NÚMEROS
Segunda Parte
Do Sinai às planícies de Moab

O nome pelo qual este "rolo" era denominado e conhecido em hebraico, "bemidbhar" = "no deserto", é mais adequado ao seu conteúdo. Entretanto, não se pode analisá-lo desligado das informações constantes do Êxodo, do Levítico e mesmo do Deuteronômio. Sem isso, muitas vezes, limitar-se-á a um desconexo amontoado de fatos e regulamentações, além de isolados do contexto bíblico. Principalmente, ao se considerar que o apreciável tempo de quarenta anos de peregrinação no deserto deveria propiciar uma narrativa mais abrangente. Como ao tempo de sua composição não havia essa divisão atual em livros, a Bíblia toda era um só "rolo". O uso no cotidiano forçou a se repartir em cinco rolos, que se tornaram os cinco livros iniciais. Ocorre então que, em virtude dessa divisão, muitas vezes, a um dos livros falta unidade de assunto e abordagem, quando não se considera o complemento dos demais. Por isso, somente quando se leva em conta a cultura dos Israelitas de então, se consegue vislumbrar alguma ordem e compreender o seu sentido. Ideal para a análise deste livro de Números é fazer uma divisão que facilite as conclusões ou ofereça alguma ordem de temas, e favoreça uma compreensão coerente com toda a Escritura. Não se trata de uma divisão lógica e concatenada, mas apenas de uma ordem pedagógica, e mesmo geográfica, apresentando-se aspectos narrativos e legislativos, que se oferecem aqui e acolá, dispersos pelo tempo de peregrinação no deserto. Principalmente algumas modificações e aperfeiçoamentos, ou novas instituições de estruturas cultuais ou disciplinares, que mostram a predominância do objetivo religioso da exposição.

O Povo dos Filhos de Israel tornou-se uma nação organizada com suas próprias leis e costumes, codificados na Escritura Sagrada, a "Torah". Tem ainda o culto a Iahweh, o seu Deus e Senhor, a quem serve, e com quem se uniu por uma Aliança perene. O próprio Iahweh "habita entre eles", no Santuário que mandou edificar, onde é mediado por um Sacerdócio por Ele mesmo constituído, verdadeiro ponto de união do Israelita ao seu Deus.

 

5.9. DA PARTIDA ATÉ O DESERTO DE FARAN

Coesamente estruturados, após o sinal de Iahweh elevando a nuvem, partem os Israelitas na disposição religiosa e estratégica dos acampamentos. Mantêm-se em torno da Arca do Testemunho e do Tabernáculo, desarmado e distribuído entre as tribos encarregadas do transporte do Santuário, cada uma com a sua função e na ordem estabelecida:

"No segundo ano, no segundo mês, aos vinte do mês, a nuvem se elevou sobre o tabernáculo da congregação. Partiram, pois, os filhos de Israel do deserto de Sinai para as suas etapas, e a nuvem parou no deserto de Faran. Assim iniciaram a primeira caminhada, à ordem de Iahweh por intermédio de Moisés: partiu primeiro o estandarte do acampamento dos filhos de Judá (...) o dos filhos de Issacar (...) e o dos filhos de Zabulon (...) Então o tabernáculo foi desarmado, e os filhos de Gérson e os filhos de Merari partiram, levando o tabernáculo. Depois partiu o estandarte do acampamento de Rúben (...) o da tribo dos filhos de Simeão (...) o da tribo dos filhos de Gad (...) Então partiram os caatitas, levando o santuário; e erigiu-se o tabernáculo antes da chegada deles. Depois partiu o estandarte do acampamento dos filhos de Efraim (...) o da tribo dos filhos de Manassés (...) e o da tribo dos filhos de Benjamim (...) Partiu o estandarte do acampamento dos filhos de Dã, que era a retaguarda de todos os acampamentos (...) o da tribo dos filhos de Aser (...) e o da tribo dos filhos de Neftali (...) Tal era a ordem de partida dos filhos de Israel segundo os seus exércitos, quando partiam" (Nm 10,11-28).

