NÚMEROS
Terceira Parte
Nas margens orientais do Jordão

5.15  O DESERTO:

Facilmente se convence da profunda significação religiosa da peregrinação do Povo de Deus pelo deserto, até atingir a sua "herança". Tal como se dá geralmente com qualquer fato histórico, somente após a sua ocorrência se consegue avaliar os seus efeitos. Percebe-se então, ter sido mais do que uma passagem temporária por um lugar ermo, árido e desabitado, onde nada se desenvolvia por si só, nem se podia aí fixar domicílio permanente. Não era apenas um local onde faltava água ou alimentos, e o sol a tudo queimava, nem onde inexistiam áreas de vegetação, ou terreno fértil, suficientes e necessários à vida, ou onde não se encontrava caça, ou pesca. Traz outra dimensão em seu conteúdo, um fator essencial, que o tornou peculiar, dando maior relevo à vida nômade do Povo dos Filhos de Israel, atravessando-o em busca da Terra Prometida. Também não foi essa busca, objetivo fundamental para a estrutura do Povo de Deus, a única conseqüência que se destaca. É que, durante o trajeto ocorreu a presença dinâmica de Iahweh, em vida partilhada, íntima e pedagógica com os Filhos de Israel. Desde o Sinai, onde receberam a Lei da Aliança, .até o remate final de todas as instituições religiosas, profunda comunhão com Iahweh, cada vez mais se solidifica, e os santifica, pois os guiou "habitando entre eles" (Ex 25,8):

"Quando o Altíssimo dividiu as nações, quando espalhou os filhos de Adão, fixou os limites dos povos conforme o número dos filhos de Israel. Pois, a porção de Iahweh é o seu povo; Jacó é o lote da sua herança. Ele o encontrou numa terra deserta, num lugar horroroso e de enorme solidão. Cercou-o e o instruiu, guardou-o como a menina dos seus olhos. Como a águia provoca os seus filhos a voar e sobre eles esvoaça, estendeu as suas asas, tomou-o e o levou sobre os seus ombros. Só Iahweh foi o seu guia..." (Dt 32,8-12).

"Só Iahweh foi o seu guia..." - Essa antevisão de Moisés vai ser partilhada por outros Profetas, que atribuirão ao deserto uma função religiosa e fundamental para Israel, dirigida unicamente pelo próprio Iahweh:

"...Onde está o Iahweh, que nos fez subir da terra do Egito, que nos guiou pelo deserto, por uma terra de estepes e barrancos, por uma terra árida e sombra de morte, por uma terra em que ninguém transita nem fica morando homem algum? Eu vos introduzi numa terra fértil, para que comêsseis os seu frutos e gozásseis dos seus bens..." (Jr 2,5-8) / "Encontrei Israel como uvas no deserto, vi a vossos pais como primícias de uma figueira nova..." (Os 9,10)

Pelos frutos que se lhe atribuem, durante o tempo em que os Israelitas partilharam sua história com a presença ativa de Iahweh em seu meio, a visão que dele tiveram os Profetas, não foi de um castigo. Não se tratava de um isolamento, numa espécie de punição ou vingança de Iahweh, nem mesmo de uma correção temporária, mas tem um sentido definitivo e mais pedagógico, bem como de integração, aperfeiçoamento e de preparação. É, tal como "uma noiva sendo preparada para o esposo" (Ap 21,2), uma "separação" para uma mais profunda comunhão com Deus:

"Portanto, eis que eu vou seduzi-la, conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração. Dali lhe restituirei as suas vinhas e o vale (...) como uma porta de esperança. Ali responderá como nos dias da sua juventude, e como no dia em que subiu da terra do Egito" (Os 2,16-17).

Não há povo sem um território seu, onde é soberano e se desenvolve, donde a necessidade ética e política da Conquista da Terra Prometida. Porém, houve um menosprezo por ela, apesar dos frutos que dimensionaram a enorme fertilidade e fecundidade, contrárias "em figura" àquela esterilidade advinda das conseqüências do Pecado Original. Não se percebeu isso e o medo manifestado explodiu como um grave sintoma de dúvida e falta de fé. Mais ainda e muito pior, significou que não se compreendeu as dimensões da "herança" com que Iahweh contemplava Seu Povo, e não estava apto ao empreendimento. Acovardou-se em face da envergadura de atitudes que lhe exigia a Aliança, tal como projetou nas dimensões que exagerou dos habitantes da terra, que lhe fora destinada e da qual assim abdicava. Daí por que teve de sofrer uma paciente e demorada preparação, praticada pelo próprio Iahweh, que o conduziu à "solidão" dum "deserto", onde lhe "falou ao coração" (Os 2,16) - onde "responderá como nos dias da sua juventude, e como no dia em que subiu da terra do Egito". Assim, o deserto foi uma preparação para integrar a Palavra de Iahweh "no coração", tal como no "princípio":

"No princípio, criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia..." (Gn 1,1-2).

