri-os, porque isto será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos estes estatutos, dirão: Certamente, este grande povo é gente sábia e inteligente" (Dt 4,1-6).

"Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino (...) Eis que vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou Iahweh, meu Deus, para que assim façais no meio da terra que passais a possuir. Guardai-os, pois, e cumpri-os..." Pela expressão "estatutos e juízos" compreender-se-á em escala sempre crescente e dinâmica, toda a lei e doutrina então emergentes, de solidez definitiva e impondo-se com a autoridade suprema de ter sido emanada do próprio Deus, para o pleno "cumprimento" de sua finalidade. "Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos de Iahweh, vosso Deus, que eu vos mando" - essa condição básica vai se impor aos Israelitas com tal rigor, que no futuro irá se desaguar no Judaísmo, fiel a esse princípio de fidelidade à Lei. Então, com fundamento em ambas atitudes de fidelidade, de Iahweh de um lado amparando-os e propiciando-lhes as vitórias sucessivas e, de outro, dos Israelitas, mantendo-se fiéis em todas as circunstâncias, aponta-lhes a glória futura da conquista ensejada. Deverão se lembrar sempre do flagelo de Baal-Fegor (cfr. comentários feitos a propósito quanto a Nm 25,1-18), pelo contraste entre a fidelidade e a infidelidade, estando vivos apenas os que permaneceram fiéis a Iahweh (Dt 4,3-4). Pela sabedoria das normas, de origem divina, seriam sempre admirados e respeitados por outros povos, - "...será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos estes estatutos, dirão: - Certamente, este grande povo é gente sábia e inteligente", impondo-se então aos povos, a justiça de Deus.

A origem divina da lei dos Israelitas e sua vida em íntima comunhão com Iahweh, bem como a corrupção moral e as superstições pagãs, que caracterizavam as diferenças mais destacáveis, seriam os pontos básicos, pelos quais suas normas impor-se-iam aos povos. Além disso, não se pode deixar de destacar alguns dos atributos de Deus que são apresentados no decorrer da narrativa, a começar com o atendimento íntimo de Iahweh "todas as vezes que o invocamos". As respostas à invocação deverão ser sempre lembradas com profundo sentimento do coração, de amor verdadeiro e "em todos os dias de tua vida e as farás saber a teus filhos e netos...’, aprendendo a temer a Iahweh "todos os dias que na terra viver e ensinará as minhas palavras a seus filhos", isto é, por toda a sua geração, para sempre. Com isso se manifesta a eternidade tanto de Iahweh como a da Aliança contraída, do que darão pleno e cabal testemunho, tanto por palavras como por comportamento, da justiça da Lei de Israel. Essa Lei será para sempre revigorada na conduta moral Israelita, em contraste com a Lei pagã sempre se pervertendo pela corrupção e pela imoralidade:

"Pois que grande nação há que tenha deuses tão chegados a si como Iahweh, nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? E que grande nação há que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que eu hoje vos proponho? Tão-somente guarda-te a ti mesmo e guarda bem a tua alma, que te não esqueças daquelas coisas que os teus olhos têm visto, e se não apartem do teu coração todos os dias da tua vida, e as farás saber a teus filhos e aos netos. Não te esqueças do dia em que estiveste perante Iahweh, teu Deus, em Horeb, quando Iahweh me disse: Reúne este povo, e os farei ouvir as minhas palavras, a fim de que aprenda a temer-me todos os dias que na terra viver e as ensinará a seus filhos" (Dt 4,7-10).

Recorda Moisés as bases em que se estruturou toda a Aliança, trazendo-lhes à mente o modo impressionante, terrível e transcendente, e do que participaram ativamente e são todos testemunhas oculares, da promulgação dos Dez Mandamentos e a transmissão por seu intermédio da denominada Lei da Aliança:

"Então vós vos chegastes, e vos pusestes ao pé do monte; e o monte ardia em fogo até o meio do céu, e havia trevas, e nuvens e escuridão. E Iahweh vos falou do meio do fogo; ouvistes o som de palavras, mas não vistes forma alguma; tão-somente ouvistes uma voz. Então ele vos anunciou a sua aliança, a qual vos ordenou que observásseis, isto é, os dez mandamentos; e os escreveu em duas tábuas de pedra. Também Iahweh me ordenou ao mesmo tempo que vos ensinasse estatutos e preceitos, para que os cumprísseis na terra a que estais passando para a possuirdes" (Dt 4,11-14).

