NÚMEROS
Segunda Parte
Do Sinai às planícies de Moab

5.12. AS FUNÇÕES, A SUBSISTÊNCIA E A "HERANÇA" DO SACERDÓCIO

A tranqüilidade total e definitiva proporcionou Iahweh, ao confirmar o Sacerdócio de toda a Tribo de Levi, não mais podendo ocorrer uma aproximação profana dos rituais sagrados. Tem lugar inicialmente a deposição de varas ou cajados na Tenda da Reunião, representando cada tribo. Porém, a de Aarão, colocada no mesmo local, representaria toda a Tribo de Levi. Nessas condições, fica clara a submissão de toda ela à chefia de Aarão no exercício perene e exclusivo do Sacerdócio. Mais ainda, com isso afasta-se a possibilidade de morte dos membros das demais (Nm 18,5.22.32), vedado o oferecimento de algum Sacrifício, sem as condições de santificação e consagração necessárias. Essa conclusão se chega ao se ler sem pausa e num lance só o final do capítulo dezessete e o início do dezoito, em seguida ao alerta feito pelos próprios Israelitas:

"Iahweh disse a Moisés: 'Torna a colocar a vara de Aarão perante o testemunho, como sinal para os rebeldes;... a fim de que não morram. Assim fez Moisés como lhe ordenara Iahweh. Então disseram os filhos de Israel a Moisés: Vede que estamos perdidos! Eis que expiramos, todos pereceremos. Todo aquele que se aproximar do Santuário de Iahweh para fazer a oferenda, morrerá. Porventura pereceremos todos?"

"Disse Iahweh a Aarão: Tu e teus filhos, e a casa de teu pai contigo, levareis a iniqüidade do santuário; e tu e teus filhos contigo levareis a iniqüidade do vosso sacerdócio. Faze, pois, chegar contigo também teus irmãos, os Levitas... assumirão o encargo de toda a tenda; mas não se chegarão aos utensílios do santuário nem ao altar, para que tanto eles como vós não venhais a morrer. Mas se ajuntarão a ti, e assumirão o encargo da tenda da reunião, para todo o serviço da tenda; e o estranho não se aproximará de vós. Vós, pois, assumireis o encargo do santuário e o encargo do altar, para que não haja outra vez furor contra os filhos de Israel. Eis que eu tenho tomado vossos irmãos, os levitas, do meio dos filhos de Israel; serão para vós uma doação, feita a Iahweh, para fazer o serviço da tenda da reunião. Mas tu e teus filhos contigo cumprireis o vosso sacerdócio no tocante a tudo o que é do altar, e a tudo o que está dentro do véu; nisso servireis. Eu vos dou o sacerdócio como dom ministerial, e o estranho que se chegar será morto" (Nm 17,25-28) / (Nm 18,1-7).

Mais uma vez aparece a deficiência que traz a inobservância seqüencial de um assunto, após o final de um capítulo. Reproduzindo, para melhor comparar, o destaque feito, e colocando-se como se formasse a seqüência da mesma narração, compreende-se melhor. Isto é, desprezando-se a pausa do fim do capítulo, e abordando-se imediatamente o início do seguinte, como se fossem de um só, tem-se:

"Todo aquele que se aproximar do Santuário de Iahweh para fazer a oferenda, morrerá. Porventura pereceremos todos? Disse Iahweh a Aarão: Tu e teus filhos, e a casa de teu pai contigo, levareis o peso das faltas cometidas com relação ao Santuário. Tu e teus filhos contigo levareis o peso das faltas do vosso sacerdócio" (Nm 17,28-18,1).

Isto é, para não morrer ninguém que compareça ao Santuário, fazendo ele mesmo a oferenda, "... para que não haja outra vez furor contra os filhos de Israel" (Nm 18,5.22.32), Aarão, seus Filhos e os da casa de seu pai, os levitas, ficarão responsáveis pelo ofício sagrado no Santuário. É esse o sentido da expressão "levareis o peso das faltas" ou "levareis a iniquidade", em linguagem bíblica, excluindo-se a possibilidade de culpa ou de iniqüidade com o exercício não consagrado do Sacerdócio, pelo que "...o estranho que se chegar será morto". São Paulo evoca e lembra essa necessidade da consagração, quando compara o Sacerdócio Israelita com o Sacerdócio de Cristo na Epístola aos Hebreus. Do "Ungido" (=Cristo), que " não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse (...): "Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque":

"Porque todo sumo sacerdote tomado dentre os homens é constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados, podendo ele compadecer-se devidamente dos ignorantes e errados, porque também ele mesmo está rodeado de fraqueza. E por esta razão deve ele, tanto pelo povo como também por si mesmo, oferecer sacrifício pelos pecados. Ora, ninguém toma para si esta honra, senão quando é chamado por Deus, como o foi Aarão. Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: "Tu és meu Filho, hoje te gerei". Também em outro lugar diz: "Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque" (Hb 5,1-6).