" E a terra era sem forma e vazia..." - Poder-se-ia dizer que "...a terra era sem forma e deserta...", verdadeiro deserto, o "nada" que antecede a Criação, em que Deus já se "movia". Deserto da Criação, já trazendo pela presença dinâmica de Deus, virtualmente e pronta para explodir, toda a realidade em sendo criada por Sua Palavra:

"...e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz. E houve luz" (Gn 1,2-3).

É o próprio Deus que conduz ao existir, ao ser e à Vida, é o próprio Deus que chama à unidade familiar da comunhão de vidas, é o próprio Deus o único Autor da História da Salvação. Verifica-se que a solidão que emana do deserto traz a presença ativa de Deus, explodindo em fecundidade e fertilidade. O trabalho ("lavrar") do Homem Criado integrar-se-ia ao clima ("chuva") de Deus, consumando-se a Obra da Criação, onde, antes, tudo era deserto:

"Toda planta do campo ainda não existia na terra, e toda erva do campo ainda não brotava; porque ainda Iahweh Deus não tinha feito chover sobre a terra, nem havia homem para lavrar a terra. (...) E formou Iahweh Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente" (Gn 2,5-7).

"Toda planta do campo ainda não existia na terra, e toda erva do campo ainda não brotava; porque ainda Iahweh Deus não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para lavrar a terra" - qual seja, era um "deserto". Deserto que traduz o objeto da dinâmica de Deus e do trabalho Homem, fecundando-o e fertilizando-o. É no deserto que Deus cria, e Deus cria para o Homem. Para o Povo de Israel, então, não se tratava de viver em solidão, no isolamento, mas na busca e no encontro da unidade. Da unidade dele com Deus e da unidade entre si, doze tribos nômades, ainda imaturas, sem nada a uni-las a não ser a mesma fé, ainda no nascedouro A História se compõe sempre de uma repetição de fatos e aqui se repete a dinâmica de Deus, tal como na Criação:

"... e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas..." (Gn 1,2).

O mesmo Espírito movia-se sobre a Tenda:

"...de maneira que Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porquanto a nuvem ficava sobre ela, e a glória de Iahweh enchia o tabernáculo. (...) Se a nuvem não se levantava, não caminhavam, até o dia em que ela se levantava; porquanto a nuvem de Iahweh estava de dia sobre o tabernáculo, e o fogo estava de noite sobre ele..." (Ex 40,35-38).

Unidade reforçada pelo contato com um ambiente hostil, inóspito e de trajetória esparsa e desorientada aos olhos humanos. Nesse ambiente desordenado um povo se forma, numa unidade mais densa, mas consciente e mais madura. Não como um amontoado e destoado aglomerado de indivíduos, mas como um agrupamento ordenado de pessoas formando um povo firme, caminhando em uma direção que lhe é peculiar e própria, que lhe imprime o próprio Deus:

"E Iahweh ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem, para guiá-los pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo, para os iluminar, para que pudessem caminhar de dia e de noite. Nunca afastou de diante do povo a coluna de nuvem, de dia, nem a coluna de fogo, de noite" (Ex 13,21-22).

Todos os fatos ocorridos nele, concorrem para fortalecer a unidade das tribos, e não fora isso teriam se dispersado. O deserto criou a necessidade de se fortalecerem em torno da Promessa de Deus a seus pais, os Patriarcas. Essa tradição religiosa, já bem sedimentada e provada desde o Egito, seria incrementada por um relacionamento traduzido em normas comportamentais e em uma ética vivencial, adequadas ao Homem e àquilo que dele quer Deus e ao que Deus lhe dará. É a Aliança, em sua forma mais ampla, consumada e estruturada em um conjunto de direitos e deveres mútuos, frutos de uma vida mais partilhada e uma comunhão mais profunda, e não de conquistas ideológicas. Não era uma idéia que se perseguiu, mas uma pessoa com quem se relacionava em plenitude: Iahweh, o Deus de Israel. Naquele deserto a intimidade emergente atingiria um máximo até a concretização da promessa de uma "terra onde flui leite e mel" (Ex 3,17).