A transcendência de Iahweh é relembrada, a fim de melhor se combaterem os ídolos pagãos, cuja influência poderia contagiar e desviar o Israelita de sua Missão, de sua vida em comunhão com o seu Deus e da fidelidade à Aliança. Toda a virtude Israelita seria revelada aos demais povos pela identificação da conduta de cada um com a vontade divina, escrita pelo próprio Iahweh, indelevelmente, "em duas tábuas de pedra". Além disso, a lembrança da teofania do Monte Sinai, que "...ardia em fogo até o meio do céu, e havia trevas, e nuvens e escuridão...", teve em mira impedir que se deixasse influenciar pela suntuosidade da adoração das imagens de esculturas, cultivada pelos outros povos, com enorme perversidade e corrupção moral, tais como a prostituição sagrada de ambos os sexos e os sacrifícios humanos, praticados à guisa de oferendas aos deuses pagãos. Em tudo deveria se distinguir, tanto na conduta e comportamento morais, como na adoração, não se "inclinando perante os ídolos, principalmente os astros, "...prestando culto a essas coisas que Iahweh vosso Deus repartiu a todos os povos debaixo de todo o céu...". O Sol, a Lua e as estrelas, das quais, Vênus, muito impressionaram os povos antigos, grassando, em virtude disso, a adoração sistemática deles: o Sol, como a fonte por excelência da luz, do calor e da fertilidade, dos ciclos inexoráveis das variações climáticas e das estações do ano; a Lua com as suas variações sistemáticas influindo nas plantações, dias, meses e anos, e participando de vários eventos; e, a aurora boreal bem como o crepúsculo, coincidindo com o brilho de Vênus, dentre vários outros fenômenos naturais. Por causa disso não os concebiam inanimados, mas dotados de vida e energia próprias, fontes da existência dos vários seres, cuja ação se faz sentir na natureza e nos entes dotados de vida, sofrendo estes a sua ação independentemente das forças naturais que lhes são peculiares, motivos pelos quais eram adorados como deuses. Daí esse novo perigo para os Israelitas, a adoração dos astros, como outros povos praticavam, com todas as perversões daí decorrentes, em sério perigo para a Lei da Aliança e ferindo aquelas mesmas perspectivas consubstanciadas no Decálogo (cfr. os comentários a Ex 20,3), o que confirma também a identidade de doutrina apesar das várias tradições:

Guardai, pois, com diligência as vossas almas, porque não vistes forma alguma no dia em que Iahweh vosso Deus, em Horeb, falou convosco do meio do fogo; para que não vos corrompais, fazendo para vós alguma imagem esculpida, na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou de mulher; ou semelhança de qualquer animal que há na terra, ou de qualquer ave que voa pelo céu; ou semelhança de qualquer animal que sobre a terra, ou de qualquer peixe que há nas águas debaixo da terra; e para que não suceda que, levantando os olhos para o céu, e vendo o sol, a lua e as estrelas, todo esse exército do céu, sejais levados a vos inclinardes perante eles, prestando culto a essas coisas que Iahweh vosso Deus repartiu a todos os povos debaixo de todo o céu. Mas Iahweh vos tomou, e vos tirou da fornalha de ferro do Egito, a fim de lhe serdes um povo de sua herança, como hoje o sois. (...) Guardai-vos de que vos esqueçais da aliança de Iahweh vosso Deus, que ele fez convosco, e não façais para vós nenhuma imagem esculpida, semelhança de alguma coisa que Iahweh vosso Deus vos proibiu. Porque Iahweh vosso Deus é um fogo consumidor, um Deus ciumento" (Dt 4,15-24).