Assim, toda a Tribo de Levi foi "separada" (= "santificada" ou "consagrada") para o múnus sacerdotal pelo próprio Iahweh. Ministério esse que se deveria exercer em benefício de todo o Povo dos Filhos de Israel, ao comando da Casa de Aarão. Assim destinado e com tanta concentração de poder, não poderiam exercer outra atividade que a das necessidades religiosas demandadas pela Aliança, tendo por centro o Sacrifício. Para isso necessitavam e teriam provisão, advinda das demais tribos, suficiente para a subsistência pessoal e familiar, possibilitando-lhes a dedicação exclusiva:

"Disse mais Iahweh a Aarão: 'Eis que eu te dou as minhas primícias com todas as coisas consagradas dos filhos de Israel; a ti as dou como porção, e a teus filhos como direito perpétuo. Das coisas santíssimas não queimadas serão tuas: todas as suas oferendas, as oblações, as oferendas do sacrifício pelo pecado e todas as oferendas do sacrifício de reparação, que me entregarem serão santíssimas e pertencer-te-ão e a teus filhos. Num lugar santo as comerás, delas todo varão comerá e serão santas para ti. Também isto será teu: as primícias... dou-as a ti, a teus filhos, e a tuas filhas contigo... para sempre. Todo o que na tua casa estiver puro poderá comer delas. Tudo o que do azeite há de melhor, e tudo o que do vinho novo e do trigo há de melhor, as primícias destes dadas a Iahweh, dou-as a ti. Os primeiros frutos de tudo o que houver na sua terra, que trouxerem a Iahweh, serão teus. Todo o que na tua casa estiver puro comerá deles. Toda coisa consagrada em Israel será tua. Todo primogênito de toda a carne, que oferecerem a Iahweh, tanto de homens como de animais, será teu... (...) Todas as primícias do santuário, (...) dou-as a ti, a teus filhos e a tuas filhas contigo, como porção, para sempre: é uma aliança de sal perante Iahweh, para ti e para a tua descendência contigo'" (Nm 18,8-19).

Este trecho é de muita importância na organização do Santuário, e da vida religiosa, política e familiar do Povo de Israel., por causa da divisão da Terra Prometida entre as doze tribos dos filhos de Jacó. Acontece que Jacó adotou Manassés e Efraim como filhos. Assim, deveria ter sido aumentado em duas o número delas, que passariam a catorze; mas, deduzindo-se a de José, substituído que foi pelos filhos adotados, passa a treze, que, após a destinação da de Levi ao Sacerdócio se reduz a doze novamente. A Tribo de Levi não receberia a sua cota da "herança" em propriedades, tal como as demais entre as quais seria dividida a Terra Prometida, como "herança":

"Disse também Iahweh a Aarão: Na terra deles não terás herança e no meio deles nenhuma porção terás; eu sou a tua porção e a tua herança entre os filhos de Israel.(...) Os levitas farão o serviço da tenda da reunião, (...) e nenhuma herança terão no meio dos filhos de Israel. Aos levitas dei por herança os dízimos que os filhos de Israel separam para Iahweh. Eis porque eu lhes disse que nenhuma herança teriam entre os filhos de Israel" (Nm 18,20.23-24).

Não se trata de se deserdar a Família de Aarão ou os levitas, mas de tipo diferente de entrega do direito de herança da tribo, uma vez que Iahweh seria "...a tua porção e a tua herança entre os filhos de Israel", bem como "...aos levitas dei por herança os dízimos que os Filhos de Israel separam para Iahweh..." Aquilo que é "separado" para Iahweh é a "herança" da Tribo de Levi, a Família de Aarão e dos demais Levitas, traduzido em toda e qualquer oferenda de um Sacrifício bem como nas primícias, nos primeiros frutos, nos primogênitos de todos os animais e todas as demais:

"Disse Iahweh a Aarão: Eis que te dei as minhas primícias, com tudo aquilo dos filhos de Israel que é separado para mim; a ti eu dou como a sua porção, e a teus filhos como direito perpétuo. Das coisas santíssimas não queimadas serão tuas todas as oferendas que me apresentarem das oblações, dos sacrifícios de expiação e os dos de reparação. (...) Num lugar santo as comerás..." (Nm 18,8-10).