Há uma regra histórica de que o mal e o bem crescem juntos, tal como preconizado por Jesus Cristo, na Parábola do Joio e do Trigo, ao dizer: "deixai que cresçam juntos até a colheita" (Mt 13,30). Daí porque, dentre tanta manifestação da presença de Deus, manifestam-se concomitantemente as apostasias e sedições, exprimindo então os primeiros sinais dinâmicos de vitalidade política, religiosa, social e objetiva, ainda que, em embrião e amorfa. Não se pode deixar de insistir na transformação porque passou o povo, passando abruptamente de uma vida escrava para uma liberdade ainda desconhecida. Muito desacerto ocorre e ocorreria ainda, pondo em confronto a consagração a Deus, com as exigências que a Aliança imprimia ao contexto:

"... Iahweh, o Deus dos hebreus, veio ao nosso encontro; agora, pois, deixa-nos ir a distância de três dias no deserto, para lá sacrificarmos a Iahweh, nosso Deus" (Ex 3,18).

Impunha-se a concretização dessa Aliança, para estar em condições de testemunhar a presença de Iahweh na marcha que empreendia, preparando-se ainda para uma conquista, já se iniciando com a de sua unidade. Era ainda indispensável que se robustecesse o suficiente para manter a posse da terra que lhe fora destinada, tornando-se um organismo forte a ponto de se manter fiel às tradições que agora se sedimentavam objetivamente. Principalmente era necessário se tornar forte para valorizar perante os idólatras e conforme a sua própria cultura, escravos do pecado que eram, o nome de Iahweh., o seu Deus. O deserto lhe adveio e nele foi "separado" para a santificação:

"E sereis santos para mim, porque eu, Iahweh, sou santo e separei-vos dos outros povos, para serdes meus" (Lv 20,26)..

Da mesma maneira, como Deus ofereceu aos nossos primeiros pais o Jardim do Éden, onde existia a fartura, agora faz brotar de um deserto amorfo, inóspito e árido a Terra Prometida. O deserto é a antítese do Paraíso Perdido, o advento da purificação total, é onde repercute toda a infidelidade para ser curada. É o pecado que é significado na esterilidade, como a sua mais dramática conseqüência, qual seja, a aridez, a solidão e a desorientação do Homem. Ali tudo é sem vida, seco e árido. Nada pulsa. Nada vibra. Não há ciclos nem sentido. A vida se esvai em realidades mortas, a morte tudo domina, tudo esteriliza, tal como nas conseqüências do Pecado Original:

Gn 3,23

Nm 14,33

"E Iahweh Deus
o expulsou do Jardim do Éden
para que
cultivasse o solo..."

"Vossos filhos
serão nômades...
e sofrerão as conseqüências
de vossas infidelidades..."

De fato, desde Adão os filhos sofrem, visto que, com a expulsão dele, todos os filhos nasceram fora do Paraíso, desprovidos da Vida em Graça da comunhão com Deus. Assim, é a esterilidade originária do pecado dos pais, que os filhos recebem e por causa dele peregrinam para a salvação esboçada. O deserto torna-se o fruto direto da sedição do Homem contra os planos de Deus. O deserto é o pecado na História e é dele que vêm as revoltas, as rebeldias, as queixas e as sedições. Aí está a fonte dos episódios ocorridos, quando se opunham à Vontade de Deus, durante a peregrinação; e, também, da vitória de Iahweh no triunfo da libertação e unidade do Povo de Israel, tal como o Seu Desígnio. A História da Salvação não é mais do que a repetição cíclica da Queda Original, pelo que o homem perde a íntima comunhão de vida que partilharia com Deus, e caminha sozinho para a esterilidade decorrente. Só quando Deus intervém é que é que há fertilidade ou fecundidade para a vida. Manda o Maná e os Codornizes como alimento e a Água da Rocha para matar a sede dos Filhos de Israel. É somente Iahweh que mantém vivos os peregrinos, figura da Graça, qual busca incessante do retorno à comunhão de vidas originária do Jardim do Éden.

