NÚMEROS
Terceira Parte
Nas margens orientais do Jordão

5.16  BALAÃO: YAHWEH, "EL SHADAY"

Não é isento de problemas a recomposição da História de Balaão, pelas dificuldades culturais, contradições e aparentes incoerências doutrinárias que encerra. A eficácia de seu poder místico era reconhecido, dizendo Balac que "a quem tu abençoares será abençoado e a quem tu amaldiçoares será maldito". Mas, não deixa de ser contraditório Balaão ter tal poder e gozar de intimidade com Iahweh, a ponto de "falar com Ele" (Nm 22,8-12), nele se manifestar o Espírito de Iahweh (Nm 24,2), a quem chama de "meu Deus" (Nm 22,18), e ao mesmo tempo prestar um serviço assalariado a um gentio contra Israel. Ainda, pretendendo amaldiçoar o Povo de Iahweh, reconhecidamente abençoado, para levá-lo à derrota e expulsão. Da mesma forma é desconfortável o fato de, ao mesmo tempo que Deus manda Balaão acompanhar os homens de Balac, Iahweh se enfurecer ao sair com eles e acompanhá-los (Nm 22,20-22). Cabe observar, porém, que, essas situações bíblicas são, as mais das vezes, fruto da maneira de se conceber e de se narrar sinteticamente, um fato, na forma de então. Muitas vezes, os destinatários da narrativa eram pessoas que conheciam muito bem os fatos narrados, e os detalhes eram então facilmente dispensados, mesmo quando provinham de tradições distintas e se mesclavam.

Inicialmente, não é possível discernir facilmente e apenas pela narrativa, qual o deus de Balaão, principalmente pelo respeito e obediência que afirma a Iahweh (na narrativa Senhor) ou Elohim (na narrativa Deus), além de chamá-lo "meu Deus" ao afirmar que "ainda que Balac me desse a sua casa cheia de prata e ouro, eu não poderia transgredir a ordem de Iahweh, meu Deus..." (Nm 22,18). O mais certo é, que Balaão, vindo da Mesopotâmia (Nm 22,5), já tivesse tomado conhecimento de Iahweh ou Elohim, como o Deus dos Israelitas. Porém, situava-O ao lado de outros, num panteão, com os demais que se julgava existir. De acordo com a cultura da época, consideravam-se as vitórias de Israel, desde os então difundidos prodígios do Egito (Nm 22,5 / Nm 23,22), como sinais da bênção de seu deus, o que tornava Iahweh ou Elohim reconhecidamente poderoso (Nm 24,4). Balaão se preocupa com isso, mas as promessas de lucro que Balac lhe faz, levam-no a pretender encontrar uma maneira de contornar a situação. Recorre então aos presságios ou oráculos, conforme o modo de se averiguar a vontade dos deuses, então em uso, que são expressas em forma de um diálogo, refletindo os lances da busca que se pretendeu ter feito. Esse artifício torna-se perceptível pelo que logicamente poderia ter ocorrido, em face do que se narra, tal como na pergunta de Deus a respeito dos homens que vieram procurá-lo. Ora, na realidade, isso não poderia acontecer, eis que o fato não poderia ser ignorado por um deus. Vem da cultura de então que concebia os deuses como projeções antropomórficas, em forma de homens, e com os mesmos sentimentos, emoções e limitações. Claro está que Balaão, conhecendo as vitórias dos Israelitas, bem como os prodígios do Egito, reconhece o poder de Iahweh, cujo nome começa a se projetar entre os outros povos junto com o de Seu Povo. Naquele tempo, a vitória de um povo sobre outro era considerada a vitória de seu deus sobre o deus do povo derrotado, e Balaão não O quer contrariar, até mesmo por temê-LO:

"Foram-se os anciãos dos moabitas e os anciãos de Madiã levando o preço dos encantamentos. Chegaram a Balaão e lhe disseram as palavras de Balac. E ele lhes disse: Ficai aqui esta noite, e vos darei a resposta que Iahweh me falar. Então, os príncipes dos moabitas ficaram com Balaão. E veio Deus a Balaão e lhe disse: Quem são estes homens que estão contigo? E Balaão respondeu a Deus: Balac, filho de Sefor, rei de Moab, enviou-mos, dizendo: Eis que o povo que saiu do Egito cobriu toda a terra; vem, agora, amaldiçoa-o para que eu possa combatê-lo e expulsá-lo. Então, disse Deus a Balaão: Não irás com eles, nem amaldiçoarás a este povo, pois é abençoado. Então, Balaão levantou-se pela manhã e disse aos príncipes de Balac: Ide à vossa terra, porque Iahweh não me deixa ir convosco" (Nm 22,7-13).

