NÚMEROS
Primeira Parte
Os últimos dias do Sinai

5.8. - A PÁSCOA NO SINAI E A PARTIDA PARA A CONQUISTA

Tal como antes da saída do Egito celebra-se então a Páscoa, no momento antes da partida para a Conquista da Terra Prometida:

"Iahweh falou a Moisés no deserto de Sinai, no primeiro mês do segundo ano depois que saíram da terra do Egito, dizendo: 'Celebrem os filhos de Israel a páscoa a seu tempo determinado. A celebrareis no dia catorze deste mês, no tempo determinado, ao crepúsculo, segundo todos os seus estatutos, e segundo todos as seus ritos a celebrareis'. Disse, pois, Moisés aos filhos de Israel que celebrassem a páscoa. Então celebraram a páscoa no dia catorze do primeiro mês, à tardinha, no deserto de Sinai; conforme tudo o que Iahweh ordenara a Moisés, assim fizeram os filhos de Israel" (Nm 9,1-5).

"Falou Iahweh a Moisés no deserto de Sinai, na tenda da reunião, no primeiro dia do segundo mês, no segundo ano depois da saída dos filhos de Israel da terra do Egito:..." (Nm 1,1).

Assim, da mesma forma que antes da saída do Egito e após a Páscoa (Ex 12) se dá a consagração dos primogênitos (Ex 13), também, aqui e agora, com a celebração da Páscoa (Nm 9,1-3 - no primeiro mês do segundo ano) se dá a consagração dos levitas (Nm 8,5-26 - em lugar dos primogênitos, após o recenseamento no segundo mês), repetindo-se o ritual da instituição. No curso da narrativa surgem alguns casos fortuitos que exigiram de Moisés a regulamentação de maneira geral e previsível para aplicação atual e futura, demandando dele a habitual "consulta a Iahweh". É o caso da celebração dela pelo impuro por contato com um morto, ou por causa do contato profano de longa viagem, ou ainda pelos forasteiros:

"Ora, havia alguns que se achavam imundos por causa de um morto... (...) ...e aqueles homens disseram-lhes: 'Estamos imundos por causa de um morto; por que seríamos privados de trazer a oferenda de Iahweh a seu tempo no meio dos filhos de Israel?' Respondeu-lhes Moisés: 'Esperai, para que eu saiba o que Iahweh ordenará acerca de vós'. Então disse Iahweh a Moisés: 'Fala aos filhos de Israel, dizendo: Se alguém de vós, ou dos vossos descendentes estiver imundo por causa de um morto, ou achar-se em longa viagem, celebrará a páscoa a Iahweh. No segundo mês, no dia: catorze... (...) ...conforme com todo o estatuto da páscoa. Mas o homem que, estando limpo e não se achando em viagem, deixar de celebrar a páscoa, será extirpado do seu povo; porquanto não ofereceu a oferenda de Iahweh a seu tempo determinado, levará a pena do seu pecado. Também se um estrangeiro (...) a celebrará segundo o estatuto e costumes da páscoa. Haverá um só estatuto, quer para o estrangeiro, quer para o natural da terra'" (Nm 9,6-14).

O que se percebe é a importância da Páscoa na vida do Povo de Israel a ponto de ser condição indispensável a sua celebração para a permanência em seu meio social e comunitário. A responsabilidade pelas conseqüências do descumprimento dela é de cada violador que em si mesmo "carrega a pena do seu pecado", não podendo nada reivindicar em termos da Aliança contraída com Abraão. Principalmente tendo até mesmo sido criada uma segunda oportunidade para cumpri-la ocorrendo qualquer impedimento legal.

Terminada a comemoração da Páscoa impunha-se a partida para a Conquista da Terra Prometida, tal como se preparara. Antes, era ainda necessário completar a estrutura e organização com os sinais de comando a que se submeteriam durante o trajeto. Principalmente porque essa conquista não era obra estritamente humana, mas partia unicamente de Iahweh que a comandaria, qual seja, desde o Éden Deus é o único autor da Salvação do Homem, ali se iniciando em figura. Para se caracterizar isso, repete-se aqui o narrado quando do término da ereção do Tabernáculo, ou do Santuário:

Ex 40,33b-38

Nm 9,15-23

"...Assim concluiu Moisés a obra. Então

a nuvem cobriu a tenda da reunião, e a glória de Iahweh encheu o tabernáculo de maneira que Moisés não podia entrar na tenda da reunião, porque

a nuvem repousava sobre ela, e

a glória de Iahweh

enchia o tabernáculo.

