NÚMEROS
Segunda Parte
Do Sinai às planícies de Moab

5.10. OS BATEDORES E O DESPREPARO DOS ISRAELITAS

É um dos quadros mais comoventes e frustrantes do Antigo Testamento, pois o Povo dos Filhos de Israel falha na primeira tentativa de cumprimento de sua missão. Fundamentado na Aliança com Iahweh, ratificada no Sinai, tendo uma Lei e um Sacerdócio, organizadas as suas fileiras militares deveria, assim consolidado, penetrar e conquistar a Terra Prometida. Para o grupo de Israelitas se tornar um povo, só lhe faltava conquistar e se impor em seus limites, ter o seu próprio território. Organiza então um grupo de batedores para vistoriar a Terra de Canaã, conforme pediu a Moisés (Dt 1,22) que, após sua consulta habitual a Iahweh, o orienta:

"Então disse Iahweh a Moisés: 'Envia homens que explorem a terra de Canaã, que darei aos filhos de Israel. De cada tribo patriarcal enviarás um homem, que seja príncipe entre eles.' Moisés, pois, enviou-os do deserto de Faran, segundo a ordem de Iahweh e eram todos eles príncipes dentre os filhos de Israel. E estes são os seus nomes: (... um de cada tribo)... A Oséias, filho de Num, Moisés chamou Josué" (Nm 13,1-16) / "Iahweh teu Deus te entregou esta terra; sobe, apodera-te dela, como te falou Iahweh, Deus de teus pais. Não temas, e não te assustes." Então todos vós vos chegastes a mim, e dissestes: "Mandemos homens adiante de nós, para que nos explorem a terra, nos ensinem o caminho pelo qual devemos subir e as cidades a que devemos ir". Isto me pareceu bem; de modo que dentre vós tomei doze homens, de cada tribo um homem. Partiram e subindo a montanha chegaram até o vale de Escol explorando-o" (Dt 1,21-24).

Conjugando-se as duas narrativas, vê-se que o povo tinha pleno conhecimento, participava do que acontecia e a tudo aprovava conscientemente. Não era apenas para se cumprirem cegamente ordens recebidas, nem se tratava de uma vistoria à toa para marcar presença, ou da qual só Iahweh tivesse conhecimento. Ao contrário, foi um ato público, racional, objetivo e com fins especiais à vista, tal como trabalha um povo que tenha desígnios comuns, práticos, ordenados e determinados. Constituiu-se, por causa disso, um grupo de batedores composto de um elemento de destaque, um líder de cada tribo. Josué foi nomeado uma espécie de primeiro assessor de Moisés, como se deduz do ato bíblico de lhe trocar o nome de Oséias (Nm 3,16 / Is 43,1d). A meta principal consistia em um exame bem abrangente de tudo o que pudesse servir de base para uma penetração organizada, numa verdadeira estratégia militar:

"Enviou-os, pois, Moisés a espiar a terra de Canaã, e disse-lhes: "Subi por aqui para o Neguebe, e penetrai nas montanhas; e vede a terra, que tal é; e o povo que nela habita, se é forte ou fraco, se pouco ou muito; que tal é a terra em que habita, se boa ou má; que tais são as cidades em que habita, se campos ou fortalezas; e que tal é a terra, se fértil ou estéril; se nela há matas ou não. Sede corajosos e trazei produtos da terra." Ora, a estação era a das uvas temporãs. Assim subiram, e espiaram a terra desde o deserto de Sin, até Roob, na Entrada de Emat. (...) Depois chegaram ao Vale de Escol onde cortaram um ramo com um cacho de uvas que dois homens transportaram sobre uma vara; trouxeram também romãs e figos. Chamou-se aquele lugar o Vale de Escol, por causa do cacho que dali cortaram os filhos de Israel" (Nm 13,17-24).