Nem por isso Balac esmoreceu e volta a insistir, julgando que uma comitiva mais importante e a promessa de recompensa mais ampla seriam mais satisfatórias e convincentes. Balaão, por sua vez, passa a regatear e a amealhar para conseguir o lucro prometido. Por esse motivo, Iahweh, após determinar que acompanhasse os enviados, percebendo-lhe a intenção, fica sobremaneira irado com ele [é o Anjo de Iahweh que lhe diz que "o teu caminho é perverso diante de mim" (Nm 22,32)] (Nm 22,15-22). É que Balaão fingia querer a vontade de Deus, para conseguir amoldá-LO ao seu intento de amaldiçoar Israel, e ser pago pelo serviço, tal como então em uso (1Sm 9,7; 1Rs 14,3; 2Rs 8,8; Mq 3,5.11; 2Pe 2,15). Narra-se então que a jumenta teria "visto" o Anjo do Senhor e "reclamado" por ter sido fustigada com violência, "explicando" então a Balaão, o que é seguido da visão e compreensão de tudo pelo advinho:

"Viu, pois, a jumenta o Anjo de Iahweh parado no caminho, com a sua espada desembainhada na mão; pelo que se desviou a jumenta do caminho, indo pelo campo; então, Balaão espancou a jumenta para fazê-la tornar ao caminho. Mas o Anjo de Iahweh pôs-se numa vereda entre as vinhas (...) Vendo a jumenta o Anjo de Iahweh, deixou-se cair debaixo de Balaão; acendeu-se a ira de Balaão, e espancou a jumenta com a vara. Então, Iahweh fez falar a jumenta, a qual disse a Balaão: Que te fiz eu, que me espancaste já três vezes? Respondeu Balaão à jumenta: Porque zombaste de mim; tivera eu uma espada na mão e, agora, te mataria. Replicou a jumenta a Balaão: Porventura, não sou a tua jumenta, em que toda a tua vida cavalgaste até hoje? Acaso, tem sido o meu costume fazer assim contigo? Ele respondeu: Não. Então, Iahweh abriu os olhos a Balaão, e ele viu o Anjo de Iahweh, que estava no caminho, e a sua espada desembainhada na mão; pelo que inclinou-se e prostrou-se com a face em terra. Então, o Anjo de Iahweh lhe disse: Por que já três vezes espancaste a tua jumenta? Eis que eu saí para impedir a sua passagem, porquanto o teu caminho é perverso diante de mim; porém a jumenta me viu e já três vezes se desviou. Isso foi bom para ti, pois se ela se não desviara, na verdade eu agora te mataria e a ela deixaria com vida" (Nm 22,23-33).

Ora, tal fato só pode ter sido narrado, tal como consta e com tantos pormenores, na forma como teria sido esclarecido na ocasião pelo mal intencionado Balaão. Como remate do acontecimento, fá-lo de maneira a não comprometer a autoridade e prestígio que gozava no seu meio, justificando-se ainda perante Balac, para não perder a recompensa. Não se pode saber o que a jumenta viu, com tantos detalhes ("o Anjo de Iahweh que estava no caminho, com a sua espada desembainhada na mão"), a não ser numa interpretação dos vários acontecimentos havidos, pelo único protagonista - Balaão. A narrativa está impregnada das evasivas então usadas por Balaão para isso, o que se deduz da forma usada num diálogo impossível com a jumenta. Ao insistir o Anjo, quanto à obediência que se lhe exigia, percebe-se a intenção malévola de Balaão, contra o quê se opõe Deus, para impedi-lo. Não que a maldição dele tivesse algum efeito contra o Povo Eleito, mas para se evitar que, impressionado por ela, tivesse qualquer reação ou fraqueza humana, negativa e nefasta, tal como inspirava a cultura do tempo. Além disso, foi-lhe dada uma oportunidade de conhecer o verdadeiro Deus e se relacionar com Ele, não a quis e, cedendo-se aos rogos de Balac, vai avidamente tentar conseguir satisfazê-lo, insistindo em dizer que somente poderia falar o que Iahweh determinasse:

"Então, Balaão disse ao Anjo de Iahweh: Pequei, eis que não soube que estavas neste caminho para te opores a mim; e, agora, se parece mal aos teus olhos, voltarei. E disse o Anjo de Iahweh a Balaão: Vai-te com estes homens, mas somente a palavra que eu te falar, esta falarás. Assim, Balaão se foi com os príncipes de Balac. Ouvindo, pois, Balac que Balaão vinha, saiu-lhe ao encontro até à cidade de Moab, que está no termo de Arnon, na extremidade do território. E Balac disse a Balaão: Porventura, não enviei emissários a chamar-te? Por que não vieste a mim? Não posso eu na verdade honrar-te? Então, Balaão disse a Balac: Eis que eu venho a ti; porventura, poderei agora falar alguma coisa? A palavra que Deus puser na minha boca, ela falarei (Nm 22,34-38).

A intenção de Balac é clara, eis que "...matou bois e ovelhas; e deles enviou a Balaão e aos príncipes que estavam com ele" -, naturalmente, era carne de sacrifícios ao deus dos moabitas, Camos (Nm 21,29 / 1Rs 11,7). Após a convocação, esperava que Balaão amaldiçoasse Israel, recorrendo ainda aos sinais mágicos ou de presságios ou de encantamentos (Nm 23,3 / 24,1), com o que esperava vencer Iahweh. Esperava assim vencer Iahweh, no confronto estabelecido, mas o poder de Iahweh é maior, a quem Balaão vai acabar por reconhecer como El Shadday ("Onipotente") (Nm 24,4). Os sinais mágicos ou de presságios não prevalecem contra Iahweh, cujo poder está já se manifestando por meio de Seu Povo, e se voltam contra Balac e até mesmo contra as intenções malévolas de Balaão:

"E Balaão foi com Balac, e vieram a Cariat-Husot. Então, Balac matou bois e ovelhas; e deles enviou a Balaão e aos príncipes que estavam com ele. E, pela manhã, Balac tomou a Balaão e o fez subir a Bamot-Baal de onde poderia ver Balaão dali a extremidade final do povo" (Nm 22,39-41).

Bamot-Baal não é mais que um santuário pagão em um "lugar alto" próprio para adoração e presságios, numa elevação, como caracteriza o nome do deus Baal. Indica de outro modo o estabelecimento de um confronto de deuses, na vã esperança de vencer Iahweh e impor a maldição:

"E, pela manhã, Balac tomou a Balaão e o fez subir a Bamot-Baal de onde Balaão poderia ver a extremidade final do povo (22,41). Então, Balaão disse a Balac: Edifica-me aqui sete altares e prepara-me aqui sete bezerros e sete carneiros. Fez, pois, Balac como Balaão dissera; e Balac e Balaão ofereceram um bezerro e um carneiro sobre cada altar. Então, Balaão disse a Balac: Fica-te ao pé do teu holocausto, e eu irei; talvez Iahweh me sairá ao encontro, e o que me mostrar te notificarei. Então, dirigiu-se para uma colina desnuda (23,1-3)" (Nm 22,41-23,3).

Colocando Balaão em um local de onde somente veria uma parte, a final do povo, espera Balac, e tenta convencê-lo e conseguir a maldição. Mas, mesmo assim, "...Balaão disse a Balac: ‘Fica-te ao pé do teu holocausto, e eu irei; talvez Iahweh me sairá ao encontro, e o que me mostrar te notificarei’. Então, dirigiu-se a uma colina desnuda (23,1-3)" - Balac permanece junto a sua oferenda sacrificial, enquanto Balaão se afasta na tentativa de satisfazer Iahweh com a profusão de sacrifícios. Oferece-os na quantidade sagrada do número sete, pelo que "talvez Iahweh me sairá ao encontro, e o que me mostrar te notificarei", na esperança de conseguir o presságio ou sinais de agouro do "lugar alto", sagrado, da "colina desnuda" (Nm 23,3 / Nm 24,1):

"...talvez Iahweh me sairá ao encontro, e o que me mostrar te notificarei. E, encontrando-se Deus com Balaão, lhe disse este: Preparei sete altares e ofereci um bezerro e um carneiro sobre cada altar. Então, Iahweh pôs a palavra na boca de Balaão e disse: Torna para Balac e fala assim. E, tornando para ele, eis que estava ao pé do seu holocausto, ele e todos os príncipes dos moabitas" (Nm 23,4-6).

