NÚMEROS
Terceira Parte
Nas margens orientais do Jordão

5.20  LEIS SOBRE OS VOTOS OU PROMESSAS

E, ao confluir tudo, o narrador insere a norma vigente quanto aos votos ou promessas e oferendas voluntárias, independentes que são das classificadas e obrigatórias, umas não excluindo as outras, eis que não se confundem, nem se permutam, nem se substituem, tal como já se prescrevera anteriormente (Lv 23,37-38):

"Oferecereis essas coisas a Iahweh nas vossas festas fixas, além dos vossos votos, e das vossas oferendas voluntárias, tanto para os vossos holocaustos, como para as vossas oblações, as vossas libações e os vossos sacrifícios de oferendas pacíficas. Falou, pois, Moisés aos filhos de Israel, conforme tudo o que Iahweh lhe ordenara" (Nm 29,39-40).

Tema final de um capítulo e inicial de outro (Nm 29,39-30,3), após tratar dos votos e a maneira do resgate (Lv 27) e do voto do nazireato (Nm 6), volta com novas disposições. Tudo indica ter sido necessário em virtude de abusos ou omissões que tenham ocorrido, exigindo providências restritivas que os coibissem e normas que os regularizassem. Busca-se legislar, no tocante à validade quanto às pessoas que os pronunciam, sejam homens ou mulheres, casados ou solteiros, e não quanto aos votos em si mesmos considerados. A promessa obriga independentemente de quaisquer condições em que foi proferida, até mesmo em virtude da força da palavra pronunciada, de vida independente, uma vez "saída dos lábios" (Lv 5,4; Nm 32,24; Dt 23,22-24; Jz 11,35; Sl 66/65,13-14; Jr 44,17):

"Moisés falou aos filhos de Israel tudo o que Iahweh lhe havia ordenado. Depois disse Moisés aos cabeças das tribos dos filhos de Israel: Isto é o que Iahweh ordenou: Quando um homem fizer promessa ("voto") a Iahweh, ou jurar, ligando-se com obrigação, não violará a sua palavra; conforme o que sair da sua boca fará" (Nm 30,1-3).

No caso do voto feminino, vivendo a mulher ainda em casa do pai, a ele subalterna, deverá ser por ele ratificada, seja pelo seu silêncio, seja por um assentimento formal, em virtude dos efeitos que o possam atingir. Da mesma forma, casando-se ela, em qualquer dos casos, deverá submeter seu voto à aprovação do marido, tal e qual a forma do pai (Nm 30,3-16). Viúva ou divorciada terá a mesma liberdade de um homem (Nm 30,10):

"Esses são os estatutos que Iahweh ordenou a Moisés, entre o marido e sua mulher, entre o pai e sua filha, na sua juventude, em casa de seu pai" (Nm 30,17).

A mulher, enquanto dependente do seu marido, ficaria este responsável, perante Iahweh, até mesmo daqueles votos que "ela tiver feito para afligir a alma", em jejuns e penitências. Mas, "levará sobre si a iniqüidade dela", pelo não cumprimento em virtude de eventual e injusta oposição dele. Vê-se assim que: não há exceção nenhuma nem mesmo no caso das viúvas (Nm 30,10.17), devendo ser cumprido todo e qualquer voto que se fizer:

"No tocante ao voto de uma mulher, viúva ou repudiada, tudo com que se obrigar ser-lhe-á válido. Se ela, porém, fez voto na casa de seu marido, ou se obrigou com juramento, e seu marido o soube e se calou para com ela, não lho vedando, todos os seus votos serão válidos; e toda a obrigação com que se ligou será válida. Se, porém, seu marido de todo lhos anulou no dia em que os soube, deixará de ser válido tudo quanto saiu dos lábios dela, quer no tocante aos seus votos, quer no tocante àquilo a que se obrigou; seu marido lhos anulou; e Iahweh lhe perdoará. Todo voto, e todo juramento de obrigação, que ela tiver feito para afligir a alma, seu marido pode confirmá-lo, ou pode anulá-lo. Se, porém, seu marido, de dia em dia, se calar inteiramente para com ela, confirma todos os votos e todas as obrigações que estiverem sobre ela; ele lhos confirmou, porquanto se calou para com ela no dia em que os soube. Mas se de todo lhos anular depois de os ter sabido, ele levará sobre si a iniqüidade dela" (Nm 30,10-16).