A expedição durou quarenta dias, em que foi vistoriada toda a terra, e a expressão material de sua fertilidade vem claramente amostrada pelo narrador como "...um ramo de vide com um cacho de uvas que dois homens levaram sobre uma vara, levando também romãs e figos", concluindo os expedicionários que "realmente nela mana leite e mel...." (Nm 13,25-27). Esta expressão bíblica "terra onde mana o leite e o mel" tem o significado da fertilidade de que a sedimentação da vinha lhe é "figura", anunciando uma boa colheita, colheita de vinho em abundância. Daí a vinha tornar-se-á o símbolo da nação Israelita, pela sua Missão de "um reino de sacerdotes e uma nação santa", "povo primogênito", fonte e primícias da Redenção do Homem, tal como o Salmista e o Profeta exprimem:

"Trouxeste do Egito uma vinha; expulsaste as nações e a plantaste. Preparaste-lhe o terreno, ela deitou profundas raízes, e encheu a terra. Os montes cobriram-se com a sua sombra, e os cedros de Deus com os seus ramos. (...) Ó Deus dos exércitos, volta-te do céu e vê, e cuida desta vinha, da vinha que a tua destra plantou, e do sarmento que fortificaste para ti" [Sl 80(79),9-15]

"Ora, seja-me permitido cantar para o meu bem amado uma canção de amor a respeito da sua vinha. O meu amado possuía uma vinha num outeiro fertilíssimo. E, revolvendo-a com enxada e limpando-a das pedras, plantou-a de excelentes vides, e edificou no meio dela uma torre, e também construiu nela um lagar; e esperava que desse uvas, mas deu uvas bravas. (...) Pois a vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta das suas delícias; e esperou que exercessem juízo, mas eis aqui derramamento de sangue; justiça, e eis aqui clamor"

"Naquele dia haverá uma vinha deliciosa; cantai a seu respeito. Eu, Iahweh, a guardo, e a cada momento a regarei; para que ninguém lhe faça dano, de noite e de dia a guardarei. (...) Dias virão em que Jacó lançará raízes; Israel florescerá e brotará; e eles encherão de fruto a face do mundo" (Is 5,1.7 / Is 27,2-6).

Por sua vez, Jesus Cristo usará essa imagem da Vinha várias vezes, para caracterizar a universalidade da salvação e trazer sua referência ao Reino de Deus que se inaugurava [(Mt 20,1-8; 21,28-31); (Mt 26,29 e paralelos)]; além de instituir a Eucaristia com o "fruto da vinha" [e o "Pão" (Lc 22,18.19-20)]:

"Ouvi ainda outra parábola: Havia um homem, proprietário, que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, e edificou uma torre; depois arrendou-a a uns lavradores e ausentou-se do país. E quando chegou o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os seus frutos. E os lavradores, apoderando-se dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram. Depois enviou ainda outros servos, em maior número do que os primeiros; e fizeram-lhes o mesmo. Por último enviou-lhes seu filho, dizendo: A meu filho terão respeito. Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram. Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores? Responderam-lhe eles: Fará perecer miseravelmente a esses maus, e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe entreguem os frutos. Disse-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: 'A pedra que os edificadores rejeitaram, essa se tornou a pedra angular; pelo Senhor foi feito isso, e é maravilhoso aos nossos olhos?' Portanto eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos. E quem cair sobre esta pedra será despedaçado; mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó. Os principais sacerdotes e os fariseus, ouvindo essas parábolas, entenderam que era deles que Jesus falava. E procuravam prendê-lo, mas temeram o povo, porque este o tinha por profeta" (Mt 21,33-46 e ps.)

"Eu sou a vinha verdadeira, e meu Pai é o viticultor. Todo ramo em mim que não dá fruto, ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o poda, para que dê mais fruto. (...) Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós; como o ramo de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na vinha, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a vinha; vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer" (Jo 15,1-5).