É bom aqui observar uma maneira de narrar muito usada nas Escrituras. Por primeiro se apresenta uma espécie de título (p. ex.: "...no segundo ano, no segundo mês, aos vinte do mês, a nuvem se alçou de sobre o tabernáculo da congregação e os filhos de Israel partiram do deserto de Sinai por etapas...") seguido imediatamente da conclusão do assunto ("...a nuvem parou no deserto de Faran"). Depois é que se apresentam os detalhes intermediários e se mencionam os locais Tabera, Cibrote-ataava, Haserot, por onde o povo passou, antes do deserto de Faran ser atingido:

"Então o povo clamou a Moisés, e Moisés orou a Iahweh, e o fogo se apagou. Pelo que se chamou aquele lugar Tabera, porquanto o fogo de Iahweh se acendera entre eles (...) Quando a carne ainda estava entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, acendeu-se a ira de Iahweh contra o povo, e feriu Iahweh o povo com uma praga muito grande. Pelo que se chamou aquele lugar Cibrote-ataava, porquanto ali enterraram o povo que tivera a gula. De Cibrote-ataava partiu o povo para Haserot; e demorou-se em Haserot"

"Assim Maria esteve fechada fora do acampamento por sete dias; e o povo não partiu, enquanto Maria não se recolheu de novo. Mas depois o povo partiu de Haserot, e acampou no deserto de Faran" (Nm 11,2-3.33-35 / Nm 12,15-16).

Outra forma peculiar de narrar é a do convite de Moisés ao seu cunhado Hobab para lhes servir de guia (Nm 10,29-36). O fato então relatado somente poderia ter ocorrido bem antes da partida do Sinai, e não aqui. Pois, ao convocar o cunhado, o que Moisés buscava era a segurança de pessoa experiente e conhecedora de uma região, para eles ainda inóspita. Isso só teria lugar antes da viagem, durante os preparativos, e não no exato momento da partida, ou após (Nm 10,11-28). Esse deslocamento permitiu a narração de modo que em nada se comprometesse a ação protetora de Iahweh, seja com a Arca da Aliança, seja com a Nuvem (Nm 10,33-34):

"Disse então Moisés a Hobab, filho de Raguel, o seu sogro madianita: Partimos para aquele lugar que Iahweh disse: 'Eu vo-lo darei. Vem conosco, e te será bom; porque Iahweh prometeu boas coisas acerca de Israel'. Respondeu ele: 'Não irei; antes irei à minha terra e à minha parentela'. Tornou-lhe Moisés: 'Ora, não nos deixes, eis que conheces os lugares onde podemos acampar no deserto; serás os nossos olhos. Se, pois, vieres conosco, o bem que Iahweh nos fizer, também nós faremos a ti'. Assim partiram do monte de Iahweh caminho de três dias; e a Arca da Aliança de Iahweh ia adiante deles buscando-lhes um lugar de descanso. A Nuvem de Iahweh ia por cima deles durante o dia, quando partiam do acampamento" (Nm 10,29-34).

Após relutar, Hobab concorda e partem, com a "Arca da Aliança de Iahweh", que "ia adiante deles buscando-lhes um lugar de descanso", e "a Nuvem de Iahweh" que se movia "por cima deles durante o dia, quando partiam do acampamento". Toda a operação manteria o caráter militar e religioso, com a invocação sistemática de Iahweh, o único comandante:

"Quando a arca partia, dizia Moisés:

- Levanta-te, Iahweh, e dissipados sejam os teus inimigos, e fujam diante de ti os que te odeiam.

E, quando ela pousava, dizia:

- Volta, Iahweh, para os muitos milhares de Israel" (Nm 10,35-36).

Assim, com a Arca da Aliança abrindo o caminho, protegidos pela Nuvem, e com o soar repicado das Trombetas, sentia-se o comando e a presença do próprio Iahweh, garantia plena da segurança e da vitória:

"...para as partidas dos acampamentos se tocará repicado, e quando se houver de reunir a congregação, tocar-se-á sem repicar" (Nm 10,6b-7).

Destacam-se em seguida alguns incidentes que concorrem para uma tomada de consciência da índole do povo nas condições que depara, e da situação geral após a saída do Egito. Também, transparece a têmpera e o caráter de Moisés, demonstrando grande equilíbrio e capacidade de liderança, em oportunidades as mais adversas, e se conclui:

"...Moisés era homem muito manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra" (Nm 12,3).