Toda a História da Salvação é colorida com desertos que se repetem. Ocorreu um deserto para Adão, quando foi deslocado do Jardim de Deus: - perdida a comunhão de vidas, veio o desastre da aridez viva e da secura estéril. A fertilidade do solo já dependia do trabalho humano e da chuva de Deus, antes do pecado, e assim permaneceu (Gn 2,5-6). Adão e Eva ficaram tremendamente a sós, numa terra imensa, selvagem e hostil, eivada da esterilidade que a Queda Original lhe infligiu (Gn 3,17-19), mundo ainda deserto de outros homens. Em face de toda e qualquer ocorrência eram fracos, e a morte os rondava impaciente e inexorável. Ela foi a resposta que obtiveram com a desobediência, como diz São Paulo: - "o salário do pecado é a morte" (Rm 6,23). Houve um deserto para Noé quando o mundo lhe pareceu desaparecer; e para os homens que construíam a Torre de Babel, da mesma forma, quando a ambição os separou e não mais se comunicaram. Também para Abraão quando se converteu e teve que deixar sua tribo e enveredar por um mundo que lhe era hostil e desconhecido; para Lot, quando Sodoma e Gomorra desapareceu; para Jacó quando abandona tudo e vai ao Egito, para uma terra estranha de regime servil; deserto que sofreu Moisés quando fugiu da corte, trocando o luxo pela vida rude da aridez do Sinai. Outro deserto agora ocorre, quando faltou maturidade aos exploradores de Israel, que convenceram o povo a não ingressar na Terra Prometida. Por causa disso, foram desviados para a vida no deserto quarenta anos.

Tal como no final da peregrinação se encontra a Terra Prometida, o deserto é o caminho do reencontro do Homem com Deus. O autor da sobrevivência, da fecundidade e da fertilidade, que do deserto venham a se manifestar, é o próprio Deus. É Ele quem constrói a segurança do Homem, levando-o "com asas de águia" (Ex 19,4) pelo deserto até a "herança" da Terra Prometida, nova expressão do Paraíso Perdido:

"...até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto; então, o deserto se tornará em pomar, e o pomar fértil será considerado um bosque. E o direito habitará no deserto, e a justiça no pomar. O efeito da justiça será a paz, e a obra do direito, tranqüilidade e segurança, para sempre" (Is 32,15-17).

E é nesse quadro inóspito que Iahweh tem a fiel disposição de viver em íntima e familiar comunhão de vidas com o Homem, no mesmo diapasão do Jardim do Éden, agora num Plano de Salvação, humanamente falando. Repetir é bom e não faz mal nenhum. A Escritura ensina que quando Deus "diz, faz", e quando "fala, realiza", por que "Deus não é Homem, para que minta, nem filho de Adão, para que se retrate" (Nm 23,19). O mesmo Desígnio de Deus para o Homem continua em operação, nada mudou, "Deus não é homem para que se retrate"! Em uníssono com o mesmo diapasão, em busca do mesmo fim, Deus alia-se ao Homem, a começar com um Homem, Abraão; a se sedimentar com um povo em uma estrutura nova, o Povo dos Filhos de Israel; e, por fim, a se integrar no Povo de Deus, o Corpo Místico de Cristo, a Igreja. Em Jesus Cristo o desígnio de Deus se concretiza, "se cumpre" (Mt 5,17), donde poder dizer ao Bom Ladrão que "estarás comigo no PARAÍSO" (Lc 23,43) e aos fariseus que o pressionavam quanto ao matrimônio monogâmico que "desde o PRINCÍPIO os fez homem e mulher.. e os dois formam uma só carne" (Mt 19,4-5), demonstrando assim o cumprimento definitivo do mesmo desígnio, com o retorno ao "princípio" (Gn 1,1 / Jo 1,1).

Além disso, Deus se une ao Homem numa Aliança Perpétua, que explode num relacionamento comportamental, donde advém leis que caracterizam a Vontade divina e a resposta humana, promulgadas em forma de Decálogo e de Leis da Aliança. O decálogo significa a essência básica da fecundidade perdida, do relacionamento rompido; e as Leis da Aliança traduzem a vida familiar, comunitária, social e religiosa. Refletem e recapitulam toda a Vida da Criação e toda a Criação da Vida. Inauguram "nova era", dirigindo a "era da natureza", numa "era pedagógica", a "era da lei", até Cristo (Gl 3,24), a "era da Graça", em que o Homem responderá com atos que pratica e com a vida fecunda que recebe de Deus, em Jesus Cristo, aos bafejos dela.