"No dia em que foi levantado o tabernáculo,

a nuvem cobriu o tabernáculo, isto é, a própria tenda do testemunho; e desde a tarde até pela manhã havia sobre

o tabernáculo uma aparência de fogo. Assim acontecia de contínuo: a nuvem o cobria,

e de noite

havia aparência de fogo.

Quando, pois, a nuvem se levantava de sobre o tabernáculo, prosseguiam os filhos de Israel, em todas as suas jornadas;

 

 

se a nuvem, porém, não se levantava, não caminhavam até que se levantasse.

Mas sempre que a nuvem se alçava de sobre a tenda, os filhos de Israel partiam; e no lugar em que a nuvem parava, ali os filhos de Israel se acampavam.

À ordem de Iahweh os filhos de Israel partiam, e

à ordem de Iahweh se acampavam;

por todos os dias em que a nuvem parava sobre o tabernáculo eles ficavam acampados. (...)

A nuvem de Iahweh estava de dia sobre o tabernáculo, e o fogo estava de noite sobre ele, perante os olhos de toda a casa de Israel, em todas as etapas."

...À ordem de Iahweh se acampavam, e à ordem de Iahweh partiam;

cumpriam o mandado de Iahweh, que ele lhes dera por intermédio de Moisés."

"À ordem de Iahweh se acampavam, e à ordem de Iahweh partiam; cumpriam o mandado de Iahweh, que ele lhes dera por intermédio de Moisés" - a repetição com mais detalhes neste ponto da narrativa do que já havia sido narrado em Êxodo tem como objetivo caracterizar o fato de que Iahweh é quem comandava a Tropa Israelita pela movimentação da nuvem ou do fogo. O caminho a ser seguido será determinado por Iahweh diretamente a Moisés. Além dessa nuvem e do fogo também se introduz o uso das trombetas destinadas não só ao comando, mas a ser um memorial para Iahweh tanto na batalha como no culto:

"Disse mais Iahweh a Moisés: Faze para ti duas trombetas de prata; de metal batido as farás, e te servirão para convocares a assembléia e para dar o sinal da partida dos acampamentos. Quando se tocarem ambas as trombetas, toda a assembléia se reunirá a ti à porta da tenda da reunião. Mas quando se tocar uma , a ti se reunirão os príncipes, os chefes dos milhares de Israel. Quando se tocar retinindo, partirão os acampamentos da banda do oriente. Mas quando se tocar retinindo, pela segunda vez, partirão os acampamentos da banda do sul. Tocar-se-á retinindo para as partidas dos acampamentos, mas sem retinir quando se houver de reunir a assembléia. Os filhos de Aarão, os sacerdotes, tocarão as trombetas; e isto será para vós estatuto perpétuo nas vossas gerações. Ora, quando na vossa terra sairdes à guerra contra o inimigo que vos estiver oprimindo, fareis retinir as trombetas; e perante Iahweh vosso Deus sereis lembrados e sereis salvos dos vossos inimigos. Semelhantemente, no dia da vossa alegria, nas vossas festas fixas, e nos princípios dos vossos meses, tocareis as trombetas sobre os vossos holocaustos, e sobre os sacrifícios de vossas ofertas pacíficas; e eles vos serão por memorial perante vosso Deus. Eu sou Iahweh vosso Deus" (Nm 10,1-10).

Pelo tipo do toque sabia-se em todo o acampamento a ordem a seguir e a causa, pelo que se preparava e era mantida a disciplina. Separou-se o toque para a luta, para levantar acampamento e para o culto, conforme determinado por Iahweh, que se "lembrava" e a todos amparava e dirigia. Para o Israelita, o termo memorial, lembrança ou memória, quando é a "recordação" de Deus, sempre se traduz em uma atitude dinâmica, as mais das vezes, libertadora e vinculada inseparavelmente à Aliança:

"..., e os filhos de Israel, gemendo sob o peso da servidão, clamaram; e... o seu clamor subiu até Deus; Deus 'lembrou'-se de sua Aliança..." (Ex 2,23-25). "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito... Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios..." (Ex 3,7-8). "... Iahweh... Este é o meu nome para sempre, e esta será a minha lembrança (lit.: "memória") de geração em geração" (Ex 3,15).

