NÚMEROS
Segunda Parte
Do Sinai às planícies de Moab

5.14. DE CADES ATÉ MOAB

A Bíblia tem os seus próprios métodos para relatar, que muito se diferenciam dos sistemas lógicos e ordenados em uso atualmente. Isso dificulta a compreensão cronológica dos fatos, fazendo com que se fixe apenas neles, sem os poder considerar na ordem em que se deram. Também, é de se ponderar que a maioria do que se relata vem sempre de tradições orais, aumentando-se as dificuldades, dada a impossibilidade de se determinarem as épocas exatas, além de oferecer até mesmo relatos que chegam a parecer contraditórios. Muitas vezes se esbarra com duas ou mais narrativas muito semelhantes em alguns detalhes e bem distintas em outros, sem que se possa definir por uma delas. Pior ainda é o fato de um acidente geográfico apresentar-se com o mesmo nome, mas em situações e locais bem diferentes.

Assim é que, relata-se a seguir, após uma exposição muito sucinta da morte de Maria, a irmã de Moisés (Nm 20,1), um fato que é conhecido por "Águas de Meriba" (Nm 20,2-11). Há uma aparente repetição do que já fora narrado quando em Rafidim, no deserto de Sin (Ex 17,1-7). Esse fato pode causar um desconforto quase insuportável, a ponto de se sentir tentado a desprezar toda a narrativa. Mas, muitos são os detalhes que fazem com que se admita a ocorrência de dois fatos semelhantes, em datas bem distintas, tendo entre ambas escoado pelo menos trinta e sete anos. O que favorece em muito essa conclusão parte do fato de que os Israelitas devem ter permanecido em Cades por todo esse tempo (Nm 20,1 / Dt 1,46 / Nm 33,36-38). É que não se mencionam especificadamente os locais exatos por onde os Israelitas peregrinaram durante os trinta e sete anos do tempo no deserto. Assim, é pela semelhança da "contestação", significado da palavra hebraica "Meriba", ocorrida em ambos, que se confundem. Mas, fazem-se as distinções entre eles aplicando-lhes nomes compostos, para se localizarem. Evita-se a confusão ao se denominar de Águas de Massa-Meriba (= "contestação" em Massa), o fato narrado anteriormente (Ex 17,1-7); e, de Águas de Meriba de Cades (= "contestação" de Cades), o que aqui se narra. O fato histórico de Meriba de Cades é confirmado em Nm 27,14; Dt 32,51; Sl 106,32; Ex 47,19; 48,28 etc.; e, a existência distinta de ambas as localidades vem destacada em Dt 33,8 e Sl 95,8. Por isso, as dificuldades em se compreender um relato das Escrituras não as deve comprometer, muito menos se pode desprezar a narração. Deve-se sempre buscar localizar e compreender a influência dos motivos culturais vigentes ao tempo da composição, e a intenção do escritor.

Outro exemplo desse método, é a interpretação do motivo que levou Iahweh a não permitir a entrada de Moisés e Aarão na Terra Prometida, e da mesma forma, aparentemente sem nenhuma gravidade ou lógica no relato feito:

"Moisés, pois, tomou a vara de diante de Iahweh, como este lhe ordenou. Moisés e Aarão reuniram a assembléia diante da rocha, e Moisés disse-lhes: Ouvi agora, rebeldes! Faremos brotar água desta rocha para vós? Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e jorrou água copiosamente, e a congregação e os seus animais beberam. Pelo que Iahweh disse a Moisés e a Aarão: Porque não crestes em mim, e assim me santificardes diante dos filhos de Israel, não introduzireis esta congregação na terra que lhes dei" (Nm 20,9-12).

"Moisés... feriu a rocha duas vezes com a sua vara..." / "Porque não crestes em mim não introduzireis esta congregação na terra que lhes dei" - Parece um absurdo se excluir Moisés e Aarão do término da Missão de que estavam investidos, apenas por ter Moisés desferido no rochedo "duas pancadas". E não é só isso o que concorre para essa dificuldade, pois é Moisés quem informa que a covardia dos exploradores da Terra de Canaã concorreu também para causar-lhe isso:

"...Também contra mim Iahweh se enfureceu por vossa causa, dizendo: 'Também tu lá não entrarás...'" (Dt 1,35-39).