"...pôs a palavra na boca de Balaão..." - tal como sempre fará com os profetas (Ex 4,14-16 / 7,1-2; Dt 18,18; Jr 1,9), Iahweh fez de Balaão o porta-voz para ratificar a Bênção de Israel:

"Então, proferiu o seu poema e disse: De Aram me mandou trazer Balac, rei de Moab, das montanhas do oriente: Vem, amaldiçoa-me a Jacó; e vem, ameaça Israel. Como amaldiçoarei o que Deus ("Elohim") não amaldiçoa? E como ameaçarei, quando Iahweh não ameaça? Porque do cume dos rochedos o vejo e dos outeiros o contemplo: eis este povo que habitará à parte e entre as nações não será contado. Quem contará o pó de Jacó e a quarta parte de Israel? A minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu" (Nm 23,7-10).

Mesmo assim, apesar da astúcia mútua, de Balac, coadjuvado por Balaão, Iahweh, pelas palavras que manda o visionário dizer, ratifica a Bênção, com a antevisão que oferece da grandeza de Israel. Mesmo na sua "quarta parte" não se consegue dimensionar, contar, confirmando as antigas promessas feitas (Gn 13,16; 28,14) de que os descendentes de Abraão, tal como os de Isaac e de Jacó, seriam tão numerosos como o pó da terra. A referência "à quarta parte de Israel" corresponde àquela disposição estratégica feita das tribos em volta da Arca da Aliança, nas "quatro direções" dos pontos cardeais (Nm 2). O que Balac permitiu a Balaão divisionar do alto de Bamot-Baal foi apenas uma menor parcela de Israel. Quis, assim, maliciosamente, impedir que Balaão se impressionasse com a quantidade de Israelitas, em formação militar. Porém, apesar de tudo, viu frustrada a sua intenção, pelo que reclama:

"Balac diz então a Balaão: ‘Que me fizeste? Eu te chamei para amaldiçoar meus inimigos e tu os abençoas’. Balaão responde e diz: ‘Não devo dizer exatamente o que Iahweh coloca na minha boca? Então, Balac lhe disse: Rogo-te que venhas comigo a outro lugar, de onde não verás senão a parte extrema sem vê-lo inteiro; e amaldiçoa-o para mim dali. Assim, o tomou consigo ao Campo das Sentinelas, ao cume de Fasga..." (Nm 23,11-14)

"...ao cume de Fasga..." - de novo às alturas, supostamente sagradas, Iahweh se impõe e Balaão abençoa, pronunciando as palavras que lhe foram colocadas na boca por Deus, agindo como se fora um Profeta verdadeiro, pelo que anuncia com o colorido Messiânico. Mas, Balac continua insistindo e alterando os ângulos de visão ou de local, em busca de um que fosse eficaz para o apoio dos deuses. Por fim, desiste de conduzir Balaão a ver do alto algum sinal mágico ou de mau agouro, que lhe servisse de sustentação, e passa a insistir para conseguir apenas o apoio de Iahweh para a maldição (Nm 23,27-28). Pensando que a causa do malogro do apoio divino, tanto fora o local mau escolhido como a falta de oferecimento de sacrifícios a Iahweh, reinicia uma nova operação. Fá-la, porém, em outro local e oferece, ele mesmo, diretamente, sacrifícios a Iahweh, em profusão suficiente, tal como indica o número sagrado aplicado a eles: sete:

"Assim, Balac o levou (‘a Balaão’) consigo ao Campo das Sentinelas, ao cume de Fasga; e edificou sete altares e ofereceu um bezerro e um carneiro sobre cada altar. Então, disse Balaão a Balac: Fica aqui ao pé do teu holocausto, e eu irei ao encontro. E, encontrando-se Iahweh com Balaão, pôs uma palavra na sua boca e disse: Torna para Balac e fala assim. E, vindo a ele, eis que estava ao pé do holocausto, e os príncipes dos moabitas, com ele; disse-lhe, pois, Balac: Que falou Iahweh? Então, proferiu a sua parábola e disse: Levanta-te, Balac, e ouve; inclina os teus ouvidos a mim, filho de Sefor. Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa; porventura, diria e não o faria? Ou falaria e não o cumpriria? Eis que recebi ordens para abençoar; pois ele abençoou, e não revogarei. (...) ...contra Jacó não há encantamento, nem presságio contra Israel... Eis que o povo se levantará como leoa e se exalçará como leão; não se deitará até que coma a presa e beba o sangue de mortos" (Nm 23,14-24)

"Então, Balac disse a Balaão: Se não podes amaldiçoá-lo, pelo menos o abençoes. Porém Balaão respondeu e disse a Balac: Não te falei eu, dizendo: Tudo o que Iahweh falar, aquilo farei? Disse mais Balac a Balaão: Ora, vem, e te levarei a outro lugar; talvez seja do agrado de Deus que de lá o amaldiçoes. Então, Balac levou Balaão consigo ao cume de Fegor, que olha para a banda do deserto. Balaão disse a Balac: Edifica-me aqui sete altares e prepara-me aqui sete bezerros e sete carneiros. Balac, pois, fez como dissera Balaão e ofereceu um bezerro e um carneiro sobre cada altar" (Nm 23,25-30) [a divisão em dois, de um só trecho, tem a finalidade de facilitar a compreensão].

Para um melhor entendimento, a frase, "...te levarei a outro lugar; talvez seja do agrado de Deus que de lá o amaldiçoes", deverá ser ligada ao início do capítulo seguinte, conforme a regra de que um assunto nem sempre se esgota no final de um capítulo, mas passa de um a outro, prosseguindo:

"Ora, vem, e te levarei a outro lugar; talvez seja do agrado de Deus que de lá o amaldiçoes. Então, Balac levou Balaão consigo ao cume de Fegor, que olha para a banda do deserto" (Nm 23,27-28)

"Vendo Balaão que bem parecia aos olhos de Iahweh que abençoasse a Israel, não foi esta vez como dantes ao encontro dos encantamentos, mas voltou o seu rosto para o deserto. Levantando Balaão os olhos e viu Israel acampado segundo as suas tribos, e veio sobre ele o Espírito de Deus..." (Nm 24,1-2).

Colocando as frases lateralmente, tem-se:

"...te levarei a outro lugar; talvez seja do agrado de Deus que de lá o amaldiçoes"

"Vendo Balaão que bem parecia aos olhos de Iahweh que abençoasse a Israel,

  

não foi desta vez como antes em busca de encantamentos..."

"...não foi desta vez como antes em busca de encantamentos..." - O narrador não poderia ser mais claro, pretendendo dizer que ocorreu uma mudança do enfoque quanto ao Poder de Iahweh, não manejável por mágicos ou místicos, nem com encantamentos ou presságios supersticiosos. Nem vai se comover, como se admitia, à insistência das repetições e relaxar seu desígnio. Balaão entendeu, depois de muitas tentativas, subindo a lugares elevados (Nm 23,3) ou em sonhos (Nm 22,9.20), que a Bênção de Iahweh não lhe não permitiria amaldiçoar Israel. Ao mesmo tempo, é alvo de um privilégio especial: o de proferir um oráculo pelo "Espírito de Deus que vem sobre ele" (Nm 24,2). Tal como os Profetas de Iahweh, recebe, por uma especial moção de Deus, verdadeira "inspiração", um oráculo prenhe de lances messiânicos, que a História de Israel vai confirmar:

"Então proferiu Balaão o seu oráculo, dizendo: Fala Balaão, filho de Beor; fala o homem que tem os olhos abertos; fala aquele que ouve as palavras de Deus, o que vê a visão de Shadday, que cai, e se lhe abrem os olhos: Quão formosas são as tuas tendas, ó Jacó! as tuas moradas, ó Israel! Como vales, elas se estendem; são como jardins à beira dos rios, como árvores de aloés que Iahweh plantou, como cedros junto às águas. Um herói surge na sua descendência, e domina sobre muitos povos; o seu rei é mais poderoso do que Agag, e o seu reino será exaltado. É Deus que os tirou do Egito; as suas forças são como as do boi selvagem; ele devorará os povos, os seus adversários, e lhes quebrará os ossos. Agachou-se, deitou-se como leão, e como leoa; quem o despertará? Benditos os que te abençoarem, e malditos os que te amaldiçoarem" (Nm 24,3b-9).