Ocorreu grande mudança nas condições de vida do povo em geral, que troca uma situação definida, sedentária, a ela conformado e culturalmente aceita, por outra nômade e incerta. A passagem abrupta para uma vida assim, com as famílias, homens, mulheres e crianças, em terras estranhas, inóspitas e desertas, o mais das vezes ao relento e no desconforto das barracas, não lhe é fácil pela insegurança ensejada. Vários acontecimentos surgem desde a saída do Egito, com um colorido novo, agigantado por desencontros de proporções então graves. Além disso, mais graves ainda se tornam pelas conseqüências que poder-lhe-iam advir ao se fixar na Terra Prometida:

"O povo se tornou queixoso, falando do que lhe era amargo aos ouvidos de Iahweh; Iahweh ouviu e acendeu-se a sua ira. O fogo de Iahweh irrompeu entre eles e devorou as extremidades do acampamento. Então o povo clamou a Moisés, e Moisés orou a Iahweh, e o fogo se apagou. Pelo que se chamou aquele lugar Tabera, porque o fogo de Iahweh se acendera entre eles" (Nm 11,1-3).

"O povo se tornou queixoso, falando do que lhe era amargo aos ouvidos de Iahweh; Iahweh ouviu e acendeu-se a sua ira" - ofensivamente colocaram-se contra Iahweh, que reage. Quando se lêem as Escrituras, não se pode perder de vista a necessidade de se separar na narração a opinião do narrador e a sua cultura, mescladas as mais das vezes até mesmo com uma presumida vontade de Deus. Na mentalidade Israelita de então, tudo o que acontecia tinha por origem e centro os desígnios de Iahweh, mesmo provocando os piores fatos e até as piores calamidades, tal como acima narrado, de que "Iahweh ouviu e acendeu-se a sua ira; o fogo de Iahweh irrompeu entre eles, e devorou as extremidades do acampamento". Um exame mais atento vai demonstrar que, ao lado de tudo isso, está embutido na narrativa o que realmente aconteceu. Aqui também os fatos são narrados na forma já mencionada de se completar numa frase o assunto abordado, antes das suas minúcias em seguida:

"Ora, a turba que estava no meio deles teve grande cobiça; e os próprios filhos de Israel também se puseram a chorar, e disseram: Quem nos dará carne a comer? Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça, e dos pepinos, dos melões, das verduras, das cebolas e dos alhos. Mas agora a nossa vida definha; e nada vemos além deste maná. E era o maná como a semente do coentro, e a sua aparência como a aparência de bdélio. O povo espalhava-se e o colhia, e, triturando-o em moinhos ou pisando-o num pilão, em panelas o cozia, e dele fazia bolos; e o seu sabor era o de pão amassado com azeite. E, quando o orvalho descia de noite sobre o acampamento, sobre ele descia também o maná" (Nm 11,4-9).

Destaca o narrador o início de uma sedição dos Israelitas que parece ter por causa a escassez de alimentos, provocando a recordação do passado. Dizendo que "lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça, e dos pepinos, dos melões, das verduras, das cebolas e dos alhos" - fazem uma grosseira comparação entre a vida anterior e a que suportavam na peregrinação. Estabelecem um paralelo entre uma falsificada fartura de então com a escassez alimentar advinda, pelo que "...agora a nossa vida definha; coisa nenhuma há senão este maná..." Ao trazerem à baila o Egito e estarem já enfastiados com o Maná (Ex 16,9-35), bem como ao reclamar por "quem lhes daria carne a comer", evidenciam a rejeição de Iahweh, do "pão do céu" que lhes deu (Ex 16,4) e de Seu Poder em alimentá-los. Começa então a se manifestar uma apostasia incipiente, e o início da tentação de abandonar Iahweh e retornar à idolatria. Pela gravidade da atitude que ameaçam tomar, demonstram a ocorrência de crise religiosa bem maior do que a falta de alimentos por que afirmavam passar. Essa apostasia, à qual se incorporam alguns israelitas, se inicia por incitamento dos pagãos ou estranhos que acompanharam o povo quando saíram do Egito (Nm 11,4 / Ex 12,38). A receita que completa a descrição do Maná mostra a variedade de modos que a rotina impunha, quando não dispunham de outra coisa para comer. Só lhes restava, diziam, aquele semelhante "à semente do coentro, e a sua aparência como a aparência de bdélio" que "o povo recolhia, e, triturando-o em moinhos ou pisando-o num pilão, em panelas o cozia, e dele fazia bolos; e o seu sabor era o de pão amassado com azeite". Não deixa de ser uma0 situação muito contrastante com a grande quantidade de gado que trouxeram:

"Subiu com eles uma inumerável multidão de toda sorte de gente, com rebanhos e manadas, uma grande quantidade de gado" (Ex 12,38 / cfr. Nm 20,8c.11d).

Também recorriam à aquisição e ao aprovisionamento de bens quando necessitavam (Dt 2,6 / Js 1,11), percebendo-se que o Maná não era o único alimento de que dispunham. Era o socorro de Iahweh, fornecendo-lhes o "Pão dos Anjos" enquanto peregrinavam, "apropriado a todos os gostos e se amoldando ao desejo daquele que o comia" (Dt 8,3.16 / Js 5,10-12 / Sb 16,20-21 / Sl 78,24-25 / Ne 9,21). Por ai se vê que a sua finalidade não era de apenas e tão somente alimentar materialmente o Povo de Deus, mas detinha a principal conotação de dar-lhe forças para superar as dificuldades inúmeras da vida de então:

"...ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que nem tu nem teus pais conhecíeis; para te dar a entender que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca de Iahweh, disso vive o homem"

"...que no deserto te alimentou com o maná, que teus pais não conheciam; a fim de te humilhar e te provar, para nos teus últimos dias te fazer bem. E não digas no teu coração: A minha força, e a fortaleza da minha mão me adquiriram estas riquezas. Antes te lembrarás de Iahweh teu Deus, porque ele é o que te dá força para adquirir a prosperidade; a fim de confirmar a sua aliança, que jurou a teus pais, como hoje se vê" (Dt 8,3.16-18).

"...o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca de Deus..." com essas mesmas palavras Jesus repetirá essa tentação que os Israelitas sofreram no deserto e a repelirá. Afasta Satanás que o desafiara a transformar "as pedras em pão para se alimentar" (Mt 4,1-4), quando, da mesma forma que eles, "teve fome" (Mt 4,2). Também, quando fez o milagre da Multiplicação dos Pães, "para alimentar a multidão" (Jo 6,6), os seus opositores afirmaram que prodígio maior fizera Moisés "ao alimentar todo um povo no deserto durante quarenta anos". Jesus lhes mostra as diferenças

"Perguntaram-lhe, então: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos e creiamos em ti? Que operas tu? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer pão do céu. Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. (...) Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne" (Jo 6,30-33.48-51).

Assustando-se com a sedição, Moisés cai em conflito e quase se desespera, lamentando-se em face da situação irregular que ocorria. De um lado, o povo de Israel não poderia agir como a multidão que o acompanhava, contra as tradições Israelitas e a Aliança com Iahweh, em ostensiva contradição. E, por outro lado, a dificuldade em contornar a situação, seja solucionando o problema da fome ali ensejada, seja sozinho conseguindo manter a ordem, a disciplina e a fidelidade à Aliança contra uma apostasia incipiente, seja evitando a ira divina:

"Então Moisés ouviu o povo chorar nas suas famílias, cada qual à porta da sua tenda e a ira de Iahweh inflamou-se fortemente. Moisés sentiu enorme desgosto e disse a Iahweh: Por que fizeste mal a teu servo, e por que não achei graça aos teus olhos, pois que me impuseste o encargo de todo este povo? Porventura fui eu que concebi este povo? Dei-o à luz, para que me dissesses: 'Leva-o em teu regaço, como a ama leva a criança no colo, para a terra que com juramento prometi a seus pais'? Onde encontrarei carne para dar a todo este povo que chora diante de mim, dizendo: Dá-nos carne a comer. Sozinho não posso conduzir todo este povo, porque me é pesado demais. Se tu me hás de tratar assim, dá-me antes a morte, peço-te, se encontrei graça aos teus olhos; para eu não ver a minha miséria" (Nm 11,10-15).