Porém, é o Salmista quem esclarece essa aparente contradição da narrativa com aquela informação anteriormente feita (Nm 20,9-12). Com base no que diz, conclui-se que Moisés nada modificara, apenas afirmara a ocorrência das duas punições numa referência conjunta:

"Indignaram-no também junto às águas de Meriba, de sorte que resultou mal a Moisés por causa deles, porque perturbaram o seu espírito e ele falou imprudentemente com seus lábios" [Sl 106 (105),32-33].

Mesmo assim, é indispensável que se faça uma análise do contexto, confirmando-se as dificuldades emergentes da diferença cultural, principalmente quanto ao modo de se redigir. Inicialmente, observa-se que, quando ocorreu a outra crise de água em Rafidim, o próprio Moisés, então sem titubear, bateu na rocha uma só vez e a água jorrou (Ex 17,5-7). Esse fato mostra uma distinção entre as duas narrativas, caracterizando a ocorrência de dois fatos, apesar de idênticos. Aqui, em Cades, Moisés teve dificuldades em acatar a ordem de Iahweh e golpeia a rocha duas vezes em vez de "falar-lhe" apenas, como Iahweh determinara (Nm 20,8). Fundamental para a análise pretendida é considerar que Moisés empunhava a mesma vara que usara para os prodígios do Egito (Ex 4,2; 7,15; 9,23; 10,13; 14,16) e, também, com a qual fez jorrar a água em Rafidim (Ex 17,6). Tal como lá Iahweh mandou-o usar de novo a mesma "vara" (Ex 17,5c / (Nm 20,11), motivo por que não poderia ter titubeado nem duvidado:

"Iahweh disse a Moisés: Toma a vara, e reúne a congregação, tu e teu irmão Aarão e na sua presença falai à rocha que ela dê as suas águas. Assim lhes tirarás água da rocha, e darás a beber à congregação e aos seus animais.(...) Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e jorrou água com abundância, a congregação bebeu e também os seus animais" (Nm 20,7-8.11).

Foi ordenado por Iahweh que se reunisse todo o povo Israelita e que Moisés, "...na sua presença...", apenas e tão somente "...falasse à rocha" para "que ela dê as suas águas..." Ao invés disso, demonstrando incredulidade e impaciência, mescladas com acirrada ira, contra o povo apóstata, revoltado e indócil, Moisés tanto o agride com palavras (Nm 20,10) como a rocha com dois golpes (Nm 20,11). Pela punição que recebeu, essa ira de Moisés não deve ter sido branda nem se limitado apenas ao povo em si. Atingiu pela sua dúvida, e em cheio, o próprio Iahweh, e deve ter concorrido para o agravamento da apostasia que se alastrava. Ademais, compromete a fidelidade de Iahweh, assumida na Aliança, bem como a sua Misericórdia e Poder, atributos inarredáveis da Sua Santidade. É que, apesar da infidelidade do povo "rebelde", que nada merecia, tais atributos divinos manifestar-se-iam naquele simples "ordenar", pois "Deus é sempre fiel" (Rm 3,4). Tudo isso Moisés e Aarão comprometeram com a imprudência e a dúvida que tiveram, e por isso não lhes foi dado penetrar na Terra Prometida, comprometeram a fé:

"Moisés e Aarão reuniram a assembléia diante da rocha, e Moisés disse-lhes: Ouvi agora, rebeldes! Porventura tiraremos água desta rocha para vós? Então Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e saiu água copiosamente, e a congregação bebeu, e os seus animais. Pelo que Iahweh disse a Moisés e a Aarão: Porque não crestes em mim, para me santificar diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes dei" (Nm 20,9-12).