Por disposição legal perpétua destinam-se aos Sacerdotes, "...como a sua porção..." hereditária, aquelas ofertas incruentas, as oblações, as partes que não se queimam (Lv 2,3.10), separadas para Iahweh, as oferendas destinadas aos Sacerdotes ou ao Santuário (Ex 23,15c.19 / cfr. Lv 6,7-11; / Lv 7 etc.). Essa distribuição já foi analisada quando se delineou os Sacrifícios no Livro de Levítico, principalmente no que se refere aos Direitos dos Sacerdotes (n.º 9 [2.º] e 10 [2.º], anteriores). Essa função ministerial tem a forma de uma Aliança de Sal contraída com Iahweh, que é perene e imutável. Tem a mesma forma como será a contraída com Davi, cotejando-a com as referências que lhe faz o Profeta Jeremias, e também à dos levitas:

"...Assim diz Iahweh: se puderdes invalidar a minha aliança com o dia, e a minha aliança com a noite, de tal modo que não haja dia e noite a seu tempo, também se poderá invalidar a minha aliança com Davi, meu servo, para que não tenha filho que reine no seu trono; como também a aliança com os sacerdotes levíticos, meus ministros..." (Jr 33,17-22)

"Sabeis muito bem que o Senhor Deus de Israel concedeu a Davi o direito de reinar sobre Israel para sempre, a ele e seus descendentes, por uma aliança de sal" (2Cro 13,4-5).

Nesta oportunidade do estudo da Bíblia, bom será uma visão do significado certo do que vulgar e genericamente se conhece como "dízimo". Assim, para um embasamento bíblico do que se introduz na vida católica com este nome, é indispensável rever alguns elementos e princípios a seu respeito no Antigo Testamento. Será necessário, no entanto, repetir algumas noções já vistas, cuja repetição concorrerá eficazmente para o entendimento conjunto e coordenado.

Em princípio, o uso identifica-se ao cumprimento daquela ordem aos Israelitas, ainda no Sinai, a fim de que "ninguém compareça a minha presença de mãos vazias", qual seja, sem entregar-Me vítimas para o Sacrifício e ofertas para a edificação do Santuário (Ex 23,15b). Este Santuário foi erigido para que Iahweh "habite no meio deles" (Ex 25,8-9). Outro dado indispensável é o fato do Povo de Israel ter sido formado pelas doze tribos oriundas dos Filhos de Jacó, em torno da Aliança de Iahweh contraída com Abraão. Uma delas, a Tribo de Levi, foi separada para o exercício perene do Sacerdócio (Dt 18,1-5). Dela, a Família de Aarão, receberia as "coisas consagradas a Iahweh", as "coisas santíssimas", em lugar da herança em propriedades. Destacam-se dentre elas: "todos os tributos, todas as coisas consagradas num sacrifício, as oblações, as partes melhores do azeite, do vinho e do trigo e as primícias, os primogênitos dos animais etc." (Nm 18,8-10), bem como tudo o que fosse consagrado ou separado como oferenda a Iahweh (Nm 18,11-19). Por sua vez, conforme o mesmo direito de herança, às demais famílias da mesma tribo, aos Levitas, destinara-se a "décima parte" de todos os rendimentos, os "dízimos" (Nm 18,21), os quais também entregavam o dízimo do que recebiam ao Sacerdócio de Aarão ou Pleno (Nm 18,26-28). Essa quantia de dez por cento (dízimo) foi estipulada com base na proporção das tribos que assim lhes entregava a cota certa, conforme o número restante delas, considerando-se logicamente o que receberam em cidades (Nm 35,2-5). Compensava-se assim, de ambos os modos e de maneira justa, a herança que a tribo não recebera em propriedades: (Nm 18,21-32).