Fazendo assim referência à Vinha como o símbolo claro de Israel, Jesus dinamiza a imagem dela no sentido de comunhão com Deus. É o que a materialidade do cacho de enormes proporções levado pelos batedores "figurava", quanto à fecundidade, as Bênçãos de Deus destinadas ao Povo dos Filhos de Israel. Com isso Iahweh o animava a entrar e tomar posse de sua "herança". Porém, os exploradores não se aperceberam dessa demonstração da presença de Iahweh entre eles, operando com a Bênção que fecunda e fertiliza. Ofereceu-lhes o que reconheceram ser uma "terra onde mana o leite e o mel e os produtos dela" (Nm 13,27). Ao mesmo tempo, questionam e duvidam, num contraste desproporcional com a fé confiante de Josué e Caleb, respectivamente representantes das suas Tribos de Efraim e Judá:

"Contudo o povo que habita nessa terra é poderoso, e as cidades são fortificadas e muito grandes. Vimos também ali os filhos de Anac. Os amalecitas habitam na terra do Neguebe; os heteus, os jebuseus e os amorreus habitam nas montanhas; e os cananeus habitam junto do mar, e ao longo do rio Jordão." Então Caleb, fazendo calar o povo perante Moisés, disse: "Subamos e tomemos conta da terra; porque nós poderemos conquistá-la". Disseram, porém, os homens que o acompanharam: "Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós". Assim, perante os filhos de Israel difamavam a terra que haviam explorado, dizendo: "A terra que fomos explorar é terra que devora os seus habitantes; e todo o povo que vimos nela são homens de grande estatura. Também vimos ali os gigantes, descendentes de Anac, da raça dos gigantes; e éramos aos nossos olhos como gafanhotos; e assim também lhes seríamos" (Nm 13,28-33).

A situação torna-se muito grave, contenciosa e difusa por causa do entrechoque de informações contrárias e contraditórias. De um lado, permanece Caleb confiante e corajoso demonstrando possibilidade de vitória; e, de outro, os demais, difamando a terra e os habitantes, amedrontados e acovardados. O desespero vai se apresentar no povo, apesar dos rogos confiantes em Iahweh de Caleb e Josué, a quem os dissidentes passaram a pretender até mesmo apedrejar:

"Toda a congregação prorrompeu em altos brados e todo o povo chorou naquela noite. E todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e Aarão; e toda a congregação lhes disse: "Antes tivéssemos morrido na terra do Egito, ou tivéssemos morrido neste deserto! Por que nos traz Iahweh a esta terra para cairmos à espada? Nossas mulheres e nossos pequeninos serão cativos. Não nos seria melhor voltarmos para o Egito?" E diziam uns outros: "Elejamos um chefe e voltemos para o Egito". Então Moisés e Aarão prostraram-se com os rostos por terra perante toda a congregação dos filhos de Israel. Josué, filho de Num, e Caleb, filho de Jefoné, que eram dos exploradores da terra, rasgaram as suas vestes; e disseram a toda a congregação dos filhos de Israel: "A terra que exploramos é terra muito boa. Se Iahweh nos for propício, introduzir-nos-á nesta terra e no-la dará; terra em que mana leite e mel. Tão somente não vos rebeleis contra Iahweh, e não temais o povo desta terra, porque os devoraremos como pão. Retirou-se deles a sua sombra protetora e Iahweh está conosco; portanto, não os temais". Mas toda a congregação falava em apedrejá-los, quando a glória de Iahweh apareceu na tenda da reunião a todos os filhos de Israel" (Nm 14,1-10).

"Elejamos um chefe e voltemos para o Egito". Então Moisés e Aarão prostraram-se com os rostos por terra...(...)...Josué, filho de Num, e Caleb, filho de Jefoné, que eram dos exploradores da terra, rasgaram as suas vestes..." Pelas reações de Moisés e Aarão, Josué e Caleb, "prostrando-se com os rostos em terra" e "rasgando as suas vestes", se anuncia a presença de uma apostasia e de grave dor (Gn 37,29; Jl 2,13), ofensa a Iahweh ou blasfêmia (Mt 26,65). A revolta atinge o ponto alto de uma apostasia ao se pretender até mesmo eleger novo líder e voltar ao Egito. Recrudesce aquela apostasia incipiente e ameaça generalizar-se. Iahweh se manifesta em socorro e "...a glória de Iahweh apareceu na tenda da reunião a todos os filhos de Israel" - algum fenômeno visível, naturalmente o fogo já anteriormente manifestado, que impressionou toda a comunidade (Ex 24,17). Essa manifestação da "glória de Iahweh" acontece no exato momento em que se dispunham a apedrejar Caleb e Josué. Lembraram-lhes de algo que já lhes fora dito quanto à proteção, a que se denomina de "sombra protetora", que deixara de existir para os povos pagãos (Lv 18,25-30 / Dt 7,16-26) e que deixaria de existir para eles também:

"Tão somente não vos rebeleis contra Iahweh, e não temais o povo desta terra, pois os devoraremos como pão. Retirou-se deles a sombra protetora e Iahweh está conosco; portanto, não os temais" (Nm 14,9).

"... os devoraremos como pão" porque "retirou-se deles a sombra protetora..." - literalmente se diz que "a sua sombra lhes foi tirada...", no sentido da crença então em voga da união protetora entre a sombra e a própria pessoa. Sombra que lhe seria uma custódia poderosa e inviolável, tal como ela é um refrigério, num dia de calor insuportável. A perda dessa proteção pelos pagãos já fora anunciada aos Israelitas e deviam crer em Iahweh, tal como exigiam os compromissos da Aliança, distinguindo-se assim deles:

"Não vos torneis impuros com nenhuma dessas coisas, porque com todas elas se contaminaram as nações que eu expulso de diante de vós. A terra se tornou impura, eu decidi punir a sua iniqüidade e ela vomita os seus habitantes. Vós, pois, guardareis os meus estatutos e os meus preceitos, e nenhuma dessas abominações fareis, nem o natural nem o estrangeiro que habita entre vós. Porque todas essas abominações cometeram os homens que habitavam a terra antes de vós, pelo que a terra ficou impura. Assim, a terra não ficará impura por vós e não vos vomitará também como vomitou a nação que vos precedeu. ..." (Lv 18,25-30)

"... Se disseres no teu coração: Estas nações são mais numerosas do que eu; como poderei conquistá-las? Delas não terás medo! Lembra-te do que Iahweh teu Deus fez ao Faraó e a todo o Egito: das grandes provas que os teus olhos viram, dos sinais e prodígios, da mão forte e do braço estendido, com que Iahweh teu Deus te tirou de lá! Assim fará Iahweh teu Deus a todos os povos aos quais temes. .... Não te atemorizes diante deles, porque Iahweh teu Deus habita no meio de ti e é grande e terrível. E Iahweh o teu Deus lançará fora de diante de ti (...) estas nações; ... E Iahweh as entregará a ti, e lhes infligirá uma grande derrota, até que sejam destruídas. Também entregará os seus reis nas tuas mãos e farás desaparecer o nome deles de debaixo do céu. Ninguém poderá te resistir até que os tenhas destruído ..." (Dt 7,15-26).

Era conteúdo da Promessa de Iahweh essa entrega da Terra Prometida, do que Iahweh lembra os Filhos de Israel durante o cativeiro do Egito:

"Estabeleci a minha aliança para lhes dar a terra de Canaã, a terra de suas peregrinações, na qual foram peregrinos. Ademais, tenho ouvido o gemer dos filhos de Israel, aos quais os egípcios vêm escravizando; e lembrei-me da minha aliança. Portanto dize aos filhos de Israel: Eu sou Iahweh; eu vos tirarei de debaixo da opressão dos egípcios, livrar-vos-ei da sua servidão, e vos resgatarei com braço estendido e com grandes juízos. Eu vos tomarei por meu povo e serei vosso Deus; e vós sabereis que eu sou Iahweh vosso Deus, que vos tiro de debaixo da opressão dos egípcios. Eu vos introduzirei na terra que jurei dar a Abraão, a Isaac e a Jacó; e vo-la darei por herança. Eu sou Iahweh" (Ex 6,4-8).