"...Porque não crestes em mim, para me santificar diante dos filhos de Israel...": - Moisés temia que Iahweh, por ter permitido o flagelo que dizimou catorze mil e novecentos e cincoenta homens (Nm 16,35 e 17,14, 'somados'), apesar de sua intercessão, agiria agora da mesma forma. Julgando que o povo não merecia e com o orgulho ferido, volta-se para o povo e lhe diz: "Ouvi agora, rebeldes! Porventura tiraremos água desta rocha para vós?" (Nm 20,10). Critica-os por causa da rebeldia assaz demonstrada e isso dificultara sua confiança, a ponto de irar-se, estado em que golpeia a rocha duas vezes desnecessariamente, com a conivência passiva de Aarão. Não se pode esquecer que Moisés era um ser humano e sujeito a todas as fraquezas pertinentes. Mesmo porque tanto Moisés como Aarão já estavam bem avançados em anos, praticamente os únicos sobreviventes de sua geração. Assim tanto a causa da impaciência como a da morte deles só pode ser também a velhice. E a explicação de sua morte antes da Terra Prometida, a partir de sua própria cultura, em confronto com a intimidade com Iahweh de que gozava, dificulta a sua compreensão, e leva-o à inexatidão. Tanto é assim que, apesar de tudo, vai terminar a narrativa com palavras que confirmam a manifestação da Santidade de Iahweh:

"Estas são as águas de Meriba, onde os filhos de Israel contenderam com Iahweh, que entre eles manifestou a sua santidade" (Nm 20,13).

"...entre eles manifestou a sua santidade" - torna-se evidente que a Santidade de Iahweh em referência não teria se manifestado somente no acontecimento das Águas de Meriba. Percebe-se que deve estar se referindo a todo o tempo da permanência em Cades, cujo nome traz na sua raiz a conotação de santidade ("kadós = santo", em hebraico). O narrador afirma que "o povo permaneceu em Cades" (Nm 20,1), frase inicial do assunto tratado, que termina nessa afirmativa da santidade de Iahweh. Então, Cades deve ter-se tornado um centro de apoio para as incursões nômades, durante os trinta e sete anos restantes. É o que se deduz considerando-se a época da morte de Aarão (Nm 33,38-39) em conjunto com as demais citações (Nm 20,1 / Dt 1,46 / Nm 33,36-38). Também, o fato de se justificar o motivo pelo qual Moisés e Aarão não entrariam na Terra Prometida só ser viável e oportuno naquele momento, em que o Povo se preparava para a conquista, e no final da permanência ali, já que em outra ocasião não teria o mesmo sentido:

"Os filhos de Israel e toda a congregação chegaram ao deserto de Sin no primeiro mês, e o povo permaneceu em Cades. (Nm 20,1)

"Foi grande a permanência em Cades, pois ali demorastes muitos dias." (Dt 1,46)

"Partiram de Asiongaber e acamparam no deserto de Sin, que é Cades. Partiram de Cades e acamparam no monte Hor, na fronteira de Edom. Então Aarão, o sacerdote, subiu ao monte Hor, conforme o mandado de Iahweh, e ali morreu no quadragésimo ano depois da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, no quinto mês, no primeiro dia do mês. Aarão tinha cento e vinte e três anos de idade, quando morreu no monte Hor" (Nm 33,36-39).

Então tudo o que se narra da partida de Cades em diante (Nm 20,14) acontece após o tempo de peregrinação do povo no deserto. Foi portanto, pedagogicamente aí conduzido por Iahweh, para a maturação e tomada de consciência de sua individualidade e nacionalidade, especialmente eleito para os compromissos da Aliança. Começa a demonstrar a eficácia dessa maturidade quando, em vez de tentar uma conquista imprudente, como a malograda em Horma (Nm 14,45), vai prudentemente em busca de outro caminho pelo país de Edom, seus parentes, os descendentes de Esaú. Apesar de relatar todas as vicissitudes por que passara desde o Egito, não consegue comover o Rei de Edom, mesmo com reiteradas promessas de em nada tocar nem nos campos nem nos poços de água. Nem mesmo com a menção do Anjo de Iahweh a conduzi-lo (Nm 20,16; cfr. Ex 14,19; 23,20; 32,34), nada consegue demovê-lo, e chega a pegar em armas para rechaçá-lo, forçando-o a desviar-se (Nm 20,20). Fracassada a tentativa, desvia, busca outro caminho, e atinge a "...Montanha de Hor, nos limites da Terra de Edom" (Nm 20,23), onde morre Aarão:

"Partiram de Cades; e os filhos de Israel, toda a congregação, chegaram ao monte Hor. E Iahweh falou a Moisés e a Aarão no monte Hor, nos limites da terra de Edom, dizendo: Aarão reunir-se-á a seu povo, porque não entrará na terra que dei aos filhos de Israel, porquanto fostes rebeldes à minha palavra nas águas de Meriba. Toma a Aarão e a Eleazar, seu filho, e faze-os subir ao monte Hor. Despe a Aarão das suas vestes, e veste com elas a Eleazar, seu filho, porque Aarão será reunido aos seus e ali morrerá. Fez, pois, Moisés como Iahweh lhe ordenara; e subiram ao monte Hor perante os olhos de toda a congregação. Moisés despiu a Aarão das suas vestes e vestiu com elas a Eleazar, seu filho. Morreu Aarão ali sobre o cume do monte e Moisés e Eleazar desceram dali. Viu toda a congregação que Aarão era morto e chorou-o toda a casa de Israel por trinta dias" (Nm 20,22-29 / cfr. tb. - Nm 33,38-39 / Dt 10,6).

O que fica realçado com a morte de Aarão é o sagrado das vestes sacerdotais que não podiam ter contato com o morto. Impunha-se por isso a "unção" de Eleazar, filho primogênito de Aarão, para substituí-lo, revestindo-o com elas antes da morte dele. Assim não seriam profanadas, nem o Santuário e também se investia Eleazar das funções de Sumo Sacerdote. Quando do castigo de Coré, se referiu à "morada dos mortos" dizendo-se que "desceu... ao Xeol" (Nm 16), termo subentendido ao se dizer que alguém foi sepultado. Aqui para significar a morte diz-se que "Aarão reunir-se-á aos seus", expressão usada com alguma diferença em outros locais (Gn 25,8.17; 35,29; 49,33; Jz 2,10). Se bem que não se tenha a mesma noção de vida eterna, tal como com Jesus Cristo, acreditava-se na sua continuidade junto com os antepassados, e até mesmo com toda uma geração (Jz 2,10). Bastou ao povo ver Eleazar vestido com a indumentária sacerdotal para saber que Aarão morreu, pelo que observaram o tempo de luto de trinta dias, que então se observava (v. tb. Dt 34,8)

A seguir vem narrada a nova investida contra os cananeus em Horma (Nm 21,1-3). Se a anterior fora um fracasso (Nm 14,45), agora é vitoriosa seguida do interdito de toda a localidade e habitantes, donde o nome de "Horma" (do hebraico, "herem" = interdito) e serve de estímulo a outras incursões. Ocorrem então novas dificuldades e apostasias no percurso do povo por causa de falta de alimentos e água no desvio de Edom. A referência "à falta de água e de alimentos" se parece com um artifício usado pelo narrador para não macular diretamente Israel com uma acusação de apostasia. Ocorre então nova rebeldia, pelo que sofre o "castigo" das mordeduras de serpentes venenosas enviadas por Iahweh. Após isso e, tendo contornado o território de Edom (Nm 21,4.10-20), vence os amorreus (Nm 21,21-32) e o rei de Basan (Nm 21,33-35). No episódio das serpentes "abrasadoras", Iahweh, por meio de Moisés, manifesta-se novamente: em Poder e Majestade

"Partiram do monte Hor, pelo caminho que vai ao Mar Vermelho, para rodearem a terra de Edom; e o povo impacientou-se por causa do caminho. E falou contra Elohim e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito, para morrermos no deserto? Pois não há pão nem há água: e temos fastio deste pão de miséria. Então Iahweh mandou entre o povo serpentes abrasadoras, que o mordiam; e morreu muita gente em Israel. Pelo que o povo veio a Moisés, e disse: Pecamos, porque temos falado contra Iahweh e contra ti; ora a Iahweh para que tire de nós estas serpentes. Moisés orou pelo povo e disse Iahweh a Moisés: Faze uma serpente de bronze, e põe-na sobre uma haste; e todo o que for mordido e olhar para ela viverá. Fez, pois, Moisés, uma serpente de bronze, e a pôs sobre uma haste; e quando alguém mordido por uma serpente contemplava a serpente de bronze, vivia" (Nm 21,4-9).

