LEVÍTICO

19. A CONSAGRAÇÃO PARA A CONQUISTA

Descortina-se outra regulamentação, necessária à tomada de consciência religiosa do Israelita para a Conquista da Terra Prometida, verdadeira Guerra Santa desde a saída do Egito:

"Fizeram, pois, os filhos de Israel conforme a palavra de Moisés (...) e despojaram os egípcios. (...) E aconteceu que, (...) naquele mesmo dia, todos os exércitos do Senhor saíram da terra do Egito (...) E naquele mesmo dia Iahweh tirou os filhos de Israel da terra do Egito, segundo os seus exércitos"(Ex 12,35-36.41.51).

Basta uma leitura atenta aos trechos destacados para se perceber a existência de um preparo para uma Conquista armada da Terra de Canaã. Em se tratando de uma conquista religiosa impunha-se uma adesão exclusiva à Aliança, em obediência a Iahweh, o que implica numa consagração plena, que agora se regula.

 

19.1. A Consagração de Pessoas e Bens - Os Votos e as Oferendas

Inicialmente se apresentam os votos, as consagrações de pessoas ou bens e as oferendas voluntárias. Não eram obrigatórios, porém, quando feitos, impunha-se o seu pleno e cabal cumprimento (Dt 23,21-23), ou o seu resgate, qual seja a entrega ao Santuário do valor correspondente, assim avaliado, pois se destinavam à manutenção dos Sacerdotes:

"Disse mais Iahweh a Moisés: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando alguém fizer a Iahweh um voto especial que envolva pessoas, o voto será cumprido segundo a tua avaliação das pessoas. Se for de um homem, desde a idade de vinte até sessenta anos, a tua avaliação será de cinqüenta siclos de prata, segundo o siclo do santuário. Se for mulher, a tua avaliação será de trinta siclos. Se for de cinco anos até vinte, a tua avaliação do homem será de vinte siclos, e da mulher dez siclos. Se for de um mês até cinco anos, a tua avaliação do homem será de cinco siclos de prata, e da mulher três siclos de prata. Se for de sessenta anos para cima, a tua avaliação do homem será de quinze siclos, e da mulher dez siclos. Mas, se for mais pobre do que a tua avaliação, será apresentado perante o sacerdote, que o avaliará conforme as posses daquele que tiver feito o voto" (Lv 27,1-8).

O uso de voto envolvendo pessoas ocorria em Israel, tendo acontecido em várias ocasiões (Jz 11,30-40; 13,3-4; 1Sm 1,11). Destaca-se o de Ana, a mãe de Samuel, que o consagrou desde antes do nascimento, com base em outra forma em que se pode apresentar, consoante as palavras que usou " e pela sua cabeça não passará navalha", outro voto, o do Nazireu (Nm 6):

"Ela, pois, com amargura de coração, orou a Iahweh, e chorou muito, e fez um voto, dizendo: Iahweh dos exércitos! se atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva não te esqueceres, mas lhe deres um filho varão, a Iahweh o darei por todos os dias da sua vida, e pela sua cabeça não passará navalha" (1Sm 1,10-11).

Quanto ao voto de bens pode-se destacar o de Jacó:

"Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo e me guardar neste caminho que vou seguindo, e me der pão para comer e vestes para vestir, de modo que eu volte em paz à casa de meu pai, e se Iahweh for o meu Deus, então esta pedra que tenho posto como coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo" (Gn 28,20-22 / Gn 31,13).

Resgatava-se da mesma forma e se regulamenta o voto de oferenda de animais:

"Se for animal dos que se oferecem em oferta a Iahweh, tudo quanto der dele a Iahweh será santo. Não o mudará, nem o trocará, bom por mau, ou mau por bom; mas se de qualquer maneira trocar animal por animal, tanto um como o outro será santo. Se for algum animal imundo, dos que não se oferecem em oferta a Iahweh, apresentará o animal diante do sacerdote; e o sacerdote o avaliará, seja bom ou seja mau; segundo tu, sacerdote, o avaliares, assim será. Mas, se o homem, com efeito, quiser resgatá-lo, acrescentará a quinta parte sobre a tua avaliação" (Lv 27,9-13)

Em todas as oferendas assim voluntárias, uma espécie de simples promessa, se estabelece o valor e o modo do resgate, da importância que se entrega ao Santuário em substituição ao voto. Quando se referir ao um campo levar-se-á em conta o tempo do Jubileu para a avaliação (Lv 27,16-25). Porém, não pode ser objeto de oferenda ou resgate aquilo que já pertence a Iahweh por preceito, tal como os primogênitos (Ex 13,1-2.12-16 / Ex 34,19-20). Um caso de resgate imposto pelo próprio Iahweh é o proveniente da substituição dos primogênitos pelos levitas no exercício do sacerdócio auxiliar (Nm 3,12.40-51).