Desde os Patriarcas e prosseguindo-se com a institucionalização da Aliança no Monte Sinai, a vida Israelita girava em torno do Sacrifício, o centro do culto (Lv 1-7), pelo qual operava-se a santificação pela "comunhão com o Altar" (1Cor 10,18). Por isso, até mesmo no cotidiano, não se comia com o sangue (Lv 17) nem se nutria de animais impuros (Nm 11) e se purificava com as abluções antes das refeições (Mc 7,1-4). Foi instituído um Sacerdócio Perene (Ex 29), que, em virtude da Unção recebida (Ex 30,30), congregava em santidade com Iahweh toda a comunidade nacional Israelita (Lv 16 / Lv 19,2-37). Coerentemente, a entrega da herança de ambas as famílias, Aaronitas e Levitas, somente se consumava num ritual sagrado e próprio a alguns tipos de sacrifícios (Nm 18,20-21 / Lv 27,30 / Dt 14,22-23; 12,5-7). Assim, o Sacrifício e o Sacerdócio formavam uma unidade convergente da Nação Israelita com Iahweh, e eram então vinculados pela herança representada por várias Oferendas dos Sacrifícios, dentre elas o Dízimo. O caráter sacrificial aparece no próprio ato de Iahweh instituir o modo de distribuir à Tribo de Levi a sua herança:

"Das coisas santíssimas que não são queimadas serão tuas todas as oblações, todas as oferendas do Sacrifício pelo pecado e todas as do sacrifício de expiação pela culpa, que me entregarem; estas coisas santíssimas vos pertencem, a ti e a teus filhos. Num lugar santo as comerás; delas todo varão comerá; serão santas para ti" (Nm 18,9-10).

"Num lugar santo as comerás..." Esta frase determina o caráter sacrificial da entrega das oferendas, que vai ser reafirmado também na terminologia usada quando da instituição do Santuário Único, ao ser dito em acréscimo:

"...levareis para lá vossos holocaustos e vossos sacrifícios, vossos dízimos e os dons de vossas mãos, vossos sacrifícios votivos e vossos sacrifícios espontâneos, os primogênitos de vossas vacas e das vossas ovelhas e comereis lá diante de Iahweh vosso Deus..." (Dt 12,5-7).

Então, a herança da Tribo de Levi, deveria ser "comida", tal como o contexto manda, "diante de Iahweh", isto é, seria oferecida em Sacrifício. Por isso essa herança assim entregue à Tribo de Levi receberia um nome genérico ou de "oferendas" ou "ofertas", por se tratar de "vítimas ou oblações que seriam oferecidas nos sacrifícios". Verifica-se assim que "o dízimo" era "uma das oferendas" dos Israelitas destinadas aos Sacerdotes, como herança, "e não a única". O que se destaca com o uso deste termo "comer" é que durante a sua celebração, as oferendas deveriam ser "imoladas e oferecidas como vítimas", e seriam "comidas". As suas partes eram distribuídas entre os participantes, que delas se alimentavam, formando uma comunhão com Iahweh pela combustão (Lv 3,11 / 1Cor 10,18) e pela entrega da parte destinada aos sacerdotes (Lv 6,7-23; 8,1-21.28-38). Esse aspecto das dimensões teológicas dos sacrifícios foi abordado quando se estudou o Livro de Levítico (cfr. tb. n.º 9 [2.º] e 10 [2.º]). Assim, assumiriam a condição de vítimas consagradas para a santificação de todos (Ex 30,25-29) e, pela parte imolada, era também santificada a totalidade das oferendas entregue (Dt 12,5-7 / Rm 11,16). Por ai se vê que a entrega das Oferendas, e dentre elas o Dízimo, era um ato de culto num sacrifício solene, no qual "se comia", e pelo qual se santificava (Mt 23,19) e se entrava em comunhão com Deus (1Cor 10,18):

"Qual é maior: a oferenda ou o altar que santifica a oferenda?" (Mt 23,19)

"...Os que comem dos sacrifícios não são participantes do altar?" (1Cor 10,18).

O dízimo era uma das oferendas, a parte reservada aos levitas, a "décima parte da produção" de cada um e conforme o número das tribos que receberam a herança. E, como atualmente na Igreja não há esse objetivo hereditário, não se deve denominar "dízimo". Além disso, o valor atual das "oferendas" deve ser fruto da vivência eclesial de cada membro da comunidade, não mais uma porcentagem. Assim é que o Código de Direito Canônico não usa mais esta terminologia e não estabelece diretamente uma determinada proporção com a renda do fiel, mas a dirige objetivamente para a vivência pastoral da comunidade eclesial:

"Cân. 222. § 1.º - Os fiéis têm obrigação de socorrer às necessidades da Igreja, a fim de que ela possa dispor do que é necessário para o culto divino, para as obras de apostolado e de caridade e para o honesto sustento dos ministros.