"...fala o homem que tem os olhos abertos; fala aquele que ouve as palavras de Deus, o que vê a visão do Todo-Poderoso, que cai, e se lhe abrem os olhos..." com essas palavras se delineia o êxtase de Balaão. Manifesta em poucas palavras, ainda incompletas pela resistência que opõe, os efeitos da Bênção de Iahweh, bem como a projeção futura até messiânica, numa descendência frutuosa. Tal como foi transcrito preferiu-se a versão dos Setenta que menciona "um herói surge na sua descendência, e domina sobre muitos povos", enquanto a hebraica diz diferentemente que "de seus cântaros verterão águas, e a sua semente estará em águas abundantes...", que traz também um sentido messiânico. Essa interpretação é mais coerente com o que Jacó profetizou a Judá (Gn 49,9), que se repete significativamente:

"Judá é um leãozinho; da presa subiste, filho meu. Encurva-se e deita-se como um leão e como uma leoa; quem o despertará? O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Silo; e a ele se congregarão os povos" (Gn 49,9-10)

"Eis que o povo se levantará como leoa e se exalçará como leão; não se deitará até que coma a presa e beba o sangue de mortos" (Nm 23,24)

"Agachou-se, deitou-se como leão, e como leoa; quem o despertará? (...) Eu o vejo, mas não agora; contemplá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó, e um cetro subirá de Israel (...)" (Nm 24,9.17).

A identificação messiânica de Israel, a quem pertence a tribo de Judá, é mais que clara, sem que Balaão disso tenha conhecimento, pelo que mais se destaca a atuação do Espírito de Iahweh. Claro está que Balac não deve ter ficado satisfeito com esse desfecho, que lhe soou como uma Bênção, e se investe furiosamente contra Balaão, como transparece no gesto de "bater as mãos" (Nm 24,10), indicativo da enorme contrariedade, tal como manifesta:

"Pelo que a ira de Balac se acendeu contra Balaão, e batendo ele as palmas, disse a Balaão: Chamei-te para amaldiçoares os meus inimigos e por três vezes os abençoaste. Agora, pois, foge para o teu país; eu tinha dito que certamente te recompensaria dignamente, mas eis que Iahweh te privou dessa recompensa. Então respondeu Balaão a Balac: Não falei eu também aos teus mensageiros, que me enviaste, dizendo: Ainda que Balac me quisesse dar a sua casa cheia de prata e de ouro, eu não poderia ir além da ordem de Iahweh, para fazer, de mim mesmo, o bem ou o mal; o que Iahweh falar, isso falarei eu? Agora, pois, eis que me vou ao meu povo; vem, anunciar-te-ei ainda o que este povo fará ao teu povo nos últimos dias" (Nm 24,10-14).

Depois de insistir em ter avisado que não poderia contrariar a Bênção de Iahweh, Balaão despede-se e passa a "...anunciar... ainda o que este povo fará ao teu povo nos últimos dias" - com estes dizeres pronuncia com maior amplitude um oráculo, que a história vai demonstrar ser, além de messiânico, profético, com dimensões escatológicas traduzidas pela expressão, "nos últimos dias" (Os 3,5; Is 2,2; Mq 4,1; principalmente em Jr 48,47):

"Então proferiu Balaão o seu oráculo, dizendo: Fala Balaão, filho de Beor; fala o homem que tem os olhos abertos; fala aquele que ouve as palavras de Deus e conhece os desígnios do Altíssimo, que vê a visão do Todo-Poderoso, que cai, e se lhe abrem os olhos: Eu o vejo, mas não no presente; eu o contemplo, mas não de perto; de Jacó procederá uma estrela, de Israel se levantará um cetro que ferirá os termos de Moab, e destruirá todos os filhos de orgulho. (...) Então, tendo-se Balaão levantado, partiu e voltou para o seu lugar; e também Balac se foi pelo seu caminho" (Nm 24,15-25).