"Onde encontrarei carne para dar a todo este povo que chora diante de mim, dizendo: 'Dá-nos carne a comer'" - Pela reclamação de Moisés a Iahweh, pode-se afirmar, sem medo de errar, que a situação era grave e se alastrava. A fome e a revolta eram grandes, necessitando-se de uma solução eficaz e urgente, que Moisés confessa não estar ao seu alcance ao dizer "concebi eu porventura este povo? Dei-o à luz, para que me dissesses: 'Leva-o em teu regaço, como a ama leva a criança no colo...'" - Moisés não está desistindo de sua missão, apenas entende que a obrigação de alimentar e apaziguar o povo só poderia ser satisfeita por Iahweh, por estar muito além de sua aptidão. Chega às raias do desespero, pois o problema escapa ao controle humano, já que se trata de uma sedição contra o próprio Iahweh, e a solução apresentada não o convence:

"Respondeu Moisés: "Seiscentos mil homens de pé é este povo no meio do qual estou; e, tu tens dito: Dar-lhes-ei carne, e comerão um mês inteiro. Matar-se-ão rebanhos e gados que lhes bastem? ou ajuntar-se-ão todos os peixes do mar que lhes bastem?" (Nm 11,21-22).

"Pelo que replicou Iahweh a Moisés: Porventura ter-se-ia encurtado a mão de Iahweh? Já verás se a minha palavra se cumpre ou não" (Nm 11,23). Iahweh vem em socorro de Moisés, como lhe havia prometido (Ex 33,1-3.12-16), e alimenta o povo. Jesus fará o mesmo por ocasião da Multiplicação dos Pães, junto com os seus Apóstolos, alimentando a multidão:

"Então Jesus, levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão vinha ter com ele, disse a Filipe: Onde compraremos pão, para estes comerem? Mas dizia isto para o experimentar; pois ele bem sabia o que ia fazer. Respondeu-lhe Filipe: Duzentos denários de pão não lhes bastam, para que cada um receba um pouco" (Jo 6,5-7)

"Jesus chamou os seus discípulos, e disse: Tenho compaixão da multidão, porque já faz três dias que eles estão comigo, e não têm o que comer; e não quero despedi-los em jejum, para que não desfaleçam no caminho. Disseram-lhe os discípulos: Donde nos viriam num deserto tantos pães, para saciar tamanha multidão?" (Mt 15,32-33)

"Naqueles dias, havendo de novo uma grande multidão, e não tendo o que comer, chamou Jesus os discípulos e disse-lhes: Tenho compaixão da multidão, porque já faz três dias que eles estão comigo, e não têm o que comer. Se eu os mandar em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho; e alguns deles vieram de longe. E seus discípulos lhe responderam: Donde poderá alguém satisfazê-los de pão aqui no deserto?" (Mc 8,1-4).

Observe-se que em muito se assemelha à frase de Moisés, traduzindo situações idênticas substancialmente:

"Duzentos denários de pão não lhes bastam, para que cada um receba um pouco" (Jo 6,7)

"Donde nos viriam num deserto tantos pães, para saciar tamanha multidão?" (Mt 15,33)

Matar-se-á para eles quantidade de ovelhas e bois para que lhes bastem? Se se ajuntassem para eles todos os peixes do mar dariam para saciá-los?" (Nm 11,22).