§ 2.º - Têm também a obrigação de promover a justiça social e, lembrados do preceito do Senhor, socorrer os pobres com as próprias rendas."

Faz referência direta a este dispositivo do Código de Direito Canônico, o Catecismo da Igreja Católica, n.º 2043, 2.ª Parte, ao dizer que "os fiéis têm ainda a obrigação de atender, cada um de acordo com as suas possibilidades, às necessidades materiais da Igreja". Assim, uma das principais finalidades das oferendas é a "manutenção do culto divino", além das "obras de apostolado e de caridade e o honesto sustento dos ministros". E, por serem genéricas devem ser satisfeitas em um ato de culto comunitário da Igreja vinculado ao pastoral, nunca individual e financeiro.

Observe-se os elementos que compõem as oferendas, tais como:

"...levareis para lá vossos holocaustos e vossos sacrifícios, vossos dízimos e os dons de vossas mãos, vossos sacrifícios votivos e vossos sacrifícios espontâneos, os primogênitos de vossas vacas e das vossas ovelhas e comereis lá diante de Iahweh vosso Deus..."(Dt 12,5-7) ou "todos os tributos, todas as coisas consagradas num sacrifício, as oblações, as partes melhores do azeite, do vinho e do trigo e as primícias, os primogênitos dos animais etc." (Nm 18,8...até o final).

Facilmente se verifica nessas transcrições que a satisfação de uma espécie não exaure a obrigação totalmente. Dai por que, pelo fato de se entregar a oferenda não se exclui o dever de se entregar também a espórtula da Missa (Dt 26,2) nem a participação em outras obras que porventura se organizem na comunidade nem o dever de contribuir para as vocações sacerdotais ou para outras obras de apostolado ou da vida cristã em geral, nem substitui a "obrigação de promover a justiça social e de socorrer os pobres com as próprias rendas" etc..

E, como o ato de "comer" no Antigo Testamento era um ato praticado num Sacrifício, e o Sacrifício do Novo Testamento é o Sacrifício Eucarístico, onde se "come" o "Corpo de Cristo", é no Ofertório da Missa que deverão se entregar as "oferendas" para o Novo Sacrifício. Assim sendo, a "Teologia das Oferendas", qual seja a busca da santificação pela comunhão com Deus, é que deve nortear a implantação delas numa comunidade. O que se entrega no Ofertório é uma "oferenda" para ser consagrada e "comida", para a santificação. É a "hóstia" ou "vítima", e não uma porcentagem da renda individual ou da comunidade. E o lugar da entrega é no Altar, "que santifica a oferenda" (Mt 23,19, palavras de Jesus tal como Ex 30,27-29), e durante o Ofertório da Missa, na Coleta, antes da "Bênção das Oferendas", tal como era, de há não muito tempo, e desde o princípio do cristianismo. Podem-se ler indícios disso em alguns Ordinários de Missa, anteriores ao Concílio do Vaticano II, após o Prefácio e após o refrão "Santo, Santo, Santo...", quando se pede um pouco abaixo: "... vos suplicamos que Santificai pelo Espírito Santo "as oferendas" que vos "apresentamos" para serem consagradas, a fim de que se tornem o Corpo e o Sangue de Jesus..."

- Que oferendas seriam essas que se pede para serem santificadas?

- Só pode estar se referindo ao pão e ao vinho, "ainda não consagrados".

- De onde vieram essas "oferendas"? Como se formaram?

- O próprio nome de Ofertório, dessa parte da Missa, lembra a ocasião das ofertas dos fiéis na Coleta. O próprio Ordinário da Missa, bem no início ao falar do Pão e do Vinho os diz "Frutos da Terra (da Videira) e do Trabalho do Homem". Então, o que ali se "apresenta" para ser santificado são as "oferendas" dos fiéis depositadas no Ofertório, que tornaram possível à Igreja o Pão e o Vinho para os consagrar. É para onde converge toda a atividade da Igreja: - para a Eucaristia -, "a fonte e o ápice da Vida Cristã", como ensina o Concílio do Vaticano II. E a Eucaristia é o Sacrifício onde a "vítima" (= a "hóstia") é o próprio Jesus.