Os abusos com os votos atingirão tal dimensão que Jesus os condenará energicamente, apesar da denominação de "tradição dos anciãos" que lhes deram:

"Foram ter com Jesus os fariseus, e alguns dos escribas vindos de Jerusalém, e repararam que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar. Pois os fariseus, e todos os judeus, guardando a tradição dos anciãos, não comem sem lavar as mãos cuidadosamente; e quando voltam do mercado, se não se purificarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como a lavagem de copos, de jarros e de vasos de bronze. Perguntaram-lhe, pois, os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos anciãos, mas comem o pão com as mãos por lavar? Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim; mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Vós deixais o mandamento de Deus, e vos apegais à tradição dos homens. Disse-lhes ainda: Bem sabeis rejeitar o mandamento de Deus, para guardardes a vossa tradição. Pois Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pai ou à mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corban, isto é, oferta ao Senhor, não mais lhe permitis fazer coisa alguma por seu pai ou por sua mãe, invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição que vós transmitistes; também muitas outras coisas semelhantes fazeis" (Mc 7,1-13).

À obrigação advinda do Mandamento de Deus de honrar pai e mãe, deles cuidar quando necessitassem, os fariseus e escribas contrapunham o cumprimento de um voto feito com os valores a isso destinados, fazendo com que se descuidassem do cumprimento da Lei de Deus, não atendendo os pais em suas necessidades.

 

4.ª PARTE: - DA GUERRA SANTA

Ao final da história de Balaão, Iahweh ordenara a chacina de Madiã, como vingança e castigo, pelo flagelo de Baal-Fegor:

"Disse mais Iahweh a Moisés: Atacai os madianitas e feri-os; porque eles vos afligiram com as suas armadilhas com que vos enganaram no caso de Fegor, e no caso de Cozbi, sua irmã, filha de um príncipe de Madiã, a que foi morta no dia do flagelo que sobreveio por causa de Fegor" (Nm 25,16-18).

Nada há que esclareça suficientemente o desastre provocado pelos madianitas em Baal-Fegor, de um flagelo de proporções alarmantes, causando a mortandade de vinte e quatro mil pessoas (Nm 25,9). Eram consangüíneos, afins e amigos de Israel, seja por parentesco em Abraão (Gn 25,1-2), seja por Moisés se casar com uma madianita (Ex 2,15-21), seja por sua presença junto aos Israelitas no deserto (Nm 10,29-32). O fato é que, inesperadamente, juntaram-se a Balac no caso de Balaão, aparentando igual temor pelo volume das manadas dos Israelitas (Nm 22,3-4). Eram nômades e ficaram preocupados com a possibilidade de escassez de alimento para suas manadas e opondo-se assim a Israel, tornam-se inimigos. Coerentemente com a Missão de Israel, que exigia a destruição dos que desafiavam a Aliança com Iahweh, havia também a necessidade do anátema dos inimigos, tal como com os cananeus (Lv 27,29 / Nm 21,2-3), autorizando a mortandade com os despojos deles. Não se tratava de uma mortandade sem objetivo, mas de um meio de coibir a idolatria, com a imposição sistemática do nome "vitorioso" de Iahweh. Também, vai se tornar uma condição de sobrevivência política e religiosa, pelo perigo que ensejava, tal como a recente experiência que seduziu Israel:

"Disse mais Iahweh a Moisés: Vinga os filhos de Israel nos madianitas; depois serás recolhido ao teu povo. Falou, pois, Moisés ao povo, dizendo: Armai homens dentre vós para a guerra, a fim de que saiam contra Madiã, para executarem a vingança de Iahweh sobre Madiã. (...) E Moisés mandou à guerra esses mil de cada tribo, e com eles Finéias, filho de Eleazar, o sacerdote, o qual levava na mão os vasos do santuário e as trombetas para tocarem o alarme. E pelejaram contra Madiã, como Iahweh ordenara a Moisés; e mataram a todos os homens. Com eles mataram também os reis de Madiã, a saber, Evi, Requem, Sur, Hur e Reba, cinco reis de Madiã; igualmente mataram à espada a Balaão, filho de Beor (...) E indignou-se Moisés contra os oficiais do exército, chefes dos milhares e chefes das centenas, que vinham do serviço da guerra, e lhes disse: Deixastes viver todas as mulheres? Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, fizeram que os filhos de Israel pecassem contra Iahweh no caso de Fegor, pelo que houve o flagelo sobre a congregação de Iahweh. Agora, pois, matai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele" (Nm 31.1-7.8.14-17).

Foi movida verdadeira Guerra Santa contra Madiã, pois Finéias participa com a pompa cerimonial, levando os vasos sagrados do santuário e as trombetas, pelas quais Iahweh comandava as operações e o combate (Nm 10,9). Foram mortos todos os homens e os reis madianitas, bem como as mulheres. Ao que se deduz, foram esses os responsáveis pelo desvio religioso dos israelitas, seduzidos por elas, por conselho de Balaão, à prática da prostituição sagrada (Nm 31,16), causando o flagelo da morte de vinte e quatro mil pessoas (Nm 25,9; Dt 4,3; Js 22,17; Os 9,10; Sl 106/105,28; 1 Cor 10,8). Balaão não conseguira amaldiçoar Israel, mas perdendo a recompensa de Balac, tenta por todos os meios destruir a unidade religiosa da comunidade, com o ardil de levar os homens à prática dessa prostituição sagrada. Esperava assim conseguir a maldição de Israel, pelo próprio Iahweh, por causa da idolatria a que foram seduzidos a seu conselho. Em virtude disso passa a ser apontado como exemplo de quem é corrompido pelo "caminho da avareza e da idolatria" (2Pe 2,15; Jd 11; Ap 2,14):

"...tendo os olhos cheios de adultério e não cessando de pecar, engodando as almas inconstantes, tendo o coração exercitado na avareza, filhos de maldição; os quais, deixando o caminho direito, erraram seguindo o caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça. Mas teve a repreensão da sua transgressão; (...). Estes são fontes sem água, nuvens levadas pela força do vento, para os quais a escuridão das trevas eternamente se reserva" (2Pe 2,14-17)

"Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais, se corrompem. Ai deles! Porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Corá. Estes são manchas em vossas festas de caridade, banqueteando-se convosco e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas;..." (Jd 10-12)

"Mas umas poucas coisas tenho contra ti, porque tens lá os que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balac a lançar tropeços diante dos filhos de Israel para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se prostituíssem" (Ap 2,14).

Com esse episódio de Balaão impunha-se a soberania de Iahweh, que agora possuía um povo, cujo Nome por meio dele e nele se Glorificava. Tornava notória a Sua Presença pela Bênção, traduzida nas vitórias e nas dimensões de seu exército, no número de homens aptos para a guerra. Para a demonstração dessa soberania agora conquistada, nada melhor que o reconhecimento de um advinho pagão (Js 13,22), cuja tentativa de maldição não logrou nenhum êxito, apesar de utilizar de todos os meios mágicos e de encantamentos em uso. Só consegue ratificar a Bênção de Iahweh e profetizar a perenidade dessa mesma Bênção por toda a História, e até mesmo o messianismo, embutido no anúncio escatológico do oráculo.

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