"...prestam culto a essas coisas que Iahweh vosso Deus repartiu a todos os povos debaixo de todo o céu..." - ao que se verifica dessas palavras, a concepção Israelita dos astros diferenciava por demais da dos outros povos, já desde a criação considerando-os "criados" por Deus com finalidades específicas, chegando a incluí-los como membros do "exército do céu":

"Disse Elohim: haja luz. E houve luz. Viu Elohim que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. E Elohim chamou à luz dia, e às trevas noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro" (Gn 1,3-5).

"E disse Elohim: haja luminares no firmamento do céu, para fazerem separação entre o dia e a noite; sejam eles para sinais e para estações, e para dias e anos; e sirvam de luminares no firmamento do céu, para alumiar a terra. E assim foi. Elohim, pois, fez os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; fez também as estrelas. E Elohim os pôs no firmamento do céu para alumiar a terra, para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas. E viu Elohim que isso era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia quarto" (Gn 1,14-19).

"Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército" (Gn 2,1).

A transcrição desses trechos da Criação, ditos Eloístas, comprova uns fatos notáveis:

    • - de um lado, a noção Israelita de que os astros em geral são "coisas", isto é, seres inanimados; e,
    • - por outro lado, por outro lado, a unidade ideológica das várias tradições Israelitas, formadas em torno do nome com o qual invocavam a Deus. Há, ainda, a identidade em todas as tradições do conceito dos astros, tendo eles a mesma conotação e dimensão de "coisa".
    • - Também, e além disso, em ambos os trechos e tradições, exprime-se a soberania de Iahweh, ou Elohim, como o "Deus dos Deuses", "o Deus que criou os falsos deuses dos outros povos", tal como se revelou:

"Pois Iahweh, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível..." (Dt 10,17).

A justiça da Lei da Aliança é então significativamente manifestada pelos próprios Israelitas com a conduta e comportamento, como parte integrante da Missão deles, em virtude da qual "destruiriam os cepos e altares dos ídolos", não só pelos interditos e pela conquista. Também e mais ainda os destruiriam pela conversão dos pagãos, que se daria em virtude do exemplo e testemunho de vida santificada, advinda pelo cumprimento da Lei. Não deixa de ser uma pedagogia de Deus, buscando guiar o Homem ao Éden, tal como no "princípio", para a Vida em Graça. Pedagogia de Deus que se manifesta, de maneira incipiente e rude, na religiosidade natural do Homem, expressa pela adoração supersticiosa de "coisas", dos astros e de outros seres. Acontece, porém, com a dificuldade e resistência em aceitar os vários atributos de Deus e se reconhecer servo, repetindo em sua ação o mesmo ato de Adão, tal como São Paulo aponta, com os desvios advindos e com todas as conseqüências imorais decorrentes:

"Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pela concupiscência de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém! Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza; semelhantemente, os homens também, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro. E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia" (Rm 1,20-31).

Por outro lado, Deus permite aos pagãos a adoração dos astros em virtude de sua soberania até mesmo sobre os "deuses pagãos", que não são deuses, na mesma conotação do que se disse antes, ao se comentar o endurecimento do coração do Faraó e do Rei Seon (Dt 2,30), não se opondo aos atos humanos que contribuem para a realização de seus desígnios. Por isso, diz Moisés que "...prestam culto a essas coisas que Iahweh vosso Deus repartiu a todos os povos debaixo de todo o céu...", fazendo isso pedagogicamente para conduzi-los, pela religiosidade natural inerente ao ser humano, um dia à conversão do coração, exprimindo assim a soberania do Deus de Israel, "o "Deus dos Deuses", isto é, o "Deus que criou os deuses pagãos", "permitindo-lhes a sua adoração". É até aceitável dizer-se que o hagiógrafo destacou bem a criação por Elohim da luz, do sol, da lua e dos demais astros, para dizer aos demais povos que os seus deuses foram "criados pelo Deus dos Deuses, Iahweh, o seu Deus".