Para solucionar o problema pessoal de Moisés, Iahweh oferece duas alternativas: - a primeira, com a nomeação dos setenta anciãos que lhe seriam assessores e subordinados, atingindo até mesmo alguns que não estavam presentes. Receberam a investidura do espírito que havia em Moisés, sem que lhe ficasse reduzido, o que caracteriza a dependência deles no exercício das funções auxiliares. Esse ato de profetizar tem um sentido bem diverso do que se conhece normalmente. Tal como em outros locais (1Sm 10,10 / 19,20.23.24), onde se fala em um estado de "delírio", se entende aqui como o entusiasmo e empolgação que manifestaram possuir naquele momento apenas. O espírito profético que pousou sobre eles é o de Moisés, não outro. Dessa data em diante os anciãos passaram a assessorar Moisés na chefia, motivo pelo qual o narrador registra, com referência ao ato de "profetizar", que "nunca mais o fizeram":

"Sozinho não posso conduzir todo este povo, é pesado demais para mim. (...) Disse então Iahweh a Moisés: 'Reúne setenta anciãos de Israel, que sabes serem os anciãos e mestres do povo; e os trarás perante a tenda da reunião...'. (...) Saiu, pois, Moisés, e relatou ao povo as palavras de Iahweh; e reuniu setenta anciãos do povo e os colocou ao redor da tenda. Iahweh desceu na nuvem e lhe falou. Tomou do espírito que repousava sobre ele e o colocou nos setenta anciãos. Quando o espírito repousou sobre eles, profetizaram, porém, nunca mais o fizeram. Mas no acampamento ficaram dois homens; chamava-se um Eldad, e o outro Medad; e repousou sobre eles o espírito, porque estavam entre os inscritos, ainda que não tenham ido à tenda; e profetizavam também. Correu um jovem e o anunciou a Moisés... Então Josué, filho de Num, que servia a Moisés desde a juventude, tomou a palavra e disse: "Moisés, meu senhor, proíbe-os". Moisés, porém, lhe disse: "Tens ciúmes por minha causa? Oxalá que todo o povo de Iahweh profetizasse, que Iahweh pusesse o seu espírito sobre eles!" Depois Moisés se recolheu ao acampamento, ele e os anciãos de Israel" (Nm 11,14-17.24-30).

Numa segunda alternativa, para solucionar o problema alimentar, Iahweh envia as codornizes para saciar o povo, sedento de carne para comer. Deve ter ocorrido algum outro fato mais grave que o relacionado com a alimentação causando assim uma crise de tal gravidade que suscitasse tamanha sedição ou revolta. A gravidade é de tal monta que o povo chega a vacilar na fé em Iahweh e é atingido por um mal que se toma como um castigo advindo. Estava, além da fé comprometida por uma apostasia, com muito mais gula do que fome, demonstrada pelo descontrole e voracidade que o atinge, pelo modo como se alimenta, pela quantidade que se lhe fornece e pelo tempo durante o qual recebe o alimento:

"E dirás ao povo: Santificai-vos para amanhã, e comereis carne; porque chorastes aos ouvidos de Iahweh, dizendo: Quem nos dará carne a comer? pois íamos bem no Egito. Pelo que Iahweh vos dará carne, e comereis. Não comereis um dia, nem dois dias, nem cinco dias, nem dez dias, nem vinte dias; mas um mês inteiro, até vos sair pelas narinas, até que se vos cause náuseas; porque rejeitastes Iahweh que está no meio de vós e chorastes diante dele dizendo: "Por que saímos do Egito?" (...) Soprou, então, um vento da parte de Iahweh e, do lado do mar, trouxe codornizes que deixou cair junto ao acampamento... Então o povo, levantando-se, colheu as codornizes por todo aquele dia e toda aquela noite, e por todo o dia seguinte; (...) Quando a carne ainda estava entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, acendeu-se a ira de Iahweh contra o povo, e feriu Iahweh ao povo com uma praga mui grande. Pelo que se chamou aquele lugar Cibrote-ataava, porque ali foram enterrados os que se entregaram à voracidade. De Cibrote-ataava partiu o povo para Haserot; e acampou em Haserot" (Nm 11,18-20.31-35).