Porém, quanto ao modo do recebimento delas, pode haver necessidade de ordem no manuseio dos valores. Por isso, no caso de ser necessária a entrega em local para isso preparado, uma parte deve ser "religiosamente" depositada na Coleta, durante o Ofertório, "para ser comida", significando o cumprimento do preceito, para a santificação do todo pela santificação da parte (Rm 11,16 / Nm 15,20 / Lv 23,15). Isso ainda porque a Oferenda não deve ter apenas o aspecto financeiro ou econômico, nem mesmo o caritativo, mas o caráter de um culto sagrado, de santificação e comunhão. É que ela vai se tornar o Cristo Eucarístico, a vítima do Sacrifício, formada com a aplicação material dos valores depositados no Ofertório.

Por outro lado, não há lugar para se dividir a comunidade em "ofertantes (dizimistas)" e "não ofertantes (não dizimistas)": "Deus não faz acepção de pessoas" (At 10,34, Dt 10,17; Rm 2,11; Gl 2,6; 1Pe 1,17). Não se deve perder de vista que no Corpo Místico "somos membros uns dos outros", a tal ponto que, mesmo aqueles que não tiverem condições de depositar a oferenda, também a entregam quando outro a faz e, mesmo aquele que por carência de recursos, recebe das oferendas uma assistência, participa da mesma forma da santificação advinda da entrega dela por outro (1 Cor 12,11-30 / Rm 12,3-8). O Corpo Místico de Cristo, no qual somos membros uns dos outros, não é uma figura de ficção, é uma realidade (Rm 12,4-8). Claro fica que, das graças advindas da entrega consciente, participa somente quem se identifica ao ato de todo o Corpo Místico de Cristo no Sacrifício, pelo qual com o fruto de seu trabalho, com a oferenda, se torna "vítima por, com e em Jesus".

O essencial é que seja entregue no Ofertório pelo menos uma parte, tal como instituído e em uso pelos primeiros cristãos, como um ato de culto. Deduz-se isso da etimologia da palavra espórtula, do latim sportula que significa cesto, do uso antigo de se "entregar ao sacerdote" e durante o Ofertório, "as primícias num cesto", tal como mandam as Escrituras Sagradas (Dt 26,2), ato que antecedia e era a causa do "Lava-Mãos". A "Oferenda" é a vítima do sacrifício, "a hóstia", que se deposita no Altar para ser santificada e se destina a estabelecer a comunhão com Deus e com todos os irmãos em Cristo, cujo "corpo é verdadeiramente comida". No Novo Testamento adquire dimensões ampliadas, sem perder o caráter sacrificial e sem perder a sua qualidade de direito sacerdotal. Sua dimensão de sacrifício e comunhão, significada pela reconciliação exigida, está clara na frase de Jesus: - "Portanto, se estiveres para apresentar a tua oferta no altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta..." (Mt 5,23-25). Jesus não falou dirigindo-se ao passado de Israel, mas ao futuro e assim instruiu os seus discípulos com olhos no Reino de Deus que se inaugurava (Lc 17,21). Esse trecho de Mateus até mesmo nos mostra o caráter Sacrificial da Eucaristia entre os primeiros cristãos, eis que não é outro o motivo dessa referência tão significativa no seu Evangelho. Pelo mesmo motivo vai ditar que "...o operário é digno de seu sustento" (Mt 10,10) e Paulo também confirmar: "Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que servem ao altar, participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho" (1Cor 9,13-14). É isso o que ensina São Paulo quando diz aos Coríntios que "os que comem do Altar entram em comunhão com o Altar" (1Cor 10,18) e Jesus quando diz que "é o Altar que santifica a oferenda" (Mt 23,19).

A oferenda deve ser entregue por amor a Jesus e a Sua Igreja, num ato de fé e culto nunca como fruto de "marketing" ou planejamento humano ou qualquer outro motivo por mais bonito, empolgante ou sentimental que seja. Também, não se deve instituir uma contribuição, com um nome "irreal" e buscando-se tão somente resultados que representem a libertação monetária, financeira e econômica. A Oferenda É Culto Sacrificial a Deus.

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