Deus não usa de meios distintos entre a revelação das verdades religiosas e a das verdades profanas, qual seja, aquelas verdades da ciência. Assim, da mesma maneira que, através da superstição, levou o homem ao conhecimento científico, da alquimia à química, do curandeirismo à medicina, da divisão de terras na Grécia Antiga à Geometria, através da feitiçaria e das superstições das mais variadas espécies levou o homem pedagogicamente ao conhecimento das verdades eternas. São Paulo demonstra esta atividade do Espírito ao atribuir à Lei a qualidade pedagógica:

"Mas, antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei e nela encerrados, para essa fé que, de futuro, haveria de revelar-se. De maneira que a lei nos serviu de pedagogo para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé. Mas, tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao pedagogo. Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus..." (Gl 3,23-27).

Consoante tal assertiva paulina o Catecismo da Igreja Católica também se refere à pedagogia de Deus pelas teofanias:

"707 - As teofanias (manifestações de Deus) iluminam o caminho da promessa, dos Patriarcas a Moisés e de Josué até às visões que inauguram a missão dos grandes profetas. A Tradição cristã sempre reconheceu que, nestas teofanias, o Verbo de Deus. Se deixava ver e ouvir, ao mesmo tempo revelado e "velado" na nuvem do Espírito Santo.

708 - Esta pedagogia de Deus manifesta-se especialmente no dom da Lei (cfr. Ex 19-20; Dt 1-11; 29-30). A letra da Lei foi dada como um "pedagogo" para conduzir o povo a Cristo (Gl 3,24). Mas a sua impotência para salvar o homem, privado da "semelhança" divina e o conhecimento que ela dá do pecado (cfr. Rm 3,20), suscitam o desejo do Espírito Santo. Os gemidos dos Salmos são disso testemunho."

Moisés, não podendo entrar com o seu povo na Terra da Promessa, alerta-o quanto ao perigo da idolatria, para não se romper a Aliança adorando-se outros deuses, provocando o afastamento de Iahweh:

"Guardai-vos de que vos esqueçais da aliança de Iahweh vosso Deus, que ele fez convosco, e não façais para vós nenhuma imagem esculpida, semelhança de alguma coisa que Iahweh vosso Deus vos proibiu. Porque Iahweh vosso Deus é um fogo consumidor, um Deus ciumento" (Dt 4,23-24).

"...Porque Iahweh vosso Deus é um fogo devorador, um Deus ciumento" (Dt 4,24) - este "ciúme de Deus" sempre manifestar-se-á quando for emparelhado ou substituído pelos deuses falsos, com a prática da idolatria:

"... abandonou a Elohim, que o fez, desprezou a Rocha da sua salvação. Com deuses estranhos o provocaram a ciúmes, com abominações o irritaram. Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; a deuses que não conheceram, novos deuses que vieram há pouco, dos quais não se estremeceram seus pais. Olvidaste a Rocha que te gerou; e te esqueceste do Deus que te deu o ser. Viu isto Iahweh e os desprezou, por causa da provocação de seus filhos e suas filhas; e disse: Esconderei deles o rosto, verei qual será o seu fim; porque são raça de perversidade, filhos em quem não há lealdade. A ciúmes me provocaram com aquilo que não é deus; com seus ídolos me provocaram à ira; portanto, eu os provocarei a ciúmes com aquele que não é povo; com louca nação os despertarei à ira" (Dt 32,15-21).

"Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou Iahweh, teu Deus, Deus ciumento, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos" (Ex 20,3-6).

Essa proibição de imagens, bem como a destruição contumaz das existentes na Terra Prometida, para a adoração idólatra encontra eco em outra tradição a que se denominou Sacerdotal, comprovando-se assim a sedimentação de todas aqui em Deuteronômio, consubstanciando então expressamente a unidade doutrinária das tribos:

"Não vos virareis para os ídolos, nem vos fareis deuses de fundição. Eu sou Iahweh, vosso Deus" (Lv 19,4)

" Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando houverdes passado o Jordão para a terra de Canaã, desapossareis de diante de vós todos os moradores da terra, destruireis todas as pedras com figura e também todas as suas imagens fundidas e deitareis abaixo todos os seus ídolos..." (Nm 33,51-52).