Iahweh usa a imagem da serpente para a penitência de todo aquele que, demonstrando seu arrependimento, olhasse para a imagem do ser que provocou o seu mal e pedisse a cura. Era esse ato de fé e confiança que causava a cura, por Iahweh, portanto, não pela serpente, tal como diz a Escritura:

"Com efeito, quando veio sobre eles o furor das feras e pereciam por mordeduras de serpentes tortuosas, a tua ira não durou para sempre. Eles só por pouco tempo estiveram nessa turbação para lhes servir de advertência e tiveram logo um sinal de salvação para o fazeres lembrar dos mandamentos da tua lei. Porque aquele que se voltava para o referido sinal não era curado em virtude do que via, mas por ti, que és o Salvador de todos os homens. Assim convenceste a nossos inimigos de que és tu quem livra de todo mal; ... Quanto aos teus filhos, não os venceram nem sequer as presas de serpentes venenosas, pois interveio a tua misericórdia e os salvou... Não os curou nem erva nem ungüento, mas a tua palavra, Iahweh, que a tudo cura! Porque tu tens poder sobre a vida e a morte, fazes descer às portas do Hades e daí regressar" (Sb 16,5-12).

Jesus vai apresentar esse fato, da cura do corpo no deserto, para aquele que olhar uma Serpente de Bronze levantada numa haste, como "figura" da cura total do corpo e da alma daquele que O olhar Levantado na Cruz. Da mesma forma a fé trará, ao que crer, a vida eterna, numa cura completa de corpo e alma, na santificação cristã. É ela uma figura profética do Cristo Crucificado, conforme viram alguns Padres da Igreja dos Primórdios. Assim como uma serpente que tinha a mesma forma da venenosa, sem ter veneno, curou do veneno os que nela olharam, Cristo na Cruz, verdadeiro homem e sem ter pecado, cura do pecado aqueles que nele olharem com fé:

"Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que crê nele tenha a vida eterna." (Jo 3,14-15).

Tanto a elaboração dessa Imagem da Serpente como a da Arca da Aliança são evidências claras de que a proibição das imagens no Decálogo se referia à adoração dos ídolos pagãos, tal como ensina a Igreja pelo seu magistério:

"IV. - "Não farás para ti qualquer imagem esculpida"

Esta imposição divina comportava a interdição de qualquer representação de Deus por mão do homem. O Deuteronômio explica: "Tomai cuidado convosco; não viste figura alguma, no dia em que o Senhor vos falou do meio do fogo, no Horeb. Evitai, pois, perverter-vos, fabricando qualquer ídolo como representação ou símbolo do que quer que seja" (Dt 4,15-16). Deus que se revelou a Israel é o Deus absolutamente transcendente. "Ele é tudo", mas, ao mesmo tempo, "está acima de todas as suas obras" (Sir 43,27-28). Ele é "a própria fonte de toda a beleza criada" (Sb 13,3).

No entanto, já desde o Antigo Testamento Deus ordenou ou permitiu a instituição de imagens, que conduziriam simbolicamente à salvação pelo Verbo Encarnado: por exemplo, a serpente de bronze (cfr. Nm 21,4-9; Sb 16,5-14; Jo 3,14-15), a arca da aliança e os querubins (cfr. Ex 25,10-22; 1Rs 6,23-28; 7,23-26)" (Catecismo da Igreja Católica, ns.º 2129 e 2130, leia-se até o n.º 2132, destaques a propósito).

Por sua vez, São Paulo também usa dos dois fatos, a Água do Rochedo e a Serpente de Bronze, tanto para a instrução dos fiéis, como para demonstrar o vínculo indestacável entre o cristianismo e o Povo de Israel. Identifica-se assim com a afirmação de Cristo de que o cristianismo é a continuidade e "cumprimento de tudo" o que fora anunciado (Mt 5,17-18):

"Pois não quero, irmãos, que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar; e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés. Todos comeram do mesmo alimento espiritual; e beberam todos da mesma bebida espiritual, porque bebiam do rochedo espiritual que os acompanhava; e o rochedo era Cristo. Mas Deus não se agradou da maior parte deles; pelo que foram prostrados no deserto. Ora, estas coisas nos foram feitas como figura, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos torneis, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: "O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para divertir". Nem nos prostituamos, como alguns deles fizeram; e caíram num só dia vinte e três mil. E não tentemos o Senhor, como alguns deles o tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como alguns deles murmuraram, e pereceram pelo exterminador. Ora, tudo isto lhes acontecia em figura, e foi escrito para nossa advertência, para quem já são chegados os fins dos séculos. Aquele, pois, que pensa estar em pé, cuidado em não cair" (1 Cor 10,1-12).