 

19.2. Os Interditos ou Anátemas

Também não pode ser vendido ou resgatado o que for objeto de consagração por interdito a Iahweh, de que nada era reservado para o ofertante que dava tudo a Iahweh, irrevogavelmente, de forma pacífica ou na guerra . "...toda coisa consagrada será santíssima a Iahweh" (Lv 27,28) - por essa fórmula se percebe que o princípio dessa operação era religioso, e era santíssimo por ter sido subtraído ao profano, não podendo ser resgatado, tal como não se comiam as oferendas dos holocaustos, contaminadas pelo pecado. Assim, não se resgata o que se denomina aqui de interdito ou anátema, que são tanto os despojos ou as prendas advindas dos inimigos e eles mesmos, conquistados ou destroçados por Israel, contaminados pela idolatria (Dt 20,10-20), como as pessoas ou bens que alguém oferece a Iahweh em caráter solene e irrevogável. É que, entre os compromissos da Aliança, há a "Missão de Israel", várias vezes ratificada (cfr. Ex 34,13; Lv 18,3.24-30; Nm 33,52; Dt 7,5; 12,3.29-31):

"...não adorarás os seus deuses, nem lhes prestarás culto, imitando seus costumes. Ao contrário derrubarás e quebrarás as suas colunas. Servireis a Iahweh o vosso Deus (...) Não farás aliança com eles nem com seus deuses. ..." (Ex 23,23-33 / Nm 33,50-56 / Dt 12,1-3) / "Quando Iahweh teu Deus te houver introduzido na terra a que vais a fim de possuí-la, e tiver lançado fora de diante de ti muitas nações, (...) e quando Iahweh o teu Deus as tiver entregue em tuas mãos, e as ferires, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança alguma, nem terás piedade delas..." (Dt 7,1-2)

Com base nela, tal como se elaborou as leis atinentes ao "puro e impuro", para se evitar principalmente as práticas dos pagãos que os rodeavam (Os 9,3; Ez 4,13; Tb 1,10-12; Dn 1,8-12; Jdt 12,2-4; Lv 18,2-5) é que se institui o interdito ou anátema, principalmente na Guerra contra pagãos:

"Quando te aproximares duma cidade para combatê-la, apregoar-lhe-ás a paz. Se ela te responder em paz, e te abrir as portas, todo o povo que se achar nela será sujeito a trabalhos forçados e te servirá. Se ela, pelo contrário, não fizer paz contigo, mas guerra, então a sitiarás, e logo que Iahweh o teu Deus a entregar nas tuas mãos, passarás ao fio da espada todos os homens que nela houver; porém as mulheres, os pequeninos, os animais e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás por presa; e comerás o despojo dos teus inimigos, que Iahweh o teu Deus te deu. Assim farás a todas as cidades que estiverem mais longe de ti, que não são das cidades destas nações. Mas, das cidades destes povos, que Iahweh o teu Deus te dá em herança, nada que tem fôlego deixarás com vida; antes ferirás com interdito (...) como Iahweh o teu Deus te ordenou; para que não vos ensinem a fazer conforme todas as abominações que eles fazem a seus deuses, e assim pequeis contra Iahweh o vosso Deus." (Dt 20,10-18).

É a essa interdição que se refere também o fecho das instruções para a Conquista, exatamente pela impossibilidade do resgate:

"Todavia, nenhuma coisa consagrada a Iahweh por interdito, seja homem, ou animal, ou campo da sua possessão, será vendida nem será resgatada; toda coisa interdita será santíssima ao Senhor. Nenhuma pessoa que dentre os homens for interdita será resgatada, mas certamente será morta." (Lv 27,28-29)

Jesus vai se insurgir contra os abusos decorrentes dos interditos e das oferendas em seu tempo, que passaram a servir de cobertura ao descumprimento da Lei de Deus nos Mandamentos em favor do ofertante, ocasionando verdadeira inversão de valores:

"Ele, porém, respondendo, disse-lhes: E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? Pois Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e, Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser a seu pai ou a sua mãe: O sustento que poderias receber de mim é interdito ao Senhor; esse de modo algum terá de honrar a seu pai. E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus" (Mt 15,3-6 / Mc 7,10-13).

 

19.3. - Os Primogênitos, as Primícias e o Dízimo

Em virtude de se tratar de oferendas já consagradas a Iahweh, em princípio não podem ser objeto de resgate, mas são regulamentadas de uma maneira especial:

"Contudo o primogênito dum animal, que por ser primícia já pertence a Iahweh, ninguém o consagrará. Quer seja boi ou gado miúdo, já pertence a Iahweh. Mas se o primogênito for dum animal imundo, resgatar-se-á segundo a tua avaliação, e a esta se acrescentará a quinta parte; e se não for resgatado, será vendido segundo a tua avaliação. (...) Também todos os dízimos da terra, quer dos cereais, quer do fruto das árvores, pertencem a Iahweh; são consagrados a Iahweh. Se alguém quiser resgatar uma parte dos seus dízimos, acrescentar-lhe-á a quinta parte. Quanto a todo dízimo do gado e do rebanho, de tudo o que passar debaixo da vara, esse dízimo será consagrado a Iahweh. Não se examinará se é bom ou mau, nem se trocará; mas se, com efeito, se trocar, tanto um como o outro será consagrado; não serão resgatados. São esses os mandamentos que Iahweh ordenou a Moisés, para os filhos de Israel, no monte Sinai." (Lv 27,26-27.30-33)

O trecho é muito claro dispensando-se outros comentários. Apenas o sistema de seleção então usado de passar debaixo da vara as crias novas do gado, delas tirando o dízimo, faz com que não se destine a Iahweh apenas o refugo, o defeituoso. Ao contrário, obriga a uma separação justa dentre a totalidade, mesmo que aparentemente aleatória, porem não sujeita à escolha de cada um. Por último vai ser regulamentado o resgate do dízimo, uma exceção quanto ao consagrado, mas que, em virtude disso mesmo, deverá ser acrescido de um quinto no valor a ser entregue aos sacerdotes a cujo sustento se destinavam todas as oferendas.

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