No Sinai, desde a ratificação da Aliança, confirma-se e vai se corporificando a Promessa, bem como o teor da Missão de Israel, eleito também por causa das iniqüidades dos pagãos que os precederam e a cuja Missão aderiram pela Lei da Aliança:

"Mas se (...) fizeres tudo o que eu disser, então serei inimigo dos teus inimigos, e adversário dos teus adversários. (...) e eu os aniquilarei. Não te inclinarás diante dos seus deuses, nem os servirás, nem farás conforme as suas obras; antes os derrubarás totalmente, e quebrarás de todo as suas colunas. (...) Enviarei o meu terror adiante de ti, pondo em confusão todo povo em cujas terras entrares, e farei que todos os teus inimigos te voltem as costas. (...) Pouco a pouco os lançarei de diante de ti, até que te multipliques e possuas a terra por herança. E fixarei os teus limites desde o Mar Vermelho até o mar dos filisteus, e desde o deserto até o rio; porque hei de entregar nas tuas mãos os moradores da terra, e tu os expulsarás de diante de ti. Não farás aliança alguma com eles, nem com os seus deuses... isso te será um laço" (Ex 23,22-33).

Por causa de tudo isso, a que se somam todos os prodígios em que Iahweh Se manifestou, não poderiam os Israelitas ter duvidado nem se apostatado nem se acovardado da maneira como fizeram. Não arcaram com a responsabilidade da conquista tão ansiada e planejada, faltando-lhes a coragem e a determinação. Pior que tudo, não creram em Iahweh, após tantas manifestações claras da proteção "...com braço estendido e com grandes juízos..." O povo ainda não se conquistara, ainda não possuía maturidade suficiente para tal envergadura de tarefa, amedrontou-se. Tinha uma fé ainda supersticiosa e superficial, não tinha a consciência madura nas dimensões de sua nacionalidade, principalmente por causa de sua vinculação com Iahweh. Quando não se tem a fé em Deus, não se tem a fé em si mesmo, torna-se fraco e todas as mais pequenas adversidades se lhe tornam as mais gigantescas. Não cumpre a sua parte da Aliança na primeira oportunidade que se lhe oferece, e apesar de se ter consagrado a Iahweh, abandona o seu compromisso antes mesmo de haver a conquista começado.

Por sua vez, a Moisés apenas, que, juntamente com Aarão "caíra com o rosto em terra" (Nm 14,5; 16,4), Iahweh se manifesta. Esse gesto de "cair com o rosto em terra" tem um significado muito maior que uma simples reprovação, tem o sentido de uma profunda adoração e penitência que se pratica em desagravo por alguma ofensa grave à Santidade de Iahweh. A sedição foi de tal envergadura que Iahweh pretendeu destruir o povo e reestruturá-lo a partir dele. Moisés, porém, o seu servo, fiel também a seus irmãos, convence-O a perdoá-los. Não fosse uma apostasia, não teria havido essa disposição de Iahweh. Nem a luta por que passa Moisés, cujos detalhes confusos se expõem, durante o conflito que se instalou em sua mente, após tanta oposição e dissabores vencidos. Conclui tranqüilamente que Iahweh, apesar de "lento à cólera e rico em bondade, tolera a falta e a transgressão, mas não deixa ninguém impune..." (Nm 14,18), e irá castigar os responsáveis. De Iahweh virão portanto as várias conseqüências da apostasia e do ato de insubordinação praticados, em franca traição aos compromissos da Aliança:

"Disse-lhe Iahweh: "Conforme a tua palavra lhe perdoei; tão certo, porém, como eu vivo, e como a glória de Iahweh encherá toda a terra, nenhum de todos os homens que viram a minha glória e os sinais que fiz no Egito e no deserto, e todavia me tentaram... não obedecendo à minha voz, nenhum deles verá a terra que com juramento prometi a seus pais; nenhum daqueles que me desprezaram a verá. Mas o meu servo Caleb, porque nele houve outro espírito, e porque perseverou em seguir-me, eu o introduzirei na terra que explorou, e a sua posteridade a possuirá. Ora, os amalecitas e os cananeus habitam no vale; voltai-vos amanhã e retornai ao deserto..." (Nm 14,20-25).