Essa significação, que vincula a ação de Iahweh-Deus em favor de seu Povo, é conhecida e dela participam até mesmo na sua época os primeiros cristãos:

"As tuas orações e as tuas esmolas subiram em memorial diante de Deus, e ele se lembrou de ti." (At 10,4). / "Cornélio, tua oração foi ouvida e tuas esmolas foram rememoradas diante de Deus" (At 10,31).

Essa vinculação de Deus pela memória a um compromisso que tenha contraído, - a Aliança, por exemplo, - é ainda repetida em vários e outros trechos da Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento:

"Eis o sinal da Aliança que instituo entre mim e vós e todos os seres vivos que estão convosco, para todas as gerações futuras: porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra. (...) Quando o arco estiver na nuvem, eu o verei e me lembrarei da aliança eterna que há entre Deus e os seres vivos..." (Gn 9,12-17).

"Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, ..." (...) "...; para fazer misericórdia com nossos pais, lembrado de sua aliança sagrada, do juramento que fez ao nosso pai Abraão..." (Lc 1,54.72s).

"E ouvi o gemido dos filhos de Israel, aos quais os egípcios escravizavam, e me lembrei da minha aliança. Portando, dirás aos filhos de Israel: Eu sou Iahweh, e vos farei sair debaixo das cargas do Egito, vos libertarei da sua servidão... Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus" (Ex 6,5-7).

Iahweh "se lembrou" da Aliança e libertou os Filhos de Israel. Não é outro sentido que Jesus quis dar quando usou a mesma terminologia na Instituição da Eucaristia:

"Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é a nova Aliança em meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha" (1Cor 11,23-26).

Pode-se então compreender que o memorial da Eucaristia tem essas conotações, a começar por aquela que reflete a libertação do Egito e, agora, a da escravidão do pecado, como um ato de extremo amor do Filho Unigênito do Pai. Antes, com o sangue "derramado" nos portais dos israelitas e, agora, com o "sangue derramado em favor de muitos", "cumprindo" (Mt 5,17) assim a Nova Aliança. Esse memorial é a repetição da Morte de Cristo na Cruz, pois "a proclama até que ele venha" (não se pode proclamar o que não acontece) e "aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor", e ainda "aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação" (1Cor 11,26-28). Não se trata, portanto, de uma simples lembrança do gesto de Jesus entregando-se à morte, "e morte de Cruz" (Flp 1,8), mas da presença real do Corpo e do Sangue de Jesus, separados antecipadamente como na Cruz, pela imolação. Também, "derramado" o sangue, tal como no cerimonial da Páscoa Judaica; agora, porém, no ritual da Páscoa Cristã, no altar da Mesa da Cerimônia Eucarística, tal como na Cruz, "em favor de muitos". Não fora assim seria impossível ser "réu do corpo e do sangue do Senhor", ou "comer e beber a própria condenação".

O "fazei-o em memória de mim" e o "anunciais a morte do Senhor até que Ele venha" formam uma unidade de expressão, consubstanciada no binômio "fazei-o / anunciais". Traduz ela assim a ocorrência de profunda igualdade, anunciada pelo próprio Jesus, com a Sua Morte antes da sua Crucifixão e até mesmo antecipando-A, e ao mesmo tempo instituindo o sacerdócio cristão, para torná-LA "presente" com a cerimônia "até que ele venha". Além do sentido escatológico, tal como aconteceu na instituição da Páscoa Israelita, pelo memorial, a Ceia Eucarística "exala um perfume de suave odor para Deus" (Ex 29,18).

Assim, pode-se até mesmo concluir que o uso do toque das trombetas também torna "presente" o vínculo unitivo de Israel com Iahweh, "pelo memorial" da Aliança e os seus compromissos de fidelidade, formando desde já "...um reino de sacerdotes e uma nação santa" (Ex 19,6) com o objetivo da Conquista da Terra Prometida, cumprindo a Promessa a Abrão:

"Ali Iahweh apareceu a Abrão e disse-lhe: 'Eu darei esta terra a tua descendência'" (Gn 12,7).


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