Ao que se deduz, o povo, encabeçado, estimulado e inflamado pela multidão que o acompanhava, foi tentado a abandonar tudo e voltar ao Egito. Revoltara-se e quisera retroceder, mesmo para se submeter à servidão, em face das amarguras do deserto e já cansados de comer o Maná. Ocorreu uma sedição de graves proporções, por gula e cobiça, atraindo ainda os próprios Israelitas, que se esqueceram dos compromissos da Aliança e os desprezaram. Então, "...porque rejeitastes Iahweh que está no meio de vós e chorastes diante dele dizendo: "Por que saímos do Egito?" - praticaram verdadeira apostasia. Iahweh mandou-lhes as codornizes em quantidade: "Iahweh vos dará carne, e comereis; não comereis um dia, nem dois dias, nem cinco dias, nem dez dias, nem vinte dias; mas um mês inteiro, até vos sair pelas narinas, até que se vos cause náuseas" e "...trouxe codornizes que deixou cair em redor do acampamento numa extensão de quase caminho de um dia de um e de outro lado, e cerca de dois côvados da terra". Porém, junto com elas, como castigo de seu desprezo pelos compromissos da Aliança, "feriu Iahweh ao povo com uma praga mui grande". Esse fato poderia ser interpretado como uma opinião forçada do narrador, não fora a grande quantidade de codornizes e a praga que as acompanhara, confirmando-se assim a previsão de Moisés. Deixa de ser uma narrativa eivada de acondicionamento cultural para se tornar um fato bem significativo da "presença de Iahweh habitando entre eles", de maneira pedagógica, como sói acontecer com os "castigos" de Iahweh. Por caminhos impenetráveis para a compreensão humana, Iahweh amadurecia o Povo Israelita no deserto, preparando-o para a sua Missão na História.

Esse acontecimento oferece ocasião para a narrativa de outro episódio que mostra a têmpera de Moisés. É a cena da disputa instaurada pelos seus irmãos Maria e Aarão quanto ao seu exclusivo dom profético, com o qual pretendem se identificar. Em virtude da previsão certa de Moisés quanto às codornizes em quantidade nunca vista, mas suficiente para alimentar a multidão, são atacados de grande ira e se investem contra ele. Apresentam como motivo uma pretensa infidelidade de Moisés por ter contraído casamento com "uma cusita", o que seria um sério impedimento (Gn 24,3s; 28,1s; Jz 14,1-3; Tb 4,12):

"Ora, falaram Maria e Aarão contra Moisés por causa da mulher cuchita que este tomara; porquanto tinha tomado uma mulher cuchita" (Nm 12,1)

Não é assim porém, eis que a mulher de Moisés, aqui qualificada de cuchita ou cusita, era descendente de Madiã (Ex 2,18), filho de Abraão com Cetura (Gn 25,1-2). Sendo da mesma origem, não ocorria o motivo para o pretenso impedimento. Tudo foi ocasionado mais por ciúme ou despeito ou inveja, por causa de sua estreita ligação com Iahweh, tão bem comprovada e tal como se nota das próprias palavras que pronunciam e da resposta que tiveram:

"E disseram: Porventura falou Iahweh somente por Moisés? Não falou também por nós? E Iahweh os ouviu (...) E logo Iahweh disse a Moisés, a Aarão e a Maria: Saí vós três à tenda da reunião. E saíram eles três. Então Iahweh desceu em uma coluna de nuvem, e se pôs à porta da tenda; depois chamou a Aarão e a Maria, e os dois acudiram. Então disse: Ouvi agora as minhas palavras: se entre vós houver profeta, eu, Iahweh, a ele me farei conhecer em visão, em sonhos falarei com ele. Mas não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa; boca a boca falo com ele, claramente e não em enigmas; pois ele contempla a forma de Iahweh. Por que, pois, não temestes falar contra o meu servo, contra Moisés?" (Nm 12,2.4-8).

Assim, pela ordem de intenções do narrador, descreve-se o caráter, o temperamento e os dons de Moisés, apresentando-se os vários episódios em que mais se manifestaram. Aqui se detém em mostrar a sua intimidade com Iahweh e o privilégio de que gozava de Lhe "falar face a face". Foi assim apontado como portador da "oração contemplativa", diferentemente dos demais "profetas", que recebiam por sonhos ou visões e os transmitiam, como reconhece a Igreja:

"'O Senhor falava com Moisés frente a frente, como quem fala com um amigo" (Ex 33,11). A oração de Moisés é o tipo da oração contemplativa, graças à qual o servo de Deus se mantém fiel à sua missão. Moisés "conversa" muitas vezes e demoradamente com Iahweh, subindo à montanha para O ouvir e Lhe dirigir súplicas, descendo depois até junto do povo para lhe repetir as palavras do seu Deus e o guiar. "O mais fiel em toda a minha casa, falo-lhe boca a boca, claramente" (Nm 12,7-8), porque "Moisés era homem muito humilde, o mais humilde de todos os homens sobre a face da terra" (Nm 12,3)" (Catecismo da Igreja Católica n.º 2576; v. tb. ns.º 2575 e 2577, negritos propositais).