Por outro lado, tem-se sede de Deus, e essa sede é a representação material das condições da vida resultante do pecado, sequiosa e sedenta dEle, sem O Qual só há aridez e secura, desde o íntimo do Homem até o seu exterior. Verdadeiro deserto. Em todo coração humano só haverá saciedade com a presença viva de Deus. Os Mandamentos dissolvem então a secura e a aridez do deserto, pois a Palavra de Deus é Vida e assim refrigera o coração dos Israelitas. Centra-se nessa Palavra toda a unidade dos filhos de Jacó, mantendo-se unidos em um só coração, uns com os outros e com o próprio Deus. O ambiente nu do deserto seria o ponto de apoio a essa contextura de planejamento divino. Só Deus poderia conceber a dimensão de amor que explodiria num deserto.

Estabeleceram-se outras normas comportamentais entre o Homem e Iahweh , com o seu ponto culminante no culto, com a sua legislação pertinente e fundamental, para que a amizade comum cada vez mais se estreitasse a partir da comunhão ritual. O culto é a expressão máxima da unidade e comunhão de vidas então emanadas, de cada um com o outro e de todos juntos ou como um Povo, e com o seu Deus.

Por isso Jesus é levado pelo Espírito ao deserto, para ratificar, também num deserto, todas as intervenções de Deus, bem como, como um Homem, reparar aqueles atos de indisciplina, que deram origem aos quarenta anos de peregrinação. Responde com atos de fé, confiança e obediência, retribuindo os da descrença, temor e desobediência praticada, pelos que se furtaram ao comando de Deus. Fá-lo no mesmo espaço de quarenta dias (Nm 14,34) da malograda vistoria determinada por Moisés. Da mesma forma também no início de seu ministério, tal como ratificando as opções havidas ao final da peregrinação de Israel pelo Deserto, opções que deveriam ter ocorrido no início dela. Estão elas embutidas nas três tentações a que Jesus se sujeitou:

- Inicialmente, quando Satanás (= "o adversário"), propõe uma questão que o angustiava, se seria Aquele o Filho de Deus:

"A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães. Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt 4,1-4).

Jesus lhe dá em resposta a admoestação que Moisés apresentou a Israel, apresentando a obediência aos mandamentos como o fundamento das bênçãos de Deus, dentre elas a plenitude da vida:

"Cuidareis de cumprir todos os mandamentos que hoje vos ordeno, para que vivais, e vos multipliqueis, e entreis, e possuais a terra que Iahweh prometeu sob juramento a vossos pais. Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual Iahweh, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca de Iahweh viverá o homem. Nunca envelheceu a tua veste sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos. Sabe, pois, no teu coração, que, como um homem disciplina a seu filho, assim te disciplina Iahweh, teu Deus. Guarda os mandamentos de Iahweh, teu Deus, para andares nos seus caminhos e o temeres; porque Iahweh, teu Deus, te faz entrar numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes, de mananciais profundos, que saem dos vales e das montanhas" (Dt 8,1-7).

- O tentador insiste com outra proposição insidiosa:

"Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem; e: Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra. Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus" (Mt 4,5-7).

De novo Jesus vai a Moisés, na mesma perspectiva, rechaçando a tentação que se lhe oferecia, mostrando que a renúncia da honraria perante os homens é a verdadeira Glória perante Deus:

"Só a Iahweh, teu Deus, temerás, a ele servirás, e, pelo seu nome, jurarás. Não seguirás outros deuses, nenhum dos deuses dos povos que houver à roda de ti, porque Iahweh, teu Deus, é Deus zeloso no meio de ti, para que a ira de Iahweh, teu Deus, se não acenda contra ti e te destrua de sobre a face da terra. Não tentarás Iahweh, teu Deus, como o tentaste em Massá. Diligentemente, guardarás os mandamentos de Iahweh, teu Deus, e os seus testemunhos, e os seus estatutos que te ordenou. Farás o que é reto e bom aos olhos de Iahweh, para que bem te suceda, e entres, e possuas a boa terra a qual Iahweh, sob juramento, prometeu dar a teus pais, lançando todos os teus inimigos de diante de ti, como Iahweh tem prometido" (Dt 6,13-19).

- Nem assim desiste o tentador e volta à carga pela terceira vez:

" Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto. Com isto, o deixou o diabo, e eis que vieram anjos e o serviram" (Mt 4,8-11).