"E não tentemos o Senhor, como alguns deles o tentaram..." - São Paulo, tal como a tradição de seu tempo, assim classifica o ato que suscitou a punição das serpentes. Por sua vez, o Catecismo da Igreja Católica define e explica o que seja "Tentar o Senhor", e em que está a sua gravidade:

"2119 A ação de tentar a Deus consiste em pôr à prova, por palavras ou por atos, a Sua bondade e a Sua onipotência. Foi assim que Satanás quis que Jesus se atirasse do Templo e, com isso, levasse Deus a intervir (Cf. Lc 4,9). Jesus opôs-lhe a Palavra de Deus: "Não tentarás o Senhor teu Deus" (Dt 6,16). O desafio contido em tal tentação de Deus ofende o respeito e a confiança que devemos ao nosso Criador e Senhor. Contém sempre uma dúvida com respeito ao Seu amor, à Sua providência e ao Seu poder (1 Co 10,9; Ex 17,2-7; Sl 95,9, negritos propositais)."

Não é necessário mais nenhuma observação pela clareza do que se transcreveu, onde transparece a dimensão do ato praticado. São Paulo, também, usa a imagem de "figuras" ou "tipos" que teriam sido usadas para se vislumbrar a futura realidade do retorno ao Paraíso, o desígnio de Deus para o Homem (1 Pe 3,21; Hb 9,24; Gl 4,24; 1 Cor 9,9-10; Rm 4,23-24; 5,14; 15,4; 2 Tm 3,16). São como que sementes lançadas no solo do Antigo Testamento que irão brotar e dar frutos no Novo, com Jesus Cristo. Não é diferente o ensinamento secular do Ministério da Igreja, conforme o Catecismo da Igreja Católica:

"128 A Igreja, já nos tempos apostólicos (Cf. 1 Cor 10,6.11; Hb 10,1; 1 Pe 3,21), e depois constantemente na Tradição, iluminou a unidade do plano divino nos dois Testamentos, graças à tipologia. Esta descobre nas obras de Deus, na Antiga Aliança, prefigurações do que Deus realizou na plenitude dos tempos, na pessoa de Seu Filho encarnado.

129 Os cristãos lêem, pois, o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado. Esta leitura tipológica manifesta o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento. Mas não deve fazer esquecer que ele mantém o seu valor próprio de Revelação, reafirmado pelo próprio Jesus, Nosso Senhor (Cf. Mc 12,29-31). Aliás, também o Novo Testamento requer ser lido à luz do Antigo. A catequese cristã primitiva recorreu constantemente a este método (1 Cor 5,6-8; 10,1-11). Segundo um velho adágio, o Novo Testamento está oculto no Antigo, enquanto o Antigo é desvendado no Novo: "Novum in Vetere latet et in Novu Vetus patet" [= "O Novo está oculto no Velho, e o Velho está patente no Novo" - Santo Agostinho, Quaestiones in Heptateucum 2,73: CCL 33, 106 (PL 34,623); cf. Concilio do Vaticano II, Const. Dogm. Dei Verbum, 16; AAS 58 (1966) 825]."
(.......)
"1094 É nesta harmonia dos dois Testamentos (Cf. Concilio do Vaticano II, Const. Dogm. Dei Verbum, 14-16: AAS 58 (1966) 824-825) que se ordena a catequese Pascal do Senhor (Cf.
Lc 24,13-49) e, depois, a dos Apóstolos e dos Padres da Igreja. Esta catequese desvenda o que estava oculto sob a letra do Antigo Testamento: o mistério de Cristo. É denominada "tipológica", porque revela a novidade de Cristo a partir das "figuras" (gr. - "tipois") que a anunciavam nos fatos, palavras e símbolos da primeira. Por esta releitura no Espírito de verdade a partir de Cristo, as figuras são desvendadas (Cf. 2 Co 3,14-16). Assim, o dilúvio e a Arca de Noé prefiguravam a salvação pelo Batismo (Cf. 1 Pe 3,21); igualmente a nuvem e a travessia do Mar Vermelho, e a água do rochedo eram a figura dos dons espirituais de Cristo (Cf. 1 Co 10,1-6); e o maná do deserto prefigurava a Eucaristia, "verdadeiro Pão do Céu" (Jo,6,32)."