"O mais fiel em toda a minha casa, falo-lhe boca a boca, claramente" - Moisés, inflexível e coerente na sua fé, recebia o que deveria transmitir de maneira direta, certa, determinada e muito íntima. Essa intimidade era a ponto de antecipar acontecimentos as mais das vezes comuns, mas de forma incomum, tal como esse das codornizes. É um fenômeno que sói ocorrer na região, se bem que imprevisivelmente e nunca em igual volume ao de então nem com as conseqüências advindas da apostasia (Nm 11,18-20.22-23.31-33). Então, "...o que colheu menos, colheu dez ômeres..." (Nm 11,32) = cerca de 3640 litros, uma quantidade bem discutível mesmo para uma família inteira, e ainda "...deixou cair junto ao acampamento quase a extensão do caminho de um dia, de um e de outro lado, em volta do arraial, com a altura de cerca de dois côvados da terra..." (Nm 11,31) - parecendo medidas muito exageradas e bem maiores do que se conhece. Não é de bom alvitre aqui discutir a possibilidade ou não de ter isso acontecido. Melhor é acatar a intenção do narrador em assim destacar a quantidade, enorme e suficiente, enviada por Iahweh em resposta à sedição, conforme ansiava Moisés. Isso excita a ira dos irmãos e os conduz também à revolta. Então, voltando-se ao remate da disputa fraterna, é de se observar que somente Maria foi alvo do castigo de Iahweh, por não ter respeitado o Seu Servo: "Por que não temestes falar contra o meu servo, contra Moisés?":

"Acendeu-se a ira de Iahweh contra eles, ele se retirou e também a nuvem se retirou de sobre a tenda. E Maria se tornara leprosa, branca como a neve, voltou-se Aarão para Maria e viu que estava leprosa. Pelo que Aarão disse a Moisés: Ah, meu senhor! Rogo-te, não ponhas sobre nós este pecado, porque procedemos loucamente e pecamos. Não seja ela como um aborto que, ao sair do seio de sua mãe, já tenha a sua carne meio consumida. Clamou Moisés a Iahweh, dizendo: "Ó Deus, rogo-te que a cures". Respondeu Iahweh a Moisés: "Se seu pai lhe tivesse cuspido na cara não seria envergonhada por sete dias? Esteja por sete dias fora do arraial, e depois seja admitida de novo". Assim Maria esteve fora do arraial por sete dias; e o povo não partiu, enquanto Maria não retornou" (Nm 12,9-15).

"Acendeu-se a ira de Iahweh contra eles, ele se retirou e também a nuvem se retirou de sobre a tenda" - tão logo Iahweh se retira, as conseqüências da sua ausência se manifestam. Onde Iahweh "permanece" o mal não se "manifesta". Pelo fato de só Maria ter sido punida, é de se julgar que Aarão foi perdoado, seja por seu arrependimento (Nm 12,11), unido ao fato de sua Unção Sacerdotal, seja porque o mal a ela infligido também vai atingi-lo, pela dor mútua que provoca. Além disso não se pode deixar de reconhecer a intercessão de Moisés junto de Iahweh, ao mesmo tempo em que se realça o seu temperamento. É tal o seu equilíbrio na fé que, apesar de injuriado pela irmã, acata o pedido do irmão, também ofensor, e intercede por ela. Quando se goza da intimidade de Deus, muito se ama o outro. Então Iahweh o atende, curando-a da lepra, doença incurável que já lhe ameaçava consumir a carne (Nm 12,12). Porém, fica sujeita ao regime de purificação, ficando sete dias fora do acampamento (Lv 13,5; 14,8), caracterizando-se assim o retorno e a "presença de Iahweh habitando entre eles", em atendimento a Moisés.

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