A resposta de Jesus se reporta ao mesmo tema de Moisés, cumprindo-o com uma opção definitiva, a exclusiva entrega à Missão Redentora:

"Ouve, Israel, Iahweh, nosso Deus, é o único. Amarás, pois, Iahweh, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. Havendo-te, pois, Iahweh, teu Deus, introduzido na terra que, sob juramento, prometeu a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó, te daria, grandes e boas cidades, que tu não edificaste; e casas cheias de tudo o que é bom, casas que não encheste; e poços abertos, que não abriste; vinhais e olivais, que não plantaste; e, quando comeres e te fartares, guarda-te, para que não esqueças Iahweh, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão. A Iahweh, teu Deus, temerás, a ele servirás, e, pelo seu nome, jurarás" (Dt 6,4-13).

O diabo tentou Jesus com a Palavra da Escritura e com a Palavra da Escritura Jesus o rechaçou. Ali no deserto, sozinho, é Israel, saindo triunfante da sua peregrinação e entrando na verdadeira Terra Prometida, que só vai desabrochar com a Redenção do Homem. Com essa tentação de Jesus no deserto transparece o sentido messiânico do deserto: "a gloriosa liberdade dos Filhos de Deus" (Rm 8,21).

 

5.15.1 TERMINA A PEREGRINAÇÃO E ISRAEL SE IMPÕE

Então, ao final de sua peregrinação, amadurecido, amalgamado, adestrado, estruturado e organizado pelo próprio Iahweh, Israel, quando sai do deserto, passa a perturbar os demais povos e a se impor. Começa a ser reconhecido como um povo e já os amedronta pela ferocidade e pela bravura de seus ataques. Eram verdadeiros sinais de Bênção de seu deus Iahweh, capacitando-o para o cumprimento de sua Missão. As suas lutas são determinadas e comandadas por Iahweh, e foram incluídas no cancioneiro de guerra da época, passando a ser entoadas junto com outras menções heróicas:

"...Ai de ti, Moab!
Pereceste, povo de Camos!
Deixou que os seus filhos se pusessem em fuga
e as suas filhas no cativeiro,
nas mãos de Seon, rei dos amorreus.
Nós os batemos desde Hesebon até Dibon; tudo devastamos até Nafé, pelo fogo até Medaba.

............................

Disse Iahweh a Moisés: 'Não o temas, porque o entreguei na tua mão, ele, o seu povo e a sua terra; e far-lhe-ás como fizeste a Seon, rei dos amorreus, que habitava em Hesebon.' Assim o feriram, a ele e seus filhos, e ao seu povo, até que nenhum sobrevivente lhe restou" (Nm 21,27-30.34-35).

Acreditava-se em vários deuses, e, também, na manifestação de seus poderes por meio de porta-vozes, bem como de advinhos, mágicos etc., a que se denominavam genericamente e muitas vezes com o mesmo nome de profetas. Era comum se recorrer a sortes, vaticínios, oráculos, êxtases, encantamentos ou presságios, e acreditava-se no poder inexorável da palavra. Uma vez pronunciada, principalmente por tais emissários, não se perderia, mas atuaria com a potência que lhe imprimiu quem a pronunciou, bênção ou maldição, e independentemente de sua vontade (Gn 27,33). Assim, recorriam-se as mais das vezes a esses místicos, tal como aqui se faz com Balaão, para amaldiçoar Israel. Pretendeu-se anular os efeitos da Bênção de Iahweh ao Seu Povo, com uma maldição, que pudesse leva-lo à derrota e até à ruína total. Temiam-no pela quantidade de gado que possuía, que "...lamberá tudo quanto houver ao redor de nós, como o boi lambe a erva do campo" - a Bênção tornara-se perceptível pela quantidade de pessoas que o compunha, pelos grandes rebanhos e manadas que trazia e pelas vitórias que conseguia:

"Viu, pois, Balac, filho de Sefor, tudo o que Israel fizera aos amorreus. E Moab ficou temeroso diante deste povo, porque era numeroso; e ficou apavorado por causa dos filhos de Israel. Pelo que disse aos anciãos de Madiã: Agora esta congregação vai devorar tudo quanto houver ao redor de nós, como o boi devora a erva do campo. Naquele tempo, Balac, filho de Sefor, era rei dos moabitas. Este enviou mensageiros a Balaão, (...), para chamá-lo, dizendo: Eis que um povo saiu do Egito; cobre a face da terra e está estabelecido junto de mim. Vem, pois, agora, rogo-te, amaldiçoa para mim este povo, pois é mais poderoso do que eu. Assim poderei derrotá-lo e expulsá-lo da terra; porque sei que a quem tu abençoares será abençoado e a quem tu amaldiçoares será maldito..." (Nm 22,2-7).

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