"... nenhum deles verá a terra que com juramento prometi a seus pais; nenhum daqueles que me desprezaram a verá..." - este será o castigo deles pela apostasia praticada. É o que a Moisés e a Aarão Iahweh manifesta, em resposta à oração que "com o rosto em terra" lhe dirigiram, dizendo-lhes ainda:

"Disse Iahweh a Moisés e Aarão: "Até quando esta perversa congregação há de murmurar contra mim? Tenho ouvido as murmurações que os filhos de Israel fazem contra mim". Dize-lhes: "Pela minha vida, diz Iahweh, certamente conforme as vossas palavras que vos ouvi falar, assim vos hei de tratar. Neste deserto cairão os vossos cadáveres; nenhum de todos vós recenseados, de vinte anos para cima, vós que contra mim tendes murmurado. Certamente nenhum de vós entrará na terra a respeito da qual jurei que vos faria habitar nela, salvo Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num e os vossos filhos, dos quais dissestes que seriam cativos, a estes introduzirei na terra, e eles conhecerão a terra que desprezastes. Quanto a vós, os vossos cadáveres cairão neste deserto; e vossos filhos serão nômades no deserto quarenta anos, e sofrerão as conseqüências da vossa infidelidade, até que os vossos cadáveres se consumam neste deserto. Conforme o número dos dias em que explorastes a terra, quarenta dias, levareis sobre vós as vossas iniqüidades por quarenta anos, um ano por um dia, e conhecereis aquilo que é a minha aversão. Eu, Iahweh, eu mesmo falei, que tratarei assim esta congregação perversa, que se amotinou contra mim; neste deserto será consumida e aqui morrerão" (Nm 14,26-35).

A apostasia ressalta com facilidade do trecho acima dispensando maiores indagações e análises desnecessárias. É o próprio Iahweh quem reclama das "murmurações que os filhos de Israel fazem contra mim" e que "sofrerão as conseqüências de sua infidelidade". Mais ainda, "tratarei assim esta congregação perversa que se amotinou contra mim" e "neste deserto será consumida e aqui morrerão". A essa altura, tanto a Moisés como ao próprio Aarão, se tornou clara a imaturidade do povo em prosseguir a conquista, necessitando de um grande período de maturação. Muitos se deixaram amedrontar pela apostasia, tornando a situação muito grave e perigosa pela neutralidade demonstrada pelo povo em geral, não se lhe opondo. Quarenta anos, isto é, um tempo necessário de vida na aridez e agruras do deserto, teria o condão de possibilitar a conquista do equilíbrio espiritual e emocional necessários. Só então poderiam partir para assumir a sua posição no meio de outros povos com a Conquista da Terra que lhes competia por "herança" (Ex 15,17). Os Filhos de Israel não haviam ainda tomado consciência da nacionalidade que lhes era própria nem da missão que deveriam perseguir. E Moisés, ao interceder pelo povo, se convence de que ao invés de fazer o que era previsível aos seus olhos humanos, Iahweh o perdoaria ao mesmo tempo que o levaria por uma peculiar pedagogia à maturidade necessária. Como comprovação de tudo o que concluiu, presenciou a morte repentina de todos aqueles que difamaram a terra e fizeram retroceder os Filhos de Israel, com exceção de Caleb e Josué:

"Ora, quanto aos homens que Moisés mandara explorar a terra e que, voltando, fizeram murmurar toda a congregação contra ele, difamando a terra, aqueles mesmos homens que difamaram a terra foram feridos de morte perante Iahweh. Apenas Josué, filho de Num, e Caleb, filho de Jefoné, dos homens que foram explorar a terra, ficaram com vida" (Nm 14,36-38).