Após tais acontecimentos, e por eles fortalecidos, tomando consciência de sua nacionalidade e força, ultrapassada a apostasia, prosseguem os Israelitas a sua peregrinação. Tomam posse de algumas terras conquistadas, nelas se estabelecem (Nm 21,25.31-35) e atingem as Planícies de Moab (Nm 22,1; 33,48-54). Aproximam-se da Terra que lhes fora Prometida em "herança" (Gn 12,7; 13,14-15; 15,7-19; 17,8):

"Israel tomou todas as cidades dos amorreus e habitou nelas, em Hesebon e em todas as suas aldeias... Assim Israel estabeleceu-se na terra dos amorreus. Então Moisés mandou exploradores a Jazer, tomaram as suas aldeias e expulsaram os amorreus que ali estavam. Então viraram-se e subiram pelo caminho de Basan. Og, rei de Basan, saiu-lhes ao encontro com todo o seu povo para combatê-los em Edrai. Disse Iahweh a Moisés: 'Não o temas, porque o entreguei na tua mão, ele, o seu povo e a sua terra; e far-lhe-ás como fizeste a Seon, rei dos amorreus, que habitava em Hesebon.' Assim o feriram, a ele e seus filhos, e ao seu povo, até que nenhum sobrevivente lhe restou. E também se apoderaram da sua terra" (Nm 21,25.31-35).

"Depois os filhos de Israel partiram, e acamparam nas planícies de Moab, além do Jordão, na altura de Jericó" (Nm 22,1).

Tal como em outras ocasiões na Bíblia comemoram-se tais conquistas com cantos e recitações heróicas e épicas (Nm 21,14.16-18.27-30 / Ex 15; Nm 23,6-10.18-24; Nm 24,3-9.15-24; Dt 32; 33; Jz 5; 9,7-15; 1Sm 2,1-10; 2Sm 22; 23,1-7 etc.). Este fato reflete a tendência natural da cultura ainda rudimentar, que procura gravar tudo em poesias, cujo ritmo e cadência com a métrica repetitiva facilitam a memorização. Têm-se exemplos disso até mesmo no Novo Testamento, no Magnificat de Maria (Lc 1,46-56), no Benedictus de Zacarias (Lc 1,67-79), o Nunc Dimitis de Simeão (Lc 2,29-32), também em vários trechos tais como: Ef 1,3-14.20-23; 2,14-18; Flp 1,6-11; Col 1,15-20 etc..

Não se pode deixar de observar certas frases cujo teor lembra outras auxiliando a interpretação:

"Partindo de lá, apareceu o poço sobre o qual Iahweh tinha dito a Moisés: Junta o povo, e eu lhe darei água. Então cantou Israel este cântico:

Jorra, poço! Aclamai-o!

Poço cavado por chefes,

perfurado pelos nobres do povo,

com seus cetros, com seus cajados" (Nm 21,16-18).

"Poço cavado por chefes, perfurado pelos nobres do povo, com seus cetros, com seus cajados" - destaca-se aqui a identidade de referência ao ato praticado por Moisés. Mais ainda se acentua isso na frase que serviu de título ao dizer: "Partindo de lá, apareceu o poço sobre o qual Iahweh tinha dito a Moisés: Junta o povo, e eu lhe darei água" - assim, é de se crer que a elegia comemora os vários atos em que a falta de água se fez sentir e exigiu da chefia dos clãs providências significadas pelo mesmo gesto de Moisés.

Nota: - É bom que se alerte quanto a algumas expressões que causam algumas dificuldades. É o caso de Nm 15,23 que teria literalmente a redação aproximada de: "...tudo o que Iahweh vos tem ordenado por intermédio de Moisés, desde o dia em que Iahweh o ordenou para as vossas gerações...". Pode-se admitir que teria sido escrita por outra pessoa, pela referência oblíqua que faz de Moisés, e algum tempo após, em acréscimo. Por causa disso não se deve deduzir que não estivesse em vigor ao tempo de Moisés, mas apenas evidencia a inclusão na lei, em época diferente, daquilo que sempre foi do conhecimento, uso e concordância de toda a comunidade. Chama-se a essa inclusão de glosa. A sua inclusão não compromete nem a legitimidade da narrativa nem a da Escritura. É também fruto da Inspiração do Espírito Santo, o Autor de toda a Bíblia em conjunto

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