Mas, este fato não termina aqui, como parece. Surgem fatos importantes e com coloridos novos, apesar de ventilados apenas de passagem, em outros locais (Nm 31,8.16; Dt 23,6; Js 13,22; 24,9-10; Ne 13,2; Mq 6,4-5; 2Pe 2,15; Jd 11; Ap 2,14). É aquele sistema de se encerrar um assunto, e depois voltar ao tema principal, como se fora um grande parêntesis, bem como de se relembrar àqueles que já conhecem o que se narra, de maneira sintética e sem detalhes. Assim, em prosseguimento, abrupta e isoladamente, passa-se ao episódio de Fegor, sem nenhum antecedente histórico que o justificasse:

"Ora, enquanto Israel permanecia em Setim, o povo começou a prostituir-se com as filhas de Moab. Elas convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu, e inclinou-se aos seus deuses. Porquanto Israel se juntou a Baal-Fegor, a ira de Iahweh acendeu-se contra ele. Disse, pois, Iahweh a Moisés: Toma todos os chefes do povo, e empala-os a Iahweh diante do sol, para que a grande ira de Iahweh se retire de Israel. Então Moisés disse aos juizes de Israel: Mate cada um aquele dos seus homens que se juntaram a Baal-Fegor. E eis que veio um homem dos filhos de Israel, e trouxe para junto de seus irmãos uma madianita à vista de Moisés e à vista de toda a congregação dos filhos de Israel, que choravam à porta da Tenda da Reunião. Vendo isso Finéias, filho de Eleazar, filho do sacerdote Aarão, levantou-se do meio da congregação, e tomou na mão uma lança; foi após o israelita, e entrando na sua tenda, os atravessou a ambos, ao israelita e à mulher, pelo ventre. Então o flagelo cessou de sobre os filhos de Israel. Ora, os que morreram daquele flagelo foram vinte e quatro mil. Então disse Iahweh a Moisés: Finéias, filho de Eleazar, filho do sacerdote Aarão, desviou a minha ira de sobre os filhos de Israel, pois foi zeloso com o meu zelo no meio deles, de modo que no meu zelo não consumi os filhos de Israel. Por causa disso lhe dirás: Eis que lhe dou a minha aliança de paz, e será para ele e para a sua descendência depois dele, a aliança de um sacerdócio perpétuo; porquanto foi zeloso pelo seu Deus, e fez expiação pelos filhos de Israel. O nome do israelita que foi morto com a madianita era Zamri, filho de Salu, príncipe da casa patriarcal de Simeão. E o nome da mulher madianita morta era Cozbi, filha de Sur; que era chefe de uma tribo duma casa patriarcal, em Madiã. Disse mais Iahweh a Moisés: Atacai os madianitas e feri-os; porque eles vos afligiram a vós com as suas ciladas com que vos enganaram no caso de Fegor, e no caso de Cozbi, sua irmã, filha de um príncipe de Madiã, a que foi morta no dia do flagelo que sobreveio por causa de Fegor" (Nm 25,1-18).

"o povo começou a prostituir-se com as filhas de Moab... elas convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu, e inclinou-se aos seus deuses" / "...um homem dos filhos de Israel, trouxe para junto de seus irmãos uma madianita, e à vista (...) dos filhos de Israel, que choravam à porta da Tenda da Reunião" - aconteceu algo profundamente grave e chocante, suficiente para provocar um lamento generalizado de penitência, na entrada do tabernáculo. Além disso, a punição determinada por Iahweh à idolatria praticada foi a da empalação, de natureza cruel por demais, usada naquele tempo como séria advertência. Por si só, tudo isso só poderia ter um significado religioso, pois que o culto e a adoração a Baal-Fegor praticados, não se limitam aos sacrifícios e à refeição sagrada que menciona. Também a reação violenta de Finéias e a sua recompensa por ter "feito a expiação pelos Filhos de Israel", recebendo a antecipação do sacerdócio perene da Casa de Aarão, caracterizam que o ato de Zamri com Cozbi, com a menção de seus nomes, foi o exercício público de uma prostituição sagrada, consubstanciado no ato mencionado de "começou a prostituir-se com as filhas de Moab" e "inclinou-se aos seus deuses", por sinal, pagãos. Mas, com a reação de Finéias, cessa a prática nefasta e se manifesta a reação generalizada de repúdio à idolatria, consolidando-se apesar de tudo a Aliança.

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