Tanto desencontro só pode ter por respaldo o antigo ciúme tribal, herdado dos tempos de Jacó. Curiosamente, ficaram com vida, Josué da tribo de Efraim e Caleb da Tribo de Judá, das que disputavam a hegemonia e os direitos da primogenitura, há tempos em luta surda e travada nos bastidores (1Cro 5,1-2). Após tais fatos e sobressaltados, chamados à realidade pelas palavras de Moisés, caíram em si os Israelitas e quiseram marchar sozinhos, presunçosamente sem a Arca e sem Moisés, e sofrem vergonhosa derrota (Nm 14,40-45). Mais uma vez aparece a apostasia ou uma imaturidade na fé, pelo desprezo demonstrado pela necessidade da presença da Arca da Aliança na frente de batalha. Inicialmente somente Caleb da tribo de Judá interfere (Nm 13,30) secundado por Josué, da de Efraim (Nm 14,6), que assume a liderança da reação junto com Moisés (Dt 1,29-30). Bom é ler também o Capítulo Primeiro de Deuteronômio, onde se esclarece muita coisa com referência a essa situação (Dt 1,19-46). Refere-se então à tentativa de apaziguamento da populaça feita também por Moisés (Dt 1,29-30), só aí referida. É de se observar assim o inter-relacionamento complementar dos livros da Escritura Sagrada, comprovando-se que nem sempre se esgota um assunto numa narrativa apenas:

"Ouvindo, pois, Iahweh as vossas palavras, indignou-se e jurou, dizendo: 'Nenhum dos homens desta geração perversa verá a boa terra que prometi com juramento dar a vossos pais, salvo Caleb, filho de Jefoné; ele a verá, e a terra que pisou darei a ele e a seus filhos, porquanto perseverou em seguir a Iahweh'. Também contra mim Iahweh se indignou por vossa causa, dizendo: 'Igualmente tu lá não entrarás. Josué, filho de Num, que te serve, ele ali entrará; anima-o, porque ele fará que Israel receba a terra por herança. E vossos filhos (...) a eles a darei e eles a possuirão. Quanto a vós, porém, voltai-vos e ide para o deserto pelo caminho do Mar Vermelho'. Então respondestes, e me dissestes: 'Pecamos contra Iahweh; nós subiremos e pelejaremos, conforme tudo o que nos ordenou Iahweh nosso Deus. Vós, pois, vos armastes, (...) e temerariamente propusestes subir a montanha. E disse-me Iahweh: 'Dize-lhes: Não subais nem pelejeis, pois não estou no meio de vós... Assim vos falei, mas não ouvistes; antes fostes rebeldes à ordem de Iahweh e, agindo presunçosamente, subistes à montanha. E os amorreus, que habitavam naquela montanha, (...) vos derrotaram desde Seir até Horma. Voltastes... e chorastes (...) mas Iahweh não ouviu os vossos lamentos...'" (Dt 1,34-46).

Então, tendo desprezado a presença da Arca e de Moisés, arrependidos pretenderam voltar atrás e disseram "... subiremos e pelejaremos, conforme tudo o que nos ordenou Iahweh nosso Deus". "Vós, pois, vos armastes, cada um, dos vossos instrumentos de guerra, e temerariamente propusestes subir a montanha" - "temerariamente" diz, eis que despreparados e necessitando ainda reconhecer a soberania de Iahweh. E prossegue Moisés dizendo-lhes: "...disse-me Iahweh: "Dize-lhes: "Não subais nem pelejeis, pois não estou convosco para que não sejais derrotados por vossos inimigos". Assim vos falei, mas não ouvistes; antes fostes rebeldes à ordem de Iahweh e, agindo presunçosamente, subistes à montanha" - "presunçosamente", insiste Moisés, isto é, sem se perturbar com a falta de auxílio divino. Da sua própria imaturidade toma consciência a duras penas o povo com a derrota sofrida, tal como diz o Salmista:

"Foi-me bom que passei pela dor, para eu aprender os teus preceitos" [Sl 119(118),71].

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