A religião de um povo acarretava a entrega da região, onde se estabelecia, ao domínio de seu deus, único responsável pelo bem estar geral, pela fertilidade das colheitas, pela paz etc.. Não havia povo sem um deus seu. Dessa maneira impunha-se a necessidade de se destruir toda imagem representativa de deuses pagãos, que existissem na Terra de Iahweh, a Terra dos Filhos de Israel, fato cultural retratado em outro local da Escritura Sagrada:

"Pelo que disse Noemi: Eis que tua concunhada voltou para o seu povo e para os seus deuses; volta também tu após a tua concunhada. Respondeu, porém, Rute: Não insistas a que te abandone e deixe de seguir-te. Porque aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que seja a tua moradia, ali será a minha; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus" (Rt 1,15-16).

Por causa dessa territoriedade exclusiva e privada de Iahweh, inexistindo ainda nenhum povo que O adorasse, escolheu Israel para essa Missão (Dt 14,2), a que deveriam manter-se fiéis sob pena de severas conseqüências:

"...prestando culto a essas coisas que Iahweh vosso Deus repartiu a todos os povos debaixo de todo o céu. Mas Iahweh vos tomou, e vos tirou da fornalha de ferro do Egito, a fim de serdes o povo de sua herança, como hoje o sois. (...) Guardai-vos de que vos esqueçais da aliança de Iahweh vosso Deus, que ele fez convosco, e não façais para vós nenhuma imagem esculpida, semelhança de alguma coisa que Iahweh vosso Deus vos proibiu. Porque Iahweh vosso Deus é um fogo devorador, um Deus ciumento. Quando, pois, tiverdes filhos e netos, e envelhecerdes na terra, e vos corromperdes, fazendo alguma imagem esculpida, semelhança de alguma coisa, e praticando o que é mau aos olhos de Iahweh vosso Deus, para provocar-lhe a ira, - eu hoje tomo por testemunhas contra vós o céu e a terra, - bem cedo sereis exterminados da terra que, atravessado o Jordão, ides possuir. Não prolongareis os vossos dias nela, antes sereis de todo destruídos" (Dt 4,19c-26).

"Iahweh se indignou contra mim por vossa causa, e jurou que eu não passaria o Jordão, e que não entraria na boa terra que Iahweh vosso Deus vos dá por herança; mas eu tenho de morrer nesta terra; não poderei passar o Jordão; porém vós o passareis, e possuireis essa boa terra" - apesar da análise já feita anteriormente quanto a essa "punição" a Moisés e Aarão, aqui mais transparece a possibilidade de que o motivo real que a teria causado não parece ter sido amplamente narrado. Parece que, alguma coisa aconteceu mais grave, a ponto de Moisés responsabilizá-los melancolicamente ("...por vossa causa...") pela entrada deles, seus irmãos, na Terra Prometida, sem ele e Aarão (Nm 20,12 / Dt 1,37), que os guiaram até ali. Assim como nem ele foi poupado, qualquer idolatria seria revidada inexoravelmente, é o que exemplifica. Não se poderia contaminar o solo sagrado onde só Iahweh poderia ser adorado, e como castigo, fora dela seriam servos de outros deuses. Adorariam e serviriam, em lugar do Deus Vivo, a deuses pagãos, sem vida, ídolos, consoante a regra de que mudando-se de país, muda-se o deus que se adora e se passa a servi-lo:

"E Iahweh vos espalhará entre os povos, e ficareis poucos em número entre as nações para as quais Iahweh vos conduzirá. Lá servireis a deuses que são obra de mãos de homens, madeira e pedra, que não vêem, nem ouvem, nem comem, nem cheiram" (Dt 4,27-28).

Porém, Iahweh é fiel (Rm 3,4) e, ao menor sinal de arrependimento e desejo de retorno, conforme a Teologia do Resto (cfr. Is 1,9; 4,3), - denominação reservada ao avivamento da fé pelo fervor dos poucos que "restam", isto é, se mantêm fiéis durante as perseguições, - Iahweh "...não te desamparará, nem te destruirá, nem se esquecerá da aliança que jurou a teus pais...", se "...o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma...", isto é, com toda a força de teu espírito, de tua inteligência e de todo o ardor de teus sentimentos e de teus desejos.

Maior medo tem Moisés da influência nefasta dos astros, principalmente o Sol, a Lua e as Estrelas, conforme já demonstrado. Mas, não se há de esquecer que os egípcios adoravam como deuses, o sol e a lua, de que os Israelitas deviam se lembrar, além da vasta idolatria de todos os povos de que tinham conhecimento. Daí por que a possibilidade de um retorno a essa adoração poderia se manifestar, dadas as condições adversas da vida que os Israelitas poderiam suportar no início da colonização da terra conquistada e a influência pagã, já vivendo no local de há muito. Donde a necessidade da exaltação dos atributos de Iahweh, "o único Deus real, que não se podia confundir com os ídolos feitos por mãos humanas, a cuja adoração seriam destituídos os Israelitas, que idolatrassem, retrocedendo da adoração de um deus verdadeiro para a adoração de deuses de barro ou madeira":

"Mas de lá buscarás a Iahweh teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma. Quando estiveres em angústia, e todas estas coisas te alcançarem, então nos últimos dias voltarás para Iahweh teu Deus, e ouvirás a sua voz; porquanto Iahweh teu Deus é Deus misericordioso, e não te desamparará, nem te destruirá, nem se esquecerá da aliança que jurou a teus pais. Agora, pois, pergunta aos tempos passados que te precederam desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra, desde uma extremidade do céu até a outra, se aconteceu jamais coisa tão grande como esta, ou se jamais se ouviu coisa semelhante? Ou se algum povo ouviu a voz de Deus falar do meio do fogo, como tu a ouviste, e ainda ficou vivo? Ou se Deus intentou ir tomar para si uma nação do meio de outra nação, por meio de provas, de sinais, de maravilhas, de peleja, de mão poderosa, de braço estendido, bem como de grandes espantos, segundo tudo quanto fez a teu favor Iahweh teu Deus, no Egito, diante dos teus olhos? A ti te foi mostrado para que soubesses que Iahweh Senhor é Deus; nenhum outro há senão ele. Do céu te fez ouvir a sua voz, para te instruir, e sobre a terra te mostrou o seu grande fogo, do meio do qual ouviste as suas palavras. E, porquanto amou a teus pais, não somente escolheu a sua descendência depois deles, mas também te tirou do Egito por meio de sua presença e de sua grande força; para desapossar de diante de ti nações maiores e mais poderosas do que tu, para te introduzir na sua terra e dá-la a ti por herança, como hoje se vê. Pelo que hoje deves saber e considerar no teu coração que só Iahweh é Deus, em cima no céu e embaixo na terra; não há nenhum outro. E guardarás os seus estatutos e os seus mandamentos, que eu te ordeno hoje, para que te vá bem a ti, e a teus filhos depois de ti, e para que prolongues os dias na terra que o Senhor teu Deus te dá, para todo o sempre" (Dt 4,29-40).

Essa unicidade de Iahweh é por várias vezes repetida, soando como um refrão, qual seja, a partir da ausência de forma visível, ou semelhança com qualquer coisa, homem, matéria, astro ou animal, Iahweh é o único e inconfundível Deus, um Deus fiel à Aliança, um Deus que ama, um Deus que se ouve falar, de quem se ouve a voz, um Deus que manifesta o seu poder livrando o seu povo (Dt 14,2) "da terra do Egito, da casa da servidão" (Ex 20,2 / Dt 5,6), conduzindo-o à terra que prometeu aos seus pais:

  • - Iahweh é inconfundível, é o Criador do Sol, da Lua e dos Astros, coisas que destinou à adoração dos demais povos: - "(19) Para que não suceda que, levantando os olhos para o céu, e vendo o sol, a lua e as estrelas, todo esse exército do céu, sejais levados a vos inclinardes perante eles, prestando culto a essas coisas que Iahweh vosso Deus repartiu a todos os povos debaixo de todo o céu".
  •  
  • - Só Iahweh é Deus, os demais não o são, são obra humana, falsos deuses: - "(35) A ti te foi mostrado para que soubesses que Iahweh é Deus; nenhum outro há senão ele".
  •  
  • - Iahweh é o único Deus, não há outro, não existe outro deus a quem se pode adorar: - "(39) Pelo que hoje deves saber e considerar no teu coração que só Iahweh é Deus, em cima no céu e embaixo na terra; não há nenhum outro" (os números entre parêntesis são os dos versículos - Dt 4,19 / 4,35 / 4,39).

Por causa disso, "guardarás os seus estatutos e os seus mandamentos, que eu te ordeno hoje, para que te vá bem a ti, e a teus netos, e para que prolongues os dias na terra que o Senhor teu Deus te dá, para todo o sempre", cumprindo fielmente o compromisso delineado na Aliança, a partir do Decálogo e as Leis da Aliança. Fundamenta tudo isso o fato de que "porquanto amou a teus pais, não somente escolheu a descendência deles, mas também tirou-a do Egito, desapossando de diante de ti várias nações, para te introduzir na sua terra e dá-la a ti por herança, como hoje se concretiza" - qual seja, tudo foi feito pelo amor de Deus ao povo de sua eleição:

"Entretanto Iahweh se afeiçoou a teus pais para os amar; e escolheu a sua descendência deles, isto é, a vós, dentre todos os povos, como hoje se vê" (Dt 10,15).

Concluída essa exortação à fidelidade a Iahweh, passa Moisés a abordar um tema de grande valor para a paz social, a instituição das cidades refúgio, como instrumento de combate ao crime e à vingança individual (Dt 4,41-43 / Nm 35,9-34 / Dt 19,1-13). Termina a narrativa com uma breve conclusão, que mais se parece com uma introdução ao Segundo Discurso, assim apresentada em muitas Escrituras. Cabe notar, porém, que o local da alocução se identifica ao descrito ao inicio (Dt 1,5), comprometendo essa possibilidade:

Dt 1,3-5

Dt 4,44-49

Sucedeu que, no ano quadragésimo, no primeiro dia do undécimo mês, falou Moisés aos filhos de Israel, segundo tudo o que Iahweh lhe mandara a respeito deles,

"Esta é a lei que Moisés propôs aos filhos de Israel; estes são os testemunhos, os estatutos e os preceitos que Moisés falou aos filhos de Israel,

depois que feriu a Seon,

rei dos amorreus,

que habitava em Hesebon,

depois que saíram do Egito, (...) na terra de Seon, rei dos amorreus,

que habitava em Hesebon, a quem Moisés

e os filhos de Israel derrotaram,

depois que saíram do Egito; (...),

e a Og, rei de Basan,

que habitava em Astarot,

em Edrai.

também a terra de Og, rei de Basan,

sendo esses os dois

reis dos amorreus,

Além do Jordão, na terra de Moab, encarregou-se Moisés de explicar esta lei..."

que estavam além do Jordão, para o nascente..."

Há também aquele sistema, algumas vezes usado nas Escrituras Sagradas, de se colocar uma expressão como título, reproduzindo-a, parcial ou totalmente, na conclusão, como se tratasse de uma moldura, em torno do teor da narrativa. Nessas condições o trecho anterior (Dt 1,3-5) seria o título e o posterior (Dt 4,44-49), seria a conclusão, o término do assunto. Mesmo que assim não seja, não altera em nada o desenvolvimento do estudo de qualquer uma das maneiras apresentadas, seja considerando-se o trecho uma introdução ou uma conclusão, dispensando-se por isso maiores indagações. Além disso, o início do trecho seguinte (Dt 5,1), tem todas as condições suficientes para ser a introdução do segundo discurso, pela sua redação conforme uma expressão sistemática e peculiar ao Deuteronômio, que antecede algumas das várias exortações que faz:, começando com a frase - "...ouve Israel..." - (cfr. p. ex. Dt 5,1b; 4,1b; 9,1)].

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